sábado, 30 de maio de 2015

02/06/2015
 
 
O HOMEM É A IMAGEM DO DEUS ABSOLUTO


Terça-Feira do IX Semana Comum 


Evangelho: Mc 12,13-17

Naquele tempo, 13as autoridades mandaram alguns fariseus e alguns partidários de Herodes, para apanharem Jesus em alguma palavra. 14Quando chegaram, disseram a Jesus: “Mestre, sabemos que tu és verdadeiro, e não dás preferência a ninguém. Com efeito, tu não olhas para as aparências do homem, mas ensinas, com verdade, o caminho de Deus. Dize-nos: É lícito ou não pagar o imposto a César? Devemos pagar ou não?” 15Jesus percebeu a hipocrisia deles, e respondeu: “Por que me tentais? Trazei-me uma moeda para que eu a veja”. 16Eles levaram a moeda, e Jesus perguntou: “De quem é a figura e inscrição que estão nessa moeda?” Eles responderam: “De César”. 17Então Jesus disse: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. E eles ficaram admirados com Jesus.
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Estamos no segundo episódio de choque entre as autoridades e Jesus (veja o primeiro em Mc 11,27-33). Estes dois choques têm a mesma idéia de fundo: indagar sobre a consciência que Jesus tem de si mesmo e de sua missão. Na resposta precedente, dada em forma de parábola (Mc 12,1-12), aparece sua consciência messiânica e, portanto, sua missão de libertador do povo. Mas como, de quem e de que Jesus liberta o povo?
                  

No episodio do evangelho lido neste dia entram em ação alguns fariseus e herodianos (do partido de Herodes) enviados pelo Sinédrio que não pode pegar Jesus por causa do povo (medo do povo. O povo apesar de não ter cargo e de ser pobre causa medo nas autoridades por se tratar de uma maioria na sociedade). Na prática esses dois grupos não se encontram em nome do interesse. Os fariseus são formalistas supersticiosos que somente se importam com as cerimônias externas da sua religião. Os herodianos são apenas homens do mundo, que desprezam toda e qualquer religião. Mas quando surge o interesse para os dois, eles se tornam unidos. Trata-se de promiscuidade política. Eles  se esforçam para calar Jesus, pois Jesus ataca os dois grupos.


Esses dois grupos (fariseus e herodianos) já decidiram há muito tempo em eliminar Jesus (Mc 3,6). Agora querem apanhá-Lo “em alguma palavra”. A armadilha é essencialmente política, mas se disfarça, hipocritamente, de religiosidade e de adulação. Eles chamam Jesus de “Mestre”, algo insólito entre os fariseus e O definem como “verdadeiro” e que Jesus ensina o caminho de Deus. Mas anteriormente, eles mesmos questionaram a sabedoria de Jesus (cf. Mc 6,1-6). Agora eles chamam Jesus de “Mestre”.


Os fariseus e os herodianos apresentam a Jesus um problema ou um dilema aparentemente insolúvel: “Mestre, sabemos que tu és verdadeiro, e não dás preferência a ninguém. Com efeito, tu não olhas para as aparências do homem, mas ensinas, com verdade, o caminho de Deus. Dize-nos: É lícito ou não pagar o imposto a César? Devemos pagar ou não?”. Se respondesse “sim”, na cabeça dos fariseus, Jesus estaria contra o próprio povo que odeia a pagar o imposto para o governo estrangeiro (=governo pagão). Se Jesus respondesse “não”, os herodianos poderiam acusá-Lo diante do Pilatos, representante do governo romano, como uma pessoa rebelde contra o governo romano. Na linguagem popular: “Se ficar, o bicho come; se correr, o bicho pega”.


Mas Jesus relativiza o insolúvel problema introduzindo Deus no horizonte do problema. Quando o ser humano conta com Deus, tudo tem sua solução. O surpreendente de Jesus é que quando introduz Deus Ele não faz discursos sobre Deus. Jesus simplesmente vive de Deus, fala com Ele, O apresenta e O sente. Para Jesus Deus é Alguém, e não algo. É Alguém com quem conta em quaisquer momentos. É Alguém com quem Jesus convive. “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30).


Jesus lhes pede a moeda que tem a imagem incisa na moeda. Na moeda estava incisa a imagem de Tibério com a coroa de laurel para indicar sua dignidade divina, e a inscrição: Tibério César, filho do divino Augusto. Os fariseus e os herodianos tinham a moeda e a levavam ao Templo. Isto significa que eles profanaram o Templo com uma imagem de um pagão. Mas o que interessa ao evangelista Marcos é outra coisa: o ensinamento de Jesus é o único que tem valor para a comunidade cristã. Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”.


Dai, pois, a César o que é de César”. Jesus ordena-lhes que paguem tributo ao governo romano, quanto às coisas temporais, pois ao usarem o dinheiro romano, eles mesmos são obrigados à tributação. “Devolva a Cesar o que é do César”, diz Jesus. Mas somente devolver o que é do César e não tudo o que o poder pretende com todo seu aparato coercitivo.


Por isso, Jesus acrescenta: “Devolva a Deus o que é de Deus”. Isto significa que nem tudo é do César, ou seja, que o poder do Estado não é absoluto. Na linguagem política os limites do poder político radicam na soberania popular, no reconhecimento e na declaração dos direitos humanos. Na linguagem espiritual ou religiosa o que se enfatiza é que os poderes do Estado ou qualquer poder estão limitados pela soberania de Deus, pois Deus criou o homem a sua imagem e semelhança. Assim expressa o profeta Isaias do seguinte modo: “Eu sou Deus. Não há outro Deus fora de mim” (cf. Is 45,20-25). A existência de Deus, o Absoluto, é a negação de qualquer outro que se apresente como absoluto. Só há um Deus, o resto não é Deus. Podem ser propriedade uma moeda e um território, mas cada homem é propriedade de Deus, feito à imagem de Deus.


Com sua resposta, Jesus ordena que os fariseus orgulhosos não se neguem a cumprir as suas obrigações civis para com César (governo romano) e que os herodianos não se recusem a cumprir as suas obrigações para com Deus, Criador de todas as coisas visíveis e invisíveis.  
Na verdade, aqui não há uma verdadeira oposição, baseada no Evangelho, entre o que é do César e o que é Deus. Dar ou devolver a Deus o que é lhe devido implica que seja dado a César o que somente lhe pertence. O Reino de Deus não se situa fora dos reinos terrestres que são assumidos por Deus em Jesus Cristo. Por isso, não se pode ser cristão autêntico à margem das realidades. O cristão é chamado e enviado para ser o sal e a luz do mundo (cf. Mt 5,13-16) para que ninguém explore ninguém, pois todos são filhos do mesmo Pai. O cristão na vida política deve ser justo. A obediência cívica não pode estar em contradição com deveres com Deus. Jesus respeita a autonomia do poder político, mas ao mesmo tempo afirma implicitamente que as estruturas políticas, representadas neste caso pelo imperador romano, não podem nunca ser divinizadas. Somente Deus é Deus. o resto é criatura.


Às vezes podemos cair na tentação de pensar que o evangelho e a vida cristã se reduzem à mera vida espiritual. O evangelho de hoje nos mostra que não é assim. A vida do evangelho toca todas as áreas da vida, e entre elas a vida econômica e a da justiça. “Devolva a César o que é do César e a Deus o que é de Deus” é o principio da justiça equitativa, que, todavia, está longe da justiça cristã. Pagar o que se deve são deveres elementares de justiça. A injustiça não cabe na vida do cristão. Devolvamos a cada um o que lhe é próprio e nossa vida se encherá de paz e de alegria. Podemos até ganhar na justiça humana. Mas precisamos estar conscientes de que ainda resta a justiça divina, como diz São Paulo: “Todos nós teremos de comparecer manifestamente perante o tribunal de Cristo, a fim de que cada um receba a retribuição do que tiver feito durante sua vida no corpo, seja para o bem, seja para o mal” (2Cor 5,10).

P. Vitus Gustama,svd

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