segunda-feira, 31 de julho de 2017

01/08/2017
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SER SEMEADOR DO BEM DIARIAMENTE


Terça-feira da XVII Semana Comum


Primeira Leitura: Ex 33,7-11;34,5b-9.28
Naqueles dias, 7 Moisés levantou a tenda e armou-a longe, fora do acampamento, e deu-lhe o nome de Tenda da Reunião. Assim, todo aquele que quisesse consultar o Senhor, saía pra a Tenda da Reunião, que estava fora do acampamento. 8 Quando Moisés se dirigia para lá, o povo se levantava e ficava de pé à entrada da própria tenda, seguindo Moisés com os olhos até ele entrar. 9 Logo que Moisés entrava na Tenda, a coluna de nuvem baixava e ficava parada à entrada, enquanto o Senhor falava com Moisés. 10 Ao ver a coluna de nuvem parada à entrada da Tenda, todo o povo se levantava e cada um se prostrava à entrada da própria tenda. 11 O Senhor falava com Moisés face a face, como um homem fala com seu amigo. Depois, Moisés voltava para o acampamento, mas o seu jovem ajudante, Josué, o filho de Nun, não se afastava do interior da Tenda. 34,5b Moisés permaneceu diante de Deus invocando o nome do Senhor. 6 O Senhor passou diante de Moisés, proclamando: “O Senhor, o Senhor, Deus misericordioso e clemente, paciente, rico em bondade e fiel, 7 que conserva a misericórdia por mil gerações, e perdoa culpas, rebeldias e pecados, mas não deixa nada impune, pois castiga a culpa dos pais nos filhos e netos, até à terceira e quarta geração!” 8 Imediatamente, Moisés curvou-se até o chão 9 e, prostrado por terra, disse: “Senhor, se é verdade que gozo de teu favor, peço-te, caminha conosco; embora este seja um povo de cabeça dura, perdoa nossas culpas e nossos pecados e acolhe-nos como propriedade tua”. 28 Moisés esteve ali com o Senhor quarenta dias e quarenta noites, sem comer pão nem beber água, e escreveu nas tábuas as palavras da aliança, os dez mandamentos.


Evangelho: Mt 13,36-43
Naquele tempo, 36 Jesus deixou as multidões e foi para casa. Seus discípulos aproximaram-se dele e disseram: “Explica-nos a parábola do joio!” 37 Jesus respondeu: “Aquele que semeia a boa semente é o Filho do Homem. 38 O campo é o mundo. A boa semente são os que pertencem ao Reino. O joio são os que pertencem ao Maligno. 39 O inimigo que semeou o joio é o diabo. A colheita é o fim dos tempos. Os ceifadores são os anjos. 40 Como o joio é recolhido e queimado ao fogo, assim também acontecerá no fim dos tempos: 41 O Filho do Homem enviará os seus anjos e eles retirarão do seu Reino todos os que fazem outros pecar e os que praticam o mal; 42 e depois os lançarão na fornalha de fogo. Ali haverá choro e ranger de dentes. 43 Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai. Quem tem ouvidos, ouça”.
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Para Liderar Os Outros É Preciso Ser Uma Pessoa Orante


Logo que Moisés entrava na Tenda, a coluna de nuvem baixava e ficava parada à entrada, enquanto o Senhor falava com Moisés…. O Senhor falava com Moisés face a face, como um homem fala com seu amigo... Moisés permaneceu diante de Deus invocando o nome do Senhor.”, relatou o autor sagrado que lemos na Primeira Leitura.


Estas expressões querem nos dizer que Moisés era um homem de oração. Ele era o “confidente de Deus” em cuja intimidade vivia como um amigo com seu amigo. Moisés não era apenas um líder do povo eleito; ele não era apenas o homem de ação. Moisés era, principalmente, o “místico” que alimenta seu compromisso na contemplação e no diálogo permanente com Deus. Para liderar bem os outros é preciso rezar permanentemente pelo bem dos liderados.


Para enfatizar mais ainda sobre a importância da oração, o autor sagrado nos escreveu que “Moisés levantou a tenda e armou-a longe, fora do acampamento, e deu-lhe o nome de Tenda da Reunião. Assim, todo aquele que quisesse consultar o Senhor, saía pra a Tenda da Reunião, que estava fora do acampamento”. O povo eleito se encontra no deserto ao pé do monte Sinai. Esta descrição já nos mostra um ambiente silencioso. Apesar disso, Moisés armou uma tenda especial chamada “Tenda do Encontro”, onde ele e o povo podem se encontrar com Deus na oração. Tudo isto quer nos dizer que o homem necessita de silêncio e de solidão para encontrar Deus e para se encontrar com Ele.


Para escutar melhor precisamos criar o silêncio dentro de nós e ao nosso redor. O silêncio é um dos gestos simbólicos menos entendidos e praticados de nossa liturgia. No entanto a Igreja nos ensina que um dos meios para promover a participação ativa é o silêncio (cf. SC 30). A liturgia, na verdade, nos educa para saber escutar criando o silêncio. Não só quando Deus, por meio dos leitores, nos transmite a mensagem de sua Palavra, mas também quando o presidente da celebração dirige a Deus sua oração em nome de todos. Somente aquele que sabe calar e escutar tem condição de pronunciar palavras plenas de sentido e de autoridade.


Um Bom Líder É Aquele Que Exerce Também a Função de Intercessor


No dia anterior foi relatada a infidelidade do povo, quebrando a aliança com Deus através da construção de uma imagem de um bezerro de ouro para ser adorado. Os homens buscam um sistema religioso que lhe dê “segurança” e negam-se a encarar o risco da fé em um Deus que garante a salvação. Eles inventam um ídolo que eles possam manipular de acordo com os seus caprichos. O julgamento de Deus é terrível: “Deixa-me, para que se acenda contra eles a minha ira e eu os consuma”, disse Deus a Moisés (Ex 32,10).


Nesta situação Moisés exerce sua função de intercessor do povo para pedir o perdão de Deus: “Abranda o furor da tua ira e renuncia ao castigo que pretendias impor ao teu povo”, pede Moisés a Deus (Ex 32,12b). O autor sagrado nos relatou que “Deus desistiu do castigo com o qual havia ameaçado o povo” (Ex 32,14).


Moisés quer nos relembrar que eu sou o outro do outro. Minha vida está relacionada com a vida dos outros. Eu sou o que sou também por causa dos outros. Se cada pessoa estiver consciente de que ela faz parte inseparável da humanidade, ela se sentirá pertencer ao outro e torcer e esforçar-se pelo bem do outro. Eu sou um ser de relação.  


O perigo, hoje em dia, é esquecer-se desta consciência da pertença e acreditar que somente sou eu o centro de tudo e que os outros devem viver para mim e girar em torno de mim. Consequentemente, nós nos convencemos de que somos melhores que os outros. Condenamos a inveja, se a inveja é dos outros. Mas se é nosso o descaso, logo pensamos que não nos entendem os outros. É preciso fazer desaparecer essa forma de egoísmo destruidor para que renasça o amor que nos ensina a receber e a dar. Rezar pelos outros faz parte do amor cristão. Quando começarmos a rezar pelos outros, seja os da família, seja os outros fora da família, o mundo vai melhorar aos poucos. Quando faço parte de um grupo, pastoral, movimento etc., então tenho uma missão de rezar também pelo meu grupo, minha pastoral, meu movimento e assim por diante. É exercer um papel de intercessor como Moisés. Moisés se mostra sempre fiel a Deus, mas ele intercede pelo povo infiel. É preciso abraçar os outros também com nossa oração de intercessão. Quando eu estiver consciente de que faço parte da humanidade, então em qualquer lugar posso rezar por outras pessoas que eu encontrar no meu caminho diariamente. Muitos precisam de nossa oração e não de nosso julgamento.


Deus Permanece Misericordioso Para Nós Todos


O Senhor, o Senhor, Deus misericordioso e clemente, paciente, rico em bondade e fiel, que conserva a misericórdia por mil gerações, e perdoa culpas, rebeldias e pecados, mas não deixa nada impune!”.


Essa famosa declaração é feita depois do pecado da adoração do bezerro de ouro. A proclamação começa com a repetição do nome de Javé (YHWH). O emprego do H em YHWH indica o atributo da misericórdia de Deus. O primeiro H (=misericórdia) está antes dos pecados de uma pessoa e o outro H está depois dos pecados de uma pessoa.


Tudo isto quer nos dizer que Deus permanece misericordioso desde o princípio até o fim. Deus sempre perdoa seu povo, pois Ele é misericordioso, compassivo e bondoso. Onde reinar a misericórdia, a compaixão e a bondade, ali haverá o perdão. Com sua misericórdia infinita, Deus não dá chance para o inimigo destruidor da humanidade. Deus quer salvar e por isso, Ele perdoa. “Misericórdia é a palavra que revela o mistério da Santíssima Trindade. Misericórdia é o ato último e supremo pelo qual Deus vem ao nosso encontro. Misericórdia é a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida. Misericórdia é o caminho que une Deus e o homem, porque nos abre o coração à esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado”, escreveu o Papa Francisco (Bula Misericordiae Vultus n.2).


Ser Cristão É Ser Semeador Da Bondade


Continuamos a acompanhar o discurso de Jesus sobre o Reino de Deus em parábola.


No texto do evangelho de hoje Jesus explicou para os discípulos sobre o sentido da parábola sobre o joio e o trigo. "Aquele que semeia a boa semente é o Filho do homem", disse-lhes Jesus.


Jesus é um semeador. Mas não é qualquer semeador. Ele é um Semeador de boas sementes. Ele faz algo de bom... apenas o bom, nada de ruim. E eu? Será que sou um semeador de coisas boas ou eu semeio as sementes de joio? Vamos colher aquilo que semeamos.


Lançar sementes, semear sementes é sempre fácil. Mas precisamos saber daquilo que estamos semeando. O joio não vai produzir o trigo. O trigo não vai produzir o joio. Que tipo de semente que estou semeando, então? Semear joio é apenas uma forma de matar outras plantas boas para minha sobrevivência. Não posso semear aquilo que me prejudica e consequentemente prejudicará os outros ao meu redor.


A boa semente são os filhos do Reino”, disse Jesus. A fórmula é surpreendente. O que Jesus semeia neste momento no mundo somos "nós", filhos do Reino! Ele nos manda para o mundo para sermos sementes da bondade. É a tarefa principal como cristãos. Sou uma semente de Deus. Eu devo ser para os outros aquilo que sou para Deus. Se eu sou uma semente de Deus, eu devo ser, então, fonte de alegria de Deus no mundo, fonte da bondade de Deus no mundo para os demais. Deus fala e age através de mim no mundo. Para Deus eu existo para ser Sua semente neste mundo. Uma só semente. É pouco? Sim! Mas uma semente boa no terreno fértil pode produzir centenas de grãos bons. Eu devo me tornar multiplicador da bondade.


"Então os justos vão brilhar como o sol no reino do seu Pai”. O “sol” é uma belíssima imagem. O sol ilumina, aquece, ajuda no crescimento das plantas, orienta os caminhantes, faz os olhos saudáveis funcionarem, pois sem a luz por saudáveis que eles sejam, os olhos não enxergam. Somente numa boca saudável é que a comida gostosa fica saborosa. A bondade nos conduz à eternidade, para estar com o Supremo Bom que é Deus. Aquilo que tem algo divino em nós é que nos levará para o próprio Deus. Aquilo que não tem algo divino em nós pode nos levar para outra direção, menos para Deus.


O inimigo que semeou o joio é o diabo”. “Diabo” é aquele que desune. É aquele que está contra a igualdade. É aquele que está contra a comunhão e a comunidade. É o contrário do símbolo, duas coisas que se encaixam bem, bem se unem formando uma só força para construir e não para destruir. O diabo semeia à noite, na escuridão.  Na escuridão tem somente uma cor: preta. É uma grande pobreza ter só uma cor. O bom semeador semeia durante o dia, na claridade. Na claridade podemos perceber a variedade de cores. É uma grande riqueza. É uma harmonia. A palavra “harmonia” supõe a existência de várias coisas formando uma união que produz uma beleza. Serei diabo na medida em que eu semear a discórdia, a desunião, e a divisão.


A Palavra de Deus hoje nos chama a revisarmos nossa maneira de viver: Será que estou consciente de que sou semente de Deus neste mundo? Será que sou um semeador da bondade ou da maldade? Meus atos são diabólicos, atos que desunem ou são simbólicos, atos que criam união? Aquilo que tem algo divino em mim é que me levará para estar com o próprio Deus. Aquilo que não tem algo divino em mim pode me levar para outra direção, menos para Deus.  O que tem dentro de mim? 


P. Vitus Gustama,svd

sábado, 29 de julho de 2017


31/07/2017
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CRER EM DEUS E VIVER DE ACORDO COM SUA PALAVRA PARA ALCANÇAR A SALVAÇÃO


Segunda-Feira Da XVII Semana Comum


Primeira Leitura:  Ex 32,15-24.30-34
Naqueles dias, 15 Moisés voltou do cume da montanha, trazendo nas mãos as duas tábuas da aliança, que estavam escritas de ambos os lados. 16 Elas eram obra de Deus e a escritura nelas gravada era a escritura mesma de Deus. 17 Josué, ouvindo o tumulto do povo que gritava, disse a Moisés: “Há gritos de guerra no acampamento!” 18 Moisés respondeu: “Não são gritos de vitória nem gritos de derrota; o que ouço são vozes de gente que canta”. 19 Quando chegou perto do acampamento e viu o bezerro e as danças, Moisés encheu-se de ira e arremessou por terra as tábuas quebrando-as no sopé da montanha. 20 Em seguida, apoderou-se do bezerro que haviam feito, queimou-o e triturou-o, até reduzi-lo a pó. Depois espalhou o pó na água, e fez os filhos de Israel beberem dela. 21 Moisés disse a Aarão: “Que te fez este povo, para atraíres sobre ele tão grande pecado?” 22 Aarão respondeu: “Não se indigne o meu senhor. Tu bem sabes que este povo é inclinado ao mal. 23 Eles me disseram: ‘Faze-nos deuses que caminhem à nossa frente, pois quanto àquele Moisés, que nos tirou da terra do Egito, não sabemos o que lhe aconteceu’. 24 Eu, então, lhes disse: ‘Quem de vós tem ouro?’ Eles trouxeram ouro e me entregaram, e eu lancei-o no fogo e saiu este bezerro”. 30 No dia seguinte, Moisés disse ao povo: “Vós cometestes um grandíssimo pecado. Mas vou subir ao Senhor para ver se de algum modo poderei obter perdão para o vosso delito”. 31 Moisés voltou para junto do Senhor, e disse: “Ah! este povo cometeu um grandíssimo pecado: fizeram para si deuses de ouro. 32 Peço-te que lhe perdoes esta culpa, senão, risca-me do livro que escreveste”. 33 O Senhor respondeu a Moisés: “É aquele que pecou contra mim que eu riscarei do meu livro. 34 E agora vai, e conduze este povo para onde eu te disse. O meu anjo irá à tua frente; mas, quando chegar o dia do castigo, eu os punirei por este seu pecado”.


Evangelho: Mt 13,31-35
Naquele tempo, 31 Jesus contou-lhes outra parábola: “O Reino dos Céus é como uma semente de mostarda que um homem pega e semeia no seu campo. 32 Embora ela seja a menor de todas as sementes, quando cresce, fica maior do que as outras plantas. E torna-se uma árvore, de modo que os pássaros vêm e fazem ninhos em seus ramos”. 33 Jesus contou-lhes ainda uma outra parábola: “O Reino dos Céus é como fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de farinha, até que tudo fique fermentado”. 34 Tudo isso Jesus falava em parábolas às multidões. Nada lhes falava sem usar parábolas, 35 para se cumprir o que foi dito pelo profeta: ‘Abrirei a boca para falar em parábolas; vou proclamar coisas escondidas desde a criação do mundo’.
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Adorar Somente Ao Deus Único Que Nos Ama e Liberta


Peço-te que lhe perdoes esta culpa, senão, risca-me do livro que escreveste”, rezou Moisés a Deus em nome do povo infiel. “É aquele que pecou contra mim que eu riscarei do meu livro. Quando chegar o dia do castigo, eu os punirei por este seu pecado” é a resposta de Deus para o pedido de Moisés.


O tema da Primeira Leitura de hoje é a infidelidade de Israel através da idolatria (culto ao bezerro de ouro, no lugar de Deus) e a fidelidade inabalável de Deus. A cena termina com um gesto magnifico de Moisés, que sobe novamente ao monte para interceder pelo seu povo, pedindo o perdão de Deus: “Peço-te que lhe perdoes esta culpa, senão, risca-me do livro que escreveste”. Deus escuta Moisés. O castigo chegará a seu tempo (não entrarão na terra prometida), mas, de momento, segue a história da libertação. E o Salmo Responsorial é um eco da primeira leitura: “Construíram um bezerro no Horeb e adoraram uma estátua de metal; eles trocaram seu Deus, que é a sua glória, pela imagem de um boi que come feno. Esqueceram-se do Deus que os salvara, que fizera maravilhas no Egito; no país de Cam fez tantas obras admiráveis, no Mar Vermelho, tantas coisas assombrosas” (Sl 105).


O reconhecimento de Deus é fundamentalmente a negação dos ídolos. Em sentido próprio e clássico, idolatria é a adoração ou o culto que se atribui a entidades, objetos, imagens ou elementos naturais que se consideram dotados de poder divino, ou também a divindades falsas, “aparências vãs”. A palavra “ídolo” provem do grego “eidolon” que significa imagem. A idolatria é uma verdadeira aberração na ordem religiosa e moral, pois nela se inverte completamente a ordem dos valores. O Absoluto: Deus, se relativiza, e o relativo se absolutiza. Na idolatria, o que não é Deus, ainda que seja inferior ao homem, se considera como deus ou como algo divino.


Na Bíblia o oposto à fé em Deus não é o ateísmo e sim a idolatria. Por isso, a luta contra a idolatria é o tema principal que recorre o Antigo Testamento e está sempre no pano de fundo do Novo Testamento. A história da salvação não é outra coisa que um desapagar-se dos ídolos: desde Abraão até a Igreja de nossos dias. É a tarefa dos crentes de “não correr atrás do vazio” (Jr 2,5) e “guardar-se dos ídolos” (1Jo 5,21) para poder servir ao único Deus vivente (cf. Mt 16,16).


O texto da Primeira Leitura nos relata que a ausência demorada de Moisés que subiu ao monte para encontrar-se com Deus provoca o medo e a desconfiança no povo. O povo eleito não suporta o silêncio de Deus. O povo de Israel quer ver Deus andando na sua frente. Neste suposto silêncio de Deus, o povo perverte a ideia de Deus e manipula o Transcendente capaz de submetê-lo para seus caprichos ou necessidades.


Não terás outro deus além de Mim”, dizia Deus ao povo na Aliança de Sinai que serve como o primeiro mandamento. Este mandamento ainda está muito fresco na cabeça do povo eleito. Este primeiro mandamento é o eixo sobre o qual deve girar a compreensão exata do problema da idolatria. E para compreender o significado original do primeiro Mandamento é necessário colocá-lo no contexto histórico no qual foi proclamado por Deus: dentro de um processo crescente de libertação da escravidão em busca de uma terra de fraternidade.


Segundo o sistema religioso de Faraó, ele era o filho predileto de seu deus. Os outros eram considerados como filhos secundários. Com este sistema religioso se justifica o desprezo dos demais, a submissão do povo simples, o servilismo, a exploração dos mais simples e fracos. “Deus assim quer” era um ditado comum. Este sistema de Faraó conseguiu se enraizar na cabeça dos pobres. O deus de Faraó não passava de ser uma invenção humana para manter o povo na miséria e na ignorância, como mão de obra barata. Era a consagração religiosa daquele estado de injustiça institucionalizada. E para dar mais força a este sistema religioso, eles construíram grandes imagens, cheias de luxo e ostentação e construíram magníficos templos nos quais se celebravam solenes cultos religiosos. Com isso assustavam o povo simples e mantinha-se no servilismo e na submissão. Este sistema religioso era como água venenosa que ia penetrando profundamente nas raízes do povo até envenená-lo todo. O povo eleito que acabou de sair do Egito quer fazer o mesmo na ausência de Moisés e na fraca liderança de Aarão através da criação de um bezerro de ouro para ser adorado.


Javé, em quem o povo eleito acredita e deve acreditar, é totalmente distinto dos deuses de império. Javé não escuta os caprichos orgulhosos de Faraó. Os ouvidos de Javé estão atentos ao clamor dos oprimidos, dos empobrecidos, dos excluídos, dos explorados, dos simples e humildes... Não se trata de um Deus bom para uns poucos e indiferente e mau para a maioria. Ele é Deus bom para todos os seus filhos por igual. Criou a terra para todos, e por isso, opta preferentemente pelos despojados e desprezados. Daqui é que não pode suportar que alguém use a imagem ou o nome de Deus para oprimir e explorar seus filhos mais simples e pobres. “Aquilo que Deus mais condena e menos suporta é que haja gente que use a imagem de Deus para poder oprimir os irmãos. Por isso, se alguém quiser ter Deus do seu lado e pertencer ao povo de Deus, a primeira coisa que Deus pede é romper com o faraó e com todo o sistema inventado dos falsos deuses” (Carlos Mesters: Os Dez Mandamentos Ed. Paulus 2014 p.19).


Por isso, quem quer pertencer realmente ao povo de Deus da Bíblia, tem que romper com a religião dos opressores. Dentro deste contexto é que devemos entender o que está escrito no Primeiro Mandamento do Decálogo: “Não terás outros deuses além de mim. Não farás para ti imagem esculpida, nem figura alguma do que existe em cima, nos céus, ou embaixo, na terra, ou do que existe nas águas, debaixo da terra. Não te prostrarás diante destes deuses nem lhes prestarás culto, pois eu sou o Senhor teu Deus, um Deus ciumento”. O único Deus preocupado realmente pelo bem do povo e capaz de libertá-lo é Javé. Todos os outros não servem senão para oprimir os mais humildes e simples.


Portanto, vale a pena perguntarmo-nos: Existem ídolos que impedem o crescimento pessoal e comunitário? Precisamos descobrir juntos na comunidade e em cada um de nós quais são os ídolos que mais nos impedem de crescer? Em quais casos a religião, as Igrejas podem se converter num instrumento idolátrico que oprimem, escravizam e enganam o povo no lugar de servir de instrumento de libertação? O que Deus quer nos dizer hoje através do Primeiro Mandamento do Decálogo: Não terás outros deuses além de mim. Não farás para ti imagem esculpida, nem figura alguma do que existe em cima, nos céus, ou embaixo, na terra, ou do que existe nas águas, debaixo da terra. Não te prostrarás diante destes deuses nem lhes prestarás culto, pois eu sou o Senhor teu Deus, um Deus ciumento”? Estamos vivendo a situação parecida na época do povo eleito ao pé do monte Sinai?


Quem É Fiel a Deus Não Será Decepcionado


As duas parábolas (grão de mostarda e fermento) são muito parecidas em seus efeitos finais: aquilo que é, aparentemente, pequeno e frágil, produz um efeito maior em comparação ao seu tamanho original. As sementes da mostrada são muito pequenas: não mais de um milímetro de comprimento (tamanho). Mas ao plantar tornam-se uma planta com uma altura mais de dois metros a ponto de os pássaros fazerem ninho nos seus galhos.  O fermento é bem conhecido no mundo culinário para fermentar a massa.  Um pouco de fermento pode fazer crescer a massa num tamanho e quantidade maior.


O aspecto mais chamativo nestas duas parábolas é o contraste que existe entre a situação inicial e o resultado final. Um grão de mostarda, sendo a menor das sementes, pode fazer surgir uma planta grande. E o mesmo acontece com o fermento que tem capacidade para fazer fermentar uma massa em tamanho maior.


Através das parábolas do grão da mostarda e do fermento o Senhor quer nos ensinar a olharmos, em silêncio, para as mãos eternas de Deus em plena obra da redenção do mundo. Cristo, o Verbo divino do Pai, veio e se fez semente fértil no campo do mundo: “Tal como a chuva e a neve caem do céu e para lá não volvem sem ter regado a terra, sem a ter fecundado, e feito germinar as plantas, sem dar o grão a semear e o pão a comer, assim acontece à palavra que minha boca profere: não volta sem ter produzido seu efeito, sem ter executado minha vontade e cumprido sua missão”. (Is 55,10-11). A Terra recebeu Seu Corpo sacrificado e a semente de Seu Sangue rendeu um por mil. A Sua Palavra caiu nos corações de pessoas de boa vontade, sensíveis ao impulso do Espírito divino, e deu infinitos bons frutos até neste momento. “Os grãos” que a Semente divina produziu somos nós todos. Fazemos parte deste grande milagre. E através de nós, mesmo que em pequeno número, Deus é capaz de fazer efeitos maiores no mundo. Mas que sejamos perseverantes. A fé autêntica resiste diante de qualquer obstáculo e dificuldade, pois sabe-se da vitória final logo no início. A fé é a antecipação daquilo que se espera e a certeza daquilo que não se vê (cf. Hb 11,1).           


Com estas parábolas o Senhor quer, então, difundir esperança e ânimo aos seus discípulos e a todos os seus seguidores. Os seguidores não devem admitir nunca o desalento nem o pessimismo derrotista. A graça de Deus continua sendo a graça de Deus. Este é o fundamento de nossa esperança. Não olhemos apenas para nossas técnicas. Temos que acreditar na própria força da Palavra de Deus que devemos semear por onde passarmos, e tenhamos certeza de que, no fim, haverá o resultado maior do que imaginamos, a exemplo do grão de mostrada e o fermento, pois a própria Palavra de Deus tem força intrínseca. É inesgotável a fecundidade da Palavra de Deus, como a força germinadora da natureza em um contínuo rejuvenescer-se. Em cada semente, mesmo do tamanho do grão de mostarda, tem uma tal plenitude de vida que move o semeador a colocá-la na terra.


Não desistamos em semear o que é bom e digno, pois a bondade é o único investimento que nunca falha. Independentemente do reconhecimento humano ou não, a bondade continua sendo a bondade, o bem continua sendo o bem, a graça de Deus continua sendo a graça de Deus. Nossa única tarefa na nossa passagem neste mundo é continuar a semear a bondade por todos os meios possíveis e em qualquer lugar e tempo. O Senhor não permite o derrotismo pessimista nem o desespero, porque o êxito final é de Deus, que tem nas suas mãos as chaves da história humana. Não cabe ao cristão ficar decepcionado porque o resultado não aparece logo. Semear e semear a bondade é o único negócio do cristão, e deixar para Deus o resultado final. Alguém pode não reconhecer a bondade praticada, mas ela está escrita em Deus.


O texto do evangelho de hoje termina com a seguinte frase: “Nada lhes falava sem usar parábolas, para se cumprir o que foi dito pelo profeta: ‘Abrirei a boca para falar em parábolas; vou proclamar coisas escondidas desde a criação do mundo’”.


Esta frase se remonta à pergunta dos discípulos: “Por que lhes fala em parábola?” (Mt 13,10). Jesus fala do Reino de Deus em parábola para a multidão. Trata-se  de realidades invisíveis, como toda a atuação de Deus na história. É preciso usar comparações (em parábolas) para explicar e revelar melhor a realidade do Reino. Em todo caso fica claro que o falar de Jesus em parábola também é revelação. Isto quer nos dizer que Jesus tem uma atitude de revelação e de cumprimento. Não há nada de estranho em que este versículo 35 se encontra somente em Mateus. Trata-se de seu tema especifico: apresentar Jesus como Aquele que veio para cumprir e levar a seu cumprimento a Lei e os Profetas (Mt 5,17), para revelar a todos os mistérios do Reino e, depois para explicar em sua catequese seu sentido para aqueles que acolhem a mensagem. O evangelista Mateus cita o Salmo 78,2 que ele atribui a profeta (cf. Mt 1,22; 2,15), não porque este Salmo se atribui a um profeta (pois não se encontra em nenhum profeta) e sim porque todas as Escrituras do Antigo Testamento (AT) têm para Mateus o valor profético cujo cumprimento acontece na vida e missão de Jesus (cf. Mt 5,17).


Afinal, o que devemos fazer a partir das duas parábolas lidas neste dia? É sermos terra aberta para a semente da Palavra de Deus, para sua majestosa e sempre operante força, e tirar do caminho o que possa obstaculizar esta força e sarar a terra, que somos todos, para que através de nós cresça o bem no mundo. É ser massa macia para que o fermento da Palavra possa operar dentro de nosso coração para que sejamos pães para alimentar os demais. É tudo que devemos fazer.


P. Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Domingo, 30/07/2017
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VIVER COM SABEDORIA É VIVER EM BUSCA DA PÉROLA PRECIOSA PARA NOSSA SALVAÇÃO


XVII Domingo Comum Ano “A


I Leitura: 1Rs 3,5.7-12
Naqueles dias, 5 em Gabaon, o Senhor apareceu a Salomão, em sonho, e lhe disse: “Pede o que desejas, e eu te darei”. 7 E Salomão disse: “Senhor meu Deus, tu fizeste reinar o teu servo em lugar de Davi, meu pai. Mas eu não passo de um adolescente, que não sabe ainda como governar. 8 Além disso, teu servo está no meio do teu povo eleito, povo tão numeroso que não se pode contar ou calcular. 9 Dá, pois, ao teu servo, um coração compreensivo, capaz de governar o teu povo e de discernir entre o bem e o mal. Do contrário, quem poderá governar este teu povo tão numeroso?” 10 Esta oração de Salomão agradou ao Senhor. 11 E Deus disse a Salomão: “Já que pediste esses dons e não pediste para ti longos anos de vida, nem riquezas, nem a morte de teus inimigos, mas sim sabedoria para praticar a justiça, 12 vou satisfazer o teu pedido; dou-te um coração sábio e inteligente, como nunca houve outro igual antes de ti nem haverá depois de ti”.


II Leitura: Rm 8,28-30
Irmãos: 28 Sabemos que tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados para a salvação, de acordo com o projeto de Deus. 29 Pois aqueles que Deus contemplou com seu amor desde sempre, a esses ele predestinou a serem conformes a imagem de seu Filho, para que este seja o primogênito numa multidão de irmãos. 30 E aqueles que Deus predestinou, também os chamou. E aos que chamou, também os tornou justos; e aos que tornou justos, também os glorificou


Evangelho: Mt 13,44-52
Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 44 “O Reino dos Céus é como um tesouro escondido no campo. Um homem o encontra e o mantém escondido. Cheio de alegria, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquele campo. 45 O Reino dos Céus é também como um comprador que procura pérolas preciosas. 46 Quando encontra uma pérola de grande valor, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquela pérola. 47 O Reino dos Céus é ainda como uma rede lançada ao mar e que apanha peixes de todo tipo. 48 Quando está cheia, os pescadores puxam a rede para a praia, sentam-se e recolhem os peixes bons em cestos e jogam fora os que não prestam. 49 Assim acontecerá no fim dos tempos: os anjos virão para separar os homens maus dos que são justos, 50 e lançarão os maus na fornalha de fogo. E aí haverá choro e ranger de dentes. 51 Compreendestes tudo isso?” Eles responderam: “Sim”. 52 Então Jesus acrescentou: “Assim, pois, todo o mestre da Lei, que se torna discípulo do Reino dos Céus, é como um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas”.
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Viver a Vida Na sabedoria


Dá ao teu servo, um coração compreensivo, capaz de governar o teu povo e de discernir entre o bem e o mal. Do contrário, quem poderá governar este teu povo tão numeroso?”. Este é o pedido de Salomão a Deus que lemos na Primeira Leitura. Dou-te um coração sábio e inteligente, como nunca houve outro igual antes de ti nem haverá depois de ti”. É a resposta de Deus ao pedido de Salomão.


Salomão, consciente da magnitude de sua tarefa como rei e de suas próprias limitações, pede a Deus um coração sábio para governar: “Dá ao teu servo, um coração compreensivo, capaz de governar o teu povo e de discernir entre o bem e o mal. Do contrário, quem poderá governar este teu povo tão numeroso?”


A partir da Bíblia a sabedoria é a arte do viver bem. O verdadeiro sábio distingue o verdadeiro do falso, o justo do injusto, o bem do mal. O sábio bíblico coloca como fundamento todas as grandes virtudes: prudência, moderação, trabalho, não violência, humildade, sinceridade, justiça, solidariedade, compaixão, amor. A sabedoria bíblica é uma palavra reveladora: a autêntica sabedoria vem do alto, não está atada ao interesse ou ao cálculo humano. Ela é a verdade total que deve ser desejada e buscada pelo homem. A sabedoria é assim uma força geradora: ela dá origem ao homem, a sua história e a todo o ritmo da criação. A sabedoria é o conhecimento dos caminhos de Deus, de seu objetivo; indica ao cristão a direção em que ele deve caminhar, as normas às quais deve adaptar seu viver.


Sábio não é quem pensou a vida e sim quem deixa que a vida lhe diga, o que ele mesmo aprendeu vivendo a vida, quem deixa que a vida lhe entregue seu sabor e lhe revele seu sentido. Em geral, o homem sábio não diz sua sabedoria e sim a mostra. Sábio irradia sentido da vida e da convivência. O sábio é uma testemunha e não professor. O sábio testemunha uma experiência, ensina o que vive, não o que sabe. Em outras palavras, ele sabe viver testemunhando a vida.


Os sábios eram autênticos santos que, iluminados por uma luz transcendente, descobriram o caminho ou senda da vida, e, portanto, podiam ensiná-la aos demais homens tanto com seu exemplo como com sua palavra. Sábio era o homem prudente, equilibrado, reto, equânime e justo. É um exemplo para as gerações futuras.


Governar com sabedoria é um serviço e não um poder. Como serviço ao povo é absolutamente indispensável escutar a este povo, ter os olhos e ouvidos atentos à complexa realidade do povo. Governar com sabedoria é sintonizar com os autênticos interesses que o povo manifesta, e tratar de dar ao povo uma verdadeira resposta para suas necessidades reais e básicas. Governar com sabedoria é aprender a detectar a verdade onde possa ser detectada. A verdade não dói, mas liberta. O que dói é a mentira e falsidade. Governar com sabedoria é ser servidor da verdade e não ser cacique. Somente assim o poder humano se diviniza, pois salva o povo. Do contrário, é pura farsa e mera busca de interesses mesquinhos. Quando o interesse mesquinho prevalece, o mais inocente e humilde se torna vítima sem defesa.  


Salomão somente pede a Deus a capacidade de escutar o povo para poder governar com justiça, deixando de lado o poder e as riquezas. É assim que os nossos governantes vivem? É assim que os líderes religiosas, os bispos, os sacerdotes, os coordenadores das comunidades governam?


Viver Com Sabedoria É Viver Em Função De Alcançar a Glória Eterna


Aqueles que Deus contemplou com seu amor desde sempre, a esses ele predestinou a serem conformes a imagem de seu Filho, para que este seja o primogênito numa multidão de irmãos”, escreveu São Paulo aos Romanos que lemos na Primeira Leitura.


Estas palavras brotam da fé. A vida pode dar muitas voltas, mas estamos seguros de que nada poderá nos afastar de Cristo que tanto nos ama. Precisamente em Cristo, Deus mostrou e demonstrou seu amor. Com efeito, a fé sempre é fonte de alegria íntima, de estabilidade interior, de segurança profunda. Numa sociedade onde há tantas pessoas instáveis que sofrem todo tipo de pressão e de depressão, sabemos que nossa fonte de estabilidade está na Sua Palavra cheia de amor por nós. É claro que estas certezas brotam da fé. Quem tem fé, tem certeza de que no fundo do poço sempre há esperança, pois Deus nos ama infinitamente.


O amor de Deus por nós não tem outra finalidade que esta: fazer-nos conformes à imagem do Filho, Jesus Cristo. Todo o plano de Deus desde o princípio dos tempos se concentra nesta finalidade. Deus criou o universo, Deus se encarnou tem um único porquê: o amor pela humanidade (cf. Jo 3,16).


Aqueles que Deus predestinou, também os chamou. E aos que chamou, também os tornou justos; e aos que tornou justos, também os glorificou”, acrescentou São Paulo. Para São Paulo o supremo objetivo da vida nova em Cristo Ressuscitado é a glorificação com Cisto.


Portanto, temos que ter a humildade de abandonar aquilo que não nos glorifica em Jesus Cristo, antes que nossa vida caia em pedaços.


O Sábio Vive Em Busca Do Essencial, Do Tesouro para Sua Vida e Salvação


O Reino dos Céus é como um tesouro escondido no campo. Um homem o encontra e o mantém escondido. Cheio de alegria, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquele campo”.


As inúmeras guerras, que aconteceram em Palestina, levavam muitas pessoas a enterrar seus tesouros valiosos por motivo de segurança contra os ladrões. Pode acontecer que o proprietário do tesouro morra sem revelar a ninguém o lugar onde foi escondido o tesouro.    


Os personagens das duas primeiras parábolas (tesouro escondido e pérola preciosa) são respectivamente um “homem” (v.44) e um “comerciante” (vv.45-46). Ambos descobrem um bem extraordinário: um tesouro em um campo, no primeiro caso, e uma pérola, no segundo. O primeiro descobriu, por acaso, o tesouro ao trabalhar em um campo. Para dizer que o descobrimento do Reino de Deus não é devido ao esforço humano, mas à revelação ou ao descobrimento de Jesus, entendido como projeto que leva à plenitude a própria existência. Jesus sai ao nosso encontro. O segundo procura, intencionalmente, a pérola preciosa e a encontrou. Para dizer que é preciso a participação do próprio homem na descoberta do valor do Reino de Deus. O homem deve sair ao encontro de Jesus para ter a experiência com Deus a fim de chegar à própria plenitude como ser humano.  


Na experiência dos dois personagens o descobrimento de um valor precioso muda a vida de ambos, e os leva para a mesma decisão: “vender tudo o que tinham” e “comprar” o objeto que “encontraram”. E o dito objeto relativiza o resto. Para o homem da primeira parábola representa uma fonte de alegria por ter encontrado um valor incomparável. Para o comerciante significa o abandono de sua profissão porque, com a aquisição da pérola preciosa que ele procurava, deve interromper a cadeia de sua atividade.


Assim também é em relação com a vida do homem diante do Reino de Deus. Somente o Reino de Deus, o Reino de amor, descoberto como o supremo valor da existência, coloca o homem na possibilidade de descobrir o sentido dos restantes bens que se possui. A vida em Deus ou ser filhos e filhas de Deus é um valor incalculável, um dom do céu, e quem desfruta dele, por meio da fé, é um autêntico afortunado. A possessão, desta forma, se apresenta como algo relativo. A experiência do amor de Deus relativiza o resto sem desprezar seu valor no seu próprio lugar. A partir deste tesouro que é o Reino de Deus, todo o resto se ordena e adquire o seu valor próprio. Como aquele que encontrou a pérola preciosa foi capaz de colocar todas as demais coisas em uma escala justa de valores, de relativizá-las em relação com a pérola preciosa. E ele o fez com extrema simplicidade porque, ao ter como pedra de comparação, a pedra preciosa, sabe compreender melhor o valor de todas as demais pedras.  Quem encontrar o valor supremo de sua vida, a experiência de fazer parte da família de Deus em Jesus Cristo não desprezará outros valores, mas colocá-los-á em seu devido lugar. O bem relativo pode ser, mais ou menos, importante para a satisfação das necessidades humanas, porém, deve ser sempre confrontado com o bem supremo que é a experiência do amor de Deus, a experiência de serem filhos e filhas de Deus. Desta forma, as parábolas do tesouro escondido e a pérola preciosa conectam com a primeira bem-aventurança: “Bem-aventurados os pobres em espírito porque deles é o Reino dos céus” (Mt 5,3). A experiência do amor de Deus por nós é um dom incalculável


Quem Vive Na Sabedoria Sabe Onde Se Encontra Seu Tesouro


Onde está teu tesouro, ai estará também teu coração” (Mt 6,21).


Do ponto de vista de um homem que busca o sentido de sua vida, o tesouro de sua existência ou de sua vida é como uma utopia: não sabe onde está, nem sequer sabe se está em algum lugar ou em nenhum lugar. A busca é um esforço para encontrar algo que não se tem. Quem busca reconhece uma carência de algo. É uma atitude humilde por si mesma.


Nesta busca o homem somente conhece a inquietude de seu coração, porque “onde está teu tesouro, ai estará também teu coração” (Mt 6,21). Um homem que ainda não encontrou seu tesouro fica inquieto e busca incessantemente um sentido para sua vida. O coração errático do homem, sua vontade, pode, nestas circunstancias, fixar-se em qualquer coisa e agarrar-se a ela como se tivesse encontrado seu tesouro. Mesmo assim, ele continua inquieto, pois o tesouro do homem não é qualquer coisa. O homem pode ter tudo, mas se carecer o essencial, ele continuará inquieto.


A busca do Reino de Deus é compreender uma certa carência essencial em nossa vida, carência que nos impulsiona a sair de nós mesmos e não repousará até que encontremos essa realidade que faz completo nosso ser. Por isso, não é a riqueza, nem o êxito, nem o poder, nem a fama, mas o próprio Deus é o tesouro supremo do homem que o faz completo. Escondido no nosso mundo, coberto pela carne crucificada de Jesus de Nazaré, perdido entre os pobres, identificado com eles, está o tesouro do homem. Jesus é o “lugar de Deus”, e o irmão, o próximo é o “lugar” de encontro com Jesus. O próximo se transforma, então, em ocasião de salvação. Não é nada que o homem pode alcançar por si mesmo e somente para si mesmo, pois ele foi feito por Deus e para Deus na convivência fraterna com os outros. Por isso, Santo Agostinho rezava: “... Senhor, inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em Ti” (Confissões I,1). O homem só se encontrará, somente chegará à sua plena realização na medida em que ele buscar e viver e conviver de acordo com o Amor que é Deus (cf. 1Jo 4,8.16).


O homem que encontrou o sentido de sua vida em Deus é um homem alegre e dinâmico, como os dois homens na parábola que encontraram seu tesouro. Por este tesouro, ele é capaz de se desprender de tudo, de se despojar de tudo, de compreender a fraqueza do outro, de perdoar, de reconciliar-se com todos, de ser justo e honesto nos seus negócios, de ser correto e coerente no seu modo de ser, pois sua vida é direcionada por este supremo valor. A busca do Reino de Deus modifica nosso esquema de vida e não pode ser levado adiante sem uma absoluta sinceridade de coração. A busca do Reino de Deus é compreender uma certa carência essencial em nossa vida.


Nesta parábola, nem o homem que encontrou o tesouro nem aquele que descobriu a pérola sentem falta do que antes possuíam e que venderam. A riqueza do que acharam é de tal ordem que compensa tudo o que tinham. A mesma coisa acontece com os que descobrem ou encontram o seu caminho pessoal para Deus: abandonam tudo e encontram tudo, porque Deus é tudo. Quem, pela mensagem de Cristo, encontra Deus, renuncia jubilosamente a tudo. Tal verdade somente pode ser experimentada pela própria vida. Por isso, eles podem renovar tudo, acabar com a rotina de sua vida e começam a olhar mais longe e mais alto. E quem encontra Cristo expande a alegria e o otimismo para todos.


A vocação de seguir Jesus, Deus-conosco que é o nosso supremo tesouro sempre exige renúncia e uma mudança na conduta com alegria. Implica a entrega a Deus daquilo que se tinha reservado para si, e se abandonam os apegos, as fraquezas que se supunham intocáveis e que, no entanto, é preciso destruir para adquirir o tesouro sem preço. Se Jesus nos chama, também ele nos dá as graças necessárias para segui-lo durante a nossa vida.


A eucaristia é também um tesouro escondido. Tanto que passa despercebida, inclusive para nós que frequentamos a missa com assiduidade. Escondida em coisas triviais como pão e vinho está nada menos que todo insondável amor de Deus a todos nós. Só teremos a experiência do amor de Deus, se nós começarmos por demonstrar amor a nossos irmãos, especialmente aos mais débeis. Se descobrirmos a eucaristia como tesouro, se a apreciarmos, estaremos plenos de alegria e a nossa eucaristia resultará verdadeiramente em festa, em ação de graças.


E nós, já descobrimos esse tesouro? Desde que descobrimos Cristo, o que mudou na nossa vida, no nosso modo de pensar e de falar, e no nosso relacionamento com os outros e com as coisas? Que renúncias que temos que fazer ainda? “Onde está o teu tesouro, aí está também o teu coração” (Mt 6,21). Será que por algum bem material, ou alguma posição social abandonamos Cristo, o nosso tesouro incalculável? Muitos são os esforços que fazemos para encontrar o que nos falta: trabalho, dinheiro, prazer, cultura e assim por diante. Hoje podemos nos perguntar se existe o mesmo esforço para encontrar a Verdade no sentido de uma verdadeira visão da vida. Sem dúvida nenhuma, esta é uma das crises mais profundas de nossa cultura: tem-se de tudo, mas carece-se do essencial: uma visão geral do homem no cosmos que lhe permite situar-se como homem.
 
P. Vitus Gustama,svd

quinta-feira, 27 de julho de 2017

29/07/2017
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SANTA MARTA
JESUS É A RESSURREIÇÃO E A VIDA


29 de Julho


Primeira Leitura: 1Jo 4,7-16
7Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece Deus. 8Quem não ama, não chegou a conhecer Deus, pois Deus é amor. 9Foi assim que o amor de Deus se manifestou entre nós: Deus enviou o seu Filho único ao mundo, para que tenhamos vida por meio dele. 10Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou e enviou o seu Filho como vítima de reparação pelos nossos pecados. 11Caríssimos, se Deus nos amou assim, nós também devemos amar-nos uns aos outros. 12Ninguém jamais viu a Deus. Se nos amamos uns aos outros, Deus permanece conosco e seu amor é plenamente realizado entre nós. 13A prova de que permanecemos com ele, e ele conosco, é que ele nos deu o seu Espírito. 14E nós vimos, e damos testemunho, que o Pai enviou o seu Filho como Salvador do mundo. 15Todo aquele que proclama que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece com ele, e ele com Deus. 16E nós conhecemos o amor que Deus tem para conosco, e acreditamos nele. Deus é amor: quem permanece no amor, permanece com Deus, e Deus permanece com ele.


Evangelho: Jo 11,19-27
Naquele tempo, 19 muitos judeus tinham vindo à casa de Marta e Maria para as consolar por causa do irmão. 20 Quando Marta soube que Jesus tinha chegado, foi ao encontro dele. Maria ficou sentada em casa. 21 Então Marta disse a Jesus: “Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido. 22 Mas mesmo assim, eu sei que o que pedires a Deus, ele te concederá”. 23 Respondeu-lhe Jesus: “Teu irmão ressuscitará”. 24 Disse Marta: “Eu sei que ele ressuscitará na ressurreição, no último dia”. 25 Então Jesus disse: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá. 26 E todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais. Crês isto?” 27 Respondeu ela: “Sim, Senhor, eu creio firmemente que tu és o Messias, o Filho de Deus, que devia vir ao mundo”.
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O evangelho nos relatou alguns encontros de Marta com Jesus. O primeiro encontro aconteceu quando Jesus estava indo para Jerusalém e hospedou na casa de Marta (Lc 10,38-42). Nesse encontro Jesus disse a Marta que estava muito ocupada com a preparação de refeição em vez de escutar as palavras de Jesus: “Marta, Marta, tu te inquietas e te agitas por muitas coisas; no entanto, pouca coisa é necessária, até mesmo uma só. Maria, com efeito, escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada” (Lc 10,41-42). Nesse primeiro encontro, Maria, a irmã de Marta, escutava Aquele que era a própria Palavra de Deus (cf. Jo 1,1-3).


A comunidade cristã é fundamentalmente uma comunidade que escuta. Deixaria de ser uma comunidade cristã, se parasse de escutar a Palavra de Deus. Escutar é a primeira forma de fé e de oração, antes que dizer palavras ou entoar cantos. Escuta é a atitude mais cristã.


Silêncio e escuta são duas coisas inseparáveis. Uma não pode existir sem outra. Para escutar bem é preciso ter ou criar o silêncio. Para captar o sentido daquilo que está sendo escutado é indispensável o silêncio. O silêncio fomenta a sinceridade. Tenho que encontrar dentro de mim a verdade sobre a minha vida. O silêncio chega quando as minhas energias começam a descansar. A vida nunca é o que se consegue, pois não se pode ignorar que tudo quanto se alcança, se perde. A vida é o que se é. E só o que se é, permanece.


Outro encontro de Marta com Jesus aconteceu por ocasião da morte de Lázaro, seu irmão, como lemos no evangelho neste dia (Jo 11,19-27). A reflexão sobre esse encontro vamos ver mais adiante.


O último encontro de Marta com Jesus que o evangelho nos relatou aconteceu “Seis dias antes da Páscoa quando Jesus foi para Betânia” (cf. Jo 12,1-8). Nesse encontro Maria, a irmã de Marta, demonstrou seu amor por Jesus de modo peculiar. Enquanto Marta servia a refeição, Maria “ungiu os pés de Jesus e os enxugou com seus cabelos; e a casa inteira ficou cheia do perfume do balsamo” (Jo 12,3). Maria era uma pessoa que amava Jesus acima de tudo e de todos. Ela escolheu um perfume mais caro que tinha. O verdadeiro amor não tem preço. O verdadeiro amor dá tudo que se tem (cf. Jo 13,1). O gesto Maria antecipa a morte de Jesus cujo corpo será ungido (cf. Mc 16,1).


Depois desse três encontros Marta desapareceu dos relatos dos evangelhos. Nenhum documento antigo nos informa sobre seu comportamento durante os dias da Paixão de Jesus e do tempo que seguiu a ressurreição do Senhor até Sua ascensão ao céu.
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O episódio da ressurreição de Lázaro inicia mostrando a sintonia que reina entre Jesus e a comunidade dos que nele acreditam, representada por Lázaro, Marta e Maria. De fato, esses três representam a comunidade do Discípulo Amado que crescem na fé em Jesus, e as comunidades que aderem a Jesus em todos os tempos.


Marta, cuja festa celebramos hoje, representa o tipo de discípulo de Jesus que precisa superar o preconceito da morte enquanto desfecho fatal. Ela crê na ressurreição do último dia, como a maioria dos judeus. Mas Jesus é a Ressurreição e a Vida aqui e agora. Esse é o desafio feito às duas irmãs e a todos nós: Jesus não é a Vida somente depois da morte, mas ele é a Vida em abundância para esta vida e para além dela.


Superado o preconceito diante da morte, Marta se torna missionária porque ela vai chamar sua irmã Maria, que está sentada em casa, recebendo os pêsames da sociedade que nada faz diante das pessoas senão tentar consolar com palavras. “Maria ficou sentada em casa” esta expressão quer dizer que para Maria a morte de seu irmão significa o termino de sua vida. A ideia da morte como fim paralisa a comunidade e a faz permanecer no ambiente da dor, cercada pelos que não tem fé em Jesus. Maria tem de sair dessa casa para se encontrar com Jesus, a Ressurreição e a Vida. Também Maria, abandonando a “casa do desespero”, torna-se missionária porque ela conduz os judeus a Jesus que após o sinal (ressurreição) passam a acreditar em Jesus (v.31).


Jesus não veio para dar pêsames, e sim para comunicar vida. Após ter agradecido ao Pai, fonte da vida que comunica vida por meio da ação libertadora do Filho, Jesus chama Lázaro à vida. Jesus não veio para prolongar a vida física que o homem possui. Ele veio para comunicar a vida que ele mesmo possui e da qual dispõe: “Assim como o Pai tem a vida em si mesmo, também concedeu ao Filho ter a vida em si mesmo” (Jo 5,26). Esta vida é seu próprio Espírito, a presença Sua e do Pai naquele que o aceita e vive sua mensagem, e esta vida despoja à morte de seu caráter de extinção. Na frase de Jesus “Eu sou a ressurreição e a vida” o primeiro termo depende do segundo: ele é a ressurreição por ser a vida: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6). A vida que ele comunica, ao encontra-se com a morte, a supera; isto se chama ressurreição.


A ressurreição de Jesus e a nossa ressurreição pela fé em Jesus ressuscitado é a chave de nossa vida cristã. Crer na ressurreição não é somente crer em uma doutrina. Temos que crer na ressurreição com a vida; não somente com a cabeça. Temos que fazer nossa a ressurreição fazendo nosso o juízo de Deus contra o mal. Temos que crer na ressurreição com nossa atitude e nossas obras. Se nós acreditamos realmente na ressurreição, devemos respeitar a vida, a nossa própria e a dignidade da vida dos outros no seu início, na sua duração e no seu fim na história. Quem desrespeita a própria vida e a vida dos outros, nega a ressurreição. Se realmente acreditamos na ressurreição temos que ter certeza de que a vida não termina aqui, pois a vida é de Deus (cf. Jo 11,25; 14,6). Se acreditamos realmente na ressurreição devemos ter certeza de que os que nos precederam estão em comunhão conosco e intercedem por nós como nossos irmãos. Se realmente acreditamos na ressurreição não devemos prolongar nossa tristeza pelo falecimento de nosso irmão/ nossa irmã, nosso pai/nossa mãe, marido/esposa, filho/filha, pois eles apenas voltaram para a casa do Pai (cf. Jo 14,1-6). Se acreditamos realmente na ressurreição, devemos ter certeza de que o amor dos que nos precederam para a eternidade não morre, pois o amor é o nome próprio de Deus: “Deus é amor”, disse são João (1Jo 4,8.16). Em outras palavras, temos que fazer de nossa vida uma ressurreição permanente.


Além disso, crer na ressurreição de Cristo é muito mais que afirmar que Jesus foi tirado por Deus do túmulo; é reconhecer que o projeto de Deus se realiza em cada homem. Crer na ressurreição é crer no Deus da vida. E não somente isso; é crer em nós mesmos como a verdadeira possibilidade que temos de ser algo de Deus. A ressurreição de Jesus é a primícias de que na morte se nasce já para sempre.


Lázaro voltou à vida por ação de Jesus. Mas sua ação libertadora quer comprometer todos os que o seguem. A ação libertadora de Jesus implica nossa prática de libertação: desamarrar todas as pessoas de todos os laços que as prendem a uma situação de morte. Somos chamados a respeitar e a proteger a vida desde seu início, na sua duração e no seu término, pois a vida é sagrada. Por ser sagrada, a vida não pode ser sacrificada em nome de ninguém. Assim agindo, estaremos continuando o que Jesus fez, a fim de que todos tenham vida em abundância (cf. Jo 10,10).


Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá”.  A partir da ressurreição do Senhor não vivemos mais para morrer e sim morremos para viver. A vida não pertence mais à morte e sim a morte pertence à vida.


Para que nossa vida se torne uma ressurreição permanente temos que ter algo divino dentro de nós: amor, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). Amar a alguém, do ponto de vista cristão, é equivale a lhe dizer: Tu nunca morrerás. Tu viverás para sempre. Tu estarás em comunhão conosco mesmo de pois de terminar a passagem nesta terra. Com efeito, o homem morre não quando deixa de viver e sim quando deixa de amar. “Ama e faze o que quiseres!”, dizia Santo Agostinho (In epist. Joan. 7,8).  O amor é a vida do espírito. O ódio, portanto, é sua morte”, acrescentou Santo Agostinho (In ps. 54,7). A amabilidade e a bondade estão sempre unidas. “Bons amores fazem boas condutas” (Santo Agostinho: Serm. 311,11,11).


Quais são as amarras que nos prendem a uma situação de morte? E como nos livrar dessas amarras? Quantas vezes nos comportamos como Maria que consideramos a morte como o fim de tudo (acabou tudo) e esta crença, consequentemente, paralisa nossa vida. Precisamos ouvir e viver sempre aquilo que Jesus nos diz: “Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crê em mim ainda que esteja morto viverá”. É preciso que voltemos a ser verdadeiros cristãos vivendo na profundidade o que Jesus nos ensinou. Por este caminho superaremos muitas coisas na vida. Com Jesus ressuscitado, a vida não acaba, mas continua. Para chegar a esta verdade nós precisamos recuperar nossa fé em Jesus que é a ressurreição e a vida. É preciso que tenhamos consciência de que a fé na ressurreição é a razão de todas as celebrações e de todos os sacramentos e de todas as atividades evangelizadoras na Igreja. No Credo professamos: “Creio na comunhão dos santos; na remissão dos pecados; na ressurreição da carne e na vida eterna”.


P. Vitus Gustama,svd



28/07/2017

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QUEM É BOM, AMA, E QUEM AMA PORQUE É BOM


Sexta-Feira Da XVI Semana Comum


Primeira Leitura: Ex 20,1-17
Naqueles dias, 1 Deus pronunciou todas estas palavras: 2 “Eu sou o Senhor teu Deus que te tirou do Egito, da casa da escravidão. 3 Não terás outros deuses além de mim. 4 Não farás para ti imagem esculpida, nem figura alguma do que existe em cima, nos céus, ou embaixo, na terra, ou do que existe nas águas, debaixo da terra. 5 Não te prostrarás diante destes deuses nem lhes prestarás culto, pois eu sou o Senhor teu Deus, um Deus ciumento. Castigo a culpa dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração dos que me odeiam, 6 mas uso da misericórdia por mil gerações com aqueles que me amam e guardam os meus mandamentos. 7 Não pronunciarás o nome do Senhor teu Deus em vão, porque o Senhor não deixará sem castigo quem pronunciar seu nome em vão. 8 Lembra-te de santificar o dia de sábado. 9 Trabalharás durante seis dias e farás todos os teus trabalhos, 10 mas o sétimo dia é sábado dedicado ao Senhor teu Deus. Não farás trabalho algum, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem teu escravo, nem tua escrava, nem teu gado, nem o estrangeiro que vive em tuas cidades. 11 Porque o Senhor fez em seis dias o céu e a terra, o mar e tudo o que eles contêm; mas no sétimo dia descansou. Por isso o Senhor abençoou o dia do sábado e o santificou. 12 Honra teu pai e tua mãe, para que vivas longos anos na terra que o Senhor teu Deus te dará. 13 Não matarás. 14 Não cometerás adultério. 15 Não furtarás. 16 Não levantarás falso testemunho contra o teu próximo. 17 Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem seu escravo, nem sua escrava, nem seu boi, nem seu jumento, nem coisa alguma que lhe pertença”.


Evangelho: Mt 13,18-23
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 18 “Ouvi a parábola do semeador: 19 Todo aquele que ouve a palavra do Reino e não a compreende, vem o Maligno e rouba o que foi semeado em seu coração. Este é o que foi semeado à beira do caminho. 20 A semente que caiu em terreno pedregoso é aquele que ouve a palavra e logo a recebe com alegria; 21 mas ele não tem raiz em si mesmo, é de momento: quando chega o sofrimento ou a perseguição, por causa da palavra, ele desiste logo. 22 A semente que caiu no meio dos espinhos é aquele que ouve a palavra, mas as preocupações do mundo e a ilusão da riqueza sufocam a palavra, e ele não dá fruto. 23 A semente que caiu em boa terra é aquele que ouve a palavra e a compreende. Esse produz fruto. Um dá cem outro sessenta e outro trinta”.
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Amar a Deus Que Nos Liberta e Amar ao Próximo, Nossos Irmãos


Eu sou o Senhor teu Deus que te tirou do Egito, da casa da escravidão. Não terás outros deuses além de mim”.


A Primeira Leitura nos apresenta o Decálogo (Dez palavras), conhecido também como Dez mandamentos. O decálogo é um sumário de dez preceitos absolutos, seguramente o mais antigo dos códigos bíblicos: sua origem se remonta, sem dúvida nenhuma, à época de Moisés. Com razão o decálogo pode ser chamado de decálogo de Moisés.


O decálogo se situa no contexto da aliança, uma categoria de relação inter-humana adotada pela teologia bíblica para definir o povo de Deus. Neste contexto o decálogo é a norma pela qual o povo de Deus se guia: seu ser e seu fazer.


A aliança sempre supõe um ato bilateral. Mas o livro de Êxodo quer enfatizar a iniciativa de Deus. É Deus quem tem a iniciativa de libertar seu povo da escravidão do Egito e de fazer com ele uma aliança: “Eu vi, eu vi a miséria do meu povo que está no Egito. Ouvi o seu clamor por causa dos seus opressores; pois eu conheço as suas angústias. Por isso, desci a fim de libertá-lo da mão dos egípcios, e para fazê-los subir daquela terra boa e vasta, terra onde corre leite e mel” (Ex 3,7-8). Trata-se do povo que reconheça a soberania de Deus (Javé).


Por isso, o decálogo se inicia com as seguintes palavras: “Eu sou o Senhor teu Deus que te tirou do Egito, da casa da escravidão. Não terás outros deuses além de mim”. No primeiro mandamento se exige o reconhecimento do Deus único que se revelou como Salvador ou Libertador. A libertação é a obra de Deus: libertar o homem para ele ser livre. Consequentemente, o decálogo serve como meio pelo qual o povo se mantem na liberdade. E a liberdade é conquistada diariamente. O decálogo serve como ponto de referência para avaliar se cada membro do povo eleito está vivendo sua vida dentro daquilo que Deus quer. O que Deus quer é a liberdade do povo.


O texto também quer afirmar a presença de Deus no povo e em sua história. Este é o significado da expressão “Eu sou”. Deus ou Javé é o Senhor do tempo e da história, Senhor Criador e Libertador. Deus está no tempo e na história. Israel será plenamente ele mesmo na medida em que servir unicamente a Deus e superar as tentações de adorar qualquer outro deus feito segundo a medida das necessidades humanas.


O decálogo não se chama lei e sim “palavras” (decálogo), são revelação de Deus e comunicação sua com aqueles que O conhecem. Seu objetivo é prolongar, perpetuar a relação criada no primeiro conhecimento que é a salvação da escravidão. Por isso, a relação e a comunicação são entre o Salvador e os salvados (libertados). A memória da libertação faz com que o povo eleito permaneça na gratidão ao Deus Libertador e evite escravizar o próximo.


O decálogo contém duas ordens de preceitos: as que definem a atitude justa diante de Deus e as que regulam o comportamento com o próximo. Mas as duas ordens formam um todo indivisível. Não se responde a uma se não responde a outra igualmente.


Na primeira ordem (os três primeiros mandamentos) se exige o reconhecimento do Deus único que se revelou como Libertador ou Salvador. Este reconhecimento exclui a divinização de falsos absolutos e as representações criadas do Deus transcendente, proíbe o uso em vão o nome de Deus e recorda sempre Deus como Criador e Libertador (o dia de descanso, Sábado, é considerado como o dia de recordação da libertação).


Na segunda ordem (os outros sete mandamentos) se exige honra e respeito à pessoa, começando pelas que mais próximas: a família (os pais) até incluir a grande família humana. É proibida toda forma de dano à pessoa e a seus bens, até com intenção: “Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem seu escravo, nem sua escrava, nem seu boi, nem seu jumento, nem coisa alguma que lhe pertença”. Cobiçar é desejar algo ou alguém exageradamente. A forma negativa na formulação dos mandamentos quer exigir do homem atos e atitudes no cumprimento dos mandamentos.


Traduzido em outra linguagem pelo mesmo povo bíblico, os mandamentos exigem amor a Deus e ao próximo como a si mesmo (Dt 6,5; Lv 19,34). O amor efetivo (e não apenas afetivo) a Deus e ao próximo é que faz o povo de Deus: é a lei da aliança. Nas palavras de Jesus, os dois se resumem toda a lei e os profetas (Mc 12,28-23). O próprio São Paulo escreveu: “O amor é o pleno cumprimento da lei” (Rm 13,10). O amor é maior do que a fé e a esperança (cf. 1Cor 13,13).


Os mandamentos não nos tiram a liberdade. Ao contrário, eles são o caminho de uma vida digna, livre, em harmonia com Deus e com o próximo que é a melhor maneira de estar também em harmonia com nós mesmos. Os mandamentos são o caminho para a verdadeira libertação.


Somos Bons Sementes De Deus Neste Mundo


Jesus nos dá hoje um exemplo da interpretação espiritual necessária para entender o significado da parábola do semeador. Jesus compara os homens com quatro tipos/classes de terreno: a mesma semente, a mesma Palavra de Deus, mas dá resultados mais ou menos profundos conforme a resposta de cada pessoa à Palavra de Deus ou à semente semeada por Deus.


O evangelho é uma palavra viva porque o Autor do evangelho, Aquele que nos fala através das palavras proclamadas está vivo Hoje: Jesus Ressuscitado. Ele se dirige a nós pessoal e comunitariamente. Por isso, o evangelho não é uma coleção de ideias ou uma coleção de pensamentos bons apenas. O evangelho é o encontro com Alguém. Se nós acreditamos que Jesus ressuscitou e por isso, está vivo, o evangelho é sempre atual, pois trata-se das Palavras de Quem está conosco Hoje. Por isso, é preciso dar ouvido e abrir o coração para Aquele que está falando sobre nós aqui e agora, Hoje. Seria falta de respeito, falta de educação, falta de sensibilidade humana não prestar atenção para aquele que está falando, muito mais ainda para Aquele que é o nosso Salvador. Por isso, cada um há que perguntar ao Senhor na sua meditação e oração: O que eu descobri de ti, Senhor, através da passagem do evangelho proclamada para mim hoje?


Alguns começaram a meditar a Palavra de Deus com entusiasmo e alegria, pois no início encontraram nela consolação. Porém, é necessário perseverar. Não basta seguir o Senhor, quando isto parece agradável e fácil. É preciso também seguir o Senhor nas provações com perseverança, pois “aquele que perseverar até o fim, esse será salvo”, assim o Senhor prometeu (Mt 10,22). Um conhecimento profundo de Deus somente se adquire com uma longa e incansável frequência com o evangelho, lido, meditado e voltar a meditá-lo. O Senhor não se contenta com nossos fervores passageiros. Ele espera nossas fidelidades perseverantes.


E no seguimento do Senhor, há que saber escolher. “Ninguém pode servir a dois senhores. Com efeito, ou odiará um e amará o outro, ou se apegará ao primeiro e desprezará o segundo. Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro”, alerta-nos o Senhor (Mt 6,24). O descobrimento de Deus é uma maravilhosa aventura que implica muita renúncia e nossa entrega e nosso compromisso total: as preocupações mundanas, o prazer desenfreado, o afã de riqueza podem sufocar a Palavra de Deus. A riqueza promete muito, mas também decepciona muito.


Não há diploma sem estudo. Não há vitória sem luta. Não há colheita sem semear a semente e trabalhar pelo seu crescimento. Jesus fala de outra maneira: “A semente que caiu em terra boa é aquele que ouve a Palavra e a compreende. Esse produz fruto” (Mt 13,23). Um grão de trigo que colocamos num terreno fértil é capaz de produzir centenas de grãos. Então, depende de nós. Depende de mim. Depende de você. Tudo que Deus criou era bom (cf. Gn 1,1ss). Você foi criado por Deus. Logo você é bom. Consequentemente, você é capaz de fazer algo de bom para os outros. Seja você um terreno fértil transformando suas fraquezas em adubo para seu próprio crescimento e para o bem de todos. Se não conseguir produzir um por cem, você pode produzir um por sessenta ou um por trinta. Repito: a única coisa que nos faz crescer e nos faz bem e faz bem para os outros é fazer o bem. Não pode deixar para amanhã o bem que você deve fazer hoje mesmo, pois Deus quer você hoje e não amanhã e por isso, Ele fala para você diariamente.
P. Vitus Gustama,SVD