segunda-feira, 3 de abril de 2017

06/04/2017

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TER FÉ EM DEUS E NA SUA PALAVRA É VIVER PARA SEMPRE  


Quinta-Feira da V Semana da Quaresma


Primeira Leitura: Gn 17,3-9


Naqueles dias, 3 Abrão prostrou-se com o rosto por terra. 4 E Deus lhe disse: “Eis a minha aliança contigo: tu serás pai de uma multidão de nações. 5 Já não te chamarás Abrão, mas o teu nome será Abraão, porque farei de ti o pai de uma multidão de nações. 6 Farei crescer tua descendência infinitamente. Farei nascer de ti nações, e reis sairão de ti. 7 Estabelecerei minha aliança entre mim e ti e teus descendentes para sempre; uma aliança eterna, para que eu seja teu Deus e o Deus de teus descendentes. 8 A ti e aos teus descendentes darei a terra em que vives como estrangeiro, todo o país de Canaã como propriedade para sempre. E eu serei o Deus dos teus descendentes”. 9 Deus disse a Abraão: “Guarda a minha aliança, tu e a tua descendência para sempre”.


Evangelho: Jo 8,51-59


Naquele tempo, disse Jesus aos judeus: 51Em verdade, em verdade eu vos digo: se alguém guardar a minha palavra, jamais verá a morte”. 52Disseram então os judeus: “Agora sabemos que tens um demônio. Abraão morreu e os profetas também, e tu dizes: ‘Se alguém guardar a minha palavra jamais verá a morte’. 53Acaso és maior do que nosso pai Abraão, que morreu, como também os profetas? Quem pretendes ser?” 54Jesus respondeu: “Se me glorifico a mim mesmo, minha glória não vale nada. Quem me glorifica é o meu Pai, aquele que vós dizeis ser o vosso Deus. 55No entanto, não o conheceis. Mas eu o conheço e, se dissesse que não o conheço, seria um mentiroso, como vós! Mas eu o conheço e guardo a sua palavra. 56Vosso pai Abraão exultou, por ver o meu dia; ele o viu, e alegrou-se”. 57Os judeus disseram-lhe então: “Nem sequer cinqüenta anos tens, e viste Abraão!” 58Jesus respondeu: “Em verdade, em verdade vos digo, antes que Abraão existisse, eu sou”. 59Então eles pegaram em pedras para apedrejar Jesus, mas ele escondeu-se e saiu do Templo.
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Fazer Pacto Eterno Com Deus É Permanecer Na Sua Palavra e Na Sua Promessa


Estabelecerei minha aliança entre mim e ti e teus descendentes para sempre; uma aliança eterna, para que eu seja teu Deus e o Deus de teus descendentes... Guarda a minha aliança, tu e a tua descendência para sempre”.


Quando tinha 99 anos de idade Deus apareceu a Abraão como “El Sadhai” (Gn 17,1) que os LXX traduzem por “Pantocrator” (todo poderoso) ou a Vulgata por “Onipotente”. Hoje em dia os autores preferem a tradução do “El Shadai” por o “Deus montanhoso” ou o “Deus das montanhas” que justificaria a associação de Javé com o monte Sinai onde Moisés recebeu o decálogo. Este epíteto obedeceria à crença popular de que Deus habitava numa zona montanhosa como o Olimpo dos gregos ou o monte Nisir dos mesopotâmicos.


Depois do anúncio solene em que se declara a divindade, Deus intima Abraão a ser perfeito/íntegro e a caminhar na presença de Deus: “Eu sou o Deus Todo-poderoso. Anda em minha presença e sê íntegro” (Gn 17,1). Não se determina nenhuma prescrição positiva e sim a intimação de ser reto e íntegro em seus costumes, isento de todo pecado (cf. Gn 6,9). E se anuncia o estabelecimento de uma aliança solene e uma promessa de multiplicar a descendência.


E Deus muda o nome de Abrão em Abraão, dizendo “porque farei de ti o pai de uma multidão de nações”. Aqui o autor faz um jogo de palavra com uma etimologia popular de “Abram”: “Ab” (pai) e “hamon” (multidão). Na realidade, “Abram” significa “pai ama” ou “pai elevado”. Desde agora Abraão é como uma nova pessoa diante de Deus e assim seu nome se muda para simbolizar a paternidade sobre “multidão de povos”. E se estabelece um pacto eterno entre Deus e a patriarca e sua descendência. São Paulo vê o cumprimento desta profecia no “Israel de Deus” que pela fé se incorpora às promessas de Abraão: “É pela fé que alguém se torna herdeiro. Portanto, gratuitamente; e a promessa é assegurada a toda a posteridade de Abraão, não somente aos que procedem da lei, mas também aos que possuem a fé de Abraão, que é pai de todos nós” (Rom 4,16 cf. Rm 9:8).


A Primeira Leitura, portanto, nos apresenta uma aliança perpétua que Deus estabelece com Abraão. Os verdadeiros descendentes de Abraão são aqueles que, pela fé, confiam nas promessas de Deus. A mudança do nome de Abraão indica uma mudança de missão: ele será pai de uma multidão de povos e sua fé será referência constante para seus filhos.


A este homem (Abraão) que estava desejando um filho, desde tanto tempo, Deus anuncia uma fecundidade sobre-humana. A verdadeira “fecundidade” de Abraão não é sua descendência biológica através de Isaac, seu filho, e sim é sua imensa fecundidade espiritual: Abraão é o “pai dos crentes”, pois ele é o primeiro que acreditou em Deus apesar dos pesares de sua vida. Sua fé em Deus alcançou a maior aventura espiritual de todos os tempos renunciando a apoiar-se em suas próprias luzes e em suas próprias forças para unicamente apoiar-se em Deus. Ele abandona seus pais que é sua segurança humana e renuncia a suas aparentes certezas naturais para confiar-se na Palavra e na Promessa de Deus. É uma verdadeira aventura de fé!


“Estabelecerei minha aliança entre mim e ti e teus descendentes para sempre; uma aliança eterna, para que eu seja teu Deus e o Deus de teus descendentes.... E eu serei o Deus dos teus descendentes. Guarda a minha aliança, tu e a tua descendência para sempre”, disse Deus a Abraão. E Jesus dirá no Evangelho: “Em verdade, em verdade eu vos digo: se alguém guardar a minha palavra, jamais verá a morte”.


Se não quisermos morrer para sempre, temos somente um meio à nossa disposição: aceitar um contrato com Deus, fazer “Aliança com Ele”, permanecer na Palavra de Deus e guardar a Palavra de Deus na vida cotidiana.


Será que apostamos tudo em Deus? Será que confiamos realmente na Palavra de Deus? Será que contamos com Deus nos nossos planos e nas nossas decisões de cada dia?


O texto do evangelho deste dia é a continuação do evangelho do dia anterior. No evangelho de hoje a chave para entender o texto é a vida: os que crêem em Jesus, além de ser livres (evangelho do dia anterior), têm vida em plenitude e jamais verão a morte:” Se alguém guardar a minha palavra, jamais verá a morte” (Jo 8,51). Quem guarda a Palavra de Jesus com fé e a converte em algo determinante para sua vida, jamais verá a morte. A morte física não interrompe a vida nem é uma experiência de destruição para quem guardar a Palavra de Deus. A vida que Jesus comunica não conhece fim (cf. Jo 3,16; 5,21; 11,25).


Acreditar em Jesus e viver de acordo com sua Palavra significa não parar de existir. Jesus oferece a vida eterna àqueles que escutam e põem em prática sua Palavra, tal como ele a ofereceu a Nicodemos (Jo 3,6); à Samaritana (Jo 4,14); aos judeus de Jerusalém (Jo 5,24); aos galileus (Jo 6,40. 47). Para o evangelista João, manter-se fiel à Palavra de Jesus dá a vida, tal como Jesus recebe a plenitude da vida gloriosa do Pai, porque se mantém obediente e guarda sua Palavra.


O maior exemplo de quem tem a fé inabalável é Abraão como relatou a primeira leitura (Gn 17,3-9): “Eis a minha aliança contigo: tu serás pai de uma multidão de nações... Farei crescer tua descendência infinitamente... Guarda a minha aliança, tu e a tua descendência para sempre”, disse Deus a Abraão. Para Abraão que estava desejando um filho desde muito tempo, Deus lhe anuncia uma fecundidade sobrenatural. A verdadeira “fecundidade” de Abraão não é sua descendência biológica que veio pelo nascimento de Isaac e sim sua imensa fecundidade espiritual: Abraão é o “pai dos crentes”: “Tu serás pai de uma multidão de nações”, pois ele é o primeiro que põe sua fé em Deus mesmo que ele tenha que enfrentar uma situação impossível humanamente, por exemplo: sacrificar o filho único por ordem de Deus embora não chegue a acontecer, pois o próprio Deus intervém (cf. Gn 22,1-18).  Sobre a fé firme de Abraão São Paulo comentou: “Esperando, contra toda a esperança, Abraão teve fé e se tornou pai de muitas nações, segundo o que lhe fora dito: Assim será a tua descendência... Estava plenamente convencido de que Deus era poderoso para cumprir o que prometera” (Rm 4,18.21).


Estabelecerei minha aliança entre mim e ti e teus descendentes para sempre; uma aliança eterna, para que eu seja teu Deus e o Deus de teus descendentes”, acrescentou Deus a Abraão. De outra forma Jesus nos diz: “Em verdade, em verdade eu vos digo: se alguém guardar a minha palavra, jamais verá a morte”. Trata-se de uma aliança eterna entre Deus e o homem, uma aliança que jamais termina com a morte física. Mas, será que confiamos realmente na Palavra de Deus?


É Preciso Guardar a Palavra Do Senhor Para Viver Uma Vida Eterna


“Em verdade, em verdade eu vos digo: se alguém guardar a minha palavra, jamais verá a morte”.


Há morte física e há morte que procede da opção pelo pecado. A morte física põe em evidência a debilidade radical da carne e a transitoriedade da vida humana. É a condição biológica de qualquer ser humano neste mundo. Por isso, todos são sujeitos à morte física. Trata-se de um acontecimento normal para quem vive neste mundo mesmo que esta normalidade ainda esteja fora do cálculo da maioria. A morte definitiva (apollymai) a que corresponde ao pecado é oposta à ressurreição, à vida eterna. Para os que participam do pecado do mundo sem se converter, a morte física assinala o fim da sua existência, o fim de sua comunhão plena com Deus. Mas quem possui a vida definitiva, isto é, aquele que guarda a Palavra de Deus passa pela morte física sem ter experiência dela, pois a morte física é superada pela potência da vida que é a ressurreição. Cristo é o fundamento desta vida, pois Ele a tem em plenitude e pode dá-la ao homem que acredita nele. A vida divina trazida por Cristo se manifesta e se comunica através de suas palavras (Jo 6,38.68) e se revela e se transmite através dos “sinais” (em Jo há sete sinais).


O texto do evangelho de hoje termina com as mais escandalosas afirmações que o homem algum jamais pode fazer de si mesmo: “Em verdade, em verdade vos digo, antes que Abraão existisse, eu sou”. Na verdade, no prólogo do seu evangelho João já tinha afirmado isso:” No princípio era o Verbo, o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus” (Jo 1,1). Jesus como o Verbo de Deus quer nos dizer: “Eu existo desde sempre. Eu sempre existo”. Deus não tem passado nem futuro. Está sempre em eterno presente. Está fora do cálculo do tempo humano. Jesus foi apresentado pelo João Batista da mesma maneira: “Depois de mim, vem um homem que passou adiante de mim, porque existia antes de mim” (Jo 1,30).


Se Cristo está sempre em eterno presente, temos experimentar e sentir Sua presença em cada momento. A consciência de saber da presença eterna de Jesus diariamente na nossa vida (cf. Mt 28,20) nos ajuda a renovarmos nossas forças e nosso ânimo de continuar nossa caminhada.


Se nossa fé em Jesus Cristo for profunda, se não somente soubermos das coisas sobre ele, se estivermos em plena comunhão com ele, no modo de viver e de agir, teremos vida de Jesus já, como os ramos que recebem a seiva do tronco principal (Jo 15,1-5). A vida que Jesus comunica não conhece fim (Jo 3,16; 4,34; 5,21). A morte física não interrompe a vida nem é uma experiência de destruição. Ter a vida eterna é saber que nosso destino se realiza plenamente na vida imortal de Deus. Em Deus se realizam nossos sonhos, anseios, afetos e utopias mais queridos. Deus supera todos os nossos males e todos os nossos limites. Mas muitas vezes para nós é difícil acreditar na ressurreição porque não aceitamos ainda a morte física. O pior é que ficamos revoltados diante da morte de nosso ente querido, embora ele tenha morrido naturalmente. A fé na ressurreição vem nos dizer que o homem não vive para morrer e sim morre para viver. Morrer não é o fim da caminhada e sim atravessar o túnel para a Luz plena. O homem, para ressuscitar, tem que morrer, como Jesus morreu e ressuscitou.


Nós cristãos guardamos a Palavra de Jesus e esperamos por ela a vida eterna. Guardar essa Palavra significa vivê-la cada dia, fazê-la realidade em nosso trato com os demais, realizar o mandato de Jesus de amar aos irmãos com o amor com que nos amou até o fim. Ter vida eterna é saber que nosso destino se realiza plenamente na vida imortal de Deus. Em Deus chegaremos à perfeição para os nossos sonhos, nossos afetos e assim por diante.


Na véspera da Páscoa, a festa da vida para Jesus, ainda que seja através de sua morte, também sentimos a chamada à vida. A Páscoa é a festa da vida para os cristãos. A Páscoa é o dia de nossa salvação. Na Páscoa os cristãos querem renovar e reafirmar seu sim à vida. A Páscoa deve ser, por isso, uma sintonia sacramental e profunda com Cristo que atravessa a morte para a vida.


A participação na Eucaristia e o que a Eucaristia nos compromete na nossa vida diária nos faz entrar em intimidade com o Senhor, Pão da Vida eterna. O mistério Pascal de Cristo não nos conduz à morte e sim à vida. Através da Eucaristia o Senhor nos comunica sua própria vida para que nós sejamos sinais de vida no mundo. A Eucaristia faz a Igreja esforçar-se em fazer chegar a vida de Deus a todos os homens, muitas vezes deteriorados por causa do pecado. A partir desse esforço, fortalecidos pelo Espírito Santo que atua em nós e a partir de nós, poderemos fazer que o mundo seja fecundo em homens novos, capazes de chegar a ser filhos e filhas de Deus e de manifestar-se como tais através de sua obras e não somente por suas palavras. Como dizia São Francisco de Assis que temos que evangelizar se for necessário até com nossas palavras.


A Eucaristia diária é a Páscoa diária. E para os que celebram e participam da Eucaristia Jesus assegura: “Quem comer meu Corpo e beber meu Sangue terá a vida eterna e eu o ressuscitarei no ultimo dia” (Jo 6,54). A Eucaristia, memória sacramental da primeira Páscoa de Jesus é também uma antecipação da Páscoa eterna para a qual somos convidados. Tudo de Jesus na terra é uma antecipação daquilo que é eterno. Vivemos na terra aquilo que é do céu por causa de Jesus Cristo. Será que temos consciência disso tudo que não é pouca coisa: a vida eterna na terra?!


P. Vitus Gustama,svd

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