quinta-feira, 19 de maio de 2016

Domingo, 22/05/2016




SOLENIDADE DA SANTÍSSIMA TRINDADE


I Leitura: Pr 8,22-31


Assim fala a Sabedoria de Deus: 22 “O Senhor me possuiu como primícia de seus caminhos, antes de suas obras mais antigas; 23 desde a eternidade fui constituída, desde o princípio, antes das origens da terra. 24 Fui gerada quando não existiam os abismos, quando não havia os mananciais das águas, 25 antes que fossem estabelecidas as montanhas, antes das colinas fui gerada. 26 Ele ainda não havia feito as terras e os campos, nem os primeiros vestígios de terra do mundo. 27 Quando preparava os céus, ali estava eu, quando traçava a abóbada sobre o abismo, 28 quando firmava as nuvens lá no alto e reprimia as fontes do abismo, 29 quando fixava ao mar os seus limites — de modo que as águas não ultrapassassem suas bordas — e lançava os fundamentos da terra, 30 eu estava ao seu lado como mestre-de-obras; eu era seu encanto, dia após dia, brincando, todo o tempo, em sua presença, 31 brincando na superfície da terra, e alegrando-me em estar com os filhos dos homens”.


II Leitura: Rm 5,1-5


Irmãos: 1 Justificados pela fé, estamos em paz com Deus, pela mediação do Senhor nosso, Jesus Cristo. 2 Por ele tivemos acesso, pela fé, a esta graça, na qual estamos firmes e nos gloriamos, na esperança da glória de Deus. 3 E não só isso, pois nos gloriamos também de nossas tribulações, sabendo que a tribulação gera a constância, 4 a constância leva a uma virtude provada, a virtude provada desabrocha em esperança; 5 e a esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado.


Evangelho: Jo 16,12-15


Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 12 “Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de as compreender agora. 13 Quando, porém, vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à plena verdade. Pois ele não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido; e até as coisas futuras vos anunciará. 14 Ele me glorificará, porque receberá do que é meu e vo-lo anunciará. 15 Tudo o que o Pai possui é meu. Por isso, disse que o que ele receberá e vos anunciará, é meu”.
-------------------------------


O texto do evangelho deste domingo se encontra no complexo literário de Jo 13-17 que fala da despedida de Jesus de seus discípulos. A última mensagem de Jesus para os seus discípulos se precede com a cena da última ceia com o lava-pés que culmina com o anúncio da traição (Jo 13,1-20).  Em outros capítulos (Jo 14-17) relatam-se os diálogos da despedida de Jesus que termina com a oração de Jesus ao Pai em Jo 17.


Na presença dos seus amigos íntimos, Jesus começa a transmitir sua mensagem final (Jo 13,31-17,26). Como qualquer grande líder que reúne seus seguidores na véspera de sua morte para dar-lhes instruções quando ele partir, também Jesus, antes de sua morte, faz a mesma coisa. Mas ele lhes garante que sua morte não é um fim, pois ele vai para seu Pai. Aqui, nestes capítulos, Jesus repetidamente promete que ele vai voltar para os discípulos através de sua ressurreição e do dom do Espírito Santo. Esta volta vai trazer-lhes paz e alegria, e que os discípulos vão entrar também na comunhão de sua vida através do Espírito, que é o dom de Jesus ressuscitado.


MENSAGEM DO EVANGELHO: JO 16,12-15


O Espirito Da Verdade Nos Ajuda a Entender Os Ensinamentos de Jesus


 Tendo ainda muitas coisas a vos dizer, mas agora não podeis suportá-las” (v.12), diz Jesus aos seus discípulos na despedida.


Este versículo parece contradizer o que foi afirmado em Jo 15,15 em que Jesus disse: “Eu vos chamei amigos, porque vos comuniquei tudo o que ouviu do meu Pai”. Quais  são “muitas coisas” que Jesus tem a dizer aos discípulos e que eles não podem suportá-las? O versículo não explicita. Mas dentro do contexto da despedida em que a Paixão e a morte de Jesus ficam cada vez mais próximas, podemos entender que os discípulos ainda não sabem como Jesus vai morrer nem compreendem o sentido último da sua morte. João nos relembra de que os discípulos só entenderão os acontecimentos de Jesus depois da sua ressurreição (Jo 2,22) ou após sua morte (12,16). Isto quer dizer que é impossível entender o sentido de todas as coisas de uma vez só, antes que elas aconteçam. Por isso, os discípulos precisam de uma assistência divina.


Quem vai ajudar os discípulos a compreenderem melhor o sentido dos acontecimentos de Cristo é o Espírito da Verdade (v.13). É verdade que Jesus já comunicou “tudo” aos discípulos o que ouvira do Pai (Jo 15,15), mas para que eles possam ter disso  uma compreensão profunda, o Espírito deve intervir.  O Espírito da Verdade (Paráclito) é, neste sentido, o “intérprete autorizado” de Jesus. Ele vai ajudar cada discípulo a entender o sentido de cada coisa em cada momento. O ensinamento do Espírito da verdade consiste sobretudo em revelar sempre de novo o sentido da revelação de Cristo. Mas não se trata de uma outra revelação. O momento central e culminante da revelação é o de Jesus. Por isso, neste texto a dependência do Espírito da verdade é reafirmada três vezes. O que o Espírito de Deus quer ajudar é entender a pessoa de Jesus e o significado da vida que ele viveu. Trata-se do conhecimento interior(Jesus) e progressivo(seu sentido no momento). É o conhecimento progressivo ao centro da pessoa de Jesus. Este Espírito da verdade é que faz compreender que Jesus é realmente vencedor e não perdedor como imaginavam os discípulos depois que Jesus morreu.


No v.13 do texto  lemos que o Espírito revelará as coisas futuras. Aqui, mais uma vez, não se trata de nova revelação como foi dito acima. Mas trata-se de uma leitura “escatológica” da história; é uma leitura do presente à luz de sua conclusão. Trata-se de uma leitura dos acontecimentos/eventos à luz da história de Jesus o que resulta em compreender seu significado pela ajuda do Espírito da verdade.


Tudo isto quer sublinhar a importância da assistência do Espírito de Deus na nossa vida. Somente o Espírito divino tem a capacidade de nos levar a compreendermos melhor a revelação de Cristo e toda a sua mensagem e os acontecimentos atuais. O Espírito de Deus ajudará os cristãos na difícil tarefa de unir a fidelidade à novidade, à memória à renovação. Sem o Espírito divino teremos apenas um aglomerado de “muitas” coisas, que não podemos suportar. Ninguém pode suportar  algo acima da sua capacidade permitida. Mas com a ajuda do Espírito divino, tudo será suportado mesmo estando acima do limite permitido. O Espírito de Deus nos leva à verdade plena, isto é a um conhecimento sempre novo, melhor e mais profundo de Jesus. Ao compreendermos Jesus e sua mensagem, compreenderemos melhor quem somos nós, e qual é nossa missão nesta terra, o  sentido de nossa vida e de nossa morte. Somente na companhia do Espírito divino podemos ter certeza de que o nosso futuro ressuscitado está garantido, e por isso, a nossa luta por aquilo que é certo, bom, honesto, justo ou o amor vivido tem sua garantia final: a vitória.  Portanto, a presença do Espírito de Deus na vida de um cristão é indispensável. Um cristão sem o Espírito de Deus fica isolado dos fatos e acontecimentos e dos seus sentidos.


MENSAGEM DA FESTA DA SANTÍSSIMA TRINDADE


Santíssima Trindade Na Vida Cristã


O Novo Testamento aceita sem discussão a revelação do monoteísmo que Deus é único (Mc 12,29;Jo 17,3;Gl 3,20;Ef 4,6;1Tm 2,5). E nós acreditamos em um só Deus. Que Deus é um e único, não há dúvidas.


Mas não basta crer em um e único Deus. Devemos perguntar de que jeito vive Deus, para podermos questionar a nós mesmos, sobre de que jeito também nós vivemos.


Deus vive do jeito trinitário. Cremos que Deus é único, mas não é solidão ou solitário, é comunhão. Crer na Santíssima Trindade significa que a verdade está do lado da comunhão e não da exclusão. Isto implica que tudo se relaciona com tudo. É uma inclusão no relacionamento e na convivência.


E por ser central para a nossa vida, a Santíssima Trindade é continuamente invocada em toda a liturgia e em todas as nossas orações:
  • Fomos batizados e a futura geração da Igreja será batizada em nome da Santíssima Trindade. E a primeira oração que aprendemos quando éramos criancinhas e que passamos também para outra geração é o sinal da cruz, invocando a presença da Santíssima Trindade.
     
  • Os nossos pecados são perdoados no sacramento da confissão em nome da Santíssima Trindade.
     
  • E ao começarmos e terminarmos a missa e muitas orações nossas diariamente, inclusive as orações presidenciais da missa, nós invocamos a presença da Santíssima Trindade. “Não damos um passo ou fazemos um movimento, para sair ou para entrar, para nos levantarmos ou nos assentarmos, nos calçarmos, nos pormos à mesa ou nos deitarmos para acendermos uma lâmpada, ou fazer qualquer coisa, sem assinalarmos nossa fronte com o sinal da Cruz” (Tertuliano [160-220], em sua obra De corona III,II).
     
  • Com frequência repetimos o “glória ao Pai, ao Filho e ao Espirito Santo”.
     
  • Nosso Credo, na sua estrutura íntima é uma confissão da Santíssima Trindade.
     
    Nossa vida diária é realmente cercada pela Santíssima Trindade. A nossa vida é uma liturgia: ao iniciarmos a vida, fomos batizados em nome da Santíssima Trindade e ao terminarmos a nossa caminhada terrena, mais uma vez, a presença da Santíssima Trindade é convocada: a nossa vida se entrega de volta para a comunhão eterna com a Santíssima Trindade.
              
    A presença da Santíssima Trindade em todos os momentos de nossa vida nos leva a uma vida serena pois, na verdade, há alguém que nos envolve, nos abraça e nos cerca por todos os lados e nos ama de verdade. Ninguém nos conhece melhor como ele nos conhece, pois ele nos conhece e penetra lá no fundo de nosso coração. Não só isso, também ele conhece todos os segredos, todos os mistérios e todos os caminhos. Nele encontramos respostas para todas as nossas interrogações. Ele é realmente um útero infinito e a última ternura onde todos nós podemos nos refugiar. Com ele ninguém se sente só, pois ele é eternamente aberto para nós.
              
    Quem revela a Santíssima Trindade para nós? É Jesus Cristo. Jesus Cristo é o revelador do mistério da Santíssima Trindade em Deus, como relata o texto de hoje (Pai, Filho e Paráclito). Ele é o verdadeiro autor de uma primeira teologia trinitária. Por meio dele o Pai revelou o que necessitamos saber para nossa salvação; e não haverá outra revelação pública. E Por meio do Espirito Santo somos capacitados a entender e a viver os ensinamentos de Jesus Cristo.
              
    No pequeno trecho tirado do Evangelho de João que serve como o evangelho desta Santa Missa, encontramos a Santíssima Trindade revelada por Jesus Cristo. Nele ele fala do Pai, de si e do Espírito Santo. Jesus ensina tudo que recebe do Pa (Jo 15,15) para os discípulos. Neste texto, Jesus diz: “Tenho ainda muitas coisas a vos dizer, mas não sois capazes de compreender agora”. Ele quer lhes dizer que não dá para explicar tudo de uma vez para sempre. É impossível entender o sentido das coisas antes que aconteçam.
              
    Mas como, então, eles poderão entender sem a presença de Jesus? Aí é que vem a promessa de Jesus: “Quando vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá na verdade plena”. A verdade na qual o Espírito da Verdade nos conduz não é coisa feita e acabada, mas a compreensão certa de cada novo momento. O Espírito da Verdade nos guia na plenificação da verdade porque Jesus viveu num determinado momento, mas o Espírito Santo que ele envia é para todos os momentos. O Espírito da Verdade participa ativamente do “anúncio” que está sendo levado pela comunidade.
              
    O papel do Espírito da Verdade não é dar-nos nova revelação, acrescentada à de Jesus, pois o ensinamento do Espírito Santo tem a mesma natureza, qualidade e importância que o ensinamento de Jesus durante sua vida terrestre. O papel do Espírito Santo é iluminar, guiar, estimular a Igreja, todos nós, a interpretar sempre mais a fundo a Palavra de Deus. Ele é atualizador da memória de Jesus. Ele nunca deixa que as palavras de Jesus permaneçam mortas, mas que sempre sejam relidas, ganhem novas significações e implementem novas práticas. Com efeito, a Palavra de Deus não é um depósito de proposições cristalizadas, mas é uma palavra viva. A Palavra de Deus é uma força dinâmica que continua a revelar-se seu significado na história que se enriquece pela reflexão, pela experiência e vicissitudes históricas da Igreja com a ajuda do Espírito Santo. E o Espírito Santo foi e continua sendo derramado sobre todos nós. Ele habita os corações das pessoas, dando-lhes entusiasmo, coragem e determinação. Ele é uma Pessoa divina junto com o Filho e o Pai, emergindo simultaneamente com Eles e estando essencialmente unidos a Eles pelo amor, pela comunhão e pela mesma vida divina.
     
    Crer Na Santíssima Trindade e Suas Consequências
              
    O que significa dizemos que Deus é comunhão? O que isso implica? Implica uma estar em presença da outra, distinta da outra, mas aberta, numa radical reciprocidade. Para que haja verdadeira comunhão, devem existir relações diretas e imediatas: olho a olho, rosto a rosto, coração a coração e relações de iguais para iguais. O resultado da mútua entrega e da comunhão recíproca é a comunidade. A comunidade resulta de relações pessoais, onde cada um é aceito como é, cada um se abre ao outro e dá o melhor de si mesmo para a comunhão.
              
    A comunhão é a realidade mais profunda e fundadora que existe. É por causa da comunhão que existem o amor, a amizade, a benquerença e a doação entre as pessoas humanas e divinas. A comunhão da Santíssima Trindade não é fechada sobre si mesmo. Ela se abre para fora. Todas as criaturas, de modo especial os homens e as mulheres são convidados para também entrarem no jogo da comunhão entre si e com as Pessoas divinas. A comunhão é sempre a inclusão.
              
    A fé viva na Santíssima Trindade tem como consequência necessária, para nós, a busca de relações novas e até mesmo a criação de novos tipos de sociedade, animados pela procura da igualdade e da fraternidade. Por isso, o egoísmo, a exclusão, o isolamento, a opressão e a exploração são uma negação ao Deus como comunhão. A comunhão, que é a natureza da Santíssima Trindade, significa crítica a todas as formas de exclusão e não participação que existem e persistem na sociedade e também nas comunidades eclesiais ou nas Igrejas. A Santíssima Trindade também incentiva as necessárias transformações para que haja comunhão e participação em todas as esferas da vida social e religiosa. Ela também incentiva cada família, que é o símbolo perfeito e a imagem mais rica da Santíssima Trindade, a buscar sua perfeição na comunhão e no amor, no mútuo comunhão e reconhecimento.
     
    Crer na Santíssima Trindade significa conhecer e viver a unidade e a verdadeira dignidade de todos os homens, pois todos os homens foram feitos “à imagem e à semelhança de Deus” (Gn 1,27).
     
    Crer na Santíssima Trindade é viver em permanente ação de graças, pois tudo o que somos e tudo o que possuímos vem de Deus: “Que é que possuis, que não tenhas recebido?” (1Cor 4,7). “Como retribuirei ao Senhor todo bem que me fez?” (Sl 116,12).
     
    Crer na Santíssima Trindade significa que devemos colocar Deus acima das coisas criadas por Ele. Podemos entender o significado da oração de São Nicolau de Flüe: “Meu Senhor e meu Deus, tirai-me tudo o que me afasta de Vós. Meu Senhor e meu Deus, dai-me tudo o que me aproxima de Vós. Meu Senhor e meu Deus, desprendei-me de mi mesmo para doar-me por inteiro a Vós”.
     
    Crer na Santíssima Trindade significa confiar na presença de uma Comunhão divina apesar das circunstancias adversas. Santa Teresa de Jesus rezava: “Nada te perturbe, nada te espante. Tudo passa, Deus não muda. A paciência tudo alcança. Quem a Deus tem nada lhe falta. Só Deus basta”.
     
    Crer na Santíssima Trindade significa Viver uma vida participativa e igualitária. Na Santíssima Trindade há participação plena ou perfeita. Ou não há trinitarização sem participação. Nenhuma das pessoas da Santíssima Trindade atua sozinha. As três Pessoas participam, cada uma de acordo com seu modo próprio. Todas as ações de Deus são ações do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
     
    A Trindade é a raiz, a fonte e a meta de nossa fraternidade humana. Manifestamos nossa fé na Trindade através do amor, da comunicação, da fecundidade, do diálogo, da partilha, da igualdade e da fraternidade. O homem que vive como filho de Deus e irmão de todos os homens mostra que encontrou a razão de sua vida e experimentou a vida trinitária e guiado pela Santíssima Trindade.
              
    Por isso, viver a vida a exemplo da vida participativa da Santíssima Trindade significa levar em conta o outro em todas as circunstâncias, colocar-se do seu lado como iguais. Consequentemente, não há uma vida trinitária quando a desigualdade continuar a dominar uma comunidade ou sem verdadeira participação nos deveres e nos direitos.
            
    Por tudo isso, celebrar a solenidade da Santíssima Trindade é celebrar um Deus que é comunidade, mas sobretudo celebrá-lo na Igreja-Comunidade, com uma celebração que inclui o compromisso de fazer comunidade no mundo e fazer do mundo uma comunidade.
              
    Portanto, terminando esta reflexão, juntos invoquemos e louvemos à Santíssima trindade, rezando: “Glória ao Pai, e ao Filho e ao Espírito Santo. Como era no princípio, agora e sempre. Amém!”
P. Vitus Gustama,svd





Nenhum comentário: