terça-feira, 8 de novembro de 2011


ESTAR CONSCIENTE DE SER VERDADEIRO TEMPLO DE DEUS
      
Quarta-feira, 09 de Novembro de 2011

Festa da Dedicação da Basílica do Latrão
 
Texto da Leitura: Jo 2,13-22
          
O evangelho diz que Jesus vai ao Templo por ocasião da festa da Páscoa (Jo 2,13). Jesus foi educado a respeitar o Templo (Lc 2,22.41-42.46), subiu a Jerusalém para celebrar a Páscoa (Jo 2,13), pagou seu tributo ao Templo (Mt 17,23-26)etc.. E por ocasião da Páscoa Jesus vai ao Templo. A Páscoa judaica é uma festa que celebra a libertação do povo de Deus do Egito: o fim da escravidão e a origem de Israel como povo de Deus, povo da Aliança. Por isso, é uma festa principal para os judeus. A Páscoa também era uma festa familiar, celebrada na casa de família, na qual a parte principal cabe ao pai (Ex 12,1-11).
          
Mas Jesus vê os comerciantes fazem seus negócios no Templo. Ao ver os negociantes de bois, ovelhas e pombas e os cambistas no Templo Jesus faz um chicote para expulsá-los e diz: “Tirai tudo isto daqui; não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio” (v.16).
          
O que tem por trás do gesto de Jesus?
          
Em primeiro lugar, a Páscoa que era uma festa familiar e festa de libertação se transforma em uma festa da maior exploração. Os peregrinos que vêm de longe não podem trazer consigo os animais para serem sacrificados no Templo. Eles compram, por isso, os animais no próprio Templo. E os donos dos animais são os latifundiários pertencentes à elite religiosa. A Páscoa para eles é o momento de lucro, pois eles aumentam o preço dos animais exageradamente. E os peregrinos não têm outra opção a não ser comprar esses animais apesar do preço alto. A Páscoa não é mais um momento de celebrar e de reviver a libertação, mas se torna uma festa de exploração. As elites religiosas exploram o povo por meio do culto. O “deus” do Templo, para estas elites religiosas, é o dinheiro. A religião se transforma num instrumento que acoberta a injustiça e exploração. Por isso já não é mais “a casa de meu Pai”, e sim um mercado. Eles se esquecem que a relação com Deus como Pai não se estabelece por meio de dinheiro.
       
Em segundo lugar, quem pode comprar os animais maiores (como boi, ovelhas) são os ricos. Surge aqui outra mentalidade. O sacrifício se torna como que uma moeda pela qual compra-se de Deus a salvação. A salvação não mais depende de dois lados simultaneamente (de Deus que oferece e do homem que corresponde), mas somente do homem que a compra. Isto quer dizer que quem não for capaz de “comprar” a salvação, ficará fora dela. E os pobres e miseráveis?
       
A salvação não se compra nem com dinheiro, nem com promessas, nem com devoções, pois Deus não é um comerciante, mas é um Pai-Mãe. Pai ou mãe faz tudo pelos filhos não pelo merecimento, mas porque quer o bem deles. O que se pede de cada crente é a convivência fraterna como conseqüência da vivência da filiação divina.
       
No quarto Evangelho, o que nos chama atenção é o fato de Jesus se dirigir somente aos vendedores de pombas. Para eles é que Jesus diz: “Tirai tudo isto daqui; não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio” (v.16). Porque a pomba era o animal sacrificado nos holocaustos (Lv 1,14-17) e nos sacrifícios (Lv 12,8;15,14.29) oferecidos especialmente pelos pobres, por meio dos sacerdotes, para reconciliar-se com Deus e para purificar-se (Lv 5,7;14,22.30-31; cf. Lc 2,44: os pais de Jesus eram pobres). Os vendedores de pombas são os que, por dinheiro, oferecem aos pobres a reconciliação com Deus, e representam os sacerdotes do Templo que fazem comércio com a graça de Deus. Em outras palavras, a hierarquia sacerdotal explora especificamente os pobres, oferecendo-lhes por dinheiro para ganhar favores ou benefícios de Deus. Eles apresentam Deus como um comerciante, pois convertem a casa de Deus num mercado.
          
O gesto de Jesus de expulsar os comerciantes do Templo suscita duas reações. Os discípulos reagem pensando que Jesus seja um grande reformador da instituição. Somente após a ressurreição eles entenderão que Jesus não é um reformador do Templo, mas aquele que o substitui (v.22).
          
E os que sentem o seu lucro ameaçado, os dirigente, pedem de Jesus uma explicação da origem de sua autoridade: “Que sinal nos mostras para agires assim?” (v.18). O homem gosta de exibir poder. Deus não é assim. Se Jesus faz milagres, especialmente para os simples e pobres, é para mostrar que Deus está sempre ao lado deles, e não para exibir poder. O poder de Deus consiste em amar o ser humano sem medida (Jo 3,16).
          
Diante da estrutura civil e religiosa dos judeus centrada no Estado do Templo, Jesus anuncia o fim dos templos: “Destruí este templo, e em três dias eu o levantarei” (v.19; cf. Jo 4,20-21) para começar o novo culto “ao Pai em espírito e verdade” (Jo 4,23-24). Jesus mostra que a verdadeira habitação de Deus entre os seres humanos é Ele mesmo. Ele deve ser adorado “em espírito e verdade” (Jo 4,23). A pessoa de Jesus substitui o Templo, pois nele o Pai está presente (Cl 1,19).

E as pedras vivas deste edifício espiritual são os que pertencem ao novo povo de Deus que também são templos de Deus (cf. 1Cor 3,16-17). Deus habita no próprio ser humano, e não em edifícios (2Cor 6,16). Cada cristão é ele próprio templo de Deus enquanto membro do Corpo de Cristo (1Cor 3,16). Assim quem desrespeita o ser humano está desrespeitando o próprio Deus e toda a pessoa humana, chamada a ser templo de Deus (1Cor 3,17). O homem vale aquilo que vale para Deus. Quem avalia o homem são o coração e os olhos de Deus, Autor da humanidade. A vida de Deus é que sustenta a vida do homem. Nenhum outro vivente possui o hálito divino nele soprado no início da criação (cf. Gn 2,7; cf. Jo 20,22). Por este hálito divino a vida do homem é divina e por isso, não pode ser sacrificada, maltratada, vendida ou comprada. Conseqüentemente, os direitos humanos, a partir deste ângulo, se transformam em direitos divinos. Escravizar o homem e maltratá-lo significa atingir a Deus em seu ponto mais sensível.
          
Jesus não é indiferente frente ao culto do templo. É necessário construir templos ou igrejas ou capelas para neles podemos celebrar o Senhor e a vida que vivemos. Mas a nossa oferenda cultual terá sua validade, se tudo isto for uma expressão do serviço fraternal, se não há separação entre o culto e a vida, se não maltratar o ser humano cujo autor é o próprio Deus. O culto não vale pela observância de preceitos nem pela oferta de objetos. O culto verdadeiro consiste na mais profunda união do homem ao divino, na mais pura e incondicional entrega à vontade de Deus e no respeito pelo ser humano. O culto do cristão é um culto de Espírito (Jo 4,23). O templo não santifica o nosso culto, e sim o nosso culto santifica o lugar e a comunidade. O homem deve limpar sempre a morada de Deus que é ele mesmo de todo tipo de “sujeira” através de uma conversão contínua todos os dias de sua vida.
     
P. Vitus Gustama,svd

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