domingo, 31 de janeiro de 2016

02/02/2017


APRESENTAÇÃO DO SENHOR


Primeira Leitura: Ml 3,1-4


Assim diz o Senhor: 1Eis que envio meu anjo, e ele há de preparar o caminho para mim; logo chegará ao seu templo o Dominador, que tentais encontrar, e o anjo da aliança, que desejais. Ei-lo que vem, diz o Senhor dos exércitos; 2e quem poderá fazer-lhe frente, no dia de sua chegada? E quem poderá resistir-lhe, quando ele aparecer? Ele é como o fogo da forja e como a barrela dos lavadeiros; 3e estará a postos, como para fazer derreter e purificar a prata: assim ele purificará os filhos de Levi e os refinará como ouro e como prata, e eles poderão assim fazer oferendas justas ao Senhor. 4Será então aceitável ao Senhor a oblação de Judá e de Jerusalém, como nos primeiros tempos e nos anos antigos.




Evangelho: Lc 2,22-40


22 Quando se completaram os dias para a purificação da mãe e do filho, conforme a lei de Moisés, Maria e José levaram Jesus a Jerusalém, a fim de apresentá-lo ao Senhor. 23 Conforme está escrito na lei do Senhor: “Todo primogênito do sexo masculino deve ser consagrado ao Senhor”. 24 Foram também oferecer o sacrifício — um par de rolas ou dois pombinhos — como está ordenado na Lei do Senhor. 25 Em Jerusalém, havia um homem chamado Simeão, o qual era justo e piedoso, e esperava a consolação do povo de Israel. O Espírito Santo estava com ele 26 e lhe havia anunciado que não morreria antes de ver o Messias que vem do Senhor. 27 Movido pelo Espírito, Simeão veio ao Templo. Quando os pais trouxeram o menino Jesus para cumprir o que a Lei ordenava, 28 Simeão tomou o menino nos braços e bendisse a Deus: 29 “Agora, Senhor, conforme a tua promessa, podes deixar teu servo partir em paz; 30 porque meus olhos viram a tua salvação, 31 que preparaste diante de todos os povos: 32 luz para iluminar as nações e glória do teu povo Israel”. 33 O pai e a mãe de Jesus estavam admirados com o que diziam a respeito dele. 34 Simeão os abençoou e disse a Maria, a mãe de Jesus: “Este menino vai ser causa tanto de queda como de reerguimento para muitos em Israel. Ele será um sinal de contradição. 35 Assim serão revelados os pensamentos de muitos corações. Quanto a ti, uma espada te traspassará a alma”. 36 Havia também uma pro­fe­tisa, chamada Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser. Era de idade muito avançada; quando jovem, tinha sido casada e vivera sete anos com o marido. 37 Depois ficara viúva, e agora já estava com oitenta e quatro anos. Não saía do Templo, dia e noite servindo a Deus com jejuns e orações. 38 Ana chegou nesse momento e pôs-se a louvar a Deus e a falar do menino a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém. 39 Depois de cumprirem tudo, conforme a Lei do Senhor, voltaram à Galileia, para Nazaré, sua cidade. 40 O menino crescia e tornava-se forte, cheio de sabedoria; e a graça de Deus estava com ele.
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I. A FESTA DA APRESENTAÇÃO DO SENHOR E SEU SENTIDO


1. Jesus Na Apresentação


Ainda que a festa da apresentação caia fora do tempo do Natal, ela faz parte inseparável do relato do Natal do Senhor. Trata-as de outra Epifania do Senhor no quadragésimo dia. Natal, Epifania e Apresentação do Senhor são três aspectos do Natal inseparáveis.


A festa da Apresentação celebra uma chegada e um encontro: a chegada do Senhor desejado, núcleo da vida religiosa do povo e a bem-vindo concedida a ele pelos representantes dignos do povo eleito: Simeão e Ana. Por sua idade avançada os dois personagens simbolizam os séculos de espera e de anseio fervente dos homens e das mulheres devotos da Antiga Aliança (Antigo Testamento). Pode-se dizer que os dois simbolizam a esperança e o anseio da humanidade.


Ao festejar e reviver este mistério na fé, a Igreja dá novamente as boas vindas para Jesus Cristo. Este é o verdadeiro sentido da festa. É a festa do encontro: encontro de Cristo e sua Igreja. Isto vale para qualquer celebração litúrgica, mas especialmente para esta festa. A liturgia nos convida a dar boas vindas a Cristo e à sua Mãe, como fizeram Simeão e Ana. Ao celebrar esta festa a Igreja professa publicamente a fé na Luz do mundo (Jo 8,12), Luz de revelação para a humanidade.


A festa da apresentação é uma festa de Cristo, por excelência. É um mistério da salvação. O nome “apresentação” tem um conteúdo rico. Fala de oferecimento, de sacrifício. Recorda a auto-oblação inicial de Cristo, Palavra Encarnada, quando entrou no mundo: “Eis me aqui que venho para fazer Tua vontade”. Aponta para a vida de sacrifício e para a perfeição final dessa auto-oblação na colina do Calvário. 


2. A Presença de Maria Na Apresentação E Seu Significado


Qual é o papel de Maria e José nessa Apresentação? Eles simplesmente cumprem o ritual prescrito, uma formalidade praticada por muitos outros casais?


Para Maria, a Apresentação e oferenda de seu Filho no Templo não era um simples gesto ritual. Indubitavelmente, Maria não estava consciente de todas as implicações nem da significação profética desse ato. Ela não consegue alcançar todas as consequências de sua Fiat na Anunciação. Mas foi um ato de oferecimento verdadeiro e consciente. Significava que ela oferecia seu Filho para a obra da redenção, renunciando aos seus direitos maternais e toda a pretensão sobre seu Filho. Ela oferecia seu Filho à vontade de Deus Pai. São Bernardo comentou que Santa Virgem ofereceu seu Filho e apresenta ao Senhor o fruto bendito de seu ventre e o oferece para reconciliação de todos os homens.


Existe uma conexão entre esse oferecimento e o que sucederá na Gólgota quando se executam as implicações do ato inicial de obediência de Maria: “Faça-se em mim segundo Tua Palavra” (Lc 1,38b).


Na Apresentação Maria põe seu Filho nos braços do ancião Simeão. Esse gesto é simbólico. Ao atuar dessa maneira, ela oferece seu Filho não somente para Deus Pai, mas também para o mundo representado por aquele ancião. Dessa maneira, Maria desempenha seu papel de Mãe da humanidade e nos é recordado que o dom da vida vem através de Maria.


A festa deste dia não permite apenas revivermos um acontecimento passado. Ela também nos projeta para o futuro. Ela prefigura nosso encontro final com Cristo na sua segunda vinda, na Parusia. A procissão representa a peregrinação da própria vida. O povo peregrino de Deus caminha penosamente através deste mundo, no tempo, guiado pela Luz de Cristo e sustentado pela esperança de encontrar finalmente o Senhor da glória em Seu Reino eterno. Na bênção das velas o sacerdote pronuncia as seguintes palavras: “... Fazei que, levando as velas nas mãos em vossa honra e seguindo o caminho da virtude, cheguemos à luz que não se apaga”. A vela acesa na nossa durante a procissão recorda a vela de nosso batismo.


II. ALGUMAS MENSAGENS A PARTIR DO TEXTO DO EVANGELHO DA FESTA


1.     A importância de Jerusalém para Lucas


Para Lucas, Jerusalém é importante, pois é centro de tudo. Por isso, todos os acontecimentos importantes da vida de Jesus acontecem em Jerusalém. Jerusalém é mencionado no início e no fim do relato (vv.22.25.38). A apresentação do Senhor acontece em Jerusalém. E em Jerusalém acontecerão sua morte e ressurreição. De Jerusalém ele subirá ao céu. E de Jerusalém partirá a missão cristã para o resto do mundo (cf. Lc 2,41-52;4,9-13;9,31.51.53;13,22;17,11;18,31;19,11.28-48;24,47-53;At 1,4.8).


2. A imposição do nome de Jesus


Lucas, neste relato, quer sublinhar a importância da imposição do nome de Jesus que se afirma na frase principal: “Foi-lhe dado o nome de Jesus” (v.21). O nome “Jesus” foi escolhido pelo próprio Deus (Lc 1,31;2,21;cf. Mt 1,21).


Para os judeus, o nome expressava a identidade e o destino pessoal que cada um devia realizar ao longo de sua vida.  E quando uma pessoa é eleita para uma nova missão, recebe um nome novo, em função da etapa de vida que começa (cf. Gn 17,5;17,15;32,29; Mt 16,18; cf. 2Rs 23,34;24,17;Is 62,2;65,15).


Não há nenhum nome que coincidiu tão perfeitamente com o nome como no caso de Jesus. Jesus significa Salvador. Desde o primeiro instante de sua existência até a morte na cruz, ele foi o que significa seu nome: Salvador.


Por isso, o nome de Jesus como Senhor e Salvador é invocado ao longo da história do cristianismo por bilhões de cristãos. O nome de Jesus é invocado, pois ele é o Senhor de tudo. Está acima de todo principado, de todo poder, de toda dominação e potência. Por mais poderoso que seja um político ou um atleta, um dia a morte o vencerá. Por mais rico que seja alguém, um dia a morte levará a melhor. Ao contrário, Jesus venceu a morte, pois ele ressuscitou. Por isso, São Paulo afirma: “Se confessas com tua boca que Jesus é o Senhor, e crês em teu coração, que Deus o ressuscitou dos mortos, tu serás salvo”(Rm 10,9; cf. Rm 8,35-39). Jesus é o Senhor porque vive uma vida sobre a qual a morte não tem poder algum. Ele detém a chave do segredo da vida e ilumina o mistério da vida.


A soberania do Senhor Jesus pode nos dar uma força imensa para combater o mal dentro de nós e o mal ao nosso redor. Jesus é Senhor exprime uma fé libertadora que tira de nossas vidas toda a angústia exagerada. Jesus é Senhor implica que ele é Senhor de nossa vida. Exprime uma entrega, um total abandono nas mãos do Senhor. Implica construir a vida sobre ele(cf. Mt 7,24-25) e não sobre os fundamentos fracos e frágeis(cf. Mt 7,26-27).


3. Jesus é sinal de contradição


Israel tinha murmurado contra Deus na passagem do deserto (Nm 20,1-13;Dt 32,51). Na apresentação do Senhor no templo, Simeão profetiza a nova rebelião de Israel contra Jesus, que será relatada no evangelho da vida pública e da paixão e a rejeição da missão cristã em Israel que será contada no livro de Atos. Tudo isto resulta também no sofrimento de sua mãe, Maria.


Lucas relata ao longo de sua obra que diante de Jesus e sua missão, uns são a favor, outros contra; uns abrem os olhos à luz, outros os fecham; uns encontram força nele e por isso, se levantam, enquanto os outros tropeçam e caem por não crer. Isto quer dizer que ninguém pode ficar indiferente diante de Jesus: ou aceitar Jesus para ser libertado ou rejeitá-lo que significa tropeço na caminhada.


Jesus e seu evangelho continuam sendo em todos os tempos e lugares sinal de divisão e de contradição. Perante Jesus e seu evangelho ninguém pode ficar indiferente: ou aceitar ou rejeitar, com conseqüências para cada opção feita. A salvação é oferecida a todos, mas não é dada automaticamente nem pode ser recebida passivamente. Ela tem que ser recebida conscientemente como um compromisso a ser assumido a vida toda. O Evangelho de Jesus, quando for proclamado e vivido verdadeiramente, sempre incomoda tanto para quem o prega e vive como para quem o escuta, pois ele é como uma luz que brilha na escuridão: revela o verdadeiro ser de pessoas e das coisas. Aquele que quer manter uma vida falsa e dupla ou camuflada, a presença do Evangelho funciona como se fosse um espinho que irrita a carne. Se alguém não tiver medo de ser feliz, a presença incômoda do Evangelho será um momento oportuno de libertação. Para quem vive somente em função do prazer, não tem prazer de viver. O prazer tem que ser fruto de um viver bem.


4. Nós e o ancião Simeão   


Na parte central do relato (vv.25-35) encontramos o ancião Simeão. Ele é apresentado como um homem justo e piedoso, isto é, um homem fiel aos mandamentos de Deus. Ele se deixa guiar pelo Espírito Santo e por isso, compreende o sentido de sua existência. Ele é o símbolo da perseverança. Apesar de ter consciência de sua iminente morte, continua esperando a salvação. Na sua velhice ele é premiado, pela sua fidelidade e perseverança, pela presença do Messias esperado. Ele é uma pessoa que sabe olhar para frente para viver melhor o presente.


A partir de Deus e com Deus nada é perdido no mundo. Simeão é a testemunha e prova disto. Ele nos ensina a conversarmos com Deus permanentemente e a olharmos para a frente. Ele nos ensina a olharmos para Jesus, o nosso Salvador e a irmos ao Seu encontro. No encontro com Jesus, como aconteceu com Simeão, são realizadas nossas esperas e esperanças, encontramos alegria e paz, nossos olhos são iluminados para ver as pessoas e as coisas no seu justo valor, como também a nossa própria vida. Mas para que o nosso encontro com Jesus aconteça, precisamos nos deixar guiar pelo Espírito Santo.


5. O silêncio de Maria e o nosso silêncio


No relato, Maria é descrita como uma personagem que não profetiza nem fala. Em outras palavras, ela está em silêncio total. Ela acolhe na obediência as profecias sobre o futuro de seu Filho silenciosamente.


Maria nos ensina a fazermos o silêncio obrigatório no meio de nossa vida e trabalho para vermos melhor as coisas, os acontecimentos e as pessoas na sua justa perspectiva e no seu justo valor. O silêncio chega quando as nossas energias começam a descansar e nos acolhe quando o nosso ego fica em paz e sossego. Quando não sabemos o que é descansar, não sabemos também o que é viver. O nosso ego não é o nosso centro de gravidade. O ego é o centro de todos os desejos desenfreados, dos lucros, possessões e domínios. Hoje em dia há uma dependência exagerada do trabalho. Quando há dependência, não existe liberdade. Há pessoas que se entregam a tudo desde que não fiquem no vazio. A vida nunca é o que se consegue. Não é o que se tem. A vida é o que se é. Não se pode ignorar que tudo quanto se alcança, se perde. Só o que se é, permanece. O silêncio, por isso, é tão importante, pois ele nos leva a encontrarmos o nosso eixo. As nossas palavras serão boas, se brotarem do silêncio. E Deus nunca cessa de clamar, mas para escutarmos a sua voz é preciso criarmos o silêncio dentro de nós. E a escuta exige uma atenção total e plena. O silêncio é um vazio que faz tornar presente a plenitude. Mas a plenitude não se torna presente de repente. É preciso tempo. Na semente está a qualidade do fruto, mas naturalmente é preciso tempo. Dizia Cícero: “Há três coisas na vida nas quais não pode haver pressa: a natureza, um ancião e a ação dos deuses na tua história”. O silêncio é esvaziar-se para receber. No silêncio diminuem as defesas e fica-se pronto para receber o que vier. O silêncio quando se souber aproveitá-lo melhor, ele será frutificante e benéfico para quem o cria e consequentemente para os que o cercam.


P. Vitus Gustama,svd

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