quarta-feira, 30 de agosto de 2017


02/09/2017
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TALENTOS RECEBIDOS SÃO DADOS PARA SEREM MULTIPLICADOS PARA O BEM DE TODOS


Sábado da XXI Semana Comum


Primeira Leitura: 1Ts 4,9-11
Irmãos, 9 não é preciso escrever-vos a respeito do amor fraterno, pois já aprendestes de Deus mesmo a amar-vos uns aos outros. 10 É o que já estais fazendo com todos os irmãos, em toda a Macedônia. Só podemos exortar-vos, irmãos, a progredirdes sempre mais. 11 Procurai viver, com tranquilidade, dedicando-vos aos vossos afazeres e trabalhando com as próprias mãos, como recomendamos.


Evangelho: Mt 25,14-30
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos esta parábola: 14 ”Um homem ia viajar para o estrangeiro. Chamou seus empregados e lhes entregou seus bens. 15 A um deu cinco talentos, a outro deu dois e ao terceiro, um; a cada qual de acordo com a sua capacidade. Em seguida viajou. 16 O empregado que havia recebido cinco talentos saiu logo, trabalhou com eles, e lucrou outros cinco. 17 Do mesmo modo, o que havia recebido dois lu­crou outros dois. 18 Mas aquele que havia recebido um só, saiu, cavou um buraco na terra, e escondeu o dinheiro do seu patrão. 19 Depois de muito tempo, o patrão voltou e foi acertar contas com os empregados. 20 O empregado que havia recebido cinco talentos entregou-lhe mais cinco, dizendo: ‘Senhor, tu me entregaste cinco talentos. Aqui estão mais cinco que lucrei’. 21 O patrão lhe disse: ‘Muito bem, servo bom e fiel! Como foste fiel na administração de tão pouco, eu te confiarei muito mais. Vem participar da minha alegria!’ 22 Chegou também o que havia recebido dois talentos, e disse: ‘Senhor, tu me entregaste dois talentos. Aqui estão mais dois que lucrei’. 23 O patrão lhe disse: ‘Muito bem, servo bom e fiel! Como foste fiel na administração de tão pouco, eu te confiarei muito mais. Vem participar da minha alegria!’ 24 Por fim, chegou aquele que havia recebido um talento, e disse: ‘Senhor, sei que és um homem severo, pois colhes onde não plantaste e ceifas onde não semeaste. 25 Por isso fiquei com medo e escondi o teu talento no chão. Aqui tens o que te pertence’. 26 O patrão lhe respondeu: ‘Servo mau e preguiçoso! Tu sabias que eu colho onde não plantei e que ceifo onde não semeei? 27 Então devias ter depositado meu dinheiro no banco, para que, ao voltar, eu recebesse com juros o que me pertence’. 28 Em seguida, o patrão ordenou: ‘Tirai dele o talento e dai-o àquele que tem dez! 29 Porque a todo aquele que tem será dado mais, e terá em abundância, mas daquele que não tem, até o que tem lhe será tirado. 30 Quanto a este servo inútil, jogai-o lá fora, na escuridão. Ali haverá choro e ranger de dentes!”
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Mudar Para Crescer Cada Vez Mais Faz Parte De Um Sucesso


Irmãos, não é preciso escrever-vos a respeito do amor fraterno, pois já aprendestes de Deus mesmo a amar-vos uns aos outros... Só podemos exortar-vos, irmãos, a progredirdes sempre mais”, escreveu São Paulo para a comunidade cristâ de Tessalônica.


Só podemos exortar-vos, irmãos, a progredirdes sempre mais!”, disse São Paulo.


Nas sociedades mais avançadas não há indivíduos presos ao destino determinado pela sorte, pois eles são capazes de projetar a própria vida, e de aprender coisas novas para crescer mais e ampliar o horizonte. Mudar para crescer cada vez mais faz parte da vida diária e da caminhada humana. O mundo, em termos de tecnologia, cresce cada vez mais, e nunca sabemos até onde! Cada tecnologia avançada impõe um novo estilo de vida nunca antes vivido ou antes simplesmente recusado. O mundo está cada vez mais conectado. A tecnologia que uma mão segura domina a vida de quem a segura. A tecnologia aproxima quem está distante e distancia quem está próximo.


Pessoas eficientes e realizadas não passam tempo fazendo o que é mais conveniente ou cômodo; elas têm coragem de aprender coisas novas para crescer, de ouvir o próprio coração sem medo, e de fazer coisas certas e precisas. Isso é que as torna grandes. As pessoas bem-sucedidas têm o hábito de fazer as coisas que os fracassados não gostam de fazer. Quando você deixa de crescer, estará envelhecido. Enquanto estiver aberto ao crescimento, você é jovem. O seu medo de crescer é o seu medo de tomar conta de si mesmo ou da sua responsabilidade como adulto” (René Juan Trossero, psicólogo e escritor argentino). “Os homens só envelhecem quando os lamentos substituem os sonhos” (John Barrymore, era um ator americano).


Se no dia anterior as recomendações de São Paulo para os tessalonicenses se referiam à vida de santidade afastando-se da impureza (refere-se à vida sexual), hoje se tratam da caridade fraterna que necessita melhorar.


Toda comunidade cristã, seja familiar ou religiosa, seja paroquial ou diocesano pode sentir-se hoje interpelada: “Só podemos exortar-vos, irmãos, a progredirdes sempre mais!”. Concretamente, é progredir na vida fraterna baseada no amor.


O amor é o eixo sobre o qual giram todas as virtudes e doutrinas do NT. Todas as virtudes lhe servem de alimento e nenhuma virtude subsiste sem o amor.


Estar no caminho de Jesus é estar no caminho de amor. O amor opera grandes transformações. A escuridão se transforma em luz, a solidão em comunhão, o Eu em Nós, o Éros em Ágape, o humano em divino.


O ensinamento que mais vezes nos põe diante da Palavra de Deus é o mandamento principal: amar a Deus e amar ao próximo. Infelizemente, é o campo em que mais faltamos e, portanto, o que mais necessita de nosso esforço de conversão contínua e de crescimento.


Além disso, é preciso levarmos em conta as recomendações concretas de São Paulo: “Procurai viver, com tranquilidade”, isto é, manter a calma e a paz na comunidade sabendo resolver as tensões existentes ou surgidas temporariamente. A tranquilidade da alma e da mente é uma conquista de cada dia.


Os Talentos São Dados a Cada Um De Nós Para Multiplicá-los Para o Bem De Todos


O texto do evangelho de hoje fala sobre os talentos. Mateus os coloca dentro do discurso de Jesus sobre o julgamento final. Se pensarmos no fim de nossa vida para prestar contas diante de Deus sobre nossos talentos, não tem como não faremos algo para multiplicá-los para o bem de todos.


Tanto em inglês como em português contemporâneos, talento refere-se exclusivamente à aptidão natural e à capacidade inata de certas pessoas para certas funções. O evangelho nos relata que um proprietário, antes de viajar, deixa seus bens (talentos) aos empregados. E o que ele confia a cada um deles não é pouco: é talento. Um talento equivalia a 34,272 quilos de peso ou aproximadamente a seis mil denários e tendo-se em vista que o salário mínimo de um trabalhador rural era um denário por dia (cf. Mt 20,1-16). Por isso, um talento correspondia, mais ou menos, a dezesseis anos e 160 dias de trabalho de um operário rural na época. Isto quer nos dizer que Deus confia para cada uma enorme capacidade e que somos capaz de transformar o bom em algo melhor (multiplicar).


Na parábola dos talentos o amo (patrão) distribui para seus empregados suas riquezas (isto é, os interesses do Reino) tendo em conta as possibilidades de cada um, ainda que seja um só talento dado, e não quer exigir mais do que os empregados podem fazer. E o interessante é que o proprietário não diz o que ou como os servos devem fazer com os talentos recebidos (modo de multiplicar), porque ele sabe que cada um deles é capaz, pois ele confia a cada um de acordo com a própria capacidade e responsabilidade (v.15). “Faze o que podes. Deus não te pede mais”, dizia Santo Agostinho (Serm. 128, 10,12). “Deus não leva em conta teus talentos, mas tua disponibilidade. Sabe que fazes o que podes, mesmo que fracasses no resultado, e contabiliza em teu favor o que tentaste fazer e não pudeste, como se o tivesses conseguido”, acrescentou Santo Agostinho (Serm. 18,5).


O texto fala também do momento de prestar contas, ou seja, do momento de juízo e da recompensa. Neste ponto, o relato usa as mesmas palavras para os dois primeiros empregados: “servo bom e fiel”: estes empregados falam o que fizeram com os talentos e o dono não toma os talentos que multiplicaram e sim que a eles o dono dá muito mais e os associa ao gozo de sua vida.


O que acontece com aquele que recebeu só um talento? Aqui o texto se detém longamente e de forma antitética do que o texto precedente. Isto significa que o ponto alto da parábola se encontra aqui e se centra na sorte daquele que, tendo capacidade, não fez nada com o talento. Ao contrário, se preocupa em conservar intacto o talento recebido. Como qualquer que se sente culpável ou culpado, esse empregado intenta justificar-se e o faz atacando seu dono: “Senhor, sei que és um homem severo, pois colhes onde não plantaste e ceifas onde não semeaste. Por isso fiquei com medo e escondi o teu talento no chão. Aqui tens o que te pertence”. Percebemos que o empregado não conhecia o seu dono, pois o que diz sobre seu amo não está certo. Ele acusa o dono de “um homem severo”, mas não foi com os outros dois empregados.


Além disso, o próprio empregado é dominado pelo medo: “... fiquei com medo e escondi o teu talento no chão”.  Sua atitude era realmente uma atitude de escravo, nunca chegou a conhecer o dono. Ele parece como certos cristãos que vivem com medo do Senhor (Deus), pois O veem como “juiz” e não como “Amor” (cf. 1Jo 4,8.16); não se sente como “filhos” e por isso, não se encontram sob a ação do Espírito Santo que ajuda a dizer: Abba, Papaizinho (Rm 8,15). “Deus não condena quem não pode fazer o que quer, mas quem não quer fazer o que pode”, dizia Santo Agostinho


Trata-se dos interesses do Reino, das riquezas do Senhor quando se fala dos talentos neste evangelho. Cada um tem obrigação de fazer frutificar os bens do Reino durante o tempo que a cada um foi concedido para administrá-lo (talento). Para Mateus este tempo é o tempo da Igreja, tempo de cada um de nós.


Deus confiou seus tesouros a todos os homens para serem administrados. Tudo o que temos é um bem que nos foi confiado. Deus tem confiança em nós ao nos dar “seus bens”. Eu sou “propriedade privada” de Deus. Todos os dons, todos os valores e riquezas que estão em mim, pertencem a Deus. Deus põe em jogo Sua Palavra como o faz um financista com seu capital. O empregado que recebeu um só talento, recusando mesquinhamente todo tipo de riscos, se decide por escolher uma segurança falsa, já que uma riqueza morta, sem investir, se desvaloriza. Quem não multiplica o que tem, o dilapida/ desperdiça. Quem “enterra” seu talento por medo a perdê-lo, se enterra a si mesmo e opta pela morte.


Para quem não viver uma espera ativa (as duas parábolas falam da demora da chegada do noivo [Mt 25,5] e do dono [Mt 25,19]), para quem não viver como terreno bom e fértil que dá como fruto trinta, sessenta ou cem por um (Mt 13,8.23), segundo sua situação, haverá somente condenação. Condenação é viver afastado do próprio Senhor; é viver fora de Sua casa; é viver atormentado. Por seis vezes, estes se descrevem com a imagem: “Ali haverá choro e ranger de dentes” (Mt 8,12; 13,42.50; 22,13; 24,51; 25,30). “Ninguém está tão só do que aquele que vivem sem Deus”, dizia Santo Agostinho.


O bom cristão não esconde o seu talento, mas aplica. Não enterra, mas planta; não guarda, mas multiplica; não se apropria, mas tudo coloca à disposição de todos para o bem de todos. Nenhum cristão pode ficar feliz enquanto outro irmão está passando por alguma necessidade. Podemos dizer que para o cristão, o bom negócio mesmo nessa passagem de vida é “partilhar”. Levaremos uma vida melhor, mais saudável e mais longa trabalhando juntos. A completa auto-suficiência é uma ilusão egoísta. Há muito mais força e felicidade na cooperação e na partilha. Você tem realizado e multiplicado os talentos que Deus depositou em você?


P. Vitus Gustama,svd

01/09/2017
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ESTEJAMOS PREPARADOS PARA O ENCONTRO DEFINITIVO COM AQUELE QUE NOS SALVA


Sexta-Feira da XXI Semana Comum


Primeira Leitura: 1Ts 4,1-8
1 Meus irmãos, eis o que vos pedimos e exortamos no Senhor Jesus: Aprendestes de nós como deveis viver para agradar a Deus, e já estais vivendo assim. Fazei progressos ainda maiores! 2 Conheceis, de fato, as instruções que temos dado em nome do Senhor Jesus. 3 Esta é a vontade de Deus: vivei na santidade, afastai-vos da impureza; 4 cada um saiba tratar o seu parceiro conjugal com santidade e respeito, 5 sem se deixar levar pelas paixões, como fazem os pagãos que não conhecem a Deus. 6 Que ninguém, nessa matéria, prejudique ou engane seu irmão, porque o Senhor se vinga de tudo, como já vos dissemos e comprovamos. 7 Deus não nos chamou à impureza, mas à santidade. 8 Portanto, desprezar estes preceitos não é desprezar um homem e sim, a Deus, que nos deu o Espírito Santo.


Evangelho: Mt 25,1-13
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos esta parábola: 1”O Reino dos Céus é como a história das dez jovens que pegaram suas lâmpadas de óleo e saíram ao encontro do noivo. 2 Cinco delas eram imprevidentes, e as outras cinco eram previdentes. 3 As imprevidentes pegaram as suas lâmpadas, mas não levaram óleo consigo. 4 As previdentes, porém, levaram vasilhas com óleo junto com as lâmpadas. 5 O noivo estava demorando e todas elas acabaram cochilando e dormindo. 6 No meio da noite, ouviu-se um grito: ‘O noivo está chegando. Ide ao seu encontro!’ 7 Então as dez jovens se levantaram e prepararam as lâmpadas. 8 As imprevidentes disseram às previdentes: ‘Dai-nos um pouco de óleo, porque nossas lâmpadas estão se apagando’. 9 As previ­dentes responderam: ‘De modo nenhum, porque o óleo pode ser insuficiente para nós e para vós. É melhor irdes comprar aos vendedores’. 10 Enquanto elas foram comprar óleo, o noivo chegou, e as que estavam preparadas entraram com ele para a festa de casamento. E a porta se fechou. 11 Por fim, chegaram também as outras jovens e disseram: ‘Senhor! Senhor! Abre-nos a porta!’ 12 Ele, porém, respondeu: ‘Em verdade eu vos digo: Não vos conheço!’ 13Portanto, ficai vigiando, pois não sabeis qual será o dia, nem a hora”.
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A Santidade Se Alcança Na Vivência Do Amor


Esta é a vontade de Deus: vivei na santidade, afastai-vos da impureza; cada um saiba tratar o seu parceiro conjugal com santidade e respeito, sem se deixar levar pelas paixões, como fazem os pagãos que não conhecem a Deus”.


Na segunda parte da Primeira Carta de São Paulo aos tessalonicenses (1Ts 4,1-5,24) encontram-se exortações, instruções e palavras de consolo. Trata-se de uma catequese apostólica com o intuito de esclarecer as mentes e fortalecer as vontades para que os cristãos se mantenham na vida querida por Jesus Cristo.


Os habitantes de Tessalônica, como os das demais cidades pagãs, estavam acostumados, antes de sua conversão, com um estilo de vida cheia de libertinagem, dentro e fora da vida matrimonial. Por isso, São Paulo recomenda aos tessalonicenses: “Esta é a vontade de Deus: vivei na santidade, afastai-vos da impureza; cada um saiba tratar o seu parceiro conjugal com santidade e respeito, sem se deixar levar pelas paixões, como fazem os pagãos que não conhecem a Deus”.


Juntamente à justiça, a liberdade é considerada pelo homem moderno como valor fundamental da existência do indivíduo e da sociedade. Nesta perspectiva, a história tende a aparecer como história da liberdade, e as diversas épocas e culturas são julgadas em relação à sua capacidade de promover e de ampliar a liberdade. Mas muitas vezes o homem não sabe usar sua liberdade a ponto de ele se tornar prisioneiro de sua própria liberdade sem regra chamada libertinagem. São Paulo nos alerta, através de sua Carta aos gálatas: “Vós, irmãos, fostes chamados à liberdade. Não abuseis, porém, da liberdade como pretexto para prazeres carnais. Pelo contrário, fazei-vos servos uns dos outros pela caridade” (Gl 5,13).


Deus não nos chamou à impureza, mas à santidade”, escreveu São Paulo que lemos na Primeira Leitura.


A Teologia Moral afirma que o pecado da impureza consiste no abuso da faculdade sexual, isto é, na sua aplicação contrária ao seu sentido e finalidade. O mal não está no prazer sexual como tal e sim em buscá-lo abusivamente e fora da ordem estabelecida pelo Criador no matrimônio. É bom ter o prazer psíquico e físico causado pelo uso da faculdade sexual sempre que esteja dentro da ordem querida por Deus. O “prazer é mau” quando resulta de seu abuso voluntário, a causa da desordem que encerra todo o ato.


A impureza usurpa o direito de propriedade que Cristo tem sobre o corpo: “O corpo não é para a forrnicação (impureza) e sim para o Senhor, e o Senhor é para o corpo” (1Cor 6,13) e constitui uma falta de respeito ao corpo de Cristo, ao que pertencemos pelo batismo (1Cor 6,15s). A impureza é uma profanação do templo do Espirito Santo e uma negação da glória que a Deus se deve dar com o mesmo corpo (cf. 1Cor 6,19s; Rm 6,19).


Ao contrário, “Deus vos chamou à santidade”. A ideia de santidade está presente em todas as religiões, ainda que seja com acentos e perspectivas diversos. No mundo semítico, a santidade expressa, antes de tudo e fundamentalmente, a noção de uma misteriosa potência que está relacionada ao mundo divino e que é também inerente a pessoas, instituições e objetos particulares. Desta potência brota, como segundo elemento característico, o conceito de separação: o que é santo deve estar separado do profano para que possa conservar seu caráter especifico e, ao mesmo tempo, para que o profano não se veja afetado pela perigosa energia do santo. A santidade aparece, por isso, como um valor sumamente complexo, que implica as noções de sagrado e de pureza e que se encontra relacionado especialmente com o mundo de culto.


Para participar da santidade de Deus há um meio muito eficaz: o amor. Somente o amor origina uma doação absoluta do homem a Deus, porque somente o amor conduz o homem a Deus que é o próprio amor (1Jo 4,8.16). Com efeito, o homem somente é plenamente ele mesmo quando se dirige aos demais por amor e unicamente no amor o homem pode ter verdadeira doação de si mesmo e somente o amor é a resposta plena que se deve a Deus como pessoa. O verdadeiro amor a Deus se estende ao homem. O amor ao próximo implica necessariamente um amor implícito a Deus no qual se fundamenta e se sustenta.


Caminhar Ao Encontro com Aquele Que Nos Ama e Salva


Os capítulos 24-25 de Mt constituem o quinto e o último discurso de Jesus neste Evangelho. Este quinto discurso é conhecido como o “Discurso escatológico” (discurso apocalíptico). Mt elabora notavelmente o discurso escatológico de Mc (Mc 13) e o amplia com uma série de parábolas e com uma impressionante descrição do julgamento final (Mt 25,31-46), cuja principal intenção é orientar os cristãos sobre como preparar a vinda do Senhor.


A linguagem destes capítulos pode provocar temor. Mas, na verdade, trata-se de uma linguagem apocalíptica que era relativamente freqüente entre alguns grupos judeus e cristãos. Chama-se de linguagem apocalíptica porque tem como objetivo manifestar uma revelação escondida (apocalypsis). Em muitas ocasiões esta revelação é dirigida a grupos ou comunidades que vivem uma situação de perseguição, com a intenção de animá-los e encorajá-los em suas lutas e tribulações. Por isso, não há motivo nenhum de alguém ver nestes textos uma ameaça, e sim, uma mensagem de esperança.


A parábola das dez virgens é uma das mais belas parábolas do evangelho, pois ela nos faz penetrar mais profundamente no coração de Jesus. Jesus é o Prometido. Jesus vem nos encontrar para salvar. Ele quer nos introduzir em sua família.


A vida cristã é uma marcha ao encontro com Alguém que nos ama e consequentemente no salva. Deus ama a humanidade e a humanidade vai ao encontro de Deus. O homem foi criado para a intimidade com Deus, para o intercâmbio de amor com Ele. Mas a visita ou a vinda é imprevista, a hora é imprecisa; não se sabe quando a visita vai acontecer. Por isso, é importante estar vigilante.


Se olharmos do ponto de vista da prudência, pois a parábola trata das cinco virgens prudentes (phronimoi) e outras cinco insensatas (morai), esta parábola nos faz lembrar também da conclusão do Sermão da Montanha que compara um homem néscio a um homem prudente (Mt 7,24-27). Na literatura sapiencial o prudente é aquele que age de acordo com as exigências de Deus; o insensato, ao contrário, age conforme sua própria cabeça (cf. Ecl 2,12-17). Da conclusão do Sermão da Montanha sabemos que um que é néscio construiu a casa sobre a areia e o outro que é prudente sobre a rocha. A casa do néscio desmoronou, pois sem nenhuma base sólida, enquanto a do outro fica firme diante da tempestade, pois foi construída sobre a rocha.


Na parábola das dez virgens encontra-se novamente o contraste entre prudente e néscio. Sabemos que a prudência determina o que é necessário escolher e o que é necessário evitar.  Ela separa a ação do impulso, o essencial do secundário. “A prudência é um amor que escolhe com sagacidade”, dizia Santo Agostinho.


A palavra “prudência” provém do latim “prudens-entis” que, na acepção própria, significa precavido, competente. Prudência é virtude que faz prever, e procura evitar as inconveniências e os perigos; cautela, precaução. A prudência é a capacidade de ver, de compenetrar-se e de ajustar-se à realidade. A prudência oferece a possibilidade de discernir o correto do incorreto, o bom do mau, o verdadeiro do falso, o sensato do insensato a fim de guiar o bom rumo de nossas ações. O prudente jamais se precipita no falar nem no agir sem conhecimento da causa ou da realidade. Tendo conhecimento da causa ou da realidade ele fala com cautela. A prudência é a faculdade que nos permite vermos e aprendermos a realidade tal como é. A prudência é o modo de viver dos sábios, pois o homem sábio é sempre guiado pela prudência. Por isso, o sábio dificilmente machuca os outros.


As cinco virgens levam o azeite suficiente, pensando na chegada atrasada do noivo, enquanto que as outras cinco não pensam nisso. Como é importante estar preparado, tanto para as surpresas agradáveis como para as desagradáveis na vida. Mas muitas vezes somos pegos de surpresa. O azeite é a Palavra de Deus vivida no dia a dia que se resume no amor. Diz Santo Agostinho: “Coisa grande, verdadeiramente muito grande significa o azeite (óleo). Só pode ser amor”.


Nesta parábola lemos que as cinco virgens insensatas gritam: “Senhor! Senhor! Abre-nos a porta!” (v.11). Mas a porta continua fechada. Quem vive segundo a Palavra de Deus tem a chave na mão para abrir a porta (do céu). As palavras da profissão “Senhor, Senhor” só salvam quem as professa, se ele viver de acordo com essa profissão. Chamamos e professamos Deus de Senhor porque queremos que ele assenhore nossa vida, e guie nossos atos e decisões, que ele seja o centro de nossa vida, que a vontade dele prevaleça na nossa vida, pois tudo que Deus quer é só salvar. Quem de nós não quer ser salvo? 


As cinco virgens prudentes estão de prontidão e prestam atenção às coisas essenciais. Enquanto que as cinco insensatas pensam em tudo, menos naquilo que é essencial, ou, de fato, tem importância. Há pessoas que perdem o rumo por causa das coisas efêmeras e não se lembram dos valores autênticos como caridade, justiça, paz, verdade, retidão, honestidade, reconciliação etc. pelos quais vale a pena comprometer-se. O homem é tão ocupado com as mil coisas que não deixam mais do que efêmeras satisfações que se esgotam logo que se produzem. Um sábio diz que há esquecimento por falta de memória, mas há esquecimento por falta de amor. Esquecemos Deus não por falta de memória, mas por falta de amor para com ele. Quando lhe convém, o homem esquece que é cristão(Santo Agostinho. In ps. 21, 2,5)


O que nos chama a nossa atenção é o aparente egoísmo e aparente falta de solidariedade das cinco virgens prudentes que não dividiram seu azeite para as insensatas, e a aparente falta de amor do noivo que não abriu a porta para as cinco insensatas também chama a nossa atenção. A parábola quer destacar uma responsabilidade pessoal que não é substituível por ninguém diante de Deus no fim dos tempos. Ninguém pode prestar contas em nome de outra pessoa diante de Deus nesse momento. Cada um é único diante do Deus único. As qualidades interiores, as qualidades do espírito que temos ou não as temos, não podem ser emprestadas ou repartidas diante da seriedade do momento. É insubstituível o compromisso pessoal da vigilância.


O juízo particular é tema que desperta não só responsabilidade, mas também esperança e otimismo. Deus não empurra ninguém para o céu ou para o inferno. É a própria pessoa quem decide sobre isso durante sua vida. Não é uma sentença divina que vai declarar a pessoa culpada ou inocente, e sim é o modo de vida da pessoa que vai condicionando sua opção por Deus. “Nunca esqueças: a única razão para ser cristão é a vida eterna” (Santo Agostinho. De civ. Dei 5,25). “Põe na terra as coisas terrenas, mas teu coração, no céu” (Santo Agostinho. In Joan. 18,6).Buscas a Deus na Igreja, ou buscas a ti mesmo?” (Santo Agostinho. Serm. 137,9).


Pe. Vitus Gustama,svd

terça-feira, 29 de agosto de 2017

31/08/2017
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ESTEJAMOS VIGILANTES, POIS O SENHOR VIRÁ REPENTINAMENTE


Quinta-Feira Da XXI Semana Comum


Primeira Leitura: 1Ts 3,7-13
Irmãos,7 ficamos confortados, em meio a toda angústia e tribulação, pela notícia acerca de vossa fé. 8 Agora sentimo-nos reviver, porque vós estais firmes no Senhor. 9 Como podemos agradecer a Deus por toda a alegria que nos invade diante do nosso Deus, por causa de vós? 10 Noite e dia rezamos efusivamente para vos rever e completar o que ainda falta na vossa fé. 11 Que o próprio Deus e nosso Pai, e nosso Senhor Jesus dirijam os nossos passos até vós. 12 O Senhor vos conceda que o amor entre vós e para com todos aumente e transborde sempre mais, a exemplo do amor que temos por vós. 13 Que assim ele confirme os vossos corações numa santidade sem defeito aos olhos de Deus, nosso Pai, no dia da vinda de nosso Senhor Jesus, com todos os seus santos.


Evangelho: Mt 24,42-51
Naquele tempo disse Jesus aos seus discípulos: 42 “Ficai atentos! porque não sabeis em que dia virá o Senhor. 43 Compreendei bem isso: se o dono da casa soubesse a que horas viria o ladrão, certamente vigiaria e não deixaria que a sua casa fosse arrombada. 44 Por isso, também vós ficai preparados! Porque na hora em que menos pensais, o Filho do Homem virá. 45 Qual é o empregado fiel e prudente, que o senhor colocou como responsável pelos demais empregados, para lhes dar alimento na hora certa? 46 Feliz o empregado, cujo senhor o encontrar agindo assim, quando voltar. 47 Em verdade vos digo, ele lhe confiará a administração de todos os seus bens. 48 Mas, se o empregado mau pensar: ‘Meu senhor está demorando’, 49 e começar a bater nos companheiros, a comer e a beber com os bêbados; 50 então o senhor desse empregado virá no dia em que ele não espera, e na hora que ele não sabe. 51 Ele o partirá ao meio e lhe imporá a sorte dos hipócritas. Ali haverá choro e ranger de dentes”.
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Viver Solidamente Na Fé e No Amor Na Esperança Da Segunda Vinda Do Senhor


Noite e dia rezamos efusivamente para vos rever e completar o que ainda falta na vossa fé... O Senhor vos conceda que o amor entre vós e para com todos aumente e transborde sempre mais, a exemplo do amor que temos por vós.... Que assim ele confirme os vossos corações numa santidade sem defeito aos olhos de Deus, nosso Pai, no dia da vinda de nosso Senhor Jesus, com todos os seus santos”, é a oração e o desejo de São Paulo para os tessalonicenses.


Estamos no ano 51 depois de Cristo, e São Paulo está longe da comunidade cristã tessalonicense. Depois de uma evangelização tão curta (alumas semanas), São Paulo tem uma preocupação de que a fé dos tessalonicenses seja frágil e cheia de lacunas. A causa da perseguição, São Paulo era obrigado a sair da Tessalônica antes do tempo que ele queria. Por isso, podemos entender o sentido da frase “Noite e dia rezamos efusivamente para vos rever e completar o que ainda falta na vossa fé”.


São Paulo conclui a primeira parte de sua carta aos tessalonicenses com uma oração: de ação de graças, de um desejo e de uma súplica.  Ação de graças porque através da notícia de Timoteo enviado para a Tessalônica São Paulo fica sabendo que os cristãos de Tessalônica continuam firmes na fé. Surge então o desejo de São Paulo para voltar a visitar a comunidade tessalonicense. Embora a comunidade tessalonicense se mntenham firmes na fé. E ele suplica a comunidade de Tessalonica cresça e fique abnundante no amor que é essencial para a vida cristâ.


Em outras palavras, a oração de São Paulose desenvolve segundo uma estrutura bem precisa: vv.10-11 fazem a alusão à fé dos tessalonicenses; o v.12 recorda sua caridade e o v.13, sua esperança (Fé Esperança e Caridade- Virtudes teologais).


A fé e o amor sólidos assegrurarão os cristãos de Tessalônica uma santidade irreprovável. Mas a comunidade deve crescer sem cessar na esperança da Parusia do Senhor (1Ts 5,23; 1Cor 1,8).


O cristão não pode ter a fé sem o amor e nem o amor sem a esperança. Com a vivência do amor, da fé e da esperança iseparadamente, o cristão é capacitado a dar a todas as coisas um sentido novo em Jesus Cristo: o sentido ele dá à vida, à morte e à ressurreição do homem-Deus, o sentido que ele dá à vida dos homens, entre eles e o sentido que ele dá à peregrinação terrestre da humanidade.


Viver Na Permanente Vigilância Faz Parte Inseparavel De Nossa Fé No Deus Que Virá Na Sua Parusia


 Não enganes a ti mesmo. Gostes ou não, não és mais que um convidado, um transeunte, um peregrino neste mundo. Podes, pois, adoçar teu caminho; porém, por mais que queiras, não poderás converter-te em residente(Santo Agostinho. In ps. 120,14)


O conjunto de Mt 24,1-25,46 forma o quinto Discurso de Jesus no evangelho de Mateus: o Discurso sobre o fim do mundo. Trata-se de um discurso apocalíptico-escatológico.


O termo “apocalipse” é muito longe da linguagem moderna que suscita imediatamente idéias de catástrofe, de desastre total, de comoções cósmicas aterradoras. No entanto, a linguagem apocalíptica quer expressar a fé e a esperança numa orientação divina da história humana e da criação. Os autores de apocalipses, diante do desenvolvimento de fatos inevitáveis, de catástrofes, de ruínas e de mudanças históricas, cantam sua esperança no cumprimento das promessas movidos pela fé no triunfo de Deus, aparentemente impossível, porém seguro: Deus triunfará sobre o mal. Conseqüentemente eles querem transmitir a força, o ânimo e a perseverança em seguir os mandamentos do Senhor, pois no fim a última palavra será a Palavra de Deus e não a do homem.


Na primeira parte do quinto discurso de Jesus (Mt 24,4-41), ao revelar o futuro dos discípulos, um futuro “presente”, Jesus quer ajudá-los a entender como devem viver na história a missão que lhes é confiada para pregar o Evangelho do Reino a todas as nações (24,14; 28,18-20), confiando em Sua Palavra (Mt 24,25).


O quinto discurso é chamado também de “o discurso escatológico”. “Escatologia” é o discurso sobre o que ocorrerá no fim. Quando falamos de realidades futuras e finais (escatologia), o texto assinala duas expressões: “Vinda do Senhor” e “Fim do mundo”. Quando intentamos a viver à espera do encontro com o Senhor, que terá lugar para o final da história, então dizemos que estamos dando um “sentido escatológico” para nossa existência. O mandato será: “Vigiai porque não conheceis nem o dia nem a hora”. O discurso termina falando do “encontro” com o Senhor glorioso (Mt 25,31-46).


O texto do evangelho de hoje começa com a seguinte ordem: “Ficai atentos! Porque não sabeis em que dia virá o Senhor”. Esta é a mensagem que a Palavra de Deus dirige a cada um de nós hoje. “Ficai atentos! Estejais vigilantes!”. Por um lado, é a certeza da vinda-regresso do Senhor. Por outro lado, a incerteza do “quando” desta vinda. Esse fato põe, de manifesto, a importância do tema sobre a vigilância. São João Crisóstomo dizia: “Se os homens conhecessem o momento de sua morte, eles se preparariam com grande empenho e cuidado para essa hora”. Jesus nos disse isto com parábolas que encontramos neste quinto discurso.


“Ficai atentos! Porque não sabeis em que dia virá o Senhor”. Ficai atentos! Estejam vigilantes! Velar ou vigiar, em sentido estrito, significa renunciar ao sono da noite para terminar um trabalho urgente e importante ou para não ser surpreendido pelo inimigo. Em um sentido mais simbólico significa lutar contra a negligência para estar sempre em estado de disponibilidade. É viver uma vida atenta à voz do Senhor e vigilante diante dos sinais da realidade.


Vigiar significa não distrair-se, não adormecer-se. Vigiar faz parte inseparável da própria atenção. O cristão não pode ser alienado. Ser vigilante faz parte do discipulado. Quem é vigilante nota com facilidade o que está acontecendo ao redor. A vigilância é a atitude própria do amor que vela. O amor mantém o coração alerta e a disponibilidade para ajudar. No meio de uma sociedade que parece muito contente com os valores que tem, o cristão é convidado a viver na esperança vigilante. Vigiar significa ter o olhar posto nos “bens de cima”. Vigiar é viver despertos, em tensão, mas não com angústia e sim com seriedade. O cristão precisa se esforçar por buscar sempre as “coisas do alto”, os valores que o edificam e salvam, como a fraternidade, o amor, a solidariedade, o projeto de Deus, entre “as coisas de baixo”, como egoísmo, ganância, exploração, arrogância, ódio e assim por diante. Em outras palavras, nós cristãos temos que ser protagonistas não somente da espera do Reino, mas também de sua construção desde agora neste mundo.


A vigilância perseverante nos leva a ser considerados bem-aventurados pelo Senhor quando vier: “Feliz o empregados cujo senhor o encontrar agindo assim quando voltar” (Mt 24,46). Será que o Senhor vai me considerar bem-aventurado quando ele chegar? É a pergunta que nos faz vigilantes e nos faz revermos nossas atitudes. Estou suficientemente atento e disponível para escutar os sinais, através dos quais Deus me apresenta as suas propostas?


A vigilância, para um cristão, não é opcional. O futuro de cada homem é imprevisível. A imprevisibilidade do futuro reclama vigilância. O homem prudente, sensato não considera a atitude vigilante como algo simplesmente possível, uma entre outras muitas opções. A vigilância é a melhor opção. Vigiar para ser capazes de dominar os acontecimentos, no lugar de ser dominados por eles. Vigiar para não perder jamais a paz. Vigiar para descobrir a escritura de Deus nas páginas da história. Vigiar para saber descobrir a ação do Espírito no nosso interior. Vigiar para manter íntegras a fé, a esperança e a caridade. A vigilância não é um opcional e sim uma necessidade vital. Vigiar é viver como o lavrador que semeia e está sempre pensando em ter boa colheita, e como o desportista que, desde o primeiro esforço, sonha em chegar primeiro à meta.


Um cristão não pode ser nem estar alienado. Ele deve estar em alerta constante, sempre pronto para a ação, e preparado para servir dia e noite. Servir para o cristão não é opcional, é lei constitutiva da vida cristã. O Senhor voltará com toda segurança no nosso encontro derradeiro. O discípulo não pode ficar adormecido. Ele deve permanecer alerta, sempre em tensão e em atenção. Somente assim ele assegurará a comunhão com o Senhor no gozo e no amor.


É sábio quem vive na vigilância permanente e sabe olhar para o futuro. Não é porque não saiba gozar da vida presente e cumprir suas tarefas de hoje e sim porque sabe que é peregrino nesta vida e o importante é assegurar-se sua continuidade na vida eterna. É viver com uma meta e uma esperança. Por isso, o trabalho neste mundo para o cristão é um compromisso pessoal para transformar-se a si mesmo e para transformar o mundo em que vive.


A fé é sempre um êxodo, uma saída, o começo de um caminho até o futuro de Deus que nos traz a salvação. Quem crê está sempre de passo, vive como um estrangeiro, como um nômade. Assim viveu Abraão, inclusive na terra que Deus lhe havia prometido (Gn 17,8; 20,1; 21,23; 24,37). A “terra prometida” é o símbolo da cidade futura, da cidade que Deus constrói para os que a buscam e põem nela toda sua esperança. No campo aberto pela promessa de Deus, o homem de fé se arrisca investindo toda sua vida e gera nova vida sobre sua debilidade ou fraqueza.


O cristianismo não está preocupado pela futurologia que se sustenta nas possibilidades humanas, nas previsões e tendências atuais para prever o futuro, e sim radicalmente pelo futuro que provem da promessa de Deus. Para Deus promessa significa certeza: “As minhas Palavras não passarão”, disse Jesus (Mc 13,31). Para Jesus o depois se inicia como algo já presente no agora. Isto que dizer que já agora temos que viver como viveremos depois, como rezamos no Pai-Nosso: “assim na terra como no céu”.


P. Vitus Gustama,svd

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

30/08/2017
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VIVER COM O ORAÇÃO PURO É VIVER NA AUTENTICIDADE


Quarta-Feira Da XXI Semana Comum


Primeira Leitura: 1Ts 2,9-13
9 Irmãos, certamente ainda vos lembrais dos nossos trabalhos e fadigas. Trabalhamos dia e noite, para não sermos pesados a nenhum de vós. Foi assim que anunciamos o Evangelho de Deus. 10 Vós sois testemunhas, e Deus também, de quão santo, justo, irrepreensível foi o nosso proceder para convosco, os fiéis. 11 Bem sabeis que, como um pai a seus filhos, 12 nós exortamos a cada um de vós e encorajamos e insistimos, para que vos comporteis de modo digno de Deus, que vos chama ao seu reino e à sua glória. 13 Por isso agradecemos a Deus sem cessar por terdes acolhido a pregação da Palavra de Deus, não como palavra humana, mas como aquilo que de fato é: Palavra de Deus, que está produzindo efeito em vós que abraçastes a fé.


Evangelho: Mt 23, 27-32
Naquele tempo, disse Jesus: 27 “Ai de vós, mestres da Lei e fariseus hipócritas! Vós sois como sepulcros caiados: por fora parecem belos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e de toda podridão! 28 Assim também vós: por fora, pareceis justos diante dos outros, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e injustiça. 29 Ai de vós, mestres da Lei e fariseus hipócritas! Vós construís sepulcros para os profetas e enfeitais os túmulos dos justos, 30 e dizeis: ‘Se tivéssemos vivido no tempo de nossos pais, não teríamos sido cúmplices da morte dos profetas’. 31 Com isso, confessais que sois filhos daqueles que mataram os profetas. 32 Completai, pois, a medida de vossos pais!”
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 Trabalho Que Humaniza e Santifica o Homem É Um Trabalho Evangelizador


Irmãos, certamente ainda vos lembrais dos nossos trabalhos e fadigas. Trabalhamos dia e noite, para não sermos pesados a nenhum de vós”, escreveu São Paulo aos tessalonicenses que lemos na Primeira Leitura.


Nas Cartas aos Tessalonicenses São Paulo fala enfaticamente sobre a dignidade do “trabalho manual”. Ele chegou a escrever aos tessalonicenses na Segunda Carta: “Quem não quer trabalhar também não há de comer” (2Ts 3,10).


Os pagãos de cultura grega despreciava o trabalho manual, indigno de um homem livre (trabalho servil). Para São Paulo, ao contrário, o trabalho manual era não somente um fator complemntário do equilíbrio humano e sim, sobretudo, um meio de não ser peso para os demais: “Trabalhamos dia e noite, para não sermos pesados a nenhum de vós”.


No trabalho de evangelização São Paulo e seus colaboradores não têm nenhum interesse econômico, isto é, não querem explorar os tessalonicenses. Eles evangelizam trabalhando. Sabemos que São Paulo era um confeccionador hábil. Ele fez lonas para tendas (Cf. At 18,3). São Paulo não tinha vergonha dos calos de suas mãos ou do dinheiro que ganhava com seus trabalhos “para satisfazer suas necessidades e as de seus companheiros” (At 20,34).


O Papa João Paulo II, logo no início de sua Carta Encíclica: Laborem Exercens, escreveu a seguinte definição sobre o trabalho: “Com a palavra trabalho é indicada toda a atividade realizada pelo mesmo homem, tanto manual como intelectual, independentemente das suas características e das circunstâncias, quer dizer toda a atividade humana que se pode e deve reconhecer como trabalho, no meio de toda aquela riqueza de atividades para as quais o homem tem capacidade e está predisposto pela própria natureza, em virtude da sua humanidade”.


O trabalho, todo trabalho é testemunho da dignidade do homem, de seu domínio sobre a criação. É ocasião de desenvolvimento da própria pessoa, e é fonte de recursos para sustentar a própria família. Com o trabalho o homem ganha seu pão de cada dia para sustentar a vida que é sagrada. Por isso, o trabalho é também sagrado.


O trabalho é vínculo de união com os demais seres humanos, e meio de contribuir para a melhoria da sociedade na qual se vive e o progresso da humanidade. Através do trabalho o homem mostra seu caráter social e entra em contato com os outros. O trabalho também é o lugar de encontro social.


Com o trabalho o homem humaniza o mundo em dois sentidos: No sentido de que o homem faz do mundo uma moradia mais habitável, hospitaleira e confortável. É também no sentido de que o mundo torna-se o reino do homem e não de outras potências e de outros seres, graças ao trabalho. O mundo é o material para trabalhar, pois no mundo o homem descobre tudo aquilo de que necessita para seu crescimento.


Através do trabalho, o homem participa da obra do Criador que continua trabalhando. “Meu Pai trabalha até agora e eu também trabalho”, disse Jesus aos seus adversários (Jo 5,17).  Isto significa que através do trabalho o homem se transcende, pois o homem se esforça todos os dias para se superar e para estar com Deus que continua trabalhando pela humanidade e pelo universo.


Quando fizermos um trabalho bem feito na honestidade para o bem comum e para ajudar os outros a crescerem, estaremos fazendo um trabalho de evangelização. Nisto santificamos o trabalho. Santificar o trabalho é fazer santa a atividade humana de trabalhar. Todo o demais são consequências imediatas: da santificação da pessoa que trabalha até a santificação das estruturas do mundo dos homens. “O trabalho bane estes três grandes vícios: tédio, vício e pobreza” (Voltaire, filósofo).


Viver Com Cristo É Viver Na Autenticidade


 Ai de vós, mestres da Lei e fariseus hipócritas! Vós sois como sepulcros caiados: por fora aparecem belos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e de toda podridão”.


Mais acusações de Jesus contra a hipocrisia dos fariseus e escribas: aparecer por fora o que não é por dentro.


Antigamente, hipócrita era quem, simulando virtudes, nobres sentimentos e boas qualidades, enganava as outras pessoas no intuito de conquistar a estima delas. Um hipócrita sempre quer parecer bom. Ele refugia na simulação de possuir virtudes. Ele não se preocupa em ser bom, mas em parecer bom. “Onde não há virtude não há retidão”, dizia Santo Agostinho. “A simulação de uma virtude é sacrilégio duplo: une à malicia a falsidade”, acrescentou Santo Agostinho.


Jesus critica duramente a distância que há em nós entre o “parecer” e o “ser”; entre o que deixamos que apareça de nossa vida e o que ocultamos. Se alguém falar muito de si pode ser uma forma de se ocultar. “Quem não sabe julgar o que merece crédito e o que merece ser esquecido presta atenção ao que não tem importância e se esquece do essencial” (Buda). Jesus quer que tenhamos o mesmo cuidado tanto de nossa aparência como de nosso interior. A dignidade da pessoa humana não consiste em parecer bom, mas em ser bom. De uma pessoa de bondade só saem as coisas boas. Mas um coração não convertido nunca produz frutos bons para a convivência.


Para denunciar a hipocrisia dos mestres da Lei e dos fariseus, Jesus serve-se, no evangelho de hoje, de uma expressão forte. Ele chama os fariseus e escribas de “sepulcros caiados”: belos por fora, cheios de podridão por dentro.


Os sepulcros, na cultura judaica, eram cuidadosamente pintados de branco, de modo a serem bem visíveis. Desta forma, evitava-se o contato das pessoas com o túmulo e, por extensão, com o cadáver nele sepultado. Se os sepulcros fossem tocados por inadvertência, impedia a pessoa de participar das atividades religiosas, pois ficou impura. É assim o formalismo: pecar sem saber. O formalismo cobre a consciência de que a pessoa está cometendo o pecado.


Jesus compara a vida dos mestres da Lei e os fariseus a um sepulcro. Não adianta querer esconder cadáveres no porão, porque eles acabam cheirando mal. Como sepulcros caiados, eles parecem justos por fora, mas por dentro estão repletos de hipocrisia e de maldade. De que adiantam a beleza exterior e esplendor externo quando há miséria interior?


Mas Jesus não se deixa enganar porque ele conhece o coração de cada ser humano. O olhar de Jesus é o de Deus: não fica na superfície, mas penetra profundamente, atinge o coração e vê o que está no íntimo do homem, a parte mais recôndita da alma. É iníquo quem atua contra a Lei de Deus e tem seu coração longe d’Ele.


O cristão que lê o texto do evangelho de hoje precisa voltar a ler conjuntamente Mt 6,1-6.16-18 onde Jesus disse três vezes aos seus discípulos que não vivam como hipócritas, e precisa ler novamente Mt 7,1-5 onde Jesus chama “hipócrita” o discípulo que espera dos demais o que ele mesmo não quer fazer. Isto significa que o perigo de ser como os fariseus está sempre presente na comunidade.


Não estamos isentos do exibicionismo e da hipocrisia dos escribas e fariseus. Se cada um de nós empregar na busca do bem todo o tempo e todas as energias que desperdiça em mendigar os louvores dos outros, talvez tenha a consciência tranqüila e a satisfação de ser admirado. Mas, preferindo os louvores em vez do bem, ele está convulsionando a ordem das coisas e acabará ficando com o coração vazio.


A dignidade da pessoa humana não consiste em parecer bom/boa, mas em ser bom/boa. O verniz encobre o mal, mas não o suprime; um sepulcro pintado de branco parecerá menos lúgubre, mas continuará um sepulcro.


Nós andamos, muitas vezes, preocupados com o que os outros pensam de nós. Mas na verdade devemos trabalhar pela pureza de nosso interior para que nossos atos e ações também sejam puros e não simplesmente para agradar ninguém. E nós mesmos também queremos, muitas vezes, que os outros se comportem como desejamos. Na verdade precisamos estar em sintonia com o querer de Jesus Cristo. Jesus quer que estejamos preocupados com a justiça, a fidelidade e a misericórdia, como ele falou no evangelho do dia anterior.


“Ai de vós, mestres da Lei e fariseus hipócritas! Vós construís sepulcros para os profetas e enfeitais os túmulos dos justos, e dizeis: ‘Se tivéssemos vivido no tempo de nossos pais, não teríamos sido cúmplices da morte dos profetas’. Com isso, confessais que sois filhos daqueles que mataram os profetas. Completai, pois, a medida de vossos pais!”, assim terminou o texto do evangelho de hoje.


Esta última acusação é o ato de ruptura de Jesus com Israel e é um olhar panorâmico sobre toda sua história, uma história de sangue e de recusa contínua de todos os enviados de Deus como se manifestou na parábola dos vinhateiros assassinados (Mt 22,1-14). Mas os contemporâneos de Jesus não se sentem responsáveis: “Se tivéssemos vivido no tempo de nossos pais, não teríamos sido cúmplices da morte dos profetas”. No entanto, sua atuação é uma hipocrisia total, pois eles repetem o passado e enterram para sempre a voz dos profetas que se faz ouvir em Jesus e estão prontos para enterrar a voz de todos os enviados de Jesus, matando-os. Desta maneira, eles completam a obra de seus pais.Os contemporâneos de Jesus fingem ser bonzinhos, mas seu coração está cheio de maldade que se manifesta no assassinato dos enviados de Deus.


A pergunta que cada um de nós deve fazer, como mensagem do evangelho deste dia: “Será que nossa aparência de piedade é autêntica ou falsa?”. O nosso modo de viver é que vai dar a resposta exata para esta pergunta. Porque é que você vira inimigo quando alguém fala a verdade? A mentira dói, mas a verdade liberta. É tão prazeroso viver com o coração limpo, pois podemos ter um sono sadio, a leveza para viver e lutar diariamente.

P. Vitus Gustama,svd

sábado, 26 de agosto de 2017

29/08/2017
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JOÃO BATIST É DECAPITADO COMO MÁRTIR
 A FIRMEZA DA VERDADE DIANTE DA PODRIDÃO DO PODER
29 de Agosto
Primeira Leitura: Jr 1,17-19
Naqueles dias, a Palavra do Senhor foi-me dirigida: 17“Vamos, põe a roupa e o cinto, levanta-te e comunica-lhes tudo que eu te mandar dizer. Não tenhas medo, senão, eu te farei tremer na presença deles. 18Com efeito, eu te transformarei hoje numa cidade fortificada, numa coluna de ferro, num muro de bronze contra todo o mundo, frente aos reis de Judá e seus príncipes, aos sacerdotes e ao povo da terra; 19eles farão guerra contra ti, mas não prevalecerão, porque eu estou contigo para defender-te”, diz o Senhor.


Evangelho: Mc 6,17-29
Naquele tempo, 17 Herodes tinha mandado prender João, e colocá-lo acorrentado na prisão. Fez isso por causa de Hero­díades, mulher de seu irmão Filipe, com quem se tinha casado. 18 João dizia a Herodes: “Não te é permitido ficar com a mulher do teu irmão”. 19 Por isso Herodíades o odiava e queria matá-lo, mas não podia. 20 Com efeito, Herodes tinha medo de João, pois sabia que ele era justo e santo, e por isso o protegia. Gostava de ouvi-lo, embora ficasse embaraçado quando o escutava. 21 Finalmente, chegou o dia oportuno. Era o aniversário de Herodes, e ele fez um grande banquete para os grandes da corte, os oficiais e os cidadãos importantes da Galileia. 22 A filha de Herodíades entrou e dançou, agradando a Herodes e seus convidados. Então o rei disse à moça: “Pede-me o que quiseres e eu to darei”. 23 E lhe jurou dizendo: “Eu te darei qualquer coisa que me pedires, ainda que seja a metade do meu reino”. 24 Ela saiu e perguntou à mãe: “O que vou pedir?” A mãe respondeu: “A cabeça de João Batista”. 25 E, voltando depressa para junto do rei, pediu: “Quero que me dês agora, num prato, a cabeça de João Batista”. 26 O rei ficou muito triste, mas não pôde recusar. Ele tinha feito o juramento diante dos convidados. 27 Imediatamente, o rei mandou que um soldado fosse buscar a cabeça de João. O soldado saiu, degolou-o na prisão, 28 trouxe a cabeça num prato e a deu à moça. Ela a entregou à sua mãe. 29 Ao saberem disso, os discípulos de João foram lá, levaram o cadáver e o sepultaram.
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São João Batista é o único santo de quem a Igreja comemora o nascimento e a morte, pois ele é o Precursor do Senhor. No dia 24 de Junho, a Igreja celebra o seu nascimento, e no dia 29 de agosto comera o dia de sua morte como mártir, decapitado por ordem de Herodes.


Como observação inicial vamos lançar a seguinte pergunta: Por que é introduzido o episodio sobre a morte de João Batista num evangelho cujo tema fundamental é dizer quem é Jesus? A resposta é simples: para continuar explicando quem é Jesus, na realidade que é o objetivo principal do evangelho de Marcos. Aqui o evangelista Marcos toma posição a respeito das opiniões do povo e diz que Jesus não é Elias, enquanto que João Batista o é, como profeta (cf. mc27-30). Já havia insinuado ao descrever João Batista com a vestimenta do profeta Elias (Mc 1,4). Agora, o faz apresentando João Batista que se enfrenta a um rei e sua cônjuge, Herodíades, que intenta eliminar o incômodo profeta, João Batista. Não aconteceu também com o temível profeta Elias contra o rei Acab e Jezabel, sua esposa? (cf. 1Rs 18-19).


No texto do evangelho lido na festa do martírio de João Batista se encontram três personagens principais: Herodes Antipas, Herodíades (e sua filha) e João Batista.


Herodes Antipas era o filho de Herodes chamado o Grande, aquele perseguidor de Jesus-menino que havia mandado degolar os inocentes (Mt 2,13-23). Herodes Antipas reinava, como tetrarca, na Galiléia e em Perea desde a morte de seu pai. Ele é descrito como um homem rico e poderoso. Abusa da riqueza e do poder e é arrogante. Ele se entregou totalmente aos prazeres. Enganado por uma bailarina e por sua vingativa mãe, Herodíades, ele se converteu em um assassino de um inocente, João Batista. Desde que a moça dançarina entra na sala, tudo é um crescendo de horror e de pecado, até que o ódio da pecadora, Herodíades, se desafoga vendo numa bandeja a cabeça de João Batista, um homem justo e santo (Mc 6,20). Herodes priva João Batista de sua liberdade, impedindo sua atividade ao coloca-lo na prisão. O povo vê em João Batista um enviado divino, mas Herodes não quer saber disso. Mesmo que Herodes dê a ordem de encarcerar João Batista, outra pessoa o instiga a fazê-lo, mulher de seu irmão, Filipe, a quem Herodes tomou por esposa.


Herodíades é descrita como assassina sem compaixão. Injustamente se tornou esposa de Herodes Antipas. Herodíades era a mulher de Filipe, irmão de Herodes. Herodes tomou Herodíades por esposa que era proibido pela Lei (Ex 20,17; Lv 18,16;20,21). João Batista não era parcial com os poderosos e denunciou essa injustiça. A mais sensível a essa denúncia é Herodíades, a adúltera. Para Herodíades a denúncia de João Batista feriu seu orgulho e sua soberba. Ela não quer saber da verdade na denúncia de João Batista. Por isso, ela se propõe a acabar com a vida de João Batista. O ódio e a vingança levam essa mulher a procurar todos os meios, utilizando até a própria filha, para eliminar João Batista do seu mundo. Herodíades quer tirar a vida de João, mas há um obstáculo a seu intento: o temor que Herodes sente por João, por ele considerado um homem justo, de conduta agradável a Deus e santo ou consagrado por Deus, profeta.


Perguntamos para nós mesmos: Por que você vira meu inimigo só porque eu falo a verdade sobre você? Por que vergonha? Por que essa reação violenta? A verdade continua sendo verdade mesmo que as pessoas tentem manipulá-la.


O dia oportuno é a ocasião propícia para que Herodíades cumpra seu desígnio de matar João Batista. Celebra-se a vida de Herodes, o poder absoluto e com ele a celebram os representantes de todos os possuidores do poder.


Aparece outra personagem, a filha de Herodíades, sem nome, que se define por sua mãe. Sem nome significa não tem personalidade própria. Por isso, ela representa o povo sem vontade própria (o povo submisso) e a mãe representa a classe dirigente ou classe dominante. A moça não tem vontade própria; mostrando sua total dependência, vai perguntar à mãe o que quer que a filha faça. Herodes faz promessa à filha de Herodíades: “Pede-me o que quiseres e eu to darei. Eu te darei qualquer coisa que me pedires, ainda que seja a metade do meu reino”. Mas quem decide é a mãe, que busca só seu próprio interesse: eliminar João (quer a cabeça de João Batista). A maldade só pode produzir a maldade. Mas a maldade não é capaz de enterrar a bondade. O sangue de um mártir é a semente para a Igreja.


Marcos sublinha a imaturidade da jovem: entra logo, a toda pressa, sem criticar nem julgar a decisão da mãe nem considerar se era ou não favorável para ela: ela é a escrava de sua mãe, é uma pessoa sem personalidade e sem valores vividos e por isso, sem posição certa na vida. Os valores vividos orientam nossa maneira de viver e nossas escolhas na vida. Sem os quais a vida se torna sem rumo e sem objetivos claros.


No poder civil há um resto da humanidade: Herodes estimava João Batista e sabe que o que pedem não é só uma injustiça, mas também um desprezo a Deus. Mas um rei sem valores vividos não quer ficar em má situação, pois ele acha que perderia seu prestígio. Herodes Antipas, o covarde, mandou tirar, então, a cabeça de João Batista em nome da vaidade. Um vaidoso é uma pessoa frívola, presunçosa e incoerente. Sem juízo e sem bom senso, ele vive só para aparecer e ser admirado. Na prática, o prazer de um vaidoso não consiste em possuir méritos, mas em saber que os outros o elogiam.


Além de ser vaidoso, Herodes é uma pessoa extremamente orgulhosa. O orgulhoso não se preocupa em conhecer a verdade, mas apenas em ocupar uma posição em que ele possa ser o centro e a norma. Ele pretende que tudo esteja sujeito a si próprio. Ele é prepotente, arrogante, insolente e violento. Seus atos não precisam respeitar moral alguma, mas impõe aos outros normas morais.


Os psicólogos dizem que soberbo, vaidoso, arrogante, presunçoso, endeusado, imodesto, pedante, petulante, narcisista, autossuficiente, envaidecido, presumido são todos sinônimos de uma mesma palavra: orgulhoso. Só de pensar que alguém reúne todos esses qualificativos, essa pessoa já tem ‘má reputação’. Numa pessoa que tem uma personalidade narcisista e desvio de caráter não entra mudança nenhuma. A palavra “autossuficiente” já diz tudo.


Da atitude de Herodes Antipas percebemos que no poder civil, muitas vezes, para não dizer sempre, os interesses do poder estão acima do humano. O evangelho nos relata que da parte dos convidados, não há nenhuma reação: tudo é permitido ao rei, dono da vida de seus súditos. Herodes mandou tirar a cabeça de João Batista. E a jovem dá a cabeça de João Batista à mãe, e ela mesma fica sem nada.


De Herodes podemos tirar muitas outras lições. Em primeiro lugar, nunca façamos promessas quando formos dominados por uma grande emoção. Sejamos cautelosos, prudentes, sóbrios em tudo. “Quem não se controla no lícito está em perigo de sucumbir diante do ilícito. Por isso, o sóbrio se abstém da saciedade para não cair na embriaguez”, dizia Santo Agostinho (De ut. Jej. 5,6).  Herodes Antipas tem medo ao mesmo tempo ama João Batista: odeia a mensagem de João Batista, mas incapaz de se livrar da admiração por ele. Mas em nome da vaidade e do poder, Herodes não quer saber da verdade. Herodes não entende que aquele que conhece a verdade e vive de acordo com a verdade é um homem mais livre do mundo (cf. Jo 8,32). Herodes é também um homem que age por impulsos. Dele aprendemos que saibamos pensar antes de falar e de agir. Muitos acham que falar o que pensar seja uma virtude. Mas na verdade a verdadeira virtude é pensar bastante antes de falar. Se o mundo vive reagindo, o cristão deve viver refletindo.


O caso de Herodes e Herodíades é um caso típico de como um pecado leva a cometer outro pecado. Herodes e Herodíades começaram sendo adúlteros e terminaram sendo assassinos. O pecado de adultério levou os dois ao crime, ao assassinato de um santo, de um inocente, de um João Batista. Herodes e Herodíades calaram a santa boca que recordava o dever; calaram a boca do pregador da virtude. Mas a boca que recorda o dever pode ser tirada, mas não o próprio dever tatuado em cada coração. A boca que prega a virtude pode ser calada, mas não a virtude que habita em cada coração que sempre grita diante da desonestidade.


Com o seu exemplo cheio de fortaleza, João Batista nos ensina a cumprir, apesar de todos os obstáculos, a missão de viver de acordo com a justiça, a verdade, a retidão. É viver a função profética de anunciar o bem e de denunciar o mal e a maldade na convivência. Cada um recebeu de Deus essa missão profética através do sacramento do Batismo. João Batista foi um verdadeiro mártir, pois foi morto por cumprir seu dever de viver de acordo com a retidão e a verdade.


Façamos uma pausa e consideremos quantas vezes na história, antes ou depois de João Batista, aconteceu o mesmo fato: que quem denuncia a mentira e defende a verdade, que quem condena o pecado e proclama a virtude, que quem fustiga a injustiça e prega a dignidade humana é a vítima ou o objeto de zombaria e é condenado diante do tribunal do ímpio, mas é glorificado e coroado diante do tribunal de Cristo (cf. Mt 7,21-23; 25,31-46).


Para Refletir:
  • O orgulho é o complemento da ignorância (Bernard de Fontenelle).
  • Se o homem orgulhoso soubesse como parece ridículo perante quem o conhece, por orgulho seria humilde (Mariano Aguiló).
  • A ciência é orgulhosa pelo muito que aprendeu; a sabedoria é humilde pelo que sabe (William Cowper).
  • O conhecimento aumenta nosso poder na mesma proporção em que diminui nosso orgulho (Paul Bernard, Tristão).
     
P. Vitus Gustama,svd