sábado, 1 de março de 2014

 
VIVER COM PROPÓSITOS CLAROS É VIVER COM SENTIDO


Quinta-Feira Depois Das Cinzas

 06 de Março de 2014

 
Primeira Leitura: Dt 30,15-20


Moisés falou ao povo dizendo: 15 “Vê que eu hoje te proponho a vida e a felicidade, a morte e a desgraça. 16 Se obede­cerdes aos preceitos do Senhor teu Deus, que eu hoje te ordeno, amando ao Senhor teu Deus, seguindo seus caminhos e guardando seus mandamentos, suas leis e seus decretos, viverás e te multiplicarás, e o Senhor teu Deus te abençoará na terra em que vais entrar, para possuí-la. 17 Se, porém, o teu coração se desviar e não quiseres escutar, e se, deixando-te levar pelo erro, adorares deuses estranhos e os servires, 18 eu vos anuncio hoje que certamente perecereis. Não vivereis muito tempo na terra onde ides entrar, depois de atravessar o Jordão, para ocupá-la. 19 Tomo hoje o céu e a terra como testemunhas contra vós, de que vos propus a vida e a morte, a bênção e a maldição. Escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e teus descendentes, 20 amando ao Senhor teu Deus, obedecendo à sua voz e apegando-te a ele, pois ele é a tua vida e prolonga os teus dias a fim de que habites na terra que o Senhor jurou dar aos teus pais Abraão, Isaac e Jacó”.

 

Evangelho: Lc 9, 22-25

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 22“O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e doutores da Lei, deve ser morto e ressuscitar no terceiro dia”. 23Depois Jesus disse a todos: “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia e siga-me. 24Pois quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, esse a salvará. 25Com efeito, de que adianta a um homem ganhar o mundo inteiro, se se perde e se destrói a si mesmo?”
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Na vida nos encontramos com duas realidades bem definidas: o caminho da vida, pelo qual todos nós aspiramos; e o caminho da morte, contra tudo que lutamos. O tema dos dois caminhos, o caminho da vida e o caminho da morte, é muito típico das literaturas religiosas da antiguidade como encontramos no terceiro discurso que o Deuteronômio põe na boca de Moisés que lemos na primeira leitura de hoje (Dt 30,15-20) .


Moisés apresenta a Israel dois caminhos incompatíveis: vida ou morte, bênção ou maldição de acordo com a escolha feita entre servir a Deus ou optar pela idolatria. A vida e a felicidade, segundo as Sagradas Escrituras, dependem da obediência aos mandamentos do Senhor. O caminho da morte e da desgraça parte do coração desviado, da idolatria. A chamada de Deus é uma opção que coloca o homem diante do dilema da bênção ou da maldição divinas. É óbvio que o Senhor exorta amavelmente a cada pessoa a escolher a senda boa e certa.


Trata-se de duas opções possíveis, sempre oferecidas para nossa livre escolha de cada dia, porém suas conseqüências são totalmente diferentes. Ninguém pode tomar o veneno mortal sem aceitar sua conseqüência fatal. Diariamente cada pessoa deve perguntar-se: que escolha que vou fazer hoje e quais são conseqüências desta escolha? Quando começarmos a levar a sério o nosso ser, não viveremos mais na superficialidade. Para quem sabe o que quer e ama seu propósito e seus sonhos e não descansa até vê-los realizados, tudo o que espera chegará. O propósito é um estilo de vida, uma atitude, uma convicção e uma posição que cada pessoa deve assumir assim que o novo dia começar. Um provérbio japonês diz: “Não diga que é impossível. Diga, simplesmente, ainda não fiz”. O filósofo Epicteto dizia: “Se tu procuras algo bom, procura-o em ti mesmo até que o encontres”. Tudo parte de nosso coração.


Contemplando nossa realidade, percebemos que há alguns ou muitos lados escuros de nossa vida como fruto do egoísmo do ser humano. Muitos confundiram a felicidade com o possuir o passageiro. Os homens dessa classe se tornam, muitas vezes, compradores compulsivos de coisas que finalmente lhes continua deixando o coração vazio, pois, mais uma vez, os bens materiais continuam sendo alheios a nós. Precisamos de alguém, e não de algo, com quem possamos nos abafar e contar nossos sucessos e fracassos.


Jesus Cristo nos ensina, não somente com palavras, e sim com seu próprio exemplo que o caminho da felicidade, o caminho da vida se encontra na capacidade de nos relacionarmos com os demais e de vivermos fraternalmente unidos pelo amor. Por isso, temos de ir atrás das pegadas de Cristo, carregando nossa cruz de cada dia. Quem andar por um caminho diferente ao de amor que Cristo nos mostrou, em lugar de dar vida, dará morte, e ele próprio se converterá em destruidor da vida alheia e da própria vida.


A glória de Cristo passa, primeiro, pela cruz. E passa pela cruz como conseqüência de sua maneira de viver a missão cuja alma é o amor, a partilha, a igualdade, a fraternidade, a compaixão... Por isso, a cruz de Jesus não é um acidente, tampouco uma equivocação. Quando Jesus anuncia sua morte, não está dizendo outra coisa que assumirá conseqüentemente sua vida justa e solidária. Mas não somente anuncia sua morte, anuncia também sua ressurreição. É a ressurreição que somente virá como conseqüência de sua morte na cruz pela vida justa e solidaria que ele viveu. O ressuscitado é o crucificado. Jesus realmente vive com o propósito claro: sabe o que quer e sabe o que vai alcançar. Jesus não pára no meio do caminho sabendo das conseqüências de sua missão, porém sabe muito mais o bom resultado.


Por isso, podemos ter metas, projetos, propósitos, mas sem autoestima, os resultados que esperamos continuarão sem aparecer. Na verdade, todos nós nascemos gênios, mas infelizmente muitos morrem na mediocridade, pois não sabem o que querem e não lutam para alcançar o que querem. Sêneca dizia: “Nenhum vento é bom para o barco que não sabe aonde vai”.


“Tomar a cruz”, por isso, não é outra coisa que assumir o projeto de vida que Jesus nos mostrou. A cruz é o resultado de decisões voluntárias e compromissos escolhidos ao querer seguir a Jesus e assumir seu projeto. Carregar a cruz é um estilo de vida cotidiano como resultado da ênfase sobre os valores do Reino, de escolher uma ética de justiça e de solidariedade e de comprometer-se com o projeto de Deus na transformação de um mundo mais fraterno.


Portanto, as leituras de hoje nos falam, por um lado, de um coração resistente diante de Deus, e por outro lado, de um coração que se adere a Deus. Meu coração é resistente diante de Deus quando não quero ver Sua graça, quando não quero ver Sua obra na minha vida, quando não quero ver Seu caminho sobre a minha existência. Meu coração se adere a Deus, quando em meio de mil inquietudes e vicissitudes, em meio de mil circunstancias, eu vou sendo capaz de descobrir, de encontrar, de amar, de pôr-me diante d’Ele e Lhe dizer: “Aqui estou, Senhor! Pode contar comigo!”. Escutar Deus será o esforço de toda minha quaresma, será a minha escolha da vida e da felicidade. O céu e a terra são testemunhas da minha opção de cada dia: “«Tomo hoje por testemunhas contra vós o céu e a terra; ponho diante de vós a vida e a morte, a bênção e a maldição. Escolhe a vida para viveres, tu e a tua descendência, 2amando o SENHOR, teu Deus, escutando a sua voz e apegando-te a Ele, porque Ele é a tua vida e prolongará os teus dias para habitares na terra, que o SENHOR jurou que havia de dar a teus pais, Abraão, Isaac e Jacob.»


Um dia Brahma (Deus criador do universo no hinduísmo) na reunião com outros deuses se pronunciou solenemente: “Já tomei uma decisão. Vamos guardar nosso segredo (de felicidade) num lugar no qual os mortais (homens) jamais procurariam. Nós o esconderemos dentro deles mesmos (no seu coração)”.  Nossa felicidade está dentro de nosso coração. O caminho para lá é bem longe e duro. Tudo parte de nosso coração. Como está seu coração?

P. Vitus Gustama,svd

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