quinta-feira, 24 de abril de 2014

 
SER IGREJA EM SAÍDA


Sábado da I Semana da Páscoa
26 de Abril de 2014
 

Evangelho: Mc 16,9-15

9Depois de ressuscitar, na madrugada do primeiro dia após o sábado, Jesus apareceu primeiro a Maria Madalena, da qual havia expulsado sete demônios. 10Ela foi anunciar isso aos seguidores de Jesus, que estavam de luto e chorando. 11Quando ouviram que ele estava vivo e fora visto por ela, não quiseram acreditar. 12Em seguida, Jesus apareceu a dois deles, com outra aparência, enquanto estavam indo para o campo. 13Eles também voltaram e anunciaram isso aos outros. Também a estes não deram crédito. 14Por fim, Jesus apareceu aos onze discípulos enquanto estavam comendo, repreendeu-os por causa da falta de fé e pela dureza de coração, porque não tinham acreditado naqueles que o tinham visto ressuscitado. 15E disse-lhes: “Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura!”

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Todos os especialistas concordam que o texto lido neste dia foi acrescentado ao evangelho de Marcos posteriormente para preencher a ausência das aparições de Jesus após a ressurreição, as quais relataram os outros evangelhos e outros textos do Novo Testamento. A exegese moderna reconhece a canonicidade deste texto, mas nega sua autenticidade como o de Marcos. O próprio evangelho de Marcos termina em Mc 16,8. Esse acréscimo aconteceu ainda na época apostólico.


O texto nos relatou que a aparição de Jesus aos Onze discípulos aconteceu durante a refeição. A refeição é o momento fraterno, momento de partilha durante o qual se estreitam os laços de amizade, de família e de fraternidade mesmo que a qualidade daquilo que se come e se bebe esteja longe de seu valor nutritivo. O momento da refeição é o momento sagrado. É o momento de dar graças a Deus pela terra, criada por Deus, que produz o alimento e pela colaboração do homem em cultivar a terra para produzir alimentos para todos. Por isso, a ausência de um membro da família é bastante sentida nesses momentos, especialmente nos dias comemorativos. Um dos sacramentos instituídos por Jesus é, precisamente, o sacramento da “refeição fraterna” chamado de Eucaristia. É preciso que a nossa participação na Eucaristia reflita nossas refeições familiares e fraternas em nossa família. E que a Eucaristia da qual participamos reflita também nas nossas refeições familiares e na convivência mais fraterna com os demais.


Durante a refeição é que o Senhor deu aos Onze discípulos o mandato de anunciar a Boa Nova para o mundo inteiro (toda criatura): “Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura!”.  O mandato de ir pelo mundo inteiro para evangelizar dado durante a refeição nos quer enfatizar que toda a atividade de evangelização deve ser feita no espírito de fraternidade e familiaridade, pois todos nós somos filhos e filhas do mesmo Pai celeste pela participação na filiação divina de Jesus Cristo que nos deu o mandato de proclamar a Boa Nova aprofundando nosso laço de fraternidade entre todos. Graças aos Apóstolos chegou até nós a Boa Nova.


Os apóstolos são testemunhas da grande mensagem da ressurreição e sua pregação está em torno da ressurreição do Senhor. E os apóstolos se defenderam com valentia diante do tribunal como lemos nos Atos dos Apóstolos. A fé e o contato cotidiano com a Palavra de Deus são capazes de transformar os mais humildes em homens valentes e seguros de si mesmos. É a valentia que nasce da liberdade da fé. Os apóstolos (acusados) eram gente simples e sem cultura, mas os homens seguros e valentes, intérpretes da Escritura e pregadores que passaram de acusados para acusadores. Não havia ordens nem ameaças capazes de os fazerem calar porque a força irresistível de Deus estava com eles. Os seus adversários se encontraram em nítida dificuldade ou em beco sem saída, e pretendiam ocultar fatos. Mas os fatos, como a cura do coxo (cf. At 4,13-21), falam ou se argumentam por si mesmos. Negar os fatos tão evidentes é considerar-se como mentiroso, cego ou manipulador, fruto de um autoritarismo e arrogância que por trás de tudo isso se esconde algum interesse pessoal ou coletivo, ou sente-se ameaçado nos seus negócios interesseiros. Mas quem vive no bem e do bem reconhece facilmente a presença da verdade onde estiver. Viver de acordo com a verdade é viver na liberdade e na leveza: “Se permanecerdes na minha palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8,32). Quem vive de acordo com a Palavra de Deus vive na verdade e conforme a verdade. Mas a verdade é para ser dita com caridade a fim de ganharmos os outros para Deus e para o bem maior.


Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura!”. Os Onze discípulos que saem para proclamar o evangelho pelo mundo são uns indivíduos duplamente culpáveis. São culpáveis de ter abandonado o Mestre durante a Paixão. São culpáveis também pela sua incredulidade depois da ressurreição, como relatou o evangelho de hoje: “Jesus apareceu aos onze discípulos enquanto estavam comendo, repreendeu-os por causa da falta de fé e pela dureza de coração, porque não tinham acreditado naqueles que o tinham visto ressuscitado”. Precisamente para estes discípulos é que Jesus dê este mandato: “Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura!”.  É levar a mensagem que não pertence aos discípulos, mas pertence a Jesus Cristo. Isto significa que eles devem se apoiar totalmente em Jesus Cristo permanentemente para ser fieis à mensagem do Senhor. Se não se apoiar em Jesus Ressuscitado acontecerão novamente a traição e a incredulidade. Quem prega não é porque seja melhor e mais inteligente do que os demais e sim por reconhecer-se pecador que recebeu o perdão de Deus e por ser incrédulo que foi libertado da incredulidade.


 Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura”. Pregar é o dever da Igreja. Isto quer dizer que é o dever de cada cristão. Cada cristão tem dever de transmitir a história da Boa Nova de Jesus para todos os que nunca a ouviram ou ouviram muito pouco. O dever do cristão é ser o mensageiro de Jesus. Cada cristão é, então, o mensageiro de Cristo neste mundo. E cada cristão tem que usar todos os meios ao seu alcance para propagar a Palavra de Deus: homilia, catequese, meios de comunicação, literatura, arte, festas e convivência. Mas é o anúncio respeitoso, sem impor, mas convidando; sem ameaçar, mas ofertando a salvação que liberta.
      

São Francisco nos aconselhou com as seguintes palavras: “Pregai sempre o Evangelho e, se for necessário, também com as palavras”. A atitude, o testemunho de vida, as obras precedem as palavras no anúncio do Evangelho. No anúncio, nossas palavras não podem ultrapassar nossas ações ou nosso testemunho de vida. Um provérbio latino diz: “Verba movent, exempla trahunt” = “As palavras movem, os exemplos arrastam”.  “A missão não se limita a um programa ou projeto, mas é compartilhar a experiência do acontecimento do encontro com Cristo, testemunhá-lo e anunciá-lo de pessoa a pessoa, de comunidade a comunidade e da Igreja a todos os confins do mundo (cf. At 1,8)”. (Documento Aparecida no.145).


Para todos os evangelizadores o Papa Francisco na sua exortação escreveu: “E que o mundo do nosso tempo, que procura ora na angústia ora com esperança, possa receber a Boa Nova dos lábios, não de evangelizadores tristes e descoroçoados, impacientes ou ansiosos, mas sim de ministros do Evangelho cuja vida irradie fervor, pois foram quem recebeu primeiro em si a alegria de Cristo... Espero que todas as comunidades se esforcem por atuar os meios necessários para avançar no caminho duma conversão pastoral e missionária, que não pode deixar as coisas como estão. Neste momento, não nos serve uma ‘simples administração’. Constituamo-nos em ‘estado permanente de missão’, em todas as regiões da terra... O Evangelho convida, antes de tudo, a responder a Deus que nos ama e salva, reconhecendo-O nos outros e saindo de nós mesmos para procurar o bem de todos... A Igreja ‘em saída’ é uma Igreja com as portas abertas. Sair em direção aos outros para chegar às periferias humanas não significa correr pelo mundo sem direção nem sentido... Saiamos, saiamos para oferecer a todos a vida de Jesus Cristo! Repito aqui, para toda a Igreja, aquilo que muitas vezes disse aos sacerdotes e aos leigos de Buenos Aires: prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças.” (Evangelii Gaudium no.10.25.46.49).

P. Vitus Gustama,svd

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