sábado, 20 de maio de 2017

22/05/2017
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JESUS PERMANECE CONOSCO NAS NOSSAS PROVAÇÕES


Segunda-Feira da VI Semana da Páscoa


Primeira Leitura: At 16,11-15


11 Embarcamos em Trôade e navegamos diretamente para a ilha de Samotrácia. No dia seguinte, ancoramos em Neápolis, 12 de onde passamos para Filipos, que é uma das principais cidades da Macedônia, e que tem direitos de colônia romana. Passamos alguns dias nessa cidade. 13 No sábado, saímos além da porta da cidade para um lugar junto ao rio, onde nos parecia haver oração. Sentados, começamos a falar com as mulheres que estavam aí reunidas. 14 Uma delas chamava-se Lídia; era comerciante de púrpura, da cidade de Tiatira. Lídia acreditava em Deus e escutava com atenção. O Senhor abriu o seu coração para que aceitasse as palavras de Paulo. 15 Após ter sido batizada, assim como toda a sua família, ela convidou-nos: “Se vós me considerais uma fiel do Senhor, permanecei em minha casa”. E forçou-nos a aceitar.


Evangelho: Jo 15,26-16,4


Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 15,26“Quando vier o Defensor que eu vos mandarei da parte do Pai, o Espírito da Verdade, que procede do Pai, ele dará testemunho de mim. 27 E vós também dareis testemunho, porque estais comigo desde o começo. 16,1 Eu vos disse estas coisas para que a vossa fé não seja abalada. 2 Expulsar-vos-ão das sinagogas, e virá a hora em que aquele que vos matar julgará estar prestando culto a Deus. 3 Agirão assim, porque não conheceram o Pai, nem a mim. Eu vos digo isto, para que vos lembreis de que eu o disse, quando chegar a hora”.
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Somos Chamados e Enviados Pelo Senhor a Ser Evangelizadores Em Qualquer Lugar e Tempo


No dia seguinte, ancoramos em Neápolis, de onde passamos para Filipos, que é uma das principais cidades da Macedônia, e que tem direitos de colônia romana. Passamos alguns dias nessa cidade”.


Um dia a Europa foi “terra de missão”. Graças a São Paulo, pois através dele a Europa conheceu o Evangelho. E a primeira cidade da Europa onde Paulo se instala é Filipos, capital de Macedônia. Esta cidade será a primeira comunidade cristã do continente europeia.


No sábado, saímos além da porta da cidade para um lugar junto ao rio, onde nos parecia haver oração. Sentados, começamos a falar com as mulheres que estavam aí reunidas”. É assim começou a missão na Europa: umas mulheres reunidas para rezar. São judias que respeitam o Sábado. São um pequeno grupo. Por o grupo ser pequeno demais não dá para dispor de uma sinagoga em Filipos, uma grande cidade pagã. Por isso, elas se reúnem fora, na saída da cidade à margem de um rio para orar. É ali Paulo as encontra. O acontecimento histórico da evangelização na Europa começa com elas. Provavelmente aconteceu em torno da primavera do ano 50.


Uma delas chamava-se Lídia; era comerciante de púrpura, da cidade de Tiatira. Lídia acreditava em Deus e escutava com atenção. O Senhor abriu o seu coração para que aceitasse as palavras de Paulo”. Assim Lucas, o autor dos Atos continua seu relatoria. Lídia será a primeira europeia que crê em Jesus. Além disso, ela é uma mulher hospitaleira que convida Paulo e seus companheiros a hospedarem-se em sua casa.


A comunidade cristã de Filipos recebeu mais tarde uma das Cartas mais amáveis de Paulo: sinal de que guardava recordações muito positivos dessa comunidade.


O que aprendemos da maneira de evangelizar de São Paulo? São Paulo se adaptava à circunstâncias que ia encontrando. Às vezes pregava na sinagoga, outras vezes num cárcere, ou junto ao rio ou na praça de Atenas. Quando era recusado, São Paulo ia para outras cidades. Quando o aceitavam, São Paulo ficava naquele lugar até consolidar a comunidade. Mas sempre anunciava Cristo ressuscitado e se deixava guiar pelo Espirito Santo. A obra de salvação não é obra do homem. É a obra de Deus no homem. Deus é quem abre as mentes daqueles que escutam seus enviados para quem entendam e aceitem, deum modo pessoal, a obra de salvação que Deus quer realizar neles. Por isso, não somente devemos pedir a Deus que nos dê Sua sabedoria para poder proclamar dignamente Sua Palavra, mas também temos que pedir por todos aqueles que nos escutarão para que possa ser semeada eficazmente a semente da Palavra de Deus e produza frutos abundantes de salvação.


De São Paulo aprendemos que jamais podemos perder oportunidade para evangelizar em qualquer lugar e momento. Quando nos deixarmos guiar pelo Espirito do Senhor ressuscitado, seremos testemunhas de nossa fé em qualquer ambiente onde nos encontramos, desde nossa família até o trabalho e toda atividade social. Quem é guiado pelo Senhor não se cansa a praticar o bem para qualquer pessoa e em qualquer lugar e tempo a exemplo do próprio Jesus que passou a vida fazendo o bem (cf. At 10,38)


Como Testemunhas Dos Ensinamentos De Cristo Estejamos Preparados Para Ser Perseguidos


O evangelho de hoje pertence ao conjunto do discurso da despedida de Jesus dos seus discípulos (Jo 13-17). Nesse discurso Jesus dá as ultimas lições para seus discípulos.


No texto do evangelho de hoje Jesus alerta aos discípulos e a todos os cristãos que a perseguição faz parte do ser do cristão: “Todos os que quiserem viver com piedade em Cristo Jesus serão perseguidos” (2Tm 3,12). Se o mundo opôs-se a Jesus Cristo, logo os cristãos experimentarão a mesma oposição. O mundo perseguirá os cristãos quando seus interesses forem afetados ou denunciados pelos cristãos. Até para fazer o bem o cristão é perseguido. Mas, do ponto de vista cristão, o tempo da perseguição é o tempo oportuno de testemunho. Tempo de provação e de perseguição é o tempo de expansão. O cristão é chamado a ser mártir no sentido pleno da palavra e para espalhar o amor. Viver no amor é viver em Deus, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). Mas sem dúvida, os que fazem parte de pessoas de boa vontade aceitarão o anúncio cristão cuja essência é o amor fraterno e cujas expressões são a justiça, a honestidade, a fraternidade, a solidariedade, a compaixão, a igualdade e assim por diante. Morrer por causa da honestidade, da justiça, da solidariedade etc. é o maior testemunho para o cristão. Este tipo de morte será uma morte feliz e por isso, uma vida ressuscitada.


“Expulsar-vos-ão das sinagogas, e virá a hora em que aquele que vos matar julgará estar prestando culto a Deus. Agirão assim, porque não conheceram o Pai, nem a mim. Eu vos digo isto, para que vos lembreis de que eu o disse, quando chegar a hora”.


Este texto nos quer informar a verdade de que a perseguição foi a primeira experiência da Igreja nascente. Os discípulos de Jesus foram expulsos da sinagoga e perseguidos, primeiro pelos judeus e, depois, também pelos pagãos. A segunda obra de São Lucas que é o Atos dos Apóstolos descreve muito bem esta situação. A Igreja se espalhava sendo perseguida. É o ponto positivo da perseguição.


Para que os discípulos não fiquem abalados nem desorientados na sua ausência física, Jesus promete-lhes uma presença nova no meio deles. Com essa nova presença, Jesus quer dizer aos discípulos que eles não serão abandonados como órfãos, pois o amor do Senhor por eles e por qualquer cristão jamais morrerá. Jesus nos ama até o fim (cf. Jo 13,1). O amor de Cristo vai até além da morte. Em Jo 14,16-17 Jesus prometeu o envio do Paráclito, do Defensor, do Espírito da Verdade. Em Jo 15, especialmente no evangelho de hoje, aparece novamente esse Paráclito, o Defensor, o Espírito da Verdade.


Quem é o Espírito Paráclito, ou o Defensor, o Espírito da Verdade? A palavra “paráclito” em grego que é traduzida por “Defensor” em português. Ele é aquele que é chamado ao lado de quem se encontra em dificuldades com o fim de acompanhar, consolar, proteger e defendê-lo; em outras palavras: um ajudante, assistente, sustentador, protetor, procurador e, sobretudo, animador e iluminador no processo interno na fé. Mas o Espírito Paráclito é um dom de Deus oferecido para quem se abre a ele. A ajuda de Deus jamais faltará para nós, mas é preciso que tenhamos abertura diante dessa ajuda.


Esse Espírito Paráclito também recebe outro nome: “o Espírito da Verdade”.  Mas dentro de sua função de ajudar, de orientar, de animar, de proteger nas dificuldades, o Espírito da Verdade é entendido, sobretudo, como aquele que faz viver muito mais do que aquele que faz pensar. Pensar é uma coisa, viver é outra coisa.  Fazer um bom raciocínio é uma coisa; viver o que se raciocina é outra coisa. Orientar alguém para viver bem é uma coisa; perder a própria vida para que os outros possam viver é outra coisa. O mais importante não é o saber da vida e sim saborear a vida; não é sentir e sim o comprometer-se; não é o perceber e sim o decidir-se; não é o desejar e sim o querer. O Espírito da Verdade nos ensina a vivermos a vida na sua profundidade em cada momento. Ele não nos deixa presos no passado nem fugitivos do futuro; simplesmente vivemos na graça de Deus em cada momento de nossa vida. Por isso, o mais importante é fazer dos problemas, oportunidades; do passado, aprendizado; do amor, a experiência fundante e da vida, a arte de ser de cada dia.


É missão do Espírito Santo, então, revelar aos Apóstolos toda a verdade sobre Cristo, sobre suas obras, sua vida e sua morte, e fortalecê-los para que sejam capazes de dar testemunho. Ser testemunha é confessar com as consequências, expor-se, arriscar-se, encarar. É provar aquilo que se acredita até com o próprio sangue. É ser mártir.  “Testemunho” aparece no Novo Testamento com o sentido de “mártir”. Dar a vida é o grande testemunho; é confessar com sangue a Verdade. Não somente a morte por Cristo, mas também a vida cristã vivida com todas as suas consequências tem um valor de “martírio” e por isso, de testemunho.


Quem pode nos possibilitar para viver assim é o Espírito da Verdade. Por isso, precisamos pedir ao Senhor sua presença na nossa vida de cada dia e que estejamos abertos para a renovação no Espírito do Senhor que é o Espírito da Verdade, o Defensor de nossa vida toda vez que nos encontrarmos em qualquer dificuldade.


Mas quando a Igreja, em geral, e cada cristão, em particular, anda lado a lado, de mãos dadas com o mundo é sinal muito evidente de que a Igreja e cada cristão, particularmente, deixam de ser o sal da terra e a luz do mundo (Mt 5,13-14). Desta maneira, a Igreja se torna surda diante da voz do Senhor e cega diante da Luz divina (Jo 8,12). É o momento de conversão e de renovar os compromissos batismais!


P. Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Domingo,21/05/2017
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A VIDA DE QUEM AMA É GUIADA PELO PARÁCLITO


VI DOMINGO DA PÁSCOA DO ANO “A”


Primeira Leitura: At 8,5-8.14-17


Naqueles dias, 5Filipe desceu a uma cidade da Samaria e anunciou-lhes o Cristo. 6As multidões seguiam com atenção as coisas que Filipe dizia. E todos unânimes o escutavam, pois viam os milagres que ele fazia. 7De muitos possessos saíam os espíritos maus, dando grandes gritos. Numerosos paralíticos e aleijados também foram curados. 8Era grande a alegria naquela cidade.14Os apóstolos, que estavam em Jerusalém, souberam que a Samaria acolhera a Palavra de Deus, e enviaram lá Pedro e João. 15Chegando ali, oraram pelos habitantes da Samaria, para que recebessem o Espírito Santo. 16Porque o Espírito ainda não viera sobre nenhum deles; apenas tinham recebido o batismo em nome do Senhor Jesus.17Pedro e João impuseram-lhes as mãos, e eles receberam o Espírito Santo.


Segunda Leitura: 1Pd 3,15-18


Caríssimos: 15 Santificai em vossos corações o Senhor Jesus Cristo, e estai sempre prontos a dar razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la pedir. 16 Fazei-o, porém, com mansidão e respeito e com boa consciência. Então, se em alguma coisa fordes difamados, ficarão com vergonha aqueles que ultrajam o vosso bom procedimento em Cristo. 17 Pois será melhor sofrer praticando o bem, se esta for a vontade de Deus, do que praticando o mal. 18 Com efeito, também Cristo morreu, uma vez por todas, por causa dos pecados, o justo, pelos injustos, a fim de nos conduzir a Deus. Sofreu a morte, na sua existência humana, mas recebeu nova vida pelo Espírito.


Evangelho: Jo 14,15-21


Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 15 Se me amais, guardareis os meus mandamentos, 16 e eu rogarei ao Pai, e ele vos dará um outro Defensor, para que permaneça sempre convosco: 17 o Espírito da Verdade, que o mundo não é capaz de receber, porque não o vê nem o conhece. Vós o conheceis, porque ele permanece junto de vós e estará dentro de vós. 18 Não vos deixarei órfãos. Eu virei a vós. 19 Pouco tempo ainda, e o mundo não mais me verá, mas vós me vereis, porque eu vivo e vós vivereis. 20 Naquele dia sabereis que eu estou no meu Pai e vós em mim e eu em vós. 21 Quem acolheu os meus mandamentos e os observa, esse me ama. Ora, quem me ama será amado por meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele.
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O Evangelho deste domingo é a continuação do Evangelho do domingo anterior e por isso, ainda pertence ao discurso de despedida de Jesus (os cap. 13-17). O texto é tirado da segunda unidade (Jo 14,15-24). Nesta unidade encontram-se três temas paralelos que se completam mutuamente. 1. Os vv.15-17 falam da vinda do Paráclito, o espírito da verdade, que habitará naqueles que creem em Jesus. 2. Vv. 18-21 falam da promessa da volta e da permanência de Jesus para sempre com os seus. 3. Vv.23-34 (com a introdução do v.22) falam da habitação do Pai e de Jesus naqueles que amam a Jesus.


Fé e Amor Interligados


Jesus começa o discurso dizendo: “Se me amardes, guardareis os meus mandamentos” (v.15; cf. Jo 14,21.23.24). O que isso significa?


 “Amar-me” e “guardar/observar meus mandamentos” são duas expressões que têm um relação recíproca, isto é, uma sempre reflete outra independentemente de sua ordem. Amar-observar é uma expressão bem vivida na tradição deuteronômica do Antigo Testamento (cf. Dt 5,10; 6,5s; 10,12s; 11,13.22). Amar e observar os mandamentos de Deus fazem parte da própria Aliança com Deus. Amar, neste contexto, significa conhecer Deus e seu Filho, pois este conhecimento não é intelectual e sim comunhão e partilha. Amar é guardar os mandamentos, pois estes mandamentos se resumem num só: o amor.


Guardar a palavra de Jesus significa crer nessa palavra; é crer Naquele que é a verdade e a vida (cf. Jo 14,6); é crer na totalidade dos ensinamentos e das obras de Jesus. O amar/observar produz uma morada divina no discípulo: “A ele viremos e nele estabeleceremos morada” (Jo 14,23; cf. Ex 25,8; Lv 26,11; Ez 37,27; Zc 2,14). No Evangelho de João CRER e AMAR constituem uma unidade indivisível. Somente pode dizer que CRÊ aquele que AMA.


Por isso, quem quiser permanecer em união de amor com Jesus, deverá entrar na esfera da fé, deverá relacionar-se na fé com o Revelador de Deus (v.15). Esse relacionar-se na fé significa salvar. Sublinha-se, assim, a ligação entre fé e amor. Aderir a Jesus significa aceitar o amor que ele oferece, manifestando até ao extremo, em sua morte (Jo 13,1), e tomar Jesus por modelo de vida, adotando como norma de conduta o amor ao homem como o dele (cf. Jo 15,12). A comunhão com Jesus, que produz a unidade de Espírito com ele, é o que se chama amor. A identificação com Jesus, que se expressa em termos de amor (v.15) é condição para que o discípulo possa cumprir a mensagem do amor. Somente esta identificação, que é cume da adesão (fé), é que permite ao discípulo amar como Jesus amou (Jo 13,34).


A ligação com Jesus pelos laços de amor não pára apenas no entusiasmo emocional, mas significa compromisso com a sua palavra. Amar a Jesus é guardar os seus mandamentos. Fé não é reconhecimento irrestrito e carinhoso da pessoa de Jesus, mas compromisso com os seus ensinamentos, na formulação de nossa vida. Trata-se de assumir a práxis de Jesus e nisso demonstramos o nosso amor para com ele (cf. 1Jo 4,20). Quem não guardar o mandamento de Jesus é o sinal de que ele não ama a Jesus. Jesus é o modelo e exemplo do amor (Cf. 15,12). Deus não ama o que é digno de amor. Mas amando, Deus confere o valor ao objeto de seu amor. Ou seja, o que em si está privado de valor, adquire valor ao fazer-se objeto do amor divino. Deus não me ama porque tenho qualidade e méritos. Faço-me precioso porque Deus me ama. O amor divino não constata os valores. Deus confere valor amando. O amor divino, o amor ágape é princípio criativo de valores.


Paraclito e Seu Papel Na Vida Dos Cristãos


Logo em seguida Jesus promete a vinda do Espírito Santo que recebe dois nomes: “Paráclito” e “Espírito da verdade”: “Pedirei ao Pai e vos dará um outro Consolador (Paráclito), que permanecerá convosco para sempre: o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o conhece” (v.16-17).  A grande promessa que nos fez Cristo foi o envio do Espirito Santo, dom do Pai aos que, pela fé e o amor se entregam a Cristo. Este Espirito, ao recebe-lo é a fonte de vida e de santidade para toda a Igreja.


Sobre a importância do Espirito Santo, lemos na Primeira Leitura em que “Pedro e João impuseram-lhes as mãos, e eles receberam o Espírito Santo”. Pedro e Joao fizeram este gesto sobre os samaritanos. A hierarquia é o órgão sacramental que nos garante a doação e a presença do Espirito Santo na vida da Igreja. São Basílio afirma: “Para o Espirito Santo dirigem seu olhar todos os que sentem necessidade de santificação, para Ele tende o desejo de todos os que levam uma vida virtuosa.... Fonte de santificação, Luz de nossa inteligência, Ele é quem dá, de Si mesmo, uma espécie de claridade a nossa razão natural para que conheça a verdade. Inacessível por natureza, se faz acessível por sua bondade” (Sobre o Espirito Santo 9,22-23).




A assistência do Espirito conferirá a infalibilidade à Igreja, pois Ele “permanecerá convosco para sempre: o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o conhece”. O Espirito de verdade permanecerá solidário com a aventura da Igreja. Isto não quer dizer que a Igreja não possa cometer erros ou estar isenta de ambiguidade. A maravilha da assistência do Espírito é que, apesar de seus erros, a Igreja jamais seja abandonada pela verdade de Deus. Isto quer dizer que a verdade possuída pela Igreja é um dom e não o fruto de suas reflexões.


Pedirei ao Pai e vos dará um outro Consolador (Paráclito), que permanecerá convosco para sempre: o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o conhece” (v.16-17). O termo grego “Paráclito” encontra-se cinco vezes no NT e somente nas obras joaninas (Jo 14,16.26;15,26;16,7; e uma vez é empregado relacionado com Jesus em 1Jo 2,1). Este termo “Paráclito” tem um amplíssimo significado: Aquele que é chamado para junto de alguém (parakaléo) ou aquele que é chamado ao lado de quem se encontra em dificuldades com o fim de acompanhar, consolar, proteger e defendê-lo; em latim advocatus. Em outras palavras, paraclito é um ajudante, assistente, sustentador, protetor, procurador e, sobretudo, animador e iluminador no processo interno na fé. Daí é que o Paráclito se traduz por Consolador ou Defensor. Por isso, o sentido deste título atribuído ao Espírito Santo é o de ”protetor dos cristãos” que estão atravessando momentos difíceis.


A vinda do apoio do Espírito pressupõe a partida de Jesus (= morte). E pelo apoio do Espírito, Jesus permanece entre os seus, governa a comunidade por intermédio do Espírito. Ele exerce uma dupla função, interna e externa: como mestre da comunidade cristã e como testemunha diante do mundo. O mais importante função do Espírito consiste em tornar presente a palavra e a obra de Jesus e em revelar seu sentido. A presença do Espírito é considerada como uma força dinâmica e atuante no processo de fazer Jesus presente, tornando realidade o acontecimento sempre novo da presença de Jesus na história.


Os cristãos, que acreditam na presença do Espírito Santo, não podem perder a serenidade, a paz do coração, a alegria e a esperança mesmo que estejam rodeados pelos problemas ou dificuldades. Na Igreja não há lugar para gente triste, medrosa e desanimada, pois o Espírito Santo é o próprio Consolador do cristão. Aquele que observa os mandamentos de Deus não há como ficar triste, pois ele acredita nas palavras pronunciadas por Jesus (vv.16-17) e essas palavras são as palavras da vida eterna (cf. Jo 6,68). Necessitamos ouvir em todos os momentos essas palavras da certeza e da esperança para todos nós, pois, muitas vezes, temos facilidade de cair no desespero. Quem acredita na força do Paráclito, do Espírito de defensor, não teme sair derrotado nem nas situações mais difíceis e intrincadas da vida, pois ele sabe que Deus está sempre ao seu lado para defendê-lo e protegê-lo. O Paráclito é o nosso Consolador enquanto caminhamos neste mundo no meio de dificuldades e sob a tentação da tristeza. Podemos, por isso, olhar para os Céus e sentir-nos cheios de alegria: Deus nos ama e quer nos libertar: “Ora, quem me ama será amado por meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele”.


O Paráclito introduz os cristãos na verdade (Espírito da verdade). Para o Evangelho de João, a verdade indica o próprio Deus que se manifesta em Jesus Cristo. Por isso, introduzir na verdade quer dizer agir no coração de cada cristão, de cada ser humano e induzi-lo a aderir livremente à revelação de Deus. Exige, por isso, de cada cristão um abandono total nas mãos de Deus para que o Espírito Santo possa agir e operar nele. E o Espírito de Deus que nos faz conhecer tudo o que é de Deus e o que é do mundo. Penetrando no coração de Deus, através de ajuda do Seu Santo Espírito, descobrimos seu amor e seu projeto por nós todos. Tudo que Deus fala e faz é só com o mesmo objetivo: para nos salvar.


O segundo significado de “introduzir na plena verdade” diz respeito às novidades introduzidas pelo Espírito Santo. Há muitas coisas que Jesus não revelou explicitamente, porque os discípulos não estavam em condições de entendê-las (Jo 16,12-15: “Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não as podeis suportar agora. Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ensinar-vos-á toda a verdade, porque não falará por si mesmo, mas dirá o que ouvir, e anunciar-vos-á as coisas que virão...”). O Espírito da Verdade ou o Paráclito tem a missão de introduzir o cristão, na descoberta de toda a verdade, ajudará até o fundo, até as últimas consequências, a mensagem de Jesus Cristo.


A presença do Espírito exprime a presença de Deus e Jesus: “Não vos deixarei órfãos, mas voltarei a vós”. Os discípulos sabem que Jesus está prestes a deixá-los, por isso ficam entristecidos e se perguntam como lhes será possível permanecer unidos a ele e continuar amando-o, se ele for embora. Jesus também compreende perfeitamente a situação deles e por isso, ele promete não deixá-los sós, sem proteção e sem guia: “Não vos deixarei órfãos. Eu voltarei a vós”.  Pela presença do Espírito Jesus sempre de novo “vem’ à sua comunidade. O abandono só dura pouco tempo.  Trata-se aqui, na verdade, de uma experiência pascal. Se o mundo vê na morte como um fim de tudo, para Jesus é apenas uma passagem. Ele ressuscitou. Com a ressurreição de Jesus, Deus manifestou-se, definitivamente, como VIDA. Para a fé, páscoa significa não que Jesus esteja vivo em algum lugar, mas que ele se manifesta sempre novo, pela palavra e pelo Espírito, como a força que leva aos homens. O próprio Ressuscitado está em espírito junto dos seus e não os deixará sós jamais. O Espírito é a presença atual e futura de Jesus, aquele futuro que não conhece fim. Neste futuro aberto vive a fé. Com a presença de Jesus no Espírito e na realidade realmente já se iniciou a comunhão de Deus com os homens. Pelo amor a Jesus, já começa a operar em nós a sua força pascal. Já está presente em nós o que será eternamente futuro (1Tm 4,8; cf. 2Cor 1,9; Rm 6,3ss).


Daqui nasce a obrigação de cada cristão, permanecer sempre disposto a seguir os impulsos do Espírito Santo que nos conduz à descoberta de coisas sempre novas. Pois o Espírito da Verdade é, por sua natureza, aquele que renova a face da terra.


Por isso, quem não se aprofunda na Palavra de Deus, quem não se abre a novas ideias e permanece agarrado, teimosamente, a tradições já ultrapassadas e gastas pode, sem dúvida nenhuma, agir contra o Espírito da Verdade.


Mas ele esclarece antes de tudo que o Espírito Santo está reservado aos que O amam, aos que observam os seus mandamentos, aos que praticam o amor ao irmão, como ele afirma: “Quem tem meus mandamentos e os observa é que me ama; e quem me ama será amado por meu Pai, e também eu o amarei e me manifestarei a ele” (v.21). Quem tem a iniciativa do amor é Deus (Jo 3,16). A comunidade cristã e o “mundo” distinguem-se entre si pela presença ou pela ausência do amor.


Portanto, podemos nos perguntar: Por acaso, podemos nos considerar abertos ao Espírito da Verdade, nós, que muitas vezes, temos medo de tudo o que é novo? Peçamos sempre a ajuda do Espírito da Verdade para que possamos penetrar nos segredos de Deus, nos mistérios de Deus para entender o mistério da vida e do homem. Temos observado os mandamentos do Senhor que são resumidos no amor fraterno?


Quem Se Deixa Guiar Pelo Paraclito Dá Razão de Esperança Para Todos


Santificai em vossos corações o Senhor Jesus Cristo, e estai sempre prontos a dar razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la pedir”, assim exorta São Pedro na Segunda Leitura deste domingo.


“Dar razão da vossa esperança!”. Pedro, testemunha excepcional do Evangelho, nos exorta a darmos razão de nossa esperança a todos quantos nos perguntarem. Dar razão de nossa esperança não é dar razoes para atrairmos os outros para nossa causa, e sim viver com esperança, esperando apesar de tudo, sem nos deixar dominados pela ganância e corrupção para que nossa vida seja a melhor denúncia diante do egoísmo e da indiferença do mundo; para que nossa solidariedade e partilha questionem o egoísmo e o individualismo que degrada a vida e desestabiliza a sociedade.


Dar razão de nossa esperança não significa apenas crer no céu. Não podemos inventar o céu se a credibilidade de nossa vida ética e moral é questionada. Não basta amontoar palavras acerca do céu; é imprescindível que a esperança do céu tenha credibilidade a partir da vida e do amor fraterno vividos pelos cristãos. Incrível é outro mundo, o céu, quando brindamos como “revanche” aos pobres para que se conformem com sua pobreza e não nos pedem contas de nossas riquezas. Incrível é o céu, quando somente serve de pretexto para fugirmos das vítimas de injustiças para viver em paz com nós mesmos. Jesus encara a cruz para salvar a humanidade.


Além disso, quem quer dar razão da esperança, deve aprender a viver na mansidão, pois a agressividade não pode ser nunca sinal da esperança e sim de medo.

P. Vitus Gustama,svd

quinta-feira, 18 de maio de 2017

20/05/2017
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PERMANECER ABERTOS AO ESPIRITO SANTO TORNO-NOS VERDADEIROS MÁRTIRES DE CRISTO


Sábado da V Semana da Páscoa


Primeira Leitura: At 16,1-10


Naqueles dias, 1 Paulo foi para Derbe e Listra. Havia em Listra um discípulo chamado Timóteo, filho de uma judia, crente, e de pai grego. 2 Os irmãos de Listra e Icônio davam bom testemunho de Timóteo. 3 Paulo quis então que Timóteo partisse com ele. Tomou-o consigo e circuncidou-o, por causa dos judeus que se encontravam nessas regiões, pois todos sabiam que o pai de Timóteo era grego.  4 Percorrendo as cidades, Paulo e Timóteo transmitiam as decisões que os apóstolos e anciãos de Jerusalém haviam tomado. E recomendavam que fossem observadas. 5 As Igrejas fortaleciam-se na fé e, de dia para dia, cresciam em número. 6 Paulo e Timóteo atravessaram a Frígia e a região da Galácia, pois o Espírito Santo os proibira de pregar a Palavra de Deus na Ásia. 7 Chegando perto da Mísia, eles tentaram entrar na Bitínia, mas o Espírito de Jesus os impediu. 8 Então atravessaram a Mísia e desceram para Trôade. 9 Durante a noite, Paulo teve uma visão: na sua frente, estava de pé um macedônio que lhe suplicava: “Vem à Macedônia e ajuda-nos!” 10 Depois dessa visão, procuramos partir imediatamente para a Macedônia, pois estávamos convencidos de que Deus acabava de nos chamar para pregar-lhes o Evangelho.


Evangelho: Jo 15,18-21


Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 18“Se o mundo vos odeia, sabei que primeiro me odiou a mim. 19Se fôsseis do mundo, o mundo gostaria daquilo que lhe pertence. Mas, porque não sois do mundo, porque eu vos escolhi e apartei do mundo, o mundo por isso vos odeia. 20Lembrai-vos daquilo que eu vos disse: ‘O servo não é maior que seu senhor’. Se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós. Se guardaram a minha palavra, também guardarão a vossa. 21Tudo isto eles farão contra vós por causa do meu nome, porque não conhecem aquele que me enviou”.
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É Preciso Permanecermos Abertos À Ação Do Espirito Santo e Atentos Para Seus Sinais


Percorrendo as cidades, Paulo e Timóteo transmitiam as decisões que os apóstolos e anciãos de Jerusalém haviam tomado. E recomendavam que fossem observadas. As Igrejas fortaleciam-se na fé e, de dia para dia, cresciam em número”.


O texto da Primeira Leitura fala da Segunda Viagem Missionária de Paulo nos anos 49-52 d.C. Mas agora não é acomponhado por Barmabé (separou-se de Paulo por uma discussão) e sim por Timóteo e Silas. E também Lucas, o autor do livro dos Atos dos Apóstolos porque neste relato aparece o “nós”: “Depois dessa visão, procuramos partir imediatamente para a Macedônia, pois estávamos convencidos de que Deus acabava de nos chamar para pregar-lhes o Evangelho”.


O que se enfatiza neste relato é a incansável esforço de Paulo e companheiros na evangelização. Além disso, eles têm uma crescente consciência de que é o Espirito Santo (Espirito de Jesus) quem os guia permanentemente e na sua ação missionária, eles permanecem abertos para a ação do Espirito Santo através deles: “Paulo e Timóteo atravessaram a Frígia e a região da Galácia, pois o Espírito Santo os proibira de pregar a Palavra de Deus na Ásia. Chegando perto da Mísia, eles tentaram entrar na Bitínia, mas o Espírito de Jesus os impediu”. Não sabemos os meios pelos quais eles reconhecem a indicação do Espirito Santo. Mas em todo o livro dos Atos dos Apostolos o protagonismo do Espirito Santo e a obediência dos discípulos à sua voz são constantes. Com esta colaboração entre o Espirito Santo invisível e a comunidade visível, em modo particular seus responsáveis a fé em Jesus Cristo continua se espalhando pelo mundo. Por isso, o Salmo Responsorial pode aclamar: “Aclamai o Senhor, ó terra inteira, servi ao Senhor com alegria, ide a ele cantando jubilosos!” (Sl 99).


No texto fala-se também da separação de Barnabé de Paulo na viagem missionária por uma discussão (cf. At 15,36-40). Tudo isto nos mostra que o trabalho na equipe não é fácil. Mas apesar do episódio de Barnabé vemos claramente que Paulo tem consciência de que é a comunidade que o envia para a missão depois de sua conversão.


Nós jamais estamos isentos de distintas visões em tantos aspectos da vida da Igreja/comunidade. Mas jamais podemos perder nossa consciência de que somos comunidade/Igreja e que as coisas não se decidem nem se fazem com critérios meramente pessoais. No nosso discernimento, devemos estar atentos à vida, por um lado e por outro lado, devemos permanecer abertos à ação do Espirito Santo, personagem principal da Igreja. É preciso ficarmos atentos aos sinais dos tempos pelos quais o Espirito de Santo fala para nós. O livro dos Atos dos Apóstolos está muito ligado, de alguma maneira, à voz do Espirito Santo. É o Espirito de Jesus (cf. Mt 28,20), misterioso, mas eficaz agente de toda vida eclesial, Aquele que inspira a comunidade sobre quais são lugares e os caminhos da evangelização em cada momento. O discernimento é comunitário, é para a edificação da comunidade. Tudo que não edifica a comunidade é uma autopromoção. Ninguém pode ser considerado como o único intérprete da vontade de Deus. A voz do Espirito se reconhece na comunidade sobretudo através do ensinamento (magistério) e decisão dos sucessores de Pedro e os Apostolos, o Papa e o episcopado mundial com uma participação notória da mesma comunidade como se vê ao longo do livro dos Atos dos Apóstolos. “Vinde, Espirito Santo, enchei os corações dos vossos fieis e acendei neles o fogo do vosso amor. Enviai o vosso Espirito e tudo será criado e renovarei a face da Terra”.


Na Vivência Dos Ensinamentos De Jesus Cristo Seremos Perseguidos


Se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós. Se guardaram a minha palavra, também guardarão a vossa. Tudo isto eles farão contra vós por causa do meu nome, porque não conhecem aquele que me enviou”.


Continuamos ainda a acompanhar o discurso de despedida de Jesus dos seus discípulos (Jo 13-17).


O evangelho de hoje descreve a situação precária da comunidade cristã no mundo, principalmente nos finais do século I e nos começos do século II. É uma situação que se caracteriza pela recusa e até pela perseguição abertas. A resistência à revelação não cessou na cruz de Jesus. A mesma resistência agora é dirigida contra a comunidade cristã que mantém os ensinamentos de Jesus Cristo. “Se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós”, alerta Jesus aos seus. Na época em que João escreveu seu evangelho muitos morreram como mártires.


No evangelho deste dia, Jesus contrapõe o amor do Pai com o ódio do mundo manifestado pela perseguição. “Se o mundo vos odeia, sabei que primeiro me odiou a mim”. Ódio é paixão ou sentimento que leva a fazer ou a desejar mal para o próximo. É uma paixão provocada pela vista do mal e que se traduz por um sentimento de aversão. Mas o ódio é igual a tomar o veneno e espera que o outro morra. O mundo é caracterizado pelo ódio. A comunidade cristã é caracterizada pelo amor fraterno: “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13,35).


Se o mundo vos odeia, sabei que primeiro me odiou a mim”. Os cristãos estão bem advertidos. Não têm porque se estranham de ser recusados ou odiados por causa da vivencia dos ensinamentos de Cristo. Nada de estranho! A Igreja é o Corpo de Cristo. Por isso, tem que sofrer inevitavelmente os ataques do homem mundano que se crê deus de si mesmo e que não pode renunciar a ser ele o autor de sua própria salvação. Este tipo de homem sempre buscará acusações contra a Igreja, pelos mesmos motivos que as buscou contra Jesus. Para o mundo a fé em Deus é irracional e atrasada; o perdão aos inimigos é uma debilidade; a oração e o amor a Deus são atitudes ineficazes e dos fracos. Por isso e por tantos outros motivos a Igreja de Cristo é perseguida. Mas a perseguição é um meio de união com Cristo; é correr a mesma sorte que Jesus. Enquanto a Igreja viver fielmente de acordo com os ensinamentos de Jesus, ela será perseguida (cf. 2Tm 3,12).


Para São João, habitualmente, especialmente no contexto do evangelho deste dia, o mundo significa “o mundo pecador”, “o mundo que recusa Deus”. O processo de Jesus não terminou enquanto a Igreja estiver no mundo. Por isso, o mundo neste sentido é sinônimo de todo um sistema ideológico, político e social que aliena o ser humano e o converte num escravo; designa a todo sistema injusto. Mas o seguimento de Jesus, a amizade com ele leva os cristãos a romperem com a mentalidade alienada que o mundo impõe.


Mas a ruptura com o mundo não é fácil. Pelo contrário, resulta num conflito em extrema deprimente e perigoso, porque o mundo, como mentalidade alienadora, não permite a mínima dissensão ou oposição. Por isso, enquanto a Igreja existir sobre a face da terra, vão continuar a existir também mártires. Mas o sangue do mártir é a semente para a Igreja. Não dá para a verdadeira Igreja de Cristo parar de sofrer. A Igreja de Jesus continua com sua função profética de anunciar e de denunciar que resulta na perseguição e no martírio. Viver de acordo com os ensinamentos de Cristo significa ser sinal de contradição (cf. Lc 2,34-35).


Os cristãos devem lutar incansavelmente por superar, em sua própria pessoa e na comunidade, a mentalidade que o mundo lhes impõe. A vida de um cristão é uma luta permanente contra o mal. Qualquer cristão verdadeiro sofrerá por manter sua opção pelos valores do Reino tais como amor, justiça, honestidade, verdade, igualdade, fraternidade e assim por diante.


O que o cristão deve continuar a fazer é testemunhar o amor fraterno. O amor fraterno é o selo de autenticidade de cada cristão (cf. Jo 13,35). Somente o amor vivido na fraternidade salva, pois “Deus é Amor” (1Jo 4, 8.16).


O perigo que temos é a assimilação insensível da hierarquia de valores do mundo em vez da hierarquia de valores que Jesus Cristo ensinou. Por isso, há perseguição contra a Igreja que é fruto da incoerência da própria Igreja com seus próprios ensinamentos éticos e morais recebidos de Jesus Cristo. Se a Igreja estiver de mãos dadas com o mundo é porque a Igreja deixa de viver de acordo com sua função profética de anunciar e de denunciar. Neste sentido, a Igreja é perseguida porque não está vivendo os valores cristãos que ela própria prega. Este tipo de perseguição serve para que a Igreja volte a ser como antes: uma comunidade cristã que vive os valores éticos e morais antes de pregá-los.


Mas há outro tipo de perseguição que se deriva do choque do evangelho com muitos dos critérios que hoje são vigentes. Esta segunda perseguição é um claro sinal da autenticidade da Igreja. Se os cristãos forem perseguidos por estar vivendo os valores éticos e morais e os demais valores evangélicos, estarão recebendo, na verdade, um grande aplauso apesar do sofrimento. Que bom que alguém me critica por praticar o bem. Que bom que alguém me denuncia por eu ser solidário com os pobres e os excluídos da sociedade. Que bom que alguém me persegue por eu lutar pela justiça e honestidade e assim por diante. Se alguém me criticar por cometer algo do nível ético, eu tenho que ficar de joelho diante de Deus para pedir perdão e voltar a viver os valores éticos e os demais valores evangélicos.


Ser cristão é ser mártir; é ser testemunha. A palavra “mártir” em grego pode significar: afirmar o que se viu para que os demais se convençam disso; é testemunhar para que o juiz faça justiça. No cristianismo, o testemunho significa também firmar com sangue o que se afirma. No Antigo Testamento sem testemunhas declarantes, não pode ter sentença penal (Nm 5,13). Na Bíblia, é preciso ter, pelo menos, dois ou três testemunhas coincidentes (Dt 19,15-16; Nm 35,30; Mt 26,59-61; Mc 14,56-57). As falsas testemunhas eram duramente castigadas (Dt 19,16-20; 1Rs 21,10-13; Dn 13,34-41). Os sábios de Israel anatematizam o testemunho falso (PR 19,9). Havia obrigação grave de testemunhar (Lv 5,1.5.6).


Ao participar da Eucaristia sabemos que aceitamos as exigências do Evangelho, de tal forma que, daqui em diante, temos que viver totalmente comprometidos com Jesus Cristo. É sermos testemunhas de Cristo onde estivermos e para onde formos. Comungar o Corpo do Senhor significa viver como Ele viveu. Comungar o Corpo do Senhor significa assumir o estilo de vida que ele viveu. Sem isto, a Eucaristia e a comunhão carecerão de sentido. Quando o cristão deixar de ser testemunhas dos valores cristãos, o mundo vai avançando na sua maldade. E os pequenos, os inocentes serão sempre suas vítimas preferidas. O cristão é chamado a ser voz desses pequeninos: dos sem voz e sem vez.

P. Vitus Gustama,svd

19/05/2017
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AMAR COMO ESTILO DE VIDA CRISTÃ


Sexta-Feira da V Semana da Páscoa


Primeira Leitura: At 15,22-31


Naqueles dias, 22 pareceu bem aos apóstolos e aos anciãos, de acordo com toda a comunidade de Jerusalém, escolher alguns da comunidade para mandá-los a Antioquia, com Paulo e Barnabé. Escolheram Judas, chamado Bársabas, e Silas, que eram muito respeitados pelos irmãos. 23 Através deles enviaram a seguinte carta: “Nós, os apóstolos e os anciãos, vossos irmãos, saudamos os irmãos vindos do paganismo e que estão em Antioquia e nas regiões da Síria e da Cilícia. 24 Ficamos sabendo que alguns dos nossos causaram perturbações com palavras que transtornaram vosso espírito. Eles não foram enviados por nós. 25 Então decidimos, de comum acordo, escolher alguns representantes e mandá-los até vós, junto com nossos queridos irmãos Barnabé e Paulo, 26 homens que arriscaram suas vidas pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo. 27 Por isso, estamos enviando Judas e Silas, que pessoalmente vos transmitirão a mesma mensagem. 28 Porque decidimos, o Espírito Santo e nós, não vos impor nenhum fardo, além destas coisas indispensáveis: 29 abster-se de carnes sacrificadas aos ídolos, do sangue, das carnes de animais sufocados e das uniões ilegítimas. Vós fareis bem se evitardes essas coisas. Saudações!”


Evangelho: Jo 15,12-17


Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 12“Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei. 13Ninguém tem amor maior do que aquele que dá sua vida pelos amigos.14Vós sois meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando. 15Já não vos chamo servos, pois o servo não sabe o que faz o seu Senhor. Eu chamo-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai. 16Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi e vos designei para irdes e para que produzais fruto e o vosso fruto permaneça. O que, então, pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo concederá. 17Isto é o que vos ordeno: amai-vos uns aos outros”.
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Onde Há Espaço Para o Espirito Santo e a Colaboração Humana Há Solução Para os Conflitos


Em At 6 houve o problema da discriminação dos Helenistas (viúvas helenistas discriminadas), agora em At 15, o problema da da discriminação dos pagãos convertidos. Nestes dois casos o que está em jogo, além do sofrimento de pessoas concretas, é o problema institucional e teológico da missão fora de Jerusalém (além do Lei e do Templo) para os samaritanos e povos pagãos. O problema é superado com uma assembleia de toda a comunidade.


Especialmente no Concílio de Jerusalém em At 15 houve discussão e posições contrapostas. Mas depois do esforço de discernimento, no fim teve um consenso: “Decidimos, o Espírito Santo e nós, não vos impor nenhum fardo, além destas coisas indispensáveis: abster-se de carnes sacrificadas aos ídolos, do sangue, das carnes de animais sufocados e das uniões ilegítimas. Vós fareis bem se evitardes essas coisas”. Este foi o conteúdo da carta enviada de Jerusalém pelos Apóstolos e presbíteros para os pagãos convertidos de Antioquia, Síria e Cicília. Portanto, fica afirmada a conficção teológica de que a salvação vem de Jesus e não pela Lei de Moisés os pagãos que se converteram para a fé cristã e triunfam a tolerância e a interpretação prulalista de Paulo e Barnabé. O Salmo resposorial recolhe esta sensação: “Vou louvar-vos, Senhor, entre os povos, dar-vos graças por entre as nações! Vosso amor é mais alto que os céus, mais que as nuvens a vossa verdade!” (Sl 56).


Como a Igreja em geral e cada comunidade, em particular (familiar, paroquial, diocesana, religiosa etc.) enfrenta seus conflitos internos? A partir do texto da Primeira Leitura tiramos lição de que quando nossas comunidades se reúnem e se esforçam por discernir qual é realmente a vontade de Deus, que supõe a existência de espaço para o Espirito Santo agir, as decisões que tomamos sempre tem objetivo de salvar todos os homens como o próprio Deus quer (cf. 1Tm 2,4) a exemplo da decisão do Concílio de Jerusalém. Como aconteceu na história, hoje em dia sempre temos a tentação de impor a os outros coisas que não são necessárias, cargas que não são imprescindíveis. Muitas vezes somos intolerantes nem respeitamos as diferenças de caráter, de cultura, de opinião. Não nos esqueçamos que cada ponto de vista é apenas vista de um ponto sobre a mesma realidade. A presença do outro nos ajuda a olharmos ricamente para a mesma realidade: o outro nos enriquece e nós enriquecemos o outros a partir de nossa visão sobre a mesma realidade. Em toda discussão deveria triunfar a caridade, tolerando muitos detalhes periféricos e cebtrando-nos no importante ou no essencial para a salvação de todos.


A vida é muito dimensional demais para sermos mesquinhos no nosso ponto de vista. Somente Deus, na Sua sabedoria infinita é capaz de perceber até os mínimos detalhes sobre qualquer realidade e criação, pois Ele é o Criador do universo. Emquanto nós, seres humanos na ordem da criação somos limitados na nossa visão. A vida não é matemática cujo resultado tem seu ponto final. “Nossas vidas começam a terminar no dia em que permanecemos em silêncio sobre as coisas que importam” (Martin Luther King). E “Nossas vidas são definidas por momentos. Principalmente aqueles que nos pegam de surpresa” (Bob Marley). Mas nunca estamos prontos para ver o que nunca víamos, e nunca estamos preparados para aceitar a verdade que choca nossos hábitos. Mas tendo Deus e sua vontade como o foco ou centro no qual gira nossa existência, e tendo a suficiente humildade, tudo que acontece como surpresa serve para enriquecer nossa existência neste mundo.


Fica para nós a seguinte pergunta: quando tomamos uma decisão comunitária, poderíamos dizer com sinceridade que “Decidimos, o Espírito Santo e nós”? Ou nos deixamos levar por nossos interesses mesquinhos e egoístas? Nossas decisões alegram os alentadores, como os de Jerusalém, e os interessados, como os de Antioquia, Síria e Cicília? Para Lucas, o autor dos Atos, a alegria é um sinal clara de que atuamos conforme o Espirito Santo.


Amor Como Um Mandamento Novo De Jesus Para Os Seus Seguidores


Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei”.


Continuamos ainda a acompanhar o discurso da despedida de Jesus dos seus discípulos no evangelho de João (Jo 13-17). No evangelho de hoje Jesus fala do amor como o maior mandamento para seus seguidores e Jesus se apresenta como amigo dos discípulos e de todos os seus seguidores. Creio que este mandamento é tão importante a ponto de ser apresentado duas vezes no evangelho de João: Jo 13,34-35 e Jo 15,12-14. “Meu amor é meu peso”, dizia Santo Agostimho (Conf. 13,9). “Quanto mais cresce teu amor, maior é tua perfeição. A perfeição da alma é o amor”, acrescentou Santo Agostinho (In epist. Joan. 9,2).


Amar Como o Estilo De Vida Cristã


“Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei”. Este é o mandamento do Senhor! Não se trata de uma lei (nomos), e sim de um estilo de vida (entolé). Aqui a palavra “mandamento” tem a ver com o estilo de vida. Para o evangelista João “amar” é um estilo de vida. Trata-se de uma coisa que faz parte da vida cotidiana de cada seguidor de Cristo.


Mas que tipo de amor que Jesus recomenda? Que tipo de amor que ele fala como o estilo de vida? Em que sentido o amor como o estilo de vida?


Jesus se põe a si mesmo como modelo: Amai-vos uns aos outros como eu vos amei (Jo 15,12). De que maneira Jesus nos amou? O amor de Jesus é gratuito, generoso, universal, incondicional e sem limites: “Jesus amou os seus, e os amou até o fim” (Jo 13,1). Jesus amou ao longo dos dias e dos anos; amou até a morte e além da morte. Sem limites: até dar tudo, gastar tudo, despojar-se de tudo. O amor de Deus não se deixa condicionar (cf. Jo 3,16), e nem sequer impor limites pelos maus comportamentos do homem: “Deus faz nascer o seu sol igualmente sobre maus e bons e cair a chuva sobre justos e injustos”, diz Jesus no Sermão da Montanha (Mt 5,45).   Ele se entregou pelos demais ao longo de sua vida até o extremo: a morte na cruz: Ninguém tem amor maior do que aquele que dá sua vida pelos amigos (Jo 15,13). É o amor concreto. É amar não com palavras apenas, e sim com obras, com a compreensão, com a ajuda oportuna, com a palavra amável, com a tolerância, com a doação gratuita de si mesmo, com o perdão (cf. Lc 23,34). O amor autêntico exige sempre o sacrifício e o total esquecimento de si. É amar por amor. São Bernardo afirma: O amor basta por si só e por causa de si. Seu prêmio e seu mérito se identificam com ele mesmo. O amor não requer outro motivo fora de si mesmo. Amo porque amo; amo para amar”. Se assim é, podemos dizer que você vive não quando respira, mas quando ama. Do ponto de vista cristão a capacidade de viver o amor fraterno é o critério da maturidade cristã.


Para nós, cristãos, a atitude de amor aos demais deve ser uma conseqüência prática de nossa comunhão profunda com Cristo. O cristão é reconhecido, fundamentalmente, pelo amor que vive: “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros”, disse-nos Jesus (Jo 13,35).


Somos Amigos De Jesus


Eu vos chamo amigos”, diz o Senhor.
  • A amizade é uma predisposição recíproca que torna dois seres igualmente ciosos da felicidade um do outro (Platão).
  • Sem amigo, nada é agradável [Sine amico nihil amicum] (Santo Agostinho).
  •  A amizade é o conforto indescritível de nos sentirmos seguros com uma pessoa, sem ser preciso pesar o que se pensa, nem medir o que se diz (George Eliot).
  • A verdadeira amizade é aquela que nos permite falar ao amigo de todos os seus defeitos e de todas as nossas qualidades (Millôr Fernandes).
  • O amigo é o melhor terapeuta nas experiências de abandono e humilhação (Anselm Grün).
  • Refugiado em peito amigo, sumindo vai pesar antigo (Johann Wolfgang Goethe).
  • Não me alegro tanto pela andorinha que me traz a mensagem da primavera e que à renovação eterna canta hinos, mas alegro-me bem mais pela mensagem do amigo que me traz o que preciso para a vida (Friedrich Rückert, poeta).
  • Com um amigo ao lado, nenhum caminho é longo demais (ditado japonês).
     
    Para ser amigo do outro é preciso ser amigo de si mesmo, no sentido de que é preciso colocar em ordem o próprio coração e direcioná-lo para o bem. Um coração bom está sempre do lado do bem. Um coração bom nos leva a praticarmos a bondade. Dizia Cícero que a amizade é “doadora da alegria de viver tanto para os nossos amigos como para nós mesmos”. Por isso, ter ou não ter amigo depende de ser ou não ser amigo de si mesmo. Quem é muito humano para si próprio, será muito humano para o outro. É o ponto de partida para uma amizade.
     
    Quando alguém reclama que não tem amigo ou amiga, é preciso se perguntar: “Será que eu sou amigo de mim mesmo? Será que sei me tratar? Será que eu me respeito e me amo?”. Somente poderemos ser felizes quando aprendermos a fazer o outro feliz. Somente podemos ser próximos dos outros, se aprendermos a ser próximos dos outros.
     
    Eu vos chamo amigos”, diz o Senhor. Jesus chamou seus discípulos de amigos porque partilhou tudo com eles o que ouviu de seu Pai: experiências, conhecimentos, salvação, amor etc.. Jesus abriu aos discípulos Seu coração. Isto significa que o discípulo, o cristão não é um simples subalterno. O cristão é um amigo pessoal de Jesus Cristo. O amigo não é um simples conhecido ou um sócio, e sim alguém com quem se compartilha a intimidade, o mais profundo de nosso ser: “Eu vos chamo amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai” (Jo 15,15b). O amigo sempre está disposto a fazer o que o amigo lhe pedir: “Vós sois meus amigos se fizerdes o que eu vos mando” (Jo 15,14). O amigo demonstra a verdade de seu amor estando disposto a entregar a própria vida se for necessário: “Ninguém tem amor maior do que aquele que dá sua vida pelos amigos” (Jo 15,13). O verdadeiro amigo inclui a doação da vida pelo amigo. Para Jesus a noção de amizade é muito profunda. “Amigo é alguém que te conhece a fundo e, apesar disso, te ama” (Hublard). “A amizade é como todos os títulos honoríficos: quanto mais velha, mais preciosa”, dizia
    Goethe. “A amizade duplica as alegrias e divide as tristezas” (
    Francis Bacon).
     
    “Eu vos chamo amigos”, disse-nos Jesus. É uma mensagem consoladora. É uma mensagem que dá força e ânimo. De fato, eu não estou sozinho (a). Eu estou bem acompanhado (a). Eu estou acompanhado (a) pelo Salvador do mundo: Jesus Cristo. Se o cristão viver verdadeiramente esta fé, ele jamais se sentirá só independentemente da situação em que se encontra. O cristão não é solitário, e sim solidário. “O mundo é tão vazio quando pensamos apenas nas montanhas, rios e cidades; mas saber que cá e lá existe alguém que comunga conosco, com o qual também nós convivemos tacitamente, isto faz deste globo terrestre para nós um jardim habitado” (Johann Wolfgang von Goethe).
     
    Vós sois meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando, disse Jesus.  Será que você pode ser considerado como amigo de Jesus? Para ser amigo do outro é preciso ser amigo de si mesmo. Você é amigo de si mesmo?
     
    Lembremo-nos do recado do Pequeno Príncipe: “Você precisa me cativar. As pessoas já não têm tempo de aprender coisa alguma. Compram tudo nas casas comerciais. Mas, como não existem lojas de amizade, as pessoas não têm mais amigos. Se quiser um amigo, cative-me” (Saint-Exupéry: O Pequeno Príncipe).
     
    P. Vitus Gustama,svd

terça-feira, 16 de maio de 2017

18/05/2017

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AMOR CRISTÃO É UM AMOR CIRCULANTE:
DE DEUS PARA JESUS E DE JESUS PARA NÓS E DE NÓS PARA OS OUTROS


Quinta-Feira da V Semana da Páscoa


Primeira Leitura: At 15,7-21


Naqueles dias, 7 depois de longa discussão, Pedro levantou-se e falou aos apóstolos e anciãos: “Irmãos, vós sabeis que, desde os primeiros dias, Deus me escolheu, do vosso meio, para que os pagãos ouvissem de minha boca a palavra do Evangelho e acreditassem. 8 Ora, Deus, que conhece os corações, testemunhou a favor deles, dando-lhes o Espírito Santo como o deu a nós. 9 E não fez nenhuma distinção entre nós e eles, purificando o coração deles mediante a fé. 10 Então, por que vós agora pondes Deus à prova, querendo impor aos discípulos um jugo que nem nossos pais nem nós mesmos tivemos força para suportar? 11 Ao contrário, é pela graça do Senhor Jesus que acreditamos ser salvos, exatamente como eles”. 12 Houve então um grande silêncio em toda a assembleia. Depois disso, ouviram Barnabé e Paulo contar todos os sinais e prodígios que Deus havia realizado, por meio deles, entre os pagãos. 13 Quando Barnabé e Paulo terminaram de falar, Tiago tomou a palavra e disse: “Irmãos, ouvi-me: 14 Simão acaba de nos lembrar como, desde o começo, Deus se dignou tomar homens das nações pagãs para formar um povo dedicado ao seu Nome. 15 Isso concorda com as palavras dos profetas, pois está escrito: 16 “Depois disso, eu voltarei e reconstruirei a tenda de Davi que havia caído; reconstruirei as ruínas que ficaram e a reerguerei, 17 a fim de que o resto dos homens procure o Senhor com todas as nações que foram consagradas ao meu Nome. É o que diz o Senhor, que fez estas coisas, 18conhecidas há muito tempo’. 19 Por isso, sou do parecer que devemos parar de importunar os pagãos que se convertem a Deus. 20 Vamos somente prescrever que eles evitem o que está contaminado pelos ídolos, as uniões ilegítimas, comer carne de animal sufocado e o uso do sangue. 21 Com efeito, desde os tempos antigos, em cada cidade, Moisés tem os seus pregadores, que leem todos os sábados nas sinagogas”.


Evangelho: Jo 15,9-11


Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 9 “Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei. Permanecei no meu amor. 10Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como eu guardei os mandamentos do meu Pai e permaneço no seu amor. 11Eu vos disse isto, para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja plena”.
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Concilio de Jerusalém e a Abertura da Igreja a Ação do Espirito Santo


Por que vós agora pondes Deus à prova, querendo impor aos discípulos um jugo que nem nossos pais nem nós mesmos tivemos força para suportar? Ao contrário, é pela graça do Senhor Jesus que acreditamos ser salvos, exatamente como eles”.


A Primeira Leitura de hoje é a continuação do texto da Primeira Leitura do dia anterior. No texto de hoje, o autor dos Atos dos Apóstolos nos apresenta o chamado Concílio de Jerusalém e dá um certo destaque sobre a importância deste Concilio. O episódio, situado intencionalmente no centro do livro dos Atos, é como o eixo de sua dinâmica narrativa: há um antes e um depois, está Jerusalém com sua comarca e a diáspora com a missão entre os pagãos, Pedro e Paulo.


O motivo da convocatória está em At 15,5: “Alguns dos que tinham pertencido ao partido dos fariseus e que haviam abraçado a fé levantaram-se e disseram que era preciso circuncidar os pagãos e obrigá-los a observar a Lei de Moisés”.


A decisão favorável do Concílio tem três fases culminantes. Primeira fase, o discurso de Pedro (At 15,6-12). Neste discurso Pedro invoca três fatos: a conversão de Cornélio, o jugo insuportável da Lei e a salvação de todos pela graça de Jesus. A segunda fase: o discurso de Tiago (At 15,13-21) líder respeitado da comunidade judaica de Jerusalém. No discurso, Tiago invoca um texto universalista da Escritura, mas pede que se observem as chamadas “cláusulas de São Tiago”: “Sou do parecer que devemos parar de importunar os pagãos que se convertem a Deus. Vamos somente prescrever que eles evitem o que está contaminado pelos ídolos, as uniões ilegítimas, comer carne de animal sufocado e o uso do sangue”. Aqui se enfatiza alguns aspectos que creram razoáveis ser exigidos a todos: evitar a idolatria e a fornicação, e também manter a norma de não comer sangue nem animais estrangulados pelo caráter sagrado que se atribui ao sangue.  A terceira fase: o decreto do Concílio (At 15,22-29) e a promulgação do decreto apostólico em Antioquia (At 15,30-35).


Qual lição que podemos tirar do Concílio de Jerusalém? A assembleia/Concílio em Jerusalém deu-nos a imagem de uma comunidade capaz de escutar, de valorizar prós e contras, de saber reconhecer os passos de abertura que o Espirito Santo lhes está inspirando ainda que sejam incomodados pela formação cultural e religiosa recebida. Quando todos se deixarem inspirar e conduzir pelo Espirito Santo tudo tem saída e solução. Se nos deixarmos guiar pelo Espirito Santo à luz da fé e da experiência dos demais e o que Deus quer em cada momento, formaremos uma comunidade mais cristã e plena do Espirito Santo. A democracia é antes uma atitude pessoal do que um sistema político. Uma atitude mais tolerante baseada no diálogo em busca de pontos de convergência não somente nos ajuda a sermos melhores cidadãos, mas também a sermos melhores cristãos. Em tudo o ponto de referência não deve ser nossas convicções e sim a vontade de Cristo e de seu Espirito que acompanha a Igreja em todos os tempos e lugares. A abertura ao Espirito Santo é que salva os que tentam encontrar o caminho para chegar até Deus. E nós cristãos precisamos ser facilitadores para nossos irmãos para que possam encontrar o caminho seguro para o céu. Para isso é preciso ter muito amor no coração, pois o amor é sempre uma boa solução. “O amor é a vida do Espirito” (Santo Agostinho: In ps. 54,7). “Todo homem busca amor. Busca só o que ama” (Santo Agostinho: In Joan. 7,1)


Amar É Questão De Qualidade de Vida, Pois Deus é Amor


O texto do evangelho se encontra no discurso da despedida de Jesus dos seus discípulos no evangelho de João (Jo 13-17). Jesus sabe de sua morte iminente e por isso, deu as últimas recomendações para os seus discípulos.


Hoje Jesus nos disse: “Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei”. Isto quer dizer que o amor cristão nasce e começa em Deus. Originalmente é coisa de Deus e não nossa. A iniciativa é de Deus: “Amamos porque Deus nos amou primeiro” (1Jo 4,19). Deus é amor (1Jo 4,8.16), origem e motor do amor. O Filho, Jesus, se origina do Pai num processo de amor que é o Espírito. Este amor em Deus é comunidade, Trindade. E este amor vai se manifestando na criação, na encarnação, na filiação, na amizade, na alegria definitiva do encontro derradeiro. Deus é sempre a origem e o término. “Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei”. Que profundidade encontrada nesta afirmação. Eu sou amado de Deus e por Deus. Jesus me ama como o Pai ama Jesus. Eu sou privilegiado/privilegiada. Eu preciso viver esta verdade na minha vida cotidiana, em todas as circunstâncias. Deus me ama e eu creio no Seu amor. Com o amor divino por mim eu posso encarar tudo na minha vida como o amado/amada de Deus. Quanta serenidade terei eu se eu viver profundamente esta verdade! Não há nada que possa me separar do amor de Deus (cf. Rm 8,35-39).


E o sinal mais evidente, a encarnação desse amor divino é Jesus: “Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha vida eterna” (Jo 3,16). Jesus é a medida do amor de Deus e o exemplo a seguir. Todas as palavras de Jesus, todas as obras de Jesus são manifestação do seu amor por nós todos. Jesus é o amor de Deus feito rosto humano.


E este amor que nasce no Pai e passa por Jesus termina necessariamente nos irmãos. O amor cristão tem dois polos: Deus e os irmãos (o homem). Quem não ama o irmão, não conhece Deus, não conhece Jesus, não entendeu o que é a fé cristã. Sem amor a Deus e ao irmão, não há fé cristã.


Amor cristão é, então, um amor circulante: o amor que vem do Pai para o Filho, Jesus e de Jesus para nós e de nós para os irmãos.


Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei”. É maravilhoso o que Jesus nos diz hoje. Há alguém que me ama com o amor divino: Jesus Cristo. O amor com que Jesus me ama é o mesmo amor com que Ele é amado pelo Pai. Diante de Deus sou amado e sou amado eternamente, porque Aquele que me ama é eterno: “Eu te amei com amor eterno, por isso, conservei para ti o amor”, diz Deus através do profeta Jeremias (Jr 31,3). Posso estar rodeado pelas dificuldades ou problemas, mas eu sei que há alguém que me ama. A certeza desse amor eterno por mim me dá força para lutar e para melhorar minha vida. A certeza desse amor eterno me dá serenidade em tudo. De fato, eu não estou sozinho na minha luta de cada dia, pois há alguém que me ama: “Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei”. Na minha oração só posso dizer a Jesus: “Obrigado, Senhor Jesus, porque me ama eternamente”.


Mas a relação com Deus não é algo automático. Por isso, Jesus acrescenta: “Permanecei no meu amor”.  A palavra “permanecer” é uma forma de acreditar em Jesus, de deixar-se penetrar pelo amor de Jesus, de deixar-se envolver pela ternura. É uma entrega total em Jesus para que Ele possa operar totalmente em nós a fim de que possamos ser reflexos do mesmo amor para o mundo ao nosso redor.


Se guardardes os meus mandamentos, vós permanecereis no meu amor, assim como eu guardei os mandamentos do meu Pai e permaneço no seu amor”. Este “Se” é inquietante para nós, porque é a responsabilidade de nossa liberdade. Eu sei que Deus me ama, mas será que eu permaneço no amor de Deus? Eu sei que sou filho (a) de Deus, mas será que eu vivo como tal? Eu sei que faço parte da família de Deus, mas será que estou dela? São Paulo nos esclarece sobre este tema ao nos dizer: “Não devais nada a ninguém, a não ser o amor mutuo, pois quem ama o outro cumpriu a Lei... A caridade não pratica o mal contra o próximo. Portanto, a caridade é a plenitude da Lei” (Rm 13,8.10). Tudo isto significa que o amor divino com que eu sou amado deve também transparecer e circular na minha relação com os outros. Nisto mostrarei que eu permaneço no amor divino.


O amor fraterno quando for vivido na sua profundidade leva a pessoa à alegria: “Eu vos disse isso para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja plena” (Jo 15,11). A verdadeira alegria brota do amor e da fidelidade com que se guardam na vida concreta as leis do amor. Sentiremos essa alegria na medida em que permanecermos no amor a Jesus, guardando os mandamentos de amor, seguindo o estilo de sua vida.


 Se vivermos tristes, será que isso acontece por causa da falta de nossa permanência no amor divino? Será que abandonamos o amor na nossa vida, por isso é que ficamos tristes o tempo todo? Será que nosso amor está nem morno nem quente, como diz o livro de Apocalipse (Ap 3,16)?


P. Vitus Gustama,svd