sábado, 31 de março de 2018

02/04/2018
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SER CRISTÃO É SER ANUNCIADOR DA VIDA, DA ALEGRIA E DA ESPERANÇA
Segunda-Feira da I Semana da Páscoa
 
Primeira Leitura: At 2,14.22-32
No dia de Pentecostes, 14 Pedro de pé, junto com os onze apóstolos, levantou a voz e falou à multidão: 22 “Homens de Israel, escutai estas palavras: Jesus de Nazaré foi um homem aprovado por Deus, junto de vós, pelos milagres, prodígios e sinais que Deus realizou, por meio dele, entre vós. Tudo isto vós bem o sabeis. 23 Deus, em seu desígnio e previsão, determinou que Jesus fosse entregue pelas mãos dos ímpios, e vós o matastes, pregando-o numa cruz. 24 Mas Deus ressuscitou a Jesus, libertando-o das angústias da morte, porque não era possível que ela o dominasse. 25 Pois Davi dele diz: ‘Eu via sempre o Senhor diante de mim, pois está à minha direita para eu não vacilar. 26 Alegrou-se por isso meu coração e exultou minha língua e até minha carne repousará na esperança. 27 Porque não deixarás minha alma na região dos mortos nem permitirás que teu Santo experimente corrupção. 28 Deste-me a conhecer os caminhos da vida e a tua presença me encherá de alegria’. 29 Irmãos, seja-me permitido dizer com franqueza que o patriarca Davi morreu e foi sepultado e seu sepulcro está entre nós até hoje. 30Mas, sendo profeta, sabia que Deus lhe jurara solenemente que um de seus descendentes ocuparia o trono. 31 É, portanto, a ressurreição de Cristo que previu e anunciou com as palavras: ‘Ele não foi abandonado na região dos mortos e sua carne não conheceu a corrupção’. 32 Com efeito, Deus ressuscitou este mesmo Jesus e disto todos nós somos testemunhas”.


Evangelho: Mt 28,8-15
Naquele tempo, 8as mulheres partiram depressa do sepulcro. Estavam com medo, mas correram com grande alegria, para dar a notícia aos discípulos. 9De repente, Jesus foi ao encontro delas, e disse: “Alegrai-vos!” As mulheres aproximaram-se, e prostraram-se diante de Jesus, abraçando seus pés. 10Então Jesus disse a elas: “Não tenhais medo. Ide anunciar a meus irmãos que se dirijam para a Galileia. Lá eles me verão”. 11Quando as mulheres partiram, alguns guardas do túmulo foram à cidade, e comunicaram aos sumos sacerdotes tudo o que havia acontecido. 12Os sumos sacerdotes reuniram-se com os anciãos, e deram uma grande soma de dinheiro aos soldados, 13dizendo-lhes: “Dizei que os discípulos dele foram durante a noite e roubaram o corpo, enquanto vós dormíeis. 14Se o governador ficar sabendo disso, nós o convenceremos. Não vos preocupeis”. 15Os soldados pegaram o dinheiro, e agiram de acordo com as instruções recebidas. E assim, o boato espalhou-se entre os judeus, até o dia de hoje.
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Jesus Ressuscitou e Está Conosco


Através do livro dos Atos dos Apóstolos, são Lucas nos relata os trinta primeiros anos da Igreja até o ano 63 d.C. Nos cinco primeiros capítulos veremos o nascimento da Igreja em Jerusalém. Nos capítulos seis a onze contemplaremos a expansão da Igreja até Samaria e Síria. Finalmente, a partir do capitulo doze, graças à atividade missionaria de São Paulo, o Evangelho se estende por todo o Oriente Médio e Grécia.


Mas atrás dos “atos” dos Apóstolos há somente um “ator” principal é o Senhor vivente, glorificado, ressuscitado que atua por sua Igreja. O dinamismo extraordinário da Igreja dos primeiros tempos provem por inteiro da convicção, da Fé, que animava os primeiros cristãos: Jesus ressuscitou, Jesus está vivo, Jesus está presente entre nós.


Por esta razão o livro dos Atos dos Apóstolos é lido como prolongamento da Páscoa. Durante os cinquenta dias do tempo pascal descobrimos que a ressurreição de Jesus Cristo não é apenas um maravilhoso fato do passado e sim que esta Ressurreição é um mistério atual que perdura sempre, um dinamismo vital que atua continuamente no nosso hoje.


No dia de Pentecostes, Pedro de pé, junto com os onze apóstolos, levantou a voz e falou à multidão”.


Pedro põe-se de pé”. Esta expressão é uma expressão com alto conteúdo simbólico. Ela mostra a transformação de um estado de prostração e de temor num salto decisivo para frente. Esta expressão mostra que as situações são encaradas a partir de agora por mais difíceis que elas sejam, pois a força do Ressuscitado entrou na vida de Pedro e na dos outros Apóstolos. O Espirito do Ressuscitado é o que dá a força e inspira as palavras e as atitudes oportunas.


Anteriormente, há poucos dias, Pedro, assustado diante dos guardas e criadas do palácio de Pilatos, jura não conhecer Jesus Cristo. Mas agora, depois do acontecimento de Pentecostes, Pedro começa a dar uma série de testemunhos diante do povo e logo diante das autoridades sem nenhum medo, que lemos ao longo desta semana. Pedro e os demais apóstolos cresceram muito na fé por causa da ressurreição de Jesus e o envio de seu Espirito em Pentecostes.


Esta primeira pregação de Pedro é uma catequese clara e contundente sobre a pessoa de Jesus dirigida precisamente aos habitantes de Jerusalém, os que haviam estado diretamente implicados na morte de Jesus: “Vós matastes Jesus, pregando-o numa cruz. Mas Deus ressuscitou a Jesus, libertando-o das angústias da morte, porque não era possível que ela o dominasse”. Com valentia, Pedro proclama a ressurreição de Jesus diante do povo no dia de Pentecostes. Pedro quer recordar os israelitas o que eles fizeram com Jesus de Nazaré. Apesar do juízo injusto, a morte ignominiosa e a difamação pública de seu nome, Deus quis realizar seus desígnios em Jesus. Pela ressurreição a autenticidade da prática de Jesus é confirmada.


Quantas pessoas na história e atualmente, homens e mulheres, que seguindo o exemplo de Jesus estão dispostas a dar sua vida pelos necessitados em nome Jesus ressuscitado. A fé madura nos permite abrirmos mãos de nossos privilégios em função da salvação de outros irmãos que se encontram em séria necessidade de viver dignamente.


Viver Na Alegria Da Ressurreição Para Poder Dar Testemunho Do Amor Deus Por nós


Estamos na festa da ressurreição. Através da ressurreição de Jesus, Deus quer nos dizer que quem ama, acaba sempre vencendo, como Jesus; e que não fomos feitos para as lágrimas com tristeza sem fim, pois somos chamados à vida ressuscitada. Que a morte não destrói nossa vocação de vida plena, pois Jesus venceu a morte. A ressurreição é a morte da própria morte (cf. 1Cor 15,55). Que a em Jesus Cristo não é absurda. Que o testemunho da comunidade primitiva é verdadeiro. Quem ama, como Jesus amou, sabe e tem certeza de que sempre há futuro. Que nós temos um futuro com Deus desde que vivamos de acordo com os ensinamentos de Jesus. Que a palavra chave para nossa vida não é a morte e sim a ressurreição; não é a violência ou ódio e sim o amor que nunca morre, poisDeus é amor” (1Jo 4,8.16). Que andar atrás de Jesus significa ter um futuro garantido. Deus sempre prepara o melhor no fim para quem caminhar atrás de Jesus apesar das cruzes encontradas no caminho. 


Hoje através do evangelho lido neste dia escutamos a voz do ressuscitado. São três palavras de futuro que vão ser repetidas com acentos diversos durante os próximos dias:


1. “Alegrai-vos”.


A alegria é um sinal de harmonia interior, de equilíbrio e saúde psicológica. “A alegria é sinal inequívoco de que a vida triunfa” (Henri Bérgson). Isto nos indica também que a falta de alegria é sinal de que a vida está bloqueada.  A alegria é um “sim” espontâneo para a vida que brota de dentro de nós; é um sim para aquilo que somos.


“Alegrai-vos!”. O convite de Jesus à alegria não é um conselho e sim uma ordem para ser cumprida. Na verdade, toda a mensagem de Jesus é uma mensagem de alegria. A alegria do Evangelho é o próprio Jesus crucificado-ressuscitado em que Deus se mostra como Aquele que nos ama apesar de tudo. A alegria do homem é a alegria de Deus.


No meio de nossas tristezas, o Ressuscitado nos chama à alegria. A nossa alegria consiste em ter certeza de que com Jesus tudo termina na vitória, na ressurreição apesar de tudo. Temos muita necessidade de estar conscientes desta certeza. A alegria tem uma relação com o amor. Nossa alegria correra como um riacho enquanto não deixarmos secar sua fonte, que é o amor.


Alegria! Este é o grito que atravessa os séculos e cruza continentes e fronteiras. Alegria, porque Jesus crucificado ressuscitou e o homem começa a ter um futuro seguro em e com Deus. Alegria para as crianças que acabam de nascer para começar sua jornada de vida, e para os anciãos que se perguntam para onde vão seus anos; alegria para os que rezam na paz das igrejas e para os que cantam nas discotecas; alegria para os solitários que consomem sua vida no silêncio e para os que gritam seu gozo na cidade.


2. “Não tenhais medo”.


Sentir medo não é errado porque somos criaturas expostas a perigos e ameaças. Os nossos medos são um sinal de alarme que podem nos ajudar a evitarmos o perigo. O imprudente suprime o medo e se atira inutilmente ao perigo. O covarde teme tudo, se paralisa e não se atreve a correr nenhum risco. O homem sadio sabe usar seus medos para agir prudentemente. Aqueles que, para educar e governar, despertam o medo, não educam nem governam; submetem.


Não há nada que nos paralise mais do que o medo. Muitas vezes somos dominados pelo medo. Quem pode nos transmitir a confiança da qual necessitamos? Somente o Ressuscitado: “No mundo vocês terão tribulações, mas tenha coragem: eu venci o mundo” (Jo 16,33b). Quando colocarmos nosso medo nas mãos de Jesus Ressuscitado, nos tornaremos mais prudentes do que paralisados: “Sejam prudentes como as serpentes, mas simples como as pombas” (Mt 10,16). A prudência é a capacidade de ver, de compenetrar-se e de ajustar-se à realidade. Segundo sua origem latina a palavra “prudência” (prudens-entis) significa precavido, competente. A prudência oferece a possibilidade de discernir o correto do incorreto, o bom do mau, o verdadeiro do falso, do sensato do insensato, para guiar o bom rumo de nossas ações. O homem sábio é sempre guiado pela prudência.


3. “Ide anunciar...”.


A ressurreição inaugura uma urgência. Acomodados em nossas seguranças de sempre significa que cavamos nossa própria tumba. Quando nos pomos em caminho, a força do Ressuscitado nos restaura.


O evangelho nos relatou que diante do Ressuscitado as mulheres se prostraram reconhecendo a divindade em Jesus. Prostrar-se significa adorar. Jesus transformou essas mulheres em anunciadoras da Boa Notícia da ressurreição. Isto significa que a adoração e a missão, a oração e o anúncio são uma moeda de dois lados, sempre andam de mãos dadas. Aquele que adora a Deus deve ser ao mesmo tempo um anunciador e parceiro da Palavra de Deus, do bem, seja através de palavras, seja através do modo de viver, seja através das boas obras. Sejamos missionários da vida ressuscitada e vitoriosa. Não tenhamos medo das cruzes, pois a vitória já está anunciada antecipadamente. Estar consciente disso significa não faltará força para lutar até o fim em nome da vida que é o próprio Deus (Jo 11,25; 14,6).    


P. Vitus Gustama,svd

quarta-feira, 28 de março de 2018

Domingo Da Páscoa, 01/04/2018
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QUEM AMA CORRE AO ENCONTRO DO SENHOR RESSUSCITADO


Evangelho: Jo 20,1-10
1 No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando ainda estava escuro, e viu que a pedra tinha sido tirada do túmulo. 2 Então ela saiu correndo e foi encontrar Simão Pedro e o outro discípulo, aquele que Jesus amava, e lhes disse: “Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o colocaram”. 3 Saíram, então, Pedro e o outro discípulo e foram ao túmulo. 4 Os dois corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais depressa que Pedro e chegou primeiro ao túmulo. 5 Olhando para dentro, viu as faixas de linho no chão, mas não entrou. 6 Chegou também Simão Pedro, que vinha correndo atrás, e entrou no túmulo. Viu as faixas de linho deitadas no chão 7 e o pano que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não posto com as faixas, mas enrolado num lugar à parte. 8 Então entrou também o outro discípulo, que tinha chegado primeiro ao túmulo. Ele viu, e acreditou. 9 De fato, eles ainda não tinham compreendido a Escritura, segundo a qual ele devia ressuscitar dos mortos.
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O Capítulo 20 de João tem quatro episódios que algum teólogo intitula: “Em busca dos sinais do Ressuscitado”. O primeiro episódio (vv.1-10) tem como personagens Maria Madalena e depois Pedro e João. O segundo episódio (vv.11-18) faz-nos contemplar Maria Madalena que gradualmente reconhece Jesus. Neste episódio Maria Madalena é apresentada como o personagem mais interessado na busca dos sinais e, através dos sinais, da própria presença do Senhor. O terceiro episódio (vv.19-23) é o episódio da manifestação de Jesus aos apóstolos: Jesus entre os seus. E por fim, Jesus e Tomé (vv.24-29). Tomé nos apresenta a tendência do homem a fechar-se ao mistério. Em outras palavras, ele representa aqueles que têm dificuldade de ver os sinais da presença do Senhor no mundo (os céticos).


Para o Domingo de Páscoa o texto fala do primeiro episódio cujos personagens são Maria Madalena, Pedro e João.


1. O primeiro dia é o “dia do Senhor”


O texto começa com estas palavras: “No primeiro dia da semana quando estava escuro, Maria Madalena foi ao túmulo...” (v.1). O primeiro dia é o dia da ressurreição do Senhor. Na tradição cristã este dia é chamado “Domingo” palavra que vem do latim “dies dominicus” ou “Dies Domini”, “dia do Senhor”. “Senhor” é um título pós-pascal.


No contexto pascal, a expressão “primeiro dia” sugere que começou um tempo novo nascido da morte e ressurreição de Jesus para o mundo (2Cor 5,17). O dia que para os judeus era o primeiro depois do Sábado tornou-se para os cristãos “o primeiro dia da semana”.  Ele passou a ser chamado “dia do Senhor” (dies dominicus), domingo, porque nesse dia o Senhor ressuscitou. Por essa razão os cristãos se reúnem nesse dia para “partir o pão” (Eucaristia), o memorial da morte e ressurreição do Senhor (cf. 1Cor 16,2; At 20,7; Ap 1,10).  Jesus é a luz do novo dia que não termina jamais. Jesus é o Senhor que ilumina o mistério da vida. Cristo detém a chave do segredo da vida e deixa sua luz brilhar nas trevas. Nele o mistério da vida é tornado luminoso. O que é a vida, seu significado, sua finalidade, como apreciá-la e torná-la autêntica, dar-lhe um sentido, é tudo isto que Jesus pode nos ensinar, pois ele veio para nos fazer viver plenamente (Jo 10,10). Por isso, com muita certeza, São Paulo diz: “Se confessas, com tua boca que Jesus é o Senhor e crês em teu coração que Deus o ressuscitou dos mortos, tu serás salvo” (Rm 10,9).


Portanto, não podemos considerar o Dia do Senhor (Domingo) como um peso. Ao contrário, ele é como uma explosão de vida que merece ser celebrada, pois, de fato, o nosso futuro está garantido pela ressurreição do Senhor. É claro que temos problemas! Mas ao mesmo tempo temos a certeza de nossa vida que terminará com a vitória. Quem nos garante isto é Jesus ressuscitado: “No mundo haveis de ter aflições. Coragem! Eu venci o mundo” (Jo 16,33), e “...aquele que perseverar até o fim será salvo” (Mt 10,22). E o próprio Jesus foi perseverante até o fim. E o prêmio desta perseverança é a ressurreição, a vida que não acabará jamais.


2. Com Jesus ressuscitado somos chamados a sair das trevas


Maria Madalena foi ao túmulo quando ainda estava escuro (em grego skotia: a treva). A escuridão, aqui, é um símbolo do estado interior de Maria, das trevas que a habitam e a envolvem. Com a morte de Jesus, que era a luz de sua vida, ela perdeu o sentido e a alegria de viver. Tudo se torna escuro para ela. Apesar da escuridão do seu interior, em Maria Madalena ainda sobrevive o amor que ela tem por Jesus. Ninguém jamais pode tirar esse amor do seu coração, pois ele é mais forte que a morte. Esse amor a leva ao encontro do Senhor. E quem fez nascer esse amor no coração de Maria Madalena, o amor absolutamente novo, puro e belo, depois que ela foi pisada e desprezada por tantos homens, certamente foi Jesus. Foi Jesus quem devolveu a dignidade a Maria Madalena depois que a libertou “de sete demônios” (Mc 16,9; Lc 8,2). O encontro com Jesus tinha sido para ela o novo começo de sua vida, a nova luz que ilumina tudo na sua vida, a nova fonte de sua verdadeira felicidade.


Maria Madalena foi ao túmulo quando ainda estava escuro. No Evangelho de João, onde claro e escuro têm seus papéis, a escuridão dura até que alguém acredite em Jesus ressuscitado, Luz do mundo (Jo 8,12). Este termo, “escuridão/treva”, aparece em Jo oito vezes. “As trevas” em Jo não significam mera ausência de luz. Este termo apresenta dois aspectos: Primeiro, as trevas são consideradas como entidade ativa e perversa que pretende extinguir a luz da vida (Jo 1,5) e assim impedir a visão do projeto de Deus sobre o homem. Portanto, define-se como ideologia contrária ao desígnio criador. As trevas produzem no homem a cegueira (ocultamento do desígnio de Deus), impedindo-lhe de se realizar. Segundo, as trevas são consideradas como âmbito de obscuridade ou cegueira criada por sua ação, onde o homem se encontra privado da experiência da vida e não conhece o desígnio de Deus sobre ele. As trevas sugerem que os personagens ainda não têm a luz plena. Maria vai ao túmulo, possuída pela falsa concepção da morte, e não se dá conta de que o dia começou. Maria crê que a morte triunfou. Não é por acaso que o termo “túmulo” é mencionado nove vezes nesta perícope, mostrando que a ideia de Jesus morto domina na comunidade.


O único meio que se encontrou para não sermos atingidos por esta escuridão total de nosso coração ou de nosso ser é aceitar Jesus, Luz do mundo (Jo 8,12), para que, por nossa vez, nos tornemos uma verdadeira luz para o mundo (Mt 5,14-16). Quem acredita em Jesus, Luz do mundo, não teme a escuridão, pois ele será sempre iluminado: “Ainda que eu caminhe por um vale tenebroso (escuro), nenhum mal temerei, pois estais junto comigo” (Sl 23(22),4).


3. Quem ama corre mais e chega primeiro


Quando chegou ao túmulo, a reação de Maria é de alarme quando viu que a pedra tinha sido “retirada”. E ela ficou mais espantada ainda ao encontrar o túmulo vazio. A tristeza de Maria ficou maior porque além da morte do seu Mestre, o corpo do mesmo desapareceu. O sepulcro vazio, por isso, não foi para Maria Madalena motivo de fé e de esperança, mas de um sofrimento maior. Maria Madalena ficou totalmente desolada e perdida. Mas se ela soubesse ver com os olhos da fé os sinais que viu com seus olhos carnais no túmulo, saberia ou pelo menos deduziria que Jesus não tinha sido feito prisioneiro da morte como todos os que morreram antes dele. A pedra retirada é um sinal de que não existe mais um abismo intransponível entre Jesus e o mundo dos vivos, entre Jesus e seus seguidores. Existe ainda alguma pedra na sua vida que o faz continuar vendo tudo escuro? O poder da ressurreição retira “qualquer pedra” na nossa vida. Mas será que você acredita no poder da ressurreição?


A reação imediata de Maria Madalena, sem mesmo entrar no túmulo, é correr para comunicar aos discípulos sobre o fato: Pedro e o discípulo amado. A comunidade sente-se perdida sem Jesus. Há atitude de busca mas buscam um Senhor morto. Jesus representava a força da comunidade; crendo que passou a ser debilidade e impotência, a comunidade se vê por sua vez sem forças e sem amparo.


Os dois discípulos têm a mesma reação diante da notícia que lhes dá Maria: dirigem-se ao túmulo. Os dois correm juntos, mostrando sua adesão a Jesus e o seu interesse pelo ocorrido. Durante a corrida, porém, o discípulo amado correu mais rápido e chegou primeiro do que Pedro no túmulo.


Corre mais depressa o que tem a experiência do amor de Jesus e sempre chega primeiro. O amor é sem asas, mas pode voar, sem pernas, mas pode andar e correr, sem olhos, mas pode ver tudo. O amor é a força sem limite, por isso nunca cansa. Uma pessoa apaixonada está cheia de forças. Onde há amor, há força para tudo.


Amar é sair de si para encontrar o outro. É dialogar. É estender a mão. É abraçar para fazer as pazes. É doar a vida, o coração e a felicidade aos outros. Páscoa é alegria. Somente encontra a alegria aquele que sabe amar os outros. Nossos lares são como túmulos cerrados a cimento, quando não se amam; quando não há respeito, ajuda mútua e fé. Túmulos cerrados são as igrejas quando não se vive o que se reza e se canta.


Páscoa é a saída rápida. É êxodo, partida. Para onde? É sair para encontrar os outros. Se permanecermos fechados, trancados dentro de nós mesmos, vamos morrer. Páscoa é reencontro com a vida. Somente sabe viver, encontrando a vida, aquele que ama. Jesus morreu e ressuscitou porque nos ama verdadeiramente.


4. Quem ama acredita que no impossível há o possível


Apesar de chegar primeiro, o discípulo amado não entrou no túmulo, mas esperou a chegada de Pedro. No texto de Jo, a precedência de Pedro é mantida (cf. Jo 21). Pedro é o primeiro a entrar no túmulo (v.6) e a observar os panos (vv.6-7). Ele viu os panos e ficou calado. Jo não diz nada da reação de Pedro. O discípulo amado também entrou. “Ele viu e acreditou” (v.8). Quem tem amor no coração sempre vê no impossível o possível, no incrível o crível. À luz de seu laço profundo com Jesus, o discípulo amado reconhece o mistério da presença por meio da ausência. Mesmo antes do contato com o Ressuscitado, ele foi capaz de superar o abismo: na ausência do corpo, o que ele viu dos panos funerários teve para ele valor de sinal. Além disso, o amor que penetrava o discípulo amado deixou entrar nele a luz com que ele pode ver tudo naturalmente e claramente. Para ele, o túmulo não está nem vazio, nem cheio. Ele se transformou em linguagem. Atento, ele capta no vazio do túmulo que Cristo vencera o que pertencia ao tempo; em outras palavras, Jesus venceu a morte, ele ressuscitou. Este discípulo também vai reconhecer a presença do Senhor Ressuscitado na sua aparição aos discípulos (cf. Jo 21,7)


5. A Ressurreição é Uma Novidade Para O mundo e Renova Tudo no Homem


Com o fato da ressurreição de Cristo entrou uma novidade total na história humana, pois nunca aconteceu isso antes nem depois dele, em nosso mundo fechado pelo círculo da morte. Jesus rompeu esse círculo e deu esperança a todos nós. Ao vencer a morte, Jesus revoluciona todos os anseios e sonhos do mundo. Por isso, a Páscoa é a festa de alegria porque a nossa vida está assegurada; esta vida que aqui vivemos não nos será tirada com a morte; a morte será apenas um fenômeno biológico, mas que não poderá destruir o nosso verdadeiro ser. A partir da ressurreição do Senhor, não vivemos mais para morrer, mas morremos para viver; a vida não pertence mais à morte mas sim a morte pertence à vida. A morte não é total: atinge apenas o corpo do homem. O mundo precisa saber que não somos condenados a um fim sem sentido. Não há Boa Notícia mais radicalmente importante do que a certeza da vitória da vida. Por isso, Jesus nos diz: “Tenha coragem! Eu venci o mundo” Temos a garantia de que Deus não vai deixar que se perca nada do que é bom: nossos esforços, nossos sacrifícios, nossas lutas, nossas boas ações, nossos afetos, as pessoas que amamos, tudo isso fica guardando e seguro nas mãos de Deus da ressurreição. Se a morte não tem a última palavra, toda a nossa vida pode estar, sem medo, a serviço daquilo que traz mais vida para todos. Seja qual for o resultado, nada estará perdido. Por isso, compreendemos por que São Paulo escarnece da morte e triunfante lhe pergunta: “ Ó morte, onde está a tua vitória ? Ó morte, onde está o espantalho com que amedrontavas os homens?” (1Cor 15,55). O homem que crê em Jesus Cristo é destinado à ressurreição para participar, com a totalidade de sua realidade complexa, na vida eterna de Deus.


6. Jesus Está Conosco Permanentemente


 “Jesus ressuscitou” significa também que Cristo vive. Esta é a grande verdade da nossa fé. Cristo vive quer dizer que ele não é uma figura que passou, que existiu num tempo, deixando-nos uma lembrança. Cristo vive quer dizer: ele está conosco. Ele não nos abandona. Isto significa que o cristão, cada um de nós, nunca é um homem solitário mas solidário porque ele vive com Deus e Deus com ele. Por isso, o centro da fé cristã não consiste na celebração da memória de um herói morto, mas da presença de um Vivo e Vivente no qual se decifrou para todos nós o sentido último da vida.


Se Cristo está vivo, então todas as coisas da vida devem refletir isto; todas as coisas devem se voltar para Jesus Cristo. Quando Jesus Cristo é o centro, as pessoas tornam-se melhores; as pessoas tornam-se mais humanas, buscam o crescimento e têm vontade de conseguir todas as coisas no crescimento e na maturidade de Cristo.


O texto diz que Maria Madalena não consegue ver o significado daquilo que está acontecendo, por isso corre e vai avisar Pedro e o discípulo amado. Pedro e o discípulo amado também correm. Mas o discípulo amado corre mais rápido e chega primeiro.  Pedro entra no túmulo e Jo não relata a reação de Pedro. O discípulo amado entra e conclui imediatamente que não roubaram o Senhor: “E viu e acreditou” (Jo 20,8).


Na Igreja que vai em busca dos sinais da presença do Senhor há diversos temperamentos, diversas mentalidades: há o afeto de Maria, a intuição de João e a lentidão de Pedro. Portanto, existem na Igreja diversos dons espirituais dos quais se originam diversas disposições: alguns mais velozes, outros mais lentos; mas todos se ajudam mutuamente, respeitando-se reciprocamente, para juntos procurarem os sinais da presença de Deus e comunicá-los entre si, apesar da diversidade de reações diante do mistério. É uma colaboração na diversidade: cada qual comunica ao outro o pouco que viu e encontrou, e juntos reconstroem a orientação da existência cristã, ali onde os sinais da presença do Senhor, diante das dificuldades ou das situações perturbadoras, parecem ter desaparecido. Se na Igreja primitiva Madalena não tivesse agido dessa forma, comunicando o que sabia, e se as pessoas não se tivessem ajudado umas às outras, o túmulo teria ficado ali e ninguém teria ido até lá; teria sido inútil a ressurreição de Jesus. Somente a busca comum e a ajuda uns dos outros levam finalmente a encontrar-se juntos, reunidos no conhecimento dos sinais do Senhor.


Celebrar a Páscoa é afirmar: “Não sou mais aquele homem do túmulo, intransigente, morto, insuportável, nervoso. Agora uma nova luz entrou em mim e renasci, por isso. Quero remover aquela pedra que me está impedindo de ser comunicativo, caridoso; a pedra que me impede de pedir e de dar o perdão”.
P. Vitus Gustama,svd
Sábado Santo: Vigília, 31/03/2018

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PÁSCOA: ELE RESSUSCITOU


Evangelho: Mc 16,1-7
1 Quando passou o sábado, Maria Madalena e Maria, a mãe de Tiago, e Salomé, compraram perfumes para ungir o corpo de Jesus. 2 E bem cedo, no primeiro dia da semana, ao nascer do sol, elas foram ao túmulo. 3 E diziam entre si: “Quem rolará para nós a pedra da entrada do túmulo?” 4 Era uma pedra muito grande. Mas, quando olharam, viram que a pedra tinha sido retirada. 5 Entraram, então, no túmulo e viram um jovem, sentado ao lado direito, vestido de branco. 6 Mas o jovem lhes disse: “Não vos assusteis! Vós procurais Jesus de Nazaré, que foi crucificado? Ele ressuscitou. Não está aqui. 7 Vede o lugar onde o puseram. Ide, dizei a seus discípulos e a Pedro que ele irá à vossa frente, na Galileia. vós o vereis, como ele mesmo tinha dito”.
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Os exegetas discutem bastante sobre Mc 16,1-8. Eles perguntam se o evangelho de Mc termina com Mc 16,8 ou se há outro final perdido no qual Mc falaria mais da ressurreição longamente do que neste que nos é conhecido. A maior parte dos exegetas julga que o evangelista terminou o seu Evangelho no v.8; ou seja, que Mc deu uma brevíssima instrução sobre a ressurreição.


Tudo isto cabe aos especialistas. Para nós, o mais importante é descobrir, dentro deste relato brevíssimo o acontecimento sobre a ressurreição de Jesus, mensagens para nós cristãos hoje através de várias perguntas. O que é que este texto fala para mim? Será que Deus tem uma palavra para mim através deste relato? O que é que a na ressurreição implica para mim ou para minha vida diária? O que significa celebrar a ressurreição do Senhor para mim? Mudou alguma coisa em mim durante os quarenta dias de preparação para a Páscoa? Estas perguntas e outras são importantes para nós, especialmente para nós, pregadores, pois temos sempre tentação de tentar descobrir mensagens para o povo ou rebanho e não para o próprio pregador(nós) em primeiro lugar.


O relato sobre a ressurreição de Jesus neste texto, como foi dito, é bem breve, mas está cheio de riqueza de traços inesperados e densidade teológica. Tentemos descobrir o sentido do relato passo a passo.


1. Jesus É O Princípio Da Nova E Definitiva Criação


As mulheres vão ao túmulono primeiro dia da semana, ao nascer do sol” (v.2). “O primeiro dia da semana”, isto é, no terceiro dia depois de sua morte, o tempo que o próprio Jesus anunciou (cf. Mc 8,31;9,31;10,34) alude ao primeiro dia da criação (cf. Gn 1,5). Mc sublinha assim o começo da nova criação. Para enfatizar mais este sentido, Mc fala também sobre “ao nascer do sol”. “Ao nascer do solnão indica apenas uma nova situação em contraste com as três horas de total escuridão que precederam a morte de Jesus (cf. Mc 15,33), mas simbolicamente indica que também Jesus ressuscitou (Mc 16,2). Isto quer dizer que a ressurreição de Jesus é o princípio da nova e definitiva criação. Ele é o princípio do qual fluem em nossa vida toda, a força de Deus que restaura em nós a semelhança divina. A partir de Jesus ressuscitado tudo ganha seu justo valor. Nada fica sem sentido visto a partir da ressurreição de Jesus. Jesus como o princípio da nova e definitiva criação serve como o ponto de partida para tudo. Sem este ponto de partida que é o princípio, o ser humano perderá seu rumo. Tudo tem que começar nele para terminar nele, pois Jesus é aquele que se define “Eu sou o Alfa e o Ômega, o Começo e o Fim” (Ap 21,6). Com ele tudo se renova: “Eis que faço novas todas as coisas” (Ap 21,5). Por isso, deixemos a luz nova do Cristo ressuscitado iluminar o nosso coração, o nosso ser inteiro para que sejamos novas criaturas e estejamos cheios de toda a plenitude de Deus (cf. Ef 3,18-19).


 2. As Surpresas Das Mulheres E Seu Emudecimento Diante Da Ressurreição


As mulheres que vão ao túmulo de Jesus para ungir o corpo de Jesus (v.1) são realmente mulheres repletas de amor e devoção a Jesus. Elas vão ao túmulo para reverenciar o corpo de Jesus. Elas pensam apenas na morte de Jesus e não na sua ressurreição que ele anunciou antes de sua morte. As mulheres ficam aquém do verdadeiro sentido da cruz de Jesus. Por isso, no caminho rumo ao túmulo elas dizem entre si: “Quem rolará a pedra da entrada do túmulo para nós?” (v.3). Foi fácil fechar o túmulo, porque é fácil pensar que a morte vence a vida. Mas para as mulheres é impossível abri-lo e admitir que a vida vença a morte. Elas se fixam e param na hora da morte de Jesus.


Mas o túmulo vazio e a presença do anjo e o anúncio deste que Jesus, o Crucificado, ressuscitou, (v.6) as apanham de surpresa. “...elas viram um jovem sentado à direita, vestido com uma túnica branca...” (v.5). “As roupas brancas” são o sinal do mundo divino, sinal do esplendor da glória divina (cf. Mc 9,3: a transfiguração). E “sentado à direita(cf. Sl 110,1) é uma posição do poder e a autoridade divinos (cf. Mc 12,36;14,62), posição de dignidade, e uma posição de uma pessoa justa (ser justo biblicamente significa aquele que vive de acordo com a lei divina). No julgamento final, os justos serão chamados a se sentarem à direita do Filho do Homem (cf. Mt 25,31-46). E o próprio Jesus na sua Paixão disse: “E vereis o Filho do Homem sentado à direita do Poderoso e vindo com as nuvens do céu” (Mc 14,62). Todos estes símbolos descrevem a condição divina de Jesus e enfatizam que Jesus é o Vencedor da morte.


Tudo isto quer nos dizer, em primeiro lugar, que a prova da ressurreição não é túmulo vazio; a ressurreição não é fruto de uma descoberta ou elaboração humana, mas é revelação divina. E Deus somente pode revelar a quem é disponível a sua ação salvífica e escatológica manifestada em Jesus Cristo. Quem estiver aberto para a vontade de Deus, a ele será revelado muitas coisas. A ressurreição é a ação poderosa de Deus, que se revela vencedor da morte e salvador na pessoa histórica e concreta de Jesus. Ao ressuscitar Jesus da morte, Deus quer dizer à humanidade que Jesus tinha razão, que Jesus fazia tudo que Deus quis: fazer o bem para todos os homens (cf. At 10,38).


Em segundo lugar, ao dizer que Jesus “ressuscitou. Não está aqui”, o texto quer nos dizer que Jesus não é uma memória e sim uma presença. Jesus não é um personagem para ser discutido e sim para ser encontrado. A vida cristã não é uma vida para saber sobre Jesus e sim para conhecer Jesus. E para conhecê-lo o cristão tem que fazer o encontro com Ele. Podemos até saber sobre Jesus, mas este saber tem que terminar no encontro com Ele para que nos tornemos pessoas renovadas no Espírito de Deus. Jesus é o vivente, é uma presença. Por isso, é inútil buscá-lo num túmulo. O encontro com o ressuscitado não se realiza entre os túmulos, no passado, e sim no presente. Com isso, a ressurreição abre o novo futuro para quem acredita no Jesus Ressuscitado.


Em terceiro lugar, temos que estar conscientes de que para onde formos, Jesus vai nos preceder: “Ide, dizei a seus discípulos e a Pedro que Ele irá à vossa frente, na Galileia”. Galileia é o lugar onde Jesus começou sua missão. Os discípulos tem que fazer encontro com Jesus no lugar da missão. Se fizermos tudo que Jesus ensinou, tenhamos certeza de que Ele vai abrir o caminho para s. Nãodificuldade que não seja superada quando Jesus estiver na nossa frente. Onde for feita a evangelização, Jesus é encontrado . Jesus se encontra no lugar das pessoas que ajudamos na sua necessidade.


Os leitores deste relato esperam a reação de alegria dessas mulheres ao receberem a notícia da ressurreição de Jesus Cristo. Mas em vez disto, elas emudecem. Elas ficam como que paralisadas e em seguida fala do seu temor, do seu estupor, do seu medo e do seu emudecimento: “Nada contaram a ninguém” (Mc 16,8b). Com isso, o evangelista quer nos dizer que o Evangelho continua aberto para o futuro. Somos convidados para este novo futuro onde encontraremos Jesus ressuscitado e encontraremos também o sentido de nossa vida. Para isso, temos que levar adiante o projeto de Jesus ressuscitado. Além disto, este Evangelho é um convite a abrir os olhos para ver o Senhor na nossa experiência diária.


3. A Missão Confiada Às Mulheres Sobre O Novo Encontro Com Jesus


Apesar do seu emudecimento, essas mulheres são testemunhas privilegiadas dessa revelação divina e são chamadas e enviadas para anunciar aos discípulos e a Pedro sobre a ressurreição de Jesus e sobre o novo encontro com ele na Galileia: “Não tenhais medo. Vós estais procurando Jesus de Nazaré, o crucificado: ressuscitou, não está aqui... Mas ide dizer aos seus discípulos e a Pedro que ele vos precede na Galileia: lá o vereis como vos disse” (v.7).


 Ele não está aqui. Ele ressuscitou! E ele os precedeu na Galileia”. O lugar do encontro não é num passado, mas num futuro novo. O lugar do encontro não é na contemplação de um morto, mas no seguimento de quem está vivo. Jesus ressuscitado deve ser seguido, vivendo o seu projeto. Jesus não é uma figura num livro, mas uma presença viva e vivificante. Não é suficiente estudar a história de Jesus como qualquer grande figura histórica. Nós podemos começar desta maneira, mas devemos terminá-la com o encontro com ele, pois Jesus não é uma memória, mas uma presença. Ele continua vivo entre nós. Se realmente acreditarmos nesta Presença, encontraremos sempre forças mais que suficientes para encarar qualquer tipo de dificuldade, pois o próprio Jesus venceu a morte.


Ele não está aqui. Ele ressuscitou!”, é a mensagem para todos que queiram mudar de vida para a melhor. Jesus faz uma páscoa, uma passagem da morte para a vida, para Deus. Precisamos fazer essa passagem. “Se não passamos para Deus que permanece”, dizia Santo Agostinho, “passaremos com o mundo que passa. Páscoa é passar para aquilo que não passa. Quão melhor é passar do ‘mundo’, antes que passe ‘junto com o mundo’; passar para o Pai, antes que passe para o inimigo”. Cada vez que acolhemos a inspiração da Palavra de Deus, estamos fazendo uma passagem para Deus. Cada vez que dizemos “não” a uma vontade da carne, estamos fazendo uma passagem para Deus. Não há momento ou ação da vida de um cristão que não possa se transformar em uma passagem, em uma páscoa. A páscoa deve acontecer em todos os momentos da vida de um cristão. Além disto, todo cristão vivo deve ser uma manifestação extraordinária da ressurreição do Senhor.


O evangelista Mc certamente quer transmitir, através deste relato, uma mensagem para todos os leitores e cristãos em particular que a ressurreição de Jesus manifesta uma dupla fidelidade: a fidelidade do Pai que não abandona Jesus, mas o ressuscitou, sinal da aprovação; e a fidelidade do Filho que não abandona os discípulos, que fugiram na Paixão, mas os procura e quer reencontrá-los. A primeira preocupação de Jesus Ressuscitado é a de reencontrar os seus discípulos, para retomar, novamente juntos, o seu caminho. A esperança de cada cristão repousa inteiramente nesta dupla fidelidade.


4. Jesus Nos Precede Para Onde Formos


Ele vós precederá na Galileia”. Este anúncio é cheio de significado. Os exegetas discutem sobre o significado da Galileia. A Galileia para o evangelho de Mc é importante onde se desenvolve a maior parte. Foi na Galileia que Jesus começou a proclamar a Boa Nova, anunciando a chegada do Reino de Deus (Mc 1,14-15). Foi neste lugar que Jesus chamou seus primeiros discípulos para ser “pescadores de homens” (Mc 1,16-20). Foi na Galiléia inteira que Jesus pregou o Evangelho, curando e expulsando os espíritos maus (Mc 3,13-19;6,7-13). Foi na Galileia que Jesus começou a revelar aos discípulos “o mistério” do Reino de Deus (Mc 4,11). Foi da Galileia que a Boa Nova se espalhou para todas as regiões ao redor (Mc 3,7-12). Na e da Galiléia os discípulos podem continuar sua missão de pregar o Evangelho e curar todos os povos no mundo inteiro (Mc 13,10;14,9). E foi na Galiléia que Jesus ressuscitado precedeu os discípulos (Mc 16,7). A Galiléia é, por isso, o lugar onde com os mesmos gestos, com a sua bondade e disponibilidade, os discípulos reconhecerão a presença viva daquele Senhor que conheceram. A Galiléia é o lugar em que o Senhor Ressuscitado se lhes manifestará visivelmente e onde Jesus começará a reconstrução da comunidade, aquela reconstrução que era anunciada na Paixão em que Jesus disse: “Todos vós vos escandalizareis, porque está escrito: Ferirei o pastor e as ovelhas se dispersarão. Mas depois que eu ressurgir, eu vos precederei na Galiléia” (Mc 14,27-28). E Jesus é fiel às suas promessas. A Galiléia é o lugar onde a comunidade dos Doze será reconstruída. Todo o Evangelho de Mc deve ser meditado na aceitação de que Jesus vive e fala hoje aos seus e os chama, como ele os chamou junto ao lago (Mc 1,14-20), ou junto ao monte(Mc 3,13-19) e continua a estar na Igreja, em cada cristão.


“Ele vos precederá na Galiléia”. A palavra “preceder” é usada também em Mc 10,32 quando Jesus está a caminho rumo a Jerusalém. Jesus precedeu os discípulos na Morte e na Nova Vida que o Pai lhe deu. Ele precederá os discípulos na Galiléia. “Jesus vos precederá” é uma promessa para todos nós. Para onde formos, como verdadeiros cristãos, devemos estar conscientes de que Jesus sempre nos precede. Ele sempre chega primeiro que nós. E ele nos guia para onde ele se encontra. Que saibamos reconhecer essa precedência e esta presença. Quando temos esta consciência, nenhuma dificuldade vai nos bloquear, pois Jesus nos precede e com isto, abre o caminho para nós. Mas com uma condição: que sejamos fiéis à Sua Palavra, pois a Sua Palavra nos orienta sobre o que devemos fazer.


5. Algumas Das Implicações Da Fé Na Ressurreição


a). A Páscoa cristã é a festa das festas, e o cristão é aquele que afirma: o Senhor ressuscitou verdadeiramente. O cristianismo nasce e progride desta proclamação fundamental: Jesus Cristo que foi crucificado, ressuscitou verdadeiramente. Da ressurreição de Cristo deriva todo o resto da mensagem cristã. Sem a vitória de Cristo sobre a morte, toda a pregação seria inútil e a nossa fé seria vazia de conteúdo(cf. 1Cor 15,14-17). A ressurreição do Senhor é uma realidade central da fé cristã. A importância deste milagre é tão grande que os Apóstolos são, antes de mais nada, testemunhas da ressurreição de Jesus(cf. At 1,22;2,32;3,15). O núcleo de toda a pregação é este: Cristo vive e vive no meio de nós(cf. Jo 1,14;Mt 28,20). A páscoa da ressurreição é a grande festa cristã. Este mistério é tão importante e central é que o celebramos ao longo de todos os domingos e festas do ano litúrgico e inclusivamente na Eucaristia diária. Certamente cada eucaristia que se celebra, celebra-se e proclama-se ao mesmo tempo a ressurreição do Senhor e a nossa também. A eucaristia dominical é a páscoa semanal. A eucaristia diária é a páscoa diária.


Sem dúvida nenhuma, a Páscoa é, por isso, o próprio conteúdo da fé cristã, é o coração da vida da Igreja porque ela nos revela quem é Deus, quem é Jesus Cristo e quem somos nós. A ressurreição nos mostra que o Deus revelado por Cristo é Aquele que ama e quer a vida. A Páscoa nos revela que Jesus, morto e ressuscitado, é Aquele que converge toda a história da humanidade. E ao mesmo tempo revela que a fidelidade é o caminho certo para chegar à Páscoa eterna com Deus. A Páscoa também nos revela que somos chamados a ressuscitar com Jesus, a superar com ele o drama da morte para podermos permanecer com ele na vida que não tem fim.   


b). Pela ressurreição do Senhor sabemos que Deus ama a vida. A Páscoa é a gloriosa manifestação de um Deus que ama a vida, que quer a vida e não a morte, de um Deus que, além disso, faz com que da morte surja a vida.


Crer na ressurreição implica, por isso, defender a vida, especialmente a dos mais indefesos; implica respeitar a vida alheia como a própria; implica lutar pelo que é certo e justo, pois estes predicados como outros semelhantes é que garantem a vida sem fim; implica estender a mão para levantar quem se encontra sob o peso dos problemas desta vida. Procurar o Senhor ressuscitado implica comprometer-se com aqueles que veem o seu direito à vida permanentemente violentado e violado. Acreditar na ressurreição significa afirmar a vida contra a morte.


c). A ressurreição é o grito festivo da . Com a ressurreição, o grito de Jesus na Sexta-Feira SantaDeus meu, Deus meu, por que me abandonaste?” (Mc 15,34), grito que sintetiza todas as situações de aflição da humanidade se transforma, na noite de Sábado Santo, em grito festivo de e de esperança: Cristo ressuscitou. É um grito de porque anuncia algo que aconteceu em Cristo e permanece para sempre. É o grito de esperança porque a partir de Jesus Cristo ressuscitado a vida humana tem um futuro e que ninguém pode tirá-lo de nós, e que seremos ressuscitados também. A certeza deste grito de alegria e de esperança nos proclama que a bondade soterra a maldade, que a morte tem o seu contrapeso de vida, que toda crise pode ser suplantada, que com Cristo toda tristeza conhecerá a alegria.


Infelizmente temos que confessar que a nossa existência humana é muitas vezes dominada por uma tendência de diminuir as esperanças, reduzindo-as cada dia mais por causa das ilusões, e a nossa tristeza nos leva, com frequência, a recusarmos palavras de conforto, porque nós não temos ideia exata da libertação que nos foi concedida por Jesus ressuscitado. Precisamos estar conscientes de que a Páscoa é uma recriação, é uma nova criação da humanidade, pois Jesus, pela sua ressurreição, inaugurou um mundo novo no meio de nós.


d). A ressurreição de Cristo é uma resposta às esperanças de um destino humano aberto para o futuro novo. Quando este futuro novo for negado, a pessoa se fecha a si mesma, fica insatisfeita e chega às margens do desespero. A ressurreição nos leva a certeza de que a vida jamais acabará e de que o triunfo da vida não é mais ameaçado pela morte. O Ressuscitado está conosco, e continua vivo dentro da história e junto com ele nós estamos em condições de vencer o mal com o bem, de tirar do mal o maior dos bens. Esta é força e a novidade da Páscoa. Quem crê na ressurreição não é permitido viver triste. Somos destinados e chamados a viver plenamente com Deus, alegres na esperança com os irmãos da mesma peregrinação.


e). Da ressurreição de Jesus nasce, antes de mais nada, uma esperança. Cristo é nossa esperança (1Tm 1,1). Nessa esperança nós, cristãos, aprendemos a acreditar em Deus e a desentranhar o sentido último do homem. Mas a esperança de que se trata não é virtude de um instante ou reação de um momento. É uma atitude permanente, um estilo de vida. É a forma de enfrentar a vida própria do cristão. Se perder essa esperança, perde tudo. Deixa de ser cristão. Aquele que vive animado pela esperança cristã põe seu olhar no futuro. Ele não fica apenas com o presente, nem vive preso ao passado, mas olha sempre para frente. A esperança sempre gera uma perspectiva de futuro. E esta esperançaorigem a uma nova maneira de se posicionar na vida apesar das dificuldades, como diz São Paulo: Somos atribulados por todos os lados, mas não esmagados; postos em extrema dificuldade, mas não vencidos pelos impasses; perseguidos, mas não abandonados; prostrados por terra, mas não aniquilados (2Cor 4,8-9). A esperança vive da confiança em Deus, como o profeta Isaías diz: É ele (Deus) queforças ao cansado, que prodigaliza vigor ao enfraquecido. Mesmo os jovens se cansam e se fatigam; até os moços vivem a tropeçar, mas os que põem a sua esperança em Yahweh (Deus) renovam as suas forças, abrem asas como as águias, correm e não se fatigam, caminhar e não se cansam” (Is 40,29-31). Que cada um de nós seja um pequeno sinal, uma pequena prova desse Deus da esperança! FELIZ PÁSCOA PARA VOCÊ E SUA FAMÍLIA!
P. Vitus Gustama,svd