quarta-feira, 17 de junho de 2015

Domingo, 21/06/2015
SÓ JESUS ACALMA AS “TEMPESTADES” DE NOSSA VIDA


XII DOMINGO DO TEMPO COMUM “B”


Evangelho: Mc 4,35-41

35 Naquele dia, ao cair da tarde, Jesus disse a seus discípulos: “Vamos para a outra margem!” 36 Eles despediram a multidão e levaram Jesus consigo, assim como estava, na barca. Havia ainda outras barcas com ele. 37 Começou a soprar uma ventania muito forte e as ondas se lançavam dentro da barca, de modo que a barca já começava a se encher. 38 Jesus estava na parte de trás, dormindo sobre um travesseiro. Os discípulos o acordaram e disseram: “Mestre, estamos perecendo e tu não te importas?” 39 Ele se levantou e ordenou ao vento e ao mar: “Silêncio! Cala-te!” O vento cessou e houve uma grande calmaria. 40 Então Jesus perguntou aos discípulos: “Por que sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?” 41 Eles sentiram um grande medo e diziam uns aos outros: “Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?”

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Mc 4,35-41 faz parte do complexo literário de Mc 4,35-5,43, onde se encontra uma coleção de milagres logo depois que Jesus falou para seus discípulos em parábolas (Mc 4,1-34). Na verdade, logo no início deste evangelho, no primeiro dia do ministério de Jesus em Cafarnaum (Mc 1,21-23), o evangelista Marcos já enfatizou a ligação entre a autoridade dos ensinamentos de Jesus e a autoridade de sua palavra milagrosa (Mc 1,27). Agora ele dá um longo exemplo da mesma ligação com os milagres realizados no mar da Galiléia e em suas proximidades (Mc 4,35-5,43).


Os discípulos, que já têm começado a compreender o mistério do Reino de Deus, mas que necessitam ainda de inteligência, recebem agora uma instrução mais eficaz que a da palavra. Os milagres são lhes oferecidos pelos quais se transmitem a soberania e o poder salvífico de Deus entre os homens, mas também da identidade de Jesus como realizador dos mesmos. O evangelista Mc ordena esses milagres de maneira significativa. O poder de Deus se manifesta em Jesus através da dominação dos elementos naturais ou do poder caótico que causa medo tremendo (4,35-40), através da libertação do homem endemoninhado ou do adversário (5,1-20), da cura de uma doença mortal (5,25-34) e da ressurreição ou dominação sobre a morte (5,21-24.35-43). E as testemunhas de tais milagres são especialmente os próprios discípulos. Como em parábolas, também aqui temos uma revelação “especificamente” para os discípulos. Eles são os primeiros destinatários desses prodígios. Em outras palavras têm uma função catequética para transmitir quem é Jesus? (O evangelho de Mc foi escrito precisamente para responder a esta pergunta: “Quem é Jesus”?). E esses milagres servem como uma preparação para os discípulos para seu apostolado missionário (Mc 6,7-13). Jesus mostra-lhes que a missão se enraíza no seu poder sobre os elementos, sobre o mal e sobre a morte.


Quem é Jesus Para nós Para Podermos Saber O Que Devemos Fazer: “Quem é Este?”


O relato da tempestade acalmada por Jesus podemos encontrar em todos os três sinóticos, embora cada um narre com algumas diferenças(cf. Mt 8,23-27;Lc 8,22-25). Não vamos analisar a diferença e convergência destes textos. Refletiremos apenas sobre o relato de Mc.
    

Para entender este relato com seus detalhes precisamos ter na mente alguns textos do AT que servem como o pano de fundo do mesmo. Controle sobre o mar e o ato de acalmar  tempestade são sinais característicos do poder divino (Jó 7,12;Sl 73,13(Sl 74,13 na versão hebraica);88(89),8-10;92(93),3-4;Is 51,9-10). Acalmar uma tempestade no mar é a maior prova da atenção ou do cuidado amoroso de Deus (Sl 106(107),23-32). É digno de notar também que dormir em paz e sem preocupar-se com nenhum problema é um sinal da perfeita confiança em Deus (cf. Pr 3,23-24;Sl 3,6;4,9;Jó 11,18-19). Em particular Jn 1,4-15 parece ter uma influência particular para formar o relato de Mc 4,35-41.
   

O texto pode ser dividido em algumas partes de acordo com seu gênero literário: vv.35-36 servem como introdução; v.37 relata a situação dos discípulos; v.38bc fala da invocação do socorro; v.39ab sobre salvamento em que se manifesta o poder divino de Jesus;v.39cd fala da constatação do milagre; v.41a fala da admiração dos discípulos que se segue com aclamação no v.41bc.
   

No v.35, ao cair da tarde, Jesus toma a iniciativa e marca o final do discurso das parábolas, ordenando aos discípulos para cruzarem o mar da Galiléia com ele: “Vamos para outro lado do mar”. No v. 36, os discípulos levam Jesus no barco. São mencionados também outros barcos e logo somem da história. Na literatura antiga a barca é imagem da comunidade.


Jesus convida os discípulos a ir a “outro lado do mar”. “Do outro lado” estão os pagãos, ou o território não- judeu. Jesus convida os discípulos para esse território para que lá possam semear também entre os pagãos a Boa Notícia do Reino. Atravessar, ou “ir para outro lado”, então, significa sair de si mesmo, pensar nos outros e não ficar apenas no nosso lado. Precisamos ir a “outro lado”. Quem sabe no “outro lado” em vez de evangelizarmos os outros, seremos evangelizados. A travessia é muitas vezes sinônimo de abertura ao novo e diferente. Mas para que possamos atravessar para “outro lado”, precisamos vencer o” mar” de nossa vida. Andar seria impossível. Afundaríamos. Precisamos de algum meio. E o meio para chegar no “outro lado” para superar o “mar” é “barco”. Quem sabe um dos barcos mencionados neste texto que sumiram do relato é o nosso barco que ainda não foi usado para levar Jesus.
  

No v. 37 fala-se do problema que suscita o milagre de Jesus: uma violenta tempestade agita o mar, a ponto de as ondas caírem dentro do barco.


Para o povo da Bíblia, o mar agitado é a imagem da revolta dos povos inimigos que gera caos primitivo (cf. Sl 46,3-4.7;65,8;93,3-4). Além disto, tempestade é imagem da incerteza e do sentimento de derrota, daí se eleva a Deus o grito do povo (cf. Sl 18,16-20;69,2-5.15-16). E somente Deus pode dominar o mar e seu tumulto (Jó 38,7.11). Enquanto isso, Jesus parece ausente, dorme e parece estar completamente alheio à tragédia (v.38a). O sono tranqüilo de Jesus simboliza uma confiança total em Deus como foi explicado nos textos do AT acima mencionados.
    

Assustados, os discípulos acordam Jesus com uma ríspida pergunta que tem um tom de queixa e de censura: “Mestre, não te importa que pereçamos?” (v.38b). O tom de queixa e de censura pressupõe uma resposta afirmativa (Sim, Jesus se importa).
     

No v. 39, Jesus, já desperto, “conjurou o vento e disse ao mar: ’Silêncio. Cala-te!’’. “E houve grande bonança”.  Jesus “conjurou” (grego, epitimesen) o vento. O verbo “conjurar” (epitmao) ou “ameaçar” é usado nos Salmos para falar da ameaça de Deus contra os poderosos impérios deste mundo (cf. Sl 9,6;68,31;106,9;119,21). E em Mc o verbo “conjurar” é usado muitas vezes para descrever os exorcismos de Jesus (Mc 1,25;3,12;9,25). E o verbo “Calar-te” é usado no primeiro exorcismo por Jesus no qual ele ordena ao demônio: “Cala-te e sai dele!” (Mc 1,25). Por implicação, pelo menos no contexto de Mc, Jesus “exorciza” as forças demoníacas causadoras da turbulência no mar, da mesma forma que as exorciza quando provocam turbulência em pessoas possuídas. A ação de Jesus é descrita com expressões que, no AT, são típicas para falar da ação de Javé (cf. Sl 107,25.29; 65,8;77,17-21;89,10-11;74,13-14;93,3-4;104,6-7.25-26;Is 27,1;51,9-10;Jó 7,12;9,13;26,12). Jesus aqui age como Deus, pois ele não ora a Deus, mas atende à prece dos discípulos. 


No v.40, Jesus faz uma censura aos discípulos sob a forma de dupla pergunta retórica, assim correspondendo e contestando a censura deles que foi também em forma de pergunta retórica (cf. v.38). Em sua censura Jesus pergunta retoricamente: “Por que tendes medo? Ainda não tendes fé?”. Na verdade, a pergunta de Jesus é uma resposta à pergunta dos discípulos. O apavoramento dos discípulos, seu medo, é atribuído por Jesus à falta de fé. O “ainda não” da pergunta de Jesus faz  referência tanto para trás(passado) como para frente (futuro). Para trás (passado), refere-se à experiência prévia que os discípulos tiveram da poderosa palavra de Jesus demonstrada em ensinamentos e em milagres, uma experiência que deveria ter despertado a fé deles em Jesus, mas não aconteceu. Mas o “ainda não” também antecipa com expectativa algum momento futuro, quando os discípulos terão a fé. A história de milagre transforma-se, então, em uma lição catequética. Jesus exorta aos discípulos que confiem nele em todo momento e circunstância. Somente com a fé é possível manter-se firme com a aparente ausência de Jesus. A falta de fé impede reconhecer a presença atuante de Deus no cotidiano.


A manifestação do poder miraculoso de Jesus provoca “grande temor” nos discípulos (v.41). Eles fazem para si mesmos uma pergunta final: “Quem é este a quem até o vento e o mar obedecem?” Os discípulos não conseguiram identificar Jesus com um título ou rótulo claro: “Quem é este?” e no entanto, eles  descrevem Jesus corretamente como o poderoso realizador de milagres que domina os ventos e o mar. Nesse milagre, os discípulos deveriam ver a revelação do Messias (Mc 8,29) e Filho de Deus (Mc 15,39), a única descrição adequada e completa de Jesus (Mc 1,1). No entanto, o milagre gera apenas mais uma pergunta retórica. “Quem é este?” É a pergunta que surge diante da prática de Jesus. Todo o evangelho de Mc caminha nessa direção. Os de dentro (os discípulos) ainda não conseguiram identificar Jesus e os de fora também ainda não perceberam quem é Jesus.


 “Quem é este?” pode ser também nossa pergunta dirigida a nós mesmos.


Do Medo Para O Temor De Deus


No início os discípulos se encontraram num medo tremendo diante da tempestade sem piedade: “Senhor, não te importas que nos afundemos?” Foi um grito de desespero. A falta de confiança na ação misteriosa de Deus, que pode vencer os poderes do caos e da morte, provoca o medo que paralisa a prática compromissada com o projeto de vida, deixando assim campo aberto para a ação alienadora e opressora. Até aqui podemos nos perguntar: Quais são poderes que nos causam medo e nos escravizam? O medo dos discípulos e o nosso medo se contrapõe à tranqüilidade de Jesus. Ele não tem medo de estar no meio das forças que aprisionam e alienam as pessoas. Ele confia na presença vitoriosa do Pai, do qual ele é o enviado. Com palavras de ordem que acalmam a tempestade, Jesus mostra que os poderes que causam medo e por isso escravizam, estão sob seu domínio. Agora é Jesus que repreende os discípulos: “Por que vocês são tão medrosos ? Vocês ainda não têm fé?”


Depois destas palavras os discípulos ficam “muito cheios de medo”. É um medo diferente do anterior. Antes eles temiam que as forças ameaçadoras, as forças da morte não pudessem ser vencidas, por isso ficavam paralisadas e impotentes diante delas. Agora o medo os atinge ao perceberem tais forças vencidas. Esse medo é o temor reverencial diante do mistério da força e do poder de Deus. Esse temor de Deus indica a aceitação da impossibilidade humana de vencer forças poderosas de morte e ao mesmo tempo o reconhecimento de que só Deus pode superá-las.


Essa experiência leva os discípulos a perguntarem: “Quem é esse homem, a quem até o vento e o mar obedecem?” Esta pergunta abre caminho para descobrir Jesus como alguém que traz consigo o poder de Deus para preservar a vida diante das forças que ameaçam a vida. O medo dos discípulos cede lugar à fé; o milagre faz progredir os discípulos na descoberta da pessoa de Jesus. A fé dos discípulos começa a crescer embora de maneira ainda vaga e insuficiente.


Com Jesus Tudo É Possível


Há momentos durante os quais nos sentimos sós e incapazes de reagir diante da maldade e dos dramas da vida. Isto acontece, por exemplo, quando surgem graves problemas na família(infidelidade do marido ou da mulher, mau comportamento dos filhos, doenças, dificuldades econômicas etc.) ou então, quando nos desentendemos com os irmãos da comunidade, quando se espalham maledicências, calúnias, quando surgem incompreensões. Nessas horas nos perguntamos: Onde está Deus ? Por que não intervém ? Por que não mostra o seu poder? Por que não faz justiça ? O seu silêncio nos desconcerta e nos incute medo.


No Evangelho de hoje Jesus nos convida a um ato de fé nele. Talvez seja necessário que estejamos numa barquinha agitada pelo vento para que percebamos a presença de Deus. Há cristãos que só pensam em Deus quando ficam doentes, quando atingidos por alguma desdita (falta de sorte). Só então rezam com toda a devoção e pedem a Deus para que ele venha socorrê-los. Quando tudo corre bem o ser humano corre o risco de se tornar auto-suficiente. É a pedagogia da provação.


A partir do momento em que os discípulos souberam que Jesus estava com eles na mesma barca, a paz entrou novamente no coração deles. Isto quer nos dizer que viajar com Jesus nesta vida é viajar em paz embora estejamos no meio de tempestade de vida. Esta verdade não só aconteceu na época dos discípulos mas pode acontecer também no nosso tempo. No mundo qualquer um de nós pode encontrar o poder de Deus em Jesus Cristo. Esta fé faz a descoberta do novo rosto de Deus que intervém para libertar. Na presença de Jesus nós podemos ter paz embora estejamos diante ou no meio da tempestade.


=Ele nos dá paz na tempestade de tristeza. Quando tristeza vem, Jesus nos fala da glória da vida que vem com ele. Ele transforma a escuridão de morte em vida sem fim. Na tristeza ele fala da glória do amor de Deus.


=Ele nos dá paz quando problema de vida nos envolve numa tempestade de dúvida, de tensão e de incerteza e não sabemos o que fazer; quando estivermos numa encruzilhada na vida e não sabemos qual caminho devemos tomar. Quando voltarmos para Jesus e dissermos a ele: “Senhor, a sua vontade que tenho que seguir” o nosso caminho voltará a ser claro. O caminho para chegar a paz é perguntar a vontade dele e se submeter a essa vontade. Por maiores que sejam as forças caóticas, Jesus terá poder de subjugá-las. Por isso, podemos contar sempre com a presença do Senhor Jesus Cristo. Nada é suficientemente forte que não possa ser dominado por ele.


=Ele nos dá paz na tempestade de preocupação. O maior inimigo de paz é preocupação: preocupação sobre nós mesmos, sobre o futuro incerto, sobre aqueles a quem amamos. Mas Jesus nos fala de um Pai cuja mão nunca vai causar as lágrimas desnecessárias. No meio de preocupação ele nos traz a paz do amor de Deus.


Tudo isso quer nos dizer que a fé e a esperança cristãs não decepcionam, porque se Deus está conosco, quem poderá estar contra nós ? Em tudo sairemos vitoriosos por Aquele que nos amou e nada poderá nos separar do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus(cf. Rm 8,31-39). O amor de Deus manifestado em Cristo traz consigo a urgência cristã do novo, a base mais sólida de uma resposta de fé e de amor a outro amor que nos precedeu e nos acompanha em todo momento e situação por delicada e inclusive desesperada que nos possa parecer.


Portanto, diremos, então, com toda confiança: Creio em Ti, Senhor, mas aumentai a minha fé. Contigo na barca poderei atravessar o mar desta vida e chegar convosco junto ao Pai. Assim seja !

P. Vitus Gustama,svd

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