terça-feira, 27 de junho de 2017

28/06/2017
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O CRISTÃO É RECONHECIDO PELA MANEIRA DE VIVER SUA FÉ E NÃO PELA MANEIRA DE REZAR


Quarta-Feira da XII Semana Comum


Primeira Leitura: Gn 15,1-12.17-18
Naqueles dias, 1 o Senhor falou a Abrão, dizendo: “Não temas, Abrão! Eu sou o teu protetor e tua recompensa será muito grande”. 2 Abrão respondeu: “Senhor Deus, que me darás? Eu me vou desta vida sem filhos e o herdeiro de minha casa será Eliezer de Damasco”. 3 E acrescentou: “Como não me deste descendência, um servo nascido em minha casa será meu herdeiro”. 4 Então o Senhor falou-lhe nestes termos: “O teu herdeiro não será esse, mas um dos teus descendentes é que será o herdeiro”. 5 E, conduzindo-o para fora, disse-lhe: “Olha para o céu e conta as estrelas, se fores capaz!” E acrescentou: “Assim será a tua descendência”. 6 Abrão teve fé no Senhor, que considerou isso como justiça. 7 E lhe disse: “Eu sou o Senhor que te fez sair de Ur dos Caldeus, para te dar em possessão esta terra”. 8 Abrão lhe perguntou: “Senhor Deus, como poderei saber que vou possuí-la?” 9 E o Senhor lhe disse: “Traze-me uma novilha de três anos, uma cabra de três anos, um carneiro de três anos, além de uma rola e de uma pombinha”. 10 Abrão trouxe tudo e dividiu os animais pelo meio, mas não as aves, colocando as respectivas partes uma diante da outra. 11 Aves de rapina se precipitaram sobre os cadáveres, mas Abrão as enxotou. 12 Quando o sol já se ia pondo, caiu um sono profundo sobre Abrão e ele foi tomado de grande e misterioso terror. 17 Quando o sol se pôs e escureceu, apareceu um braseiro fumegante e uma tocha de fogo, que passaram por entre os animais divididos. 18 Naquele dia, o Senhor fez aliança com Abrão, dizendo: “Aos teus descendentes darei esta terra, desde o rio do Egito até o grande rio, o Eufrates”.


Evangelho: Mt 7,15-20
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 15 “Cuidado com os falsos profetas: Eles vêm até vós vestidos com peles de ovelha, mas por dentro são lobos ferozes. 16 Vós os conhecereis pelos seus frutos. Por acaso se colhem uvas de espinheiros ou figos de urtigas? 17 Assim, toda árvore boa produz frutos bons, e toda árvore má, produz frutos maus. 18 Uma árvore boa não pode dar frutos maus, nem uma árvore má pode produzir frutos bons. 19 Toda a árvore que não dá bons frutos é cortada e jogada no fogo. 20 Portanto, pelos seus frutos vós os conhecereis”.
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Fé No Deus Da Promessa Que Pode Tardar, Mas Não Falha, Pois Ele é Fiel a Si Próprio


Senhor Deus, que me darás? Eu me vou desta vida sem filhos”, disse Abraão a Deus. Ao que Deus lhe responde: “Olha para o céu e conta as estrelas, se fores capaz! Assim será a tua descendência”. É o pedaço do diálogo entre Abraão e Deus que lemos na Primeira Leitura.


O grande sofrimento de Abraão é não ter filhos. Havia o conceito na época de que viver sem filhos (descendentes) significava viver sem bênção de Deus. Mas Abraão continua a depositar sua fé no Deus da promessa, no Deus do porvir. Ao próprio Deus é que ele se dirige numa oração simples e profunda que se mistura com grito e esperança: “Senhor Deus, que me darás? Eu me vou desta vida sem filhos”.


Deus promete uma descendência numerosa como as estrelas. Aparentemente é impossível do ponto de vista humano, pois Sara é estéril e de idade avançada. Abraão é velho. É o conflito entre fé em Deus diante de uma realidade aparentemente sem solução. Vou continuar a confiar em Deus enquanto a realidade me diz que não adianta pela impossibilidade de uma solução.


Milhares de anos depois, nós sabemos que essa promessa se realizou. Milhões de judeus, de árabes e de cristãos honramos a Abraão como nosso pai comum. Abraão é o pai dos judeus, dos muçulmanos, dos cristãos. Por isso, nós (judeus, mulçumanos e cristãos) deveríamos viver aquilo que Abraão dizia para Ló: “Não deve haver discórdia entre nós e entre os nossos pastores, pois somos irmãos” (Gn 13,8). Nilton Bonder escreveu: “Tenho que tirar meus sapatos e reconhecer o outro como aquele que pisa o mesmo chão sagrado, que existe independentemente da mina sola” (Tirando Os Sapatos: o Caminho de Abraão, Um Caminho Para o Outro p.189).


Temos que ter coragem de dirigir nosso olhar para o futuro de Deus com fé, pois Deus é o Dono do impossível. O mundo não acabou. O porvir está nas mãos de Deus. Nossa fé deve ser dirigida para o porvir de Deus a exemplo de Abraão, ainda que não consigamos ver o resultado imediato.


Temos que estar conscientes de que a fé, a certeza de Deus não suprimem qualquer angústia e obscuridade. Em certos dias o tempo parece interminável, como Abraão espera a chegada do filho apesar da velhice. É assim também nossas vidas de cada dia. Há noites vazias, obscuras. Há momentos em que a prova nos põe em nervosismo. Paradoxalmente, Deus atua precisamente em nós quando estamos vazios de nós mesmos e completamente receptivos para a ação de Deus. Quando tudo parece perdido, como aconteceu na Paixão de Jesus, é certamente quando a salvação pascal está próxima.


Abraão já conhecia sua história, mas seu futuro era como uma parede, como um poço sem fundo. O tempo vai passando, e Deus convida a Abraão a olhar para o céu. Abraão é confrontado com o infinito (o céu, sem saber onde começa e termina). Deus convida Abraão a mover seus olhos cansados para o firmamento sem limites e a renovar sua esperança esgotada na dança das estrelas. Quando tomarmos coragem de dirigir nosso olhar para Deus, para o Infinito, começaremos a entender que o que se passa na nossa vida não se escapa do olhar de Deus. O olhar dirigido para o céu (Deus) é o momento para perguntar a Deus e é o momento de ouvir a resposta de Deus quando tudo está em silêncio, em repouso total. Abraão creu. Viu as estrelas e nelas acredita ver a multidão de filhos que um dia seriamos todos nós. Abraão nos viu no firmamento, no céu e com certeza, um dia chorou de alegria ao ver a esperança que se tornou uma realidade


Abraão é nosso pai na religiosidade, no ato de fé e na caminhada da fé. A vida de Abraão é uma peregrinação de fé desde um ponto de partida até um ponto de chegada, passando por provações e purificações. Quem confia na Palavra de Deus, esteja preparado para a vitória final, como Abraão.


“A fé nasce no encontro com o Deus vivo, que nos chama e revela o seu amor: um amor que nos precede e sobre o qual podemos apoiar-nos para construir solidamente a vida. Transformados por este amor, recebemos olhos novos e experimentamos que há nele uma grande promessa de plenitude e se nos abre a visão do futuro. A fé, que recebemos de Deus como dom sobrenatural, aparece-nos como luz para a estrada orientando os nossos passos no tempo. A fé é luz que vem do futuro, que descerra diante de nós horizontes grandes e nos leva a ultrapassar o nosso « eu » isolado abrindo-o à amplitude da comunhão. Deste modo, compreendemos que a fé não mora na escuridão, mas é uma luz para as nossas trevas” (Carta Encíclica do Papa Francisco: Lumen Fidei n.4).


O Cristão É Reconhecido Pelas Suas Boas Obras


Estamos ainda no Sermão da Montanha (Mt 5-7).  O texto do evangelho de hoje é a última parte da conclusão do Sermão da Montanha (Mt 7). O que conta para Deus é o bem que praticamos. Nossa maneira de viver e de conviver é o parâmetro para saber se realmente rezamos ou se realmente acreditamos em Deus que é o Supremo Bem. O texto do evangelho de hoje serve de verificação para nossas praticas diárias. Afinal, quem é o verdadeiro cristão?


Fazer e Dizer Devem Estar Em Perfeita Sintonia


Nem todo aquele que diz ‘Senhor, Senhor’”. Mais uma vez aparece no evangelho a dialética entre o dizer e o fazer. “Os mais belos pensamentos nada são sem as obras”, porém “O Senhor não olha tanto a grandeza das nossas obras. Olha mais o amor com que são feitas” (Santa Teresa de Jesus). Há quem fale continuamente de Deus (“Senhor, Senhor”) e logo se esquece de fazer sua vontade. Há quem se faça a ilusão de trabalhar pelo Senhor (“profetizamos em teu nome, expulsamos os demônios, fizemos milagres”), mas logo, no dia das contas, no dia da verdade, acontece que o Senhor não o conhecerá: “Jamais vos conheci. Afastai-vos de mim”. “Reza bem quem vive bem” (Santo Agostinho: De ord. 2,19,51).


Por isso, existe o perigo de uma oração (“Senhor, Senhor”) que não é traduzida em vida e em compromisso. Por essa razão um sábio chegou a dizer: “Não há nada que seja mais perigoso do que a oração”, porque obriga ou leva quem reza a assumir os compromissos de Deus com seriedade e perseverança na convivência com os demais homens. Ao rezar pedindo a paz para Deus, quem reza deve ser construtor da paz. Se não rezaria em vão. Existe o perigo de uma escuta da Palavra que não se converte em nada prático e operante. Jesus fala bem claro neste evangelho: os que falam bem, os que “rezam bem”, os que “oram” e não “fazem” não entrarão no Reino. Em outras palavras, a oração precisa ser transformada em compromisso. Rezemos diante de Deus como uma criança, mas logo voltemos à nossa vida com nossa responsabilidade de adultos. O final de toda oração adulta é um só: “Amém”, isto é, aceito a realidade e minha responsabilidade diante dela.


Jesus não quer que os cristãos cultivem somente a relação com ele, e sim que sejam seguidores que, unidos a ele, trabalhem para mudar a situação da humanidade. É viver de acordo com a justiça e a caridade. Onde há justiça não há pobreza nem exclusão social. Devemos ter sempre a cabeça fria para analisar bem os acontecimentos na nossa vida e ao nosso redor, ter o coração sempre quente para amar, acolher e ter a mão sempre larga para ajudar e para abraçar num abraço de reconciliação.


Construir a Vida Sobre a Rocha da Palavra de Deus


Jesus nos convida hoje a sermos seguidores “rocha” e não seguidores “areia”. Seguidor “areia” é aquele que vive de uma fé de simples aparência, sem fundamento. Um dia acredita em Deus, em outra ocasião perde a fé. Crê quando as coisas vão ao seu gosto e se desanima quando tudo não corresponde àquilo que imaginava. Os seguidores “rocha” são os que fundamentam sua vida na rocha que é Cristo e sua Palavra. Os seguidores “rocha” se mantêm firmes em qualquer situação, porque seguram na mão de Deus e sabem em quem acreditam (cf. 2Tm 1,12c).  Para sermos verdadeiros seguidores “rocha” devemos fazer próprios as palavras do Salmo 78: “Senhor, não lembreis as nossas culpas do passado, mas venha logo sobre nós vossa bondade.... Por vosso nome e vossa glória, libertai-nos! Por vosso nome, perdoai nossos pecados!”. Não corrigir nossas faltas é o mesmo que cometer novos erros. Muito sabe quem conhece a própria ignorância e procura a viver mais com sabedoria e prudência.


As Obras Que Falam Por Si


Através do evangelho de hoje Jesus quer nos dizer, primeiramente, que não devemos julgar ou avaliar o homem pelas aparências que são frequentemente enganosas. Devemos, ao contrário, avaliá-lo a partir daquilo que ele faz. Nem as palavras, nem as intenções, e sim as práticas. Se as palavras e as intenções seguem uma direção, e a prática outra, a segunda é que revela o coração do homem, suas opções profundas, seus verdadeiros interesses. Por fora, todos podem parecer iguais, mas o interior da pessoa e as obras que fazem a diferença. Sabemos que nem tudo o que brilha é ouro.


Jesus é muito realista. Ele dá este critério: “Olhem e vejam como atuam” para saber se são verdadeiros cristãos ou não, se são profetas ou não são profetas. “Pelos frutos vocês vão reconhecê-los”. Qualquer pessoa se manifesta pelo que faz ou pelo modo de viver. Os cristãos são reconhecidos não pelos dons que têm, mas pelos frutos que produzem. Qualidade de um fruto depende da qualidade da árvore. Jesus quer nos dizer para não julgarmos os homens pelas aparências e sim pelo que faz. Nem as palavras nem as intenções e sim a prática. Se as palavras e as intenções seguem uma direção e a prática outra, a segunda é que revela o coração do homem, suas opções profundas, seus verdadeiros interesses.


Através do evangelho de hoje Jesus faz uma advertência sobre o perigo relacionado aos falsos profetas. O evangelista Mateus dá uma norma para sua comunidade a fim de saber reconhecer os falsos profetas: a paciência em esperar os frutos e as obras pelos quais será reconhecido o verdadeiro profeta do falso profeta. A chave para detectar os falsos profetas são suas obras. O verdadeiro profeta é aquele que orienta a comunidade de acordo com a mensagem e a forma de vida de Jesus.


Este critério deve ser aplicado para nós mesmos também: Que frutos produzimos? Que frutos você produz? Dizemos apenas palavras bonitas ou também oferecemos fatos ou obras? De um coração azedo somente produz frutos azedos. De um coração generoso e sereno brotam obras boas e consoladoras. São Paulo na carta aos gálatas escreveu: “As obras da carne são fornicação, idolatria, ódios, discórdia, inimizade, egoísmo, inveja, ciúmes, ira, divisão, rivalidade. Ao contrário, o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, paciência, afabilidade, fidelidade, domínio de si mesmo” (cf. Gl 5,19-26). Se nós somos filhos da Verdade e do Amor, então, façamos as obras da Verdade e do Amor e vivamos na sinceridade.


A Palavra de Deus hoje nos convida a descermos ao fundo do coração para descobrir nele a nossa maldade ou a nossa bondade; a nossa mentira ou a nossa verdade; nossa veracidade ou nossa falsidade; a nossa esterilidade ou a nossa fecundidade. A Palavra de Deus precisa nos desarmar para nos vermos como somos.


Portanto, com Sua Palavra através do evangelho de hoje Jesus denuncia uma dissociação frequente e muito perniciosa (prejudicial). Uma vida cristã fundada nesta dissociação é como uma casa construída sem fundamento. Por isso, somos alertados que existe o perigo de uma oração (Senhor, Senhor) que não se traduz em vida e em compromisso (a vontade de Deus). Existe o risco de uma escuta da Palavra que não se converte em nada prático e operante. Existe o risco de certos momentos comunitários que se fecham em si mesmos sem nenhum compromisso. A oração, a escuta da Palavra de Deus e o encontro comunitário, são a raiz da práxis cristã. Porém, a raiz deve germinar e produzir frutos. Ninguém planta trigo sem esperar colher seus grãos. Ninguém pesca sem esperar apanhar peixes.


Por que às vezes ou muitas vezes, a oração se encerra em si, a escuta da Palavra de Deus não se traduz em vida e o encontro com os irmãos não se abre ao mundo? A resposta implicitamente se encontra na própria Palavra de Deus: “Ninguém pode servir a dois senhores” (Mt 6,24). Por servir a dois senhores, a pessoa, depois de “servir” a Deus com oração, com a escuta da Palavra e com a reunião eclesial logo serve ao mundo e a si própria com as opções concretas e cotidianas da vida.


Precisamos estar conscientes de que não existe verdadeira fé sem empenho moral. A oração e a ação, a escuta e a prática, são igualmente importantes. Há três coisas indispensáveis para a vida de um cristão: escuta atenta da Palavra de Deus com oração, prática da vontade de Deus e perseverança até o fim apesar das tempestades da vida.


O evangelho deste dia quer nos dizer que não importa “dizer Senhor, Senhor, nem falar em seu nome, nem sequer fazer milagres”. O que importa é a prática. O fazer. As obras. Não o dizer, nem o pensar, nem o rezar, nem o pregar, nem fazer milagres. A prática é a rocha, por isso, é firme até diante de Deus. As obras boas praticadas em nome de Deus são verdadeiros sinais da abertura diante da graça de Deus.


P. Vitus Gustama, SVD

segunda-feira, 26 de junho de 2017

27/06/2017

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MANTER A  FÉ EM DEUS E VALIZAR O VALIOSO


Terça-Feira da XII Semana Comum


Primeira Leitura: Gn 13,2.5-18


2 Abrão era muito rico em rebanhos, prata e ouro. 5 Ló, que acompanhava Abrão, também tinha ovelhas, gado e tendas. 6 A região já não bastava para os dois, pois seus rebanhos eram demasiado numerosos, para poderem morar juntos. 7 Surgiram discórdias entre os pastores que cuidavam da criação de Abrão, e os pastores de Ló. Naquele tempo, os cananeus e os fereseus ainda habitavam naquela terra. 8 Abrão disse a Ló: “Não deve haver discórdia entre nós e entre os nossos pastores, pois somos irmãos. 9 Estás vendo toda esta terra diante de ti? Pois bem, peço-te, separa-te de mim. Se fores para a esquerda, eu irei para a direita; se fores para a direita, eu irei para a esquerda”. 10 Levantando os olhos, Ló viu que toda a região em torno do Jordão era por toda a parte irrigada — isso antes que o Senhor destruísse Sodoma e Gomorra —, era como um jardim do Senhor e como o Egito, até a altura de Segor. 11 Ló escolheu, então, para si a região em torno do Jordão, e foi para oriente. Foi assim que os dois se separaram um do outro. 12 Abrão habitou na terra de Canaã, enquanto Ló se estabeleceu nas cidades próximas do Jordão, e armou suas tendas até Sodoma. 13 Ora, os habitantes de Sodoma eram péssimos, e grandes pecadores diante do Senhor. 14 E o Senhor disse a Abrão, depois que Ló se separou dele: “Ergue os olhos e, do lugar onde estás, olha para o norte e para o sul, para o oriente e para o ocidente: 15 toda essa terra que estás vendo, eu a darei a ti e à tua descendência para sempre. 16 Tornarei tua descendência tão numerosa como o pó da terra. Se alguém puder contar os grãos do pó da terra, então poderá contar a tua descendência. 17 Levanta-te e percorre este país de ponta a ponta, porque é a ti que o darei”. 18 Tendo desarmado suas tendas, Abrão foi morar junto ao Carvalho de Mambré, que está em Hebron, e ali construiu um altar ao Senhor.


Evangelho: Mt 7,6.12-14


Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 6 "Não lanceis aos cães as coisas santas, não atireis aos porcos as vossas pérolas, para que não as calquem com os seus pés, e, voltando-se contra vós, vos despedacem. 12 Tudo o que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles. Esta é a lei e os profetas. 13 Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduzem à perdição e numerosos são os que por aí entram. 14 Estreita, porém, é a porta e apertado o caminho da vida e raros são os que o encontram”.
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Quem Escolhe Deus, Escolhe Vida e Salvação


A Primeira Leitura, tirada do Livro de Genesis, se encontra no conjunto das histórias patriarcais (Gn 12-50). Neste conjunto encontramos três famílias da mesma árvore genealógica com suas histórias próprias: Abraão com seu filho Isaac; Isaac e seus dois filhos: Esaú e Jacó; e Jacó com seus doze filhos, os pais dos tribos.


E a história de Abraão e Ló (sobrinho de Abraão) faz parte do ciclo de Abraão e seu filho Isaac (Gn 12,1-25,18). O tema principal deste ciclo é a espera ansiosa de um filho que preencha a solidão de um casal de anciãos (Abraão e Sara). Para a crise inicial da falta de um filho é acrescentada a chamada de Deus dirigida a Abrão para abandonar tudo para ir a um lugar indicado por Deus (Gn 12,1-9). E Abraão responde com a mais absoluta fidelidade e com uma confiança total no Deus da promessa que o chamou. A vida de Abraão é fundamentada sobre a Palavra divina que escutou. Por causa de sua fé e confiança absoluta em Deus Abraão é qualificado como um homem de fé. Como recompensa por esta fé Abraão é plenificado pelas bênçãos divinas, pai de uma multidão de povos e ponte de salvação para todos os homens.


O texto da Primeira Leitura fala da separação entre Abraão e Ló. Encontramos nesta história um paradoxo: os conflitos (entre os clãs) surgem precisamente a partir das bênçãos de Deus e da prosperidade. Abraão e Ló estão ricos demais porque a certa altura os seus rebanhos, de tão numerosos, já não podem ficar juntos. Como sempre acontece, com a riqueza vieram os problemas. Enquanto eram pobres, eles se ajudavam mutuamente, viviam de acordo. Agora aparecem os motivos de disputa.


Mas é importante notar que, apesar de ser chefe do clã, Abraão deixa Ló, seu sobrinho, escolher o lugar onde habitará: “Não deve haver discórdia entre nós e entre os nossos pastores, pois somos irmãos. Estás vendo toda esta terra diante de ti? Pois bem, peço-te, separa-te de mim. Se fores para a esquerda, eu irei para a direita; se fores para a direita, eu irei para a esquerda” (Gn 13,8-9). A proposta de Abraão é muito generosa e é realmente excepcional.


O texto quer nos mostrar que cada escolha não é fácil, pois há sempre alguma tentação ou algum desejo escondido, como também há engano em cada escolha.


Na sua escolha, Ló se deixa levar pela aparência, pelo que vê, como aconteceu com Eva (Gn 2,6): “Levantando os olhos, Ló viu que toda a região em torno do Jordão era por toda a parte irrigada, era como um jardim do Senhor e como o Egito, até a altura de Segor. Ló escolheu, então, para si a região em torno do Jordão, e foi para oriente” (Gn 13,10-11). Ló acredita ter escolhido o melhor e não sabe onde se foi meter, em que dificuldades o porá a sua avidez. Uma vida vivida somente em função do prazer e não do bem e da salvação, mais tarde a própria pessoa que a escolheu vai ter que pagar caro, até com a própria vida ou a vida da própria família. Ló escolheu uma terra onde se encontra o povo de Sodoma que vive oposto a Deus. Ao separar-se de Abraão, Ló se separa do portador da bênção e se expõe à desventura (cf. Gn 18-19).


O que podemos aprender da história de Abraão e Ló?


Nos conflitos com Ló, Abraão não exige seus direitos como o chefe do clã. Abraão não diz: “Quero meus direitos!”. A generosidade, a liberdade, a humildade e o desapego de Abraão em solucionar os conflitos nos surpreendem excepcionalmente. O que mais nos surpreende é que Abraão aceita a escolha de Ló. É coisa rara entre os homens! Abraão tem um coração simples e por isso, facilita tudo para não criar briga, pois sempre há vítima para qualquer tipo de briga ou de confronto.


“Escolhe tu primeiro, e eu me contentarei com o que me deixares!”. Esta é a decisão de Abraão. Por que Abraão tem tanta generosidade e desprendimento diante de Ló? Porque Abraão tem dentro de si algo mais. No seu coração tem um tesouro. Dentro do seu coração Abraão tem promessa de Deus. Ló não tem promessa. Esta promessa é para Abraão mais rica do que qualquer outra coisa e o torna livre, tranquilo, disponível, disposto a ceder a melhor parte ao sobrinho.  Abraão é como aquela pessoa na parábola de Jesus que, ao encontrar um tesouro escondido na terra, ela vende tudo que tem para comprar o terreno onde se encontra o tesouro (cf. Mt 13,44).


O que você tem de valor dentro de seu coração que o torna livre, tranquilo, pacifico, despojado? Existe dentro de seu coração algum tesouro ou alguma promessa de Deus para sua vida? Como você resolve conflitos dentro de sua família: a partir dos direitos ou a partir da generosidade do seu coração?


Não deve haver discórdia entre nós e entre os nossos pastores, pois somos irmãos” é a frase de Abraão a Ló sobre a qual precisamos meditar. Esta frase sai do coração de Abraão porque ele é homem de fé e de oração e por isso, ele é fiel aos irmãos. Por causa de sua fé no Deus da promessa, Abraão é capaz de dar a parte melhor a outro (Ló). Para Abraão a paz (Shalom) já é um bem superior aos bens materiais. Antes de tudo é o amor fraterno que é essencial do Reino de Deus e sobre o qual seremos julgados (cf. Mt 25,31-45).


O que nos falta em nossa vida de cristãos ou de religiosos oi de ministros ordenados não é a doutrina ou a fé e sim bom coração, o coração generoso. O Salmo Responsorial de hoje (Sl 14), fazendo-se eco da atitude generosa de Abraão faz a seguinte pergunta: “Senhor, quem morará em vosso Monte Santo?”. E a resposta é: “É aquele que caminha sem pecado e pratica a justiça fielmente; que pensa a verdade no seu íntimo e não solta em calúnias sua língua. Que em nada prejudica o seu irmão, nem cobre de insultos seu vizinho; que não dá valor algum ao homem ímpio, mas honra os que respeitam o Senhor”.


Saber Valorizar o Valioso


Não deis aos cães as coisas santas, nem atireis vossas pérolas aos porcos; para que eles não as pisem e, voltando-se contra vós, vos estraçalhem” (Mt 7,6). É tirado do texto do Evangelho de hoje.


Estamos no fim do Sermão da Montanha (Mt 5-7). A passagem do evangelho que serve para nossa meditação de hoje é outra parte da conclusão do Sermão da Montanha (Mt 7). No texto de hoje Jesus nos dá três lições importantes para nossa vida: viver na prudência; em cada ato praticado o outro deve ser levado em consideração (regra de outro); e o esforço na luta pela salvação (porta estreita).


No texto de hoje Jesus começa sua lição com as seguintes palavras: “Não deis aos cães as coisas santas, nem atireis vossas pérolas aos porcos; para que eles não as pisem e, voltando-se contra vós, vos estraçalhem” (Mt 7,6). Esta sentença enigmática, própria de Mateus, não tem nenhuma relação, ao parecer, com o que precede nem com o que segue (alguns especialistas colocariam o v.6 dentro do conjunto de Mt 7,1-4). Mas o que mais importante para nós é a lição escondida nessa sentença.


Cães e porcos eram animais impuros para os judeus. A quem, então, Jesus se refere quando fala de cães e de porcos? Muitos interpretam que cães e porcos representam os pagãos. Na verdade, os cães e os porcos não designam aqui categorias particulares de homens: pagãos, fariseus, certas pessoas desviadas, hereges e assim por diante. Cães e porcos ilustram bem, aqui, duas recusas características do Evangelho: primeiro, a inconsciência dos que em nenhum momento pressentem (não percebem) o valor do Evangelho, e segundo, a violência perigosa dos que, decepcionados por não encontrar nele (no Evangelho) um alimento de seu gosto, se voltam contra os que propõem a vida de acordo com o Evangelho. Ainda que os discípulos não excluam ninguém de seu amor (Mt 5,38.43-48), mas eles têm que tomar cuidado com aqueles que buscam somente seu próprio interesse e cometem a injustiça contra o próximo. O conselho de Jesus no v.6 se encontra paralelamente no Livro dos Provérbios (Antigo Testamento): “Quem censura um mofador, atrai sobre si a zombaria; o que repreende o ímpio, arrisca-se a uma afronta. Não repreendas o mofador, pois ele te odiará. Repreende o sábio e ele te amará” (Pr 9,7-8).


A expressão “as coisas santas” designa com freqüência no Antigo Testamento as viandas (alimento) oferecidas em sacrifício e que somente os fieis podiam consumir “... para a expiação quando de sua tomada de posse e sua consagração. Estrangeiro algum comerá deles, porque são coisas santas” (Ex 29,33-34; cf. Lv 2,3;22,10.16; Nm 18,8.19).


O paralelismo “coisas santas - pérolas” demonstra que a primeira dessas expressões deve ser entendida como uma imagem que designa o que é infinitamente precioso e pertence exclusivamente a Deus. “As pérolas” são imagem daquilo que tem um grande valor ou precioso (cf. Mt 13,46).


Não deis aos cães as coisas santas, nem atireis vossas pérolas aos porcos; para que eles não as pisem e, voltando-se contra vós, vos estraçalhem!”. Através deste conselho Jesus nos ensina a vivermos na prudência.       “A prudência é o olho de todas as virtudes”, dizia Pitágoras. Ser prudente é a primeira lição do evangelho de hoje.


A palavra “prudência” provém do latim “prudens-entis” que, na acepção própria, significa precavido, competente. Prudência é virtude que faz prever, e procura evitar as inconveniências e os perigos; cautela, precaução. A prudência é a capacidade de ver, de compenetrar-se e de ajustar-se à realidade. A prudência oferece a possibilidade de discernir o correto do incorreto, o bom do mau, o verdadeiro do falso, o sensato do insensato a fim de guiar o bom rumo de nossas ações. O prudente jamais se precipita no falar nem no agir sem conhecimento da causa ou da realidade. Tendo conhecimento da causa ou da realidade ele fala com cautela. A prudência é a faculdade que nos permite vermos e aprendermos a realidade tal como é. A prudência é o modo de viver dos sábios, pois o homem sábio é sempre guiado pela prudência. Por isso, o sábio dificilmente machuca os outros.


A segunda lição que Jesus nos dá hoje é esta: “Tudo quanto quereis que os outros vos façam, fazei também a eles. Nisto consiste a Lei e os Profetas” (Mt 7,12). Trata-se de uma regra de conduta e é considerada como a regra de ouro. A regra de ouro já era conhecida na antiguidade. Em Heródoto lemos: “Não quero fazer aquilo que censuro no próximo” (Heródoto, 3,142,3). Na sabedoria de Confúcio (551 antes de Cristo) lemos: “Não faça aos outros o que você não gostaria que fizessem a você”. Encontramos também esta regra nos ditos do famoso rabi Hillel: “Não faças a ninguém aquilo que te é desagradável; isso é toda a Torá, ao passo que o mais é explicação; vai e aprende!”.


Esta regra de ouro nos ensina que em tudo que falarmos (comentarmos) ou fizermos a vida e a dignidade do outro devem ser levadas em consideração. Às vezes acontece que machucamos muito os outros porque ainda temos muitas feridas dentro de nós que ainda não são curadas. E muitas vezes avaliamos o outro a partir de nossas feridas e não a partir da própria realidade das coisas. Por trás de uma pessoa brava e grosseira, há uma pessoa frustrada.


O verdadeiro cristão faz muito mais além da regra de ouro. Ele é chamado e é enviado a fazer o bem ao próximo independentemente da retribuição ou do reconhecimento. Ele sempre age com um amor gratuito e de qualidade sem medir esforços, porque ele tem consciência clara de que ele é amado por Deus deste modo. Ele é sempre solicito e serviçal. Trata-se de a opção ou do estilo de vida com Deus traduzido na convivência fraterna com os demais. Todo trato cordial e fraterno jamais se baseia na lei de retribuição muito menos acontece por mera formalidade. O cristão existe para fazer o bem, e se não o fizer deixará de existir em Jesus Cristo que “passou a vida fazendo o bem” (At 10,38).


A terceira lição dada por Jesus no evangelho deste dia é esta: “Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso é o caminho que leva à perdição, e muitos são os que entram por ele! Como é estreita a porta e apertado o caminho que leva à vida! E são poucos os que o encontram”! (Mt 7,13-14). Estas palavras de Jesus recordam aquilo que Moisés falou, no Livro de Deuteronômio, para o povo eleito quando acabou de expor a Lei: “Olha que hoje ponho diante de ti a vida com o bem, e a morte com o mal. Mando-te hoje que ames o Senhor, teu Deus, que andes em seus caminhos, observes seus mandamentos, suas leis e seus preceitos, para que vivas e te multipliques, e que o Senhor, teu Deus, te abençoe na terra em que vais entrar para possuí-la.  Se, porém, o teu coração se afastar, se não obedeceres e se te deixares seduzir para te prostrares diante de outros deuses e adorá-los, eu te declaro neste dia: perecereis seguramente e não prolongareis os vossos dias na terra em que ides entrar para possuí-la, ao passar o Jordão.  Tomo hoje por testemunhas o céu e a terra contra vós: ponho diante de ti a vida e a morte, a bênção e a maldição. Escolhe, pois, a vida, para que vivas com a I tua posteridade, amando o Senhor, teu Deus, obedecendo à sua voz e permanecendo unido a ele. Porque é esta a tua vida e a longevidade dos teus dias na terra que o Senhor jurou dar a Abraão, Isaac e Jacó, teus pais” (Dt 30,15-20). 


Moisés falou de vida e de morte; Jesus, que já olha mais para além da vida neste mundo, fala de “vida e perdição”. Moisés mandou para “escolher o caminho”; Jesus manda “entrar pela porta estreita”, tomar o caminho que leva à vida. Moisés fala desta vida; Jesus fala da vida eterna da qual alcançarão os que seguem a senda estreita.


“Como é estreita a porta e apertado o caminho que leva à vida!”.  O verbo grego para “apertado” usado em particípio se usa também para indicar aflição, tribulação e perseguição. São os obstáculos que tem que ser superados quando se recorre “a senda estreita”.


Não percamos a ideia de “caminho”. A vida do cristão se concebe como um “caminho” (cf. At 9,2;13,10;18,25 etc.). Não se improvisa, recorre-se pouco a pouco com uma tensão contínua até o Pai. O amor nos faz encontrarmos Deus face a face um dia. Não precisaremos mais da fé e da esperança no momento em que estivermos face a face com Deus na eternidade. Como disse um pregador: “A fé e a esperança nos levam até a porta do céu. Mas o que nos faz entrar nele é o amor, pois ‘Deus é amor’ (1Jo 4,8.16)”. 


“Como é estreita a porta e apertado o caminho que leva à vida!”.  No Evangelho de João Jesus se apresenta como porta: “Eu sou a porta; quem entrar por mim será salvo” (Jo 10,9). O cristão se esforça por ser fiel a Deus e aos princípios evangélicos como solidariedade, fraternidade, igualdade, justiça, amor, bondade, solidariedade em vez de egoísmo, agressividade, violência. A santidade é a forma normal de viver os ensinamentos de Cristo no cotidiano. Mas para tudo isto se exige muito esforço. “Deus não condena quem não pode fazer o que quer, mas quem não quer fazer o que pode”, dizia Santo Agostinho (Serm. 54,2).

P. Vitus Gustama,svd

domingo, 25 de junho de 2017

26/06/2017
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VIVER A VOCAÇÃO DE DEUS NA FRATERNIDADE BASEADA NO AMOR MÚTUO


Segunda-Feira Da XII Semana Do Tempo Comum


Primeira Leitura: Gn 12,1-9


Naqueles dias, 1 o Senhor disse a Abrão: “Sai da tua terra, da tua família e da casa do teu pai, e vai para a terra que eu te vou mostrar. 2 Farei de ti um grande povo e te abençoarei: engrandecerei o teu nome, de modo que ele se torne uma bênção. 3 Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; em ti serão abençoadas todas as famílias da terra!” 4 E Abrão partiu, como o Senhor lhe havia dito, e Ló foi com ele. Tinha Abrão setenta e cinco anos, quando partiu de Harã. 5 Ele levou consigo sua mulher Sarai, seu sobrinho Ló e todos os bens que possuíam, bem como todos os escravos que haviam adquirido em Harã. Partiram rumo à terra de Canaã e ali chegaram. 6 Abrão atravessou o país até o santuário de Siquém, até o carvalho de Moré. Os cananeus estavam então naquela terra. 7 O Senhor apareceu a Abrão e lhe disse: “Darei esta terra à tua descendência”. Abrão ergueu ali um altar ao Senhor que lhe tinha aparecido. 8 De lá, deslocou-se em direção ao monte que estava a oriente de Betel, onde armou sua tenda, com Betel a ocidente e Hai a oriente. Ali construiu também um altar ao Senhor, e invocou o seu nome. 9 Depois, de acampamento em acampamento, Abrão foi até o Negueb.


Evangelho: Mt 7,1-5


Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 1 “Não julgueis para não serdes julgados. 2 Pois com o julgamento com que julgais, sereis julgados, e com a medida com que medirdes, sereis medidos. 3 Por que reparas o cisco que está no olho do teu irmão, quando não percebes a trave que está no teu? 4 Ou como poderás dizer ao teu irmão: ‘Deixa-me tirar o cisco do teu olho’, quando tu mesmo tens uma trave no teu? 5 Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então verás bem para tirar o cisco do olho do teu irmão”.
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Deus Nos Chama a Sairmos De Nossa Zona De Conforto Para Lugar Onde Deus Quer


Sai da tua terra, da tua família e da casa do teu pai, e vai para a terra que eu te vou mostrar. Farei de ti um grande povo e te abençoarei: engrandecerei o teu nome, de modo que ele se torne uma bênção”, é a ordem de Deus Para Abraão que lemos na Primeira Leitura.


A vocação de Abraão é PARTIR. Partir por ordem de Deus. Deus assume a iniciativa do apelo para partir. Mas trata-se de um apelo que tem o tom de envio. O ponto de partida do ser humano continua sendo Deus. Trata-se de um ponto de partida segura, pois quem assegura a salvação na estrada dessa viagem é o próprio Deus que se compromete dizendo EU: “Sim, de bênçãos eu te cumularei, imensa multiplicação te considerei” (cf. Hb 6,13-15).


Abraão é chamado para deixar sua cidade (tua terra), os laços de sangue (tua família), os seus pontos de referência cultural e religiosa, os bens ligados ao clã simbolizados pela casa. Deus pede a Abraão que se deixe e que seja livre de tudo. Cada partido se traduz por desprendimento sucessivos. Mais cedo ou mais tarde, a Palavra de Deus conduz à verdade desses desprendimentos. Quer dizer deixa seu horizonte familiar para o horizonte da humanidade que Deus ama.


Abraão obedece à ordem de Deus. Uma ordem, antes de ser cumprida, requer uma escuta interior. A busca de Deus exige uma preparação do coração para escutar o apelo e dar consentimento à partida. É preciso ouvir quando Deus chama, e arriscar o passo que Ele espera que demos.


Quando a Palavra de Deus é ouvida, meditada, ela tem sempre convite e envio. É um convite que faz o ouvinte começar a partir, isto é, distanciar-se do lugar onde o ouvinte se encontra. É a distância necessária para se cumprir o que a Palavra de Deus manda: “Parte! Deixa!”. Toda vocação se funda nesse afastamento misterioso. Para conhecer Deus é preciso tomar a estrada; é preciso partir, é preciso distanciar-se onde ada um se encontra. É partir para chegar a Ele. Partir é um ato de fé, pois confia na Palavra de Deus que manda para partir. A nossa vocação não faz de nós “profissionais” da religião, e sim, humildes testemunhas do amor de Deus que nos humaniza e diviniza e por isso, é um amor que salva.


Deus chama cada um de nós lá onde estamos, do modo que somos. E Deus não espera de nós uma compreensão imediata do seu mistério. Mas é caminhando na fé que descobriremos pouco a pouco as riquezas do apelo de Deus. Deus se revela no movimento, ao longo da história e no ritmo dos acontecimentos.  A fé é sempre um itinerário imprevisível. A chamada de Deus nos põem em movimento, faz de nós buscadores de sentido. Quando Deus chama cada pessoa, nessa pessoa chama e abençoa todas as pessoas a exemplo de Abraão. Nossa vocação é sempre o sinal da convocação da humanidade. Trata-se de uma vocação de divinização do homem isto é, participação da plenitude da vida.


A vocação fundamental de todo homem, de toda mulher é abrir-se ao chamado gratuito do Amor de Deus, um amor que humaniza, personaliza e diviniza o homem. E aos poucos tomaremos consciência de que ser missionário, ser catequista, ser sacerdote, ser religioso, ser diácono e assim por diante é ser chamado e enviado para abrir todos os homens aos dons de Deus, fazê-los descobrir que são amados por Deus e que só se tornarão realmente pessoas humanas quando amarem como Deus os ama, quando tem coragem do próprio canto ao encontro do próximo para caminharem juntos na direção de Deus que chama e envia.


Não Somos Autorizados a Julgar, Mas Ordenados a Amar


O texto do evangelho de hoje pertence ao Sermão da Montanha (Mt 5-7). O Sermão está já na sua conclusão. Nesta conclusão Jesus nos alerta para não julgarmos os outros. Não somos autorizados para julgar e sim somos ordenados para amar (cf. Jo 15,12). Não temos condições para julgar. Somente Deus tem a competência para nos julgar.


“Não julgueis para não serdes julgados. Pois com o julgamento com que julgais, sereis julgados, e com a medida com que medirdes, sereis medidos”.


O verbo julgar (em grego, krinein) se utiliza aqui em sentido jurídico e equivale a emitir um juízo condenatório sobre uma pessoa, baseando-se nos defeitos que tem. Quem emite este tipo de juízo rompe a relação com a pessoa ajuizada.


Deus não quer isto. Por isso, Jesus coloca um critério que deve ser usado na comunidade cristã (cf. Mt 18,15-18). Quando um cristão perceber algum defeito no outro, ele precisa fixar olhar para os próprios defeitos porque talvez sejam maiores do que os defeitos do outro: “Por que reparas o cisco que está no olho do teu irmão, quando não percebes a trave que está no teu? Ou como poderás dizer ao teu irmão: ‘Deixa-me tirar o cisco do teu olho’, quando tu mesmo tens uma trave no teu?”.  


A análise crítica da própria realidade ajuda o cristão a compreender as fraquezas dos outros em vez de emitir um juízo.  Com a consciência da própria fragilidade, o cristão será movido a compreender e curar a fragilidade do outro. Se não fizer isto é porque este tipo de cristão é hipócrita, isto é, aquele que se acha santo ou perfeito, mas pela emissão do julgamento sobre os outros já revela que é um grande pecador: “Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então verás bem para tirar o cisco do olho do teu irmão”.A ignorância mais refinada é a ignorância da própria ignorância”, dizia Santo Agostinho (Confissões, 5,7).  Quanto mais curioso torna-se o homem por conhecer a vida alheia, tanto mais relaxado se torna para consertar a sua própria”, acrescentou Santo Agostinho (Confissões, 10,3).


De qualquer modo, a rigidez e a hipocrisia em julgar são defeitos que podem ser evitadas se um cristão souber fazer a crítica sobre si mesmo. Olhar para a própria consciência e para o próprio modo de viver é algo indispensável para um cristão conviver fraternalmente com os demais. Olhar para a própria casa é a primeira coisa que deve ser feita. Quem fica olhando para a vida alheia é porque não está cuidando da própria vida. A consciência dos próprios limites e debilidades é a medida para uma crítica evangélica. Um verdadeiro cristão jamais adota uma atitude de orgulho, de menosprezo e de superioridade diante dos demais que o leva a uma postura farisaica de condenação e de recriminação dos defeitos dos outros. Precisamos estar conscientes de que o juízo pertence a Deus e não a nós, pobres pecadores.


Resumindo! Há três razões pelas quais não devemos julgar os outros.
  • Primeiramente, o julgamento pertence a Deus e não a nós, pobres pecadores, porque só Deus conhece profundamente o coração de cada ser humano. Constituir-se em juiz dos outros é uma ousadia irresponsável. É uma ousadia de se colocar no lugar de Deus, de se considerar como Deus, de roubar o lugar. Ao julgar, você está querendo dizer: “Eu sou Deus e você é pecador”.
  •  Em segundo lugar, à medida que usarmos para com os outros será usada por Deus contra nós no julgamento final, pois a vida tem seu fim.
  • Em terceiro lugar, todos nós somos imperfeitos. Não somos seres humanos; estamos seres humanos. Julgar provém da nossa própria cegueira que nos impede de ver os nossos próprios defeitos. Ao julgarmos os outros estamos querendo dizer que somos melhores do que os outros. Mas na verdade, ao fazer isto, estamos revelando aos outros que somos piores do que imaginamos. O Senhor nos ordena para nos amarmos mutuamente (cf. Jo 15,12), e não nos autoriza para julgar os demais homens.
     
    Deus não quer qualquer rompimento. Por isso, Jesus mostra o caminho que temos que seguir: o caminho do amor e da compreensão. Somente o amor compreensivo cura as feridas da alma. Mas não significa que sejamos omissos diante dos defeitos dos outros. Somos chamados a dirigir palavras amigas ao outro e convidá-lo a mudar ou a se corrigir pelo seu próprio bem. Com a consciência de nossa fragilidade teremos condições para curar ou remediar a fragilidade de nosso próximo. Precisamos aprender a transformar nossas críticas em sugestões para que a convivência fraterna se torne uma ajuda para o mútuo crescimento. 
     
    “Não julgueis para não serdes julgados (por Deus)” deve servir de alerta e de freio para que nossa palavra não ultrapasse nossas obras, pois “com a medida com que tiverdes medido, também vós sereis medidos”, diz o Senhor para cada um de nós hoje.
P. Vitus Gustama,svd

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Domingo,25/06/2017


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NÃO TENHAMOS MEDO PORQUE DEUS ESTÁ CONOSCO


XII Domingo Comum “A”


I Leitura: Jr 20, 10-13


Jeremias disse: 10“Eu ouvi as injúrias de tantos homens e os vi espalhando o medo em redor: ‘Denunciai-o, denunciemo-lo’. Todos os amigos observam minhas falhas: ‘Talvez ele cometa um engano e nós poderemos apanhá-lo e desforrar-nos dele’. 11Mas o Senhor está ao meu lado, como forte guerreiro; por isso, os que me perseguem cairão vencidos. Por não terem tido êxito, eles se cobrirão de vergonha. Eterna infâmia, que nunca se apaga! 12Ó Senhor dos exércitos, que provas o homem justo e vês os sentimentos do coração, rogo-te, me faças ver tua vingança sobre eles; pois eu te declarei a minha causa. 13Cantai ao Senhor, louvai o Senhor, pois ele salvou a vida de um pobre homem das mãos dos maus”.


II Leitura: Rm 05, 12-15


Irmãos: 12 O pecado entrou no mundo por um só homem. Através do pecado, entrou a morte. E a morte passou para todos os homens, porque todos pecaram. 13Na realidade, antes de ser dada a Lei, já havia pecado no mundo. Mas o pecado não pode ser imputado, quando não há lei. 14No entanto, a morte reinou, desde Adão até Moisés, mesmo sobre os que não pecaram como Adão, o qual era a figura provisória daquele que devia vir. 15Mas isso não quer dizer que o dom da graça de Deus seja comparável à falta de Adão! A transgressão de um só levou a multidão humana à morte, mas foi de modo bem superior que a graça de Deus, ou seja, o dom gratuito concedido através de um só homem, Jesus Cristo, se derramou em abundância sobre todos.


Evangelho: Mt 10,26-33


Naquele tempo, disse Jesus a seus apóstolos: 26 “Não tenhais medo dos homens, pois nada há de encoberto que não seja revelado, e nada há de escondido que não seja conhecido. 27 O que vos digo na escuridão dizei-o à luz do dia; o que escutais ao pé do ouvido, proclamai-o sobre os telhados! 28 Não tenhais medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma! Pelo contrário, temei aquele que pode destruir a alma e o corpo no inferno! 29 Não se vendem dois pardais por algumas moedas? No entanto, nenhum deles cai no chão sem o consentimento do vosso Pai. 30 Quanto a vós, até os cabelos da vossa cabeça estão contados. 31 Não tenhais medo! Vós valeis mais do que muitos pardais. 32Portanto, todo aquele que se declarar a meu favor diante dos homens, também eu me declararei em favor dele diante do meu Pai que está nos céus. 33 Aquele, porém, que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante do meu Pai que está nos céus.
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Olhar e Entrar No Contexto Do Texto Do Evangelho De Hoje




1. Não Tenhamos Medo dos Fundamentalistas Religiosos


A unidade temática e o tom das palavras de Jesus no texto do Evangelho de hoje (o texto faz parte do discurso sobre a missão) estão marcados pela tríplice exortação a não ter medo (Mt 10,26.28.31).


A quem não deve ter medo? Não se trata dos homens em geral e sim dos homens religiosos (cf. Mt 10,25; 9,34). São os homens do fundamentalismo religioso que os Doze não devem ter medo. É a oposição religiosa que Mateus foi fazendo aparecer ao longo dos capítulos oito e nove como contra-personagem de Jesus.


Quem não deve ter medo? Os apóstolos não devem ter medo. Em Mateus o termo “Apóstolos” designa a totalidade dos discípulos de Jesus e que Mateus reduz significativamente a Doze: frente ao velho Israel das doze tribos, o Novo Israel dos Doze. O “Doze” representa a totalidade dos discípulos de Jesus.


Por que não deve ter medo? Há três razões para o novo Povo de Deus não deve ter medo dos fundamentalistas religiosos. Primeira, a concepção religiosa de Jesus seguirá adiante apesar da oposição também religiosa dos fundamentalistas (Mt 10,26-27). Segunda, estes fundamentalistas religiosos recorrerão, inclusive, a métodos mortais (Mt 10,28ª). Mas a integridade física não dá a medida da pessoa. A integridade pessoal não se esgota com a integridade física. A integridade pessoal não pode ser eliminada nem sequer pela arma mortífera do fundamentalista religioso. Não é a este a quem tem que ter medo e sim a Deus, porque é Deus quem dá a verdadeira medida da pessoa (Mt 10,28b). Deus é Pai. A perda da integridade física não deve assustar os discípulos em nome da verdade e do amor. Esta perda tem um sentido e Deus não está ausente (Mt 10,29-31). Terceira razão para não ter medo é que o próprio Jesus é a garantia para o novo Povo: “Todo aquele que se declarar a meu favor diante dos homens, também eu me declararei em favor dele diante do meu Pai que está nos céus. Aquele, porém, que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante do meu Pai que está nos céus” (Mt 10,32-33).


2. Não Tenhamos Medo Dos Que Se Acham “Poderosos”, Pois Somente Deus é Poderoso


Precisamos saber que Mateus escreveu seu evangelho durante a década de 80 durante a qual reinava o imperador Domiciano (anos 81 a 96) que não tolerava o cristianismo. Consequentemente crescia a hostilidade, que rapidamente se converteria em perseguição organizada contra o cristianismo (no ano 95, por iniciativa de Domiciano, começa uma terrível perseguição contra os cristãos em todos os territórios do império romano).


A comunidade cristã a quem Mateus destinou o seu Evangelho era uma comunidade com grande zelo missionário, pronta em levar a Boa Nova de Jesus a todos os homens. Mas ao mesmo tempo teve que conviver com as dificuldades e as perseguições. Os cristãos de sua comunidade estavam perturbados e confusos diante desta situação e a tentação de desistir de tudo. Por esta razão, Mateus elaborou uma espécie de “manual do missionário cristão”, para mostrar que a atividade missionária fazia parte inseparável da vida cristã. Em outras palavras, ser cristão é ser missionário.


Pregar e viver de acordo com os valores que Jesus nos deixou como seus ensinamentos atrai a perseguição daqueles que são contra a estes valores. A perseguição atinge os cristãos por causa de seu amor por Deus e da fidelidade à Sua Palavra: “... todos os que quiserem viver com piedade em Cristo Jesus serão perseguidos” (2Tm 3,12) e pela humanidade. O desígnio do Pai é um desígnio de amor universal, que não discrimina ninguém, pois o mandamento novo é amar a todos os homens (Jo 13,34s), inclusive os inimigos (Mt 5,44). O próprio Jesus, obedecendo, até a morte da cruz, manifesta que o amor é mais forte do que o ódio e que uma morte tão sobrecarregada com o pecado dos homens também pode mudar definitivamente de sentido.


O texto de hoje, portanto, tem o objetivo de suscitar o ânimo nos discípulos diante das situações aparentemente maiores do que sua força. Mas apenas aparentemente, pois há uma força superior a todas as forças e todos os obstáculos: o próprio Deus que vai ter a última palavra sobre todos os homens (cf. Mt 25,31-45).


Quem são os novos fundamentalistas religiosos e os que se acham “deuses” de hoje? Quais são métodos que eles usam para obrigar os outros a ter crença que eles têm? Dentro da Igreja existem também os fundamentalistas religiosos? Que comportamento e método os seguidores do Senhor devem adotar para os fundamentalistas religiosos? Amai-vos uns aos outros como eu vos amei” é o estilo de vida que Jesus Cristo deixou para todos os que querem ser seus seguidores (Jo 13,34-35; 15,12). O amor é o nome próprio de Deus (cf. 1Jo 4,8.16) e “seremos julgados sobre o amor no entardecer de nossa vida” (São João da Cruz).


Mensagem Da Palavra De Deus Deste Domingo Para Nossa Vida Cotidiana


1. Levar Em Conta Os Nossos Medos De Cada Dia


Não tenhais medo!”. É a palavra do Senhor neste domingo.


No nosso mundo cada vez mais tecnológico e prometedor há algo inevitável e crescente em nós: o medo.


Temos medo de ir a uma rua deserta, de entrar num portão com um desconhecido atrás de nós, de subir num elevador com um estranho, de entrar na nossa porta com alguém de longe observando nossa entrada. Temos medo do porvir diante da crise econômica, política e social. Os pais têm medo de que seus filhos possam se drogar ou são levados para o mundo de crime. Temos medo do desastre nuclear, da arma biológica que estão na sombra da humanidade atual. Temos também medo de viver em muitas ocasiões, pois viver significa comprometer-se, decidir-se, definir-se. E quase sempre preferimos nos manter numa discreta penumbra sem arriscar uma segurança que temos medo de perder. Temos medo daquilo que os outros pensam de nós, de perder prestígio. Por isso, em muitas ocasiões não somos capazes de adotar uma decisão valente diante de uma determinada situação. Temos medo de perder emprego, de perder um ente querido. Temos medo de ser abandonados pelos demais homens. Temos medo de morrer, e assim por diante.


Todos nós experimentamos o medo e isso é normal. Mas o que temos que evitar é que nosso medo não se torne tóxico capaz de durar toda a vida.


O medo é sempre acompanhado pela imaginação. O medo alimenta a imaginação. Ao imaginarmos o pior, o medo começa a nos dominar. O medo que começa a nos dominar é capaz de paralisar nossa vida.


Ninguém gosta de sentir medo. Mas é preciso que nosso medo não cresça mais do que nós. Para isso, precisamos eliminar os medos sem fundamentos. Quanto mais pensarmos em uma coisa, mais isso fará parte de nossa realidade. Não pensemos no medo para que o medo não pense em nós. Por isso, em vez de dizer: “Preciso deixar de pensar nessa ideia”, temos que substituir este pensamento por outro mais positivo.


Por incrível que pareça, geralmente, o medo significa que estamos avançando. O medo é companheiro dos conquistadores e renovadores, dos inventores e das pessoas sucedidas. O medo mostra que os conquistadores estão fazendo algo novo, que estão saindo da zona de conforto para uma vida totalmente renovada e avançada. Mais tarde, os medrosos vão usufruir o produto/resultados dos renovadores da humanidade. Os gênios normalmente são condenados precipitadamente, mas mais tarde serão reconhecidos.   Cada desafio nos permite e nos chama a darmos um passo maior do que antes. Avançar não significa não sentir medo e sim ir para o novo e o melhor apesar dos temores que possamos sentir.


Não devemos ter medo do medo que é a fobia. Para vencer o medo temos que aprender a reconhecê-lo, a colocá-lo em palavras e a falar sobre aquilo que desperta medo em nós. Devemos olhar nossos medos de frente e não cobri-los, pois mesmo que fujamos, os medos continuarão nos acompanhar. É melhor verificarmos até que ponto temos realmente medo. Cuidado com nossos medos, pois eles roubam nossos sonhos e realizações! Onde o medo se torna dominador, a sabedoria não funciona. Façamos que nossos medos tenham medo de nós mesmos adotando novos modos de viver, saindo com coragem de nosso cantinho que nos paralisa para viver uma vida nova e renovada. Não tenhamos medo da mudança. Ela assusta, mas pode ser chave daquela porta pela qual você quer entrar. Tenhamos certeza de que somos maiores e mais fortes do que nossos medos, pois o Senhor está conosco (cf. Mt 28,20)


2. Levar Em Conta o Verdadeiro Medo Que o Senhor Nos Fala No Evangelho De Hoje


O Senhor Jesus quer que os cristãos estejam livres do medo principal. Ele fala do medo mais íntimo, mais profundo: o medo de perder a vida eterna (perda da salvação): “Não tenhais medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma! Pelo contrário, temei aquele que pode destruir a alma e o corpo no inferno!” É um medo compreensível para o qual o Senhor promete Sua assistência que é palpável ao longo da história da Igreja: “Quanto a vós, até os cabelos da vossa cabeça estão contados. Não tenhais medo! Vós valeis mais do que muitos pardais” (Mt 10,30-31; cf. Mt 28,20).


Por um lado Jesus nos exorta: “Temei aquele que pode destruir a alma e o corpo no inferno!”. Por outro lado ele nos recorda: “Todo aquele que se declarar a meu favor diante dos homens, também eu me declararei em favor dele diante do meu Pai que está nos céus. Aquele, porém, que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante do meu Pai que está nos céus”.


A vida ou a morte, a salvação ou a perdição definitiva de cada cristão depende da postura que ele toma diante de Jesus Cristo durante sua vida aqui neste mundo. O reconhecimento ou confissão pública que cada cristão faz de Cristo corresponde a um reconhecimento que Cristo faz do cristão diante do Pai do céu: o destino final de cada cristão depende da palavra de reconhecimento ou de negação que Cristo pronuncia sobre ele diante do Pai celeste.


Quando tivermos uma plena consciência disso, não teremos dificuldade em viver aquilo que Jesus Cristo disse hoje: “O que vos digo na escuridão dizei-o à luz do dia; o que escutais ao pé do ouvido, proclamai-o sobre os telhados!”.


Encontramos aqui dois níveis do anúncio que se expressam em dois termos: “ao pé do ouvido” e “do alto dos telhados”. Jesus quer que façamos os dois simultaneamente para que o anúncio seja completo.


O anúncio “ao pé do ouvido” é aquele anúncio que fazemos para quem está próximo de nós, para aqueles que convivem conosco, para os mais íntimos, que nem sempre é fácil, pois todos conhecem nossas fraquezas e bloqueios, além de nossas capacidades.


Mas não basta que cada cristão procure ser fiel a Jesus no íntimo de seu coração e no testemunho constante junto a quem nos conhece pessoalmente. O anúncio “ao pé do ouvido” deve se tornar um anúncio “do alto dos telhados”, deve se tornar público. O mundo precisa reconhecer nos cristãos uma força transformadora a favor da justiça, da paz e da fraternidade. Sem isso, os cristãos perderão a credibilidade diante do mundo ou sociedade (cf. Mt 5,13-16).


3. Levar Em Conta a Providência Divina


Quanto a vós, até os cabelos da vossa cabeça estão contados. Não tenhais medo! Vós valeis mais do que muitos pardais” (Mt 10,30-31; cf. Mt 28,20).


Na criação por amor, a vida é chamada a ser tão duradoura como o amor que a gerou, pois o amor não abandona aquele que ele gerou; seria como abandonar-se a si mesmo. Tudo isto simplesmente chama-se a PROVIDENCIA DIVINA.


Salvar é criar e recriar continuamente. Somos fruto do amor de Deus. O Criador poderia contentar-se com dar existência às coisas, abandonando-as a sua sorte. Mas Deus que gera vida por amor continuará amando o que ele gerou, pois ali persiste de alguma maneira sua própria vida.


Deus tem carinho e cuidado para as coisas mínimas como cabelos e pardais. Quanto mais para os homens criados à imagem e semelhança de Deus. O evangelista Mateus quer nos transmitir a certeza de que Deus está conosco até o fim dos tempos (Mt 28,20).


Pela certeza da companhia permanente de Deus e pela sua providência para o nosso cotidiano, a fé pede valentia e se vive num conjunto de disposições (constância, perseverança, ânimo, etc.) que formam juntas a fortaleza. A profissão da fé há de ser vista como um caminho que se cria caminhando. O caminho não é fácil. A reação espontânea é a negação do esforço e o refúgio na facilidade. A exortação se situa, então, no progresso da fé. É evidente a existência de obstáculos, mas o êxito é dos corajosos ou audaciosos, os renovadores ou inovadores. Cabe aqui um catálogo de atitudes: saber valorizar a fé como dom, estabelecer uns meios adequados para vive-la, ter um plano de vida e observá-la, ter sentido de esperança, incluir na normalidade a possível incompreensão e assim por diante. A vida do próprio Senhor Jesus, de Maria, a mãe do Senhor e de todos os santos não foi fácil. Todos eles são nosso modelos na luta de cada dia.


Comentário de Santo Agostinho sobre o Evangelho de hoje: “As palavras divinas que lemos nos encoraja a não temer temendo e a temer não temendo. Quando o evangelho foi lido vós sois advertidos que Deus nosso Senhor, antes de morrer por nós, quis que nos mantivéssemos firmes; porém, animando-nos a não temer e exortando-nos a temer. Disse, pois, ‘Não tenhais medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma!’ (Mt 10,28). Ai, nos animou a não temer. Vede agora onde nos exorta a temer: ‘Pelo contrário, temei aquele que pode destruir a alma e o corpo no inferno!’. Portanto, temamos para não temer. Parece que o medo vai associado à covardia; parece que o medo é próprio dos débeis, não dos fortes. Porém, vede o que diz a Escritura: ‘O temor do Senhor é a esperança de fortaleza’ (Pr 14,26). Temamos para não temer, isto é, temamos prudentemente, para não temer infrutuosamente. Os santos mártires... temendo não temeram: temendo a Deus, desdenharam aos homens”.


P. Vitus Gustama,SVD