sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

IV DOMINGODO TEMPO COMUM DO DO ANO  “C”
 
JESUS REJEITADO É A SALVAÇAO AFASTADA

VIVER NO HOJE DE DEUS

 

Domingo,03 de Fevereiro de 2013

Texto: Lc 4,21-30

Naquele tempo, estando Jesus na sinagoga, começou a dizer: 21Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir”. 22Todos davam testemunho a seu respeito, admirados com as palavras cheias de encanto que saíam da sua boca. E diziam: “Não é este o filho de José?” 23Jesus, porém, disse: “Sem dúvida, vós me repetireis o provérbio: Médico, cura-te a ti mesmo. Faze também aqui, em tua terra, tudo o que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaum”. 24E acrescentou: “Em verdade eu vos digo que nenhum profeta é bem recebido em sua pátria. 25De fato, eu vos digo: no tempo do profeta Elias, quando não choveu durante três anos e seis meses e houve grande fome em toda a região, havia muitas viúvas em Israel. 26No entanto, a nenhuma delas foi enviado Elias, senão a uma viúva que vivia em Sarepta, na Sidônia. 27E no tempo do profeta Eliseu, havia muitos leprosos em Israel. Contudo, nenhum deles foi curado, mas sim Naamã, o sírio”. 28Quando ouviram estas palavras de Jesus, todos na sinagoga ficaram furiosos. 29Levantaram-se e o expulsaram da cidade. Levaram-no até ao alto do monte sobre o qual a cidade estava construída, com a intenção de lançá-lo no precipício. 30Jesus, porém, passando pelo meio deles, continuou o seu caminho.

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O texto do evangelho deste domingo ainda é a continuação do evangelho do domingo anterior.

          
A leitura começa no v.21, onde Jesus resume e aplica a seus ouvintes a promessa de Is 61,1-2: “HOJE se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir”.

 
O advérbiohoje” (sèmeron), usado para enfatizar a atualidade da salvação oferecida por Deus em Jesus Cristo, é encontrado também em outras partes do evangelho de Lucas. No nascimento de Jesus, o anjo diz aos pastores: “... Nasceu-vos hoje um Salvador, que é Cristo- Senhor, na cidade de Davi” (Lc 2,11). Na última etapa da sua subida a Jerusalém, Jesus diz a Zaqueu: “Zaqueu, desce depressa. Hoje eu devo ficar na tua casa” (Lc 19,5). E no fim da visita onde se relata a conversão de Zaqueu, Jesus diz: Hoje a salvação entrou nesta casa...” (Lc 19,9). E pouco antes de morrer, a penúltima palavra dita por Jesus na cruz foi a que disse a um dos dois criminosos crucificados ao lado de Jesus: “Hoje tu estarás comigo no paraíso” (Lc 23,43).  

 
Palavra característica da soteriologia lucana “hoje” significa que a profecia de Isaías se torna realidade: aquele de quem falava outrora o profeta chegou. Ele está ai e, com ele, começou o Reino de Deus. Os últimos tempos da história da salvação estão abertos, inaugurados oficialmente pela vinda de Jesus a Nazaré. É umhoje” de Deus no tempo humano, isto é, um momento excepcional de “graça” no desenrolar-se da história dos homens, um momento decisivo na história da salvação. Por isso, “hojenão tem dimensão puramente cronológica. DizerHoje se cumpriu esta passagem da Escritura...” não somente significa que uma antiga promessa se cumpre ou que um texto toma vulto repentinamente, mas, sobretudo, que a humanidade encontrou Deus em Jesus Cristo. Ele é o Emanuel, o Deus- conosco (cf. Mt 1,23;18,20;28,20). Ele é o Messias, A Palavra do Deus vivo. Para acolher a Palavra do Deus vivo e deixar-se modelar por ela, importa apenas seguir Jesus, pois ele é “o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6). Jesus é o único caminho que pode fazer o homem chegar à sua verdadeira dignidade.

          
Na medida em que Jesus inaugura esseano de graça do Senhor”, o “Hoje” da salvação, as suas palavras não poderão ser outra coisa senão palavras “portadoras da graça que Deus faz aos homens (o “ano da graça é uma referência ao ano do jubileu, celebrado em Israel a cada 50 anos, cf. Lv 24,10-13. Sua finalidade era dar a possibilidade de reiniciar a vida para todos aqueles que, por um ou outro motivo, tinham se endividado a tal ponto que haviam perdido a propriedade da família e até a própria liberdade. Nesse ano de jubileu todos podiam recuperar os direitos perdidos, recomeçando vida nova). A palavra proclamada por Jesus na sinagoga de Nazaré é, ao mesmo tempo, palavra de Deus que realiza o que ela anuncia e palavra encarnada em Jesus, diante de quem todo homem tem agora de situar-se, se quiser.

          
A aparição de Jesus é assim para Lucas não somente uma oferta de graça toda especial, mas também uma promessa de vida para todos os que lhe derem a adesão de sua .

          
Mas a presença de Jesus foi rejeitada por motivo da encarnação: Jesus é um deles. Eles esperavam um messias espetacular, capaz de ações mágicas e miraculosas. O segundo motivo da rejeição é a busca de milagres. Os nazarenos querem que Jesus faça milagres em sua terra. Jesus se recusa a ser ídolo de abundância, do prestígio, do poder e da riqueza (cf. Lc 4,1-12 sobre as tentações). Ele não é um exibicionista que esteja querendo se afirmar para ganhar prestígio. Em Nazaré ele não faz milagres porque não reconhecem a pessoa que ele é.

           
No v.24 Jesus responde a reação de seus ouvintes com uma frase solene: ”Em verdade eu vos digo que nenhum profeta é bem recebido em sua pátria”. As palavras de Jesus aqui e em 13,34 refletem uma tradição judaica segundo a qual Israel de rotina rejeitava e perseguia os profetas (2Cr 36,15-16;Sl 78;105;106;Lm 4,13;At 7,51-53). No AT os profetas se apresentam como guias espirituais suscitados por Deus para levar o povo à fidelidade à aliança. Sua função é além de anunciar a Palavra de Deus, também despertar a consciência do povo de que estão sendo infiéis. Se o profeta se dirige ao povo infiel, sua primeira palavra será de denúncia. Toda pessoa tem a tendência a identificar-se com a própria situação, especialmente quando esta lhe traz vantagens. O profeta se distancia da situação e abre os olhos para a verdade do momento. E sendo extremamente fiel à aliança feita outrora com Deus, o profeta é profundamente inovador, pois transmite a palavra do Deus vivo e exige a transformação. Por isso, ele é mais facilmente aceito por quem está fora do sistema vigente. Ele nunca é um personagem aplaudido e elogiado pelas multidões, e menos ainda pelos que retém em suas mãos o poder, porque o profeta contempla o mundo com os olhos de Deus.

          
Jesus é o Messiasprofeta. O destino dele é o destino do profeta: não ser aceito em sua pátria e ser mesmo levado à morte sobre a qual ele vêm a triunfar.

          
Cada cristão é um profeta, uma função que ele recebeu no batismo. Temos consciência desta vocação? Temos coragem de orientar e de corrigir e de aceitar a orientação e a correção dos outros?  Temos medo de dizer a verdade e temos a coragem de aceitar a verdade?

          
Seria um erro pensar que a atitude dos nazarenos não tem nada a ver com a nossa. Quantos de nós impedimos nossos semelhantes de realizarem tudo de bom do que são capazes, simplesmente por falta de valorização, por não o levarmos a sério a bondade que deve ser feita. Quantas vezes também, nós mesmos nos sentimos bloqueados e desencorajados porque não nos dão oportunidade de desenvolver nossas qualidades e colocar nossos dons a serviço. Quantas vezes estamos maravilhados com as palavras cheias de graça que saem da boca de Jesus, mas não entendemos que se realizam hoje para nós. Deixamos assim passar, sem segurá-la, a oferta da salvação. E que não podemos mais agarrar Jesus e silenciá-lo, tentamos negar as evidências, neutralizar às vezes violentamente os profetas, que hoje ainda, o proclamam. Mas Jesus passa por entre nós e nos escapa; ele vai seguindo o seu caminho longe de nós, para outros homens que o escutam. A única saída para nós é abandonar as falsas seguranças, os medos e as pretensões que nos mantém prisioneiros.

          
Em segundo lugar, como os nazarenos que dizem “Não é este o filho de José?”, também o mundo moderno até o mundo eclesial, exige “status”, exige relevância pública, exige título de honraria, capacidade política ou eficiência contestadora. Jesus nem é de descendência nobre, nem de família extraordinária, nem detentor de títulos políticos ou acadêmicos. É um de nós... de nós que somos todos medíocres. Como os nazarenos, perdemos também a percepção da extraordinária presença do Espírito de Deus nas pessoas tãonormais”, tãocomuns”, como nossos padres, nosso superior, nosso irmão, nosso pai, nossa mãe, nosso funcionário etc. Somente o simples tem olhar penetrante.

          
Tudo isso nos leva a nos perguntarmos: Será que enxergamos algo do “hoje se cumpriu este oráculo”? Será que cremos de fato que Deus pode usar o “fraco” e “insuficientepara confundir o que se julga “forte”?(1Cor 1,26-31). Como os compatriotas de Jesus, as próprias pessoas de Igreja podem duvidar da ação e da palavra de Jesus. E o que vai acontecer ? Jesus vai procurar quem nele acredita. Se os de dentro não aceitam, Jesus procura os de fora, onde encontra mais . Se não reaprendermos a ter um olhar de , na verdade, não vivemos ainda na Igreja.

          
Ainda hoje, como aconteceu em Nazaré, existe gente que faz questão de milagres e manifestações fora do comum para identificar a presença de Deus. Era assim também na comunidade de Corinto, para a qual Paulo escreveu o trecho que lemos na segunda leitura deste domingo. Mas Paulo diz queum sinal indispensável, que fala mais alto do que qualquer milagre e maior do que qualquer milagre e sem o qual nada disso tem valor: é a CARIDADE, o amor que deve circular na convivência e se transformar em serviço para todos, dentro e fora da Igreja. Não podemos confundir a caridade  com o sentimentalismo nem com uma simples camaradagem, nem com o sentimento de superioridade de ter mais para ajudar quem se encontra numa dificuldade, mas porque sou uma parte do corpo da humanidade como relembra São Paulo aos Coríntios( cf. 1Cor 12,12ss), que me move a curar a parte doente desse corpo porque como uma parte integrante desse corpo fui ou sou atingido pela dor que outra parte está sentindo. Se cada ser humano arrancasse de si o que tem de bom, quanta bondade teria no universo! Precisamos parar de viver somente do paradigma- conquista para viver o paradigma- partilha. Mostrando as garras da exploração e do egoísmo, elevamos a nossa voz para entoar cantos de agressão, em vez de erguer o hino da fraternidade universal. uma comunidade ou convivência onde se cultiva a caridade pode ser um sinal da presença do Espírito de Deus que fortalece e une a Igreja ou uma convivência. Todos os outros dons podem ser úteis, desde que estejam a serviço desse sinal maior, sem o qual não podemos ser considerados seguidores de Jesus. O grande milagre que se espera dos cristãos é caridade.

P. Vitus Gustama,svd

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