quarta-feira, 23 de setembro de 2015

26/09/2015
SACRIFICAR-SE PELO BEM E SALVAÇÃO DE TODOS

Sábado da XXV Semana Comum

 
Evangelho: Lc 9, 43b-45

Naquele tempo, 43bTodos estavam admirados com todas as coisas que Jesus fazia. Então Jesus disse a seus discípulos: 44“Prestai bem atenção às palavras que vou dizer: O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens”. 45Mas os discípulos não compreendiam o que Jesus dizia. O sentido lhes ficava escondido, de modo que não podiam entender; e eles tinham medo de fazer perguntas sobre o assunto.
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Nós nos encontramos no quadro de instruções finais de Jesus na Galileia. Jesus mostra claramente aqui o sentido da própria missão e a daqueles que querem segui-Lo. Segundo o plano do seu evangelho, o evangelista Lucas termina assim as atividades de Jesus na Galiléia (Lc 4,14-9,50). Daqui em diante Jesus vai começar seu caminho ou seu êxodo para Jerusalém onde ele será crucificado, morto e glorificado.


O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens”. O título “Filho do Homem” se encontra seu sentido em Dn 7,13-14 e “vai ser entregue” em Is 53,2-12. O sofrimento de Jesus é causado pelos homens do templo e do poder.


Para o evangelista Lucas, este é o segundo anúncio da Paixão de Jesus e o situa no momento em que “Todos estavam admirados com todas as coisas que Jesus fazia”. Esta admiração surge no momento em que Jesus curou um menino da epilepsia (Lc 9,37-43) e fez outros sinais. E Lucas registrou que esse menino era filho único. Esse filho único se refere a Jesus, Filho único do Pai (cf. Mt 21,33-46). Através desse menino Jesus está falando de Si próprio. A cura do menino antecede o segundo anúncio da Paixão do Filho único do Pai.


Neste anúncio Jesus quer nos revelar que sua vida é um sacrifício para o bem de todos. A palavra “sacrifício” provem do latim “sacrum” (=sagrado) e “facere” (=fazer). “Sacrifício” literalmente significa fazer algo sagrado. Lexicalmente “sacrificar” significa oferecer-se em sacrifício à divindade; dedicar-se totalmente. Jesus é admirado porque ele só faz algo sagrado, isto é, cuidar da vida do ser humano onde ela é ameaçada, mesmo que para isso ele tenha que “transgredir” as leis por “sagradas” que elas pareçam ser. A vida é sagrada, pois é dada por Deus. Ninguém dá vida a ninguém. Ele se sacrifica como uma vela que se consome aos poucos iluminando seu redor. Qualquer pessoa que fizer o que Jesus fazia, sempre causa a admiração de outras pessoas sem perguntar sua ideologia, religião, crença. O bem não tem religião, e por isso, pode ser feito por qualquer um. E os que são chamados religiosos ou fieis devem ter mais consciência disso.


Lucas nos relatou que os discípulos não entenderam o sentido desse anúncio. Em outras ocasiões os evangelistas descrevem os motivos dessa incompreensão: os seguidores de Jesus tinham em sua cabeça um messianismo político, com vantagens materiais para eles mesmos, e discutiam sobre quem ia ocupar os postos de honra e quem ficaria do lado direito ou do lado esquerdo de Jesus. A cruz não entrava em seus planos. Eles queriam seguir a Jesus pelas próprias vantagens e não pela vida dedicada em prol da salvação de todos.


A vida vivida pelo bem de todos vale a pena a ser vivida. Ao contrário, a vida vivida pelo egoísmo é uma vida deteriorada lentamente e deteriora também a vida alheia, pois um egoísta suga tudo que o outro tem. O objetivo de todos os atos de um egoísta é seu próprio interesse. O egoísta se esquece de que o seu desenvolvimento só será possível quando for fruto do equilíbrio entre vida individual e a vida em comum. Para um egoísta, amigo não é alguém a quem se dá, e sim, alguém a ser utilizado em proveito próprio. Entre os apóstolos podemos perceber tudo isso na vida de Judas Iscariotes. O egoísta nunca entende que a essência do amor é gratuidade. E que o verdadeiro amor é feito de doação, sem cálculos e sem interesses a exemplo de Jesus Cristo.


Os discípulos não entendem que a vida vivida pelo bem e pela salvação de todos é o maior ato de amor e o maior sentido da vida. O resultado dessa incompreensão será contado no seguinte episódio em que haverá a disputa sobre a primazia no grupo (Lc 9,46-48).


Por isso, podemos fazer outra leitura da seguinte afirmação: “Todos estavam admirados com todas as coisas que Jesus fazia”. Jesus desperta realmente admiração por seus gestos milagreiros e pela profundidade de suas palavras. Deste tipo de Jesus gostamos também e não somente os primeiros discípulos de Jesus. Mas não entendemos, como os primeiros discípulos, o Jesus Servidor, o Jesus que lava os pés dos discípulos, o Jesus que se entregou à morte para salvar a humanidade, o Jesus que se aproxima do pecador para dialogar, o Jesus que faz refeição com os pobres e pecadores, o Jesus que vai atrás das pessoas excluídas e abandonadas. Queremos apenas o consolo e o prêmio e não o sacrifício e a renúncia. Preferiríamos que Jesus não nos dissesse: “Quem quer me seguir renuncie a si mesmo, tome sua cruz de cada dia e me siga”.


Mas ser seguidor de Jesus pede a radicalidade e não podemos crer num Jesus que O fazemos a nossa medida. Ser colaborador de Jesus na salvação do mundo exige seguir Seu mesmo caminho que passa através da cruz e da entrega e da doação pelo bem e salvação de todos. É sofrer com Jesus para salvar o mundo.


Vale a pena cada um fazer um exame sério de consciência sobre o texto do evangelho de hoje a partir da vocação e da função que cada um tem na Igreja ou em uma comunidade. Como sacerdote ou religioso/ religiosa, qual meu motivo para ser sacerdote ou para ser religioso/religiosa? Será que eu procuro a vocação religiosa e sacerdotal em função da segurança institucional e não como paixão pela vida de Cristo dedicada pela salvação de todos? Será que o pensamento de querer ser sacerdote ou religioso (a) carreirista serve como motor da minha ambição? Como leigo ou leiga, qual meu motivo verdadeiro para trabalhar na minha comunidade? Há alguma vantagem pessoal escondida atrás dessa atividade, ou por que eu quero ser outro Cristo na minha comunidade? Mas será que eu levo a sério o motivo de ser outro Cristo com todas as suas conseqüências na minha comunidade?


É preciso que não tenhamos medo de nos gastar pelas causas e pelos grandes ideais de Jesus, pois por este caminho haverá a vida glorificada, a vida ressuscitada. Como cristãos, não podemos viver e conviver inutilmente nem podemos, consequentemente, morrer inutilmente. A vida dedicada pelo bem de todos jamais morre. É estar com Cristo. E estar com Cristo significa não parar de existir. Este é o ideal do ser do cristão.


Para Refletir


Há ideais que nos ajudam a viver e a crescer,
Porque nos aproximam do melhor de nós mesmos,
E há ideais que nos paralisam
Porque nos fazem correr atrás de miragens inalcançáveis.


Um verdadeiro ideal nunca é plenamente alcançado,
Mas ajuda a caminhar toda a vida.


Viver sem um ideal é como viver sem sentido
E caminhar sem objetivos.


Muito homens correm toda a vida para ter coisas,
Porque não sabem o que querem ser.
E você, sabe?”

 

(Autor: René Juan Trossero)

 
P. Vitus Gustama,svd

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