segunda-feira, 18 de julho de 2016

20/07/2016



POR SER SEMENTE DE DEUS O CRISTÃO DEVE SER SEMEADOR DO BEM


Quarta-Feira da XVI Semana Comum


Primeira Leitura: Jr 1,1.4-10


1 Palavras de Jeremias, filho de Helcias, um dos sacerdotes de Anatot, da tribo de Benjamim. 4 Foi-me dirigida a palavra do Senhor, dizendo: 5 “Antes de formar-te no ventre materno, eu te conheci; antes de saíres do seio de tua mãe, eu te consagrei e te fiz profeta das nações”. 6 Disse eu: “Ah! Senhor Deus, eu não sei falar, sou muito novo”. 7 Disse-me o Senhor: “Não digas que és muito novo; a todos a quem eu te enviar, irás, e tudo que eu te mandar dizer, dirás. 8 Não tenhas medo deles, pois estou contigo para defender-te”, diz o Senhor. 9 O Senhor estendeu a mão, tocou-me a boca e disse-me: “Eis que ponho minhas palavras em tua boca. 10 Eu te constituí hoje sobre povos e reinos com poder para arrancar e para destruir, para exterminar e para demolir, para construir e para plantar”.


Evangelho: Mt 13,1-9


1 Naquele dia, Jesus saiu de casa e foi sentar-se às margens do mar da Galileia. 2 Uma grande multidão reuniu-se em volta dele. Por isso Jesus entrou numa barca e sentou-se, enquanto a multidão ficava de pé, na praia. 3 E disse-lhes muitas coisas em parábolas: “O semeador saiu para semear. 4 Enquanto semeava, algumas sementes caíram à beira do caminho, e os pássaros vieram e as comeram. 5 Outras sementes caíram em terreno pedregoso, onde não havia muita terra. As sementes logo brotaram, porque a terra não era profunda. 6 Mas, quando o sol apareceu, as plantas ficaram queimadas e secaram, porque não tinham raiz. 7 Outras sementes caíram no meio dos espinhos. Os espinhos cresceram e sufocaram as plantas. 8 Outras sementes, porém, caíram em terra boa, e produziram à base de cem, de sessenta e de trinta frutos por semente. 9 Quem tem ouvidos, ouça!”
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Ser Cristão É Ser Profeta Que Constrói o Povo e Planta o Bem


Eis que ponho minhas palavras em tua boca. Eu te constituí hoje sobre povos e reinos com poder para arrancar e destruir, exterminar e demolir, construir e plantar”, disse Deus para Jeremias.


A Primeira Leitura fala da vocação de Jeremias como profeta. Segundo Jr 1,2 Jeremias recebeu sua vocação no décimo terceiro ano do reinado de Josias (640-609 a.C) em 627 a.C aproximadamente.


Através do texto lido hoje encontramos em Jeremias expressões típicas  de uma vocação “receptiva”, isto é, tudo é recebido de Deus. Para Jeremias Deus é, antes de mais nada e acima de tudo, Aquele que deu tudo, como lemos em Jr 1,5-10 na Primeira Leitura.


Antes de formar-te no ventre materno, eu te conheci; antes de saíres do seio de tua mãe, eu te consagrei e te fiz profeta das nações”, disse Deus a Jeremias. Na concepção dos hebreus, Deus vai realizando no seio materno como que uma tarefa de coser, de textura. Deus vai configurando, “tecendo” a criança no útero. Assim, antes de ser formado no seio materno, antes de sair desse seio, Jeremias já é consagrado, constituído “profeta das nações”, isto é, profeta universal, profeta para todos e não apenas profeta para o povo de Israel.


Diante da chamada de Deus, Jeremias sente sua fraqueza, sua fragilidade, sua pequenez: “Ah! Senhor Deus, eu não sei falar, sou muito novo”. “Sou uma criança, um adolescente”. Mas Deus lhe assegura: “Não tenhas medo deles, pois estou contigo para defender-te. Por ser tímido e introvertido para o profeta Jeremias é muito custoso proclamar a mensagem de Deus. Além disso, o conteúdo de sua pregação é extraordinariamente agressivo e injurioso para seus contemporâneos: “Eis que ponho minhas palavras em tua boca. Eu te constituí hoje sobre povos e reinos com poder para arrancar e para destruir, para exterminar e para demolir, para construir e para plantar”, disse Deus a Jeremias. O conteúdo da pregação de Jeremias é descrito em seis verbos: quatro de destruição, dois de construção: “arrancar e destruir”, “exterminar e demolir”. Logo a seguir, a proposta de esperança: “construir e plantar”. Para Jeremias era muito difícil transmitir tal mensagem tão dura.


Boa parte da mensagem do profeta Jeremias se concentra nesta proposta: denunciar os pecados do povo, fustigar as falsas esperanças. O pecado aparece em termos de desobediência, infidelidade (adorar Baal), rebeldia. Jeremias terá que enfrentar os profetas da corte, que sistematicamente dão razão ao poder e não à justiça social e à fidelidade à Aliança. Jeremias depara com um culto hipócrita, rechaça as injustiças e a idolatria. Suas denúncias tem endereço especial: o rei, os falsos profetas e os sacerdotes. Como o castigo para tantos pecados será a invasão do “inimigo do norte”.


Mas a denúncia e o castigo não são a única nem a última palavra. A missão do profeta Jeremias é também “para construir e para plantar”. Por isso, ele provoca a conversão do povo para que volte para o Senhor. Para este objetivo, Jeremias prega e intercede pelo povo (Jr 18,20; 42,2); ele sofre com o povo (Jr 8,18-21), mas sofre também por causa do povo, pois há alguns que o fazem sofrer; ele convida o povo a recordar a Aliança com Deus que tirou o povo da escravidão do Egito a fim de abandonar a “prostituição” com os “Baal”; ele enfatiza que o verdadeiro conhecimento do Senhor não está no culto e sim na justiça (Jr 22,16). O fruto da conversão do povo, Jerusalém será reconstruída a partir de um rebento da dinastia de Davi (Jr 23,5; 33,15).


No início Jeremias tem plena consciência de que Deus será sua única segurança, seu único alento. No entanto, se a certeza da fé na proteção de Deus for bloqueada, se esta fé não for mantida pura, purificada e esclarecida, ela se converterá em passividade e problema sério. Por essa razão quando começam a surgir problemas sérios, Jeremias chega a amaldiçoar o dia de seu nascimento (cf. Jr 20,14-18). Mas aos poucos Jeremias vai começar a estar consciente de que a salvação não é por seu mérito próprio e sim por amor de Deus. Jeremias é apenas o profeta de Deus (Jr 31,33-34). Jeremias é um profeta de coração aberto que deixa transparecer sua grandeza e sua tragédia.


Isto quer nos dizer que a fé e a vocação não impedem fracasso, o resultado amargo, a sensação de estar abandonado, porém a força e a salvação de Deus continuam sendo maiores. A força divina é invisível, mas presente na vida de quem é fiel a Deus. No fim a Palavra de Deus vencerá. É a certeza que o profeta Jeremias quer nos transmitir: “Não tenhas medo, pois estou contigo para defender-te... Antes de formar-te no ventre materno, eu te conheci.


Somos Chamados a Ser Semeadores Do Bem e Da Bondade


Mt 13 é o terceiro dos cinco grandes discursos do Evangelho de Mt.  Mt 13 é o discurso sobre o mistério ou a natureza do Reino dos Céus em parábolas (sete parábolas). A maior parte das parábolas Jesus tira da vida, do trabalho das pessoas humildes do campo ou da vida doméstica. Jesus é um bom observador e olha com amor às pessoas que ele encontra no caminho.


As parábolas são relatos concretos e cheios de imagens destinados para a melhor compreensão de uma idéia. As parábolas têm uma função didática. No evangelho elas são comparações que ensinam ou transmitem uma verdade sobre o Reino de Deus. Para captar seu sentido, é preciso estar em sintonia com Jesus, pois o Reino se faz presente nele (Mt 13,10). E o Reino que se faz presente nas palavras e sinais de Jesus (Mt 4,17-11,1), segue adiante apesar da recusa dos fariseus (Mt 11,2-12,50), convocando o novo povo de Deus (Mt 13,53-16,20). E aparece claramente neste discurso a atitude dos discípulos e a da multidão (fariseus): os discípulos entendem as parábolas porque Deus tem lhes revelado os mistérios do Reino, enquanto que a multidão não entende porque seu coração está fechado (Mt 13,10-17).


1. Somos Chamados a Ser Semeadores do Bem


Jesus começa a contar a parábola do semeador dizendo:    O semeador saiu para semear” (Mt 13,3).


A semente da qual fala o evangelho deste dia é a Palavra de Deus. A palavra é o principal meio de comunicação, fonte de aproximação entre as pessoas, o meio de denegação do isolamento, a possibilidade de amor e de ânimo e é a expressão de nós mesmos. A palavra é fonte de vida e não apenas um simples som para comunicar “ideias” e transmitir “informações”. Há palavras que transtornaram vida inteiras com sua mensagem. Um bom livro pode abrir horizonte novo e possibilita novos caminhos. Dirigir-se a palavra é abrir-se à comunicação com o tu humano, constituir-se o nós e comparecer diante de Deus, o Tu dos homens. Dirigir a palavra é tudo quando a palavra é o que deve ser: uma palavra de amor, expressão da própria intimidade, revelação do mais profundo que cada um de nós é. Quando pronunciarmos uma palavra sem amor, degradaremos este dom maravilhoso da comunicação.


Deus expressa seu amor através da Palavra. Sua Palavra é como a nossa, porém é muito mais. A Palavra de Deus é viva, dotada de poder e é fecunda. A Palavra de Deus é vida pela qual foi criado o universo do nada. Através da Palavra de Deus recebemos a salvação que é a nova criação. Quem a escuta e a acolhe em seu coração começa uma nova vida. Nele germina a Palavra de Deus e este homem se faz expressivo para os homens no amor e responde com amor ao amor de Deus. De outra forma podemos dizer que a Palavra de Deus tem força: possui uma potência total para transformar os corações. Por isso, é preciso ler, meditar e deixar esta Palavra modelar nossa vida.  Por isso, Santo Agostinho dizia: “Escutando a Palavra de Deus, deixa-a aninhar-se em tua alma. Não a expulsa de ti. Não te contentes em tê-la contigo. Ajuda-a a crescer e a dar fruto em ti” (Serm. 343,1)


O semeador saiu para semear”. Sair é interromper o silêncio, quebrar o isolamento, tomar passos para começar a caminhar, abrir o coração para deixar a palavra de amor sair ao encontro do outro. É sair para semear o bem para todos. Fomos criados para nos comunicar e comunicar o bem. Somos seres comunicados e comunicáveis. Não se comunicar e não comunicar o bem seria uma negação à nossa própria natureza humana e divina.


2. O Fracasso não Significa o Fim de Tudo, Mas É Um Chamado à Esperança


Aparentemente o pobre “semeador” não tem boa sorte. A parábola começa nos contando três fracassos: em primeiro lugar, os pássaros comem as sementes antes de germinarem; em segundo lugar, as plantinhas são queimadas pelo calor do sol antes de poderem crescer; e por fim, a planta que cresceu é sufocada pelas más plantas. Até neste ponto, o trabalho do semeador parece inútil completamente. Tudo isto é a imagem do Reino de Deus. Mas no fim da história o semeador não ficará decepcionado, pois “outras sementes caíram em terra boa, e produziram à base de cem, de sessenta e de trinta frutos por semente”.


A Palavra de Deus não pode falhar porque Deus é Deus: “... a palavra que sair da minha boca não voltará para mim vazia; antes realizará tudo que for de minha vontade e produzirá os efeitos que pretendi, ao enviá-la”, diz o Senhor através do Livro do profeta Isaias Is 55,11. Deus não fala por falar, Deus fala para salvar os homens. Por esta razão a parábola de hoje é uma chamada à esperança e à confiança em Deus. Mas a Palavra de Deus não é um fato consumado no sentido de que uma vez conhecida o homem não precisa mais fazer nada. A Palavra de Deus é uma promessa que avança para seu cumprimento. A Palavra de Deus está carregada de tensão escatológica.


A parábola do Semeador é uma mensagem de otimismo e de esperança, como o cristianismo é uma religião de otimismo. As palavras humanas são apenas palavras e que muitas vezes estão longe de nossos atos (separação entre o que se fala e se faz). Não é assim com Deus. O termo “dabar” em hebraico significa simultaneamente palavra e ato (veja Gn 24,66; Jz 6,29; Am 3,7). Através do relato da criação em Gênesis sabemos como é poderosa a Palavra de Deus. Para ela, não há obstáculo que não possa ser atravessado. O que Deus diz, acontece instantaneamente (Gn 1,6.9.11.14). A Palavra de Deus, o poder de Deus superará frustrações na nossa vida.


O perigo que podemos ter é a nossa surdez ou a nossa cegueira diante da Palavra de Deus. Se formos surdos e o nosso coração estiver fechado, então, não saberemos perceber suficientemente os sinais do Reino de Deus na nossa vida ou na história e Consequentemente ficaremos perdidos nesta vida.  


3. Deus Pede a Colaboração de Cada um de nós de Acordo com as Possibilidades Existentes


A parábola nos mostra que cada tipo de terra recebe a semente para dizer que como é generoso nosso Deus. E cada tipo de terra acolhe a semente em seu seio e a faz crescer segundo suas próprias possibilidades. Há terras melhores e há terras piores. Mas não se pede à terra infértil uma boa colheita. Disto o semeador já sabe.


O mesmo acontece com a Palavra de Deus. A Palavra de Deus é lançada em todas as direções, a todas as classes de pessoas, pois Deus ama a todos e cada um em particular. A Palavra de Deus não é um alimento reservado a uns poucos privilegiados. Ela chega ao nosso coração.


E nós seres humanos não somos todos iguais na nossa capacidade. Entre nós há muitas diferenças: cultura, educação, inteligência e assim por diante. Podemos dizer que nós somos a terra. Em todos, de uma forma ou de outra, o Semeador-Deus deixa cair a semente da Palavra. E Deus pede a cada um de nós frutos conforme suas possibilidades. Deus não condena ninguém nem pede a todos que deem 100%. Simplesmente Deus pede a cada um de nós o que pode dar. Não é tanto o resultado, mas o amor no empenho. No Reino de Deus, se você se der muito no bem que faz, não importa o resultado. Vale pelo amor no seu empenho e pela sua dedicação. Quem pode avaliar ou valorizar aquilo que produzimos é o próprio Deus, pois Ele é o supremo Bem. No Reino de Deus não existe trabalho inútil; nada se esbanja. “Ainda que aos olhos dos homens grande parte de seu trabalho pareça inútil e vão, ainda que os fracassos pareçam somar-se aos fracassos, Jesus está transbordando de alegria e de certeza; a hora de Deus chega, e com ela, uma colheita abundante superior a toda súplica e imaginação” (Joaquim Jeremias).  


Vale a pena cada um perguntar-se: Que tipo de coração você tem? Um coração pedregoso, coração duro como pedra sem nenhuma sensibilidade humana até não sente a força da Palavra de Deus? Um coração endurecido pelas decepções na sua vida? Quem tem coração endurecido, não tem capacidade de ouvir e ver. Ele somente é capaz de ver o que lhe interessa. Ou você tem um coração cheio de espinhos pronto para criticar e machucar quem tenta aproximá-lo? Quem machuca ou critica constantemente é porque tem muitos espinhos no coração. Quem fere é porque tem muitas feridas. Ou você tem um coração bom, cheio de amor para dar? A Palavra de Deus quando for meditada seriamente, ela vai suavizando nosso coração como foi prometido ao profeta Ezequiel: “Eu lhes darei um só coração e os animarei com um espírito novo: extrairei do seu corpo o coração de pedra, para substituí-lo por um coração de carne a fim de que observem as minhas leis, guardem e pratiquem os meus mandamentos, sejam o meu povo e eu o seu Deus” (Ez 11,19s). A Palavra que Deus nos dirige é sempre eficaz, salvadora e cheia de vida. Mas se não encontrar coração bom não serão produzidos seus frutos. A eficácia da Palavra de Deus é também condicionada pelo tipo de acolhimento e o tipo de coração que temos. Recordemos que podemos ser pedregosos (insensíveis), árvore sem raízes, pessoas seduzidas unicamente pelas coisas materiais. Desta maneira se afoga o projeto que o Senhor tem sobre nós: a salvação. O projeto não se realiza quando não aprendermos a ser bons ouvintes e praticantes da Palavra de Deus.


P. Vitus Gustama,svd

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