quarta-feira, 9 de abril de 2014

 
DEUS ESTÁ DO LADO DO BEM E DO AMOR

Sexta-Feira da V Semana da Quaresma
11 de Abril de 2014
 

Primeira Leitura: Jr 20,10-13

10 Eu ouvi as injúrias de tantos homens e os vi espalhando o medo em redor: “Denunciai-o, denunciemo-lo”. Todos os amigos observam minhas falhas: “Talvez ele cometa um engano e nós poderemos apanhá-lo e desforrar-nos dele”. 11 Mas o Senhor está ao meu lado, como forte guerreiro; por isso, os que me perseguem cairão vencidos. Por não terem tido êxito, eles se cobrirão de vergonha. Eterna infâmia, que nunca se apaga! 12 Ó Senhor dos exércitos, que provas o homem justo e vês os sentimentos do coração, rogo-te me faças ver tua vingança sobre eles; pois eu te declarei a minha causa. 13 Cantai ao Senhor, louvai ao Senhor, pois ele salvou a vida de um pobre homem das mãos dos maus.


Evangelho: Jo 10,31-42

Naquele tempo, 31os judeus pegaram pedras para apedrejar Jesus. 32E ele lhes disse: “Por ordem do Pai, mostrei-vos muitas obras boas. Por qual delas me quereis apedrejar?” 33Os judeus responderam: “Não queremos te apedrejar por causa das obras boas, mas por causa de blasfêmia, porque sendo apenas um homem, tu te fazes Deus!” 34Jesus disse: “Acaso não está escrito na vossa Lei: ‘Eu disse: vós sois deuses’?  35Ora, ninguém pode anular a Escritura: se a Lei chama deuses as pessoas às quais se dirigiu a palavra de Deus, 36por que então me acusais de blasfêmia, quando eu digo que sou Filho de Deus, eu a quem o Pai consagrou e enviou ao mundo? 37Se não faço as obras do meu Pai, não acrediteis em mim. 38Mas, se eu as faço, mesmo que não queirais acreditar em mim, acreditai nas minhas obras, para que saibais e reconheçais que o Pai está em mim e eu no Pai”. 39Outra vez procuravam prender Jesus, mas ele escapou das mãos deles. 40Jesus passou para o outro lado do Jordão, e foi para o lugar onde, antes, João tinha batizado. E permaneceu ali. 41Muitos foram ter com ele, e diziam: “João não realizou nenhum sinal, mas tudo o que ele disse a respeito deste homem, é verdade”. 42E muitos, ali, acreditaram nele.

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As duas leituras deste dia nos apresentam dois justos que sofrem: o profeta Jeremias e Jesus. Os adversários os atacam porque os dois fizeram o bem. Quando os nossos próprios interesses estiverem em jogo, seremos incapazes de enxergar o que é bom e correto, pois pensaremos e defenderemos apenas as nossas próprias vantagens. Muitos ainda não entenderam que o que ganhamos aqui neste mundo, materialmente, vai ficar aqui mesmo. O que tem marca do mundo fica no mundo. O que tem marca divino, vai para a eternidade.


Jeremias foi chamado por Deus para ser profeta quando tinha menos de vinte anos. Ele foi chamado por Deus para anunciar desgraça e catástrofes se o povo não se converter. Mas sua mensagem foi mal recebida pelo povo, por seus familiares e pelas autoridades. Eles tramaram a morte do profeta Jeremias, e ele estava consciente disso. Apesar disso, o profeta continuava a confiar em Deus firmemente: “O Senhor está ao meu lado, como forte guerreiro; por isso, os que me perseguem cairão vencidos... Ele salvou a vida de um pobre homem das mãos dos maus”.


Jeremias representa tantas pessoas que sofrem como inocentes e justos neste mundo, mas que continuam a pôr sua confiança em Deus e seguem adiante nesta vida. Como o Salmista eles continuam a rezar: “Meu Deus, sois o rochedo que me abriga, minha força e poderosa salvação, sois meu escudo e proteção: em vós espero!” (cf. Sl 17- Salmo responsorial).


O evangelho nos apresenta um clima cada vez mais tenso entre os judeus e Jesus. Contra Jesus os adversários reagiram com mais violência ainda em comparação com a violência contra o profeta Jeremias que terminará na crucificação de Jesus. Os seus adversários seguraram pedras nas mãos para eliminar Jesus.


Os judeus querem uma declaração clara de Jesus sobre suas origens: “Quem és tu?” (Jo 8,25). Mas eles estão instalados em sua ortodoxia e com um pensamento já feito ou preestabelecido. E por isso, eles não permitem outros pontos de vista. A pior prisão é a prisão mental em que não tem mais humildade em aprender e que se torna um obstáculo para desfrutar e atingir o que está por vir. Nada mudará enquanto a minha mente não mudar. A maior meta que cada um deve ter é mudar a si mesmo, mudar a maneira de pensar para mudar a maneira de viver e de conviver.


O evangelho de hoje nos relata que os judeus pegaram pela segunda vez pedras para apedrejar Jesus. Mas Jesus lança a seguinte pergunta: “Tenho-vos mostrado muitas obras boas da parte de meu Pai. Por qual dessas obras me apedrejais? (...) Mas se as faço, e se não quiserdes crer em mim, crede nas minhas obras, para que saibais e reconheçais que o Pai está em mim e eu no Pai(Jo 10,32. 38). As obras de Jesus pelo bem da humanidade, especialmente pelos necessitados, demonstram sua unidade com Deus. Quem pratica o bem é de Deus, embora ele não confesse expressamente sua em Deus. Quem é de Deus e tem fé em Deus, deve praticar o bem como Jesus. Mas essas obras não convencem os contemporâneos de Jesus porque suas cabeças estão cheias de “razoes”. Ao contrário, pegaram pedras para atirar em Jesus. Quem atira pedras nos outros é porque tem um coração de pedra. Um coração de pedra sempre machuca e fere os outros. “O coração do homem é como a mó de um moinho; se jogardes trigo, tereis farinha; se jogardes pedras, tereis cascalho” (Fulton Sheen).


Jesus sofreu sua Paixão muito antes da Sexta-Feira Santa. Ele viveu as ultimas semanas de Sua vida terrena rodeado de inimigos que querem eliminá-lo para sempre deste mundo. Ele experimenta o sofrimento moral e psicológico: ele é mal julgado pelas pessoas que deformam a verdade. Tudo isto é doloroso.


Jesus sempre nos relembra que somente os limpos de coração verão a Deus (cf. Mt 5,8). Se eu não estou preparado para amar, se não há em mim um desejo sincero de conhecer Deus, não O verei na minha vida e em outras pessoas, mesmo que tenha tantas evidências, como aconteceu com os contemporâneos de Jesus. Que essa cegueira seja temporária.


“Crede nas minhas obras”. “Olham para minhas obras!”, diz Jesus. A qualidade do homem, em certo sentido, se aprova pelas suas obras. Jesus demonstra ser enviado e Filho de Deus com as obras de amor que realiza. As únicas coisas que testemunham uma missão divina não são sequer as palavras (se não quiserdes crer em mim) e sim as obras. Santo Agostinho dizia: “O homem não se torna bom por possuir coisas boas. Ao contrário, o homem bom torna boas as coisas que possui, ao usá-las bem”. A própria pessoa que pratica as boas obras pode até ficar calada ou estar em silêncio, mas as obras gritam por si e por ele. Das obras boas de Jesus devem deduzir a unidade entre Ele e o Pai (v. 38b). O Pai e Jesus têm o mesmo objetivo: dar vida ao homem: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundancia” (Jo 10,10).


Quando Jesus diz aos seus adversários: “Se não quiserdes crer em mim, crede nas minhas obras, para que saibais e reconheçais que o Pai está em mim e eu no Pai”, eles não têm resposta. Como de costume, eles apelam simplesmente à violência (Jo 7,30; 8,20.59). Eles querem apedrejar Jesus. O apedrejamento era o castigo por gravíssimos pecados, entre eles era a blasfêmia.


O evangelho de são João quer explicar a seus leitores quem é realmente Jesus, em nome de quem vem e atua. Também quer explicar-lhes porque as autoridades do seu tempo chegaram a crucificar Jesus: porque não entenderam Suas palavras nem interpretaram seus gestos e seus milagres (sinais).


A bondade é o preço de aluguel que devemos pagar pelo espaço que ocupamos neste planeta, pois o planeta não é nosso e sim é de Deus que o recebemos de graça. Deus criou tudo pela pura bondade e por amor à humanidade. O “preço” que devemos “pagar” é a bondade praticada e o amor fraterno vivido diariamente.


Não pode deixar de nos perguntarmos: “Quantas pedras atiramos aos que não pensam ou não falam como nós? Teríamos nós, como Jesus nos diz, que é precisoolhar para as obras” e aprender a reconhecer nelas o único sinal inequívoco do Reino: o amor. É preciso que abramos os olhos do coração e contemplemos a realidade como Deus a . No fim descobriremos que o rosto de amor nos chama à vida e que nos promete a vida. Quando usarmos o coração na convivência com os demais, as pedras que estão nas nossas mãos vão cair todas no chão e as usaremos para construir uma casa de fraternidade. Façamos cada obra por pequena que ela seja de uma forma grandiosa. O que faz grandiosa uma obra é o amor com que a fazemos. A bondade é um investimento que nunca falha, pois tem a marca de eternidade.


O evangelho de hoje nos disse que os contemporâneos de Jesus pegaram pedras para atirar em Jesus, o inocente e justo. Que tipo de “pedras” que nós atiramos nos outros e que causaram sofrimentos neles? Que tipo de pedras que recebemos dos outros e que nos causaram sofrimento? O que fazemos com estas pedras? “Um monte de pedras deixa de ser um monte de pedras no momento em que um único homem o contempla, nascendo dentro dele a imagem de uma catedral” (Antoine de Saint-Exupéry). “Um dos segredos da vida é fazer degraus com as pedras em que tropeçamos” (Jack Penn).

P. Vitus Gustama,svd

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