sexta-feira, 1 de março de 2013

III DOMINGO DA QUARESMA DO ANO “C”

 CONVERSÃO: VOLTAR A AMAR DEUS E AO PRÓXIMO
 
 
Domingo, 04 de Março de 2013
 

Texto: Lc 13,1-9

 
1Naquele tempo, vieram algumas pessoas trazendo notícias a Jesus a respeito dos galileus que Pilatos tinha matado, misturando seu sangue com o dos sacrifícios que ofereciam. 2Jesus lhes respondeu: “Vós pensais que esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus, por terem sofrido tal coisa? 3Eu vos digo que não. Mas se vós não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo. 4E aqueles dezoito que morreram, quando a torre de Siloé caiu sobre eles? Pensais que eram mais culpados do que todos os outros moradores de Jerusalém? 5Eu vos digo que não. Mas, se não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo”. 6E Jesus contou esta parábola: “Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha. Foi até ela procurar figos e não encontrou. 7Então disse ao vinhateiro: ‘Já faz três anos que venho procurando figos nesta figueira e nada encontro. Corta-a! Por que está ela inutilizando a terra?’ 8Ele, porém, respondeu: ‘Senhor, deixa a figueira ainda este ano. Vou cavar em volta dela e colocar adubo. 9Pode ser que venha a dar fruto. Se não der, então tu a cortarás’”.
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Os dois acidentes relatados no evangelho lido neste dia são exclusivos do evangelho de Lucas. O episódio do massacre relatado neste evangelho comandado por Pilatos é ignorado pelas fontes profanas durante a administração de Pilatos (de 26-36 d. C). José Flávio, o grande historiador judeu, relata somente um massacre comandado por Pilatos em 35 d. C. por ocasião de uma romaria de samaritanos ao monte Garizim, por suspeita de um complô contra o domínio romano; gesto que para Pilatos valeu a destituição do cargo e o exílio para as Gálias. Enquanto os sacrifícios devem ser feitos somente em Jerusalém. Também o segundo episódio não é confirmado pelos documentos profanos.
 
 
Os que relatam os dois acontecimentos a Jesus querem provocar o juízo e uma tomada de posição de Jesus. Jesus dá uma resposta que aparentemente ignora estes problemas. Jesus contesta o sistema farisaico e o conseqüente preconceito religioso popular que estabeleceu uma perfeita equação entre o pecado e o castigo, e que no caso presente chegava a esta conclusão: nós somos justos porque não merecemos esse fim horrível.
 
 
 “Vós pensais que esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus, por terem sofrido tal coisa? 3Eu vos digo que não. Mas se vós não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo”. Esta é a resposta de Jesus para os que relataram os dois acontecimentos.  Com essa afirmação Jesus vai contra uma idéia muito presente no seu tempo, segundo a qual doença, infortúnio, pobreza são conseqüências das faltas cometidas por quem sofre essas situações. Em outras palavras, ele é contra o dogma de retribuição dos fariseus que diz que o destino de um homem está intimamente relacionado com a sua culpa diante de Deus. O homem não pode encaixar a ação de Deus nos esquemas preestabelecidos para seu próprio privilégio e prestígio e se transformar em contador de Deus.
 
 “Se não vos converterdes, perecereis todos do mesmo modo”. A conversão é polivalente. Em sentido geral indica mudança de vida; deixar o comportamento habitual de antes para empreender outro novo; prescindir da busca egoísta de si mesmo para colocar-se a serviço do Senhor. Conversão é toda decisão ou inovação que de alguma forma nos aproxima da vida divina, nos torna mais conformes a ela e nos tornamos mais irmãos com os demais.
 
Na Bíblia, a noção básica da conversão é a mudança. Envolve voltar-se do pecado, da morte e das trevas para a graça, a nova vida e luz. A ação dual de voltar-se sempre leva a pessoa a um novo nível de existência humana. É uma mudança total do próprio modo de pensar e de agir, uma renovação total e integral do eu. É um abandono total em Deus. Somente abandonando-se a Deus a ponto de se deixar transformar inteiramente por Ele e permanecer amistosamente abraçado com Ele, é possível esperar ser salvo.
 
O móvel da conversão não é tanto a ameaça de castigo ou de perder a salvação, quanto a fascinação de penetrar na vida do amor trinitário divino. A conversão conduz as pessoas juntas à maturidade espiritual, que se reflete em sua aversão ao mal e sua atração pelo bem. Um aspecto da conversão específico do NT é estar intimamente ligado à pessoa de Jesus Cristo, em quem o Reino se realiza. A conversão é realidade cristológica. É a união com o corpo de Cristo e íntimo conhecimento pessoal de Jesus Cristo como Senhor ressuscitado e Salvador. Esta conversão total não pode ser obra do homem; é tarefa que supõe dom e graça com a resposta positiva da parte do homem. Só pode realizar-se como participação do mistério pascal de Cristo. A conversão somente se realiza na fé; propõe-se como resposta ao chamado de Deus, como correspondência à graça redentora.

 
Embora a conversão seja experiência individual, o entendimento bíblico é que é sempre relacional. Esta relação é bidirecional, sendo vertical e horizontal. A conversão nos leva a um novo relacionamento com Deus e com outros seres humanos. No AT, o relacionamento da aliança com Deus é essencial e, no NT, o relacionamento com Jesus Cristo é primordial. Mas ambos levam a novos inter-relacionamentos humanos com responsabilidades e privilégios na comunidade. Por isso, o chamado bíblico à conversão é apropriadamente dirigido a comunidades e não simplesmente a indivíduos.
 
A conversão também envolve mudanças internas (de atitude) e externas (comportamentais) na vida. A autêntica conversão cristã nunca está separada de ações concretas que espelham a realidade interior mudada. Assim, a conversão sempre leva a algum aspecto de responsabilidade e justiça sociais.
 
 
Além disso, o efeito proeminente da conversão é o impulso de dar testemunho aos outros e, conseqüentemente, evangelizar. Como a conversão é, tantas vezes, uma profunda mudança existencial na vida, é natural que as pessoas tenham o impulso de difundir a “Boa Nova”. De certa forma, podemos dizer que a evangelização é definitivamente o resultado da conversão, mas precisa ser vista na perspectiva apropriada da mensagem total da constante conversão para todos. A conversão não é uma “carreira” acabada e sim inacabada. Trata-se de um trabalho silencioso de cada dia. Ninguém é convertido definitivamente enquanto estiver ainda na história.
 
A conversão é crescimento contínuo; não é um acontecimento instantâneo, pontual e de uma vez por todas; não é uma carreira acabada, mas que constitui um crescimento sem interrupção e ascendente. Por mais decidida que seja a entrega de um cristão ao Reino, ela tenderá sempre a ser precária. De um coração convertido aos valores do Reino e do Evangelho se seguirão naturalmente os frutos visíveis de uma conversão que atinge a realidade da vida.

Existem, hoje, vários níveis de interligação de sofrimento com culpa. Muita gente hoje em dia ainda se parece com os fariseus que mantém o sistema ou o dogma de retribuição. Alguém como que temendo por causa de culpa impessoal, coletiva e inconsciente, refugia-se sob a suposta proteção de um rito. Diante da ameaça de um raio, por exemplo, benze-se com o sinal da cruz. Para essas pessoas será útil saber que nenhum rito nos protege perante Deus se o coração continua habitado pelo pecado. Evidentemente, quem vive em disposição constante perante Deus, pode em momento de perigo significar por um sinal da cruz o seu constante abandono na misericórdia de Deus. Sem esta atitude, o rito é vazio e desonra a Deus.
    

Jesus quer nos libertar dessa concepção que por um lado, impede-nos de enfrentar as verdadeiras causas dos males que ocorrem conosco ou na sociedade, remetendo-os a demônio para desviar alguém da própria responsabilidade ou a uma espécie de fatalidade que nos leva a nos afundarmos na passividade. Por outro lado, Jesus quer nos apresentar a imagem do Deus de amor e de vida e não de um Deus de castigo.  Pecar é não dar fruto, não produz nada pelo bem da humanidade ou dos outros. Esta é a mensagem da parábola da figueira estéril. Esse Deus que Jesus nos apresenta espera com paciência, até o último minuto de nossa vida, os bons frutos que produzimos.


Para os ouvintes de Jesus era familiar a imagem da figueira infértil, para indicar o comportamento infiel do povo de Deus (cf. Jr 8,13; Mq 7,1). Mas esta imagem é atual ainda. A parábola da figueira estéril revela-nos um Deus paciente e bondoso conosco. Mas ele é paciente para esperar que produzamos bons frutos para o Seu Reino.


Que tipos de frutos estamos/estou produzindo? Esta figueira que Jesus fala é cada um de nós, nossa família, a Igreja e a sociedade. Que frutos de fraternidade nós produzimos? A figueira estéril que Jesus fala não está longe de nós. Quem sabe se não está dentro de nós, na nossa família, na nossa comunidade?

P. Vitus Gustama,svd

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