sexta-feira, 29 de junho de 2018

04/07/2018
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JESUS VEM NOS LIBERTAR DO MAL PARA PRATICARMOS O BEM
Quarta-Feira Da XIII Semana Comum


Primeira Leitura: Am 5,14-15.21-24
14 Procurai o bem e não o mal, para que possais viver, e, deste modo, o Senhor, Deus dos exércitos estará convosco, como vós o dizeis. 15 Odiai o mal e amai o bem, restabelecei a justiça no julgamento, talvez o Senhor Deus dos exércitos se compadeça do resto da tribo de José. 21 “Aborreço, rejeito vossas festas, diz o Senhor, não me agradam vossas assembleias de culto. 22 Se me oferecerdes holocaustos, não aceitarei vossas oblações e não farei caso de vossos gordos animais de sacrifício. 23 Livra-me da balbúrdia dos teus cantos, não quero ouvir a toada de tuas liras. Que a justiça seja abundante como água e a vida honesta, como torrente perene”.


Evangelho: Mt 8,28-34
Naquele tempo, 28 quando Jesus chegou à outra margem do lago, na região dos gadarenos, vieram ao seu encontro dois homens possuídos pelo demônio, saindo dos túmulos. Eram tão violentos, que ninguém podia passar por aquele caminho. 29 Eles então gritaram: “Que tens a ver conosco, Filho de Deus? Tu vieste aqui para nos atormentar antes do tempo?” 30 Ora, a certa distância deles, estava pastando uma grande manada de porcos. 31 Os demônios suplicavam-lhe: “Se nos expulsas, manda-nos para a manada de porcos”. 32 Jesus disse: “Ide”. Os demônios saíram, e foram para os porcos. E logo toda a manada atirou-se monte abaixo para dentro do mar, afogando-se nas águas. 33 Os homens que guardavam os porcos fugiram e, indo até a cidade, contaram tudo, inclusive o caso dos possuídos pelo demônio. 34 Então a cidade toda saiu ao encontro de Jesus. Quando o viram, pediram-lhe que se retirasse da região deles.
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É Preciso Passar a Vida Fazendo o Bem Para Viver Na Plenitude De Deus


Procurai o bem e não o mal, para que possais viver, e, deste modo, o Senhor, Deus dos exércitos estará convosco, como vós o dizeis. 15 Odiai o mal e amai o bem, restabelecei a justiça no julgamento, talvez o Senhor Deus dos exércitos se compadeça do resto da tribo de José”, assim disse o profeta Amós na Primeira Leitura de hoje. “Deus convosco” é uma das fórmulas da Aliança.


Ao final do reinado de Jeroboão II (782-753 a.C), até o ano 750 a.C, o Reino do Norte vive na prosperidade: êxitos militares, atividades comerciais frutuosas, riqueza e luxo. As pessoas acabam por crer que são objeto de uma espécie de particular predileção divina. Mas o profeta Amos denuncia esta falsificação da Aliança, esta “pretensão” de privilégio. Para estar realmente com Deus há que procurar o bem e evitar o mal.


Detestai o mal, amai o bem, fazei que reine o direito no Tribunal”. O que agrada a Deus é a busca do bem, tanto no plano individual como no plano social. Uma civilização de abundancia pode, por desgraça, encobrir muitas injustiças: a corrupção do direito é, para o profeta Amos, um crime profissional, pois quando uma pessoa se torna cada vez mais poderosa, mais facilmente pode prejudicar as pessoas mais humildes que não podem defender-se.


Apesar do anúncio da desgraça, o discurso do profeta Amós não está totalmente fechado à esperança. A intenção do anúncio do juízo, como ameaça e predição, é a última advertência para que todos se convertam. Trata-se de um último chamamento para a criação das condições de justiça, de retidão e de fraternidade para que todos vivam felizes e seguros. Segundo o profeta Amós, a própria desgraça que Deus infligiu a seu povo tem como intenção de Deus de trazer de volta o povo para Seu lado. Tanto na desgraça como na ameaça dessa desgraça, segundo Amós, Deus se mostra interessado por seu povo.


Tudo isto quer nos dizer que no fundo do discurso de Amós sobre a desgraça e a ameaça, há uma mensagem de confiança. Existe uma tensão entre a ameaça do juízo, condicionada pelo pecado, pela conversão, pela salvação e pela retidão dos homens, e a esperança de salvação condicionada pela justiça e pela misericórdia de Deus. Deus é misericordioso desde que nos convertamos: “Detestai o mal, amai o bem, fazei reinar a justiça no tribunal”.


Buscai o bem, não o mal, para terdes mais vida, só assim o Senhor Deus dos exércitos vos assistirá”.


Tudo o que é bom absolutamente é o bem. Todo ser é bom na medida em que é perfeito como ser. O bem metafísico é o próprio ser enquanto perfeição absoluta. O bem vale por si. O bem é aquilo que todos desejam, porque todos tendem naturalmente para um fim que é seu bem e a nada aspiram senão sob o aspecto de bem. É aquilo que é buscado por razão de si próprio. Por isso, Aristóteles dizia “O bem é aquilo  a que todas as coisas tendem” (Ética a Nicômaco, I,1).


Quando uma pessoa se deixar conduzir pelo bem, ela praticará somente a bondade na convivência com as demais pessoas. A bondade é a própria perfeição possuída por um ser. E como atividade, a bondade é a capacidade que possui um ser de dar a outro a perfeição que lhe falta.


Busquemos o bem para que sejamos bons ou para que sejamos pessoas de bondade. Somente assim Deus nos assistirá. Uma vida significativa é feita de uma série de pequenos atos diários de bondade e de decência, que quando somados no final, resultam, paradoxalmente, em algo grandioso. Pela prática de atos justos, aprendemos a ser justos; pela prática de atos de autocontrole, aprendemos a ter autocontrole; e pela prática de atos de coragem, chegaremos a ser corajosos. Vivemos neste planeta por um tempo muito curto. A nossa vida relativamente curta é apenas faísca na tela da eternidade. Por isso, precisamos aprender a apreciar a jornada e a saborear o processo praticando a bondade.


Buscai o bem, não o mal, para terdes mais vida, só assim o Senhor Deus dos exércitos vos assistirá”.


Reflitamos sobre o seguinte pensamento: “Para ser, pelo menos, um pouquinho feliz, para ter um pouco do paraíso na terra, você deve reconciliar-se com a vida, com sua própria vida do jeito que estiver, deve fazer as pazes com seu serviço, com os recursos de sua carteira, com seu rosto que você não escolheu. Você deve fazer as pazes com as pessoas a seu redor, com suas falhas e fraquezas, com seu marido (ou sua mulher), mesmo que você não tenha encontrado o marido ou a mulher ideal. Reconcilie-se com a vida! Você está em sua própria pele e, em outra pele ninguém mais pode gerar você” (Phil Bosmans: Eu Gosto De Você, Ed. Vozes).


É Preciso Acreditar Em Jesus Porque Ele É Mais Forte Do Que o Mal


Depois que acalmou a tempestade na cena do evangelho anterior, desta vez Jesus libertou (curou) dois enfermos dando-lhes uma nova oportunidade na vida. O ato de Jesus de libertar os dois enfermos mostra que Deus da Bíblia é o Deus que entende a realidade humana e chama o ser humano a experimentar seu amor misericordioso para poder usufruir a vida dignamente.


O milagre da libertação dos dois possuídos na região dos gadarenos está cheio de símbolos. Mateus usa vários termos nesta cena para nos levar ao sentido da cena e o sentido da presença de Jesus nessa região: dois possuídos, violentos, moram entre os túmulos (cemitério), e uma manada de porcos está por perto deles. “Túmulo” é o lugar dos mortos ou onde os mortos são enterrados. É o lugar dos impuros, como também impuros são os porcos segundo os judeus. Ao dizer que os dois homens estão “saindo dos túmulos” o texto quer nos dizer que os dois pertencem aos descartáveis, estão no nível inferior da sociedade, vivem fisicamente nas margens, longe de núcleos familiares, estão em condições de mortos em vida e estão em rebelião contra a sociedade que os oprimem (violentos).


Precisamos nos lembrar daqueles que vivem desta maneira na nossa sociedade atual, especificamente na nossa cidade onde moramos atualmente. Quem são os descartáveis nas nossas cidades ou sociedade? Que não os vejamos como algo normal porque sempre passamos por eles diariamente. É sempre uma situação desafiadora para qualquer cristão, é uma situação que nos inquieta.


Os dois, mortos em vida, vão ao encontro da Vida por excelência, que é Jesus Cristo (Jo 14,6). Mas eles se aproximam de Jesus de maneira antagônica e fazem duas perguntas rápidas: 1). “Que queres de nós, Filho de Deus?”. Eles se dirigem a Jesus como Filho de Deus e O reconhecem como homem de Deus. 2). “Tu vieste aqui para nos atormentar antes do tempo?”. Esta segunda pergunta revela a consciência do papel de Jesus como juiz escatológico, aquele que julga no fim dos tempos (Mt 25,31-46). O tempo do julgamento alvorece no ministério de Jesus embora ainda não seja plenamente.


Sem responder às perguntas Jesus os libertou e devolveu-lhes sua dignidade como filhos de Deus e os integrou novamente na comunidade, mostrando que o poder de Jesus é superior ao mal e ao mau e o vence eficazmente.


O milagre da libertação dos possuídos não produz muito efeito para os habitantes locais, que pedem a Jesus que se retire do seu território. Eles consideram Jesus como culpado pela perda de uma manada de porcos e não lhe agradecem pela libertação dos dois homens de seus males. Jesus vai em busca dos corações dóceis ao seu poder. Eles amam mais coisas do que as pessoas (dois homens). Necessitamos amar as pessoas e usar as coisas e não amar as coisas e usar as pessoas. Necessitamos de uma presença humana ao nosso lado e não da abundância de bens que não conversam com nós.


Isto significa que continua a oposição contra o plano de Deus como a tempestade contra a barca onde Jesus se encontrava. A existência alternativa do discipulado, seguindo o compromisso de Jesus para beneficiar aos excluídos, marginalizados e abandonados significa conflito porque ameaça os interesses criados pela elite de grande interesse pessoal da sociedade. Mas no coração aberto para a graça de Deus vai morar a salvação. Onde há o encontro com a Vida por excelência ali há libertação. 


Não há lugar para o poder do maligno em um mundo onde entrou ou deixa entrar o poder salvífico de Deus. E Jesus continua sua luta contra o mal. E nós com Ele. É o mal que há dentro de nós e o mal que há no mundo. É o mal dentro da Igreja e fora dela. É o mal entre os líderes da Igreja e entre os seus membros. E Jesus continua sendo forte, e nós com Ele. E no Pai Nosso pedimos sempre a Deus: “Livrai-nos do mal”, que também pode ser traduzido “livrai-nos do mau, do nocivo”.  Quando vamos comungar o Pão da Vida somos lembrados que Jesus é Aquele que tira o pecado do mundo. E somos enviados depois da comunhão a ajudar os outros a se libertarem de seus males. Devemos ser bons transmissores dessa vida recebida na comunhão para os demais para eles alcancem sua libertação e sua liberdade e vivam gozosamente sua vida. Onde houver espaço para o Bem e para o bem, não sobrará espaço para o mal. Jesus foi para a região dos gadarenos para que tenha espaço para o bem eliminando o mal daquele lugar. Somos enviados para que o bem tenha lugar na vida dos homens.


O poder de Jesus vence qualquer outro poder. Por isso, há um só poder com que nós devemos contar: o poder de Deus. “Quem não conta com Deus, não sabe contar” (B. Pascal). Crer verdadeiramente em Jesus, com todas as consequência deste crer, é ser vitorioso, pois Deus tem a ultima palavra sobre os homens. Mesmo que o mal tenha uma aparência poderosa, ele não tem futuro. Somente o bem tem a marca do futuro, uma marca divina, uma marca da eternidade.


Será que somos como os gadarenos que desaprovam a presença de Jesus Cristo, nosso libertador de nossos males? Que lugar ocupa Jesus nossa vida e que lugar ocupam os bens materiais na nossa vida. Os gadarenos preferem perder Jesus a perder seus bens (porcos). Precisamos pedir a Jesus que nos liberte das cadeias que nos atam, dos males que nos possuem, das debilidades que nos impedem de uma marcha ágil em nossa caminhada cristã. E temos nos esforçar para corrigir nossos erros. Não corrigir os nossos erros é uma maneira de cometer novos erros.
 
P. Vitus Gustama,svd
03/07/2018
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SÃO TOMÉ, APÓSTOLO
A FÉ EM DEUS NOS TORNA VERDADEIRAMENTE FELIZES

Primeira Leitura: Ef 2,19-22
Irmãos, 19já não sois mais estrangeiros nem migrantes, mas concidadãos dos santos. Sois da família de Deus. 20Vós fostes integrados no edifício que tem como fundamento os apóstolos e os profetas, e o próprio Jesus Cristo como pedra principal. 21É nele que toda a construção se ajusta e se eleva para formar um templo Santo no Senhor. 22E vós também sois integrados nesta construção, para vos tornardes morada de Deus pelo Espírito.


Evangelho: Jo 20,24-29
24 Tomé, chamado Dídimo, que era um dos doze, não estava com eles quando Jesus veio. 25 Os outros discípulos contaram-lhe depois: “Vimos o Senhor!” Mas Tomé disse-lhes: “Se eu não vir as marcas dos pregos em suas mãos, se eu não puser o dedo nas marcas dos pregos e não puser a mão no seu lado, não acreditarei”. 26 Oito dias depois, encontravam-se os discípulos novamente reunidos em casa, e Tomé estava com eles. Estando fechadas as portas, Jesus entrou, pôs-se no meio deles e disse: “A paz esteja convosco”. 27 Depois disse a Tomé: “Põe o teu dedo aqui e olha as minhas mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado. E não sejas incrédulo, mas fiel”. 28 Tomé respondeu: “Meu Senhor e meu Deus!” 29 Jesus lhe disse: “Acreditaste, porque me viste? Bem-aventurados os que creram sem terem visto!”
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Hoje, 03 de Julho, celebramos a festa do apóstolo Tomé, o cético, o incrédulo, o modelo dos realistas, dos pessimistas, dos que desconfiam quando as coisas saem bem. O Apóstolo Tomé é, como muitos homens modernos, um existencialista que não crê naquilo que não toca, porque não quer viver das ilusões. É aquele que pensa que o pior é sempre o mais seguro.


O quarto Evangelho, isto é, o Evangelho de João nos fornece dados sobre algumas características do Apostolo Tomé. Seu nome “Tomé” significa “gêmeo” (de origem hebraica “ta’am”, “gêmeo”). No entanto, não se dá razão deste nome.


Segundo o quarto Evangelho Tomé exorta aos demais sobre o perigo da ida de Jesus para Betânia para ressuscitar Lázaro, no momento crítico da vida de Jesus (cf. mc 10,32), pois Jesus é ameaçado de morte. ”Vamos todos morrer com ele!”, alerta Tomé (Jo 11,16). Mesmo assim Tomé mostra sua fidelidade a Jesus ao acompanhá-Lo para Betânia. A fidelidade de Tomé mostra sua adesão à vida de Jesus e à causa pela qual Jesus vive e exerce sua missão. Ele segue a Jesus apesar das dificuldades neste seguimento. Seguir Jesus significa viver junto, estar no coração de Jesus como Jesus está no nosso coração e morrer junto com ele para com ele ressuscitar junto.


O Evangelho de João nos fornece outra intervenção do Apostolo Tomé, desta vez, na Ultima Ceia. Na despedida Jesus disse aos Apóstolos: “Para onde eu vou, vós conheceis o caminho” (Jo 14,4), isto é para a casa do Pai, onde Jesus e os seus vão se encontrar um dia. Jesus vai preparar esse “lugar” para eles. No entanto, Tomé mostra seu pouco conhecimento sobre esse assunto: “Senhor, não sabemos para onde tu vais!” (Jo 14,5). O pouco conhecimento de Tomé sobre esse assunto é a grande oportunidade para Jesus se revelar através da famosa frase: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6).


Não tenha medo de nosso pouco conhecimento sobre o mistério de Deus. Basta mantermos as conversas com Deus nas nossas orações e meditações para que o mesmo Deus possa se revelar para nós algo pelo qual nós ansiamos tanto para compreender seu sentido.


O quarto Evangelho nos apresenta também uma cena bastante marcante a respeito do Apostolo Tomé: sua incredulidade. Ele não acreditava que Jesus tinha sido ressuscitado: “Se não vir em suas mãos o sinal dos pregos e não colocar meu dedo no lugar dos pregos e não colocar minha mão no seu lado, eu não acreditarei” (Jo 20, 25). Os sinais da crucificação no corpo de Jesus continuam marcando a memória de Tomé. Ele quer agora reconhecer Jesus através desses sinais. Isso significa que Tomé não se esquece da razão pela qual Jesus foi crucificado. Como se ele quisesse dizer: “Eu quero ver Jesus crucificado ressuscitado”.


A decepção de Tomé pela morte de Jesus mostra, no fundo, sua grande fé no mesmo Jesus e seu amor forte por Jesus. A decepção será maior por quem amamos tanto e em quem depositamos nosso amor, quando ele sair de nossa vida sem nenhuma explicação.


Depositar nosso amor no Senhor nunca nos decepciona. O quarto Evangelho nos relatou que Jesus crucificado ressuscitado volta a aparecer no meio dos discípulos entre os quais está o Apostolo Tome. Desta vez o olhar de Jesus é dirigido, especialmente, para Tomé: “Aproxima aqui teu dedo, Tomé, e olha minhas mãos; traz tua mão e coloca-a em meu lado, e não sejas incrédulo, mas crente” (Jo 20, 27). Tomé nunca se sentiu completamente comovido, porque nunca havia imaginado que Cristo atendesse um desejo tão difícil e absurdo. O pior castigo que se pode dar a quem não crê é conceder-lhe aquilo que se põe como condição indispensável para chegar à fé.


Diante dessa atenção tão grande do Senhor, que é sinal de Seu amor pelo apostolo, Tomé professa sua fé tão curta, mas tão profunda e esplêndida em todo Novo testamento: “Meu Senhor e meu Deus” (Jo 20,28). Nesta confissão Tomé não só manifesta sua fé na ressurreição de Jesus (Senhor: título pós-pascal), mas também na sua divindade (meu Deus). Com esta confissão Tomé nos ensina que a conseqüência última da ressurreição do Messias é o reconhecimento de sua condição divina. Os que crêem em Jesus Cristo de todos os séculos sempre agradecem a São Tomé por este feliz e deslumbrante ato de fé: “Meu Senhor e meu Deus”.


Diante da profissão da fé de Tomé, Jesus pronuncia uma frase que nos eleva para a categoria dos felizes porque acreditamos no Senhor: “Porque me viste, acreditaste. Felizes os que não viram e creram” (Jo 20, 29). Esta é a bem-aventurança do Ressuscitado. Crer, segundo o Evangelho deste dia, é renunciar a ver com os olhos da carne, a tocar com as mãos, a enfiar o dedo nas feridas do Ressuscitado para identificá-Lo. Crer é buscar e encontrar o Senhor, nosso Deus, na Assembléia dos que crêem que Jesus é o Salvador, na assembléia dos que encontram nos sacramentos a vida que brotou da cruz. Não conhecemos Jesus segundo a carne, não buscamos visões ou fatos extraordinários onde apoiar nossa fé. A felicidade que nos salva agora é a presença vivificante do Senhor que nos reúne pelo Espírito do Ressuscitado na Igreja onde não cessa de nos pregar o Evangelho e de partir para nós o Pão da vida. Em cada domingo somos felizes por este encontro com o Senhor que faz a morte morrer e nos dá a vida eterna e que nos alimenta com o Pão da Vida. “Fé é crer no que não vemos. O premio da fé é ver o que cremos”, dizia Santo Agostinho (Serm. 43,1,1). E acrescentou: “A fé abre a porta ao conhecimento. A incredulidade a fecha” (Epist. 136,4).


Nosso futuro em Deus é questão de fé, não de evidência. Por isso, é necessário superar um conceito tátil e comprovador de ter que colocar as mãos para estarmos seguros do que cremos. “A vida da vida mortal é a esperança da vida imortal”, dizia Santo Agostinho (In os.103,4,17). E “não há motivo para tristeza duradoura onde há certeza de felicidade eterna”, acrescentou Santo Agostinho (Epist. 263,4). “A fé é a garantia dos bens que se esperam, a prova das realidades que não se veem”, diz a Carta aos Hebreus (Hb 11,1).


A partir do evangelho de hoje em que se narra a reunião dos apóstolos como uma comunidade cujo Cristo ressuscitado está no meio dela aprendemos que a comunidade pascal é uma comunidade de crentes que se reúnem pela fé em Cristo (At 2,42-47). Nós somos irmãos de fé. A fé é que nos chama para formar uma comunidade onde somente há fraternidade e igualdade.


O Papa Bento XVI comentou: “O caso do apóstolo Tomé é importante para nós, ao menos por três motivos: primeiro, porque nos consola em nossas inseguranças; em segundo lugar, porque nos demonstra que toda dúvida pode ter um final luminoso, além de toda incerteza; e, por último, porque as palavras que Jesus lhe dirigiu nos recordam o autêntico sentido da fé madura e nos estimulam a continuar, apesar das dificuldades, pelo caminho de fidelidade a ele”.


Segundo uma antiga tradição, Tomé evangelizou em um primeiro momento a Síria e a Pérsia (assim afirma Orígenes, segundo refere Eusébio de Cesaréia, «Hist. Eccl. » 3, 1), e logo chegou até a Índia ocidental (cf. «Atos de Tomé» 1-2, 17 e seguintes), desde onde depois o cristianismo chegou também ao sul da Índia.


Para nós, o importante é obeservar a mudança da atitude de São Tomé. Ele tardou em compreender que sua postura diante da palavra dos companheiros não tinha sido razoável, pois, na verdade, ele tinha diante de si testemunhas fidedignas, por exemplo, Maria Madalena e os discípulos de Emaús. Mas o Senhor sempre tem paciência em esperar a resposta positivo dos seus seguiores. “Meu Senhor e meu Deus” é a mais alta e clara confissão de fé que aparece no quarto Evangelho (Evangelho de João).


Inspirado na confissão do Apóstolo Tomé, são Nicolau de Flüe rezava, que serve também para nossa oração: “Meu Senhor e meu Deus, tira de mim tudo que me afasta de Ti; meu Senhor e meu Deus, dá-me tudo aquilo que me aproxima de Ti; meu Senhor e meu Deus, tira-me de mim mesmo para dar-me inteiramente a Ti”.
P. Vitus Gustama,svd


02/07/2018
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SEGUIR A JESUS PARA ALCANÇAR A SALVAÇÃO E SALVAR O PRÓXIMO
Segunda-Feira da XIII Semana Comum


Primeira Leitura: Am 2,6-10.13-16
6 Isto diz o Senhor: “Pelos três crimes de Israel, pelos seus quatro crimes, não retirarei a palavra: porque eles vendem o justo por dinheiro e o indigente pelo preço de um par de chinelos; 7 pisam, na poeira do chão, a cabeça dos pobres, e impedem o progresso dos humildes; filho e pai vão à mesma mulher, profanando meu santo nome; 8 deitando-se junto a qualquer altar, usando roupas que foram entregues em penhor, bebem vinho à custa de pessoas multadas, na casa de Deus. 9 Entretanto, eu tinha aniquilado, diante deles, os amorreus, homens espadaúdos como cedros e robustos como carvalhos, destruindo-lhes os frutos na ramada e arrancando-lhes as raízes. 10 Fui eu que vos fiz sair da terra do Egito e vos guiei pelo deserto, durante quarenta anos, para ocupardes a terra dos amorreus. 13 Pois bem, eu vos calcarei aos pés, como calca o chão a carroça carregada de feixes; 14 o mais ágil não conseguirá fugir, o mais forte não achará força, o valente não salvará a vida; 15 o arqueiro não resistirá de pé, o corredor veloz não terá pernas para escapar, nem se salvará o cavaleiro; 16 o mais corajoso dentre os corajosos fugirá nu, naquele dia”, diz o Senhor.


Evangelho: Mt 8,18-22
Naquele tempo, 18 vendo uma multidão ao seu redor, Jesus mandou passar para a outra margem do lago. 19 Então um mestre da Lei aproximou-se e disse: “Mestre, eu te seguirei aonde quer que tu vás”. 20 Jesus lhe respondeu: “As raposas têm suas tocas e as aves dos céus têm seus ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça”. 21 Um outro dos discípulos disse a Jesus: “Senhor, permite-me que primeiro eu vá sepultar meu pai”. 22 Mas Jesus lhe respondeu: “Segue-me, e deixa que os mortos sepultem os seus mortos”.
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Deus Se Esconde Atrás Dos Débeis, Dos Indigentes, Dos Inocentes, Dos Justos


Pelos três crimes de Israel, pelos seus quatro crimes, não retirarei a palavra: porque eles vendem o justo por dinheiro e o indigente pelo preço de um par de chinelos; pisam, na poeira do chão, a cabeça dos pobres, e impedem o progresso dos humildes; filho e pai vão à mesma mulher, profanando meu santo nome; deitando-se junto a qualquer altar, usando roupas que foram entregues em penhor, bebem vinho à custa de pessoas multadas, na casa de Deus”.


Os três séculos de monarquia de Israel que vão do século IX até o século VI a.C foram os tempos muito agitados: guerras internacionais, luta social, injustiça social, conflitos políticos, distúrbios religiosos e assim por diante. Neste contexto uns “homens de Deus”, os profetas, intervém: Amós, Oseas, Isaías, Miqueias, Jeremias, Naum, Habacuc, Ezequiel... Nas próximas semanas ouviremos a voz destes profetas através das primeiras leituras. Todos eles vão combater sem armas, a não ser somente através da oração e da palavra. São as verdadeiras e maiores testemunhas de Deus de toda a história, pois eles defendem o projeto de Deus que é a Aliança, defendem os humildes e oprimidos, defendem a justiça, sem medo. Os profetas têm a audácia não somente de falar de Deus, mas também de pensar que falam “em Seu nome”: Deus fala por sua boca. João Batista dizia: “Sou a voz que grita...”


Esta semana ouviremos o áspero e valente profeta Amós que profetizou, principalmente, no Reino de Samaria sob o reinado de Jerobão II (786-746 a.C), o 13º rei de Israel, sucedendo a seu pai, o rei Joás.


Amós significa “Deus sustenta”, que viveu por volta do ano 750 a.C. Era um campesino, cultivador de uma plantação de sicômoros, que vivia em Teqoa, uma pequena aldeia cerca de 30 Km da capital Jerusalém. Emigrou para o reino de Norte ou seja, para a Samaria e ali alcançou a chamada de Deus e se converteu em profeta, porta voz de Deus no tempo do rei Jerobão II.


Amós observa como os comerciantes falsificam os pesos no mercado, como vendem às pessoas, por bom dinheiro, produtos sem valor.  Ele observa como os comerciantes ricos ou latifundiários se aproveitam desavergonhadamente de sua posição de monopólio e como a pessoa humilde cai cada vez mais na dependência e na pobreza. O que o profeta Amós proclama é uma única acusação: não se pode ir bem quando se viola a ordem de Deus. E protesta e acusa em nome de Deus com incrível energia e veemência. Será que nossa situação atual é diferente da situação na época do profeta Amós?


No texto da Primeira Leitura de hoje o profeta Amós disse: “... pelos seus quatro crimes, não retirarei a palavra”. Quais são as quatro crimes que suscitam a cólera do profeta Amós e dos quais também suscitam a cólera de Deus?
  1. Primeiro, porque vendem o justo por dinheiro e o indigente por um par de sandálias.
  2. Segundo, porque pisam, na poeira do chão, a cabeça dos pobres, e impedem o progresso dos humildes e pervertem o caminho dos mansos.
  3. Terceiro, porque pai e filho abusam da mesma mulher (serva), assim profanando o santo nome de Deus.
  4. Quarto, porque deitando-se junto a qualquer altar, usando roupas que foram entregues em penhor, bebem vinho à custa de pessoas multadas, na casa de Deus.
     
    Trata-se de a injustiça social, de juízos corrompidos, de sexualidade aberrante, de afã de prazer, de sociedade de consumismo indiferente.
     
    O profeta Amós denuncia, então, a opressão do débil: na vida social e nos tribunais (o justo é vendido por dinheiro, o inocente injustamente condenado pelo interesse de um par de sandálias); na vida familiar (pai e filho abusam sexualmente a mesma serva); no culto, a mais repugnante das injustiças sociais (bebem o vinho dos multados na casa de Deus). Cada um destes crimes manifesta o mesmo desprezo do homem, comportamento que Deus condena nos povos pagãos vizinhos.
     
    Com isso, o profeta Amós quer nos transmitir a verdade de que o Deus de Israel é um Deus exigente na ordem ética. Deus “se esconde” atrás de cada homem despojado de seus direitos. Consequentemente, tratar mal aos débeis, aos inocentes, aos justos significa tratar mal ao próprio Deus (cf. Mt 25,40.45). Aqui é que o desprezo do homem adquire sua autêntica dimensão, e aqui também reside o perigo da exclusão do homem da salvação.
     
    É Preciso Seguir a Jesus Para Alcançar a Salvação
     
    “É graça divina começar bem.
    Graça maior, persistir na caminhada certa, manter o ritmo...
    Mas a graça das graças é não desistir.
    Podendo ou não podendo,
    Caindo, embora aos pedaços,
    Chegar até o fim...” (Dom Hélder Câmara)
     
    O evangelho de Mateus foi escrito em torno dos anos 80 para os fieis de sua comunidade. Os fieis de sua comunidade já tinham feito sua escolha cristã. Mas em determinado tempo vacilavam por causa das dificuldades, e abatidos por causa de duras perseguições. Por isso, veio a exortação para que os fiéis retomassem consciência mais viva de sua identidade cristã, chamados a transformar a história humana em história de salvação.
     
    Nesta perspectiva Mt coloca dois personagens para transmitir essa exortação. O primeiro é um especialista da Lei que escolheu ser cristão. Trata-se de um letrado que reconhece em Jesus um mestre superior a si mesmo e decide seguir a Jesus, o grande mestre. Mas ele ainda não é comprometido com o cristianismo e por isso, ele é alertado antecipadamente para não tomar uma decisão superficial e ilusória. “As raposas têm suas tocas e as aves têm seus ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeção”. Para o letrado o caminho de Jesus tem seu termo. Mas Jesus alerta ao letrado que toda a vida de Jesus, até o momento de Sua morte, será uma entrega total, sem instalação nem descanso.
     
    Para ser um verdadeiro cristão, um verdadeiro seguidor de Cristo, é preciso ter espírito de despojamento e de pobreza, pois aquele que está cheio de coisas do mundo não sobra nenhum espaço para Deus nem para o próximo. O cristão existe para fazer o bem permanentemente. Fazer o bem não tem descanso nem tem término. Ninguém ama suficientemente nem definitivamente. O amor sempre deixa quem ama em dívida. O amor não descansa nem cansa.
     
    As raposas têm suas tocas e as aves dos céus têm seus ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça” (Mt 8,20)
            
    O instinto de segurança e a necessidade de estabilidade estão inscritos profundamente na natureza humana: o homem busca o calor de um refúgio, uma fogueira, uma casa para morar, uns objetos que lhe pertencem. Os animais têm este mesmo instinto de propriedade.
            
    Jesus desde que saiu de sua casa familiar de Nazaré, deixando sua mãe sozinha, não tem seu próprio lugar, vive como nômade, como viajante: “Não tenho onde reclinar minha cabeça”. Renunciou o calor de um lugar, renunciou a toda propriedade.
            
    Seguir a Jesus é fazer forçosamente certa escolha; é renunciar a uma série de coisas; é viver na segurança com Deus que criou tudo. Jesus quer que estejamos sempre caminhando em busca da perfeição. Jesus quer que estejamos abertos ao novo, à novidade, ao impulso do seu Espírito. Jesus não quer que estejamos parados, pois o Espírito de Deus sopra para onde quer. Jesus não quer que fiquemos apegados às coisas mortas, pois elas servem apenas de meio e não de fim.
            
    Por esta razão Jesus adota para si o título de “Filho do Homem”. O duplo título “Filho do Homem” indica unicidade e excelência: é “Homem acabado”, o modelo de homem, por possuir em plenitude o Espírito de Deus. Para chegar a ser um homem acabado, pleno do Espírito de Deus, o cristão precisa participar da missão de Jesus, precisa levar adiante a Palavra de Deus.
     
    A mensagem cristã é exigente. Não se trata de aderir a uma doutrina, mas a uma pessoa; não se trata de adotar um modo de pensar, mas de orientar-se para um modo de viver: o modo de viver de Jesus Cristo. Um cristão que se contenta de não fazer mal a ninguém não é suficiente. É preciso fazer o bem em função do bem e não em função do mal. É colocar o interesse do Reino de Deus acima de todas as preocupações pessoais assim como dos afetos mais caros, com plena dedicação. É viver aberto diante de Deus permanentemente.
     
    O segundo personagem já é discípulo, mas ainda não compreendeu todas as exigências de sua escolha. Por isso, o texto diz que ele pede um período de interrupção antes de seguir o Mestre. Ele quer ser um cristão periódico. Cristão de estação. É um cristão que procura Deus quando estiver livre de tudo, quando tiver tempo livre. É um cristão que procura Deus de vez em quando. Mas para este tipo de cristão Jesus faz prevalecer a exigência de uma escolha coerente, total e radical para si que é escolha para toda a vida.
     
    Este segundo personagem pede a Jesus permissão para enterrar o pai, mas recebe de Jesus esta resposta: “Segue-me! Deixa que os mortos sepultem os seus mortos”. A menção do pai nos leva ao episódio relacionado com a chamada de Eliseu no Antigo Testamento. Eliseu pediu licença a Elias para ir despedir-se de seu pai (cf. 1Rs 19,20). No Antigo Testamento a tradição (o pai) estava viva, mas para Jesus está morta.
     
    Segue-me! Deixa que os mortos sepultem os seus mortos”. Não se trata da falta com os deveres de piedade para o pai defunto. O “pai” aqui representa uma tradição que não mais salva. Abandonar o “pai” significa ficar independente da tradição transmitida que não tem mais valor para ser mantida. O pedido para “enterrar o pai” indica a veneração, o respeito e a estima pelo passado que não mais salva homem algum. Por isso, os mortos aqui são os que professam essas tradições mortais. São figuras de um mundo de morte, sem salvação. A tradição morta ou a cultura de morte gera morte e mortos.
     
    O discípulo, o cristão, ao contrário, é chamado a ser defensor e protetor da vida em qualquer instância e circunstância, pois a vida é o dom de Deus, e o próprio Jesus se identifica com a Vida: “Eu sou a Vida e a Ressurreição” (Jo 11,25; cf. 14,6).
     
    Segue-me! Deixa que os mostos sepultem seus mortos”. Jesus não quer que descuidemos dos nossos falecidos. Isto seria falta de caridade e da humanidade. O que Jesus quer é que abandonemos todos os hábitos que não nos fazem crescer como pessoas e filhos de Deus e irmãos dos outros. Precisamos deixar o modo de viver e de pensar que nos fazem como mortos: sem vida, sem horizonte, sem criatividade e assim por diante. A tradição morta gera a morte e mortos. Ao contrário, precisamos seguir Aquele que nos faz viver, Aquele que nos diz: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6). Precisamos crer n’Aquele que nos garante a vida: “Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crer em mim, ainda que esteja morto, viverá” (Jo 11,25).
         
    Precisamos olhar com carinho e seriedade para o nosso modo de viver para descobrirmos nele os hábitos que não nos fazem crescer ou não nos fazem viver com dignidade e avançar na caminhada da perfeição cristã. Sabemos que nosso grande problema não é implementar as coisas novas na nossa cabeça e sim tirar as coisas velhas e mortas de nossa cabeça. Ao mesmo tempo precisamos olhar para o modo de viver de Jesus para que sejamos homens acabados como foi ele. “Se queres seguir a Deus, deixa-O ir adiante. Não queiras que Ele te siga” (Santo Agostinho. In ps. 124,9).
     
    Para estar aberto diante de Deus é preciso abandonar hábitos negativos, isto é, todos os hábitos ou costumes que não nos levam à vida plena. Nos ensinamentos de Jesus encontramos o caminho para a verdadeira vida. Vale a pena encarar todas as dificuldades, pois a vitória está reservada para quem é perseverante neste caminho (cf. Mt 10,22; Jo 16,33).

P. Vitus Gustama,svd
Domingo, 01/07/2018
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SOLENIDADE DE SÃO PEDRO E SÃO PAULO


Primeira Leitura: At 12,1-11
Naqueles dias, 1 o rei Herodes prendeu alguns membros da Igreja, para torturá-los. 2 Mandou matar à espada Tiago, irmão de João. 3 E, vendo que isso agradava aos judeus, mandou também prender a Pedro. Eram os dias dos Pães ázimos. 4 Depois de prender Pedro, Herodes colocou-o na prisão, guardado por quatro grupos de soldados, com quatro soldados cada um. Herodes tinha intenção de apresentá-lo ao povo, depois da festa da Páscoa. 5 Enquanto Pedro era mantido na prisão, a Igreja rezava continuamente a Deus por ele. 6 Herodes estava para apresentá-lo. Naquela mesma noite, Pedro dormia entre dois soldados, preso com duas correntes; e os guardas vigiavam a porta da prisão. 7 Eis que apareceu o anjo do Senhor e uma luz iluminou a cela. O anjo tocou o ombro de Pedro, acordou-o e disse: “Levanta-te depressa!” As correntes caíram-lhe das mãos. 8 O anjo continuou: “Coloca o cinto e calça tuas sandálias!” Pedro obedeceu e o anjo lhe disse: “Põe tua capa e vem comigo!” 9 Pedro acompanhou-o, e não sabia que era realidade o que estava acontecendo por meio do anjo, pois pensava que aquilo era uma visão. 10 Depois de passarem pela primeira e segunda guarda, chegaram ao portão de ferro que dava para a cidade. O portão abriu-se sozinho. Eles saíram, caminharam por uma rua e logo depois o anjo o deixou. 11 Então Pedro caiu em si e disse: “Agora sei, de fato, que o Senhor enviou o seu anjo para me libertar do poder de Herodes e de tudo o que o povo judeu esperava!”.


Segunda Leitura: 2Tm 4,6-8.17-18
Caríssimo: 6 Quanto a mim, eu já estou para ser derramado em sacrifício; aproxima-se o momento de minha partida. 7 Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé. 8Agora está reservada para mim a coroa da justiça, que o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que esperam com amor a sua manifestação gloriosa. 17 Mas o Senhor esteve a meu lado e me deu forças, ele fez com que a mensagem fosse anunciada por mim integralmente, e ouvida por todas as nações; e eu fui libertado da boca do leão. 18 O Senhor me libertará de todo mal e me salvará para o seu Reino celeste. A ele a glória, pelos séculos dos séculos! Amém.


Evangelho: Mt 16,13-19
Naquele tempo, 13 Jesus foi à região de Cesareia de Filipe e ali perguntou aos seus discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” 14 Eles responderam: “Alguns dizem que é João Batista; outros que é Elias; outros ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas”. 15 Então Jesus lhes perguntou: “E vós, quem dizeis que eu sou?” 16 Simão Pedro respondeu: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. 17 Respondendo, Jesus lhe disse: “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. 18 Por isso eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la. 19 Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que desligares na terra será desligado nos céus”.
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Celebramos neste domingo a solenidade de duas colunas principais da Igreja: São Pedro e São Paulo. Os dois servem o mesmo Cristo embora de maneira diferente. Não há uma maneira só para servir Cristo e sua Igreja. Cada um dos dois tem suas qualidades. Mas como seres humanos eles também têm suas debilidades ou fraquezas. No entanto essas debilidades jamais deixam os dois de servir o Senhor e Sua Igreja.


1. Quando sou fraco, então é que sou forte


Estas palavras foram ditas pelo próprio Paulo na sua Segunda Carta aos Coríntios (2Cor 12,10). O “Quando sou fraco, então é que sou forte” reflete a vida destes dois grandes santos: Pedro e Paulo.


Pedro foi chamado de homem de pouca fé (Mt 14,31), de Satanás (Mt 16,23). Ele falhou em vigiar e orar junto com Jesus apesar do aviso de Jesus (cf. Mt 26,37-44; Mc 14,33-41). No momento da prisão de Jesus, numa atitude impetuosa, cortou a orelha de Malco, empregado do sumo sacerdote (Jo 18,10). No pátio de Caifás, a determinação de Pedro (cf. Mt 26,33-35) entrou em colapso, não diante de um tribunal, mas diante da pergunta de uma jovem empregada. Ele negou ser discípulo de Jesus (Mt 26,58.69-75). Mas apesar de tudo, ele reconhece que somente Jesus tem palavras de vida eterna (Jo 6,69). Ele sempre encabeça a lista dos discípulos (cf. Mt 10,2; Mc 3,16; Lc 6,14). Faz parte do círculo mais íntimo dos discípulos (Mc 5,37;9,2;13,3; Lc 8,51), e é o primeiro entre os discípulos (Mt 16,23; Jo 21,19). Ele admite sua ignorância (Mt 15,15; Lc 12,41; cf. também Jo 13,6-10 sobre o lava-pés) e a própria pecaminosidade (Lc 5,8). Ele questiona sobre o perdão e é advertido sobre as consequências do não- perdão (Mt 18,21-35).


Uma piedosa tradição conta que, durante a perseguição cruel de Nero, Pedro saía de Roma, abandonando a própria comunidade cristã em busca de um lugar mais seguro. Junto às portas da cidade, cruzou-se com Jesus que carregava a Cruz. Quando Pedro lhe perguntou: “Aonde vais, Senhor (Quo vadis, Domine)?” ouviu a resposta do Mestre: “Vou a Roma para deixar-me crucificar novamente”. Pedro entendeu a lição e voltou para a cidade onde o esperava a sua cruz. Um historiador antigo refere que Pedro pediu para ser crucificado de cabeça para baixo, por sentir-se indigno de morrer como o seu Mestre, de cabeça para o alto. Apesar das suas fraquezas, Pedro foi fiel a Cristo, até dar a vida por Ele.


Ficamos perguntando, por que Pedro, homem que demonstra um pouco de volubilidade e que tem tantos defeitos, foi eleito por Jesus para ser rocha sobre a qual edifica sua Igreja e para apascentar as ovelhas de Jesus? (Cf. Jo 21,5-17). Até o próprio Pedro questiona Jesus sobre essa eleição (cf. Jo 21,21). Será que, ao reconhecer os próprios defeitos e fraquezas, Pedro terá condições de compreender os defeitos e fraquezas dos outros sem condená-los, mas ajudá-los a saírem destes? Pois aquele que já passou por uma experiência de miséria, normalmente, sabe repartir o que tem para quem não tem nada para viver. Nunca podemos compreender completamente os mistérios de Deus. Talvez o profeta Isaías tenha razão quando coloca estas palavras na boca de Deus: “Pois meus pensamentos não são os vossos, e o vosso modo de agir não é meu... meus pensamentos ultrapassam os vossos” (Is 55,8.9b). Por isso, junto com o salmista podemos rezar: “Ensina-me, Senhor, vosso caminho...!” (Sl 26,11), pois “os caminhos de Deus são perfeitos” (2Sm 22,31).


Paulo também passou por uma experiência dolorosa antes de conhecer Jesus Cristo. A queda de Paulo na estrada de Damasco foi a linha divisória para sua vida entre antes e depois (At 9,1ss). Essa queda é a chave geral para entender Paulo e toda a sua luta incansável.


Paulo sempre foi um homem profundamente religioso, judeu praticante, irrepreensível na mais estrita observância da Lei (Fl 3,6;At 22,3) cheio de zelo pelas tradições paternas(Gl 1,14). Para defender essas tradições, chegou a perseguir os cristãos e isso com o apoio do Sinédrio.


Mas na estrada de Damasco Paulo, em vez de perseguir, ele foi perseguido por Cristo. A entrada de Jesus na vida de Paulo não foi pacífica, mas sim de uma maneira violenta.


Deus não pediu licença a Paulo. Ele entrou e o derrubou (At 9,4;22,7;26,14). Caído no chão, Paulo se entregou. Lucas não diz que Paulo caiu do cavalo, mas “cai por terra”, porque essa é a fraseologia usada em alguns textos bíblicos para descrever a reação humana diante da manifestação divina. Paulo é interpelado duas vezes pelo seu nome hebraico, transcrito em grego: “Saoúl, Saoúl” (v.4). A repetição do nome corresponde ao esquema de diálogos de revelação aos patriarcas bíblicos: Abraão, Jacó, Moisés (Gn 22,1;46,2; Ex 3,4). A novidade na experiência de Paulo é a pergunta: “Por que você me persegue?” (v.4). Ela revela uma situação singular. Aquele que fala com Paulo, no contexto de uma luz divina, se identifica com aqueles que Paulo está perseguindo (v.5 ). A identificação de Jesus com os seus discípulos perseguidos coloca Paulo diante de uma escolha sem alternativas (cf. Mt 25,40.45). Ele precisa mudar radicalmente os seus projetos.


Uma luz o envolveu (v.3) e era tão forte que Paulo ficou cego. Ele começou a enxergar até que Ananias interveio para dar-lhe o sentido da sua aceitação na Igreja e da certeza de caminhar na via que leva a Deus. Paulo ressuscitou no exato momento em que foi acolhido na comunidade como irmão(v.18).


Paulo ganhou novos olhos. Ele via as mesmas coisas de sempre: a vida, as pessoas, a Bíblia, o povo, a sinagoga, o trabalho e tudo que pertencia ao seu mundo. Mas a nova experiência do amor de Deus em Jesus (Rm 8,39) mudou os olhos, e o ajudou a descobrir novos valores que antes não via. A visão de Deus é luz, mas para a carnalidade do homem é motivo de espanto e faz com que o homem perceba toda a escuridão em que se encontra. Em contato com Deus que é luz, o homem se reconhece que é trevas.       


O nascimento de Paulo, segundo 1Cor 15,8, para Cristo não foi normal. Deus o fez nascer de maneira forçada. Paulo foi arrancado de dentro de seu mundo, como se arranca uma criança do seio da mãe por meio de uma operação.


A partir da experiência de Damasco, Paulo não consegue confiar naquilo que ele faz por Deus, mas só naquilo que Deus fez por ele. Já não coloca sua segurança na observância da Lei, mas sim no amor de Deus por ele (Gl 2,20s; Rm 3,21-26). Essa experiência chama-se Gratuidade. Essa foi a marca de experiência de Paulo na estrada de Damasco que renova por dentro todo o seu relacionamento com Deus. Essa experiência da gratuidade do amor de Deus vai dar rumo à vida de Paulo e vai sustentá-lo nas coisas que virão. Essa experiência é a nova fonte da sua espiritualidade que faz brotar nele uma “poderosa energia” (Cl 1,29), energia muito mais forte e muito mais exigente do que a sua vontade anterior de praticar a Lei e de conquistar a justificação. Essa experiência levou Paulo a desocupar o barraco da sua vida para deixar Jesus entrar nela.  Ele cresce tanto no amor de Cristo, a ponto de dizer: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20). Essa “desapropriação” de si mesmo, porém, não lhe tira a liberdade. Pelo contrário, ele diz: “É para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gl 5,1;2,4). A experiência da gratuidade do amor de Deus faz Paulo suportar lutas e perseguições, viagens e canseira, o peso do dia-a-dia (2Cor 11,23-27); sofrer com aqueles que sofrem (2Cor 11,29). Essa experiência mudou os olhos de Paulo e o ajudou a descobrir novos valores que antes não via.


Pálido, doente e acabado, Paulo foi levado a um vale solitário chamado Aquae Salviae em Roma. Seu corpo foi açoitado pela última vez. Inclinou a cabeça à espera da espada que o conduziria ao martírio. O lugar onde ele foi martirizado, hoje chama-se Tre Fontane como recordação de Cabeça de Paulo que por três vezes bateu no chão antes de parar no instante dramático da morte. Realizou, assim, o único desejo de sua vida: estar com seu Senhor e Mestre Jesus Cristo: “Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20).


O Deus do Evangelho e da misericórdia é Aquele que no instante em que me faz compreender que errei completamente com relação a Ele, porque me coloquei em seu lugar, demonstra-me a sua misericórdia ao perdoar-me e me dá confiança ao chamar-me ao seu serviço, confiando-me a sua própria Palavra.


Este instante resume para Paulo tudo o que ele sabia de Deus de maneira errada. O escuro se torna claro, o violento se torna misericordioso.


O evento de Damasco é algo tão rico que devemos aproximar-nos com muita humildade e reverência, convencidos de que compreendemos pouco, que sabemos pouco com relação a isto, mas que poderemos conhecer muito mais pela graça de Deus. Então, compreenderemos melhor a nós mesmos, o caminho da nossa vida e as nossas conversões.


A experiência de Paulo nos faz perguntar: “Quando foi que me converti? Existe em minha vida um “quando” da conversão ao qual posso referir-me como momento histórico? Mesmo que não tenha havido um “quando” temporal, certamente aconteceram momentos de mudança, de transformação, de crise que nos levaram a uma nova compreensão do mistério de Deus.


Se nunca realizamos a fundo esta mudança de mentalidade que é essencial para a vida cristã, ainda não chegamos a compreender o que é a novidade do caminho cristão. Se não compreendo bem as coisas ditas sobre Paulo, provavelmente é difícil que compreenda o que aconteceu em mim. 


2. Pedro e Paulo revelam face institucional e carismática da Igreja


Pedro e Paulo são chamados as duas colunas da Igreja. Os dois revelam, de maneira expressiva, as duas faces da Igreja: a institucional e a carismática. Por um lado, a Igreja é um dom que recebemos de Cristo e da Tradição. Aqui não se inventa nem se acrescenta; acolhe-se com gratidão. Entretanto ela pode conter perigos; favorece a acomodação, facilmente se incorre no legalismo, no moralismo e na rigidez dogmática que impede ou suspeita de toda novidade. Pedro corporifica a face institucional da Igreja.


Mas estes limites são superados ou equilibrados por outra face: a face carismática. Porque, a Igreja é resposta humana, criatividade face aos desafios de cada geração, adaptação aos valores das culturas, inovação nos modos de pensar a fé, de rezar a Deus e de viver o Evangelho. Mas esta face tem também seus limites: a invenção não pode adulterar a substância da fé apostólica; cumpre guardar uma fidelidade essencial ao espírito de Jesus e dos Apóstolos. Paulo corporifica a face carismática da Igreja. A Igreja que hoje possuímos é fruto desta síntese feliz. A festa de Pedro e Paulo nos quer recordar os bons frutos que nos vêm desta tensão conservando a unidade dentro da pluralidade.


3. Pedro e Paulo Nos Trazem a Mensagem da Esperança


Eis por que sinto alegria nas fraquezas, nas afrontas, nas necessidades, nas perseguições, no profundo desgosto sofrido por amor de Cristo. Porque quando me sinto fraco, então é que sou forte”, contou-nos São Paulo sua experiência (2Cor 12,10).


As duas figuras, Pedro e Paulo, nos trazem uma mensagem de esperança. Na vida podemos ter muitos defeitos e fraquezas a ponto de não conseguirmos sair deles, mas ninguém pode escapar do amor de Deus desde que acolhamos este amor com muita humildade. Pedro e Paulo são testemunhas de tudo isto. Como se os dois quisessem nos dizer: “Não desista! Tudo tem seu tempo e sua solução, pois Deus te ama”. 


Deus conta com o tempo para formar cada um de nós, seus instrumentos, como conta também com a nossa boa vontade. Se tivermos a boa vontade de Pedro e de Paulo, se formos dóceis à graça de Deus, iremos convertendo-nos em instrumentos idôneos para servir o Mestre e para levar a cabo a missão que nos confiou. Até os acontecimentos que parecem mais adversos, os nossos próprios erros e vacilações, se recomeçarmos uma vez e outra, se abrirmos o coração ao Senhor e às pessoas capacitadas na direção espiritual, haverão de ajudar-nos a estar mais perto do Senhor que não se cansa de suavizar os nossos modos rudes e toscos. É provável que, em momentos difíceis de nossa vida, cheguemos a ouvir como Pedro: “Homem de pouca fé, por que duvidaste?” (Mt 14,31). E veremos Jesus ao nosso lado, estendendo-nos a mão para nos ajudar.


Todos nós recebemos, de diversas maneiras, uma chamada concreta para servir o Senhor. E ao longo da vida chegam-nos novos convites para segui-lo, e temos de ser generosos com Ele em cada novo encontro. Temos de saber perguntar a Jesus na intimidade da oração, como São Paulo: “Que devo fazer, Senhor? Que queres que eu deixe por Ti? Em que desejas que eu melhore? Neste momento da minha vida, que posso fazer por Ti?


4. Alguma Mensagem do Evangelho


4.1. A identidade de Jesus segundo o povo: simplesmente um profeta


“Quem sou Eu?”, pergunta Jesus. É uma pergunta surpreendente que não é nada natural. Ao personagem mais insólito não se pergunta quem ele é; perguntam-se-lhe os motivos e as razões do seu comportamento. Os profetas, por ex., devem responder à pergunta que lhe é feita sobre porque eles vivem e falam de determinada maneira. Por isso, eles narram a sua vocação e explicam porque tomaram esse estilo de vida (Is 8,11; Jr 15,17). Para Jesus, ao contrário, a pergunta decisiva é a de saber quem ele é.  A profissão de Cesareia, por isso, não é uma proclamação qualquer, mas é uma profissão de fé (profissão de fé petrina). Para que essa profissão seja realmente profissão de fé, Jesus procede em dois tempos, fazendo sucessivamente a pergunta: quem é Jesus na opinião dos homens (povo) e na opinião dos próprios discípulos de Jesus. Há, portanto, duas maneiras de compreender Jesus, uma que fica do lado de fora e a outra que atinge a realidade profunda.


“Quem dizem os homens ser o Filho do Homem (Filho do Homem = Eu. cf. Ez 2,1)?”. Os discípulos comunicam várias avaliações. Os discípulos partem sua resposta a partir de o “ouvir falar”. Para o povo (os homens), Jesus não tem personalidade própria. O povo simplesmente assimila Jesus a personagens conhecidos do AT como Elias que era muito venerado pelo povo e foi arrebatado até Deus de maneira milagrosa (2Rs 2,11) e cujo retorno estava esperado como precursor do Messias (Ml 3,23-24; Eclo 48,10); como João Batista (Herodes Antipas considerou Jesus como João Batista ressuscitado dentre os mortos. cf. Mt 14,2); e como Jeremias que era associado a uma renovação do culto no Templo; ou então, como um dos profetas. Todas as quatro respostas localizam Jesus na tradição profética. Jesus, então, é visto em continuidade com o passado. O povo não consegue descobrir a novidade trazida por Jesus. Por isso também o povo não é capaz de saber a originalidade de Jesus. A resposta do povo fica na superfície e na margem da realidade verdadeira e profunda.


Será que sabemos ou conhecemos Jesus a partir de “ouvimos falar” ou porque o conhecemos? Ficamos, assim, na superfície da realidade.


4.2. A identidade de Jesus na profissão petrina: Cristo, Filho de Deus vivo  


Jesus continua a perguntar para os mais íntimos, os seus discípulos: “E vós, quem dizeis que Eu sou?” (v.15). Esta pergunta tem um sentido entre dois seres que se amam e que descobrem o que são no olhar e no coração do outro. Tem um sentido para aquele que assume uma responsabilidade para com os outros e que tem necessidade de que ela seja reconhecida. Nesta pergunta coincidem completamente o ser e a função. Ser o Messias significa existir exclusivamente para todos os homens e ser Jesus significa ser aquele que salva (Mt 1,21) todos os homens. Por isso, é preciso que a resposta seja real, que exprima uma experiência autêntica. Uma resposta puramente escolar ou a repetição duma fórmula cuidadosamente registrada, criaria um equívoco total. Por isso, a pergunta de Jesus nada contém que possa encaminhar, mas obriga o homem a colocar-se de todo perante esse personagem misterioso, a encontrar a resposta exclusivamente na contemplação da sua pessoa e a empenhar todo o seu ser na resposta.


Em nome dos discípulos, Pedro responde: “Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo” (v.16). Esta é a primeira vez que um discípulo usa o termo “Cristo”, embora os leitores de Mt saibam isto desde o início do Evangelho (cf. Mt 1,1.16.17.18; veja também 2,4;11,2) e os discípulos tinham feito uma confissão comparável em Mt 14,33. A resposta de Pedro atinge a verdadeira personalidade de Jesus, a sua relação com Deus, diferente de tudo quanto conheceram os profetas e o povo, e a sua missão no mundo, a qual interessa diretamente a todos os filhos de Israel e, através deles, à humanidade inteira. A resposta de Pedro à pergunta de Jesus é a mais comprometida. É uma profissão de fé messiânica que adquire dimensão teológica. Estes dois títulos “Messias” (a profissão de fé pré-pascal) e “Filho de Deus vivo” (a profissão de fé pós-pascal) resumem a fé da Igreja de Mateus.


O “Messias” ou “Cristo” (“Mashiah”, hebraico = “Ungido”) é uma expressão mais importante das esperanças de salvação no AT e no judaísmo subsequente. No contexto da teologia bíblica, a questão do Messias tem especial relevância, porque este título, em sua tradução grega “christos”, além de ser título (Jesus, o Cristo), tornou-se praticamente o nome de Jesus (Jesus Cristo). No NT este termo “Christos” é atribuído 530 vezes a Jesus de Nazaré.


Quando Pedro reconhece em Jesus o Messias, não renuncia à sua esperança de judeu, mas dá a essa esperança o rosto que tem diante de si. É aquele que o seu povo espera, aquele que vai mudar o destino das nações, que Pedro descobre sob os traços de Jesus.


Mt sublinha que Jesus é o Messias enviado ao povo de Israel. As genealogias o vinculam com Davi e Abraão (Mt 1,1). Mt afirma que Jesus é o Filho de Davi (Mt 1,1.17.20) e, portanto, o Messias de Israel (Mt 2,6). Segundo Mt, Jesus tem relação especial com Israel por ser o cumprimento de suas tradições: suas vitórias finais sobre os adversários, sobre a morte pela ressurreição etc. são a concretização das esperanças apocalípticas judaicas. Mt, então, apresenta Jesus à luz do AT como seu cumprimento. 


Se Jesus é o Messias, então, é preciso procurá-lo e é mister segui-lo. Mas, certamente, acontece o contrário. Mt sublinha também o fato de Israel desprezar o Messias que lhe foi enviado, principalmente foi desprezado pelas autoridades (Mt 2,1-12;9,33s;12,23s;21,45s;26,4s etc...).


Pedro também professa que Jesus é o “Filho de Deus vivo”. O título “Filho de Deus” era usado comumente para honrar e exaltar imperadores, especialmente Augusto. Os imperadores eram considerados e reconhecidos como agentes da vontade e poder dos deuses expressos pelo governo romano. Por isso, designar Jesus como “Filho de Deus” é contestar e desafiar essas reivindicações de soberania e representação.


Filho de Deus” é o título mais importante de Jesus, mas, sobretudo, é o mistério íntimo de sua pessoa. Este segundo título, nesta profissão petrina, indica que Jesus tem relação especial com Deus, como seu Filho. “Filho de Deus” é título tradicional para líderes judaicos com aprovação divina. Esta expressão “Filho de Deus” concorda com a perspectiva de Deus sobre Jesus (cf. Mt 2,15;3,17) com as próprias declarações de Jesus (cf. Mt 11,25-27) e repete a confissão dos discípulos em Mt 14,33: “Tu és verdadeiramente o Filho de Deus”. A autoridade e o poder de Jesus vêm de Deus que o legitima em seu batismo (Mt 3,17) e na sua transfiguração (Mt 17,5) e no reconhecimento da parte dos próprios discípulos como tal quando Jesus anda sobre as águas (Mt 14,33). Jesus é, certamente, tentado três vezes na sua qualidade de Filho de Deus (Mt 27,39-43). Estas três tentações no final afirmam uma clara relação com três tentações do início do relato (Mt 4,1-11). No deserto Jesus, recém-proclamado Filho de Deus no batismo, é tentado por Satanás para que use desta filiação numa demonstração de poder em benefício próprio. Mas Jesus não é o Filho de Deus pela demonstração de seu poder, mas na aceitação da condição humana e na plena fidelidade à vontade de Deus, seu Pai, na aceitação da cruz como consequência de sua fidelidade ao projeto do Pai onde se manifesta a sua filiação divina.


Neste segundo título, Mt acrescenta também o adjetivo “vivo”: “Filho de Deus vivo”. Jesus como o “Filho de Deus vivo” equivale à fórmula “Deus Conosco/Emanuel” (Mt 1,23; 18,20; 28,20). Se Deus sempre está conosco porque Ele é vivo. “Vivo” (cf. 2Rs 19,4.16; Is 37,4.17;Os 2,1;Dn 6,21) opõe o Deus verdadeiro aos ídolos mortos; significa o que possui a vida e a comunica para quem acredita nele. O Deus de Jesus é vivo e vivificante. Jesus é o Filho de Deus vivo, portanto também é doador de vida e vencedor da morte. O Deus de Jesus Cristo é o Deus da vida (Dt 5,26; Js 3,10;1Sm 17,26.36; 2Rs 19,4.16;Sl 42,2;84,2;Os 1,10;Dn 6,20). Isto quer dizer que ele é criativo, ativo, fiel e justo. Ser o Deus vivo e vivificante, possuir a vida e comunicá-la é a característica do Deus verdadeiro. Os “deuses”, os ídolos não têm vida própria e por isso, não podem comunicá-la. Ao contrário, eles exigem sacrifícios humanos e escravizam e devoram todos os que se tornam seus adoradores. E como Filho, Jesus expressa esta vida em suas palavras e ações (curas, alimentar o povo faminto, exorcismos etc. cf. Mt 11,2-6) e criando uma comunidade que participa no império de Deus.


Quem aceitar Jesus e estiver pronto para segui-Lo deve proteger a vida em todas as suas instâncias.  Ninguém pode decidir se alguém pode viver ou pode ser eliminado. Cada ser humano é o próprio templo de Deus (cf. 1Cor 3,16-17; 6,19). A vida humana é o sopro ou o hálito de Deus (cf. Gn 2,7).


Pedimos hoje a São Pedro e ao Apóstolo dos pagãos, Paulo, um coração como o deles, para sabermos passar por cima das pequenas humilhações ou dos aparentes fracassos que acompanham necessariamente a ação apostólica, ou a nossa vida em geral. E dizemos a Jesus que estamos dispostos a conviver com todos, a oferecer a todos a possibilidade de conhecê-lo e amá-lo, sem nos importarmos com os sacrifícios nem pretendermos êxitos imediatos. Assim seja!
P. Vitus Gustama,svd