domingo, 15 de novembro de 2015


17/11/2015
ZAQUEU E CONVERSÃO RADICAL

DEUS ME CHAMA PELO NOME, POIS ME CONHECE

 

Terça-Feira da XXXIII Semana Comum

 

Evangelho: Lc 19,1-10

 

Naquele tempo, 1 Jesus tinha entrado em Jericó e estava atravessando a cidade. 2 Havia ali um homem chamado Zaqueu, que era chefe dos cobradores de impostos e muito rico. 3 Zaqueu procurava ver quem era Jesus, mas não conseguia, por causa da multidão, pois era muito baixo. 4 Então ele correu à frente e subiu numa figueira para ver Jesus, que devia passar por ali. 5 Quando Jesus chegou ao lugar, olhou para cima e disse: “Zaqueu, desce depressa! Hoje eu devo ficar na tua casa”. 6 Ele desceu depressa, e recebeu Jesus com alegria. 7 Ao ver isso, todos começaram a murmurar, dizendo: “Ele foi hospedar-se na casa de um pecador!” 8 Zaqueu ficou de pé, e disse ao Senhor: “Senhor, eu dou a metade dos meus bens aos pobres, e se defraudei alguém, vou devolver quatro vezes mais”. 9 Jesus lhe disse: “Hoje a salvação entrou nesta casa, porque também este homem é um filho de Abraão. 10 Com efeito, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido”. O encontro de Jesus com Zaqueu nos mostra a etapas da conversão até chegar a salvação: “Hoje a salvação entrou nesta casa”.

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Estamos com Jesus no seu caminho para Jerusalém, escutando suas ultimas e importantes lições para todos nós como seus seguidores (Lc 9,51-19,28). Ele será crucificado, morto e glorificado. Ao viver seus ensinamentos nós vamos levar adiante a missão ou a causa de Jesus.

 

O protagonista do texto do evangelho de hoje é Zaqueu. “Zaqueu”, deriva do hebraico e aramaico Zakkay, (forma abreviada de Zekaryá: Zacarias) significa “Deus lembrou-se de novo”. A profissão é o cobrador- chefe de impostos. Os cobradores de impostos são considerados pecadores públicos e impuros porque eles cobram muito mais do que deviam. São considerado também como traidores da nação  porque eles cobram impostos para os romanos, poder estrangeiro (colonialista) e se beneficiam disso. Por isso, eram excluídos das promessas de Abraão. Os cobradores de impostos não podiam ser juízes, nem testemunhas num processo. Portanto, eles não eram apenas pecadores na concepção da época, mas também eram pessoas marginalizadas.

 

Conforme o relato do evangelho, Zaqueu é de uma estatura pequena. Apesar de ter pernas curtas, a mão de Zaqueu, como cobrador de impostos é “grande”, pois ele saqueia mesmo o dinheiro do povo ilicitamente. Neste sentido, Zaqueu é, até então, realmente um saqueador do dinheiro público.

 

Mas ao encontrar-se com Jesus, a vida de Zaqueu mudou totalmente. Trata-se de uma conversão profundo: “Senhor, eu dou a metade dos meus bens aos pobres, e se defraudei alguém, vou devolver quatro vezes mais”.

 

Na passagem do evangelho de hoje o evangelista Lucas nos descreve, então, passo a passo o processo de conhecer Jesus que terminará na conversão e no seguimento através da história da conversão de Zaqueu.

 

O primeiro passo consiste no desejo de ver Jesus. O verbo “VER” é muito importante neste relato. O episódio que precede a nossa narrativa é a cura de um mendigo cego (=não pode ver) às portas da cidade (Lc 18,35-43). É claro que a graça de Deus faz surgir esse desejo de ver Jesus. O “ver” e o “subir” (em uma árvore) indicam aqui mais do que curiosidade: indicam uma procura intensa, uma vontade firme de encontro com algo novo, uma ânsia de descobrir o “Reino”, um desejo de fazer parte dessa comunidade de salvação que Jesus anuncia.

 

Zaqueu tem uma vontade intensa, profunda e imensa em ver Jesus a ponto de subir em uma arvore por causa de sua estatura pequena. Mas o que acontece nesse processo de querer ver Jesus? Em vez de ver Jesus, é o próprio Jesus quem quer ver Zaqueu, e Zaqueu é visto por Jesus antes de Zaqueu ver Jesus: “Zaqueu, desce depressa! Hoje eu devo ficar na tua casa”. Jesus chama Zaqueu pelo nome. Zaqueu deve pensar em silêncio, no meio daquela multidão de gente: “De onde Jesus sabe do meu nome? Eu sou pecador, pois sou publicano e chefe dos publicanos. Sou ladrão do dinheiro público. Eu sou excluído da sociedade. A sociedade faz questão de me esquecer, de não querer olhar para mim ou me olha com um olhar cínico e clínico. E Jesus me chama pelo nome e quer estar comigo na minha casa? Jesus me conhece?”.

 

Sim, Deus nos conhece e nos chama pelo nome: “Eu te chamo pelo nome, és Meu”, diz o Senhor Deus (Is 43,1), pois nosso nome está gravado na palma da mão de Deus (cf. Is 49,16). Deus não Se esquece de mim: “Pode uma mulher esquecer-se daquele que amamenta? Não ter ternura pelo fruto de suas entranhas? Mesmo que ela o esquecesse, Eu não te esqueceria”, diz o Senhor (Is 49,15). Ninguém é anônimo diante de Deus. Eu posso estar no meio da multidão desconhecida, mas dentro dessa multidão eu tenho meu nome para Deus e Ele me chama pelo nome. Eu posso estar sozinho em casa, na rua ou em qualquer lugar e situação, mas Deus está comigo (cf. Mt 28,20), me conhece e me chama pelo nome. De fato, eu não estou sozinho nesse universo aberto com minhas perguntas e interrogações, meus desejos e sonhos, meus medos e preocupações. Deus me envolve de todos os lados, e me ama, pois Ele quer me salvar. Eu sou de Deus! Ele quer me dizer, como disse a Zaqueu: “Hoje eu devo ficar na tua casa!”.

 

O segundo passo exige a superação de todos os obstáculos. Para Zaqueu o maior obstáculo é sua baixa estatura. Não se trata de uma informação sem importância sobre o aspecto físico de Zaqueu. A intenção do evangelista é a de nos mostrar que, aos olhos de todos, Zaqueu é muito pequeno, insignificante, quase imperceptível por ser considerado um pecador público. É um pequeno ponto perdido numa sociedade que se considera sem mancha e sem falha. Zaqueu não é um simples publicano, mas é o “Chefe dos publicanos”, um gerente de ladrões, por isso é um grande pecador público.

 

Zaqueu resolve o obstáculo de baixa estatura ao subir numa árvore. Quando quisermos fazer algo de nossa importância ou de nossa necessidade, usaremos todos os meios para alcançá-la. Este homem tem tudo na vida, mesmo assim ainda está insatisfeito. É tão profunda, irreprimível, avassaladora a necessidade de ver Jesus que para satisfazê-la, está até disposto a expor-se ao ridículo diante de uma multidão que com certeza não tem simpatia por ele. Um dito popular diz: “Para quem faz o melhor ou quer melhorar a vida tanto material como espiritual não existe o ridículo nem medo nem vergonha”.

 

Assim deve ser a nossa busca de Deus: nem falsa vergonha nem medo ao ridículo devem impedir que ponhamos os meios para encontrar o Senhor. Zaqueu procura ver aquele que tem condições de compreender o seu drama interior, mas alguém quer impedi-lo. São os “grandes”, as pessoas “de elevada estatura” que cercam Jesus e não toleram que “os pequenos”, “os impuros” entrem em contato com Ele. Também na narrativa anterior a multidão agiu da mesma maneira: os que seguiam Jesus repreendiam o cego rudemente para que se calasse, mas a vontade de querer ficar curado era tão grande a ponto de o cego gritar a Jesus. Em Zaqueu os que se acham “puros e santos” só conseguem ver o publicano, o pecador, o aproveitador, nada mais. Não reconhecem nele nada de bom, nada de positivo. É um perdido para eles. É como se estivessem usando óculos escuros: estão enxergando tudo escuro. Mas Jesus vê os anseios de Zaqueu e quer conversar com ele. Jesus dedica seu tempo para conversar com Zaqueu, porque para Deus ninguém é pequeno por causa de Seu amor por nós. Nada é pequeno quando o amor é grande.

 

Um verdadeiro cristão jamais opta por um caminho de condenação ou de julgamento, e sim por um caminho que facilite a chegada dos outros próximos de Deus. Quem condena o outro, se condena. Quem salva o outro, se salva também: “Saiba”, diz São Tiago, “aquele que fizer um pecador retroceder do seu erro, salvará sua alma da morte e fará desaparecer uma multidão de pecado” (Tg 5,20).        

 

O terceiro passo comporta deixar-se amar por Jesus sem restrições nem desconfiança, abrindo-lhe as portas do coração. 

 

De seu posto de observador (árvore), não é Zaqueu quem vê Jesus. É Jesus quem o vê e o chama pelo nome e se auto-convida para hospedar-se na casa dele: “Zaqueu, desce depressa! Hoje eu devo ficar na tua casa”. Para Zaqueu tudo isto é uma grande surpresa. Deus é surpresa para quem tem o profundo desejo de encontrá-Lo. Como resposta Zaqueu desceu depressa da árvore para receber Jesus em sua casa, com alegria. A salvação entrou assim em sua casa.

 

“Zaqueu, desce depressa! Hoje eu devo ficar na tua casa”.  Certamente, lá embaixo, no chão quando Zaqueu desce, acontece o milagre de transformação: “Senhor, eu dou a metade dos meus bens aos pobres, e se eu defraudei alguém, vou devolver quatro vezes mais”. A misericórdia de Jesus desperta a justiça de Zaqueu. A conversão de Zaqueu é tão profunda que lhe chegou até o bolso, que é o segundo coração do homem, pois o dinheiro é o deus cujo altar é o coração do homem.

 

Descer de pressa de uma arvore não é fácil, pois ao ver para baixo de cima de uma arvore, parece a distância se dobra e por isso causa o medo de cair. Assim também, não é fácil sair de nossa posição para outra posição; de um lugar para outro lugar. Não é fácil aceitar a mudança. Geralmente mudamos por necessidade. Mas temos que aceitar e reconhecer que o código de um mundo em desenvolvimento é mudança e transformação. Não há nada que seja pior do que fazer muito bem o que não é necessário fazer. Os nossos pseudo-desejos não preenchem o nosso coração. Mesmo que consigamos realizá-los, eles nunca serão nossos desejos verdadeiros e por isso, eles vão deixar nosso coração vazio. “A visão retrospectiva da realidade está marcada por atitude de medo do novo e, portanto, fundada sobre uma consciência eminentemente conservadora, que fossiliza a tradição. Diante dos novos desafios, instintivamente busca segurança nas respostas do passado... Diante da instabilidade do novo, a visão retrospectiva está sempre em busca da estabilidade em referenciais teóricos, oriundos de metarrelatos que já deram certo no passado. Trata-se, consequentemente, de atitude que mais copia do que cria, e mais repete do que reinventa. É a óptica típica dos que estão sempre amaldiçoando o progresso e satanizando os avanços da humanidade... A visão prospectiva é a óptica típica dos profetas e inconformados;... enfim, dos que são habitados pela virtude da esperança” (Agenor Brighenti).

          

O quarto passo é uma mudança radical de vida. Radical significa deixar de lado os esquemas e mentalidades antigos, para adequar-se às exigências do Reino de Deus. Isto não se faz com palavras ou com boas intenções, mas com gestos concretos: “Senhor, eu dou a metade dos meus bens aos pobres e, se defraudei alguém, vou devolver quatro vezes mais”.  Zaqueu dispõe-se a dar metade de seus bens aos pobres e a indenizar, quatro vezes mais, aquilo que roubou. Desta forma ele prova que, realmente, a salvação tem entrado em sua casa. Aqui Zaqueu nos mostra de que maneira a conversão influi em nossa relação com os bens materiais. O encontro verdadeiro com Cristo faz abrir o coração, o bolso e as mãos. O gesto de Zaqueu nasce da conversão interior, da mudança de vida, provocada pelo encontro com Jesus. Quando colocarmos o ouro e a prata acima de Deus que os criou, a conversão se tornará difícil. Mas quando reconhecermos que Deus deve estar acima de ouro e prata, o caminho da conversão se torna fácil.

 

Zaqueu abandonou sue velho estilo de vida, evidentemente perdeu seu dinheiro, mas encontrou sua honradez humana, sua salvação, o sentido da justiça e o amor para seu próximo, especialmente para os necessitados e os explorados por ele durante o exercício de sua profissão. Se ontem Jesus devolveu a vista a um cego, hoje ele devolveu a paz para uma pessoa de vida complicada.

 

Na casa de Zaqueu entrou a salvação de Deus e Jesus mesmo se encontra dentro dela. Podemos dizer que a verdadeira casa de Jesus é aquela onde o pai e a família, em conjunto, cumprem a exigência representada e resumida na atitude de Zaqueu. Deus entra em cada casa onde o amor fraterno tem seu lugar.

       

Será que a salvação também entrou na minha vida, na minha casa, na sua casa como entrou na casa de Zaqueu?  Será que tenho vontade de sair do chão da minha vida e de procurar algo que posso “ver” e conhecer Jesus? Quais são “arvores” que me ajudam com facilidade a “ver”e a conhecer Jesus?

 
P. Vitus Gustama,svd

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