terça-feira, 31 de maio de 2011

MARIA VISITA ISABEL COM DIGNIDADE DE UMA IRMÃ

Lc 1,39-56
Maria serve com dignidade
          Terminamos o mês de maio com a festa da Visitação de Nossa Senhora a Isabel. A festa da Visitação está cheia de encantos e de uma ternura inigualável. Duas mulheres se encontram , que se saúdam, estão cheias de Deus e por isso, cheias de alegria para fazer o ambiente mais humano e fraterno.

O evangelista Lucas nos relatou que Maria “se dirigiu apressadamente”. A expressãoapressadamenteaqui tem muitos significados: zelo, diligência, empenho, cuidado, seriedade, dignidade. Maria é uma mulher que se põe em caminho com dignidade, com cuidado, com prontidão. Não o faz para satisfazer uma necessidade pessoal: ela faz para servir sua parenta, Isabel, que está grávida e que necessita de uma ajuda. Ela faz tudo com dignidade como uma irmã. Maria é de Deus e por isso, ela é do povo e para o povo. Maria é mulher de nossa história, aberta a Deus e aos seres humanos. Viveu sempre em atitude de gratuidade e de doação. Será que fazemos tudo, a exemplo de Maria, com dignidade, com cuidado e com prontidão?

Encontro de duas pessoas benditas

Na Anunciação o Anjo do Senhor “entrou” na casa de Maria e a “saudou”. Nessa visita Maria fez a mesma coisa: ela “entrou” na casa de Zacarias e saudou a Isabel. É a saudação da Mãe do Senhor para a mãe do Precursor do Senhor. A saudação de Maria comunica o Espírito a Isabel e ao menino. A presença do Espírito Santo em Isabel se traduz em um grito poderoso e profético: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar? Logo que tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança pulou de alegria no meu ventre. Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu” (Lc 1,42-45). Aqui Isabel fala como profetisa: se sente pequena e indigna diante da visita daquela que leva em seu seio o Senhor do universo. Sobram as palavras e explicações quando alguém entra na sintonia com o Espírito. Maria leva no seu seio o Filho de Deus concebido pela obra do Espírito Santo. E a presença do Espírito Santo em Isabel faz com que Isabel glorifique a Deus. Por isso, o encontro entre Maria e sua prima Isabel é uma espécie de “pequeno Pentecostes”. Onde entra o Espírito Santo, ai entra também paz, alegria e vida divina.

A Mãe de Deus que leva Jesus em seu seio é a causa de alegria. Quando estivermos cheios de Jesus Cristo em nosso coração, a nossa presença traz alegria e a paz para a convivência. A ausência de Cristo em nosso coração produz problemas na convivência. O encontro de duas pessoas benditas sempre causa alegria: Maria causa alegria em Isabel e Jesus em pequeno João Batista. Ao contrário, o encontro de duas pessoas não benditas sempre causa angústia e mal-estar na convivência. Cada cristão deve fazer os encontros felizes e alegres com os outros. E isso pode acontecer se houver lugar para Cristo em nosso coração. Precisamos engravidar Jesus Cristo para fazê-lo nascer para os outros. Por isso, vale a pena cada um se perguntar: Que tipo de encontro que fazemos diariamente: de pessoas benditas ou de pessoas não benditas?
Rio de Janeiro, 31 de maio de 2011
Vitus Gustama, SVD

segunda-feira, 30 de maio de 2011

ESPÍRITO DA VERDADE NA NOSSA VIDA

Jo 15,26-16,4

O evangelho de hoje pertence ao conjunto do discurso da despedida de Jesus dos seus discípulos (Jo 13-17). Para que os discípulos não fiquem abalados nem desorientados na sua ausência física, Jesus promete-lhes uma presença nova de Jesus no meio deles. Com essa nova presença, Jesus quer dizer aos discípulos que eles não serão abandonados como órfãos, pois o amor do Senhor por eles e por qualquer cristão jamais morrerá. Em Jo 14,16-17 Jesus prometeu o envio do Paráclito, do Defensor, do Espírito da Verdade. Em Jo 15, especialmente no evangelho de hoje, aparece novamente esse Paráclito, o Defensor, o Espírito da Verdade.

Quem é o Espírito Paráclito, ou o Defensor, o Espírito da Verdade? A palavra “paráclito” em grego que é traduzida porDefensorem português é aquele que é chamado ao lado de quem se encontra em dificuldades com o fim de acompanhar, consolar, proteger e defendê-lo; em outras palavras: um ajudante, assistente, sustentador, protetor, procurador e, sobretudo, animador e iluminador no processo interno na . Mas o Espírito Paráclito é um dom de Deus oferecido para quem se abre a ele. A ajuda de Deus jamais faltará para nós, mas é preciso que tenhamos abertura diante dessa ajuda.

Esse Espírito Paráclito também recebe outro nome: “o Espírito da Verdade”.  Mas dentro de sua função de ajudar, de orientar, de animar, de proteger nas dificuldades, o Espírito da Verdade é entendido, sobretudo, como aquele que faz viver muito mais do que aquele que faz pensar. Pensar é uma coisa, viver é outra coisa.  Fazer um bom raciocínio é uma coisa; viver o que se raciocina é outra coisa. Orientar alguém para viver bem é uma coisa; perder a própria vida para que os outros possam viver é outra coisa. O mais importante não é o saber da vida e sim saborear a vida; não é sentir e sim o comprometer-se; não é o perceber e sim o decidir-se; não é o desejar e sim o querer. O Espírito da Verdade nos ensina a vivermos a vida na sua profundidade em cada momento. Ele não nos deixa presos no passado nem fugitivos do futuro; simplesmente vivemos na graça de Deus em cada momento de nossa vida. Por isso, o mais importante é fazer dos problemas, oportunidades; do passado, aprendizado; do amor, a experiência fundante e da vida, a arte de ser de cada dia.

Quem pode nos possibilitar para viver assim é o Espírito da Verdade. Por isso, precisamos pedir ao Senhor sua presença na nossa vida de cada dia e que estejamos abertos para a renovação no Espírito do Senhor que é o Espírito da Verdade, o Defensor de nossa vida toda vez que nos encontrarmos em qualquer dificuldade.

Rio de Janeiro, 30 de maior de 2011
Vitus Gustama, SVD

AMOR-NO CAMINHO DO AMOR

No ultimo boletim refletimos nesta coluna sobre a scoa como dar o passo. E dar o passo significa incorporar-se a uma vida nova em Jesus Cristo ressuscitado. A vida em Jesus é a vida de amor. Jesus foi morto porque amou os homens, especialmente os menos favorecidos, até as ultimas conseqüências. São João expressou muito bem este pensamento ao escrever: “Sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1; cf. Jo 3,16). O caminho de amor sempre foi o caminho de Jesus. Jesus, na sua vida terrestre, estava sempre no caminho de amor. E ele transformou o amor em mandamento novo para qualquer seguidor: “Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros” (Jo 13,34; cf. Jo 15,12). Amar é despertar em alguém a força mais poderosa que se conhece. E o amor fraterno será a própria marca da identidade cristã: “Nisto reconhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros” (Jo 13,35).

O amor é parte essencial de nosso ser, especialmente como cristãos. Toda vez que amamos, afirmamos nosso ser. Não é por acaso que Victor E. Frankl afirma: “Amo, logo sou”. E toda vez que não amamos, negamos nosso ser. Sem amar não se pode Ser. Ao amar nos conectamos com nosso aspecto mais essencial e mais íntimo, poisDeus é amor” (1Jo 4,8.16).  Com e cada ato de amor revelamos nosso ser e com ele cultivamos nosso espírito.

Amar não significa apegar-se e sim desapegar-se. O apego implica dependência, o desapego, independência. O amor genuíno não é possessivo. Por isso, quando alguém ama verdadeiramente não vive aferrado às pessoas nem às coisas. No amor nasce a liberdade. Com o amor se desatam todas as nossas ataduras e com ele assumimos plenamente nossa liberdade. Sempre que alguém desenvolve sua liberdade interior cresce espiritualmente. Todo ato de amor é crescer espiritualmente. Nãoamor inoperante.

Com amor captamos a essência dos seres ou das coisas. É aguçar o olhar para captar os valores que encerram. O amor é comunhão no valor. Amar é colocar os dons e talentos ao serviço dos valores superiores. Amar é subir de nível e ver com claridade de uma dimensão mais elevada. “Quanto mais amas, mais alto sobes”, dizia Santo Agostinho.

Ser cristão ou ser pessoa do bem é estar no caminho de amor que é o caminho de Jesus. O próprio Jesus se identifica com esse caminho: “Eu sou o Caminho” (Jo 14,6). A vida em sintonia com a vontade de Deus não consiste em um conjunto de leis e sim na pessoa de Jesus. Ele é o Caminho que permite o homem saltar do abismo de uma vida sem sentido que o separa de Deus que é a razão do seu ser para uma vida cheia de graça. Para os povos semitas o “caminho” é símbolo do comportamento moral, símbolo do modo de atuar eticamente. Por isso, a Bíblia fala de caminhos em relação com Deus e o homem. Há oposição entre o caminho de Deus, que leva à vida, e o caminho do homem, que conduz à morte. O homem tem que saber escolher: “Eis que hoje estou colocando diante de ti a vida e a felicidade, a morte e a infelicidade” (Dt 30,15). O caminho dos malvados é tortuoso e leva à ruína (Sl 1,6), enquanto que o dos justos conduz à vida (Pr 2,19).

Estar no caminho de Jesus é estar no caminho de amor. São Paulo nos aconselhou: “Andai, pois, no Senhor Jesus Cristo” (Cl 2,6). O amor opera grandes transformações. A escuridão se transforma em luz, a solidão em comunhão, o Eu em Nós, o Éros em Ágape, o humano em divino. O amor divino transforma qualquer um em evangelizador, como Maria para quem dedicamos o mês de maio. Maria, amada por Deus, devolve este amor e se converte em dom total ao serviço da humanidade. Deus é amor. Maria é dom de amor.

Vitus Gustama, SVD

AMOR: NO CAMINHO DO AMOR RUMO À PÁSCOA

O ser humano é caminhante por natureza, peregrino de todas as terras, sabendo que em nenhuma delas encontra sua pátria eterna. Enquanto estiver na história o ser humano está sempre em marcha. Nesta marcha ele vai se transformando, modelando-se o coração e as entranhas, despojando-se de pessoas e falsas seguranças, e demonstrando-lhe quão frágil e vulnerável é o ser humano.
           
“Levanta-te e põe-te em caminho!”. Esta é uma das frases mais repetidas por Deus na Bíblia quando se dirige ao povo ou às pessoas individualmente. Desde Abraão, convidado a marchar a terras desconhecidas, passando por Moisés, chamado a libertar o povo da escravidão do Egito, os profetas, e o próprio São Paulo, todos os grandes homens e mulheres, na história da salvação, encontraram no caminho o inicio de uma nova vida e de sua própria realização pessoal, sobretudo, de sua salvação.
           
A quaresma nos convida também, com toda sua força, a pôr-nos em caminho: a nos levantar da terra simbólica na qual estamos estabelecidos e a marchar para um lugar novo onde se encontra a salvação. A meta da caminhada quaresmal é a Páscoa, a identificação com Jesus morto por amor à humanidade e a assimilação de sua ressurreição como a nossa.
           
O caminho quaresmal nos chama a marcharmos rumo ao Amor absoluto. A quaresma é tempo específico de amor, manifestado no perdão, no compromisso pelo bem, na gratuidade e correspondência a Deus, pois o ser humano foi criado por e para o Amor. Todos os dias são bons para cada um parar-se para pensar no sentido da vida, em como se vive e como se gasta a vida. Masmomentos pontuais, como a Quaresma, nos quais podemos perceber e experimentar melhor o grande amor de Deus por nós e por todas as criaturas. Ninguém nesta vida deu tudo e tanto por mim como fez Jesus. É o amor supremo. É a entrega total do Homem-Deus, na cruz, por mim. Jesus fez isso com o único objetivo: para que eu possa ganhar um lugar ao lado do Deus Pai. E o amor de Deus jamais falha, me espera, me desculpa, me compreende e me ama em todo momento. É o amor absoluto.
           
Do prisma do amor entendemos melhor que a Quaresma há de ser um tempo especial de reconciliação e de perdão. De reconciliação com Deus, movidos pelo amor e não pelo medo, e de reconciliação com os demais homens porque, graças ao amor, entendemos melhor que todos nos ofendemos uns aos outros continuamente e que todos temos nossas falhas e debilidades pelas quais necessitamos de compreensão e de mútuo perdão.
           
A vida, se não for vivida e gastada por amor e para o amor, que Deus nos tem e que devemos a nossos irmãos, não tem sentido. A vida sem doação e sem compromisso é vazia e não nos produz felicidade. A felicidade e a paz somente chegam a s quando fazemos o bem aos demais, quando amamos, quando nos comprometemos, quando nos damos a Deus e aos demais. Deus está no ato de amar.
           
Portanto, a Quaresma é um tempo singular no qual Deus manifesta seu amor supremo por mim e no qual eu devo orientar toda minha vida pelo amor e para o amor. A austeridade, a penitência, o jejum, a esmola, a oração e os demais exercícios quaresmais servem para me ajudar a viver melhor o amor.
           
Por isso, o caminho quaresmal, para o cristão, supõe, sobretudo, o encontro com outros peregrinos que andam buscando o Senhor Jesus Cristo porque encontraram suas pegadas. São encontros que, ao mesmo tempo, nos abrem a novas realidades de nós mesmos, nos ampliam e purificam a visão dos demais e de Deus. A quaresma é encontro: é abraço de reconciliação como na parábola do filho pródigo (cf. Lc 15,11-32) ou na conversão de Zaqueu (cf. Lc 19,1-9) ou no diálogo com a mulher samaritana (cf. Jo 4, 1-42) ou no diálogo com a mulher adúltera (cf. Jo 8,1-11). Que em cada encontro o meu olhar seja terno, a minha paciência seja sábia, o meu amor seja eterno e a minha e o meu amor eternizam a vida.

Vitus Gustama, SVD

FELIZ DIA DAS MÃES

Mãe é uma palavra pequena de três letras apenas (m-ã-e), mas com um significado infinito, pois esta palavra nos recorda amor, amizade sem fim, dedicação, renúncia a si própria, esquecimento de si próprio, força e sabedoria. Uma mãe se dedica tanto até ela é sinônimo de tempo sem hora. Nenhum dicionário definirá a magia do seu significado, a força de sua atração, o amor que nela contido. Nenhuma língua é capaz de expressar o amor, a beleza e a força de uma mãe. Por isso um escritor escreveu:Somente uma coisa no mundo é melhor e mais bela do que a mulher: a mulher que é mãe”. (E. Schefer).

Para sabermos o que é amor, Deus coloca uma mãe dentro de uma família para que seus membros não precisem procurá-lo fora dela. A mãe é a encarnação do amor dentro da família. Até o ditado judaico tem ousadia de dizer: "Deus não pode estar em todos os lugares e por isso fez as mães”. Por ser a encarnação desse amor dentro da família, a mãe compreende até o que os filhos não dizem ou até as coisas que tem por trás das palavras pronunciadas por eles, pois ela é capaz de ouvir e de entender até o silêncio de seus filhos. Ela existe para amar, para nutrir, para cuidar, para dar a vida.

Os abraços de nossa mãe estão sempre abertos quando necessitamos de um abraço para nos sentir protegidos. Seu coração tem uma grande compreensão quando precisamos de uma amiga capaz de dizer: “Conte comigo em qualquer situação!”. Seu amor e sua força estão sempre disponíveis e dispostos a nos ajudar quando ficamos desanimados e desistimos de lutar por uma vida digna de ser vivida. Seus olhos ficam endurecidos quando ela percebe que estamos brincando com o perigo.

A mão de nossa mãe que nos acolheu e nos abraçou no berço é a mesma mão que nos deixa partirmos para viver nossa vida e nossa peregrinação neste mundo com o desejo de ver-nos realizados como seres humanos, filhos de Deus.

Por isso, um escritor escreveu: “Mãe é a amiga mais verdadeira que temos quando a dificuldade dura e repentinamente cai sobre nós; quando a adversidade toma o lugar da prosperidade; quando os amigos que se alegram conosco nos bons momentos nos abandonam; quando os problemas complicam-se ao nosso redor, ela ainda estará junto de nós, e se esforçará através de seus doces preceitos e conselhos para dissipar as nuvens de escuridão, e fazer com que a paz volte aos nossos corações (Washington Irving).

Tudo o que somos devemos à nossa mãe. Resta-nos dizer neste dia: “Obrigado mamãe. Deus a abençoe! E FELIZ DIA DAS MÃES!
Rio de Janeiro, 08 de Maio de 2011
Vitus Gustama, SVD

NÃO TENHO MAIS MEDO

Deus é Amor: aquele que permanece no amor permanece em Deus e Deus permanece nele. Nisto consiste a perfeição do amor em nós: que tenhamos plena confiança no dia do Julgamento, porque tal como ele é também somos nós neste mundo. Nãotemor no amor; ao contrário, o perfeito amor lança fora o temor, porque o temor implica um castigo, e o que teme não chegou à perfeição do amor. Quanto a nós, amemos porque Deus nos amou primeiro. Se alguém disser: ‘amo a Deus’, mas odeia o seu irmão, é um mentiroso: pois quem não ama seu irmão a quem , a Deus, a quem não , não poderá amar. E este é o mandamento que dele recebemos: aquele que ama a Deus, ame também o seu irmão”(1Jo 4,16b-21)
           A mais  dura das guerras é a guerra contra si mesmo. É preciso chegar até desarmar-se.
           Tenho lutado nesta guerra durante anos. Foi terrível. Mas hoje estou desarmado. Não tenho mais medo de nada, porque o amor lança fora o temor.
           Estou desarmado da vontade de ter razão, de justificar-me, desqualificando os outros. Não estou mais em guarda, à defensiva ciumentamente crispado sobre minhas   riquezas. Acolho e partilho.
           Não estou apegado, particularmente às minhas idéias, aos meus projetos. Se alguém me apresenta outras melhores, aliás, não melhores, mas simplesmente boas, aceito-as sem mágoa.
           Renunciei ao comparativo. Aquilo que é bom, verdadeiro, real é sempre o melhor para mim. Por isso, eu não tenho mais medo. Quando não se tem nada, não se tem mais medo.
           Se estamos desarmados, despojados, abertos ao Deus-Homem, que faz novas todas as coisas, Ele apaga o passado ruim e nos traz um tempo novo onde tudo é possível.  por Atanágoras

JESUS NAO NOS ABANDONA JAMAIS

Jo 14, 15-21

O Senhor Não Nos Deixa Órfãos Neste Universo Aberto

O evangelho deste dia faz parte do discurso da despedida de Jesus dos seus discípulos antes de sua morte no evangelho de são João (Jo 13-17). Através do evangelho de hoje Jesus faz um testamento para a Igreja, em geral, e para cada um de nós, em particular. Este é o testamento de Jesus: “Eu não vos deixarei órfãos. Eu virei a vós”. Trata-se do testamento de Deus dado a cada um de nós. Quando parece que tudo acaba, se inicia uma nova relação, uma nova presença, uma nova vida baseada no amor (Jo 15,12-15). De fato, Deus nos ama até o fim. “Eu te amo com eterno amor e por isso, a ti estendi o meu favor”, diz o Senhor através do profeta Jeremias (Jr 31,3).

Na Bíblia, essa presença de Deus é sentida, passo a passo, na historia dos filhos de Israel, principalmente por meio da figura dos patriarcas e dos líderes do povo. Com os patriarcas e os líderes do povo Deus estabelece alianças e aponta tempos e lugares de encontro com seu povo até seu ponto alto na encarnação de Deus no meio de nós no Novo Testamento: “No princípio era o Verbo e o Verbo era Deus. E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,1.14).

Por isso, a Palavra de Deus de hoje nos convida a descobrirmos a presença discreta, mas eficaz e tranquilizadora de Deus na caminhada da Igreja, em geral e na caminhada diária de cada um de nós: “Eu não vos deixarei órfãos”. Precisamos ler e viver este testamento do Senhor diariamente: “Eu não vos deixarei órfãos”, pois nele está a força para nossas lutas de cada dia e nele encontramos a força para nos levantar toda vez que cairmos na nossa caminhada. De fato, não estamos lutando sozinhos; lutamos, sim, com Deus. Se lutarmos com Deus será cumprido aquilo que São Paulo nos diz: “Se Deus é por nós quem será contra nós? ” (Rm 8,31). Por isso, “em todas as coisas somos mais que vencedores pela virtude d’Aquele que nos amou” (Rm 8,37). Este testamento torna cada comunidade e cada cristão a “morada de Deus”, pois Deus está com eles e neles. Cada um de nós não anda solitário, e sim solidário, pois Jesus não nos deixa órfãos. através da encarnação Deus assumiu nossa humanidade como lugar de sua habitação. Deus desceu até nós através dessa humanidade para que nós pudéssemos subir até Ele. Ele se humanizou para nos dar a oportunidade de nos divinizar. Ele se abaixou para que nós fôssemos elevados. Tudo isso pode ser através de uma presença eficaz. Trata-se de uma presença de Deus na nossa vida.

Por causa dessa presença divina, uma comunidade cristã é uma comunidade onde se manifesta a comunhão com Jesus e a comunhão com todos os outros irmãos que partilham a mesma . Podemos até nos machucar mutuamente, mas a comunhão sempre cura nossas feridas, pois as forças são somadas. É na comunhão com os irmãos, é no amor partilhado, é na consciência de que fazemos parte de uma imensa família que caminha animada pela mesma , que se manifesta a vida do Espírito Santo. Cada cristão precisa estar consciente de que ele não é uma pessoa autônoma, isolada, independente, e sim faz parte de uma Igreja de Cristo, chamada a viver na comunhão, na partilha, na solidariedade com todos os irmãos que, em qualquer canto do mundo, partilham a mesma e lutam pela vida digna. “Não vos deixarei órfãos. Eu virei a vós”, garante-nos o Senhor.

O Senhor Está Presente Na Nossa Vida Através Do Seu Espírito

De que maneira o Senhor está presente na nossa vida? “O Pai vos dará um outro Defensor, para que permaneça sempre convosco: o Espírito da Verdade...”. Esta é a nova forma da presença do Senhor na nossa vida.

No evangelho de hoje Jesus chama o Espírito Santo de “Defensor” (Paráclito), “Espírito da Verdade” e O apresenta como aquele que cria o amor e a unidade entre os irmãos; como aquele que é chamado ao lado de quem se encontra em dificuldades com o fim de acompanhar, consolar, proteger e defendê-lo; em outras palavras: um ajudante, assistente, sustentador, protetor, procurador e, sobretudo, animador e iluminador no processo interno na .  Por isso, o Espírito da Verdade é entendido, sobretudo, como aquele que faz viver muito mais do que aquele que faz pensar. O Espírito prometido transformará nossos corações para que sirvamos e amemos como Jesus.

O aspecto mais importante do Espírito prometido por Jesus é a força interior da qual o cristão necessita para poder dar testemunho de tudo que Jesus ensinou apesar das contrariedades. Sem este Espírito, o medo nos dominará e optaremos por viver fechados numa estrutura que nos defende do mundo. Mas não basta vivermos defendendo; precisamos viver testemunhando. O mundo não precisa de mestres e sim de testemunhas, como dizia o Papa Paulo VI. O verdadeiro mestre-testemunha não é aquele quelição e sim aquele que conta a experiência da qual cada um tira suas lições para sua própria vida.

O Espírito de Deus prometido por Jesus é Aquele que renova a face da terra; aquele que nos faz sair do isolamento para a comunhão, do egoísmo para a fraternidade. Territorialmente cada país pode ter suas fronteiras, cada estado suas divisas, e cada município seus limites, mas com o avanço da tecnologia, o mundo fica sem fronteiras. O avanço da tecnologia traz consigo novas linguagens. Com essas novas linguagens somos permanentemente estrangeiros no nosso próprio território e somos aprendizes permanentes de muitíssimas coisas. Temos sempre algo a aprender até o fim de nossa caminhada neste mundo para não deixar nosso armazém de conhecimento ficar vazio. O Espírito da Verdade prometido por Jesus rompe qualquer tentativa de isolamento e nos integra ao mundo, ainda que seja hostil, para que ali possamos testemunhar nossa vivida no amor fraterno. Este mesmo Espírito prometido vai nos abrindo caminhos. Deste modo cada um de nós precisa aprender a esperar e a confiar não em nós mesmos nem no poder dos homens e sim nessa presença quase imperceptível que, no entanto, nos dá uma fortaleza capaz de encontrar o caminho no meio das dificuldades, algo positivo no meio de tantas negatividades.

Amor Mútuo Garante a Presença de Deus no Meio de Nós

De que maneira podemos garantir a presença permanente do Senhor na nossa vida? Qual é a condição? “Se me amais, guardareis os meus mandamentos”.

Os mandamentos não são, aqui, em primeiro lugar, um catálogo de preceitos semelhantes ao catálogo da lei de Moisés. Segundo o evangelista João (Jo 16,27; 1Jo 2,3-6;3,23), Deus pede ao homem duas atitudes fundamentais: e amor que são inseparáveis. Uma vivida no amor e um amor operante pela obediência à Palavra do Senhor constituem aquela comunhão de vida com Jesus. Não é por acaso que Santo Agostinho dizia: “Ama e faz o que queres. Quanto mais amas, mais alto sobes”.

Aderir a Jesus significa aceitar o amor que ele oferece, manifestando até ao extremo em sua morte (Jo 13,1), e tomar Jesus por modelo de vida, adotando como norma de conduta o amor fraterno. A comunhão com Jesus, que produz a unidade de Espírito com ele, é o que se chama amor. A identificação com Jesus se expressa no amor fraterno (Jo 13,35). Somente esta identificação, que é cume da adesão (), é que permite ao cristão amar como Jesus amou (Jo 13,34). A comunidade cristã e o “mundo” distinguem-se entre si pela presença ou pela ausência do amor fraterno. O amor fraterno é o critério de discernimento da fidelidade ao Senhor Deus. E o amor nunca morre, pois é o próprio nome de Deus (1Jo 4,8.16). Mas as caricaturas do amor jamais duram. E nunca o egoísmo é tão prejudicial como quando se disfarça de amor. Você pensou alguma vez que Deus não seria Deus se não fosse Amor?

Rio de Janeiro, 29 de maio de 2011
Vitus Gustama, SVD