sábado, 18 de novembro de 2017

21/11/2017

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SER MEMBRO DA FAMÍLIA DE JESUS CRISTO
FESTA DA APRESENTAÇÃO DE NOSSA SENHORA


Primeira Leitura: Zc 2,14-17
14 “Rejubila, alegra-te, cidade de Sião, eis que venho para habitar no meio de ti, diz o Senhor. 15 Muitas nações se aproximarão do Senhor, naquele dia, e serão o seu povo. Habitarei no meio de ti, e saberás que o Senhor dos exércitos me enviou a ti. 16 O Senhor entrará em posse de Judá, como sua porção na terra santa, e escolherá de novo Jerusalém. 17 Emudeça todo mortal diante do Senhor, ele acaba de levantar-se de sua santa habitação”.


Evangelho: Mt 12, 46-50
Naquele tempo, 46 enquanto Jesus estava falando às multidões, sua mãe e seus irmãos ficaram do lado de fora, procurando falar com ele. 47 Alguém disse a Jesus: “Olha! Tua mãe e teus irmãos estão aí fora, e querem falar contigo”. 48 Jesus perguntou àquele que tinha falado: “Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos?” 49 E, estendendo a mão para os discípulos, Jesus disse: “Eis minha mãe e meus irmãos. 50 Pois todo aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”.
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Celebramos hoje a memória da Aparesentação de Nossa Senhora. Esta festa começou a ser celebrada na Igreja oriental, que sempre foi muito sensível à piedade mariana mais ou menos desde o século VI e oficialmente em 1143. Tardiamente foi incorporada ao calendário ocidental, romano, em 1472 pelo papa Sisto IV (9 de agosto de 1471 até 12 de agosto de 1484). Na verdade desde o século XII já se celebrava no Sul da Itália e em alguns lugares na Inglaterra.


A apresentação de Nossa Senhora não é narrada nos evangelhos. Ela é uma tradição muito antiga (Evangelho Apócrifo do século II: Evangelho apócrifo de São Tiago). Segundo esta tradição (Apócrifo), os pais de Maria, Joaquim e Ana, piedosos israelitas, não conseguiram ter filhos até sua idade avançada por causa da esterilidade. Não ter filhos significava, na época, o castigo de Deus pelos pecados cometidos. Mas os dois eram justos. Em sua angústia Ana fez uma oração fervorosa, prometendo ao Senhor oferecer-lhe o fruto de suas entranhas se lhe concedesse descendência. O nascimento de Nossa Senhora foi o resultado dessa oração e dessa promessa: “Ó Deus de nossos pais, abençoa-me e ouve minha oração como abençoaste o ventre de Sara, dando-lhe um filho, Isaac”, assim Ana,  mãe de Maria rezava (Apócrifo de Tiago, 2,1). Quando se retirou para o deserto durante quarenta dias e quarenta noites Joaquim, pai de Maria, dizia para si mesmo: “Não descerei nem para comida, nem para bebida, enquanto o Senhor não me visitar; a minha oração será para mim comida e bebida” (cf. Apócrifo de Tiago 1,4). Joaquim e Ana, fiéis ao seu voto, apresentaram a menina quando tinha três anos no templo e permanecia, no templo, dedicada à oração até seu casamento com José (cf. Evangelho apócrifo de São Tiago 7,1-8,1)


A apresentação de Nossa Senhora é a festa de entrega voluntária a Deus. É a festa da total entrega da Virgem Maria a Deus e da sua plena dedicação aos planos divinos. A Virgem Maria nunca negou nada a Deus. Sua correspondência à graça divina e às moções do Espirito Santo foi sempre plena.  É a festa que nos ensina a renunciar a nossa própria vontade a fim de fazer somente a vontade de Deus para formar uma família com Deus e ser instrumento divino para levar os outros para Deus: “Pois todo aquele que faz a vontade do meu Pai, que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”, diz Jesus (Mt 12,50).
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O texto do evangelho de hoje é escolhido em função da festa da Apresentação de Nossa Senhora ao Senhor.


No texto do evangelho deste dia, onde os familiares de Jesus não são mencionados por seus nomes, “a mãe”, aqui, representa Israel enquanto origem de Jesus e “os irmãos” representam também Israel enquanto membros do mesmo povo. Israel fica “fora” em vez de se aproximar de Jesus. Jesus rompe sua vinculação de seu povo de origem para formar uma nova família com os que se associam com o compromisso de formar uma comunidade de irmãos vivendo o amor fraterno (ágape) como maior mandamento (cf. Jo 13,34-35; 15,12).


A maior parte das religiões do mundo se apóia na família, comunidade natural. Jesus edifica sua religião ou sua comunidade não sobre as relações familiares e sim sobre uma comunidade de tipo seletivo em virtude da fé para elevar a família humana em família de Deus. Para divinizar a família humana é preciso que Deus seja de todos e centro da vida e de qualquer convivência (família, comunidade, grupos etc.).


A evolução do mundo técnico tende a tirar o homem de suas comunidades naturais para submergi-lo em comunidades mais “artificiais” ou “mais seletivas”. Por isso, a família vive, muitas vezes, de maneira dramática o conflito das gerações que caracteriza a nossa época. Os pais rezam melhor em companhia de seus amigos do que em família, com seus filhos e familiares. Mas se todos se preocuparem com a vontade de Deus ao praticar o bem, ao viver o amor fraterno, o único que nos edifica, humaniza e diviniza, acabarão salvar a comunidade natural que é a família humana. Por isso, Jesus afirma hoje: Todo aquele que faz a vontade do meu Pai, que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mt 12,50). Trata-se de uma família ou uma comunidade de Deus, e por isso, de uma comunidade de salvação.


Jesus, por sua encarnação, entrou no mundo e formou parte de nossa humanidade, de uma verdadeira humanidade, com os laços de sangue e de cultura e cresceu em uma família. Ele se tornou humano para nos divinizar. Ele nasceu numa família para santificar a família. Ele viveu em um país determinado, Palestina; tinha uma mãe, Maria. Essas realidades humanas têm grande importância, constituem realmente o lugar de nossa vida.


“Quem é minha mãe? Quem são meus irmãos?”, pergunta Jesus. A pergunta não significa um desprezo de Jesus aos seus parentes ou familiares. Ninguém amou Sua mãe melhor que Ele. E nenhuma mãe amou melhor seu Filho, Jesus Cristo, Deus-Conosco do que a própria Maria, a mãe de Jesus.


Com esta pergunta Jesus quer nos revelar algo muito importante: o discípulo, cada cristão, cada cristã que vive os ensinamentos de Jesus é um parente de Jesus. Jesus oferece aos homens a qualitativa intimidade de sua família. A família humana de Jesus viveu conforme a vontade de Deus: José que criou Jesus era chamado de “o justo”, aquele que vive segundo os mandamentos de Deus (cf. Mt 1,19). Maria, a Mãe de Jesus foi chamada pelo anjo de “cheia de graça” (cf. Lc 1,28) e ela viveu a vida conforme a vontade de Deus: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a Tua palavra” (Lc 1,38).  Por isso, a família humana de Jesus serve de exemplo para todas as famílias humanas. Que é possível formar uma família de Deus nesta terra quando Jesus se torna centro de todos e quando todos vivem de acordo com a Palavra de Deus. A única maneira de salvar a família humana é transformá-la em família de Deus, família que vive de acordo com os mandamentos de Deus.


Entre Deus e os homens já não há somente relações frias de obediência e de submissão como entre o patrão e o empregado. Com Jesus entramos na família divina, como seus irmãos e irmãs, como sua mãe. Se em todos os meus atos e atitudes de cada dia, se em todos os minutos de minha vida procurar me manter unido a Deus na vivência do amor fraterno, serei irmão de Jesus, farei parte da família de Deus desde aqui na terra junto aos outros irmãos e irmãs no mundo inteiro que fazem a mesma coisa.


Todo aquele que faz a vontade do meu Pai, que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”. Esta frase deve servir de orientação para nossa vida diária. É lindo e desejável ter um lar, um aconchego. É o sonho de todos. É o desejo de qualquer coração. Ter um lar é um sonho vivo de qualquer ser humano. No lar podemos descansar, conviver amorosamente e estar juntos como pessoas amadas. Mas é preciso incluir Jesus como membro de nosso lar e nós como membros do lar do Senhor. Somente assim nosso lar na terra se transformará em céu antecipado onde há paz e amor, segurança e alegria, festa e descanso. Nosso ler definitivo no céu deve começar desde já aqui na terra tendo Jesus como membro de nossa família e nós, da família de Jesus. A disponibilidade de Maria diante da Palavra e do desígnio divino nos indicam o grado máximo que devemos aspirar no serviço da Palavra divina: “Faça-se em mim segundo a sua Palavra” (Lc 1,38).


Reflita:


“Por acaso não fará Deus justiça aos seus escolhidos, que estão clamando por Ele dia e noite? ... Digo-vos que em breve Deus lhes fará justiça” (Lc 18,7-8).


“O Senhor, meu Deus, vive, se eu der à luz, trate-se de homem ou de mulher, oferecê-lo-ei em voto ao Senhor meu Deus, e o servirá em todos os dias de sua vida”, prometeu Ana (Apócrifo de Tiago, 4,1).


P. Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

20/11/2017
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SENHOR, QUEO EU VEJA COMO TU VÊS
Segunda-Feira da XXXIII Semana Comum


Primeira Leitura:  1Mc 1,10-15.41-43.54-57.62-64
Naqueles dias, 10 brotou uma raiz iníqua, Antíoco Epífanes, filho do rei Antíoco. Estivera em Roma, como refém, e subiu ao trono no ano cento e trinta e sete da era dos gregos. 11 Naqueles dias, apareceram em Israel pessoas ímpias, que seduziram a muitos, dizendo: “Vamos fazer uma aliança com as nações vizinhas, pois, desde que nos isolamos delas, muitas desgraças nos aconteceram”. 12 Estas palavras agradaram, 13 e alguns do povo entusiasmaram-se e foram procurar o rei, que os autorizou a seguir os costumes pagãos. 14 Edificaram em Jerusalém um ginásio, de acordo com as normas dos gentios. 15 Aboliram o uso da circuncisão e renunciaram à aliança sagrada. Associaram-se com os pagãos e venderam-se para fazer o mal. 41 Então o rei Antíoco publicou um decreto para todo o reino, ordenando que todos formassem um só povo, obrigando cada um a abandonar seus costumes particulares. 42 Todos os pagãos acataram a ordem do rei 43 e inclusive muitos israelitas adotaram sua religião, sacrificando aos ídolos e profanando o sábado. 54 No dia quinze do mês de Casleu, no ano cento e quarenta e cinco, Antíoco fez erigir sobre o altar dos sacrifícios a Abominação da desolação. E pelas cidades circunvizinhas de Judá construíram altares. 55 Queimavam incenso junto às portas das casas e nas ruas. 56 Os livros da Lei, que lhes caíam nas mãos, eram atirados ao fogo, depois de rasgados. 57 Em virtude do decreto real, era condenado à morte todo aquele em cuja casa fosse encontrado um livro da Aliança, assim como qualquer pessoa que continuasse a observar a Lei. 62 Mas muitos israelitas resistiram e decidiram firmemente não comer alimentos impuros. 63 Preferiram a morte a contaminar-se com aqueles alimentos. E, não querendo violar a aliança sagrada, esses foram trucidados. 64 Uma cólera terrível se abateu sobre Israel.


Evangelho: Lc 18,35-43
35 Quando Jesus se aproximava de Jericó, um cego estava sentado à beira do caminho, pedindo esmolas. 36 Ouvindo a multidão passar, ele perguntou o que estava acontecendo. 37 Disseram-lhe que Jesus Nazareno estava passando por ali. 38 Então o cego gritou: “Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!” 39 As pessoas que iam na frente mandavam que ele ficasse calado. Mas ele gritava mais ainda: “Filho de Davi, tem piedade de mim!” 40 Jesus parou e mandou que levassem o cego até ele. Quando o cego chegou perto, Jesus perguntou: 41 “Que queres que eu faça por ti?” O cego respondeu: “Senhor, eu quero enxergar de novo”. 42 Jesus disse: “Enxerga, pois, de novo. A tua fé te salvou”. 43 No mesmo instante, o cego começou a ver de novo e seguia Jesus, glorificando a Deus. Vendo isso, todo o povo deu louvores a Deus.
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Estar No Mundo Sem Ser Do Mundo


Durante esta semana que é a penúltima semana do Ano litúrgico lemos uma seleção dos livros dos Macabeus. Na Bíblia católica há dois livros dos Macabeus que são considerados “deuterocanônicos”: foram declarados inspirados por Deus nos concílios de Florença (1441), de Trento (1546) e Vaticano I (1870). Na verdade há quatro livros. Para os judeus e para os protestantes todos os quatro são apócrifos. Apócrifo é a palavra grega (apócryphos) que significa escondido, secreto, oculto. Os livros apócrifos são chamados assim porque não eram de uso público ou não eram usados oficialmente na liturgia e no ensino. Há outros livros apócrifos do AT como também há livros apócrifos do NT. Dos quatro livros dos Macabeus dois deles são considerados pela Igreja católica como apócrifos: o 3º Macabeus (130-100 a.C) e 4º Macabeus (século I a.C).


Os dois livros partem de uma ideia: a fé de Israel está correndo perigo, pois há oposição evidente entre o judaísmo (2Mc 2,21;8,1; 14,38) e o helenismo (2Mc 4,13-14; 11,2-3). Há tentação forte da parte do povo israelita de adotar a civilização grega que é mais elevada e desenvolvida do que a civilização judaica. Mas tem um preço alto a pagar: renunciar aos valores sagrados que significa uma traição à fé da Aliança. Isarel teve de lutar ao longo de sua história contra o sincretismo religioso. E agora tem que lutar contra outro tipo de sincretismo que o helenismo propõe. Uma parte do povo adotou o helenismo (apostasia). Mas a maioria conservadora recusou, pois o povo israelita é um povo eleito (2Mc 1,25). A identidade como o povo eleito conduz o povo para um nacionalismo feroz através do martírio. O povo israelita acredita que aquele que morre pela lei experimentará a ressurreição dos justos (2Mc 7,9).


Nesta luta o povo israelita tem uma convicção forte de que Deus não abandona seu povo da Aliança e por isso, o povo se apoia sempre em Deus na sua luta. As principais armas que o povo usa para cada batalha são a oração, o jejum e a leitura da Bíblia (1Mc 3,48), pois quem decide a batalha é o próprio Deus.


A Primeira Leitura de hoje nos narra a diversa reação dos israelitas diante da ordem de adotar a religião oficial pagã. Para os israelitas foi um tempo difícil: “Uma cólera terrível se abateu sobre Israel”. O pecado dos judeus apóstatas não era a aceitação ou não da cultura helênica, mas "aboliram o uso da circuncisão e renunciaram à aliança sagrada. Associaram-se com os pagãos e venderam-se para fazer o mal” e "Eles ofereceram sacrifícios aos ídolos e profanaram o sábado".


A tentação da secularização continua existente. Mas para começar digamos que “secular”, “secularidade” e “secularização” fazem referência a “ser e estar no mundo” (no século). Quando falamos de secularidade para a Igreja ou para o cristianismo, entendemos com isso como “a maneira peculiar de ser Igreja encarnada”, no mundo e para o mundo. Certamente como sacramento de salvação.


Enquanto que secularização denotaria, em sentido negativo, a autonomia total do mundano e a separação com relação ao cristianismo e à Igreja. Em outras palavras, estaríamos falando de laicismo. O Vaticano II, em Gaudium et Spes, admite uma “relativa otonomia” do civil, isto é, uma sã secularidade.


Os elementos que devemos levar em conta são os seguintes: Primeiro, o Ser e o Fazer (identidade e missão) de uma Igreja que vive no mundo e para o mundo, exerce sua missão no mundo e por meio do mundo. É uma Igreja plenamente encarnada. Segundo, o Ser e o Fazer dos fieis leigos. Porque neles e por eles a Igreja vive “em plenitude e profundidade” a inserção no mundo: Sal da terra e luz do mundo. Esta “índole secular”, é a chave para entender a teologia e espiritualidade laical. Terceiro, o Ser e o Fazer dos presbíteros (diocesanos/seculares). Se a perfeição do presbítero diocesano ou secular consiste em viver a radicalidade da caridade pastoral, então está se encarnando na vivência no século.


Todas as formas de vida na Igreja estão no século, são seculares, ainda que a grande diferença sejam as formas de viver os dons do Espirito. Neste sentido, convem não nos esquecermos que nós cristaos estamos no mundo sem ser do mundo. A pastoral, no terreno da secularidade, se move entre a inserção real e trans-secularidade. Porque a logica e dialética do Reino de Deus é esta: “Já presente, mas não realizado em plenitude”.


Podemos ser modernos e assumir todos os progressos da ciência e da cultura, mas o que não temos que perder é nossa fé e nosso estilo cristão de vida. Somos “o sal da terra” e “a luz do mundo” (Mt 5,13-14). Ai está nosso testemunho: ser fortes para lutar contra corrente. Ou pode seguir corrente sem nos deixar levar pela correnteza do modernismo. Os judeus fieis foram assim com todas as consequências: “Muitos israelitas resistiram e decidiram firmemente não comer alimentos impuros. Preferiram a morte a contaminar-se com aqueles alimentos. E, não querendo violar a aliança sagrada, esses foram trucidados”. Nos seus lábios põem o Salmo Responsorial de hoje: “Quando vejo os renegados, sinto nojo, porque foram infiéis à vossa lei.... Mesmo que os ímpios me amarrem com seus laços, nem assim hei de esquecer a vossa lei”.


Senhor Que Eu Enxergue Sua Presença Para Entender o Sentido Da Minha Vida


Continuamos escutando as ultimas e importantes lições dadas por Jesus no seu caminho para Jerusalém (Lc 9,51-19,28).


No Evangelho deste dia o evangelista Lucas conta como Jesus, depois de anunciar sua Paixão e ressurreição, curou um cego dentro do contexto de uma subida para Jerusalém. A incredulidade dos apóstolos é um tema freqüente nos anúncios da Paixão e da subida para Jerusalém. Os apóstolos ficam como que cegos diante deste anúncio. Jesus não para de dar lições para que os apóstolos possam entender o sentido da missão de Jesus que, um dia, eles devem levá-la adiante.


Por isso, a intenção do evangelista Lucas é bem clara ao colocar este episódio aqui: para compreender o mistério da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus é preciso abrir os olhos da fé para poder entender as Escrituras. Os meios humanos são inadequados. É preciso deixar-se conduzir por outro para descobrir a Luz.


Como Deus é Luz, ele colocou seus olhos nos olhos de Jesus para poder olhar para nosso mundo como ninguém neste mundo. E como Jesus é a Luz do mundo (cf. Jo 8,12), ele devolveu a visão para o mendigo cego: “Enxerga, pois, de novo. Tua fé te salvou!”, disse Jesus ao cego.


Um provérbio árabe diz: “Vem a mim com teu coração e eu te darei meus olhos”. Jesus também nos diz: “Vem a mim com teu coração!”. Temos que nos aproximar de Jesus com nosso coração, com nossa coragem de ver, de vê-Lo todo e de ver o mundo e os outros homens como Deus os vê: com amor e compaixão. A fé também é um grito de socorro: “Jesus, tem piedade de mim!”. Jamais podemos desistir de gritar a Jesus para pedir socorro, como pediu o cego mendigo. Somente os olhos de Jesus podem nos fazer ver com alegria a vida até nas suas dores. 


Não há nada que seja mais belo ou formoso na vida do que poder ver: ver o rosto da mãe ou do pai, ver o sorriso de uma criança, ver os olhos da pessoa amada, ver uma passagem, ver o sol, a natureza, a obra dos homens, ver “as obras dos dedos de Deus” (Sl 8,4) e assim por diante. Jesus nos chamou para ver: “Venham e vejam!” (Jo 1,39), disse Jesus aos dois discípulos de João que mais tarde se tornarão discípulos seus. É para ver a vida a partir de uma perspectiva especial para poder caminhar na direção certa.


O olhar é um dom precioso e fascinante legado pelo Criador. É uma das áreas humanas que mais chama a atenção das pessoas. O olhar é como uma bússola a guiar nossos passos, nossos gestos, nossas atitudes. O olhar sempre está aí atento a um ou outro detalhe. Os olhos determinam um pouco ou muito do que somos. E o olhar é sempre anterior às nossas palavras.


É tão natural olhar, que nem nos damos conta desse misterioso gesto. Muitas vezes olhamos; poucas vezes, porém, nos encontramos. Alguns se limitam a olhar os outros para anotar seus possíveis defeitos. Não deixa de ser a mais trágica expressão de nossa crueldade. O olhar superficial jamais enxerga alguém; os outros são objetos de curiosidade, de conversa.


O cego da nossa história está sentado à beira do caminho e pede esmola. O estar sentado significa acomodação, instalação, conformismo. Ele está privado da luz e da liberdade e está conformado com a sua triste situação, sabendo que, por si só, é incapaz de sair dela. E o pedir esmola indica a situação de escravidão e de dependência em que o homem se encontra.


Num diálogo público com o cego, Jesus pergunta ao cego sobre o que ele quer: “O que queres que eu faça por ti?”. E o cego sabe muito bem daquilo que ele quer: “Senhor, que eu veja!”. “Enxerga, pois, de novo. Tua fé te salvou” é a resposta de Jesus. E aconteceu o milagre. A Palavra de Jesus devolve ao cego a vista como símbolo da fé. Por isso, o evangelista Lucas nota que esse homem, depois que ficou curado, “seguia a Jesus”. É um corte radical com o passado, com a vida velha, com a anterior situação, com tudo aquilo em que se apostou anteriormente, a fim de começar uma vida nova ao lado de Jesus.


Diante de Jesus e com Jesus não há situação por difícil que seja que não haja solução. É preciso, no entanto, que não nos fechemos no nosso egoísmo e na nossa auto-suficiência, surdos e cegos aos apelos de Deus; é preciso que as nossas preocupações com os valores efêmeros não nos distraiam do essencial; é preciso que aprendamos a reconhecer os desafios de Deus nesses acontecimentos banais com que, tantas vezes, Deus nos interpela e questiona.


Uma das razões que nos impedem de sermos autenticamente nós mesmos e encontrar nosso caminho é não compreender até que ponto estamos cegos. Mas a tragédia está no fato de que não estamos conscientes de nossa cegueira. Vivemos num mundo de coisas que captam ou chamam nossa atenção e se impõem. O que é invisível, ao contrário, que não se impõe, nós devemos buscá-lo e descobri-lo. O mundo exterior pretende nossa atenção. Enquanto que Deus se dirige a nós com discrição.


Ser incapaz de perceber o invisível, ou ver somente o mundo da experiência significa ficar-se fora do mundo da experiência, significa ficar-se fora do pleno conhecimento, significa ficar-se fora da experiência da realidade total que é o mundo de Deus e Deus no coração do mundo.


Além de ser incapaz de perceber o invisível, o egoísmo reduz o homem a seus próprios desejos e interesses, lhe fecha os olhos e o coração, o paralisa à margem do caminho por onde percorre a vida. O homem que vegeta em seu egoísmo tem um coração demasiado estreito para acolher o próximo e demasiado estreito para receber Deus.


O encontro com o próximo é indispensável para o encontro com Deus, pois isto é o primeiro que cremos: que Deus se fez homem (Jo 1,14). Não é possível escutar a Palavra de Deus, se não estamos dispostos a escutar os homens. Por isso, a dificuldade da fé não é outra coisa que nosso próprio egoísmo, nossa auto-suficiência, porque a fé é abertura, encontro, aceitação.


O cego que voltou a ver é o símbolo de todos os homens que desejam ver, caminhar e viver. Sobretudo é um símbolo para todos em tempos de crise, de obscuridade, de desorientação. É um símbolo para o homem que, apesar de tudo, busca e continua buscando sua direção ou seu guia para sua vida. Junto ao homem que busca, Jesus passa como a Vida, a Luz e o Caminho para o homem. Com Jesus o homem se encontra consigo mesmo e com Deus que direciona a vida para sua plenitude. A fé em Jesus é uma luz que ilumina a vida. A luz da fé ilumina e dá sentido à nossa vida porque põe claridade na origem, de onde viemos e no término, no fim de nosso destino.


O cego não pede outra coisa a não ser a capacidade de enxergar de novo: “Senhor, que eu possa enxergar de novo”. A luz divina que opera nele não lhe permite ver outra coisa na vida a não ser o caminho que Jesus traçou que ele precisa trilhar para chegar à vida eterna.


E os nossos olhos servem para enxergar o caminho de Jesus ou para ver os defeitos dos outros? Quem enxerga apenas os defeitos dos outros é porque a luz divina ainda não operou na sua vida. Precisamos rezar com o cego mendigo: “Senhor que eu possa enxergar de novo!”.
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P. Vitus Gustama,svd

quinta-feira, 16 de novembro de 2017


Domingo, 19/11/2017
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TALENTOS E RESPONSABILIDADE CRISTÃ NA ESPERA DA VINDA DO SENHOR

 

XXXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM “A”

 

Primeira Leitura: Pr 31,10-13.19-20.30-31

 

10 Uma mulher forte, quem a encontrará? Ela vale muito mais do que as joias. 11 Seu marido confia nela plenamente, e não terá falta de recursos. 12 Ela lhe dá só alegria e nenhum desgosto, todos os dias de sua vida. 13 Procura lã e linho, e com habilidade trabalham as suas mãos. 19 Estende a mão para a roca, e seus dedos seguram o fuso. 20 Abre suas mãos ao necessitado e estende suas mãos ao pobre. 30 O encanto é enganador e a beleza é passageira; a mulher que teme ao Senhor, essa sim, merece louvor. 31 Proclamem o êxito de suas mãos, e na praça louvem-na as suas obras!

 

Segunda Leitura: 1Ts 5,1-6

 

1 Quanto ao tempo e à hora, meus irmãos, não há por que vos escrever. 2 Vós mesmos sabeis perfeitamente que o dia do Senhor virá como ladrão, de noite. 3 Quando as pessoas disserem: “Paz e segurança!”, então de repente sobrevirá a destruição, como as dores de parto sobre a mulher grávida. E não poderão escapar. 4 Mas vós, meus irmãos, não estais nas trevas, de modo que esse dia vos surpreenda como um ladrão. 5 Todos vós sois filhos da luz e filhos do dia. Não somos da noite, nem das trevas. 6 Portanto, não durmamos, como os outros, mas sejamos vigilantes e sóbrios.

 

Evangelho: Mt 25,14-30

 

Naquele tempo, Jesus contou esta parábola a seus discípulos: 14 “Um homem ia viajar para o estrangeiro. Chamou seus empregados e lhes entregou seus bens. 15 A um deu cinco talentos, a outro deu dois e ao terceiro, um; a cada qual de acordo com a sua capacidade. Em seguida viajou. 16 O empregado que havia recebido cinco talentos saiu logo, trabalhou com eles e lucrou outros cinco. 17 Do mesmo modo, o que havia recebido dois lucrou outros dois. 18 Mas aquele que havia recebido um só saiu, cavou um buraco na terra e escondeu o dinheiro do seu patrão. 19 Depois de muito tempo, o patrão voltou e foi acertar contas com os empregados. 20 O empregado que havia recebido cinco talentos entregou-lhe mais cinco, dizendo: ‘Senhor, tu me entregaste cinco talentos. Aqui estão mais cinco, que lucrei’. 21 O patrão lhe disse: ‘Muito bem, servo bom e fiel! Como foste fiel na administração de tão pouco, eu te confiarei muito mais. Vem participar da minha alegria!’22 Chegou também o que havia recebido dois talentos, e disse: ‘Senhor, tu me entregaste dois talentos. Aqui estão mais dois que lucrei’. 23 O patrão lhe disse: ‘Muito bem, servo bom e fiel! Como foste fiel na administração de tão pouco, eu te confiarei muito mais. Vem participar da minha alegria!’. 24 Por fim, chegou aquele que havia recebido um talento, e disse: ‘Senhor, sei que és um homem severo, pois colhes onde não plantaste e ceifas onde não semeaste. 25 Por isso, fiquei com medo e escondi o teu talento no chão. Aqui tens o que te pertence’. 26 O patrão lhe respondeu: ‘Servo mau e preguiçoso! Tu sabias que eu colho onde não plantei e ceifo onde não semeei? 27Então, devias ter depositado meu dinheiro no banco, para que, ao voltar, eu recebesse com juros o que me pertence’. 28 Em seguida, o patrão ordenou: ‘Tirai dele o talento e dai-o àquele que tem dez! 29 Porque a todo aquele que tem será dado mais, e terá em abundância, mas daquele que não tem, até o que tem lhe será tirado. 30 Quanto a este servo inútil, jogai-o lá fora, na escuridão. Aí haverá choro e ranger de dentes!’”.

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Os capítulos 24-25 de Mt constituem o quinto e o último discurso de Jesus no evangelho de Mateus. Este quinto discurso é conhecido como o “Discurso escatológico” (discurso apocalíptico). Mt elabora notavelmente o discurso escatológico de Mc (Mc 13) e o amplia com uma série de parábolas e com uma impressionante descrição do julgamento final (Mt 25,31-46), cuja principal intenção é orientar os cristãos sobre como preparar a segunda vinda do Senhor (Parusia). Mt não trata, como em Mc, dos sinais que precederam a destruição do Templo e sim da vinda do Filho do Homem e das atitudes necessárias com que os discípulos devem preparar esta vinda. Fazer o bem e desenvolver os talentos para o bem comum são umas das melhores maneiras para preparar esta vinda.

          

Com o discurso escatológico Mt quer responder à situação em que a sua comunidade vive. Por um lado, a comunidade vê que a segunda vinda de Jesus se atrasa, enquanto diante dela aparece a história como espaço para o compromisso. Por outro lado, o evangelista contempla com preocupação os sinais de abandono, preguiça espiritual, relaxamento moral, rotina e esfriamento que começam a aparecer na comunidade. Nesta situação, Mt descobre que aquelas palavras de Jesus contém um profundo ensinamento e servem de exortação para os cristãos. A exortação se fundamenta numa profunda convicção: a vinda do Filho do Homem é certa, porém, não acontecerá em seguida (o momento é incerto). Por isso, chegou o momento de preparar-se para este grande acontecimento vivendo segundo os ensinamentos de Jesus. 

          

A linguagem destes capítulos pode provocar temor. Mas, na verdade, trata-se de uma linguagem apocalíptica que era relativamente freqüente entre alguns grupos judeus e cristãos. Chama-se de linguagem apocalíptica porque tem como objetivo manifestar uma revelação escondida (apocalypsis). Em muitas ocasiões esta revelação é dirigida a grupos ou comunidades que vivem uma situação de perseguição, com a intenção de animá-los e encorajá-los em suas lutas e tribulações, pois a Palavra de Deus vai ser a última palavra para a humanidade. Por isso, não há motivo nenhum de alguém ver nestes textos uma ameaça e sim, uma mensagem de esperança.

          

Por isso, um tema obrigatório de qualquer discurso escatológico é a exortação a vigiar. Com a parábola dos talentos e das outras parábolas anteriores, Mateus pretende nos falar da situação da Igreja ou da comunidade que vive na época da vinda do Senhor.

 

Mateus nos dá três modelos de infidelidade de crentes/fiéis que não “vigiam” para estar preparados para a vinda do Senhor: Infidelidade de violência e má conduta (Mt 24,45.51); uma infidelidade de imprevisão (Mt 25,1-13: moças prudentes e imprudentes) ; e infidelidade-preguiça que encontramos no Evangelho de hoje (Mt 25,14-30). E o traço comum para todas estas infidelidades consistem numa insuficiência de atividade concreta. Isto confirma que a vigilância no Evangelho de Mateus é uma espera ativa e responsável.

        

Alguns detalhes da parábola dos talentos que nos chamam a atenção:

          

1. Um proprietário, antes de viajar, deixa seus bens aos empregados. E o que ele confia a cada um deles não é pouco: é talento. Um talento equivalia a 34 quilos de ouro ou correspondia a vinte anos de trabalho de um operário na época. E o interessante é que o proprietário não diz o que ou como (modo de multiplicar) eles devem fazer com os talentos, porque ele sabe que cada um deles é capaz, pois ele confia a cada um de acordo com a própria capacidade. Por isso, que cada um saiba tentar descobrir sempre o modo como multiplicar os dons recebidos. Deus escolhe cada um de nós para realizar uma missão específica neste mundo. Deus investiu Sua vontade e sua força em cada um de nós. Então, estamos aqui neste mundo não por acaso mas por uma causa: a causa de Deus. Fazer ato de bondade pelos nossos semelhantes é a melhor maneira de celebrar a nossa presença neste mundo e de agradecer pela confiança que Deus depositou em nós.

        

A parábola caminha para o final, onde ela adquire todo o seu sentido. Não importa se recebemos muito ou pouco. Aliás, não existe muito ou pouco quando se fala das possibilidades de cada um tem. O que importa é que cada um coloque o que é e o que tem a serviço do Reino da justiça. O pouco que cada um pode fazer é muito importante. Se não for feito, algo ficará faltando para todos. Não há nenhuma missão que supere a nossa capacidade. Com Deus com pouco que somos e temos, não existe missão impossível, pois “para Deus nada é impossível” (Lc 1,37). Se não realizarmos a nossa tarefa ou missão, por insignificante ou pequena que ela seja, aí sim é que seremos considerados inúteis.

         

2. É interessante observar que nenhum dos três empregados rouba o talento. Cada um é honesto. Isto quer dizer que um fiel, segundo Mateus, não é apenas um homem honesto que preserva o talento, mas que ativamente negocia com o talento. Talentos de todo tipo crescem com o uso. E quanto mais o usamos, maior ele fica. Por isso, não adianta ser, por exemplo, intelectualmente muito capaz e não se instruir; ou de nada serve ter um coração compassivo, se ficamos assistindo de longe as dores de nossos semelhantes que a nossa compaixão poderia resolver. Boas intenções que nunca se traduzem em ação, vão se enfraquecendo e viram uma conversa sem conteúdo.

 

3. É preciso ter atitude bem definida em cada momento de noss vida. O fato de não sabermos da hora nem do mistério da morte não nos dispensa de uma atitude vigilante. É no “agora” da nossa vida, do nosso dia-a-dia que nós mesmos preparamos e criamos o essencial daquela “hora” desconhecida. O talento recebido é uma dádiva divina que nos dá a força para transformarmos a nossa história humana em história divina, nossa mortalidade em imortalidade, nosso tempo humano no tempo da graça. O fato de o Senhor estar ausente não nega que Ele continue sendo o Senhor de nossos talentos. É como beber a água: jamais podemos nos esquecer da fonte. A graça (talento) sempre nos dá a capacidade de nos transformamos em irmãos da humanidade e consequentemente, de transformar o mundo ao nosso redor com o nosso talento que recebemos de Deus. Deus dá a medida, mas tudo é dom absoluto (cf. Rm 12,6-15ss). Se em cada dom é Deus que se nos dá, então o dom de Deus é sempre um chamado, uma missão em seu nome e uma vocação para uma experiência mais profunda do Seu amor. Se no dom é Deus quem quer se tornar meu, então no ato de receber o dom, eu devo me tornar de Deus. Este risco é infinito. Deus está em cada um de nós através de nosso talento, além de sermos o próprio templo do Espirito Santo (Cf. 1Cor 3,16-17). O talento nos torna mais de Deus, pois o talento é de Deus.

         

4. O significado da parábola dos talentos é muito claro. Quando lemos a parábola dentro do contexto do julgamento final, logo percebemos que os talentos são as condições com que Deus dotou cada um de nós: a inteligência, a capacidade de ser solidário e de amar gratuitamente, a habilidade de ajudar os outros no seu crescimento e assim por diante. O tempo que dura a ausência do dono dos talentos é a vida dada a cada um de nós. A volta inesperada do dono é o fim de nossa peregrinação aqui na terra. O momento da prestação de contas é o juízo final. Entrar no gozo do Senhor é o Céu que sonhamos. Tudo isso quer nos dizer uma verdade é que não somos donos e sim administradores de uns bens de Deus dos quais teremos que prestar contas de nossa administração. Temos apenas o direito de usufruir e não de possuir. O cofre não acompanha o caixao. Tudo será deixado de tudo que se adquiriu neste mundo. O tempo de Deus somente eterniza o que é fraterno, amoroso, bondoso, solidário, honesto, caridoso e assim por diante, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). Por isso, hoje é o momento oportuno para fazermos nosso exame de consciência se realmente estamos conscientes de que temos a mentalidade de administradores e não de donos absolutos das coisas neste mundo. E ao mesmo tempo podemos nos indagar se fazemos uso correto dos talentos recebidos de Deus para o bem comum?!

 

5. A parábola nos chama a vivermos plenamente o momento presente, mas com os olhos postos em Deus para que estejamos livres de muitas ansiedades inúteis que nos paralisam, e das preocupações exageradas no campo material (cobiça, ganância etc.). Aproveitar o tempo presente é levar a abo o que Deus quer que façamos em cada momento. Aquilo que tem a ver com o amor, a bondade, a fraternidade, a honestidade, a solidariedade, a construção de uma convivência fraterna é que Deus quer que levemos em conta em cada momento de nossa vida. O resto vale a pena a ser abandonado.

          

6. Dos três empregados, o que recebe maior atenção é o terceiro que tem medo de arriscar.

 

Não estamos errados em sentir medo porque somos criaturas expostas a perigos e ameaças. Mas os nossos medos são um sinal de alarme que podem nos ajudar a evitar o perigo. O imprudente, de modo geral, suprime o medo e se atira inutilmente ao perigo. O covarde teme tudo, se paralisa e não se atreve a correr nenhum risco. O sábio sabe se situar para saber se posicionar a fim de saber agir sabiamente e frutuosamente em cada momento.

 

O terceiro empregado é mesquinho, covarde e pusilânime. Ele que pretende se mostrar bom para com Deus sem sair do seu próprio mundo. Ele pensa que ser crente é uma questão somente entre ele e Deus, sem levar em conta que os outros necessitam de sua ajuda. Ele considero o Deus em quem ele acredita é exigente e severo, que castiga muito mais do que ama (Mt 25,24-25). Na sua mesquinhez ele concebe Deus como aquele que se move entre recompensa e castigo. Por isso, ele prefere não arriscar e devolver ao Senhor o mesmo que recebeu. Para este empregado covarde é que o patrão dirige as seguintes palavras duras: “Tirai dele o talento e dai-o àquele que tem dez! Porque a todo aquele que tem será dado mais, e terá em abundância, mas daquele que não tem, até o que tem lhe será tirado. Quanto a este servo inútil, jogai-o lá fora, na escuridão. Aí haverá choro e ranger de dentes!”.

 

O terceiro empregado mostra bem sua preguiça ao enterrar o talento em vez de multiplicá-lo ou emprestá-lo para o outro. A preguiça é o fruto da falta de amor que leva um desamor cada vez maior. Nesta parábola, o Senhor condena os que não desenvolvem os dons recebidos e que só empregam a serviço do seu comodismo pessoal. A vida só tem sentido quando servimos a Deus e ao próximo no serviço de amor. O amor humaniza e diviniza.

 

Do terceiro empregado aprendemos que a fé não é uma coisa que se guarda para si e que é guardada numa caixa-forte para protegê-la. A fé é vida que se expressa em amor e entrega ao outro. Nos evangelhos ter medo equivale a não ter fé. A vida cristã é baseada na gratuidade, na coragem e no sentido do outro e não na formalidade nem na autoproteção ou no temor.

 

Portanto, vamos nos perguntar e sem medo de responder com sinceridade: Você tem realizado e multiplicado os talentos que Deus depositou em você? Que tipo de homem você é: um homem prudente ou imprudente ou covarde? De que causas eu coloco os meus talentos? Porque há pessoas que só fazem render os talentos para proveito pessoal, não querem comprometer-se com a causa dos necessitados, seus irmãos. Como vai ser, quando o Senhor voltar de viagem e pedir contas? Dentro de um tempo teremos que deixar tudo que temos e levaremos conosco, para sempre, o mérito das nossas boas obras.

 

P. Vitus Gustama,svd

quarta-feira, 15 de novembro de 2017


18/11/2017
Resultado de imagem para Lc 18,1-8
Resultado de imagem para E Deus, não fará justiça aos seus escolhidos, que dia e noite gritam por ele?
ORAÇÃO NA VIDA E VIDA NA ORAÇÃO
REZAR SEM CESSAR
Sábado da XXXII Semana Comum


Primeira Leitura: Sb 18,14-16; 19,6-9
18,14 Quando um tranquilo silêncio envolvia todas as coisas e a noite chegava ao meio de seu curso, 15 a tua palavra onipotente, vinda do alto do céu, do seu trono real, precipitou-se, como guerreiro impiedoso, no meio de uma terra condenada ao extermínio; como espada afiada, levava teu decreto irrevogável; 16 defendendo-se, encheu tudo de morte e, mesmo estando sobre a terra, ela atingia o céu. 19,6 Então, a criação inteira, obediente às tuas ordens, foi de novo remodelada em cada espécie de seres, para que teus filhos fossem preservados de todo perigo. 7 Apareceu a nuvem para dar sombra ao acampamento, e a terra enxuta surgiu onde antes era água: o mar Vermelho tornou-se caminho desimpedido, e as ondas violentas se transformaram em campo verdejante, 8 por onde passaram, como um só povo, os que eram protegidos por tua mão, contemplando coisas assombrosas. 9 Como cavalos soltos na pastagem e como cordeiros, correndo aos saltos, glorificaram-te a ti, Senhor, seu libertador.


Evangelho: Lc 18,1-8
Naquele tempo: 1 Jesus contou aos discípulos uma parábola, para mostrar-lhes a necessidade de rezar sempre, e nunca desistir, dizendo: 2 'Numa cidade havia um juiz que não temia a Deus, e não respeitava homem algum. 3 Na mesma cidade havia uma viúva, que vinha à procura do juiz, pedindo: `Faze-me justiça contra o meu adversário!' 4 Durante muito tempo, o juiz se recusou. Por fim, ele pensou: 'Eu não temo a Deus, e não respeito homem algum. 5 Mas esta viúva já me está aborrecendo. Vou fazer-lhe justiça, para que ela não venha a agredir-me!'' 6 E o Senhor acrescentou: 'Escutai o que diz este juiz injusto. 7 E Deus, não fará justiça aos seus escolhidos, que dia e noite gritam por ele? Será que vai fazê-los esperar? 8 Eu vos digo que Deus lhes fará justiça bem depressa. Mas o Filho do homem, quando vier, será que ainda vai encontrar fé sobre a terra?'
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Deus Tem a Última Palavra Para Nossa Vida


Quando um tranquilo silêncio envolvia todas as coisas e a noite chegava ao meio de seu curso, a tua palavra onipotente, vinda do alto do céu, do seu trono real, precipitou-se, como guerreiro impiedoso, no meio de uma terra condenada ao extermínio; como espada afiada, levava teu decreto irrevogável”.


Estamos no último capítulo do livro de Sabedoria sobre qual temos refletido durante esta semana que está terminando.


No texto que lemos na Primeira Leitura o autor do livro de Sabedoria reflete sobre a décima praga que caiu sobre o Egito para que o Faraó tomasse, finalmente, a decisão de deixar os judeus saírem para o deserto.


A descrição do êxodo do povo eleito no texto é cósmica: no silêncio da noite sucede a intervenção poderosa de Deus e Sua Palavra desce como espada afiada, pisa a terra e enche o céu e sombra de morte cobre os inimigos do povo eleito.


O êxodo dos israelitas foi uma poderosa figura do definitivo Exodo da morte e ressurreição de Jesus, sua passagem através da morte para a nova existência, guiando como novo Moisés o povo para a salvação definitiva.


Se a saída do Egito foi o acontecimento decisivo para Israel, para nós e com maior motivo é a Páscoa de Jesus que continuamente nos comunica em seus sacramentos e na celebração de cada domingo, e sobretudo, da Tríduo Pascal de cada ano. À luz desta Páscoa temos de interpretar a história e os pequenos ou grandes acontecimentos de nossa vida a partir da Páscoa para que nos mantenhamos no optimismo e na confiança de Deus apesar das dificuldades.


Esta leitura nos prepara para a celebração do domingo e nos ajuda a refrescar nossa admiração pelas maravilhas que Deus operou na nossa vida diariamente. Diante das maravilhas de Deus nossa gratidão e nossos louvores e cantos são insuficientes. Diante das maravilhas de Deus temos muito mais a razão para agradecer do que para murmurar.  O Salmo Responsorial de hoje (Sl 104) nos ajuda a não esquecermos as maravilhas de Deus: “Lembrai sempre as maravilhas do Senhor! Cantai, entoai salmos para ele, publicai todas as suas maravilhas! Gloriai-vos em seu nome que é santo, exulte o coração que busca a Deus!”. Toda vez que fizermos a ação de graças a Deus por tudo na nossa vida, por toda a criação maravilhosa, ganharemos novas forças para seguir adiante e não teremos medo de enfrentar as dificuldades, pois com o Senhor tudo é possível (Cf. Lc 1,37).


A Bondade Infinita De Deus Nos Faz Persverantes Na Oração


O evangelista Lucas é conhecido como uma pessoa orante, e a sua comunidade é uma comunidade orante, porque ele dá uma atenção particular à oração. Por isso, seu evangelho é chamado também de o “Evangelho de Oração”. A oração envolve o evangelho inteiro desde o primeiro capítulo que abre com uma solene liturgia no Templo de Jerusalém (Lc 1,1-10) até a reunião dos discípulos, depois da ascensão, novamente no Templo para louvar a Deus (Lc 24,53).


A oração é uma percepção da realidade que logo se desabrocha em louvor, em adoração, em agradecimento e em pedido de piedade Àquele que é a origem do ser. Por isso, quem sabe viver conscientemente, sabe também rezar bem. E quem sabe rezar bem, também sabe viver conscientemente. “Vive de tal modo que sua vida seja uma oração” (Santo Agostinho: In ps. 91,3). O homem que ora inspira o mundo, olha para o mundo com compaixão e, nesse olhar, penetra a fonte de todo ser. A oração é mais do que recitar umas fórmulas, é, sobretudo, uma convicção íntima de que Deus é nosso Pai e que quer nosso bem. Orar/rezar é uma maneira mais eficaz para aproximar a terra para o céu; é uma maneira de encurtar a distância entre o céu e a terra; é meio direto para penetrar no céu a fim de conversar com o Pai do céu. A oração derruba o muro que nos separa de Deus, pois na oração conversamos diretamente com o céu, isto é, com Deus. Distanciar-se da oração significa distanciar-se do céu. É impossível chamar Deus de Pai sem conversar com Ele permanentemente. 


”Jesus contou aos discípulos uma parábola para mostrar-lhes a necessidade de rezar sempre, e nunca desistir...” (Lc 18,1), assim o evangelista Lucas nos relatou sobre a importância da oração na vida de quem acredita em Deus.


O advérbio “sempre” confere à oração um duplo significado. O rezar “sempre” é o programa de quem crê, chamado a aceitar, a cada dia, o desafio da história: convoca ao compromisso de colocar a “prece na vida” e “vida na prece”. Oração e vida se fundem em uma recíproca imanência. Uma é a vida da outra. A prece transforma em unidade os fragmentos da existência quotidiana diante de Deus. Se a prece tem lugar na existência quotidiana do cristão, a própria vida está na prece. Por isso, a prece não é apenas um barco salva-vidas para quem estiver afundando. Para o cristão, falar com Deus significa usar a linguagem da vida e da história na conversa com o Pai do céu. Seria impossível imaginar um filho não conversar com seu pai morando na mesma casa.


Este versículo introdutório (Lc 18,1) é seguido pela parábola sobre o juiz desonesto e a viúva insistente. Com a história da viúva, que tão insistente, venceu, pelo cansaço, o juiz desinteressado que não estava nem um pouco inclinado a atendê-la, Jesus quer nos recomendar a perseverança na oração. São três as razões porque devemos ser perseverantes nas nossas orações: Primeiro, a bondade e a misericórdia de Deus. Segundo, o amor de Deus por cada um de nós (Deus ama cada um na sua individualidade). Terceiro, o interesse que nos mostramos perseverantes na oração. Por isso, o modo como a pessoa reza depende da imagem de Deus que traz no seu coração. Quanto mais correta for esta imagem, mais disposição terá para a oração e mais confiante e perseverante esta será.


A pessoa de fé é sempre perseverante, porque ela sabe a quem recorrer e em quem acredita, sem se importar com as circunstâncias. Aquele que crê, tem absoluta certeza de ser atendido. A oração que não foi atendida é uma forma de Deus atender nosso pedido, pois Deus tem a sabedoria infinita. Se Deus “não nos atender” é para o nosso bem maior, pois Deus sabe muito bem de nossas necessidades. Se Ele atender nosso pedido é para nossa salvação. E se Ele não atender nossa oração é para nossa salvação também. Sem duvida nenhuma, Deus sempre nos atende, pois Ele quer nossa salvação. “Quando a oração brota da alma como uma necessidade da própria alma, converte-se em chave de ouro, em santo e eficaz sinal que abre as portas do céu e torna possível um encontro com Deus. O homem se eleva em oração e Deus se inclina em misericórdia”, dizia Santo Agostinho (In ps. 85,7).


A vontade de Deus de querer nos salvar é o motivo de nossa perseverança na nossa oração. E acabamos aprendendo o que devemos pedir e o que não devemos pedir a Deus nas nossas orações. Neste sentido, a oração não deixa de ser um caminho pedagógico.


“Jesus contou aos discípulos uma parábola, para mostrar-lhes a necessidade de rezar sempre, e nunca desistir”. A oração perseverante é expressão e o alimento da fé em Deus. Fé e oração estão sempre intimamente unidas. Para orar é preciso crer e para crer é necessário orar. A oração é um exercício de fé. Se há quem consagre a sua vida à oração, é para manter viva e ativa essa fé que Jesus deseja encontrar no coração de todos (Lc 18,8). A oração deve ser como uma respiração permanente. Ninguém sobreviveria sem respirar e sem o ar do qual ele respira. Assim também um cristão: não viveria como bom cristão sem uma oração perseverante. E aquele que crê não quer obrigar Deus a fazer a própria vontade, utilizá-lo para realizar seus desejos, mas para obter a graça de conformar sua vontade à de Deus.


Além disso, a parábola da viúva insistente quer nos ensinar que, para atingir objetivos superiores às nossas forças, precisamos orar sem cessar, pois há objetivos que não podem ser alcançados sem a oração. Por exemplo: onde conseguir a força para perdoar quem nos prejudicou, a não ser na oração? Ou, onde conseguir a força para não fraquejar diante dos maus desejos da ambição, da inveja, da cobiça, do ódio, do rancor, da vingança a não ser na oração? Se por um instante sequer deixarmos cair os braços, isto é, se pararmos de rezar imediatamente as forças do mal prevalecerão, seremos derrotados e os desastres que sofremos serão assustadores. Se pararmos de rezar, erraremos o caminho. Quem aprender a ficar de joelho em oração e adoração, vai conseguir ficar firme e inabalável diante das dificuldades da vida, pois ele sabe e acredita que Deus está com ele e ele está com Deus.


P. Vitus Gustama,svd