quarta-feira, 31 de maio de 2017

03/06/2017
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“TU, SEGUE-ME!”
É TEMPO PARA AMAR E SERVIR

Sábado da VII Semana da Páscoa 

Primeira Leitura: At 28,16-20.30-31
16 Quando entramos em Roma, Paulo recebeu permissão para morar em casa particular, com um soldado que o vigiava. 17 Três dias depois, Paulo convocou os líderes dos judeus. Quando estavam reunidos, falou-lhes: “Irmãos, eu não fiz nada contra o nosso povo, nem contra as tradições de nossos antepassados. No entanto, vim de Jerusalém como prisioneiro e, assim, fui entregue às mãos dos romanos. 18 Interrogado por eles no tribunal e não havendo nada em mim que merecesse a morte, eles queriam me soltar. 19 Mas os judeus se opuseram e eu fui obrigado a apelar para César, sem nenhuma intenção de acusar minha nação. 20 É por isso que eu pedi para ver-vos e falar-vos, pois estou carregando estas algemas exatamente por causa da esperança de Israel”. 30 Paulo morou dois anos numa casa alugada. Ele recebia todos os que o procuravam, 31 pregando o Reino de Deus. Com toda a coragem e sem obstáculos, ele ensinava as coisas que se referiam ao Senhor Jesus Cristo.

Evangelho: Jo 21, 20-25
Naquele tempo, 20 Pedro virou-se e viu atrás de si aquele outro discípulo que Jesus amava, o mesmo que se reclinara sobre o peito de Jesus durante a ceia e lhe perguntara: “Senhor, quem é que te vai entregar?” 21 Quando Pedro viu aquele discípulo, perguntou a Jesus: “Senhor, o que vai ser deste?”. 22 Jesus respondeu: “Se eu quero que ele permaneça até que eu venha, que te importa isso? Tu, segue-me!” 23Então, correu entre os discípulos a notícia de que aquele discípulo não morreria. Jesus não disse que ele não morreria, mas apenas: “Se eu quero que ele permaneça até que eu venha, que te importa?” 24Este é o discípulo que dá testemunho dessas coisas e que as escreveu; e sabemos que o seu testemunho é verdadeiro. 25 Jesus fez ainda muitas outras coisas, mas, se fossem escritas todas, penso que não caberiam no mundo os livros que deveriam ser escritos.
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Ser Evangelizador Até a Morte a Exemplo de São Paulo

Estamos na passagem final dos Atos dos Apóstolos. Nela nos é informada a chegada de São Paulo em Roma, no centro de um imenso império romano. Aqui ele espera seu julgamento e sua morte. O texto da Primeira Leitura resume os dois anos que São Paulo esteve em Roma em seu cativeiro.

É interessante observar que, mesmo sendo prisioneiro, São Paulo continua dando testemunho de Jesus em Roma. O próprio Jesus Ressuscitado encarregou todos os discípulos, antes da Ascensão, a serem testemunhas até o fim do mundo: “Sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria, e até os confins da terra” (At 1,8b). São Paulo é um apóstolo incansável na evangelização. A fé inquebrantável que tem em Jesus move São Paulo em todo momento e dá sentido a toda sua atuação. Quando se trata de evangelização, ele se defende com inteligência a fim de que a Palavra de Deus não fique presa: “Com toda a coragem e sem obstáculos, ele ensinava as coisas que se referiam ao Senhor Jesus Cristo”.

Terminado o tempo pascal, os cinqüenta dias de celebração gozosa da ressurreição do Senhor, nós terminamos também de ler o livro dos Atos dos Apóstolos. A primeira conseqüência da fé na ressurreição de Jesus é o começo entusiasta da missão apostólica, entre judeus e pagãos para anunciar-lhes o Evangelho de amor misericordioso de Deus por todos os seres humanos; amor até a morte, a morte de Cristo na cruz.

Hoje é véspera da festa de Pentecostes, isto é, a festa da efusão do Espírito Santo sobre Virgem Maria e sobre os Apóstolos e discípulos. Com a força do Espírito Santo os Apóstolos se tornam testemunhas invencíveis da vida, paixão, morte e ressurreição de Jesus. No acontecimento de Pentecostes há a invasão do espírito humano pelo Espírito divino, a transformação da debilidade em fortaleza, a iluminação da noite escura com a claridade de Cristo, a mudança radical de uma atitude humana pelo impulso de uma experiência de Deus.

É Preciso Seguir a Jesus Ressuscitado Permanentemente Para Que Nos Mantenhamos Bons Evangelizadores do Senhor

Tu, segue-me!”, disse o Senhor.

Terminamos o Tempo pascal com a festa de Pentecostes neste fim de semana; o tempo dos cinqüenta dias da celebração gozosa da ressurreição do Senhor. Durante os cinqüenta dias o Círio pascal, símbolo de Cristo, Luz do mundo é aceso nas celebrações. Na solenidade de Pentecostes, o Círio pascal será apagado no fim da missa e só ficará aceso novamente no batismo. Durante os cinqüenta dias Cristo Ressuscitado nos iluminou. Agora chegou nossa vez para sermos luz para o mundo (cf. Mt 5,14-16). A luz não é para ser olhada e sim para iluminar o caminho por onde devemos passar seguramente.

A primeira conseqüência da fé na ressurreição de Jesus é o começo de nossa missão, de nosso seguimento: “Tu, segue-me!”. É seguir tudo que Jesus ordenou a fazer (Mt 28,20). Seguir é caminhar. Seguir é buscar. Seguir é perguntar. Seguir é ir atrás daquele que nos salva ou daquilo que é essencial para nossa vida e salvação. seguir é não perder tempo para as coisas inúteis e não essenciais para nossa vida e convivência.  Seguir é algo dinâmico. Se no seguimento houver uma parada é porque há algo errado na caminhada ou há alguém que nos desvia nossa atenção do seguimento. Seguir é o tempo de viver com sentido, pois, com a ressurreição do Senhor, a vida não acaba na história, mas permanece eternamente, pois o Deus em quem acreditamos é o Deus da vida e que esse Deus põe a vida onde o homem põe a morte e que a morte tem seu contrapeso: a ressurreição. É o tempo de começarmos a acreditar e a viver como pessoas ressuscitadas antecipadamente, pois o próprio Senhor nos garante: “Quem crê em mim ainda que esteja morto viverá” (Jo 11,25). É o tempo de anunciarmos ao mundo o Evangelho de amor misericordioso de Deus por todos os seres humanos, o amor levado até a morte de Cristo na cruz. Quem vive no amor fraterno não pára de existir, pois o amor é o nome próprio de Deus (cf. 1Jo 4,8.16). Jesus histórico não está presente fisicamente na história. No lugar dele está cada cristão. Cada cristão deve ser “sacramento” de Jesus na terra. Cada cristão deve servir como sinal ou seta que sempre aponta para Cristo.

As leituras deste dia nos apresentam as conclusões do evangelho de João e do livro dos Atos dos Apóstolos. São conclusões abertas, isto é, os cristãos têm, daqui para frente, a tarefa de continuarem o trabalho de evangelização.

A última passagem dos Atos dos Apóstolos que lemos hoje resume os dois anos que Paulo esteve em Roma em seu primeiro cativeiro. Ele se torna um prisioneiro, mas quando se trata de evangelização ele defende com inteligência para que a Palavra de Deus não fique encadeada. Ele pode ficar preso, mas jamais ele deixa a Palavra de Deus ficar presa. A fé inquebrável que tem em Jesus lhe move em todo momento e dá sentido a toda sua atuação. É um verdadeiro apostolo incansável. Através da Segunda Carta ao Timóteo ele nos dá o seguinte conselho: “Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para instruir, para refutar, para corrigir, para educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito, qualificado para toda boa obra... (Por isso), proclama a Palavra, insiste, no tempo oportuno e no importuno, refuta, ameaça, exorta com toda paciência e doutrina” (2Tm 3,16-17; 4,2). Não há tempo certo para evangelizar, tem que ser o tempo todo. São Filipe Neri dizia: “Se quisermos nos dedicar inteiramente ao nosso próximo, não devemos reservar a nós mesmos nem tempo nem espaço”. O cristão deve saber aproveitar cada momento para evangelizar, para partilhar o que é bom para os outros ao seu redor para que o número de pessoas de bem se multiplique.

E nos versículos anteriores do texto do evangelho lido neste dia, Pedro havia recebido uma insinuação de Jesus sobre o seu futuro pessoal: seria pelo martírio. A partir desta insinuação de Jesus, Pedro entrou em curiosidade para saber o futuro de João, seu companheiro: “Senhor, o que vai ser deste?”. Com isto Pedro caiu em tentação de saber do futuro dos demais, descuidando assim de seu papel de evangelizador. Quem fica olhando para a vida alheia acaba não cuidando da própria vida.

Por isso, a resposta de Jesus a Pedro sobre o destino de João é sábia. Jesus não revela a Pedro o destino de João. Desta maneira, Pedro deve se preocupar com o amor, com o serviço, e com a ajuda diária que há que prestar para os irmãos sem saber o caminho que a história vai tomar. Viver no amor e por amor é a melhor maneira de viver na incerteza do tempo. Mario Quintana nos relembra: “Esta vida é uma estranha hospedaria, de onde se parte quase sempre às tontas, pois nunca as nossas malas estão prontas. E a nossa conta nunca está em dia”.  A incerteza da história dá espaço para a certeza de Deus. Como diz a Carta aos Hebreus: “A fé é uma certeza a respeito do que não se vê” (11,1).

Como Pedro, muitas vezes, nós caímos também na tentação de saber demais da vida alheia. Quando olharmos apenas para a vida alheia, acabaremos não cuidando de nossa própria vida. Uma curiosidade sem freio sempre termina no abismo, na destruição da própria vida e da vida alheia, na criação do ambiente pesado, na convivência de mútua suspeita. Quem fica curioso demais sobre a vida alheia é porque não está cuidando da própria vida. Em última analise, é porque a própria vida não está bem. Por isso, precisamos ouvir repetidas vezes o que o Senhor nos diz hoje: “Se eu quero que ele permaneça até que eu venha, que te importa? Tu, segue-me” (Jo 21,22). Segundo Jesus, o discípulo amado não é menos discípulo nem menos seguidor de Jesus que Pedro. Há diferentes maneiras de seguir Jesus. Há várias vocações para viver os ensinamentos de Jesus. O importante é o imperativo de Jesus: “Tu, segue-me!”. O importante é seguir a Jesus vivendo seus ensinamentos. A maneira para segui-Lo pode ser diferente.

Seguir Jesus é viver aquilo que Ele viveu e fazer aquilo que ele fez. Ele fez tudo com amor e por amor para que todos pudessem conviver na paz e na fraternidade e alcançar a salvação. Isto é a evangelização. O cristão não pode perder nenhum tempo para não enterrar nenhuma oportunidade. Quem não valorizar o tempo, vai enterrar muitas oportunidades na vida.  É preciso seguir a Jesus em todas as circunstâncias de nossa vida. É preciso amar e servir. O amor e o serviço são inseparáveis no seguimento. É necessário servir com amor e amar através do serviço.

“Tu, segue-me!”. Esta frase é dirigida por Jesus a cada um de nós. A Igreja, que somos nós, tem obrigação de fazer Cristo próximo das pessoas. Por meio de cada cristão, de cada um de nós o mundo deve continuar a escutar Cristo. Através de cada um de nós Cristo deve continuar tocando a vida das pessoas ao nosso redor. Para isso, cada um de nós deve estar preparado para o contrário, pois muitos querem apagar a voz do enviado e querem acabar com a vida da testemunha de Cristo. Duas colunas da Igreja, Pedro e Paulo, foram martirizados em nome de Jesus e de seus ensinamentos. Não tenhamos medo, pois o Senhor quer que sejamos testemunhas de seu amor, de sua graça e de sua misericórdia. Tudo isso deve gerar uma autêntica conversão naqueles que escutam Cristo por meio de cada um de nós, em particular, e por meio da Igreja, em geral. “Tu, segue-me!”.
 
P. Vitus Gustama,svd

terça-feira, 30 de maio de 2017


02/06/2017


Apascenta minhas ovelh

AMOR É O FUNDAMENTO DE TODA A ATIVIDADE PASTORAL

Sexta-Feira da VII Semana da Páscoa

Primeira Leitura: At 25,13b-21

Naqueles dias, 13b o rei Agripa e Berenice chegaram a Cesareia e foram cumprimentar Festo. 14 Como ficassem alguns dias aí, Festo expôs ao rei o caso de Paulo, dizendo: “Está aqui um homem que Félix deixou como prisioneiro. 15 Quando eu estive em Jerusalém, os sumos sacerdotes e os anciãos dos judeus apresentaram acusações contra ele e pediram-me que o condenasse. 16 Mas eu lhes respondi que os romanos não costumam entregar um homem antes que o acusado tenha sido confrontado com os acusadores e possa defender-se da acusação. 17 Eles vieram para cá e, no dia seguinte, sem demora, sentei-me no tribunal e mandei trazer o homem. 18 Seus acusadores compareceram diante dele, mas não trouxeram nenhuma acusação de crimes de que eu pudesse suspeitar. 19 Tinham somente certas questões sobre a sua própria religião e a respeito de um certo Jesus que já morreu, mas que Paulo afirma estar vivo. 20 Eu não sabia o que fazer para averiguar o assunto. Perguntei então a Paulo se ele preferia ir a Jerusalém, para ser julgado lá. 21 Mas Paulo fez uma apelação para que a sua causa fosse reservada ao juízo do Augusto Imperador. Então ordenei que ficasse preso até que eu pudesse enviá-lo a César.

Evangelho: Jo 21,15-19

Jesus manifestou-se aos seus discípulos 15e, depois de comerem, perguntou a Simão Pedro: “Simão, filho de João, tu me amas mais do que estes?” Pedro respondeu: “Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo”. Jesus disse: “Apascenta os meus cordeiros”.
16E disse de novo a Pedro: “Simão, filho de João, tu me amas?” Pedro disse: “Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo”. Jesus disse-lhe: “Apascenta as minhas ovelhas”. 17Pela terceira vez, perguntou a Pedro: “Simão, filho de João, tu me amas?” Pedro ficou triste, porque Jesus perguntou três vezes se ele o amava. Respondeu: “Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que eu te amo”. Jesus disse-lhe: “Apascenta as minhas ovelhas. 18Em verdade, em verdade te digo: quando eras jovem, tu te cingias e ias para onde querias. Quando fores velho, estenderás as mãos e outro te cingirá e te levará para onde não queres ir”.19Jesus disse isso, significando com que morte Pedro iria glorificar a Deus. E acrescentou: “Segue-me”.
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Viver De Acordo Com a Verdade Para Viver Na Justiça

Os romanos não costumam entregar um homem antes que o acusado tenha sido confrontado com os acusadores e possa defender-se da acusação.

Nós nos encontramos nas últimas páginas do livro dos Atos dos Apóstolos. E estas últimas páginas citam um certo número de personagens históricos: governadores, oficiais, soldados e assim por diante. E o itinerário da Igreja através da prisão de São Paulo como cidadão romano é confirmada paulatinamente pela grande história de Roma e se conhecem pelos documentos civis da época.

O novo governador romano na Judéia, Festo, mantém São Paulo preso. Festo, como todos os personagens romanos que aparecem no livro dos Atos, respeita a lei e deseja que a justiça triunfe: “Os romanos não costumam entregar um homem antes que o acusado tenha sido confrontado com os acusadores e possa defender-se da acusação. 

Não precisa ser cristão para ter uma atitude de justiça. Quem vive na verdade, vive na justiça. Quem vive no amor, perdoa. Quem se preocupa com o crescimento do outro, dá oportunidade para o outro crescer. Ninguém pode condenar uma pessoa sem ela estar presente para se defender. Pela fraqueza humana, e às vezes por falta de caráter, temos muita facilidade de julgar ou condenar alguém à distância sem dar oportunidade de ele se defender ou apresentar suas razões para seus atos e suas escolhas. Deus nos ordena a amarmos o próximo (cf. Jo 13,34-35; 15,12), e não nos autoriza para julgar o próximo (cf. Mt 7,1-5). Dar oportunidade para alguém se defender, para nós cristãos, é mais do que justiça, é um ato de caridade.

Viver Como Ressuscitados

Tinham somente certas questões sobre a sua própria religião e a respeito de um certo Jesus que já morreu, mas que Paulo afirma estar vivo.

Para São Paulo a ressurreição não é tanto somente um artículo do Credo ou uma afirmação dogmática e sim uma experiência vivida (cf. 1Cor 15,3-11; 2Cor 5,1-10). É o fruto do seu encontro pessoal com Jesus (cf. At 9,1-9; 22,1-21).

Que nossa vida seja uma expressão daquilo que o governador romano, Festo: “Um certo Jesus que já morreu, mas que Paulo afirma estar vivo”. O mundo de hoje precisa da certeza de um futuro seguro para o seu ser ou sua existência. E o cristão é o seguidor de Jesus que está vivo, Aquele que venceu a morte. E que vale a pena investir no bem, na bondade, no amor, na solidariedade, pois tudo isto constrói o ser humano e faz o ser humano se aproximar do Bem Maior que é o próprio Deus. O próprio Jesus Cristo passou a vida fazendo o bem (cf. At 10,38).

O Amor É a Alma Da Missão e De Qualquer Atividade Na Igreja de Cristo

O Jo 21 foi acrescentado ao evangelho de João provavelmente depois de uma primeira redação deste evangelho. As dificuldades de ordem literária e exegética são bastante importantes, mas cabe a possibilidade de não se afastar da realidade, figurando-se que este capítulo foi estruturado depois da morte de Pedro, e antes da morte de João, no momento em que o tema da sucessão já foi plantado. Aqui é destacada a importância de Pedro como o primeiro entre as partes.

Cada aparição de Cristo Ressuscitado aos seus apóstolos, especialmente em São João, sempre termina com uma “transmissão de poderes”. São João coloca intencionalmente esta transmissão depois da ressurreição (ao contrario de Mt 16,13-20) para deixar bem claro que os poderes missionários da Igreja é a irradiação da gloria do ressuscitado (“todo poder foi me dado... ide, pois”: Mt 28,18-19), e não para o uso próprio nem para a autopromoção ou para dominar os demais.

O diálogo do Senhor Ressuscitado com Pedro enfatiza três assuntos ligados entre si: o amor, o pastoreio e o seguimento até o martírio. E esse diálogo acontece logo depois da refeição comunitária. Nesse diálogo Jesus se dirige a Pedro chamando-o pelo nome de sua ascendência: “Simão de João”. Ao usar o nome de Pedro Jesus dirige-lhe três perguntas num tom pessoal e solene: “Simão, filho de João, tu me amas?”. Santo Agostinho comentou: “O Senhor perguntou três vezes para que a tríplice confissão apagasse a tríplice negação”. Jesus ressuscitado cura no mais fundo da alma de Pedro as feridas causadas nele pela sua tríplice negação (cf. Jo 18,17.25.27). Ao ser perguntado “pela terceira vez” por Jesus se Pedro O amava, Pedro ficou triste. Pedro reconhece sua infidelidade, mas não pode negar a existência de seu amor por Jesus: “Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que te amo”. Ao responder na terceira vez, Pedro mostra que não se apóia mais nas suas forças, no seu saber e na sua vontade e sim no saber e na bondade do Senhor: “Tu sabes tudo”. Ao mesmo tempo Pedro afirma a verdade do seu amor ao Senhor e se deixa verificar seu amor por aquele que “sabe tudo”: “Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que te amo apesar das minhas fraquezas e limitações”.

Somente depois da purificação de seu amor é que Jesus confere a Pedro o ofício de pastor de toda a Igreja: um ofício feito no amor e por amor ao Senhor e às ovelhas do Senhor (povo de Deus). As ovelhas das quais Pedro deve cuidar são as ovelhas de Jesus: “minhas ovelhas”.  “Apascenta minhas ovelhas como minhas, não como tuas”, comentou Santo Agostinho. 

Então, antes de transmitir o “poder de apascentar” o povo de Deus (“minhas ovelhas”) Cristo Ressuscitado pergunta a Pedro se ele ama a Jesus com o amor ágape. “Ágape” é uma palavra grega que significa o amor que se dirige unicamente para o outro, incondicional, e que não espera nada em troca. É uma doação pura de si mesmo. É um amor sem motivos, isto é, amar por amar. Para servir e trabalhar com e para o Senhor pelo bem dos demais é necessário ter amor puro no coração. Quem tem amor no coração, vai tratar bem aos outros. Jesus morreu por amor aos homens (Jo 13,1; 15,14). A Igreja de Cristo conduzida por Pedro e seus sucessores deve se converter em sacramento visível do ágape, do amor fraterno, de doção de si. Cada líder na Igreja do Senhor, desde o Papa até aos agentes pastorais, deve ser transformado em líder de amor. Por isso, é sempre um desafio de todos os dias.

O amor é o fundamento de toda pastoral. Por isso, Jesus não pergunta a Pedro se ele superou sua crise, se foi submetido a uma terapia psicológica para recuperar a auto-estima, se fez algum curso de liderança, se sabe manejar situações de conflito, se domina as dinâmicas de animação comunitária, se domina as técnicas pastorais, e sim Jesus o confronta com o fundamento de todo seguimento e de todo cuidado pastoral: o amor a Jesus e a sua comunidade, a decisão de entregar a própria vida para que os outros tenham vida (cf. Jo 10,10). Quem ama de verdade não compactua com a maldade, com a injustiça, etc., porque amor é responsabilidade. Todas as injustiças são conseqüências da falta de amor.

“Sim, Senhor, eu te amo”, responde Pedro. “Apascenta as minhas ovelhas”, diz Jesus a Pedro. A intimidade da fé e a resposta de amor de Pedro não são escritas para ser saboreadas sentimentalmente, e sim para ser transformadas em responsabilidade. “Se me amas, Pedro, então, apascenta as minhas ovelhas”. O amor a Jesus se transforma em responsabilidade de cuidar dos demais, pois eles são de Jesus (“minhas ovelhas”). Ao dizer que ama a Deus, o homem se transforma em responsável pelos outros. Amor e responsabilidade são, para Jesus, uma moeda de dois lados.

Jesus chama Pedro por seu nome original “Simão, filho de João”. E Pedro escuta atentamente a voz do Senhor. Seu coração foi crescendo em maturidade e agora compreende que Jesus não é o Messias político que ele esperava (Jo 13,37; 18,10) e sim o ser humano generoso que dá sua vida em serviço à humanidade deprimida e abandonada (Jo 15,13.15). Agora Pedro se encontra disponível para seguir a Jesus, o Caminho, não sob seus próprios interesses e sim animado pelo Espírito do Ressuscitado. A tríplice pergunta e afirmação são uma rememoração do itinerário do discípulo. Pedro partiu de uma adesão fervorosa, chegou à negação (Jo 18,27), passou pela dura experiência da morte de Jesus e agora chega a um novo ponto de partida. A adesão de Pedro não é simples militância e sim é amor entranhável por um ser humano que lhes ensinou o verdadeiro caminho para Deus: o caminho de amor que se transforma em serviço à comunidade: “Apascenta minhas ovelhas”. As ovelhas pertencem ao Senhor; o povo é de Deus. O próprio Senhor é o verdadeiro Pastor das ovelhas (cf. Jo 10). O bom tratamento para as ovelhas significa o bom tratamento para Deus. O mau tratamento para as ovelhas significa o mau tratamento para Deus, pois as ovelhas são do Senhor. Todos são chamados a cuidar das ovelhas do Senhor. Cuidar significa amar, alimentar, guiar e proteger.

As perguntas feitas a Pedro são dirigidas a toda a Igreja, a cada cristão e, portanto, a mim e a você. “Quando é lida esta leitura, cada cristão sofre o interrogatório no coração”, dizia Santo Agostinho. O amor é a única realidade consistente, que permanece e dá consistência a tudo. Aquele que foi enviado por amor e para amar a humanidade (Jo 3,16) e que nos ama até o fim (Jo 13,1) nos pergunta sobre nosso amor ao Senhor e às ovelhas do Senhor. Tendo amor no coração ao Senhor e às ovelhas do Senhor, tudo se tornará obra prima e tudo se eleva até Deus.

Em silêncio neste dia Jesus chama cada um de nós por nosso nome original e pergunta: “Você me ama mais do que qualquer pessoa e qualquer coisa do mundo e em qualquer situação?”. Ele não nos pergunta se temos condições de assumir uma tarefa ou não, e sim se amamos verdadeiramente o Senhor que se expressa no amor às ovelhas do Senhor (toda pessoa humana). Primeiro é amar. Depois é servir. Servir sem amor transforma qualquer um em escravo. Servir com amor transforma cada um de nós em parceiro do Senhor. Podemos dar sem amar, mas não podemos amar sem dar. Aquele que semeia cortesia colhe amizade, e aquele que planta delicadeza colhe amor. O amor é firme com rocha em que as ondas do ódio batem em vão. O verdadeiro amor nos eleva até Deus, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). “Quanto mais amas, mais alto tu sobes” (Santo Agostinho).

Reflitamos sobre as seguintes palavras de Santo Agostinho:

“Os que apascentam as ovelhas de Cristo com ânimo de fazê-las propriedade sua e não de Cristo, manifestam claramente que amam a si mesmos e não a Cristo; desempenham a missão recebida movidos pela cobiça da glória, do domínio, da posse, e não movidos pelo amor de obedecer, ajudar ou agradar a Deus... Demonstra que tens amor ao Pastor amando as ovelhas, pois também as ovelhas são membros do Pastor”.

P. Vitus Gustama,svd

01/06/2017

UNIDADE NA FÉ E NO AMOR É PRIMORDIAL PARA O TESTEMUNHO CRISTÃO

Quinta-Feira da VII Semana da Páscoa

Primeira Leitura: At 22,30; 23,6-11

Naqueles dias, 30 querendo saber com certeza por que Paulo estava sendo acusado pelos judeus, o tribuno soltou-o e mandou reunir os chefes dos sacerdotes e todo o conselho dos anciãos. Depois fez trazer Paulo e colocou-o diante deles. 23,6 Sabendo que uma parte dos presentes eram saduceus e a outra parte eram fariseus, Paulo exclamou no conselho dos anciãos: “Irmãos, eu sou fariseu e filho de fariseus. Estou sendo julgado por causa da nossa esperança na ressurreição dos mortos”. 7 Apenas falou isso, armou-se um conflito entre fariseus e saduceus, e a assembleia se dividiu. 8 Com efeito, os saduceus dizem que não há ressurreição, nem anjo, nem espírito, enquanto os fariseus sustentam uma coisa e outra. 9 Houve, então, uma enorme gritaria. Alguns doutores da Lei, do partido dos fariseus, levantaram-se e começaram a protestar, dizendo: “Não encontramos nenhum mal neste homem. E se um espírito ou anjo tivesse falado com ele?” 10 E o conflito crescia cada vez mais. Receando que Paulo fosse despedaçado por eles, o comandante ordenou que os soldados descessem e o tirassem do meio deles, levando-o de novo para o quartel. 11 Na noite seguinte, o Senhor aproximou-se de Paulo e lhe disse: “Tem confiança. Assim como tu deste testemunho de mim em Jerusalém, é preciso que tu sejas também minha testemunha em Roma”.

Evangelho: Jo 17,20-26

Naquele tempo, Jesus ergueu os olhos ao céu e rezou, dizendo: 20“Pai santo, eu não te rogo somente por eles, mas também por aqueles que vão crer em mim pela sua palavra; 21para que todos sejam um como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, e para que eles estejam em nós, a fim de que o mundo creia que tu me enviaste. 22Eu dei-lhes a glória que tu me deste, para que eles sejam um, como nós somos um: 23eu neles e tu em mim, para que assim eles cheguem à unidade perfeita e o mundo reconheça que tu me enviaste e os amaste, como me amaste a mim. 24Pai, aqueles que me deste, quero que estejam comigo onde eu estiver, para que eles contemplem a minha glória, glória que tu me deste porque me amaste antes da fundação do universo. 25Pai justo, o mundo não te conheceu, mas eu te conheci, e estes também conheceram que tu me enviaste. 26Eu lhes fiz conhecer o teu nome, e o tornarei conhecido ainda mais, para que o amor com que me amaste esteja neles, e eu mesmo esteja neles”.
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Ser Testemunha Do Cristo Ressuscitado Em Qualquer Lugar Onde Nos Encontramos

Tem confiança. Assim como tu deste testemunho de mim em Jerusalém, é preciso que tu sejas também minha testemunha em Roma”.

Jerusalém, Atenas e Roma eram três cidades-símbolo nos tempos São Paulo. Jerusalém representava a cidade santa do judaísmo e o lugar em que sucederam os acontecimentos centrais da vida de Jesus. No relato de Lucas, autor dos Atos, a partir de Jerusalém é que Jesus envia os discípulos como testemunhas do Senhor para o resto do mundo (At 1,8). Para a teologia de Lucas Jerusalém é particularmente importante. Atenas simbolizava a sabedoria. Roma era o centro do império.

São Paulo deu testemunho de Jesus em Jerusalém e em Atenas, Grécia, isto é, nos círculos religiosos e culturais. Está faltando o testemunho para o centro do império: Roma. “Tem confiança. Assim como tu deste testemunho de mim em Jerusalém, é preciso que tu sejas também minha testemunha em Roma”. São palavras do próprio Senhor ressuscitado para Paulo. Como veremos mais adiante, Roma será testemunha da palavra eloqüente de São Paulo, mas, ao mesmo tempo, será o cenário de sua prisão e de sua morte. Paulo será julgado na cidade onde reside o próprio poder que julgou Jesus. A hora da morte vincula intimamente Jesus e o discípulo, São Paulo.

Quem, como São Paulo, decide firmemente ser testemunha do Senhor, esteja preparado para encarar as dificuldades e espinhos do caminho deste testemunho. Mas, no fim deste caminho a exemplo do próprio Senhor Jesus, haverá uma vida glorificada e o mundo será obrigado a reconhecê-la. Para ser perseverante neste caminho, temos que estar preparados e abertos ao Espírito de Deus a exemplo de São Paulo. Nossa vida cristã e evangelizadora se dará sempre no contexto do mundo no qual nos tocou a viver e no lugar que servimos. Não temos outra forma, como São Paulo, de mostrar e colocar em destaque a verdade, a justiça e o amor que professamos. Vivamos no mundo como filhos e filhas de Deus, fruto da conquista de Jesus Cristo que nos revelou Deus como Pai de todos, como rezamos na oração do Pai-Nosso.

A Vida Ressuscitada É O Futuro Garantido Para Quem Testemunhar Jesus Ressuscitado

Irmãos, eu sou fariseu e filho de fariseus. Estou sendo julgado por causa da nossa esperança na ressurreição dos mortos”.

Estas palavras são ditas por São Paulo diante do Sinédrio em Jerusalém onde se encontram dois grandes correntes religiosos: saduceus e fariseus. Os saduceus não acreditam na ressurreição. Para eles a vida termina aqui neste mundo e por isso, salve-se quem puder e quiser e aproveite o hoje (Carpe Diem!). Por isso, neste grupo há muita separação e a divisão entre uma vida dentro do Templo e outra vida fora do Templo em que uma não se apóia na outra. Os fariseus, ao contrário, acreditam na ressurreição e são muito fieis à Lei de Moisés. Por isso, são rigorosos no cumprimento da lei ao pé da letra. Por causa destes dois correntes religiosos a frase de São Paulo “Estou sendo julgado por causa da nossa esperança na ressurreição dos mortos” provoca um barulho no grande Conselho (Sinédrio): “Apenas falou isso, armou-se um conflito entre fariseus e saduceus, e a assembleia se dividiu”.

São Paulo não perde nenhuma oportunidade de anunciar/pregar de que a vida não termina com a morte, pois o Senhor ressuscitou (cf. 1Cor 15,3-11; 2Cor 5,1-10). A ressurreição do Senhor nos garante que a vida não pertence ao cemitério, à morte e sim a morte pertence à vida quem aceita o Senhor ressuscitado que venceu a morte. A morte se torna apenas uma passagem para viver a vida em sua plenitude. São Paulo não tem medo de ser testemunha do Senhor ressuscitado mesmo que sofra bastante por causa disso e vai terminar na decapitação dele em Roma. Numa de suas Cartas São Paulo conta o número de golpes recebidos (cf. 2Cor 11,23-24).

Quando soubermos o que queremos alcançar na vida, qual é o objetivo de nossa vida ou existência, o que queremos ser, nós nos esforçaremos em alcançá-lo, custe o que custar. Quem vive sem objetivo claro, também não há grandes coisas na sua vida. Não vale a pena viver sem objetivo, sem valores, sem horizontes.

A Comunhão Plena Com o Senhor Nos Torna Fatores De Unidade Na Convivência Com Os Demais

“Pai santo, eu não te rogo somente por eles, mas também por aqueles que vão crer em mim pela sua palavra; para que todos sejam um como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, e para que eles estejam em nós, a fim de que o mundo creia que tu me enviaste”.

Estamos na terceira e última parte da oração de Jesus no seu discurso de despedida (Jo 13-17).

Nesta oração Jesus se lembra dos futuros cristãos: “Pai santo, eu não te rogo somente por eles, mas também por aqueles que vão crer em mim pela sua palavra”. Os discípulos da primeira geração receberam direitamente a palavra ou os ensinamentos do próprio Jesus. Eles aceitam e acreditam nos ensinamentos de Jesus e por isso passam a fazer parte da missão de Jesus: “Como tu me enviaste ao mundo, assim também eu os enviei ao mundo” (Jo 17,18).

A palavra dada ou passada para os discípulos da primeira geração continua a atuar no mundo através de outras gerações, fruto da missão dos primeiros discípulos. E sempre haverá pessoas que pelo testemunho dos cristãos (testemunho e anúncio) passam a acreditar em Jesus, como o Salvador do mundo. Para estas pessoas é que Jesus rezou. Neste sentido nós éramos objeto de oração de Jesus. Quem bom que Jesus rezou por nós. Que bom que Jesus pensava em nós. Isso nos dá força e ânimo para continuar nossa missão como cristãos que atuamos como a luz do mundo e o sal da terra (cf. Mt 5,13-14).

Na sua oração Jesus tem em vista a Igreja de todos os tempos. Neste contexto, quando Jesus rezou: “Para que todos sejam um” podemos entender este “todos” na sua dimensão de tempo e espaço. A unidade na fé como questão primordial faz uma ligação profunda entre a Igreja cristã primitiva com a Igreja de todos os tempos e lugares. A fé no mesmo Senhor é que torna crível qualquer comunidade que usa o nome “cristão” diante do mundo.

O centro da oração de Jesus é a súplica pela unidade dos discípulos. E tem seu princípio e modelo na união entre o Pai e o Filho e tem seu objetivo e finalidade: dar testemunho de Jesus e ajudar a crer. A comunidade somente pode alcançar a unidade se ela permanecer na união com Jesus. Quem não está unido a Cristo, cria divisão dentro de si próprio e entre as pessoas. A unidade da comunidade é condição prévia para a união com o Pai e Jesus. Conseqüentemente, a unidade dos cristãos é o sinal vivo da unidade de Cristo com seu Pai.

Além disso, a unidade é a expressão e a prova mais evidente do amor. Porque esta unidade pela qual Jesus suplica ao Pai somente é possível quando os membros da comunidade se amam de tal maneira que cada um se entrega aos demais sem limite. Aqueles que não amam não podem ter conhecimento e um trato verdadeiro com Deus. Por isso, é essencial recordar que a comunhão com Jesus é impossível sem o amor fraterno. Assim como o amor fraterno cria unidade, assim a comunhão com Jesus deve criar a comunhão entre os cristãos.

A unidade perfeita é o único argumento capaz de convencer a humanidade. Santo Agostinho dizia: “Quem abandona a unidade faz-se desertor da caridade. E se deserta da caridade, mesmo que possua tudo o mais, se reduz a nada” (Serm. 88,18,21). Conseqüentemente, o cristão deixará de ser pessoa crível. “A soberba gera a divisão. A caridade, a comunhão”, acrescentou Santo Agostinho. (Serm. 46,18). Se for assim, conseqüentemente, o cristão deixará de ser pessoa crível no mundo (cf. Mt 5,13bc). A «divisão contradiz abertamente a vontade de Cristo, e é escândalo para o mundo, como também prejudica a santíssima causa da pregação do Evangelho a toda a criatura ». (Unitatis Redintegratio,1 do Concilio Vaticano II)

Esta unidade, efeito visível de um amor incondicional, se manifesta num serviço que chega até o dom da própria vida. Este amor-unidade vivido na comunidade provocará a fé do mundo. Quem ama tende a transformar-se no amado. O amor leva a querer estar sempre juntos.  O amor supõe uma participação. Por isso, podemos nos aproximar de Deus pela experiência humana do amor e da unidade. Toda mensagem cristã perde todo seu valor se prescindir do amor. A unidade da comunidade não é em primeiro lugar um problema de organização, ou um problema social, e sim uma realidade espiritual. São Paulo enfatiza bastante este aspecto espiritual ao dizer: “Sede humildes, pacíficos, pacientes, suportai-vos mutuamente no amor, procurai conservar a unidade do espírito pelos laços da paz. Um corpo e um espírito, como vos foi dada uma esperança comum pela vossa vocação, um Senhor, uma fé, um batismo, um Deus e Pai de todos que está acima de todos e em todos” (Ef 4,3-6).

Conseqüentemente, a própria comunidade cristã não é a garantia para a unidade, no sentido de que a comunidade cristã não é a fonte da unidade. Somente pela união constante com Jesus é que a comunidade cristã pode alcançar a unidade entre seus membros e testemunhá-la para o mundo. Isto significa que a unidade é uma dádiva de Cristo presente na comunidade. Santo Inácio de Antioquia escreveu: “O Senhor adverte e diz: ‘Quem não está comigo, está contra mim, e quem não ajunta comigo, dispersa’. Quem quebra a paz e a unidade de Cristo, age contra Cristo; quem de qualquer maneira procura ajuntar fora da Igreja, divide a Igreja de Cristo... Quem não mantém esta unidade, não obedece à lei de Deus, não mantém a fé em Deus, no Pai e no Filho, não mantém a vida e a salvação” (A unidade da Igreja católica, cap. 6). Na Bíblia o verbo “unir”/“reunir” é sinônimo de “salvar”. Tanto que a missão de Cristo como Bom pastor é reunir os homens em “um só rebanho”, isto é, um só Povo de Deus (cf. Jo 10,14-16).

Então, Verdade, Unidade e Amor são três palavras que, segundo o evangelista João na oração neste capitulo 17, sintetizam a missão e a tarefa da comunidade cristã e de cada cristão no mundo. A autêntica oração cristã que é um abrir-se à vontade de Deus não é somente um pedido e sim uma oferenda, consagração e resposta. O cristão existe para os demais: para aproximar-se dos demais, para unir, para dialogar, para servir, para libertar, para trabalhar no grande projeto de salvação que não é dos cristãos e sim de Deus.  

A última petição de Jesus por todos os cristãos, seus discípulos é que estes estejam um dia com ele no céu: “Pai, quero que, onde eu estou, estejam comigo aqueles que me deste, para que vejam a minha glória que me concedeste, porque me amaste antes da criação do mundo”.  Equivale a pedir para eles a vida definitiva.  Para sermos cidadãos do céu temos que viver na terra na verdade, na unidade e no amor.

Em cada celebração, em cada Eucaristia celebrada temos que pedir o perdão ao Senhor pela divisões e desunião que criamos dentro da Igreja do Senhor. Se o Senhor rezou tanto pela unidade dos cristãos, temos rezar pela mesma e procurar sempre a reconciliação. “Pouco importa quanto fazes tu, o que importa é quanto amas. A medida do amor é o amor sem medida. Quando se enfraquece o amor, também se enfraquece o fervor” (Santo Agostinho).
P. Vitus Gustama,svd

segunda-feira, 29 de maio de 2017


VISITAÇÃO DE MARIA A ISABEL
Lc 1,39-56 (visita de Maria a Isabel)
31 de Maio

Primeira Leitura: Sf 3,14-18
14 Canta de alegria, cidade de Sião; rejubila, povo de Israel! Alegra-te e exulta de todo o coração, cidade de Jerusalém! 15 O Senhor revogou a sentença contra ti, afastou teus inimigos; o rei de Israel é o Senhor, ele está no meio de ti, nunca mais temerás o mal. 16Naquele dia, se dirá a Jerusalém: “Não temas, Sião, não te deixes levar pelo desânimo! 17 O Senhor, teu Deus, está no meio de ti, o valente guerreiro que te salva; ele exultará de alegria por ti, movido pelo amor; exultará por ti, entre louvores, 18 como nos dias de festa. Afastarei de ti a desgraça, para que nunca mais te cause humilhação”.

Evangelho: Lc 1, 39-56
39Naqueles dias, Maria partiu para a região montanhosa, dirigindo-se, apressadamente, a uma cidade da Judeia. 40Entrou na casa de Zacarias e cumprimentou Isabel. 41Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança pulou no seu ventre e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. 42Com um grande grito exclamou: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto de teu ventre!” 43Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar? 44Logo que a tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança pulou de alegria no meu ventre. 45Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu”. 46Maria disse: “A minha alma engrandece o Senhor, 47e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, 48porque olhou para a humildade de sua serva. Doravante todas as gerações me chamarão bem-aventurada, 49porque o Todo-poderoso fez grandes coisas em meu favor. O seu nome é santo, 50e sua misericórdia se estende, de geração em geração, a todos os que o temem. 51Ele mostrou a força de seu braço: dispersou os soberbos de coração. 52Derrubou do trono os poderosos e elevou os humildes. 53Encheu de bens os famintos, e despediu os ricos de mãos vazias. 54Socorreu Israel, seu servo, lembrando-se de sua misericórdia, 55conforme prometera aos nossos pais, em favor de Abraão e de sua descendência, para sempre”. 56Maria ficou três meses com Isabel; depois voltou para casa.
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Maria serve com dignidade como uma irmã

Terminamos o mês de maio com a festa da Visitação de Nossa Senhora a Isabel. A festa da Visitação está cheia de encantos e de uma ternura inigualável. Duas mulheres, que se encontram , que se saúdam, estão cheias de Deus e por isso, cheias de alegria para fazer o ambiente mais humano e fraterno e por isso, mais divino.

O evangelista Lucas nos relatou que Maria “se dirigiu apressadamente”. A expressão “apressadamente” aqui tem muitos significados: zelo, diligência, empenho, cuidado, seriedade, dignidade. Santo Ambrósio comentou a expressão “dirigindo-se apressadamente” com as seguintes palavras: “A graça do Espírito Santo não admite demora” (“Nescit tarda molimina Spiritus Sancti gratia”). É preciso fazer ou cumprir aquilo que é importante e essencial, pois, caso contrário, acaba morrendo. Jamais podemos adiar o que é essencial para não nos lamentar mais tarde: uma visita para um doente ou um idoso, um perdão que precisa ser dado ou recebido, uma ajuda oferecida, um trabalho importante que decidimos fazer, e assim por diante. Os adiantamentos, os atrasos podem nos desgastar e nos consomem interiormente. Precisamos trabalhar permanentemente sobre nossa capacidade de intuir o que deve ser feito agora e aqui na graça de Deus.

Maria é uma mulher que se põe em caminho com dignidade, com cuidado, com prontidão. Não o faz para satisfazer uma necessidade pessoal: ela faz para servir sua parenta, Isabel, que está grávida e que necessita de uma ajuda. Ela faz tudo com dignidade como uma irmã. Maria é de Deus e por isso, ela é do povo e para o povo. Maria é mulher de nossa história, aberta a Deus e aos seres humanos. Viveu sempre em atitude de gratuidade e de doação. Será que fazemos tudo, a exemplo de Maria, com dignidade, com cuidado e com prontidão?

Maria é a primeira discípula que sabe partilhar o que é salvífico

Na anunciação (cf. Lc 1,26-38), Maria se tornou a primeira discípula entre os primeiros cristãos, porque ela ouviu a Palavra de Deus e a aceitou incondicionalmente (Lc 1,38). Na Visitação, ela se apressa em partilhar esta palavra do evangelho com os outros e, no Magnificat, temos sua interpretação dessa palavra que se assemelha à interpretação que seu Filho tinha dado em seu ministério.

Maria é a arca da nova aliança, o lugar da presença de Deus no meio de nós. Como a arca da nova aliança, ela não é um lugar que encerra Deus e sim um lugar que O dá. Ela não é uma arca que esconde o mistério, mas uma arca que o irradia. Maria é Aquela que, habitada pelo mistério, o dá.

Quando na fé se dá espaço ao absoluto primado de Deus, a conseqüência lógica de ser habitado, de ser amado por Deus é sair de si, viver o êxodo sem regresso, que é o amor. O acolhimento da gratuidade do amor eterno torna-se a doação gratuita de tudo que se recebeu. Quem crê e vive da fé, tem capacidade de olhar para fora, aprecia o dom e o comunica. Certamente, respeitamos o dom de Deus quando nos tornamos arca irradiante e quando o restituímos a Deus, que nos estende a mão nos nossos irmãos.

Maria como a primeira discípula cristã exemplifica a tarefa essencial de um seguidor de Cristo. Depois de ouvir a Palavra de Deus e aceitá-la, devemos reparti-la com os outros, não simplesmente repetindo-a, mas interpretando-a, de modo que todos possam vê-la como uma Boa Notícia. O nome “Boa Notícia” traz em si a notícia alegre porque Deus está conosco e com Ele nossa vida tem futuro apesar de tudo.

Encontro de duas pessoas benditas

Na Anunciação o Anjo do Senhor “entrou” na casa de Maria e a “saudou”. Nessa visita Maria fez a mesma coisa: ela “entrou” na casa de Zacarias e saudou a Isabel. É a saudação da Mãe do Senhor para a mãe do Precursor do Senhor. A saudação de Maria comunica o Espírito a Isabel e ao menino no seu ventre. A presença do Espírito Santo em Isabel se traduz em um grito poderoso e profético: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar? Logo que tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança pulou de alegria no meu ventre. Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu” (Lc 1,42-45). Aqui Isabel fala como profetisa: se sente pequena e indigna diante da visita daquela que leva em seu seio o Senhor do universo. Sobram as palavras e explicações quando alguém entra na sintonia com o Espírito. Maria leva no seu seio o Filho de Deus concebido pela obra do Espírito Santo. E a presença do Espírito Santo em Isabel faz com que Isabel glorifique a Deus. Por isso, o encontro entre Maria e sua prima Isabel é uma espécie de “pequeno Pentecostes”. Onde entra o Espírito Santo, ai entra também paz, alegria e vida divina.

Quando Maria saudou Isabel, o menino, no ventre de Isabel(João Batista), saltou de alegria. Para Lucas essa indicação tem um sentido teológico. Para Lucas Jesus é o Deus que vem ao encontro dos homens para oferecer a salvação/libertação que conseqüentemente provoca a alegria, um estremecimento incontrolável de alegria por parte daqueles que esperam a chegada do Salvador.

Se acreditarmos que Jesus está dentro de nós, nos comportaremos como Maria: seremos portadores de alegria no Senhor para os outros. O nosso encontro com os outros fará brotar neles a alegria pela presença do Messias, a docilidade ao Espírito, o louvor a Deus.

Além de despertar a alegria de João Batista no ventre de sua mãe, as palavras de saudação e agradecimento dirigidas por Isabel a Maria despertaram nela uma maravilhosa profissão de fé. Coisa semelhante acontece com cada um de nós. Lemos ou escutamos a Palavra de Deus ou lemos um bom livro espiritualmente. E quantas vezes tudo isso nos toca o coração e faz brotar dos lábios uma oração de louvor. Maria reconhece que o amor misericordioso do Senhor a tocou; e tocando-a, tocou a humanidade inteira. Por isso é que Isabel a proclama “bem-aventurada”. Por Maria e nela, todos os homens reconhecem o amor infinito e misterioso de Deus(Jo 3,16). Todos nós temos necessidade de que um outro nos revele a nós mesmos. É grande graça na vida de uma pessoa encontrar um mestre de espírito que lhe indique o seu nome, a sua vocação, a sua missão.

A Mãe de Deus que leva Jesus em seu seio é a causa de alegria. Quando estivermos cheios de Jesus Cristo em nosso coração, a nossa presença traz alegria e a paz para a convivência. A ausência de Cristo em nosso coração produz problemas e discórdias na convivência. O encontro de duas pessoas benditas sempre causa alegria: Maria causa alegria em Isabel e Jesus em pequeno João Batista. Ao contrário, o encontro de duas pessoas não benditas sempre causa angústia e mal-estar na convivência. Cada cristão deve fazer os encontros felizes e alegres com os outros. E isso só pode acontecer se houver lugar para Cristo em nosso coração. Precisamos engravidar Jesus Cristo para fazê-lo nascer para os outros. Por isso, vale a pena cada um se perguntar: Que tipo de encontro que fazemos diariamente: de pessoas benditas ou de pessoas não benditas?

Na narração da visitação, Isabel, “cheio do Espírito Santo” acolhendo Maria em sua casa, exclama: ”Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu”. Esta bem-aventurança, a primeira que se encontra no evangelho de Lucas, apresenta Maria como a mulher que com sua fé precede à Igreja na realização do espírito das bem-aventuranças. Maria, crendo na possibilidade do cumprimento do anúncio, interpela ao Mensageiro divino somente a modalidade de sua realização para corresponder melhor à vontade de Deus a que quer aderir-se e entregar-se com total disponibilidade. “Buscou o modo; não duvidou da onipotência de Deus”, comentou Santo Agostinho (Serm. 291). Maria se adere plenamente ao projeto de Deus sem subordinar seu consentimento à concessão de um sinal visível. É uma entrega total ao projeto de Deus. É uma confiança sem reservas à vontade de Deus: “Faça-se em mim segundo Vossa palavra!”. Maria tem muito a dizer sobre a vivência de nossa fé na nossa vida cotidiana.

Anunciação-Visita a Isabel e Ação Pastoral

Na anunciação Maria faz perguntas para ter certeza sobre sua missão de ser Mãe do Salvador (cf. Lc 1,26-37). Quando tudo se torna certo, Maria diz seu Sim a Deus radicalmente. Maria deixa a Palavra de Deus entrar em sua vida e ela é fecundada pelo Salvador. Jesus, o Salvador, que está no seio de Maria já empurra Maria para a ação pastoral, isto é, ir ao encontro de Isabel que está precisando da presença de Maria. Maria poderia pensar em si mesma, na sua gravidez. Mas ela pensa no outro e vai ao encontro do outro.

Quem permitir e viver o mistério da Anunciação, será fecundado como Maria. Quem não é fecundado, não é feliz. Com a fecundação e a fecundidade na vivência do mistério da Anunciação, eu serei capaz de sair de mim mesmo para a ação pastoral como Maria visitou Isabel na sua necessidade. Se permitirmos a entrada da Palavra de Deus na nossa vida, ficaremos fecundados e seremos capazes de fazer Jesus nascer para o mundo.

É preciso fazer uma ligação entre a Anunciação e a Ação Pastoral. Sem a Anunciação, isto é, sem ser fecundado pela Palavra de Deus, a ação pastoral se torna estéril. A Anunciação sem a Ação Pastoral se torna um isolamento estéril e mortal.

Maria Que É Uma Mulher Bendita Nos Ensina A Crer Na Palavra De Deus

“Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre”(Lc 1,42), exclamou Isabel. No AT a semelhante bênção se encontra nos cânticos de louvores às mulheres da história de Israel(cf. Jz 5,24;Jt 13,18).No AT Jael (Jz 5,24) e Judite (Jt 13,18) são benditas porque foram transformados em instrumentos de Deus para destruir guerreiros inimigos e libertar Israel.

Maria é bendita porque o menino que está no seu ventre é bendito, pois Ele é o Salvador. Além disso, Maria é bendita porque obedeceu à Palavra de Deus sem reservas que torna possível a encarnação de Deus. Maria, por excelência, está dentro daquilo que Jesus diz: “Felizes, antes, os que ouvem a Palavra de Deus e a observam” (Lc 11,28). Para Lc para que cada família natural se transforme em verdadeira família de Jesus Cristo, ela deve cumprir o critério de discipulado que é escutar e viver a Palavra de Deus como critério de conduta diariamente. O verdadeiro discípulo é aquele que junta o ouvir e o observar na vivência da Palavra de Deus. Por obedecer à Palavra de Deus e vivê-la Maria é considerada uma discípula de Jesus por excelência. Maria também é bendita por causa de sua fé. O Fiat pronunciado por Maria (Lc 1,38) supõe uma fé profunda, uma fé que não se abala em circunstâncias desfavoráveis. Maria continua acreditando no cumprimento da Palavra de Deus apesar das obscuridades. Esse tipo de fé é digno de uma bem-aventurança: “Feliz aquela que creu, pois o que lhe foi dito da parte do Senhor será cumprido”(Lc 1,45).

Em latim a palavra “crer” é “credere” que provém de duas palavras: “cor” e “dare” que significa “dar o coração, entregar-se, e encontra em Deus a felicidade profunda do ser humano”. Fé é firmar os pés, confiar enraizar-se e estar ancorado em Deus. E firmar os pés em Deus é ser feliz: “bendita aquela que creu”. É preciso imitar o modo de viver de Maria para sermos felizes como ela.
P. Vitus Gustama,svd

sábado, 27 de maio de 2017


30/05/2017
Resultado de imagem para Pai, chegou a hora. Glorifica o teu Filho, para que o teu Filho te glorifique a ti
Resultado de imagem para Pai, chegou a hora. Glorifica o teu Filho, para que o teu Filho te glorifique a ti

REZAR MELHOR QUEM AMA O PRÓXIMO


Terça-Feira da VII Semana da Páscoa


Primeira Leitura: At 20,17-27


Naqueles dias, 17 de Mileto, Paulo mandou um recado a Éfeso, convocando os anciãos da Igreja. 18 Quando os anciãos chegaram, Paulo disse-lhes: “Vós bem sabeis de que modo me comportei em relação a vós, durante todo o tempo, desde o primeiro dia em que cheguei à Ásia. 19 Servi ao Senhor com toda a humildade, com lágrimas e no meio das provações que sofri por causa das ciladas dos judeus. 20 Nunca deixei de anunciar aquilo que pudesse ser de proveito para vós, nem de vos ensinar publicamente e também de casa em casa. 21 Insisti, com judeus e gregos, para que se convertessem a Deus e acreditassem em Jesus nosso Senhor. 22 E agora, prisioneiro do Espírito, vou para Jerusalém sem saber o que aí me acontecerá. 23 Sei apenas que, de cidade em cidade, o Espírito Santo me adverte, dizendo que me aguardam cadeias e tribulações. 24Mas, de modo nenhum, considero a minha vida preciosa para mim mesmo, contanto que eu leve a bom termo a minha carreira e realize o serviço que recebi do Senhor Jesus, ou seja, testemunhar o Evangelho da graça de Deus. 25 Agora, porém, tenho a certeza de que vós não vereis mais o meu rosto, todos vós entre os quais passei anunciando o Reino. 26 Portanto, hoje dou testemunho diante de todos vós: eu não sou responsável se algum de vós se perder, 27 pois não deixei de vos anunciar todo o projeto de Deus a vosso respeito”.


Evangelho: Jo 17,1-11ª


Naquele tempo, 1Jesus ergueu os olhos ao céu e disse: “Pai, chegou a hora. Glorifica o teu Filho, para que o teu Filho te glorifique a ti, 2e, porque lhe deste poder sobre todo homem, ele dê a vida eterna a todos aqueles que lhe confiaste.3Ora, a vida eterna é esta: que eles te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e àquele que tu enviaste, Jesus Cristo. 4Eu te glorifiquei na terra e levei a termo a obra que me deste para fazer. 5E agora, Pai, glorifica-me junto de ti, com a glória que eu tinha junto de ti antes que o mundo existisse.6Manifestei o teu nome aos homens que tu me deste do meio do mundo. Eram teus, e tu os confiaste a mim, e eles guardaram a tua palavra. 7Agora eles sabem que tudo quanto me deste vem de ti, 8pois dei-lhes as palavras que tu me deste, e eles as acolheram, e reconheceram verdadeiramente que eu saí de ti e acreditaram que tu me enviaste.9Eu te rogo por eles. Não te rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus. 10Tudo o que é meu é teu e tudo o que é teu é meu. E eu sou glorificado neles. 11aJá não estou no mundo, mas eles permanecem no mundo, enquanto eu vou para junto de ti”.
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Ser Evangelizador é Viver Totalmente Sob o Impulso Do espirito Santo


A Primeira Leitura fala da despedida de São Paulo de Éfeso. As constantes perseguições dos judaizantes obrigam São Paulo a modificar continuamente seus planos de viagem. Ele está sempre acusado pelos judaizantes.


Esse discurso de despedida de São Paulo é um verdadeiro testamento pastoral, está destinado especialmente aos que exercem um cargo ou uma responsabilidade na Igreja. Há aqui o retrato do “apóstolo” segundo São Paulo.


Em primeiro lugar, o serviço na humildade: “Servi ao Senhor com toda a humildade”. O que diz não é sua própria palavra. São Paulo é servidor do Senhor na humildade. Por causa desta humildade, São Paulo se desprende de qualquer suficiência, de qualquer orgulho para estar sempre e exclusivamente ao serviço do Senhor.


Em segundo lugar, toda vida cristã autentica está marcada pela cruz: “Servi ao Senhor com toda a humildade, com lágrimas e no meio das provações...”. O servidor não está acima do seu Senhor: “Se o mundo vos odeia, sabeis que me odiou a mim antes que a vós” (Jo 15,18). O apostolado não é um tranquilo entretenimento. Toda responsabilidade na Igreja, toda vida cristã autentica estão marcadas pela cruz.  Cada um de nós tem sua cruz. Cada cruz tem sua história e cada história ou apostolado tem sua cruz. Mas toda prova, toda cruz tem valor, quando sabemos associá-la à redenção. A redenção do mundo se faz da maneira que Jesus Cristo estabeleceu.


Em terceiro lugar, um cristão evangeliza com valentia, segurança e audácia: “Nunca deixei de anunciar aquilo que pudesse ser de proveito para vós, nem de vos ensinar publicamente e também de casa em casa. Insisti, com judeus e gregos, para que se convertessem a Deus e acreditassem em Jesus nosso Senhor”. “Nunca deixei de anunciar”. Esta fórmula deixa supor que alguma vez, São Paulo tenha sentido a tentação de acovardar-se, de fugir, de calar-se, de renunciar.


Em quarto lugar, deixar-se conduzir até o fim pelo Espirito Santo: “Agora, prisioneiro do Espírito, vou para Jerusalém sem saber o que aí me acontecerá. Sei apenas que, de cidade em cidade, o Espírito Santo me adverte, dizendo que me aguardam cadeias e tribulações”. Este é o motor profundo da ação apostólica de São Paulo: a força do Espirito Santo que habita nele. Ele disse que “prisioneiro do Espirito”. Isto quer nos dizer que São Paulo não faz o que quer. Ele vai para onde o Espirito de Deus o leva. É uma aventura integral, sem nenhuma previsão possível. Ele simplesmente e totalmente vive sob a direção do Espirito de Deus. Desta maneira é que São Paulo terminou sua missão.


Momento Da Morte De Quem Vive De Acordo Com a Vontade De Deus É o Momento De Glorificação


Estamos ainda no discurso de despedida de Jesus dos seus discípulos no Evangelho de João (Jo 13-17). Nos grandes textos de despedida na Bíblia (cf. Dt 32-33; At 20,17-35), o herói termina seu discurso por uma prece, hino ou bênção. O evangelho de João segue esse modelo. Neste sentido Jo 17 é considerado como o ponto alto do discurso da despedida de Jesus neste evangelho.


Na presença dos discípulos Jesus se dirige ao Pai na oração. O dialogo de Jesus com o Pai nesta oração de despedida reflete, em toda a sua amplitude, o desígnio do Pai que motivou o enviou do filho (Jo 3,16).  E Jesus realizou esse desígnio ao manifestar o Nome para aqueles que o Pai lhe deu. Em outras palavras, nesta oração Jesus fala do cumprimento de sua missão que consiste em manifestar o nome de Deus aos homens, em transmitir-lhes a Palavra de Deus que tem como resultado a fé em Deus. Depois que cumpriu sua missão e parte visivelmente, Cristo deixa para a comunidade eclesial como “sacramento”, sinal eficaz de sua presença salvadora.


Agora chegaram a “hora” e a “glória” de Jesus (é uma forma de dizer a morte e a glorificação/ressurreição de Jesus). Os conceitos “hora” e “glória” têm em João (Quarto Evangelho) uma grande densidade. Trata-se do momento em que se manifestará mais palpavelmente a salvação, a vida divina que se oferece aos homens: a entrega obediente de Cristo à morte, Sua Ressurreição e Sua volta para a glória do Pai. Nesta “hora” pascal acontece quando Cristo participa mais plenamente da “glória” de Deus. E esta mesma “hora” pascal vai continuar ou vai acontecer também com os cristãos, se eles sofrerem por ser cristãos, seguidores de Cisto.   


Jesus, que está para voltar ao Pai (morte), reza pelos seus que estão ainda no mundo para que também realizem o desígnio do Pai: Eu te rogo por eles. Não te rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus. Tudo o que é meu é teu e tudo o que é teu é meu. E eu sou glorificado neles. Já não estou no mundo, mas eles permanecem no mundo, enquanto eu vou para junto de ti”. Nesta oração, Jesus, o Intercessor divino junto ao Pai e a comunidade cristã se entrelaçam como uma unidade espiritual.


Na sua oração que concluiu seu discurso, Jesus interpreta sua morte como passo para a vida, como um momento de glorificação, e seu aparente fracasso é considerado como o verdadeiro êxito. Jesus manifesta em sua oração uma confiança inquebrantável no Pai e um amor entranhável para seus discípulos, e uma esperança que sabe se sobrepor, e ninguém pode dominá-Lo. Jesus é livre e libertador. Somente quem é livre pode libertar os outros. Quem foge é porque não está livre.


A oração é sempre uma práxis de libertação, porque orar é recorrer ao Pai sem esquecer-se dos homens, nossos irmãos; orar é abrir-se ao Outro e conseqüentemente, a qualquer outro; orar é libertar-se do egoísmo para o amor, pois o outro é evado conosco na oração. Quem entra em oração está em comunhão com Deus. E quem está em comunhão com Deus, está em ligação com os demais homens. A comunidade que ama é a comunidade que reza melhor. Uma pessoa que ama é a pessoa que reza melhor. Depois da ascensão de Jesus ao céu, a pequena comunidade de seus discípulos se reúne em oração (Lc 24,50-53). A Igreja aprende na oração o caminho da liberdade e é uma das expressões da liberdade. Orar é estar em comunhão amorosa com Deus, pois Ele é o Pai de todos (cf. Jo 20,17). Quem ora, acredita e quem acredita, precisa orar


Na sua oração Jesus roga, primeiramente por si mesmo, para que se realize plenamente a missão que lhe foi confiada (vv. 1-5). Por seis vezes Jesus repete a palavra “Pai” na oração. Neste sentido, a palavra “Pai” é um nome que qualifica Deus como origem, da qual tudo provem como dom, amor e proteção e por isso, a salvação. Jesus se sente inteiramente Filho e quer continuar vivendo esses momentos transcendentais de sua vida a partir de seu ser de Filho. Por isso, diante de sua morte iminente Jesus está completamente tranqüilo, pois ele sabe de sua vitoria sobre o mundo (cf. Jo 16,33).


Com esta oração Jesus nos ensina que o caminho da glorificação é a obediência aos mandamentos de Deus que se resumem na vivência do amor fraterno. Na cruz o amor de Deus por nós aparece em toda sua plenitude, seu esplendor e sua força vitoriosa. Só o amor justifica a cruz. Por isso, não é o poder que há no mundo e que normalmente se transforma em opressão e domínio de uns homens sobre outros que reina, e sim o poder-serviço (Jo 13,12-17) que surge do amor e se manifesta em obras em favor dos homens, o poder que brota do coração e cria comunidade de irmãos. O amor sempre resulta na formação de uma comunidade de irmãos. Sem amor não haverá comunidade e não haverá a salvação. No amor praticado em me vejo no outro. No verdadeiro amor eu sou o outro e o outro é eu próprio. Todos nós somos um.


Nesta oração Jesus pede: “A vida eterna é esta: que eles te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e àquele que tu enviaste, Jesus Cristo”. Aqui não se trata de um conhecimento intelectual e sim experiencial, imediato, pessoal e vital; um conhecimento que só pode ser adquirido na intimidade do amor; é um conhecimento que é vida. Neste sentido, conhecer Deus, plenitude de vida para sempre, se identifica com a vida eterna. Deus é o verdadeiro presente e futuro do homem, pois não há nada no mundo que possa encher e preencher seu coração. Conhecer Jesus significa imitar seu modo de viver, tê-lo como único modelo a seguir. Nesse seguimento, encarnado na vida diária, vamos conhecendo o único Deus: na completa entrega a Ele, demonstrada no serviço-amor aos que nos rodeiam.


Neste texto Jesus reza por nós todos e tenhamos consciência da força dessa oração: “Eu te rogo por eles. Não te rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus. Tudo o que é meu é teu e tudo o que é teu é meu. E eu sou glorificado neles. Já não estou no mundo, mas eles permanecem no mundo, enquanto eu vou para junto de ti”. O Senhor reza por mim; Ele reza por nós. É a grande notícia para nós todos! Eu preciso continuar minha luta pela dignidade dos meus irmãos em Cristo, pois há alguém que reza por mim: o próprio Senhor Jesus Cristo.


P. Vitus Gustama,svd