terça-feira, 23 de maio de 2017

25/05/2017
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Observação: Você encontra nesta página duas reflexões: Uma é partir da leitura do dia para os lugares que celebram a Ascensao do Senhor no próximo Domingo. Outra, uma pequena reflexao sobre a Ascensão para os lugares onde a festa da Ascensão do Senhor é celebrada na quinta-feira que é hoje (25/5/2017)
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DEUS CONTINUA A ESTAR CONOSCO ATÉ O FIM


Quinta-Feira da VI Semana da Páscoa


Primeira Leitura: At 18,1-8


Naqueles dias, 1 Paulo deixou Atenas e foi para Corinto. 2 Aí encontrou um judeu chamado Áquila, natural do Ponto, que acabava de chegar da Itália, e sua esposa Priscila, pois o imperador Cláudio tinha decretado que todos os judeus saíssem de Roma. Paulo entrou em contato com eles. 3 E, como tinham a mesma profissão – eram fabricantes de tendas –, Paulo passou a morar com eles e trabalhavam juntos. 4 Todos os sábados, Paulo discutia na sinagoga, procurando convencer judeus e gregos. 5 Quando Silas e Timóteo chegaram da Macedônia, Paulo dedicou-se inteiramente à Palavra, testemunhando diante dos judeus que Jesus era o Messias. 6 Mas, por causa da resistência e blasfêmias deles, Paulo sacudiu as vestes e disse: “Vós sois responsáveis pelo que acontecer. Eu não tenho culpa; de agora em diante, vou dirigir-me aos pagãos”. 7 Então, saindo dali, Paulo foi para a casa de um pagão, um certo Tício Justo, adorador do Deus único, que morava ao lado da sinagoga. 8 Crispo, o chefe da sinagoga, acreditou no Senhor com toda a sua família; e muitos coríntios, que escutavam Paulo, acreditavam e recebiam o batismo.


Evangelho: João 16, 16-20


Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 16“Pouco tempo ainda, e já não me vereis. E outra vez pouco tempo, e me vereis de novo”. 17 Alguns dos seus discípulos disseram então entre si: “O que significa o que ele nos está dizendo: ‘Pouco tempo, e não me vereis, e outra vez pouco tempo, e me vereis de novo’, e: ‘Eu vou para junto do Pai? ’”. 18 Diziam, pois: “O que significa este pouco tempo? Não entendemos o que ele quer dizer”. 19 Jesus compreendeu que eles queriam interrogá-lo; então disse-lhes: “Estais discutindo entre vós porque eu disse: ‘Pouco tempo e já não me vereis, e outra vez pouco tempo e me vereis?’ 20 Em verdade, em verdade vos digo: Vós chorareis e vos lamentareis, mas o mundo se alegrará; vós ficareis tristes, mas a vossa tristeza se transformará em alegria”.
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É Preciso Ser Colaborador Da Palavra de Deus Para Que Todos Conheçam o Caminho Da Salvação


O texto da Primeira Leitura se encontra no conjunto dos relatos da Terceira e última viagem missionária de Paulo (At 18,1-19,20). Nesta terceira viagem missionária a concentração recai sobre dois centros urbanos: o Corinto na Grécia e Éfeso, na Ásia Menor. Estas duas cidades são centros internacionais que se caracteriza pela riqueza de seu comercio e a vitalidade cultural e religiosa.


Em Corinto Paulo se encontrará com a autoridade central romana, o procônsul Galião (At 18,12-17) através do qual o cristianismo receberá um reconhecimento público, graças a este procônsul. A fundação da comunidade de Corinto para São Paulo é um posto estratégico avançado para o desenvolvimento posterior no mundo ocidental cuja capital é Roma. Corinto é uma cidade muito importante da Grécia e a sede do governador romano. Nesta cidade internacional (Corinto) São Paulo consegue implantar uma das comunidades cristãs mais vivas e solidas. Os cônjuges Áquila e Priscila, em cuja casa São Paulo se aloja que são colegas de trabalho, se tornarão também os missionários colaboradores de São Paulo na comunidade de Éfeso (cf. At 18,18-19; 1Cor 16,19; Rm 16,3). Em Corinto São Paulo ficou um ano e meio, entre os anos 49 e 51.


Diferentemente de Corinto, em Éfeso, onde se encontram os escritos mágicos, o cristianismo entrará em choque com a ambiguidade religiosa (At 19,11-20). Geralmente, onde há ambiguidade religiosa, há também o sincretismo. O sincretismo é uma confluência de vários elementos religiosos heterogêneos (divindades, doutrinas, ritos, etc.), sua incorporação a uma forma religiosa distinta da sua procedência e seu desenvolvimento conjunto. Muitas vezes, essa assimilação de diversos elementos religiosos pela nova religião é uma prática com fins oportunistas, isto é, praticar duas religiões simultaneamente para ficar bem com as duas. Portanto, há ausência de uma posição precisa. Por exemplo, uma pessoa vai a Igreja por medo do inferno. Mas ela tem que praticar alguns ritos culturais para que os antepassados não fiquem com raiva dela quando não lhes der alguma oferenda.


Nestes ambientes novos São Paulo vai descobrindo novos métodos para evangelizar. Ele prega não somente no local religioso (sinagoga), mas também no local “profano”, aberto para todos.


É impressionante a habilidade de São Paulo em ter e criar colaboradores na evangelização. Ele não é um lutador solitário. É por isso que as comunidades sobrevivem, pois as próprias comunidades através de seus líderes criados por São Paulo mantém as comunidade vivas. Não é por acaso que mais tarde São Paulo escreverá aos coríntios: “O corpo não é feito de um só membro, mas de muitos... Há, portanto, muitos membros, mas um só corpo. O olho não pode dizer à mão: ‘Não preciso de você’; e a cabeça não pode dizer aos pés: ‘Não preciso de você’ ... Se um membro sofre, todos os membros participam do seu sofrimento; se um membro é honrado, todos os membros participam de sua alegria. Ora vocês são o corpo de Cristo e são membros dele, cada um no seu lugar” (cf. 1Cor 12,14.20-21.26-27). Dependemos dos outros todos os dias. Sem os outros morreríamos imediatamente. Por natureza o ser humano é um ser vincular; é um ser em relação. Somos o outro dos outros. Não podemos nem conseguimos impedir nossa relação com os demais. É atitude egoísta e ignorante afirmar que não precisamos de ninguém! Essa autossuficiência orgulhosa que queremos ter é sinal de fraqueza, pois sabemos muito bem que somos fortes somente no grupo e com o grupo, na comunidade e com a comunidade. O crescimento da comunidade também depende de mim e de você juntos.


Além disso, São Paulo apesar das contínuas decepções e perseguições, jamais larga sua missão de evangelização. Onde está o segredo de sua perseverança? São Paulo é um homem que se deixa guiar totalmente pelo Espirito de Deus. Viver de acordo com o Espirito de Deus torna São Paulo um homem in cansável na evangelização. Ele chegou a escrever: “Anunciar o Evangelho não é glória para mim; é uma obrigação que se me impõe. Ai de mim, se eu não anunciar o Evangelho!” (1Cor 9,16). Um pensador nos deu o seguinte conselho: “Se quiser triunfar na vida, faça de perseverança, a sua melhor amiga; da experiência, o seu sábio conselheiro; da prudência, o seu irmão mais velho, e da esperança, o seu anjo da guarda” (Joseph Addison, um poeta e ensaísta inglês, 1672 -1719).


O Deus Em Quem Acreditamos É o Deus-Conosco!


O texto do evangelho lido neste dia pertence ao conjunto do discurso de despedida de Jesus de seus discípulos no evangelho de João (Jo 13-17). Ao ter consciência de sua iminente partida deste mundo (morte) Jesus dá alguns conselhos para seus discípulos que vão continuar a missão de Jesus como seus enviados ou missionários neste mundo (Jo 20,21).


No texto de hoje Jesus quer transmitir aos discípulos algumas certezas para a caminhada neste mundo. Em primeiro lugar, Jesus afirma conscientemente a certeza do término de sua vida terrena eminentemente. Cada história tem seu início como também tem seu término. Assim também a vida de Jesus na terra. A vida na história tem seu começo, sua duração e também tem seu fim. Para cada ser humano tem seu nascimento, também tem sua morte (cf. Eclesiastes 3,1-8). A idade sempre aumenta em cada segundo, pois o tempo não pára. A idade sempre aumenta e nunca diminui, mas pode também terminar em qualquer segundo. Tudo é para frente. Não há parada, pois a vida nos empurra por dentro. Estamos sempre em permanente viagem ou caminhada, mesmo que estejamos dormindo. Até as palavras ditas passam no tempo ou viram passado em segundos. Cada um vai criar seu caminho e sua própria história neste mundo. E o fim depende das opções feitas entre dois extremos: entre o início e o fim. O espaço dado a mim é o espaço entre o nascimento e a morte. Vou usar este espaço para o bem ou para o mal. Tudo depende de mim. Eu não tenho outro espaço. Além deste espaço (antes do nascimento e depois da morte) não tenho nenhuma competência. A maneira como eu vivo nesses dois extremos vai determinar de que modo vou terminar minha história.


Jesus não somente fala da certeza do término de sua vida terrena, mas também da certeza de sua glorificação ou de sua ressurreição. Por isso, ele afirma: “Eu vou para junto do Pai”. O Deus revelado por Jesus em quem acreditamos é o Deus do bem e por isso, é o Deus da vida que jamais termina (cf. Mt 22,31-32). Praticar o bem, viver o amor fraterno significa viver para sempre. A morte servirá apenas de passagem. “A vida não é tirada, mas transformada”, disse um dos prefácios da missa pelos falecidos.


Por que Jesus tem tanta certeza da comunhão plena com o Pai? Por que essa certeza? Porque a vida de Jesus foi dedicada somente para o bem de todos. Ora, quem se dedica a vida somente para o bem de todos, mesmo sem saber, ele está em plena sintonia com Deus.  A vida de Jesus é vivida de acordo com o Plano ou a vontade de Deus. E a vontade de Deus se resume no amor: “Deus amou tanto o mundo que lhe deu seu Filho para que todo o que nele crer tenha a vida eterna” (Jo 3,16). A partir de Deus o mundo é governado por amor e no amor. A única lei que rege a vida de qualquer cristão é a lei do amor fraterno: “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (Jo 13,35). O amor é o único meio capaz de convencer e converter até os ateus. Nada compromete tanto como o amor, e ninguém é tão livre como aquele que ama. o amor é que nos leva para junto do Pai celeste. Mas trata-se do amor sem motivo conhecido como ágape, isto é, o amor direcionado somente para o bem sem esperar recompensa de quem é beneficiado por esse amor.


A certeza da comunhão plena com o Pai por ter vivido uma vida de acordo com a lei do amor faz com que Jesus tenha outra certeza: a sua nova presença no meio dos seus discípulos. Por isso, ele afirma: “E outra vez pouco tempo, e me vereis de novo”. O amor possibilita uma presença eterna mesmo que aquele que é amado não esteja presente fisicamente. O amor é eterno, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16), mas as caricaturas do amor não duram. O amor não pode morrer, pois é o nome próprio de Deus. A morte é incapaz de eliminar a morte. Um dia a morte cessará, mas o amor é inextinguível, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). Com a certeza do amor que não morre nós acreditamos que os nossos entes-queridos que nos precederam deste mundo continuam em plena comunhão conosco, com Cristo com sua Igreja que somos todos.


Por causa desse amor eterno é que Jesus nos garante: “Vós ficareis tristes, mas a vossa tristeza se transformará em alegria”. A fé não nos faz contornarmos nossa tristeza. A fé nos dá forças para atravessar nossa tristeza com a certeza de que Deus nos ama e nós amamos a Deus e cremos no Seu amor. O encontro do meu amor por Deus e do amor de Deus por mim resulta numa força tremenda capaz de superar aquilo que humanamente é impossível. “Vós ficareis tristes, mas a vossa tristeza se transformará em alegria”, garante-nos o Senhor.


Vossa tristeza se transformará em alegria”. Os discípulos experimentaram a inquietude. A mesma inquietude dos primeiros discípulos, que se expressa profundamente nas palavras de Jesus (Jo 16,16) concentra ou resume a tensão de nossas inquietudes de fé, de busca de Deus em nossa vida cotidiana. Como os cristãos do primeiro século, necessitamos experimentar a presença do Senhor em meio de nós para reforçar nossa fé, esperança e caridade. Sem perceber podemos experimentar Deus em toda a beleza, em todo o gesto de amor, no bem praticado, no perdão dado, na pessoa que nos ajuda e nos anima, no coração que sabe amar e perdoar, no palpitar intacto de cada novo ser, na vida que não termina com a morte. Afinal, em tudo que é a expressão do amor, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). Deus nos toca em cada gesto de amor e tocamos ou experimentamos o próprio Deus em cada gesto de amor que praticamos. “Experimentar Deus não é pensar sobre Deus. É sentir Deus a partir do coração puro e da mente sincera. Experimentar Deus é tirar o mistério do universo do anonimato e conferir-lhe um nome, o de nossa reverência e de nosso afeto” (Leonardo Boff).


Vossa tristeza se transformará em alegria” é o recado de Jesus para cada um de nós. Tenhamos certeza dessa palavra, pois ela saiu da boca do Senhor. Deus sempre prepara o melhor no fim para quem é perseverante no bem ou na vivencia do amor fraterno. O vinho melhor aparece no fim (cf. Jo 2,10). Vivamos perseverantes no Senhor para alcançar, no fim, algo melhor ou maravilhoso para nossa vida e salvação!


P.Vitus Gustama, SVD

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ASCENSÃO DE JESUS AO CÉU


Mt 28,16-20


Segundo uma concepção espontânea e universal adotada também pela Bíblia, o céu é a morada da divindade até tal ponto que este termo serve de metáfora para significar Deus. A terra é a residência dos homens (Sl 115,16; Ecl 5,1). Dentro dessa concepção Deus, para visitar a Terra, precisa descer do céu (Gn 11,5; Ex 19,11ss; Mq 1,3; Sl 144,5) para depois subir de novo ao céu (Gn 17,22). O Espírito enviado por Deus deve também descer (Is 32,15; Mt 3,16; 1Pd 1,12). A Palavra de Deus também desce, e volta a subir ao céu assim que for realizada sua obra na Terra (Is 55,10-11; Sb 18,15). Os anjos, por sua parte, que habitam o céu com Deus (1Rs 22,19; Jô 1,6; Tb 12,15; Mt 18,10) também descem do céu para a Terra para desempenhar suas missões (Dn 4,10; Mt 28,2; Lc 22,43) para depois subirem ao céu (Tb 12,20; Jz 13,20). O subir e o descer estabelecem, então, o enlace entre céu e terra segundo essa concepção que é adotada também pela Bíblia.


Dentro dessa concepção quem desce é sempre aquele que tem poder para elevar quem se encontra em baixo que está sem condições, por força própria, para subir. Aquicolaboração, isto é, os dois lados se empenham: o amor e a generosidade de quem desce para elevar quem se encontra no nível baixo e a abertura e a vontade de ser elevado de quem se encontra em baixo. Quem desce é descer para ensinar quem está em baixo sobre como deve viver para poder ser elevado.


Uma das tarefas deixadas por Jesus para os cristãos na sua Ascensão segundo o evangelista Mateus é ensinar ou educar e ele dá essa tarefa com sua autoridade: “Toda a autoridade sobre o céu e sobre a terra me foi dada. Ide e ensinai a todas as nações e fazei discípulos meus todos os povos...!”. Ensinar ou educar é um dos meios mais eficazes para libertar o ser humano de muitas prisões: da desigualdade, da exploração, do domínio, da ignorância, da escravidão, da má qualidade de vida e assim por diante.  Liberdade e educação são duas palavras que hoje normalmente aparecem juntas. O ser humano pode se educar porque é livre e pode ser livre porque se educa. Por isso, é possível educar o ser humano libertando-o; e é possível libertá-lo educando-o. E a liberdade do ser humano é sempreliberdade de” e “liberdade para”: liberdade de algo que limita, para alcançar algo que me aperfeiçoa e enriquece. o que aperfeiçoa pode libertar. O que rebaixa é escavizador.


Ensinar ou educar é ajudar a ser. Ensinar ou educar é possibilitar o nascimento do novo ser. Ensinar ou educar é ajudar os demais a ser. E isso é possível à medida que se transmite a eles forças para ser, sabedoria para descobrir o que são e o que podem ser, e esperanças e visões para continuar. De outra maneira podemos dizer que ensinar ou educar é tarefa maternal. Dá-se à luz não para deter, mas para que o outro possa percorrer seu próprio caminho e construir seu próprio lugar no mundo e desempenhar sua missão neste mundo como ser humano e filho de Deus.


Ensinar ou educar é tarefa deixada por Jesus para cada um de nós seus seguidores: “Ide e ensinai!”. A força da palavra, a força do ensino, a força da educação é um dos sinais mais preciosos para avivar a esperança. Enquanto formos capazes de ensinar e de dialogaresperança para nós. A Palavra de Deus pode gerar uma esperança infinita no homem. O Evangelho é uma notícia, uma boa noticia, uma noticia decisiva que nos afeta na alma e no corpo, agora e depois, nesta vida e na outra. Nós acreditamos nessa Palavra de Deus que diz e faz, promete e cumpre, anuncia e realiza.


Somos cristãos ao ensinar quando temos consciência da nossa própria identidade cristã e acreditamos na capacidade humanizadora radical do evangelho, e quando conhecemos suas exigências éticas. Por isso, toda essa atividade é chamada de evangelização. Sua Boa Notícia consiste em humanizar, e em possibilitar o nascimento do novo ser. Nesse processo, o cristão é o discípulo-mestre, isto é, aquele que ensina e aprende simultaneamente. Um cristão nunca termina de ser cristão, isto é, de conhecer a Deus, de identificar-se com o destino de Cristo diariamente. Ele é chamado a ser permanentemente ensinando e aprendendo.


Nesse processo de possibilitar o nascimento do novo ser ensinando ou educando, Jesus garante uma presença permanente: “Eis que Eu estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos” (Mt 28,20b).


Esta afirmação de Jesus sobre sua permanência na nossa vida é seu testamento. Mateus quer, através do seu evangelho, nos revelar que Jesus é o Deus-conosco. Este título é colocado pelo evangelista logo no início do seu evangelho ao dizer, citando o profeta Isaías: “Eis que a Virgem conceberá e dará à luz um filho que será chamado Emanuel que significa Deus conosco” (Mt 1,23). No meio do seu evangelho o evangelista volta a usar o mesmo título de outra forma ao dizer: “Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estou eu no meio deles” (Mt 18,20). E ele concluiu seu evangelho com o mesmo título ao dizer: “Eis que eu estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos (Mt 28,20). A partir dessa promessa, cada cristão não é mais solitário, mas solidário, pois Deus está sempre com ele e ele está sempre com Deus. O cristão, ao mesmo tempo é chamado a ser solidário com os outros, a sair do isolamento, pois Deus chama cada cristão a viver na solidariedade, na comunhão, na comunidade de irmãos.


E Jesus ressuscitado está presente e ativo em todos aqueles que levam sua causa adiante, independentemente de sua ideologia ou religião. Em todo homem que buscar o bem, o amor, a liberdade, a justiça, a solidariedade com certeza Jesus ressuscitado está presente nele de maneira qualificada.


Jesus foi elevado ao Céu. “Foi elevado ao céu” é uma forma literária de descrever o culminar de uma vida vivida para Deus e para o próximo que agora reentra na gloria da comunhão com Deus. Por isso, o sentido fundamental da ascensão é o convite para seguirmos o caminho de Jesus vivendo aquilo que Ele viveu e ensinado o que ele ensinou para que possamos ser, realmente, portadores do processo da humanização possibilitando o nascimento do novo ser e para que, pela misericórdia do Senhor possamos ser elevados para o nível mais alto que é a comunhão plena com Deus para onde estamos caminhando. A festa da Ascensão de Jesus nos garante que no final do caminho percorrido no amor e na doação, está a vida definitiva, a comunhão com Deus. Uma vida vivida no amor fraterno e na doação é uma vida destinada à glorificação. Cada cristão é portador de Cristo.


Se para Jesus a Ascensão significa sua entrada para a vida de glorificação em conseqüência de uma vida vivida no amor e na doação, para nós, portadores de Cristo a Ascensão é uma tarefa. É preciso nós olharmos para o céu para ordenar nossa vida na terra, pois o verdadeiro centro da vida humana, aquilo que pode dar uma hierarquia, uma ordem, um sentido para tudo é o trato com Deus. Nossa meta é a comunhão plena com Deus e a humanização do homem para alcançar sua divinização. Esta meta nos leva a escolhermos caminhos certos na nossa passagem nesta Terra para facilitar nossa chegada. Para isso devemos estar sempre unidos a Cristo, esperança de nossa vida e de nossas lutas de cada dia.


P.Vitus Gustama, SVD

segunda-feira, 22 de maio de 2017

24/05/2017
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O ESPÍRITO DA VERDADE E SEU PAPEL NA VIDA DOS CRISTÃOS


Quarta-Feira da VI Semana da Páscoa


Primeira Leitura: At 17,15.22–18,1


Naqueles dias, 17,15 os que conduziram Paulo levaram-no até Atenas. De lá, voltando, transmitiram a Silas e Timóteo a ordem de que fossem ter com ele o mais cedo possível. E partiram. 22 De pé, no meio do Areópago, Paulo disse: “Homens atenienses, em tudo eu vejo que vós sois extremamente religiosos. 23 Com efeito, passando e observando os vossos lugares de culto, encontrei também um altar com esta inscrição: ‘Ao Deus desconhecido’. Pois bem, esse Deus que vós adorais sem conhecer é exatamente aquele que eu vos anuncio. 24 O Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe, sendo Senhor do céu e da terra, ele não habita em santuários feitos por mãos humanas. 25 Também não é servido por mãos humanas, como se precisasse de alguma coisa; pois é ele que dá a todos vida, respiração e tudo o mais. 26 De um só homem ele fez toda a raça humana para habitar sobre a face da terra, tendo fixado os tempos previamente estabelecidos e os limites de sua habitação. 27 Assim fez, para que buscassem a Deus e para ver se o descobririam, ainda que às apalpadelas. Ele não está longe de cada um de nós, 28 pois nele vivemos, nos movemos e existimos, como disseram alguns dentre vossos poetas: ‘Somos da raça do próprio Deus’. 29 Sendo, portanto, da raça de Deus, não devemos pensar que a divindade seja semelhante a ouro, prata ou pedra, trabalhados pela arte e imaginação do homem. 30 Mas Deus, sem levar em conta os tempos da ignorância, agora anuncia aos homens que todos e em todo lugar se arrependam, 31 pois ele estabeleceu um dia em que irá julgar o mundo com justiça, por meio do homem que designou, diante de todos, oferecendo uma garantia, ao ressuscitá-lo dos mortos”. 32 Quando ouviram falar da ressurreição dos mortos, alguns caçoavam, e outros diziam: “Nós te ouviremos falar disso em outra ocasião”. 33 Assim Paulo saiu do meio deles. 34 Alguns, porém, uniram-se a ele e abraçaram a fé. Entre eles estava também Dionísio, o areopagita, uma mulher chamada Dâmaris e outros com eles. 18,1 Paulo deixou Atenas e foi para Corinto.


Evangelho: Jo 16,12-15


Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 12“Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de as compreender agora. 13Quando, porém, vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à plena verdade. Pois ele não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido; e até as coisas futuras vos anunciará. 14Ele me glorificará, porque receberá do que é meu e vo-lo anunciará. 15Tudo o que o Pai possui é meu. Por isso, disse que o que ele receberá e vos anunciará, é meu”.
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O “Deus Desconhecido” É o Criador Do Céu e Do Universo


Homens atenienses, em tudo eu vejo que vós sois extremamente religiosos. Com efeito, passando e observando os vossos lugares de culto, encontrei também um altar com esta inscrição: ‘Ao Deus desconhecido’. Pois bem, esse Deus que vós adorais sem conhecer é exatamente aquele que eu vos anuncio. O Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe, sendo Senhor do céu e da terra, ele não habita em santuários feitos por mãos humanas”. É a pregação de São Paulo em Areópago em Atenas.


De todos os discursos missionários dirigidos aos pagãos, o mais longo é o discurso de São Paulo ao povo de Atenas. É interessante observar a sabedoria de São Paulo em adaptar sua mensagem de acordo com o conhecimento do auditório onde ele se encontra. “Esse Deus que vós adorais sem conhecer é exatamente aquele que eu vos anuncio”. Ele observa as circunstâncias e vê uma frase escrita pelo povo de Atenas: “Ao Deus desconhecido” e prega a partir desta frase.


Além disso, São Paulo conhece muito bem o conhecimento do povo de Atenas. São Paulo tem uma preocupação real em estar atento à mentalidade de seus interlocutores para que sua mensagem chegue e seja entendida pelos seus ouvintes.  Ele se esforçou em conhecer as principais correntes espirituais do paganismo grego e especialmente a concepção de uma paternidade universal e a consciência comum sobre a dignidade humana. É um Apóstolo com pé no chão na linguagem popular.  Por isso, no seu discurso, ele escolhe temas bíblicos suscetíveis de ser compreendido pelos pagãos de Atenas.


Primeiro tema que é fundamental neste discurso é o conhecimento de Deus. Para o judeu, a ignorância considerada culpável do paganismo para Deus é o fruto das paixões desatadas (Rm 1,18-32; Sb 13,14; Ef 4,17-19). Mas São Paulo abandona o tom severo da Escritura para descobrir na piedade uma sorte de confissão de sua ignorância de Deus: dedicação de um altar ao “Deus desconhecido”. Precisamente, este “Deus desconhecido” é o Criador do céu e da terra.


O segundo tema é que o verdadeiro Deus não habita em templo construídos pelos homens (At 17,24). Neste tema São Paulo enfatiza a importância do culto verdadeiro contra todo tipo de idolatria (At 17,29; cf. Sl 113/115; Is 44,9-20; Jr 10,1-16). Deus não mora nas paredes de uma igreja ou templo, mas no coração de cada ser humano. Por isso, mais tarde o próprio Paulo escreverá aos Coríntios: “Não sabeis que sois o templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá. Porque o templo de Deus é sagrado - e isto sois vós” (1Cor 3,16-17). É preciso respeitar o espaço sagrado (igreja, templo etc.), mas o mais importante é proteger a dignidade humana, pois cada ser humano é o próprio Templo de Deus. A vida humana é sustentada pelo sopro de Deus. Com este tema São Paulo chama todos, especialmente o povo de Atenas, para a espiritualização de sua concepção de Deus e do culto que lhe é devido.


No terceiro tema, São Paulo quer chamar a atenção do povo de Atenas que não se pode colocar o ouro ou prata ou qualquer criatura acima de quem os criou. Essa consciência é o sinal da pertença a Deus e da confissão da fé em Deus, Criador de todas as coisas. Existimos por causa de Deus. Por isso, São Paulo disse que em Deus “vivemos, nos movemos e existimos, como disseram alguns dentre vossos poetas: ‘Somos da raça do próprio Deus’. Sendo, portanto, da raça de Deus, não devemos pensar que a divindade seja semelhante a ouro, prata ou pedra, trabalhados pela arte e imaginação do homem”.


Por fim, como consequência da fé no Deus Criador do céu e do universo é a ruptura: “Alguns uniram-se a ele e abraçaram a fé. Entre eles estava também Dionísio, o areopagita, uma mulher chamada Dâmaris e outros com eles”.


Que tipo de discurso da Igreja em geral e de cada cristão no mundo atual?  Quais são novos “Areópagos” no mundo atual em que há consciência sobre Deus, mas este Deus passa a ser um “Deus desconhecido”? De que maneira, a Igreja e cada cristão, em particular desperta a consciência do mundo para adorar ao Deus-Criador do céu e do universo e que não se pode colocar criatura acima do Criador? Será que nossa pregação ou discurso provoca a conversão ou ruptura nos ouvintes?


O Espirito Santo Nos Conduz a Vivermos Na Verdade de Deus


Continuamos ainda no discurso de despedida de Jesus de seus discípulos (Jo 13-17).  E no evangelho lido neste dia Jesus disse aos discípulos: “Quando vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à plena verdade”.


Na filosofia conhecemos a verdade lógica e a verdade ontológica ou transcendental. A verdade lógica se define como conformidade da inteligência com seu objeto (adaequatio intellectus ad rem). A verdade ontológica ou transcendental se define como conformidade da coisa com a inteligência (adaequatio rei ad intellectum). A verdade lógica é uma propriedade da inteligência que conhece. Enquanto que a verdade ontológica é uma propriedade das coisas: a propriedade pela qual as coisas são conforme a seu tipo ideal. Uma banana é conhecida como uma banana. Se alguém estiver com uma banana na mão, ele não vai dizer que é uma manga, pois uma manga tem seu próprio tipo como manga.


Para os hebreus a verdade é o termo que designa a fidelidade e a confiança em alguém. A verdade para o mundo da Bíblia é uma relação interpessoal que se experimenta ao longo de uma história. O contrário da verdade é a ruptura de um vínculo de confiança que perdurava no tempo.


O texto do evangelho de hoje identifica Jesus com a verdade: Jesus-Verdade. Por isso para o evangelho de João, a verdade não é um conceito nem uma categoria e sim uma pessoa. Jesus é a própria Verdade (Jo 14,6), ou a própria Palavra de Deus (Jo 1,1). E o Espírito Santo é o Espírito de Cristo que Cristo envia do Pai, e por isso, é o Espírito da Verdade. Somente os que aceitarem o Espírito da Verdade é que poderão compreender plenamente a verdade e o sentido da vida.


Quando, porém, vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à plena verdade”, disse Jesus. A verdade plena é a compreensão mais profunda de Jesus e de sua mensagem. É pleno no sentido mais profundo. Através da experiência diária sabemos que o conhecimento de uma pessoa não acontece uma vez por todas. Vamos conhecendo a pessoa ao longo de nossa vida e ao longo da convivência. Conforme o evangelho de hoje, o Espírito da Verdade nos facilita a alcançarmos esse conhecimento gradualmente: “Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de as compreender agora. Quando, porém, vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à plena verdade” (Jo 16,12-13). O Espírito da Verdade não ensinará novas verdades e sim nos conduzirá ao pleno conhecimento da Verdade, o pleno conhecimento da pessoa de Jesus e de seus ensinamentos. Este Espírito nos recorda tudo o que o Pai revelou uma vez por todas em Jesus Cristo, que é sua Palavra. O Espírito não obscurece a posição reveladora de Jesus. A função de guia do Espírito está em conexão com Jesus como Jesus em conexão com o Pai: “Eu e o Pai somos um”, disse Jesus. O Espírito não anuncia nada novo e sim que abre a mensagem própria de Jesus para as situações mudadas da comunidade de forma que essa mensagem possa adquirir seu sentido sempre atual.


“Até as coisas futuras (o Espírito da Verdade) vos anunciará”. “Anunciar as coisas futuras” significa fazer entender, para as gerações vindouras, o significado de tudo que Jesus fez e ensinou. A partir do texto do Evangelho deste dia, a melhor preparação cristã para o porvir não é uma previsão exata do futuro e sim um conhecimento profundo do que Jesus significa para cada época. Há muito chão inexplorado na verdade de Jesus, isto é, em sua pessoa, que somente pode ser conhecida (a pessoa de Jesus) na medida em que a experiência coloca a comunidade e cada cristão diante de novos fatos ou circunstâncias aberto para o impulso do Espírito da Verdade. Para isso, os cristãos devem estar abertos à vida e à história e à voz do Espírito Santo simultaneamente, pois somente o Espírito da Verdade é capaz de tirar o sentido de cada fato ou experiência. O Espírito Santo possibilita um maior conhecimento do que Jesus significa para cada época: suas enormes possibilidades de vida, de força transformadora para nosso mundo. Principalmente possibilita para o maior entendimento o fascinante, maravilhoso e surpreendente Deus de Jesus que ama o mundo apaixonadamente sem limitar as condições (Jo 3,16). Ele ama o mundo porque quer salvá-lo.


O Novo Catecismo nos diz:
  • “É o Espírito Santo que dá aos leitores e ouvintes, segundo a disposição dos seus corações, a inteligência espiritual da Palavra de Deus. Através das palavras, ações e símbolos, que formam a trama duma celebração, o Espírito Santo põe os fiéis e os ministros em relação viva com Cristo, Palavra e Imagem do Pai, de modo a poderem fazer passar para a sua vida o sentido daquilo que ouvem, vêem e fazem na celebração” (1101).
     
  • “Na liturgia da Palavra, o Espírito Santo «lembra» à assembléia tudo quanto Cristo fez por nós. Segundo a natureza das ações litúrgicas e as tradições rituais das Igrejas, uma celebração «faz memória» das maravilhas de Deus numa anamnese mais ou menos desenvolvida. O Espírito Santo, que assim desperta a memória da Igreja, suscita então a ação de graças e o louvor [doxologia]” (1103).
     
    O Espírito da Verdade é o dom de Deus. É preciso que estejamos abertos diante dele e precisamos pedir sua presença na nossa vida diária para entender o sentido da vida e seus acontecimentos. Pedimos ao Senhor que o nosso espírito seja guiado e que jamais nos consideremos como satisfeitos definitivamente, conhecedores de tudo, orgulhosos de nossos conhecimentos doutrinais, pois há verdade e atitudes que não foi ainda descoberto seu sentido. Que o Senhor nos conduza à verdade completa dando-nos Sua santa paciência e Sua pedagogia.
     
    O Espírito da Verdade será o guia para os discípulos ou para os cristãos. Ele não transmitirá uma doutrina nova e sim explicará e aplicará a mensagem e fará descobrir o sentido da mensagem de Jesus que até então oculto. Além disso, o Espírito da Verdade vai interpretando a história como dialética entre o “mundo” e o projeto de Deus. Isso significa que os discípulos/cristãos, em sua atividade, devem ficar atentos, por um lado, à vida e à história e por outro lado, devem estar atentos à voz do Espírito que interpreta. Jamais os cristãos poderão interpretar e encontrar o significado da história e dos acontecimentos diários sem a inspiração do Espírito da Verdade. Consequentemente, todos os cristãos, para viver com sentido, devem estar em sintonia com o Espírito da Verdade permanentemente.
P. Vitus Gustama,svd
23/05/2017
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VIVER COMO JUSTOS SOB O IMPULSO DO ESPÍRITO DIVINO


Terça-Feira da VI Semana da Páscoa


Primeira Leitura: At 16,22-34


Naqueles dias, 22 a multidão dos filipenses levantou-se contra Paulo e Silas; e os magistrados, depois de lhes rasgarem as vestes, mandaram açoitar os dois com varas. 23 Depois de açoitá-los bastante, lançaram-nos na prisão, ordenando ao carcereiro que os guardasse com toda a segurança. 24 Ao receber essa ordem, o carcereiro levou-os para o fundo da prisão e prendeu os pés deles no tronco. 25 À meia-noite, Paulo e Silas estavam rezando e cantando hinos a Deus. Os outros prisioneiros os escutavam. 26 De repente, houve um terremoto tão violento que sacudiu os alicerces da prisão. Todas as portas se abriram e as correntes de todos se soltaram. 27 O carcereiro acordou e viu as portas da prisão abertas. Pensando que os prisioneiros tivessem fugido, puxou da espada e estava para suicidar-se. 28 Mas Paulo gritou com voz forte: “Não te faças mal algum! Nós estamos todos aqui”. 29 Então o carcereiro pediu tochas, correu para dentro e, tremendo, caiu aos pés de Paulo e Silas. 30 Conduzindo-os para fora, perguntou: “Senhores, que devo fazer para ser salvo?” 31 Paulo e Silas responderam: “Crê no Senhor Jesus, e sereis salvos tu e todos os de tua família”. 32 Então Paulo e Silas anunciaram a Palavra do Senhor ao carcereiro e a todos os da sua família. 33 Na mesma hora da noite, o carcereiro levou-os consigo para lavar as feridas causadas pelos açoites. E, imediatamente, foi batizado junto com todos os seus familiares. 34 Depois fez Paulo e Silas subirem até sua casa, preparou-lhes um jantar e alegrou-se com todos os seus familiares por ter acreditado em Deus.


Evangelho: Jo 16,5-11


Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 5 “Agora, parto para aquele que me enviou, e nenhum de vós me pergunta: ‘Para onde vais?’ 6Mas, porque vos disse isto, a tristeza encheu os vossos corações. 7No entanto, eu vos digo a verdade: É bom para vós que eu parta; se eu não for, não virá até vós o Defensor; mas, se eu me for, eu vo-lo mandarei. 8E quando vier, ele demonstrará ao mundo em que consistem o pecado, a justiça e o julgamento: 9o pecado, porque não acreditaram em mim; 10a justiça, porque vou para o Pai, de modo que não mais me vereis; 11e o julgamento, porque o chefe deste mundo já está condenado”.
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Deus Está Com Seus Mensageiros Permanentemente


Ao receber essa ordem, o carcereiro levou-os para o fundo da prisão e prendeu os pés deles no tronco. À meia-noite, Paulo e Silas estavam rezando e cantando hinos a Deus. De repente, houve um terremoto tão violento que sacudiu os alicerces da prisão. Todas as portas se abriram e as correntes de todos se soltaram”. É uma parte do texto da Primeira Leitura.


Alguns pontos para nossa reflexão a partir da Primeira Leitura:

1. Apesar de estar presos, Paulo e Silas rezam e cantam hinos a Deus. Esta frase nos mostra a serenidade dos justos perseguidos, e, ao mesmo tempo, mostra, antecipadamente, a vitória iminente. “A vida dos justos está nas mãos de Deus, e nenhum tormento os atingirá... Os que nele confiam compreenderão a verdade, e os que perseveram no amor ficarão junto dele, porque a graça e a misericórdia são para seus eleitos”, assim afirma o livro de Sabedoria (Sb 3,1.9). Aquele que tem um coração puro, sem nenhuma mancha de pecado, vive na serenidade apesar das tribulações, ataques, pois não há nada que possa atingir seu coração e sabe, acima de tudo, em quem acredita: em Deus. “Somente o justo desfruta de paz de espírito” (Epicuro).

2. De repente, houve um terremoto tão violento que sacudiu os alicerces da prisão. Todas as portas se abriram e as correntes de todos se soltaram”. Aqui se celebra a vitória de quem se apoia no poder de Deus, como Paulo e Silas. O terremoto natural destrói tudo. Mas neste relato o terremoto que aconteceu é para mostrar o poder maravilhoso de Deus que destrói todos os sinais de dominação humana. Todas as dominações humanas ficam sem futuro, pois o futuro é de Deus. Feliz quem deposita sua fé em Deus! Quem acreditar no poder humano, vai ter que experimentar a derrota fatal um dia. O carcereiro estava para suicidar por medo de ver Paulo e Silas fugirem da prisão, pois ele seria responsável e receberia uma condenação inevitável. 

3. Então o carcereiro pediu tochas, correu para dentro e, tremendo, caiu aos pés de Paulo e Silas”.  Nenhum dos prisioneiros (Paulo e Silas) fugiu, pois eles querem mostrar para os incrédulos o poder de Deus. a libertação dos presos e a soberania de Deus se mostram simultaneamente. O carcereiro, na sua humildade, reconhece a grandeza de Deus neste acontecimento que o levou a cair aos pés de Paulo e Silas. A conversão do carcereiro é imediata, pois descobriu uma força maior de Deus através de seus mensageiros: Paulo e Silas.

4.  Conduzindo-os para fora, perguntou: ‘Senhores, que devo fazer para ser salvo?’, Paulo e Silas responderam: ´Crê no Senhor Jesus, e sereis salvos tu e todos os de tua família’. Então Paulo e Silas anunciaram a Palavra do Senhor ao carcereiro e a todos os da sua família”. Esta rápida conversão do cárcere nos lembra as etapas do catecumenato de então: Primeiro, a questão ritual “O que preciso fazer?” (At 9,6). Segundo, a instrução do Evangelho (At 16,32). Terceiro, o Batismo (At 16,33). E finalmente, a refeição (Eucaristia), que o acompanha (cf. At 9,19), e se processa na alegria (cf. At 2,46; 8,8.39; 13,48-52). Aqui há alusões para a Eucaristia: “mesa”, “alegria”, exultação religiosa (cf. At 2,46).


5. “E, imediatamente, (o carcereiro) foi batizado junto com todos os seus familiares”. Pela segunda vez o livro de Atos nos relata a conversão e o batismo coletivo ou familiar (cf. At 16,15). Nos costumes e mentalidade antigos a escolha religiosa do pai ou do chefe da família condicionava a escolha dos outros membros da família. A partir desta mentalidade ou costumes não havia nenhum problema de batizar as crianças. Os recém-nascidos seguiam a opção do pai.


Jesus Cristo Continua Acompanhando a Igreja Através Do Paráclito


Continuamos acompanhando o longo discurso de despedida de Jesus de seus discípulos no evangelho de João (Jo 13-17). 


“Agora, parto para aquele que me enviou, e nenhum de vós me pergunta: ‘Para onde vais?’ Mas, porque vos disse isto, a tristeza encheu os vossos corações”, disse Jesus no evangelho deste dia.

Jesus anuncia aos discípulos a sua morte iminente (partida) que provoca uma reação negativa nos discípulos: tristeza (Jo 16,6) e perturbação (Jo 14,1). Jesus realmente vive conscientemente sua vida. Ele tem plena consciência de que um dia ele partirá deste mundo. Além disso, ele sabe de sua morte de maneira trágica em função do bem praticado, pois mexe com os interesses deste mundo. O bem praticado leva Jesus ao encontro do Bem maior: Deus Pai. Ele partirá para o Pai. Mas esta partida (morte) traz, ao mesmo tempo, consequências positivas: a vinda do Paráclito (Jo 16,7) e a reunião definitiva (Jo 14,2-3).

Jesus fala da sua morte, que só mais tarde os discípulos vão poder entender seu significado à luz do Espírito Santo (cf. Jo 16,12-13). Como aconteceu com qualquer um de nós. Muitas coisas na vida só podemos entender seu significa ou sua insignificância quando a idade vai avançando e as experiências vão se acumulando. Só quando encontramos nossas veias de coração entupidas é que poderemos entender que o cigarro que fumávamos com muita paixão, a gordura da carne que consumimos com muito apetite, a bebida alcoólica que engolimos frequentemente fazem mal para nossa saúde e encurtamos nossa presença neste mundo, e diminuímos nosso tempo nesta terra para ajudar os demais com nossos dons. Alguma experiência maior faz com que percebamos o significado de outras experiência menores cujo valor não percebemos até então.

Os discípulos vão dar testemunho de Jesus, somente quando entenderem quem é Jesus, o que significou a sua presença no mundo, e qual foi o sentido da sua morte e da sua ressurreição. Quem pode possibilitar-lhes este entendimento é o Espírito Santo prometido por Jesus. Mas Jesus alerta aos discípulos que vão sofrer perseguições por causa desse testemunho.

Neste texto do evangelho de hoje Jesus afirma que a sua morte é uma partida para Aquele que o enviou. Este retorno Àquele que o enviou mostra que a causa pela qual Jesus lutava e vivia era a de Deus que é a salvação do mundo (Jo 3,16). Por isso, sua volta para Deus é para ser glorificado. A morte, para Jesus, é o momento da glorificação. É a “hora” de Jesus (cf. Jo 2,4; 12,23). A morte de quem vive de acordo com a vontade de Deus resumida no amor fraterno (ágape) é o momento de glorificação e não é um momento de tristeza. O homem morre não quando deixa de viver e sim quando deixa de amar. Amar alguém equivale a lhe dizer: “Tu jamais morrerás, pois ‘Deus é amor’ (1Jo 4,8.16)’”.

Os discípulos continuam sem compreender a morte como ida ao Pai. Também não pedem explicações a Jesus a respeito. Eles se sentem tristes ao pensar na separação que eles interpretam como desamparo (Jo 14,18). Para eles sem Jesus, na sua presença física, eles se tornam indefesos no mundo e diante do mundo.

Para Jesus a presença e a ajuda do Espírito farão muito melhor para os discípulos do que sua presença física, pois Jesus, na sua presença física, não pode estar com os discípulos em qualquer lugar. Além disso, enquanto se apoiarem na presença física de Jesus, os discípulos não aprenderão a tomar sua plena responsabilidade nem terão a autonomia em cumprir sua missão como discípulos. É preciso aprender a andar com as próprias pernas para saber até onde elas têm capacidade de andar, e aprender a pensar com os próprios pensamentos para saber até onde tem que pedir a ajuda. Mas, ao mesmo tempo, é indispensável se deixar impulsionar pelo Espírito, pois somente o Espírito de Deus pode transformar qualquer um em nova criatura. A ausência física de Jesus possibilita aos discípulos a atuarem por si mesmos sob o impulso do Espírito. A ausência física de Jesus faz os discípulos crescerem na maturidade no seu seguimento. Por isso, Jesus disse aos discípulos: “É bom para vós que eu parta; se eu não for, não virá até vós o Defensor; mas, se eu me for, eu vo-lo mandarei”. Com a presença do Espírito Defensor, a ausência de Jesus se transforma em uma presença eficaz.

Quando vier o Defensor, ele demonstrará ao mundo em que consistem o pecado, a justiça e o julgamento: o pecado, porque não acreditaram em mim; a justiça, porque vou para o Pai, de modo que não mais me vereis; e o julgamento, porque o chefe deste mundo já está condenado”.

O papel do Paráclito (o Defensor) é convencer o mundo no sentido de demonstrar, de provar, de culpar e de condenar. O Paraclito (o Espírito) executará a sentença de Deus contra o mundo. Para João o juízo “final” não acontecerá nos últimos dias, e sim acontece agora pelo fato de que a decisão escatológica já se concretizou na cruz e na ressurreição de Jesus. O Espírito convencerá o mundo sobre o pecado que consiste na incredulidade e no fato de fechar-se ao amor do Criador (Jo 3,16) manifestado em Jesus Cristo.

O sistema injusto condena o justo como criminoso. O sistema injusto se faz juiz contra os justos e honestos. É a inversão de valores em nome do interesse e das vantagens individuais. Mas o Espírito vai reabrir o processo para pronunciar a sentença contrária. Trata-se de uma sentença final.  Os que se fizeram juízes serão os culpados e culpáveis. E o condenado pelo sistema injusto encontrará a verdade em Deus e o próprio Deus, que não pode ser subornado, será o ponto de referência diante do qual cada um se condena ou se culpa. Diante da verdade a própria mentira se condena. Diante da originalidade a falsidade se exclui. Deus se constitui em juiz e inverte o juízo dado pelo mundo.

O “mundo” neste texto se designa ao círculo dirigente que condenou Jesus; o mundo no sentido das forças sociais, históricas e econômicas opostas ao plano divino, ao plano da fraternidade e da igualdade. Trata-se da personificação das forças malignas da história: a injustiça exercida sobre os inocentes, a opressão dos pobres, a tirania dos sistemas totalitários.

Jesus declara aos discípulos que o Espírito de Deus realizará este juízo da história no qual brilhará a justiça e a bondade divinas a favor dos seus: “Os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai” (Mt 13,43; cf. também Dn 12,3; Sb 3,1-9).

O mundo prefere suas trevas de pecado à luz poderosa da bondade e da verdade divinas que fazem o homem feliz permanentemente.  O pecado do mundo consiste em impedir, reprimir ou suprimir a vida impedindo a realização do projeto criador (Jo 1,10), e esse pecado alcançou seu ápice na recusa de Jesus (Jo 15,22). O Espírito mostrará aos discípulos a justiça de Deus e que o mundo é o réu de seu pecado, de ter recusado a presença de Deus em Jesus que salva.

Portanto, qualquer cristão não pode abandonar uma vida correta e justa nem que seja em nome de qualquer cargo ou de qualquer interesse material, pois tudo será deixado neste mundo. O homem animado pelo Espírito não pode tolerar nem compactuar com a maldade nem em nome dum benefício econômico nem em nome de uma posição social. A “justiça” humana pode desviar a verdade em nome dos interesses pessoais, mas ainda resta a justiça divina diante da qual a verdade, a justiça, a honestidade e a lealdade estarão em destaque. Por isso, “a vida dos justos está nas mãos de Deus e nenhum tormento os atingirá... Os que confiam em Deus compreenderão a verdade e os que são fieis habitarão com Ele no amor” (Sabedoria 3,1.9). “No Reino de seu Pai, os justos resplandecerão como o sol” (Mt 13,43ª). O Espírito de Deus suscita homens particularmente sensíveis aos valores autênticos e a Eucaristia os capacita para comprometer-se efetivamente na contestação dos pseudo-valores.
  1. P. Vitus Gustama,svd