sábado, 4 de fevereiro de 2012

ESTAR COM DEUS TOTALMENTE PARA ESTAR COM OS HOMENS INTEIRAMENTE

Reflexão Para V Domingo Comum Do Ano Litúrgico B
05 de fevereiro de 2012


Texto de Leitura: Mc 1,29-39

Naquele tempo, 29Jesus saiu da sinagoga e foi, com Tiago e João, para a casa de Simão e André. 30A sogra de Simão estava de cama, com febre, e eles logo contaram a Jesus. 31E ele se aproximou, segurou sua mão e ajudou-a a levantar-se. Então, a febre desapareceu; e ela começou a servi-los. 32À tarde, depois do pôr do sol, levaram a Jesus todos os doentes e os possuídos pelo demônio. 33A cidade inteira se reuniu em frente da casa. 34Jesus curou muitas pessoas de diversas doenças e expulsou muitos demônios. E não deixava que os demônios falassem, pois sabiam quem ele era. 35De madrugada, quando ainda estava escuro, Jesus se levantou e foi rezar num lugar deserto. 36Simão e seus companheiros foram à procura de Jesus. 37Quando o encontraram, disseram: “Todos estão te procurando”. 38Jesus respondeu: “Vamos a outros lugares, às aldeias da redondeza! Devo pregar também ali, pois foi para isso que eu vim”. 39E andava por toda a Galileia, pregando em suas sinagogas e expulsando os demônios.
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A cura da febre da sogra de Simão em casa (vv.29-31)   

Depois da cura do endemoninhado na Sinagoga de Cafarnaum (veja o 4º Domingo) que é o primeiro milagre de Jesus segundo Marcos, o evangelista narra como o segundo milagre, no fim do primeiro dia da atividade de Jesus, a cura da febre da sogra de Simão na intimidade de uma casa (não mais na sinagoga). Isto nos mostra que Jesus é o libertador tanto para o ambiente oficial (sinagoga, onde se encontra o endemoninhado) como para os ambientes privados (casa, onde se encontra a sogra de Simão). Em outras palavras, Jesus é o salvador da humanidade. Ele veio ao mundo para ficar conosco (Jo 1,14) e fica para salvar a fim de todos poderem estar na casa do Pai (Jo 14,1-6).
   

A casa onde acontece a cura da sogra de Simão não significa apenas como lugar de moradia ou centro produtivo (onde se fabrica o pão, o azeite, o vinho, manteiga, queijo etc.), mas principalmente, neste caso, como símbolo de um novo sistema de relações de convivência oposto ao espaço oficial simbolizado pela sinagoga. A casa, aqui, simboliza um sistema de convivência alternativa, onde as pessoas têm posse de sua própria vida, e onde existem relações imediatas sem nenhuma formalidade, pois todos se sentem à vontade, e em casa todos têm o domínio sobre o próprio espaço. Em casa cada um é chamado carinhosamente pelo nome, não pelo título acadêmico nem pelo status social. Ter nome é ser gente. Ao alguém me chamar pelo nome, logo eu não faço parte dos anonimatos; eu entro, ao contrário, no ambiente familiar ao ser chamado pelo nome. Deus me chama pelo nome. Logo eu pertenço à família de Deus na qual Deus é o Pai: “Eu te chamo pelo nome, és meu”, diz o Senhor para cada um de nós através do profeta Isaias (Is 43,1). Chamar alguém pelo nome é sentir-se familiar.


Por causa da sua importância, ter casa própria, ter um lar é um sonho vivo de todos. Minha casa é meu lar onde tenho meu lugar, meu ninho e meu aconchego. Jesus tinha seu próprio lar em Nazaré. Meu lar é meu lugar de descanso, de privacidade, de convivência igualitária, e de estar junto para partilhar tudo na vida: alegrias e tristeza, vitórias e fracassos, realizações e novos sonhos, medos e esperanças e assim por diante. Quem não deseja, no final da tarde ou do dia, depois de um trabalho cansativo, chegar à sua casa e poder sentir-se à vontade sem terno nem gravata ou sapato? Quem não gosta de dizer, ao chegar em casa, depois do trabalho: “Cheguei!” e diz isso com muito entusiasmo? Até os animais precisam de um lugar aconchegante. Eles podem andar, procurar comida, viver o dia andarilhos ou voar de galho em galho (pássaros), mas à tarde voltam ao ninho ou toca da segurança para se proteger do mau tempo e dos perigos da vida.


A casa onde aconteceu a cura aponta para um lar definitivo. Na caminhada da vida andamos de lar em lar. Mas tudo isso é um prelúdio para o lar definitivo onde o amor circula livremente, onde todos se amam profundamente e autenticamente, onde as preocupações desaparecem como uma criança que vive somente no presente: a casa do Pai: “Não se perturbe seu coração! Tenham em Deus e tenham em mim também. Na casa do meu Pai há muitas moradas... Eu vou preparar um lugar para vocês para que possam estar onde eu estiver”, garante-nos Jesus (Jo 14,2-3). O Céu é o verdadeiro lar desejado por todos. Este lar desejado pelo qual queremos manter na nossa memória diária transforma nossos relacionamentos na terra em relacionamentos familiares onde todos se preocupam com todos, onde um protege o outro por amor familiar e divino, onde todos vivem na humildade e na simplicidade. Quem vive na espiritualidade do lar tem consciência do lar definitivo para o qual todos estão caminhando. Esta memória jamais pode desaparecer de nossa vida conscientes de ser andarilhos neste mundo.
      

Jesus cura a sogra de Pedro na sua própria casa, no lar da sogra de Pedro. Para os antigos, as doenças e principalmente a febre eram obra do demônio ou de origem demoníaca (cf. Lc 13,11-16), que suga a saúde das pessoas que resulta na diminuição da capacidade de viver e de usufruir a vida na sua plenitude (“está de cama”, prostrada). Por isso, Jesus expulsa a febre como se expulsasse o demônio (cf. Lc 4,39), o mesmo termo que se usa em Mc 1,25. No v. 31 diz-se que “a febre a deixou”. É uma frase que poderia ser entendida como “o demônio da febre foi embora”.
        

No relato da cura não se narra gestos mágicos de Jesus como ordenar a saída do demônio (cf. Mc 1,25). Jesus se mostra, aqui, solidário com a humanidade sofrida: ele se aproxima, abaixa-se, toma a mão da mulher para fazê-la levantar-se. A força da solidariedade sempre causa o reerguimento de quem estiver prostrado sobre o peso de problemas da vida. Estender a mão para levantar quem está prostrado pelo peso da vida ou pelas opções não prudentes é ser a mão de Deus neste mundo. Santo Agostinho nos lembra: “Todo homem é próximo do homem. E não se deve pensar em diferença onde a natureza é comum” (In ps. 118, 8,2).
   
O relato sublinha também o uso de determinados termos que para Marcos têm significado próprio, comotomar pela mão” e “fazer levantar”. Estas duas expressões são usadas em cenas de ressurreição. O termo “levantar-se” ”(o verbo em grego “egeiro”, “levantartambém significa “ressurgir da morte”, cf. Mc 14,28; 12,26) aparecerá também na cura do paralítico (Mc 2,9-11) e na do cego de Jericó (Mc 10,49). E o mesmo termo será usado no anúncio da ressurreição do próprio Jesus (Mc 16,6). Em outras palavras, o gesto de Jesus de levantar a sogra de Simão antecipa a vitória de Jesus sobre a morte. A expressãotomar pela mãotambém tem um significado como um gesto típico da salvação de Deus quando resolve levantar o seu povo abatido (cf. Is 41,13;42,6;45,1;Sl 73,23-24).
      
Jesus ajuda a sogra de Simão a se levantar de sua prostração que a impedia de servir, pois, de fato, logo depois, “ela se pôs a servi-los” (v.31b). Isto significa que a sogra de Simão, mulher ressuscitada, vai começar a fazer parte da casa de Jesus ou do grupo dos seus discípulos cuja característica  é o serviço mútuo por amor. Aqui a sogra de Simão que foi curada representa todos os pequeninos levantados por Jesus (a mulher era desvalorizada) e que se transformam em instrumentos eficazes de Deus para ajudar no serviço aos demais.
     

Seguir Jesus, neste sentido, significa servir e não dominar nem alienar. O Reino de Deus é, certamente, caracterizado por um amor serviçal. O serviço é a atitude característica de quem segue Jesus. Cada pessoa é levantada por Jesus para se integrar à comunidade de servidores. O serviço constitui a identidade cristã (cf. Rm 12,9-13;Gl 5,13;Fl 2,5-7;Ef 5,21). E Jesus vai educando ou ensinando os discípulos lentamente a viver esse novo caminho de vida (cf. Mc 9,35;10,43-45). E o próprio Jesus se propõe como modelo (cf. Mc 10,45;Lc 12,37;Jo 13,1-17). Nós acolhemos o Reino de Deus quando colocamos a nossa vida a serviço dos demais (cf. Mc 9,33-35). Mas quando se fala do serviço não se trata do serviço escravo, que degrada a pessoa. Trata-se do serviço fraterno, expressão de amor. O amor é quedignidade ao serviço.
     

A comunidade cristã primitiva não estava interessada nos milagres de Jesus meramente como fatos extraordinários. Eles são uma manifestação do poder de Deus que se atua em Jesus e ao mesmo tempo, são uma proclamação da plenitude do tempo (cf. Mc 1,15). O poder de Jesus proclama a realidade presente do Reino de Deus (cf. At 2,22). Eles acreditam que Jesus é o Salvador e que através das obras de sua vida terrena, ele antecipa as realidades divinas comunicadas aos fiéis. Entendido desta maneira, o relato se torna um retrato simbólico para os fiéis onde eles, antes, se prostravam sob o poder do pecado, mas agora são levantados por Jesus, e são chamados a servi-Lo no irmão (v.31).


Resumo da atividade de Jesus na tarde do primeiro dia de sua atividade na porta da casa (vv.32-34)

A segunda parte tem um gênero literário típico conhecido comosumário”. Este gênero pode encontrar-se em outras partes deste evangelho(cf. Mc 1,14-15;3,7-12;6,6b; veja também At 2,42-47;4,32-37;5,12-16).
     
Esta segunda parte começa com esta expressão: “depois do pôr-do-sol”. Esta expressão quer nos dizer que a obrigação do repouso sabático termina (cf. Mc 1,21). Conseqüentemente, o povo pode levar os doentes a Jesus nesse horário. A lei do sábado não permite alguém transportar cargas durante o dia santo (cf. Jr 17,24). a partir das seis da tarde começa o novo dia. A lei do sábado, em vez de libertar, domina as pessoas e as enche de escrúpulos e de angústias.


A população angustiada e doente (necessitados) se encontra na porta da casa, no ambiente familiar (cf. Mc 2,2) em busca de solução de seus problemas em Jesus. Três vezes temos visto Jesus curando o povo: primeiro, ele curou alguém na sinagoga; segundo, ele curou a sogra de Simão na sua casa; e terceiro, ele curou a multidão na porta da casa. Jesus não escolhe nem o lugar nem a pessoa. Ele realiza o clamor da humanidade em necessidade. Onde quer que se encontre uma enfermidade, Jesus está pronto para usar o seu poder de cura. A salvação é destinada a todos, especialmente aos marginalizados em todos os sentidos.
    
Ao libertar os endemoninhados, Jesus “não permitia que os demônios falassem, pois eles sabiam quem ele era” (v.34). Esta ordem de calar os demônios tem por finalidade de alertar o povo/leitor para que não faça uma conclusão apressada ou precipitada sobre a verdadeira identidade de Jesus antes de sua manifestação definitiva: a morte e a ressurreição. Esta ordem também quer ressaltar a ignorância humana acerca do Messias Jesus: os demônios conhecem quem é Jesus, enquanto que os próprios seguidores não conhecem quem Jesus é. pode ser uma ironia.

       
Nunca podemos decifrar definitivamente o mistério da pessoa de Jesus. Ninguém pode fazer uma conclusão apressada ou precipitada a respeito de Jesus. Somos convidados, por isso, a decifrar progressivamente, dia após dia, o enigma da presença de Jesus na nossa vida e o segredo da força misteriosa que tem produzido tantos mártires e tantos convertidos na história do cristianismo por causa de Jesus. É uma força inexplicável que faz alguém abandonar tudo para se agregar a Jesus no seu lar. É uma força que alguém encontrou para se levantar novamente. em Jesus podemos encontrar resposta. com Jesus eu posso me levantar novamente para continuar minha caminhada rumo ao lar definitivo: o Céu.


Atividade e Oração na Vida de Jesus e dos Cristãos

A atividade de Jesus em Cafarnaum se conclui com a oração solitária: “No dia seguinte, quando ainda estava muito escuro, ele se levantou e foi para um lugar deserto e rezava” (v.35). Enquanto isso, os discípulos estão o procurando (v.36-37). No final deste Evangelho Jesus fará a mesma coisa e os discípulos vão procurá-lo: ele se levanta de madrugada (Mc 16,2), os seus o buscam de maneira equivocada (Mc 16,1-3), mas é preciso ir adiante pela Galiléia (Mc 16,7). Para Mc o primeiro dia de ministério é o modelo de toda a atividade missionária de Jesus.
                 

Logo no início de sua atividade Jesus se retira para orar a . Jesus percebe a má intenção do povo de fazê-lo um taumaturgo para solucionar seus problemas cotidianos (o povo quer uma vida fácil sem luta; quer uma vitória de graça sem querer superar as dificuldades; veja também Mc 6,45-46).  A multidão quer ficar com Jesus, porque ele pode fazer tudo sem nenhum esforço. Estimula-se, assim, a preguiça. A multidão vem a Jesus não porque o ama ou porque ele tem uma nova visão desta vida ou porque quer ser colaborador de Jesus na sua missão; em última análise, a multidão vem usá-lo. Deus não é alguém para ser usado nos momentos difíceis, mas alguém para ser amado e relembrado todos os dias de nossa vida, pois n’Ele e somente n’Ele encontra-se o sentido da vida. Este desejo se expressa na busca de Jesus por Simão e os outros que estão com ele. Procurar aqui tem um tom negativo; equivale a perseguir. Simão e os companheiros tentam afastar Jesus dos caminhos de Deus (cf. Mc 8,33;10,28;14,29-31). Ao perceber esta tentação, Jesus se refugia na oração para combater os riscos de desviá-lo do projeto do Pai. Jesus faz o bem não para buscar os aplausos. Ele faz o bem e retira-se e se dispõe a partir para outros lugares, pois todos têm o direito de receber a salvação. Este mesmo Jesus não busca os aplausos como os outros homens, mas os imitadores de seus gestos e passos.
        

Jesus é capaz de deixar a multidão, de deixar até os que dele precisam, para consagrar umas horas ao Pai. Sem esta volta à fonte, sua alma humana não teria força de levar adiante sua missão de Salvador. A oração para ele é um refúgio.
  

Com o ato de retirar-se para orar, Jesus quer ensinar seus seguidores que a oração é uma força para viver bem de acordo com os planos de Deus. Mais tarde, em Mc 9,29, ele vai chamar a atenção dos discípulos que não conseguem expulsar um demônio de um jovem ao dizer: “Esta espécie de demônio não se pode expulsar senão com a oração (e jejum).”  Como se Jesus quisesse dizer-lhes: “Vocês não estão rezando. Vocês somente se preocupam com o poder e com o trabalho e atividades. Por isso, vocês não conseguiram curar o jovem”.


Assim vive Jesus: submergido na existência humana, entregado aos demais, em particular, aos que sofrem; mas sabendo que somente pertence ao Pai, buscando acima de tudo Sua vontade, inclusive acima das urgências e necessidades dos pobres. O costume de Jesus de orar responde a esta experiência ultima de sua pessoa e de sua missão: ele não confunde sua ação com a vontade de Deus, não identifica eficácia e Reino de Deus. Quando ora, Jesus não foge dos homens; ele deixa o Pai que seja sua fonte de ser e de atuar, e afirma a transcendência absoluta de Deus. Jesus precisa estar no Pai totalmente para estar no homem inteiramente.


Este relato nos faz perguntar: “Quais momentos de retirar-se no seu dia-a-dia?” Retirar-se significa deixar-se guiar por Deus, para não deixar-se possuir por ninguém. Uma oração autêntica e profunda torna a pessoa, que a faz, sensível ao sofrimento alheio e buscar meios ao seu alcance para solucioná-lo. E a torna humilde. “Se você é humilde, nada vai tocá-lo, nem glória nem desgraça, pois você sabe quem/o que você é” (Madre Teresa de Calcutá).

P. Vitus Gustama,svd

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