terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

DEUS SE ENCONTRA NO COTIDIANO DE NOSSA VIDA 

Quarta-feira da IV Semana do Tempo Comum
06 de Fevereiro de 2013

Texto: Mc 6,1-6

Jesus voltou com os seus discípulos para a cidade de Nazaré, onde ele tinha morado. No sábado começou a ensinar na sinagoga. Muitos que o estavam escutando ficaram admirados e perguntaram: - De onde é que este homem consegue tudo isso? De onde vem a sabedoria dele? Como é que faz esses milagres? Por acaso ele não é o carpinteiro, filho de Maria? Não é irmão de Tiago, José, Judas e Simão? As suas irmãs não moram aquiPor isso ficaram desiludidos com ele. Mas Jesus disse: - Um profeta é respeitado em toda parte, menos na sua terra, entre os seus parentes e na sua própria casa. Ele não pôde fazer milagres em Nazaré, a não ser curar alguns doentes, pondo as mãos sobre eles. E ficou admirado com a falta de que havia ali.

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Apesar da recusa e da tentativa de matar Jesus da parte do poder religioso (Mc 3,6), o entusiasmo do povo (Mc 1,33; 2,2.12) continua aumentando. Aumenta cada vez maior o numero de pessoas que corre atrás de Jesus tanto de todas as partes de Palestina como dos territórios pagãos (cf. Mc 3,7-8). Mas surge a pergunta: o que pensa essa multidão de Jesus? O que procura em Jesus? Quem é Jesus para essa multidão toda?  Será que crêe nele? Nenhuma resposta pode ser dada a estas perguntas.

 
Jesus está de volta para sua terra, Nazaré. Mais ou menos durante trinta anos vivendo em Nazaré, convivendo com as pessoas comuns de Nazaré, vivendo com elas e Ele era tão comum como seus conterrâneos. Mais ou menos trinta anos mantendo-se tão semelhante àquele povo que não se notava diferença alguma entre Ele e Tiago, José, Judas ou Simão. Mais ou menos durante trinta anos morando num lugar desconhecido e desprezado. Até um dos futuros discípulos de Jesus, Natanael, lançará esta pergunta: “De Nazaré pode sair algo de bom?” (Jo 1,46). Jesus está de volta para Nazaré depois que instituiu os Doze (Mc 3,13-19). Ele volta para suas raízes antes de continuar sua missão itinerante. Agora é a hora de se manifestar e de receber o juízo de seu povo sobre ele. O que pensa o povo de Nazaré sobre Jesus? Quem é Jesus para seus conterrâneos? Será que Deus tem um aspecto tão humano? Será que é possível Deus estar tão próximo dos homens comuns como os de Nazaré? Será que Deus não pode estar tão perto dos homens no seu dia a dia como em Nazaré? Ou onde está Deus? Onde Deus habita?

 
É preciso abrir os olhos e deixar o coração aberto para poder experimentar Deus e sentir Sua presença no cotidiano, no aspecto cotidiano da vida. Deus está aqui e agora. Sinta e experimente Sua presença! Aprenda a saborear o momento, mesmo que ele não dure para sempre. Há momentos de nossas vidas que podem ser eternos mesmo que não sejam permanentes, por causa da presença da própria eternidade que é Deus. Deus sempre nos surpreende, porque na sua atuação ele não tem esquemas prévios, métodos preestabelecidos, lógica precisa ou raciocínio bem lógico. Pode desistir de uma lógica, mas não desista da vida cuja origem está em Deus! Deus está sempre acima de nosso raciocínio, “Pois meus pensamentos não são os vossos, e vosso modo de agir não é meu” diz o Senhor (Is 55,8). Por isso, onde menos O esperamos, onde O menos imaginamos, Ele aparece, comunicando-se conosco e convivendo conosco (Jo 1,14). “No meio de vós está quem vós não conheceis”, alerta-nos o evangelista João (Jo 1,26). Deus habita e está no homem e não nas paredes de um templo ou de uma igreja (cf. Mt 25,40.45). Os animais não questionam o sentido da vida, mas as pessoas sim porque em cada um de nós há uma dimensão divina e somos imagem de Deus (Gn 1,26) que nos faz perguntar sobre o porquê de nossa vida e de nossa presença sobre a face da terra. Somente a partir de suas interrogações é que o ser humano pode encontrar o sentido de sua vida. Mas Deus quer encontrar seu povo onde este vive e atua, pois Ele o ama e quer sua salvação.

 
A encarnação de Deus em um carpinteiro de Nazaré nos descobre que Deus não é um exibicionista que se oferece em espetáculo. Deus não é o Ser todo-poderoso que se impõe, mas propõe e convida. Podemos descobrir Deus nas experiências mais normais de nossa vida cotidiana: em nossas tristezas inexplicáveis, na felicidade insaciável, na solidão em busca da comunhão, em nosso amor frágil, mas apaixonante, na saudade de uma presença de quem se foi, mas que está presente fortemente na sua ausência, e nos sonhos de uma vida de paz e serenidade, na reconciliação por amor, nas perguntas mais profundas sobre a vida e seu sentido, em nosso pecado mais discreto, nas nossas decisões mais responsáveis, na nossa busca sincera do bem e da verdade, no nossobom dia, boa tarde, boa noite” endereçado para as pessoas para o seu bem, no nossoobrigadopelo bem que o outro fez por nós, no nosso agradecimento pelo novo dia que nos é dado por puro amor de Deus. Por isso, a raiz da incredulidade é precisamente esta incapacidade de acolher a manifestação de Deus no cotidiano.

 
O que necessitamos são uns olhos mais limpos, simples e menos preocupados em ter coisas. As coisas são meios e jamais são fim de nossa vida. Um ônibus é um meio que me leva até o centro da cidade, mas o ônibus não é o centro da cidade. O que necessitamos é uma atenção mais profunda e desperta para o mistério da vida que não consiste somente em terespírito observador” e sim em saber contemplar e acolher com simpatia as inumeráveis mensagens e chamadas que a mesma vida irradia permanentemente. Deus não está longe dos que O buscam. Deus está no centro de nossa vida. Deus nos visita (Lc 1,68; 7,16) como visitou seu povo em Nazaré que jamais ele abandonou. É preciso abrir a porta de nosso lar e de nosso coração para a visita do Senhor como a própria sinagoga em Nazaré aberta para o Senhor entrar nela e falar das coisas essenciais da vida para seu povo reunido nela.

 
Em Nazaré o povo ficou admirado pelo ensinamento de Jesus, mas ficou desiludido por causa de sua origem: “De onde é que este homem consegue tudo isso? De onde vem a sabedoria dele? Como é que faz esses milagres? Por acaso ele não é o carpinteiro, filho de Maria? Não é irmão de Tiago, José, Judas e Simão? As suas irmãs não moram aquiPor isso ficaram desiludidos com ele. Quando seus conterrâneos falam dele, não pronunciam seu nome, o designam somente com pronomes depreciativos para sua pessoa e sua atividade (ele, este etc.). E Jesus “ficou admirado com a falta de que havia ali.  O amor oferecido é recusado. Mas o amor não pode resignar-se diante da recusa. Jesus precisa ir a outras aldeias.


O evangelista Marcos acrescenta um provérbio citado por Jesus para explicar a incompreensão e a falta de de seus conterrâneos: “Um profeta é respeitado em toda parte, menos na sua terra, entre os seus parentes e na sua própria casa. A não se adquire por ativismo ou por herança. A precede aos milagres, nunca ao contrário. Por isso, é inútil montar uma apologética paraprovar” a divindade de Jesus partindo da existência de uns fatos superiores às forças da natureza.

 
Reconhecer em Jesus o Messias, o Ungido de Deus, não é fácil. Somente quem crê, O reconhece, aceita suas palavras e admira suas obras. Muitos olham sem ver e ouvem sem escutar. Cristo continua desconcertando: sua palavra escandaliza, sua mensagem gera oposição e sua vida e obras criam conflitos. Outros O conhecem, O aceitam e sua vida adquire um novo sentido. A madura caminha à descoberta e não evita as perguntas e a obscuridade. Hoje o Senhor nos pede mais n’Ele para realizar coisas que superam nossas possibilidades humanas.

P. Vitus Gustama,svd

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