quinta-feira, 13 de dezembro de 2012


CHAMADOS À CONVERSÃO E AO AMOR FRATERNO

 

III DOMINGO DO ADVENTO DO ANO “C”

Textos: Sf 3,14-18; Fl 4,4-7; Lc 3,10-18


Naquele tempo, 10as multidões perguntavam a João: “Que devemos fazer?” 11João respondia: “Quem tiver duas túnicas, dê uma a quem não tem; e quem tiver comida, faça o mesmo!” 12Foram também para o batismo cobradores de impostos, e perguntaram a João: “Mestre, que devemos fazer?” 13João respondeu: “Não cobreis mais do que foi estabelecido”.  14Havia também soldados que perguntavam: “E nós, que devemos fazer?” João respondia: “Não tomeis à força dinheiro de ninguém, nem façais falsas acusações; ficai satisfeitos com o vosso salário!” 15O povo estava na expectativa e todos perguntavam no seu íntimo se João não seria o Messias. 16Por isso, João declarou a todos: “Eu vos batizo com água, mas virá aquele que é mais forte do que eu. Eu não sou digno de desamarrar a correia de suas sandálias. Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo. 17Ele virá com a pá na mão: vai limpar sua eira e recolher o trigo no celeiro; mas a palha ele a queimará no fogo que não se apaga”. 18E ainda de muitos outros modos, João anunciava ao povo a Boa Nova.

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Lc 3,1-6 se encontra no complexo literário de Lc 3,1-4,13 que relata a primeira atividade de João Batista e a de Jesus. Nesta seção (3,1-4,13) encontramos novamente a mesma técnica utilizada por Lucas no relato da infância (Lc 1,5-2,52). Em primeiro lugar relata-se a atividade de João Batista até o momento de sua prisão por Herodes (Lc 3,1-20). Uma vez que João Batista desaparecer da cena, logo se iniciará o ministério de Jesus (Lc 3,21-4,13). Esta separação nos mostra claramente a concepção de Lucas sobre a história da salvação. Para Lucas João Batista é a última testemunha da Antiga Aliança (Lc 616,16), enquanto que Jesus é o centro do tempo. O aparecimento de João Batista marca a plenitude dos tempos e o fim do Antigo Testamento. E a missão principal de João Batista, no evangelho de Lucas é introduzir Jesus, preparando o povo para a mensagem da Boa Nova.
          
Tendo recebido Jesus a efusão do Espírito no Batismo e tendo sido proclamado como Filho pela voz divina (Lc 3,21-22), é inserida a continuação da história de Israel e do mundo através de sua genealogia (Lc 3,23-28). E antes de iniciar sua atividade, Jesus opta pelo caminho de Messias de Israel, porém abandona os modelos de prestígio e de poder para assumir o modelo de serviço e da fidelidade ao Pai (Lc 4,1-13).
     
O evangelho deste domingo é a continuação do trecho do domingo anterior. No trecho anterior se falou da conversão. O evangelho deste domingo exemplifica como se realiza concretamente a conversão. Em outras palavras, quais são as provas de que uma pessoa realmente se converteu? A verdadeira conversão sempre traz a alegria. Certamente este terceiro domingo é conhecido como Domingo de alegria.
 
A conversão e suas exigências
          
Das multidões que acorriam para serem batizadas, João vai reclamar umfazerque deve ir muito além do ato ritual do batismo. Os homens são chamados a um fazer participativo na obra de Deus. Para João a conversão não é apenas uma atitude interior, uma espécie de sentimento religioso desligado da vida concreta. A conversão tem que ter conseqüências nos campos econômico, político e social. Nesses versículos (3,8-14) o verbofazer” aparece não menos de seis vezes. Dos candidatos ao batismo ele exige que “façam frutos conformes à conversão” (v.8), e os ouvintes (multidão, cobradores e soldados), como mais tarde os de Pedro no Pentecostes (cf. At 2,37), perguntam três vezes: “Que devemos fazer?”.
 
A conversão, mudança de mentalidade, deve traduzir-se por mudança de vida muito concreta, e não é fazer uma teoria. Uma coisa é definir os verdadeiros conceitos da vida, outra, é viver conforme a verdade. Uma coisa é aprender um conceito de felicidade, uma outra, é ser feliz. O que pode determinar a experiência não é o conceito, mas a experiência deve determinar o conceito, senão, frente a puros conceitos não poderíamos fazer nenhuma experiência nova.
          
Para a pergunta de três categorias da sociedade “o que devemos fazer”, João Batista não remete à Torá ou ao culto nem dá uma resposta genérica, mas resposta concreta, de acordo com a situação/profissão ou experiência de vida de cada uma. Eles recebem como resposta um ensinamento preciso sobre a prática nova que autenticará sua conversão. Para João Batista a conversão deve estabelecer uma nova relação com o próximo: amor, solidariedade, respeito pelos bens dos outros e a partilha dos bens elementares necessários à vida, entre eles vestes e alimento (v.11). Todos sempre têm oportunidade de encontrar um pobre que não têm túnica (veste digna) ou comida. Cada um é chamado a fazer o bem, segundo suas possibilidades e seu estado de vida.
          
A primeira categoria de pessoas é a multidão. Para a multidão, a conversão consiste em uma exigência de solidariedade que consiste na partilha dos bens elementares necessários à vida para os necessitados; entre eles vestes e alimento (v.11); repartir o que se tem com aqueles que nada têm. Muitas vezes acontece que o que sobra para um, faz falta para o outro. Quantas pessoas estão com roupas demais até nem chegam a usar todas, enquanto o pobre não tem nada para se vestir. Quantas pessoas têm alimento em abundância, enquanto muitos morrem de fome. Por isso, para a multidão, João Batistaeste conselho: “Quem tiver duas túnicas, reparta-as com aquele que não tem, e quem tiver o que comer, faça o mesmo” (v.11b). Essa atitude pressupõe o desapego dos bens materiais ou ser pobre em espírito (Mt 5,3) e a vivência do amor fraterno. Enquanto existem no mundo desigualdades e riquezas escandalosas ao lado da miséria e da fome, é inútil esperar que o Senhor, nosso Salvador, possa, manifestar-se na nossa vida.
          
A segunda categoria é os cobradores de impostos. Eles são os judeus agentes de alfândegas ou arrecadadores de impostos. Para os fariseus, eles eram pecadores. Na verdade, pode-se distinguir duas classes: 1).Os chefes do sistema de arrecadação de impostos. São pessoas muito ricas, geralmente chefes de famílias da alta sociedade de Jerusalém. Uma das coisas que faziam era tomar em forma de aluguel muitos postos de alfândegas. Para cada posto de alfândega estipulavam um piso de arrendamento que era necessário entregar ao poder romano. Os ingressos superiores a esse piso ficavam com o arrendatário como ganho pessoal. Tudo isso fomentava a exploração e a fraude. Geralmente uns e outros ganhavam às custas do povo. 2). Os publicanos ou os cobradores locais. A maior parte dos que faziam esse trabalho eram pobres ou escravos empregados por “uma agência de arrecadação” de algum grande arrendatário, que os mandava embora ao menor problema. O povo devia pagar direitos de alfândega e de pedágio à entrada dos povoados nas pontes, vaus e encruzilhadas dos caminhos. Para sobreviver, os publicanos tinham de exigir uma quantidade superior à tarifa oficial.
          
Os cobradores de impostos, então, são representantes daqueles que compram e vendem ou fazem seus negócios sem qualquer escrúpulo, pensando em suas próprias vantagens; de quem sonega impostos; de quem trama negociatas em prejuízo do Estado; de quem se aproveita da ingenuidade dos humildes para explorá-los para se enriquecer. Para essas pessoas existe a misericórdia de Deus se voltarem ao caminho do Senhor ou se converterem-se de tudo que elas cometeram.
         
Aos olhos de todo sacerdote e fariseus, os cobradores de impostos eram “pecadores”, não porque muitas vezes se mostravam gananciosos por sua cobiça, mas também porque, constituindo agentes do poder romano, eram considerados traidores da pátria e inimigos de Deus. Visto que para os judeus o único imposto legítimo é o que se paga ao Templo. Por isso, podemos entender o motivo de João Batista em dizer-lhes: “Não deveis exigir nada além do que foi prescrito” (v.13). João Batista se levanta contra uma forma escandalosa de enriquecimento de uns mediante o abuso de seu poder sobre os outros. A conversão exigia deles apenas o cumprimento honesto de sua profissão e não abusem do próprio cargo para explorar os mais pobres e indefesos. João Batista mostra que também para eles, cobradores de impostos, há misericórdia e possibilidade de salvação. Única condição requerida é a prática da justiça na sua tarefa profissional. Dentre eles Jesus irá escolher um apóstolo, Mateus- Levi(5,27), e não desdenhará a sua companhia(Lc 5,29-32;19,1-10).
          
A terceira categoria, que procura João Batista sobre o que  deve-se fazer, é os soldados. Trata-se dos judeus mercenários a serviço de Herodes Antipas ou do corpo policial que assessorava na arrecadação de impostos. Eles eram mal remunerados. Eles eram dispensados do serviço militar romano desde o tempo de Júlio César. Eles foram, também, movidos pelo apelo de João Batista e procuravam o batismo de conversão. Também os soldados eram para os fariseus considerados como pecadores em virtude de sua profissão. Porque a grande tentação do homem com poder na mão era querer enriquecer por meio da violência e da opressão contra a pessoa humana. João Batista não exige deles que abandonem a sua profissão. Eles devem, porém, evitar toda espécie de violência, e as acusações falsas com o intuito de extorquir dinheiro. Para João Batista o fruto da conversão sincera consiste no agir honesto e humano na situação concreta da vida social e profissional.
        
Quem se preocupa com a conversão sempre se pergunta, como as três categorias de pessoas acima mencionadas: o que devo fazer para melhorar minha vida e meu relacionamento com os outros e com Deus ? Em que devo me converter? O que precisa ser tirado do caminho deixando a estrada livre para o Espírito de Deus agir em mim? O que precisa ser eliminado para a festa ser autêntica diante de Deus? O que de bom tenho produzido para apresentar com alegria ao Senhor neste Natal? O que está atrapalhando a chegada do Senhor a mim? Tudo isto é um primeiro passo para a conversão. Não seremos nós, muitas vezes, como os cobradores de impostos e os soldados na época de Jesus, aproveitando-nos do cargo que ocupamos, da profissão que exercemos para impor-nos sobre os demais, para oprimir os mais fracos, enquanto ficamos submetidos às pessoas importantes ? Não é abuso de poder despedir um empregado por ciúmes, negar um favor por simples antipatia e fazê-lo, ao invés, a alguém que é amigo ? Precisamos examinar nossas atitudes básicas com total sinceridade e sem mecanismos de defesa e escusas que encobrem nosso egoísmo.
   
O terceiro domingo do Advento é conhecido como Domingo Gaudete (alegria). Na segunda leitura, São Paulo nos convida a sermos alegres no Senhor: “Irmãos, alegrai-vos sempre no Senhor; eu repito, alegrai-vos!” (Fl 4,4). Os cristãos devem saber que a Boa Nova da salvação é uma mensagem de alegria e que a chamada à conversão é uma mensagem de alegria, pois somente através da conversão pode acontecer a libertação, e a libertação é sempre uma alegria. Quem passou anos em uma prisão experimentou profundamente a importância da libertação que traz consigo a alegria. A alegria cristã está fundada na vitória de Cristo sobre a morte, e não uma alegria qualquer. A alegria do Evangelho é uma alegria que vem do Alto, mas que ao mesmo tempo deve brotar de um coração de homem. Por isso, apesar das dificuldades e contradições aparentes, o futuro de quem acredita em Cristo está garantido. A alegria, a princípio, é reservada aos pobres e aos pecadores que se convertem, pois somente eles podem vislumbrar a natureza da salvação que Jesus traz consigo e que concede a alegria. 
          
Para viver a alegria da vinda do Senhor, justamente, temos que nos aprofundar na conversão contínua e na vivência do amor fraterno. É necessário sermos homens e mulheres vazios de si mesmos, humildes, receptivos, abertos a Deus e aos irmãos, sem egoísmo, sem abuso do poder, amigos da compartilha, e dispostos a sermos enriquecidos com a contribuição humana e espiritual dos outros, inclusive dos mais pobres. Certamente, Jesus comunica uma alegria que é dele, tão somente àqueles que observam o mandamento novo do amor sem fronteiras, como mais tarde Ele dirá: “Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e permaneço no Seu amor. Digo-vos estas coisas para que a minha alegria esteja em vós e vossa alegria seja completa” (Jo 15,10-11). Esta alegria, então, não é um bem para o consumo privado. É preciso testemunhá-la, compartilhá-la com os outros, como diz São Paulo: “Alegrai-vos sempre no Senhor; eu repito, alegrai-vos. Que a vossa bondade seja conhecida de todos os homens. O Senhor está próximo” (Fl 4,4-5).
          
E a Eucaristia da qual participamos é e deve ser sempre a celebração da verdadeira alegria, pois a Eucaristia é o céu aqui na terra. Quem for à missa ou participar da mesma, ele estará indo para o céu logo aqui na terra. Ela é o banquete celeste na terra. Os cristãos devem descobrir que em sua diversidade, são constituídos irmãos e irmãs pela graça de Cristo, pois eles estão reunidos por acreditarem no mesmo Cristo e viverem o mesmo ideal de Cristo que faz desmoronar os muros de separação entre os homens. Por isso, ela deve ser celebrada alegremente e os participantes devem sair alegremente e contagiar os outros com a mesma alegria: uma alegria partilhada. Se não a Eucaristia carecerá de sentido e se tornará uma obrigação de participá-la por medo de cometer pecado, se não for à missa. Quem se preocupa com regras, ama pouco e vive sem alegria na vida.
     
A exemplo de João Batista, também somos chamados, através do batismo, a ser precursores de Jesus Cristo. O nosso aparecimento não deve nem pode diminuir a grandeza de Jesus. A nossa missão é levar as pessoas para Jesus e não para nós. Isto exige muito esvaziamento. Será um grande erro se deixarmos que fiquemos na frente de Jesus, embora dure apenas por alguns minutos (cf. Mt 16,23). A nossa tarefa é apontar para Jesus para que as pessoas possam vê-Lo sempre e não para elas nos verem. Para isso, precisamos nos converter diariamente e voltar para o nosso próprio lugar, pois somos apenas seguidores de Jesus, o nosso Mestre. Quando ocuparmos o nosso lugar, a paz vai reinar a nossa vida. Como dizia Santo Agostinho: “A paz é a tranqüilidade de ordem”. 
 
P. Vitus Gustama,svd

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