terça-feira, 30 de maio de 2017


01/06/2017

UNIDADE NA FÉ E NO AMOR É PRIMORDIAL PARA O TESTEMUNHO CRISTÃO

Quinta-Feira da VII Semana da Páscoa

Primeira Leitura: At 22,30; 23,6-11

Naqueles dias, 30 querendo saber com certeza por que Paulo estava sendo acusado pelos judeus, o tribuno soltou-o e mandou reunir os chefes dos sacerdotes e todo o conselho dos anciãos. Depois fez trazer Paulo e colocou-o diante deles. 23,6 Sabendo que uma parte dos presentes eram saduceus e a outra parte eram fariseus, Paulo exclamou no conselho dos anciãos: “Irmãos, eu sou fariseu e filho de fariseus. Estou sendo julgado por causa da nossa esperança na ressurreição dos mortos”. 7 Apenas falou isso, armou-se um conflito entre fariseus e saduceus, e a assembleia se dividiu. 8 Com efeito, os saduceus dizem que não há ressurreição, nem anjo, nem espírito, enquanto os fariseus sustentam uma coisa e outra. 9 Houve, então, uma enorme gritaria. Alguns doutores da Lei, do partido dos fariseus, levantaram-se e começaram a protestar, dizendo: “Não encontramos nenhum mal neste homem. E se um espírito ou anjo tivesse falado com ele?” 10 E o conflito crescia cada vez mais. Receando que Paulo fosse despedaçado por eles, o comandante ordenou que os soldados descessem e o tirassem do meio deles, levando-o de novo para o quartel. 11 Na noite seguinte, o Senhor aproximou-se de Paulo e lhe disse: “Tem confiança. Assim como tu deste testemunho de mim em Jerusalém, é preciso que tu sejas também minha testemunha em Roma”.

Evangelho: Jo 17,20-26

Naquele tempo, Jesus ergueu os olhos ao céu e rezou, dizendo: 20“Pai santo, eu não te rogo somente por eles, mas também por aqueles que vão crer em mim pela sua palavra; 21para que todos sejam um como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, e para que eles estejam em nós, a fim de que o mundo creia que tu me enviaste. 22Eu dei-lhes a glória que tu me deste, para que eles sejam um, como nós somos um: 23eu neles e tu em mim, para que assim eles cheguem à unidade perfeita e o mundo reconheça que tu me enviaste e os amaste, como me amaste a mim. 24Pai, aqueles que me deste, quero que estejam comigo onde eu estiver, para que eles contemplem a minha glória, glória que tu me deste porque me amaste antes da fundação do universo. 25Pai justo, o mundo não te conheceu, mas eu te conheci, e estes também conheceram que tu me enviaste. 26Eu lhes fiz conhecer o teu nome, e o tornarei conhecido ainda mais, para que o amor com que me amaste esteja neles, e eu mesmo esteja neles”.
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Ser Testemunha Do Cristo Ressuscitado Em Qualquer Lugar Onde Nos Encontramos

Tem confiança. Assim como tu deste testemunho de mim em Jerusalém, é preciso que tu sejas também minha testemunha em Roma”.

Jerusalém, Atenas e Roma eram três cidades-símbolo nos tempos São Paulo. Jerusalém representava a cidade santa do judaísmo e o lugar em que sucederam os acontecimentos centrais da vida de Jesus. No relato de Lucas, autor dos Atos, a partir de Jerusalém é que Jesus envia os discípulos como testemunhas do Senhor para o resto do mundo (At 1,8). Para a teologia de Lucas Jerusalém é particularmente importante. Atenas simbolizava a sabedoria. Roma era o centro do império.

São Paulo deu testemunho de Jesus em Jerusalém e em Atenas, Grécia, isto é, nos círculos religiosos e culturais. Está faltando o testemunho para o centro do império: Roma. “Tem confiança. Assim como tu deste testemunho de mim em Jerusalém, é preciso que tu sejas também minha testemunha em Roma”. São palavras do próprio Senhor ressuscitado para Paulo. Como veremos mais adiante, Roma será testemunha da palavra eloqüente de São Paulo, mas, ao mesmo tempo, será o cenário de sua prisão e de sua morte. Paulo será julgado na cidade onde reside o próprio poder que julgou Jesus. A hora da morte vincula intimamente Jesus e o discípulo, São Paulo.

Quem, como São Paulo, decide firmemente ser testemunha do Senhor, esteja preparado para encarar as dificuldades e espinhos do caminho deste testemunho. Mas, no fim deste caminho a exemplo do próprio Senhor Jesus, haverá uma vida glorificada e o mundo será obrigado a reconhecê-la. Para ser perseverante neste caminho, temos que estar preparados e abertos ao Espírito de Deus a exemplo de São Paulo. Nossa vida cristã e evangelizadora se dará sempre no contexto do mundo no qual nos tocou a viver e no lugar que servimos. Não temos outra forma, como São Paulo, de mostrar e colocar em destaque a verdade, a justiça e o amor que professamos. Vivamos no mundo como filhos e filhas de Deus, fruto da conquista de Jesus Cristo que nos revelou Deus como Pai de todos, como rezamos na oração do Pai-Nosso.

A Vida Ressuscitada É O Futuro Garantido Para Quem Testemunhar Jesus Ressuscitado

Irmãos, eu sou fariseu e filho de fariseus. Estou sendo julgado por causa da nossa esperança na ressurreição dos mortos”.

Estas palavras são ditas por São Paulo diante do Sinédrio em Jerusalém onde se encontram dois grandes correntes religiosos: saduceus e fariseus. Os saduceus não acreditam na ressurreição. Para eles a vida termina aqui neste mundo e por isso, salve-se quem puder e quiser e aproveite o hoje (Carpe Diem!). Por isso, neste grupo há muita separação e a divisão entre uma vida dentro do Templo e outra vida fora do Templo em que uma não se apóia na outra. Os fariseus, ao contrário, acreditam na ressurreição e são muito fieis à Lei de Moisés. Por isso, são rigorosos no cumprimento da lei ao pé da letra. Por causa destes dois correntes religiosos a frase de São Paulo “Estou sendo julgado por causa da nossa esperança na ressurreição dos mortos” provoca um barulho no grande Conselho (Sinédrio): “Apenas falou isso, armou-se um conflito entre fariseus e saduceus, e a assembleia se dividiu”.

São Paulo não perde nenhuma oportunidade de anunciar/pregar de que a vida não termina com a morte, pois o Senhor ressuscitou (cf. 1Cor 15,3-11; 2Cor 5,1-10). A ressurreição do Senhor nos garante que a vida não pertence ao cemitério, à morte e sim a morte pertence à vida quem aceita o Senhor ressuscitado que venceu a morte. A morte se torna apenas uma passagem para viver a vida em sua plenitude. São Paulo não tem medo de ser testemunha do Senhor ressuscitado mesmo que sofra bastante por causa disso e vai terminar na decapitação dele em Roma. Numa de suas Cartas São Paulo conta o número de golpes recebidos (cf. 2Cor 11,23-24).

Quando soubermos o que queremos alcançar na vida, qual é o objetivo de nossa vida ou existência, o que queremos ser, nós nos esforçaremos em alcançá-lo, custe o que custar. Quem vive sem objetivo claro, também não há grandes coisas na sua vida. Não vale a pena viver sem objetivo, sem valores, sem horizontes.

A Comunhão Plena Com o Senhor Nos Torna Fatores De Unidade Na Convivência Com Os Demais

“Pai santo, eu não te rogo somente por eles, mas também por aqueles que vão crer em mim pela sua palavra; para que todos sejam um como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, e para que eles estejam em nós, a fim de que o mundo creia que tu me enviaste”.

Estamos na terceira e última parte da oração de Jesus no seu discurso de despedida (Jo 13-17).

Nesta oração Jesus se lembra dos futuros cristãos: “Pai santo, eu não te rogo somente por eles, mas também por aqueles que vão crer em mim pela sua palavra”. Os discípulos da primeira geração receberam direitamente a palavra ou os ensinamentos do próprio Jesus. Eles aceitam e acreditam nos ensinamentos de Jesus e por isso passam a fazer parte da missão de Jesus: “Como tu me enviaste ao mundo, assim também eu os enviei ao mundo” (Jo 17,18).

A palavra dada ou passada para os discípulos da primeira geração continua a atuar no mundo através de outras gerações, fruto da missão dos primeiros discípulos. E sempre haverá pessoas que pelo testemunho dos cristãos (testemunho e anúncio) passam a acreditar em Jesus, como o Salvador do mundo. Para estas pessoas é que Jesus rezou. Neste sentido nós éramos objeto de oração de Jesus. Quem bom que Jesus rezou por nós. Que bom que Jesus pensava em nós. Isso nos dá força e ânimo para continuar nossa missão como cristãos que atuamos como a luz do mundo e o sal da terra (cf. Mt 5,13-14).

Na sua oração Jesus tem em vista a Igreja de todos os tempos. Neste contexto, quando Jesus rezou: “Para que todos sejam um” podemos entender este “todos” na sua dimensão de tempo e espaço. A unidade na fé como questão primordial faz uma ligação profunda entre a Igreja cristã primitiva com a Igreja de todos os tempos e lugares. A fé no mesmo Senhor é que torna crível qualquer comunidade que usa o nome “cristão” diante do mundo.

O centro da oração de Jesus é a súplica pela unidade dos discípulos. E tem seu princípio e modelo na união entre o Pai e o Filho e tem seu objetivo e finalidade: dar testemunho de Jesus e ajudar a crer. A comunidade somente pode alcançar a unidade se ela permanecer na união com Jesus. Quem não está unido a Cristo, cria divisão dentro de si próprio e entre as pessoas. A unidade da comunidade é condição prévia para a união com o Pai e Jesus. Conseqüentemente, a unidade dos cristãos é o sinal vivo da unidade de Cristo com seu Pai.

Além disso, a unidade é a expressão e a prova mais evidente do amor. Porque esta unidade pela qual Jesus suplica ao Pai somente é possível quando os membros da comunidade se amam de tal maneira que cada um se entrega aos demais sem limite. Aqueles que não amam não podem ter conhecimento e um trato verdadeiro com Deus. Por isso, é essencial recordar que a comunhão com Jesus é impossível sem o amor fraterno. Assim como o amor fraterno cria unidade, assim a comunhão com Jesus deve criar a comunhão entre os cristãos.

A unidade perfeita é o único argumento capaz de convencer a humanidade. Santo Agostinho dizia: “Quem abandona a unidade faz-se desertor da caridade. E se deserta da caridade, mesmo que possua tudo o mais, se reduz a nada” (Serm. 88,18,21). Conseqüentemente, o cristão deixará de ser pessoa crível. “A soberba gera a divisão. A caridade, a comunhão”, acrescentou Santo Agostinho. (Serm. 46,18). Se for assim, conseqüentemente, o cristão deixará de ser pessoa crível no mundo (cf. Mt 5,13bc). A «divisão contradiz abertamente a vontade de Cristo, e é escândalo para o mundo, como também prejudica a santíssima causa da pregação do Evangelho a toda a criatura ». (Unitatis Redintegratio,1 do Concilio Vaticano II)

Esta unidade, efeito visível de um amor incondicional, se manifesta num serviço que chega até o dom da própria vida. Este amor-unidade vivido na comunidade provocará a fé do mundo. Quem ama tende a transformar-se no amado. O amor leva a querer estar sempre juntos.  O amor supõe uma participação. Por isso, podemos nos aproximar de Deus pela experiência humana do amor e da unidade. Toda mensagem cristã perde todo seu valor se prescindir do amor. A unidade da comunidade não é em primeiro lugar um problema de organização, ou um problema social, e sim uma realidade espiritual. São Paulo enfatiza bastante este aspecto espiritual ao dizer: “Sede humildes, pacíficos, pacientes, suportai-vos mutuamente no amor, procurai conservar a unidade do espírito pelos laços da paz. Um corpo e um espírito, como vos foi dada uma esperança comum pela vossa vocação, um Senhor, uma fé, um batismo, um Deus e Pai de todos que está acima de todos e em todos” (Ef 4,3-6).

Conseqüentemente, a própria comunidade cristã não é a garantia para a unidade, no sentido de que a comunidade cristã não é a fonte da unidade. Somente pela união constante com Jesus é que a comunidade cristã pode alcançar a unidade entre seus membros e testemunhá-la para o mundo. Isto significa que a unidade é uma dádiva de Cristo presente na comunidade. Santo Inácio de Antioquia escreveu: “O Senhor adverte e diz: ‘Quem não está comigo, está contra mim, e quem não ajunta comigo, dispersa’. Quem quebra a paz e a unidade de Cristo, age contra Cristo; quem de qualquer maneira procura ajuntar fora da Igreja, divide a Igreja de Cristo... Quem não mantém esta unidade, não obedece à lei de Deus, não mantém a fé em Deus, no Pai e no Filho, não mantém a vida e a salvação” (A unidade da Igreja católica, cap. 6). Na Bíblia o verbo “unir”/“reunir” é sinônimo de “salvar”. Tanto que a missão de Cristo como Bom pastor é reunir os homens em “um só rebanho”, isto é, um só Povo de Deus (cf. Jo 10,14-16).

Então, Verdade, Unidade e Amor são três palavras que, segundo o evangelista João na oração neste capitulo 17, sintetizam a missão e a tarefa da comunidade cristã e de cada cristão no mundo. A autêntica oração cristã que é um abrir-se à vontade de Deus não é somente um pedido e sim uma oferenda, consagração e resposta. O cristão existe para os demais: para aproximar-se dos demais, para unir, para dialogar, para servir, para libertar, para trabalhar no grande projeto de salvação que não é dos cristãos e sim de Deus.  

A última petição de Jesus por todos os cristãos, seus discípulos é que estes estejam um dia com ele no céu: “Pai, quero que, onde eu estou, estejam comigo aqueles que me deste, para que vejam a minha glória que me concedeste, porque me amaste antes da criação do mundo”.  Equivale a pedir para eles a vida definitiva.  Para sermos cidadãos do céu temos que viver na terra na verdade, na unidade e no amor.

Em cada celebração, em cada Eucaristia celebrada temos que pedir o perdão ao Senhor pela divisões e desunião que criamos dentro da Igreja do Senhor. Se o Senhor rezou tanto pela unidade dos cristãos, temos rezar pela mesma e procurar sempre a reconciliação. “Pouco importa quanto fazes tu, o que importa é quanto amas. A medida do amor é o amor sem medida. Quando se enfraquece o amor, também se enfraquece o fervor” (Santo Agostinho).
P. Vitus Gustama,svd

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