sábado, 28 de janeiro de 2012

FALAR E VIVER COM AUTORIDADE


REFLEXÃO PARA IV DOMINGO DO TEMPO COMUM DO ANO LITÚRGICO B

(29 de Janeiro de 2012)

Texto de Leitura: Mc 1,21-28

21Na cidade de Cafarnaum, num dia de sábado, Jesus entrou na sinagoga e começou a ensinar. 22Todos ficavam admirados com o seu ensinamento, pois ensinava como quem tem autoridade, não como os mestres da Lei. 23Estava então na sinagoga um homem possuído por um espírito mau. Ele gritou: 24“Que queres de nós, Jesus Nazareno? Vieste para nos destruir? Eu sei quem tu és: tu és o Santo de Deus”.  25Jesus o intimou: “Cala-te e sai dele!” 26Então o espírito mau sacudiu o homem com violência, deu um grande grito e saiu. 27E todos ficaram muito espantados e perguntavam uns aos outros: “O que é isto? Um ensinamento novo dado com autoridade: Ele manda até nos espíritos maus, e eles obedecem!” 28E a fama de Jesus logo se espalhou por toda a parte, em toda a região da Galileia.
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Jesus Fala Com Autoridade

Depois de ter formado o primeiro grupo de discípulos (Mc 1,14-20- veja o Evangelho do Domingo anterior), Jesus começa a dar início à sua atividade tomando contato com os israelitas na instituição religiosa (Sinagoga) que aceitam a doutrina oficial transmitida pelos Mestres da Lei. Neste ambiente é que Jesus começa a ensinar. No ensinamento de Jesus, os ouvintes percebem a força do Espírito Santo nas suas palavras. A reação é, então, favorável, pois reconhecem nele a autoridade de um profeta: “... ele ensina como quem tem autoridade” (v.22). Não se diz o conteúdo do ensinamento de Jesus. Diz-se apenas a reação de admiração do povo. Isto supõe a novidade no ensinamento de Jesus. Sua autoridade se reconhece nos sinais que manifestam o Reino (v.27; cf. 3,24-27). A palavra de Jesus faz acontecimento, seu anúncio faz prática. Certamente a marca inconfundível do ensinamento de Jesus é autoridade. A poderosa palavra doutrinal (ensinamento) e a poderosa ação (exorcismo dentro da sinagoga) constituem por igual um sinal do poder divino de Jesus e ao mesmo tempo, um sinal de que nele e com ele se abre o caminho para a soberania de Deus no mundo.
    

Como conseqüência, o ensinamento de Jesus provoca o desprestígio do ensinamento habitual dos Mestres da Lei: “Ele ensina como quem tem autoridade e não como os mestres da lei” (v.22). Os mestres da lei, quando fizeram uma afirmação, citaram os grandes mestres do passado. Jesus, ao contrário, quando fala, ele não necessita de nenhuma autoridade e nenhuma citação de um especialista. Ele fala com a finalidade da voz de Deus, pois Ele é a própria Palavra de Deus (cf. Jo 1,1-2) que se torna realidade entre os homens (Jo 1,14). Por isso, o povo percebe a diferença. Certamente Jesus, com seu ensinamento, pretende alargar o horizonte do povo. Com seu ensinamento Jesus consegue libertar o povo da dependência dos Mestres da Lei e do “Deus” enquadrado criado por eles. Ele provoca o início da tomada da consciência crítica no povo para avaliar a realidade em que se encontra com a maneira de Deus em Jesus Cristo.
      

Cada um de nós, de certa forma, exerce alguma autoridade, no grupo, no trabalho, em casa etc.. A autoridade está ligada ao crescimento. A própria palavra vem do latim “augere”, que quer dizercrescer”. Exercer autoridade é sentir-se realmente responsável pelos outros e por seu crescimento, sabendo que eles não são nossa propriedade, nossos objetos, mas pessoas que têm um coração, nas quais existe a luz de Deus, com as quais o Senhor se identifica (Mt 25,40.45), e que são chamadas a crescer na liberdade da verdade e do amor. “O verdadeiro mestre fala dentro de cada um”, dizia Santo Agostinho (Serm. 134,1,1).


O maior perigo para alguém que tem autoridade é manipular as pessoas e dirigi-las para seus próprios objetivos e sua necessidade de poder. “Quando, para garantir a autoridade, se oprimem os subordinados, perde-se a autoridade, no desejo de afirmá-la. Um mau serviço ao rebanho não pode fazer a honra do pastor” (Santo Agostinho: Gesta cum Emérito 7).  Uma pessoa que realmente tem autoridade é aquela que encoraja, ensina, dá apoio e aconselha, e se for necessário, corrige, para ajudá-lo a ter confiança em si próprio e a crescer para uma maturidade, sabedoria e liberdade maiores. “Aquele que preside não se considere feliz por dominar pela autoridade, mas por servir na caridade. Diante de vós ele é o primeiro entre iguais. Diante de Deus, é o ultimo”, dizia Santo Agostinho (Regra 11). “Um superior, em primeiro lugar, deve estar consciente de que é um servidor. Não deve sentir-se inferior por servir a muitos, quando o próprio Senhor dos senhores não se diminuiu ao fazer-se servo da humanidade”, acrescentou Santo Agostinho (Serm. Guelf. 32,1). Uma pessoa que tem a verdadeira autoridade é aquela que trabalha visando justiça para todos, especialmente para aqueles que não podem se defender, que fazem parte de uma minoria oprimida. É aquela que não se compromete com o mal, com a mentira e com as forças da opressão que esmagam as pessoas, principalmente os indefesos. A autoridade existe para a liberdade e o crescimento das pessoas.


palavras que nos aproximam de Jesus que fala e vive com autoridade. Sempre que pronunciarmos uma palavra viva, aquela que não é fingida, aquela que sabe detectar em cada momento o que o outro está necessitando, aquela que faz o outro melhorar e crescer, aquela que não semeia a discórdia, a palavra que humaniza, estaremos falando com autoridade. Sempre que pronunciarmos uma palavra compassiva, aquela que consola nos momentos de dificuldade, a palavra que anima quem está desesperado, a palavra sincera de querer ajudar, estaremos falando com autoridade. Sempre que pronunciarmos uma palavra solidária, aquela que coloca as coisas no seu devido lugar, aquela que sai do coração para aliviar a dor do outro, aquela que serena, estaremos falando com autoridade. Sempre que pronunciarmos uma palavra de esperança que diz que nem tudo está perdido, que o melhor está para vir porque Deus está conosco, estaremos falando com autoridade.


Com Autoridade Jesus Purifica O Templo E As Pessoas Do Fanatismo 
  
Jesus vai à sinagoga. Ele vai para ensinar e purificar. Pela imundice que a habita (um homem está possuído por um espírito imundo/mau dentro da sinagoga), a sinagoga, onde Jesus entrou, não é mais a “Casa de Deus”, ou a “Assembléia de Javé”. O povo reunido (sinagoga quer dizer reunião) não é mais o lugar santo onde Deus habita (Ex 19,5s). Jesus vai à sinagoga para livrar o povo do poder da instituição que o aliena e com isso, denuncia, ao mesmo tempo, seu caráter perverso e opressor. Jesus quer convidar o povo para um novo espaço (a casa: onde acontecerá a cura da sogra de Pedro. Saberemos isso no evangelho do próximo domingo), onde acontecerão possíveis novas relações.
    

Entre os fiéis da Sinagogaquem se identifica de maneira tão fanática com o ensinamento dos Mestres da Lei, que não tolera que a autoridade doutrinária deles seja submetida a censura. Para exprimir o fanatismo, Marcos usa a expressãoestar possuído por um espírito imundo/mau(em oposição ao Espírito Santo que está com Jesus).  O fanatismo é a força que despersonaliza o homem e impede todo espírito crítico. O fanatismo é, concretamente, uma ideologia contrária ao plano de Deus. O fanatismo fomenta a idéia da superioridade própria e o conseqüente desprezo dos demais. O possesso é, neste texto, homem inteiramente alienado pela adesão fanática a essa ideologia e sai em defesa dos Escribas.

          
O espíritomau/impurotoma o homem por inteiro fazendo com que o homem não pense nem aja por si mesmo. O espírito mau, em outras palavras, aliena o homem, cortando os laços de relacionamento com os outros e tirando o homem da sua existência como um ser social (socius = amigo), um ser amigo/irmão para os outros. O homem possesso personifica a alienação total.

          
É interessante observar que o próprio possesso fica dividido dentro de si mesmo. Porque, por um lado, ele não pode negar a autoridade divina de Jesus: “Sei quem Tu és: Tu és o Santo de Deus”. Por outro lado, ele não admite que a autoridade divina de Jesus possa opor-se à autoridade da instituição religiosa e da sua doutrina (que para ele também divina). Por isso, ele diz: ”Que tens contra nós, Jesus Nazareno. Vieste para nos destruir?” Ao chamar Jesus de Nazareno, o possesso sugere-lhe que, segundo a sua origem (de Nazaré), Jesus deveria professar as idéias nacionalistas. Aqui Jesus é tentado (primeira vez que ocorre a tentação do poder,cf.1,13) para que ponha sua autoridade divina a serviço do sistema, aceitando o papel de Messias nacionalista. Mas Jesus o interrompe e, apesar da sua resistência, liberta-o do seu fanatismo, isto é, consegue convencê-lo do erro do seu posicionamento.

         
É bom olharmos para dentro de nós se há algum tipo de fanatismo. Fanático significa quem se julga inspirado por uma divindade qualquer, e o resto não. É uma adesão cega a uma doutrina ou sistema. Será que muitas vezes ou alguma vez você abusa da sua autoridade ou do seu poder (político, eclesial ou econômico ou intelectual) para  dominar os outros e para conseguir algo que moralmente ou do ponto de vista da doutrina de Jesus é ilícito ou errado? Lembre-se que Jesus não se submeteu à tentação do poder. É preciso uma purificação geral de nosso coração.

         
Às vezes, como o possesso, pensa-se que a presença de Jesus sirva para perturbar ou atrapalhar o sossego ou comodismo. Mas devemos estar conscientes sempre de que a presença de Jesus purifica o ser humano dos espíritos imundos que flagelam e contaminam. Livres de toda escravidão, os que tinham sido beneficiados por Jesus, sem dúvida nenhuma, tornam-se sinal do poder efetivo de Deus nesta terra. Somente se Deus for reconhecido como Deus e amado com eterno amor, nós saberemos o que é o pecado, mas saberemos também o que é o perdão divino, insondável e sem nenhuma outra razão de ser do que o amor do pai que procura a felicidade dos seus filhos.

                   
Peçamos, por isso, ao Senhor Jesus Cristo, nosso Libertador, que afaste para longe de nós e de nosso lar o mal que nos impede de sermos felizes e livres e de fazer-nos servidores do Reino de Deus. Seja o nosso coração e o coração de nosso lar totalmente voltado para Deus e seu Reino. Pois nele cada um de nós e o nosso lar nós encontraremos o porto seguro ou refúgio.


P. Vitus Gustama,svd

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