sábado, 3 de dezembro de 2011

JESUS, FILHO DE DEUS, O MESSIAS, É O EVANGELHO DE DEUS QUE NOS CHAMA À MUDANÇA
                              
REFLEXÃO PARA II DOMINGO DO ADVENTO DO ANO LITÚRGICO B
Texto de Leitura: Mc 1,1-8
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1 Início do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus. 2 Está escrito no Livro do profeta Isaías: “Eis que envio meu mensageiro à tua frente, para preparar o teu caminho. 3 Esta é a voz daquele que grita no deserto: ‘Preparai o caminho do Senhor, endireitai suas estradas!’” 4 Foi assim que João Batista apareceu no deserto, pregando um batismo de conversão para o perdão dos pecados. 5 Toda a região da Judeia e todos os moradores de Jerusalém iam ao seu encontro. Confessavam seus pecados e João os batizava no rio Jordão. 6 João se vestia com uma pele de camelo e comia gafanhotos e mel do campo. 7 E pregava, dizendo: “Depois de mim virá alguém mais forte do que eu. Eu nem sou digno de me abaixar para desamarrar suas sandálias. 8Eu vos batizei com água, mas ele vos batizará com o Espírito Santo”.
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Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus...”

1. Princípio do Evangelho e seu significado
     
O evangelista Marcos começa seu livro com esta frase: “Princípio do Evangelho de Jesus Cristo (Messias), Filho de Deus”.

    
Não se trata aqui de início cronológico. O termoarche” (princípio) em grego não somente significa início, mas também causa, origem, explicação. Marcos não escolhe por acaso o termoPrincípio”. O livro de Gênesis, o primeiro livro da Bíblia, começa com a mesma expressão quando se relata a criação do mundo por Deus (Gn 1,1; cf. Jo 1,1). Ao retomar essa expressão, Marcos quer dizer aos leitores e a todos nós que sua narrativa representa a recriação fundamental da história da salvação com a vinda do Messias, Filho de Deus, a Boa Nova. O mundo que Deus criou entrou no caos, e precisa ser recriado, resgatado do caos. Jesus veio para recriar o mundo, para colocar tudo em ordem. “A paz é a tranqüilidade da ordem”, dizia Santo Agostinho. A proclamação do Evangelho por Jesus dá origem a um mundo novo, é uma nova criação. O Evangelho, origem de um mundo novo é o acontecimento que principia com Jesus e tem nele seu fundamento. Entrar no mundo de Jesus significa entrar na recriação, na renovação. Ficar fora de Jesus significa ficar no caos, na confusão, na inquietação infinita. Nosso coração continua inquieto enquanto não repousar em Deus.

 
tanto tempo os homens esperavam um mundo novo ou uma nova criação. Eis, então, a nova realidade apareceu na pessoa de Jesus Cristo. Acreditando nele e vivendo sua vida e sua mensagem, qualquer um se renovará e se tornará nova criatura. Se ele se tornar uma nova criatura, conseqüentemente ele renovará também seu ambiente e as pessoas ao seu redor. Ele saberá também discernir a vontade de Deus na sua vida, pois ele está com o Senhor. Tudo isto é uma Boa-Nova, pois Deus quer entrar em comunhão com as pessoas a fim de salvá-las. Em Jesus Cristo, Deus veio para dar-nos uma notícia tão sublime que até é difícil de acreditar: o amor de Deus é tão grande (cf. Jo 3,16) e tão forte que não permitirá que ninguém se perca (cf. Jo 6,39).


2. Evangelho e seu significado

Princípio do Evangelho de Jesus Cristo (Messias), Filho de Deus”.


O mundo helenístico considerava comoalegre notícia” (evangelho) o nascimento de um príncipe, de um herdeiro do trono.


O evangelista Marcos pensa de maneira diferente. Para ele a “Boa Notícia” (evangelho) que nos enche de alegria e de esperança é Jesus, sua pessoa, sua história, sua pregação, sua obra. E este Jesus é o Messias, é o Filho de Deus, é um Deus que salva, é aquele que estabelece o Reino definitivo de Deus no mundo.


Marcos nos põe, então, logo no início de sua narração, duas profissões de , em torno das quais se desenvolve toda sua meditação sucessiva: Jesus é o Messias (será explicado seu sentido em Mc 8,29), e Jesus é o Filho de Deus (seu significado profundo se encontra em Mc 15,39). Ao ler Mc 8,29 (e seu contexto) seremos convidados a passar do Messias para o Filho do Homem, no sentido de que Jesus é o verdadeiro Messias, mas não na linha política e nacionalista, e sim na linha da cruz. E ao ler Mc 15,39 compreendemos que Jesus é verdadeiramente um Filho de Deus para nós, um Deus que ama o homem e que se revela no amor.


O título de Filho de Deus tem claramente o sentido teológico muito denso que a comunidade pós-pascal de Marcos atribui a Jesus. Marcos usa este título, sobretudo, em três textos importantes: no Batismo (Mc 1,11), na transfiguração (Mc 9,7) e na profissão de do centurião ao da cruz (Mc 15,39). O Batismo coloca a vocação messiânica de Jesus na linha de Servo de Deus de quem fala o profeta Isaías: um projeto de salvação que passa através do serviço e da morte pelos demais. A transfiguração, que se coloca depois do anúncio da paixão, tem a finalidade de revelar antecipadamente aos discípulos que a cruz terminará na ressurreição. E finalmente a profissão de do centurião.  É precisamente diante de Jesus moribundo se converte um pagão: o centurião reconhece em Jesus o Filho de Deus, não porque algum prodígio e sim porque o morrer (pelos demais). Com isso, Marcos não nos apresenta Jesus apenas como Filho de Deus e sim Jesus é o Filho de Deus para nós, pois nele encontramos nossa libertação.


Para Marcos, portanto, a Boa Notícia/alegre Notícia consiste precisamente na continuidade entre Jesus de Nazaré e o Senhor ressuscitado; consiste no fato de que o Filho de Deus e sua salvação se manifestaram em Jesus e no que ocorreu com ele: em sua solidariedade com os homens, com os mais humildes, em seu amor obstinado, derrotado aparentemente, mas vitorioso. É importante manter estes dois aspectos de Jesus: homem e Deus, crucificado e ressuscitado, Jesus de Nazaré e Senhor. Nesta união se encontra a Boa Notícia, a Alegre Notícia, o Evangelho.


Todos os seguidores de Jesus são chamados e enviados não somente para falar de Deus e sim de Deus que se revelou em Jesus de Nazaré, no amor, na solidariedade, no gesto de um irmão que é afetado pelos nossos males que chegou a dar sua vida para nos resgatar. Que ao ver nossos gestos de fraternidade para com todos, os outros possam confessar, como o centurião pagão, que Jesus “verdadeiramente era Filho de Deusque deu sua vida para resgatar a humanidade.


Estes dois títulos, Messias e Filho de Deus, dividem, de modo geral, todo o conjunto do evangelho de Mc em duas grandes partes: uma orientada ao messianismo (1,1-8,30) que culmina na profissão da de Pedro (8,29) e outra à filiação de Jesus (8,31-16,8) que culmina na profissão da do oficial romano (15,39). O conteúdo confirma esta divisão, pois a primeira parte está dominada pelos temas sobre Messias e Reino de Deus e a segunda pelo tema da paixão e morte. Igualmente se confirma e se especifica à luz de outros critérios literários e topográficos: a partir do ponto de vista geográfico, a primeira parte, mais concretamente a partir de 1,14-8,30 está centrada na Galiléia, e a segunda está orientada para Jerusalém. Quanto aos vv. 1,1-13 aparecem encabeçados pela palavra “arche”, princípio e os três relatos podem ser considerados como prólogo ou tríplice introdução.


3. João Batista e sua mensagem para nós

1). Um estilo de vida que corrige nossas escalas de valores


Depois do versículo inicial, citado anteriormente, o trecho nos apresenta a missão de João Batista: “Eis que envio meu mensageiro à tua frente para preparar o teu caminho... (vv.2-3)”. São palavras de Deus através da boca dos profetas Isaías (Is 40,1-5) e Malaquias (Ml 3,1).


Em João Batista encontramos as qualidades de quem está preparado para acolher os novos tempos e a nova vida: desprendimento que se manifesta na sobriedade do comer e do vestir (v.6) e a humildade diante da pessoa e do mistério de Jesus que se manifesta na sua afirmação de ser indigno de desamarrar as sandálias de Jesus, o Messias, Filho de Deus (v.7).


A sobriedade, o desprendimento, a austeridade e a simplicidade no modo de viver de João Batista é um convite bem claro sobre a necessidade da renúncia aos valores que não nos garantem a salvação como os valores que valem para manter a arrogância humana. É o testemunho vivo de um homem que está consciente das prioridades e nãoimportância aos aspectos secundários da vida. João Batista nos convida a apostarmos nos valores importantes, decisivos, eternos, capazes de nos dar vida e felicidade.

     
Segundo Buda, a causa da dor é o desejo, a sede. O homem sofre porque deseja. O homem moderno sofre muito porque deseja muito. Ele deseja todos os objetos que lhe se oferecem. Ele deseja as pessoas como se fossem objetos, e deseja os objetos como se fossem pessoas. Mas não se satisfaz, e por isso, sofre. Nada pode ser seu tudo, pois o coração do homem não se enche com objetos. O homem não foi feito para as coisas e sim as coisas para o homem. Há um momento em que as coisas lhe seduzem e lhe ofuscam, mas somente um momento. Quando têm nas mãos as coisas, dá-se conta de que estão vazias.


Somente as relações interpessoais, sobretudo, quando são movidas do amor e para o amor é que são enormemente gratificantes e gozosas. Se amarmos, o desejo nos libertará. Se não amarmos, o desejo nos escravizará. Se amarmos, o desejo se converterá em felicidade. Mas não amarmos, o desejo se tornará fonte de tristeza e de desespero. Se amarmos, o desejo nos prepara para o Natal, o novo nascimento. Mas se não amarmos, o desejo termina no aborto. O desejo do amor gera amor; o desejo egoísta gera vazio.  A pessoa não é coisa que se possui. A pessoa tem sempre algo de mistério e sempre se esconde que nos obriga a mergulharmos na sua profundidade para entender e compreender o significado deste mistério. O advento do Senhor serve para que possamos olhar até metas mais altas, rompendo a rotina que mata a criatividade e novo nascimento.


2). Experiência do deserto que nos leva à vida

A pregação de João é feita “no deserto”. Na linguagem bíblica o deserto é símbolo de crise: ali nãocomida, água, moradia, trabalho etc.. Mas também é símbolo do encontro com Deus: “... eis que vou, eu mesmo, seduzi-la, conduzi-la ao deserto e falar-lhe ao coração” (Os 2,16), porque é em situações de deserto quando o ser humano sente sua fragilidade, sua necessidade de Deus e acorrer a Ele. O “deserto” é, no contexto da catequese judaica, o lugar onde o Povo de Deus realizou uma caminhada de purificação e de conversão. Foi no deserto que os israelitas, libertados do Egito, passaram de uma mentalidade de escravos a uma mentalidade de homens livres, de uma mentalidade de egoísmo a uma mentalidade de partilha, de uma atitude descomprometida a uma Aliança com Deus, da desconfiança em relação à proposta libertadora que Moisés lhes apresentou à confiança total num Deus que cumpre as suas promessas e que é fonte de vida e de liberdade para o seu Povo.


A pregação de João lembrava aos israelitas a necessidade de voltar ao “deserto” e de percorrer um caminho semelhante àquele que os antepassados tinham percorrido. No deserto todos buscam a vida. No Novo Testamento, quando se utiliza a palavradesertocomo adjetivo, em referência às pessoas, isto quer dizer “abandonado”, desolado, privado dos amigos e familiares. É aquele que se encontra alienado da vida, dos amigos, dos que o faz viver. Não é de estranhar que João Batista no deserto, no lugar que por identidade menos água tem. E água é o símbolo da vida. A Boa notícia de Jesus Cristo é precisamente que a vida pode florescer inclusive nos lugares e situações mais contrários à mesma.


Todos nós geralmente passamos por momentos de deserto: aridez, crises que nos fazem sofrer, dúvidas, desengano etc.. No meio deste deserto precisamos ouvir o grito de João Batista que nos chama a olharmos para Jesus que nos salva, que é nossa Boa Notícia. O Deus de Jesus é aquele que, quando olha para o pecado, olha também a dor e a tristeza que nos causa. Por esta razão Deus decide encarnar-se em Jesus para nos fortalecer novamente, para nos dar um novo olhar a fim de nós podermos enxergar novamente o horizonte de Deus cheio de vida.


Converter-se, neste sentido, significa sair em busca da vida. É converter-se para Deus, fonte de vida. No fundo a vida de todo ser humano transcorre na aridez do deserto, da vida que luta e a água generativa de Deus.


3). A esperança e a vida que nos chamam e fazem caminhar
  
Como mensageiro de Deus toda a vida de João Batista foi um grito de alerta contra nossa inconsciência e nossa irresponsabilidade e nossa mentalidade conservadora. Ele nos chama à mudança. Mudar é sair de uma posição, de um hábito, e substituí-lo por um outro melhor para nosso crescimento como seres humanos e nossa salvação e a salvação dos outros ao nosso redor.


A certeza que temos é que nãoquem possa parar a vida. Ela se vai. E nós vamos com ela independentemente de nosso querer ou de não querer. Mas por outro lado, temos um comportamento contrário ou um modo de viver oposto ao dinamismo da própria vida ou da própria . Ficamos agarrados a qualquer coisa, e suspiramos por um posto ou uma posição na vida que, supostamente, nos garante estabilidade e nos proporcione segurança e prestigio. Pelo menos a sensação, pois será que estamos seguros? Será que estamos estabelecidos enquanto a vida nos chama a caminhar? Este ambiente conservador invade todos os setores da vida e paralisa o desenvolvimento e o crescimento.


Queremos um posto na vida, mas cada vezmenos coisas fixas. Queremos apostar pelo continuísmo, mas a nova realidade nos faz rever nossas posições ou paradigmas, pois de fato, o evidente é a mudança.


A é uma aventura diante de Deus que vem ao nosso encontro. A aventura na é a resposta cristã ao adventovinda do Senhor. Diante daquilo que está por ver e por vir, no horizonte da esperança, não cabem medos nem chantagens de segurança nem conservadorismo. Paradoxalmente, pode-se dizer que o único seguro diante da vinda do Senhor é o êxodo, a aventura do êxodo. Como dizem os profetas e os poetas, há que fazer caminho andando. Ir somente pelo caminho trilhado é retroceder. E isto é uma atitude suicida diante da vida que nos chama a caminhar e é um pecado contra a que nos convida a ir a um encontro. A é confiança na promessa de Deus. É esperança. E a esperança está sempre na nossa frente que nos chama a caminhar e a sair de nosso cantinho.

4). João Batista é um grito permanente no nosso coração à conversão  
       
João Batista chama a atenção das pessoas para Jesus. Ele conclama todos para a conversão. Ele exige que se constitua uma comunidade de pessoas dispostas a mudar de vida. desse modo O Messias se manifestará ao mundo. Muitos lhe dão ouvidos e vão em sua direção para receber o batismo de penitência. Trata-se daqueles que querem que alguma coisa ou uma vida mude, são as pessoas que cansam de viver num mundo ou numa sociedade de injustiça e de maldade. Muitos se converteram.


Converter-se não significa necessariamente que sejamos grandes pecadores e devamos fazer penitência. Converter-se, crer em Jesus Cristo, significa voltar-se a ele, aceitar seus critérios de vida, acolhes seu evangelho e sua mentalidade, ir assimilando nas atitudes da vida. A Boa Notícia é nossa conversão. , a possibilidade de nosso encontro com o Senhor que vem.       


João Batista antes de chamar os outros à conversão, ele se converteu primeiro através de um desprendimento total. Por acaso, podemos exigir que os outros se convertam, quando nós não queremos mudar nossos maus hábitos, quando não estamos dispostos a renunciar aos nossos pequenos ou grandes egoísmos?  Podemos, por acaso, exigir que os ricos e os poderosos não oprimam os pobres e os fracos, se, de nossa parte, nos nossos lares continuamos mantendo um comportamento arrogante e agressivo, se nos comportamos como dominadores e donos da verdade, se no trabalho ou no grupo, nos exaltamos contra aqueles que hierarquicamente estão abaixo de nós ou tratamos os outros como se eles não tivessem um mínimo conhecimento das coisas que, de fato, eles sabem muito mais do que nós, que falta-lhes oportunidade?


Enquanto não renunciarmos aos nossos pecados, como exigia João Batista, não podemos esperar pela vinda do Salvador na nossa vida e na nossa família e pelo surgimento de uma sociedade nova e de um mundo novo.


Sabemos que faz parte da nossa natureza humana é que nós fechamos nossos olhos diante daquilo que deveríamos ver, sobretudo, diante de nossos próprios pecados ou defeitos.  Enquanto que o primeiro passo para a conversão e para o bom relacionamento com Deus é admitir que somos pecadores, que temos defeitos, que temos “área de aridezdentro de nós, embora reconheçamos que não há nenhuma coisa no mundo que seja mais duro e mais difícil do que encarar a nós mesmos, os nossos defeitos e fraquezas. Mas temos que estar conscientes de que o fim de arrogância é o início de perdão e da graça de Deus na nossa vida. Nãoperdão e relacionamento verdadeiro com Deus e com o próximo sem humildade, abandonando nossa arrogância e auto-suficiência que não nos trazem vantagem nenhuma a não ser a destruição de nossa vida e a vida dos demais.


Portanto, que cada um de nós saiba fazer a revisão da própria vida e se pergunte: quais são maus hábitos que eu devo abandonar, pois eles bloqueiam a felicidade e a paz para mim e para as pessoas ao meu redor? dessa maneira que as bênçãos de Deus vão entrar facilmente na nossa vida e na nossa família. Se não, sonharemos sem fundamento.

P. Vitus Gustama,svd

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