quarta-feira, 31 de outubro de 2018

01/11/2018
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SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS
Ap 7,-4.9-14; 1Jo 3,1-3; Mt 5,1-12

I. Ser Santo


Cada santo é uma mensagem que o Espírito Santo extrai da riqueza de Jesus Cristo e dá ao seu povo” (Papa Francisco: Gaudete Et Exsultate n.21).


O termo “santo” é uma tradução da palavra hebraica “qadosh” /” qodesh” que basicamente significa “cortar”, “separar”, aponta para uma idéia de separação do profano. No Novo Testamento é representado pela palavra grega “hagios”. Emprega-se para designar as pessoas ou coisas ou lugares destinados ao uso sagrado, bem como os dias reservados ao serviço religioso (Ex 20,8;30,31; Lv 21,7; Nm 5,17; Ne 8,9; Zc 14,21), tudo que a lei cerimonial manda separar (Ex 22,31; Lv 20,26), a purificação de carne e do espírito (2Cor 7,1;1Ts 4,7), inclusive a separação dos falsos deuses e práticas pagãs (Lv 20,6-7;21,6). O santo e as coisas santas são os que não se tocam ou dos quais alguém se aproxima somente dentro de certas condições de “pureza ritual” (compare com o Ato penitencial da missa). Eles provocam um sentimento misto(numinoso): tremendo, espantoso e assim distancia, mas ao mesmo tempo é fascinante, atrai o homem.


Mas a noção bíblica de santidade não só pára na apresentação das reações do homem diante do divino e na definição da santidade como negação do profano, ela define também a santidade na sua própria fonte, em Deus, de quem deriva toda santidade. A santidade é qualidade essencialmente divina. Ela caracteriza a essência da divindade (Am 4,2; Is 40,25; 1Sm 2,2s). Nas criaturas a qualidade deriva do divino, por uma espécie de contato peculiar, por reflexão (santidade de Deus se reflete na santidade do homem). Deus é quem nos santifica com o seu amor que é graça, misericórdia, perdão e fortaleza. Quanto mais a santidade de Deus penetra no coração de um homem, mais ela o ilumina sobre a sua miséria profunda. Por isso, Jean Lafrance disse: “Tornar-se santo é algo ao mesmo tempo simples e complexo. É simples no sentido de que basta permitir o crescimento da vida trinitária que recebemos no batismo. Mas ao mesmo tempo é uma obra complicada, porque nós não somos simples (simples quer dizer sem desdobramento). Nosso coração parece atado, retorcido, e nossos pecados formaram como uma carapaça de pedra em torno do nosso coração”.


A santidade é uma realidade essencialmente dinâmica. Deus se manifesta e comunica ao homem sua própria santidade. Deus chama o homem, mediante a ação do Espírito Santo, para que o homem se renove em todas as dimensões de sua existência e seja reflexo e instrumento da vontade divina para a obra de salvação do mundo.


A partir disso tudo, ser santo não significa fazer milagres (embora isso possa acontecer), também não significa chamar atenção com fatos extraordinários, nem ser estranho do resto dos homens ou ser isolado do dia-a-dia por ter medo de ser contaminado pelo mundo. Ser santo é ser capaz de colocar-se nas mãos do Deus Santo, contar com ele, sabendo dependente dele, em busca de configuração com Cristo modelo acabado de todas as virtudes. Por outro lado, colocar-se a serviço dos semelhantes/próximo desinteressadamente, fazendo-lhes o bem, como resposta aos benefícios recebidos de Deus. O enraizamento em Deus desabrocha em forma de misericórdia para com o próximo.


Por isso, a santidade não consiste na grandeza das obras exteriores ou na riqueza dos dons naturais, mas no pleno desenvolvimento da graça e das virtudes teologais (fé, esperança, caridade) recebidas no batismo e das virtudes morais/cardeais (prudência, justiça, fortaleza, temperança) de modo que o mais humilde cristão, mesmo sem tarefa específica na Igreja, sem dotes extraordinários, na maior simplicidade do seu coração, poderá chegar a um alto grau de santidade.  Ser santo é viver com amor, por amor e para o amor, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16).


Sobre o que é ser santo, de maneira simples, porém profunda, o Papa Francisco escreveu na sua Exortação Apostólica GAUDETE ET EXSULTATE: “Para ser santo, não é necessário ser bispo, sacerdote, religiosa ou religioso. Muitas vezes somos tentados a pensar que a santidade esteja reservada apenas àqueles que têm possibilidade de se afastar das ocupações comuns, para dedicar muito tempo à oração. Não é assim. Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra. És uma consagrada ou um consagrado? Sê santo, vivendo com alegria a tua doação. Estás casado? Sê santo, amando e cuidando do teu marido ou da tua esposa, como Cristo fez com a Igreja. És um trabalhador? Sê santo, cumprindo com honestidade e competência o teu trabalho ao serviço dos irmãos. És progenitor, avó ou avô? Sê santo, ensinando com paciência as crianças a seguirem Jesus. Estás investido em autoridade? Sê santo, lutando pelo bem comum e renunciando aos teus interesses pessoais. Deixa que a graça do teu Batismo frutifique num caminho de santidade. Deixa que tudo esteja aberto a Deus e, para isso, opta por Ele, escolhe Deus sem cessar. Não desanimes, porque tens a força do Espírito Santo para tornar possível a santidade e, no fundo, esta é o fruto do Espírito Santo na tua vida (cf. Gal 5, 22-23). Quando sentires a tentação de te enredares na tua fragilidade, levanta os olhos para o Crucificado e diz-Lhe: «Senhor, sou um miserável! Mas Vós podeis realizar o milagre de me tornar um pouco melhor». Na Igreja, santa e formada por pecadores, encontrarás tudo o que precisas para crescer rumo à santidade. «Como uma noiva que se adorna com as suas joias» (Is 61, 10), o Senhor cumulou-a de dons com a Palavra, os Sacramentos, os santuários, a vida das comunidades, o testemunho dos santos e uma beleza multiforme que deriva do amor do Senhor” (n.14 e n.15).


“No fundo, a santidade é viver em união com Cristo os mistérios da sua vida; consiste em associar-se duma maneira única e pessoal à morte e ressurreição do Senhor, em morrer e ressuscitar continuamente com Ele. Mas pode também envolver a reprodução na própria existência de diferentes aspetos da vida terrena de Jesus: a vida oculta, a vida comunitária, a proximidade aos últimos, a pobreza e outras manifestações da sua doação por amor”, escreveu o Papa Francisco na mesma exortação apostólica (n.20). “A santidade mais não é do que a caridade plenamente vivida” (n.21).


Portanto, a vocação à santidade é universal, é uma meta a ser atingido por todos os cristãos (cf. Lumen Gentium, 39-40). Como São Paulo diz: “Esta é a vontade de Deus, a vossa santificação” (1Ts 4,3; Ef 1,4; cf. também Mt 5,48). Ninguém é excluído deste apelo nem pode dispensar-se de dar sua resposta. Este ideal é atingível por todos nas situações mais simples do dia-a-dia. Se o cristão o fizer com a graça de Deus, sempre tem uma história com final feliz como todos os santos comemorados neste dia.


II. As Bem-Aventuranças São O Programa Proposto Por Jesus Aos Que Querem Segui-Lo Com Todas As Consequências


Neste dia celebramos a festa de todos os santos, reconhecidos e anônimos incontáveis, como descreve o livro do Apocalipse. Além disso, nunca podemos nos esquecer que há exemplos de santidade e heroísmo cristão em outras Igrejas, religiões, povos e culturas. Reconhecer essa presença é uma ajuda para superar os nossos preconceitos e para acolher com alegria esses parceiros na construção do Reino de Deus ou do mundo mais fraterno), lemos o evangelho das bem-aventuranças de Mateus. Dentro do contexto da festa, as bem-aventuranças abrangem os três momentos do tempo: celebramos os bem-aventurados do passado que testemunhavam sua fé heroicamente.


Celebramos também a nossa vocação à felicidade sem fim, à santidade futura: razão de nosso ser, de nossa vida, de nossa peregrinação e de nossa adoração a Deus, pois aquele que sabe aonde vai e sabe do caminho também, tem muitas possibilidades de ser feliz e de usufruir de todas as coisas boas que Deus lhe oferece diariamente.


E por fim, olhando para estas bem-aventuranças, podemos celebrar no tempo presente a santidade, as bem-aventuranças, como dom ou graça presente porque elas são proclamação da amizade de Deus para as pessoas que participam do espírito destas bem-aventuranças. Elas são um prelúdio da felicidade eterna. Há santos na vida cotidiana que apesar de suas fraquezas lutam para melhorar a própria vida e a vida dos outros. Por isso, o Papa Francisco escreveu na sua exortação apostólica: “Gosto de ver a santidade no povo paciente de Deus: nos pais que criam os seus filhos com tanto amor, nos homens e mulheres que trabalham a fim de trazer o pão para casa, nos doentes, nas consagradas idosas que continuam a sorrir. Nesta constância de continuar a caminhar dia após dia, vejo a santidade da Igreja militante. Esta é muitas vezes a santidade ‘ao pé da porta’, daqueles que vivem perto de nós e são um reflexo da presença de Deus, ou – por outras palavras – da ‘classe média da santidade’” (Gaudete et Exsultate n.7).


As bem-aventuranças são, então, o código da nova aliança que não impõe preceitos imperativos mas enuncia-se como promessa, convite e proclamação para aqueles que as praticam.


Mateus inicia o Sermão da Montanha com as bem-aventuranças (em grego, makariori). No grego clássico, esta palavra (makariori) significava “felicidade, boa sorte, bem estar”. Píndaro, Platão e Aristóteles, por exemplo, a usaram regularmente em saudações, para enviar votos de felicidade e para descrever a pessoa bem-nascida, educada ou feliz. O uso que Mateus dá à palavra tem esse mesmo sentido de perfeição, alegria e recompensa em decorrência de se viver da maneira que as bem-aventuranças encorajam.


As bem-aventuranças começa com dois versículos introdutórios bem densos teologicamente: “Vendo Jesus as multidões, subiu à montanha. Ao sentar-se, aproximaram-se dele os seus discípulos. E pôs-se a falar e os ensinava...”


Jesus as multidões. O olhar de Jesus é o olhar de Deus: penetrante e fascina. O olhar que não fica na superfície, mas penetra profundamente, atinge o coração e vê o que está no íntimo do homem. Os olhos de Jesus são os que sabem comunicar para estabelecer um contato. As multidões que Jesus enxerga diante de si são aquelas que lhe seguiram, aquela massa heterogênea, vindo de todas as partes de Israel (Mt 4,25). O discurso vai-se dirigir, portanto, a toda a terra de Israel, aos representantes de todos os distritos e de todas as tribos. Isto já basta para sublinhar a importância do discurso que vem em seguida.


Jesus subiu ao monte. A palavra “monte” simboliza o lugar de Deus e o de sua manifestação (Sinai, Horeb, Tabor etc.), a esfera divina, o do encontro com Deus. Jesus nos convida a subir ao monte. Nossa vida deve ser sempre uma subida espiritual até chegar a Deus, à esfera divina. Quando o cristão estiver no lugar de Deus, ele poderá enxergar melhor sua vida e as pessoas ao seu redor e todos os acontecimentos na sua justa perspectiva. Consequentemente, à vaidade ele opõe a humildade, às blasfêmias a exortação, à arrogância uma educação sem falha e ele transforma sua crítica em humildes sugestões, sua lucidez em vigilância, sua força em persuasão e sua caridade em delicadeza.


Jesus sentou-se. “Estar sentado” é a atitude própria do mestre. Nas sinagogas sentados os rabinos ensinavam na cátedra de Moisés (Mt 23,2). Esta observação, sentar-se, revela que se trata de uma instrução importante, de um ensinamento oficial. A expressão também enfatiza a importância do ensinamento que vai começar imediatamente. Com isso, Jesus interpreta normativamente a Palavra de Deus. E ele traduz a Palavra de Deus para aquela multidão, mais acostumada a ouvir do que a ler, como chamas que iluminam e esquentam, mas que também queimam.


Os discípulos aproximaram-se de Jesus. A palavra “discípulo” aqui significa literalmente “aprendizes” ou “estudantes”. “Discípulo” é uma das palavras preferidas de Mateus e “membros de sua comunidade”.


Ao dizer que os discípulos aproximaram-se de Jesus, Mateus quer nos dizer que não existe mais a distância que separe o ser humano de Deus. Se no Antigo Testamento só Moisés que subiu ao monte para encontrar-se com Deus e para receber o decálogo (cf. Ex 19-20), agora a partir de Jesus, qualquer ser humano tem o acesso a Deus. Mateus justamente quer nos mostrar, através de seu evangelho, que Deus é Emanuel, Deus conosco (Mt 1,23;18,20;28,20). A aproximação/subida dos discípulos mostra que não há mais distância entre Deus e o homem. Pela adesão a Jesus, superou a distância que os separava do Reinado de Deus (Mt 4,17: o Reino dos céus está próximo). Quem aderir a Jesus também não criará distância dos outros, pois os outros são passagem obrigatória para chegar até Deus.


Jesus pôs-se a falar e os ensinava. Ensinar é uma atividade característica de Jesus (Mt 4,23-25;9,35;11,1), que os discípulos só poderão assumir depois de ver Jesus Ressuscitado (Mt 28,16-20).


Quem são os felizes na proclamação de Jesus? Basta ler as oito bem-aventuranças!


O feliz é aquele que é pobre no espírito (v.3). O termo “espírito” na concepção semita conota sempre força e atividade vital. Os pobres em espírito são os “curvados de espírito” (anawim), os que se submetem interiormente, sem resistência, à vontade de Deus, os que aceitam humildemente o senhorio de Deus sobre suas vidas. Esta atitude de humildade diante de Deus, nascida da fé, se traduz em atitudes e condutas de desapego aos bens materiais, de bondade, de partilha que é a alma do projeto/plano de Deus, e de solidariedade.


Jesus declara felizes não os que são mansos por temperamento(v.4), mas os que, apesar de disporem de meios para fazer valer seus direitos, não são violentos nem agressivos mas pacientes e indulgentes pois a justiça do Reino não será imposta através da violência que destrói, nem pelo “extermínio dos filhos das trevas” mas através da força de Deus e como fruto da confiança inabalável na justiça de Deus em favor dos injustiçados e humilhados.


Jesus não canoniza a tristeza nem condena a alegria. Jesus declara felizes os que estão aflitos (v.5) por experimentarem a ausência da justiça de Deus, mas continuam esperando em Deus pois só Ele pode converter a tristeza em alegria e o pranto em canto. Todos os que se afligem diante das manifestações do anti-Reino serão consolados com a certeza do amor de Deus, mesmo no meio das maiores aflições. E com a certeza de que os frutos do que agora semeiam com lágrimas, a bondade, a justiça, a lealdade, serão colhidos com cânticos.


Para Jesus são felizes aqueles que praticam a justiça e não iniquidade (v.6). A “justiça nova” proclamada por Jesus é o tema central do Sermão da Montanha. Esta palavra aparece cinco vezes no Sermão da Montanha, de um total de sete vezes em todo o evangelho (3,15; 5,6.10.20; 6,1.33; 21,32). A justiça aqui significa viver em conformidade com a vontade de Deus, submeter-se a Ele sem restrições. É a prática dessa justiça, a conduta em conformidade com a vontade de Deus, que dá acesso ao Reino de Deus.


Os felizes não são os que, por índole natural, têm um coração sensível e sentimentos de compaixão(v.7), mas os que fazem gestos concretos de misericórdia, ajudando e servindo os necessitados. O justo é aquele que é misericordioso e vive de acordo com os mandamentos do Senhor (Sl 37,21). Não se reduz a um puro sentimento afetivo; exige um movimento efetivo em direção ao necessitado. Exige emoção no sentido mover-se em direção ao outro e com o outro. Ao sentir-se “comovidos” pelo sofrimento dos outros, os misericordiosos entram em ação para aliviar e, se possível, curar o sofrimento atacando suas causas. O amor misericordioso constitui o centro do mistério de Deus revelado em Jesus Cristo. Tudo que Jesus faz, nasce de suas entranhas de misericórdia. A misericórdia pertence ao núcleo da pregação de Jesus em Mateus (5,17-20;9,13;12,7;25,31-46; cf. também 18,23-35;6,14s).


Os que olham o mundo, as pessoas com os olhos de Deus são declarados felizes (v.8), pois tudo isso é a expressão da pureza do coração, um coração limpo, simples e sincero. É declarado feliz quem se põe a serviço de Deus e dos homens sem cálculos interesseiros e sem falsa piedade; o feliz é quem é transparente no pensar e no agir.


Os felizes não são os que têm temperamento tranqüilo, que desfrutam da paz interior do coração e que não perturbam os outros, mas os que fazem, constróem, promovem a paz no dia-a-dia (v.9), tecendo laços novos de solidariedade, de fraternidade, de verdade e de justiça (cf. Sl 34,14s). A paz (shalom) é a síntese de todos os bens messiânicos, como dom aos homens que Deus ama (Lc 2,14), pois trata-se de uma harmonia total com tudo e com todos. Aos construtores da paz é feita a promessa solene de que no juízo final lhes será dado o maior de todos os títulos: “Serão chamados filhos de Deus”.


E na última bem-aventurança (vv.10-12) se sublinha uma verdade: se não sofremos nenhuma forma de perseguição, de injúrias e calúnias por causa do Evangelho é sinal de que não optamos verdadeiramente por Jesus e seu Reino, pois o Evangelho que não incomoda mais não é mais o evangelho. Quem, ao anunciar o Evangelho, for aplaudido por todos e sobretudo pelos donos de poder, pode estar certo de que ele ainda não é o profeta verdadeiro, pois ele deixou de ser o sal da terra para converter-se em adoçante. Tirar do evangelho de Jesus o que possa ferir os que podem matar porque têm em suas mãos os poderes mortíferos da terra significa trair o evangelho e parar de ser cristão. O teste para verificar a fidelidade a Jesus de cada cristão, de cada comunidade cristã, e da Igreja como um todo, é ser ou não ser perseguido pelas forças do anti-Reino porque as razões da perseguição só podem ser mentirosas e as testemunhas só podem ser falsas. No caso de perseguição (como também na primeira bem-aventurança), a promessa é formulada no presente: “Deles é o Reino dos céus”. O reino lhes pertence desde agora.


Portanto, que cada um de nós que se chama cristão, se pergunte: o que falta ainda em mim destas bem-aventuranças? Quais delas tenho vivido? E por que ainda não tenho vivido algumas dessas bem-aventuranças? Cada santo tem seu passado, e cada pecador tem seu futuro.


P. Vitus Gustama,SVD

terça-feira, 30 de outubro de 2018

01/11/2018

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É PRECISO ANUNCIAR O EVANGELHO DA PAZ ATÉ O FIM APESAR DAS DIFICULDADES 
Quinta-Feira da XXX Semana Comum

Primeira Leitura: Efésios 6,10-20
10 Finalmente, irmãos, fortalecei-vos no Senhor, e na força de seu poder. 11 Revesti-vos da armadura de Deus, para poderdes resistir às insídias do diabo. 12 Pois o nosso combate não é contra o sangue nem contra a carne, mas contra os principados e potestades, contra os príncipes deste mundo tenebroso, contra os Espíritos do Mal, que povoam as regiões celestiais. 13 Revesti, portanto, a armadura de Deus, a fim de que no dia mau possais resistir e permanecer firmes em tudo. 14 De pé, portanto! Cingi os vossos rins com a verdade, revesti-vos com a couraça da justiça 15 e calçai os vossos pés com a prontidão em anunciar o Evangelho da paz. 16 Tomai o escudo da fé, o qual vos permitirá apagar todas as flechas ardentes do Maligno. 17 Tomai, enfim, o capacete da salvação e o gládio do espírito, isto é, a Palavra de Deus. 18 Com preces e súplicas de vária ordem, orai em todas as circunstâncias, no Espírito, e vigiai com toda a perseverança, intercedendo por todos os santos. 19 Orai também por mim, para que a palavra seja posta em minha boca para anunciar corajosamente o mistério do Evangelho, 20 do qual sou embaixador acorrentado. Possa eu, como é minha obrigação, proclamá-lo com toda a ousadia.


Evangelho: Lc 13, 31-35
31 Naquela hora, alguns fariseus aproximaram-se e disseram a Jesus: “Tu deves ir embora daqui, porque Herodes quer te matar”. 32 Jesus disse: “Ide dizer a essa raposa: eu expulso demônios e faço curas hoje e amanhã; e no terceiro dia terminarei o meu trabalho. 33 Entretanto, preciso caminhar hoje, amanhã e depois de amanhã, porque não convém que um profeta morra fora de Jerusalém. 34 Jerusalém, Jerusalém! Tu que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes eu quis reunir teus filhos, como a galinha reúne os pintinhos debaixo das asas, mas tu não quiseste! 35 Eis que vossa casa ficará abandonada. Eu vos digo: não me vereis mais, até que chegue o tempo em que vós mesmos direis: Bendito aquele que vem em nome do Senhor”.
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A Força De Deus, Que Está Na Verdade e Na Justiça, e a Oração Permanente São Meios Eficazes Contra o Espírito Do Mal


Ao final da Carta aos Efésios, que lemos na Primeira Leitura de hoje, o Apóstolo exorta aos cristãos para “o combate espiritual” e “a oração”. Dois conselhos sempre válidos para todos os tempos e lugares.


A vida humana é um combate, uma luta. Os modernos falam de “conflitos” e de “lutas”. Mas para o Apóstolo Paulo, a luta é muito mais prfunda do que parece segundo as análises politicas ou simplesmente humanas. Trata-se de um combate “contra forças espirituais invisíveis”. No coração do mundo existem “mais forças que nós”, umas forças que estão “acima de nós”. O pior erro seria ignorar essas forças. No mundo há forças subterrâneas, movimentos incontroláveis, influências  imprevisíveis, droga, violência, poluição, controle econômico em nome do lucro, mesmo que haja muitas vítimas humanas e vários sofrimentos para a maioria.


Em outras palavras, o inimigo irreconciliável da verdade, da justiça e da paz não é outra senão a mentira, a injustiça e a guerra que reinam no homem e entre os homens e os seduzem. O cristão não é o homem que se coloca à margem deste combate. Nem tampouco o homem que vive unicamente na verdade, na justiça e na paz. Mas exatamente, o crente é o homem que não deixa jamais de buscar e de reconhecer a verdade, a justiça e a paz. O combate tem lugar no interior da vida do homem e, ao mesmo tempo, na convivência com os demais.


Para descrever a vida cristã em forma breve, clara e atrativa, o Apóstolo Paulo considera cada cristão como um guerreiro bem armado para resistir ao inimigo e para combatê-lo, ao mesmo tempo. A armadura de Deus da qual o cristão tem que se vestir está constituída pela verdade e a justiça, pela oração a fim de poder anunciar “o Evangelho da paz”.


Tudo isso requer um compromisso de força total, de combate contínuo. “Fortalecei-vos no Senhor, e na força de seu poder. Cingi os vossos rins com a verdade, revesti-vos com a couraça da justiça e calçai os vossos pés com a prontidão em anunciar o Evangelho da paz”, é o conselho do Apóstolo Paulo para todos os cristãos.


Além disso, os cristãos devem ser homens de muita oração com uma vigilância permanente: “Com preces e súplicas de vária ordem, orai em todas as circunstâncias, no Espírito, e vigiai com toda a perseverança, intercedendo por todos os santos”. A oração é o segredo da forças dos homens dinâmicos. A oração é imprescindível na vida de cada cristão quando ele vive seriamente a verdade do seu ser como cristão. A oração é indispensável e necessária, porque é o clima em que nasce e amadurece a fé e a vida. A oração fortalece a esperança cristã que não podemos confundir com a simples espera de algo que se realize. A esperança cristã consiste na certeza de conseguir um dia o anseio mais íntimo e verdadeiro de nosso coração apesar de todas as situações e contradições que façam difícil manter esta atitude. É uma esperança que respeita o “tempo de Deus”, mas que nos leva a trabalharmos para adiantá-lo.  Se a oração é a forma habitual de alimentar nossa comunhão com Deus e com os homens, deixar de orar significa deixar de ter o “sentido de Deus” nos acontecimentos e deixar-nos alienados d’Ele. Se um cristão não rezar, vai errar muito o caminho.


Viver Para Anunciar o Bem Até O Fim Da Vida


Continuamos a acompanhar Jesus no seu Caminho para Jerusalém. Durante esse Caminho Jesus vai dando suas ultimas e importantes lições para seus discípulos (Lc 9,51-19,28) e portanto, para todos os cristãos em todos os tempos. Para Lucas, Jerusalém é tudo: onde acontece a cena da morte, da ressurreição, do nascimento da Igreja, e da expansão missionária.


É interessante notar, no evangelho de hoje, que os fariseus, que muitas vezes atacam Jesus de várias maneiras, desta vez, querem salvar sua vida ao lhe dizer: “Tu deves ir embora daqui, porque Herodes quer te matar”. Os que estão no poder consideram Jesus como um homem perigoso e por isso, querem eliminá-lo, embora Jesus apenas ajude as pessoas na sua dignidade. E Herodes seria capaz de fazer isso, pois ele já mandou decapitar João Batista alguns meses antes (cf. Lc 3,19).


O poder destrói a integridade; destrói a confiança; destrói dialogo; e destrói a relacionamentos. O poder sempre anda lado a lado com a soberba e o orgulho. “A soberba odeia a companhia! O orgulhoso procura por todos os meios brilhar solitário”, dizia Sant Agostinho (Epist. 140,42). Não há nada que nos isole dos outros tanto quanto o poder. Até mesmo a conversa humana comum é destruída pelo poder. Por causa do poder vivemos o drama do diálogo perdido. Por isso, vemos esse drama trágico entre maridos e mulheres, entre pais e filhos, entre patrões e empregados e assim por diante.


Os que têm sede do poder se preocupam com o poder-sobre do que com o poder-fazer. Querem mandar em tudo e em todos. Eles se preocupam na tomada do poder e não na dissolução do poder.  “Quem manda aqui sou eu” é a frase favorita de quem adora ao poder. “A transformação do poder-fazer em poder-sobre implica a ruptura do fluxo social do fazer. Os que exercem o poder-sobre separam o feito do fazer de outros e o declaram seu. A apropriação do feito é ao mesmo tempo a apropriação dos meios de fazer, e isso permite aos poderosos controlar o fazer dos fazedores. Os fazedores (os humanos, entendidos como ativos) estão separados assim de seu feito, dos meios de fazer e do próprio fazer. Qualquer tentativa de mudar a sociedade envolve o fazer, a atividade. O fazer, por sua vez, envolve a capacidade de fazer, o poder-fazer. Muitas vezes usamos a palavra “poder” nesse sentido, como algo bom, como quando uma ação junto com outros (uma manifestação ou inclusive um bom seminário) nos dá uma sensação de poder. O poder neste sentido tem seu fundamento no fazer: é o poder-fazer.” (John Holloway).


O pecado do poder consiste no desejo de ser mais do que aquilo para o qual fomos criados. “O homem foi criado para viver de acordo com a Verdade. Não viver como foi criado é viver na mentira permanente”, dizia Santo Agostinho (De civ. Dei 14, 4,1). “Aproximar-se de Deus é assemelhar-se a Ele. Afastar-se d’Ele é deformar-se” (Santo Agostinho. In ps 34,2,6).

Na sua resposta, diante desta ameaça, Jesus mostra aos fariseus (e Herodes) que ele próprio é quem decide seu caminho a seguir; Ele não se intimida pelos poderosos: “Ide dizer a essa raposa: eu expulso demônios e faço curas hoje e amanhã; e no terceiro dia terminarei o meu trabalho. Entretanto, preciso caminhar hoje, amanhã e depois de amanhã, porque não convém que um profeta morra fora de Jerusalém”. Raposo é um animal medroso que só Caça de noite e foge quando chegar a madrugada e corre rapidamente por causa de um pequeno perigo. Na gíria aramaica “raposa” tem um duplo sentido: animal astuto e animal insignificante em oposição a “leão”. Aqui a palavra “raposa” se aplica à pessoa insignificante e buliçosa/ inquieta que não merece respeito. Herodes é chamado de “raposa” para dizer que ele é um tipo de pessoa covarde, hipócrita que não quer se responsabilizar pela morte de Jesus, e Pilatos vai também nessa direção na condenação de Jesus (cf. Lc 23,6-12).


A tripla enumeração: “hoje, amanhã, e o terceiro dia” / “hoje, amanhã e depois de amanhã” serve para englobar um período de tempo largo e completo, isto é, o que resta de sua vida publica, durante o qual Jesus prosseguirá libertando o povo de todo tipo de ideologias contrárias ao plano de Deus (“expulsando demônios”) e de todo tipo de doenças morais e físicas que impede o povo de segui-lo com liberdade e dignidade humana (“curando”) até o fim de sua missão terrena (“terminarei meu trabalho”). Jesus não faz sua missão pela metade. Ele vive sua vida na totalidade e não pela metade. Jesus alcança a perfeição humana entregando sua vida para a salvação de todos.


A partir de Jesus aprendemos que precisamos fazer as coisas pelo bem de todos até onde nossa capacidade permitir. Quando cumprirmos nossa missão até onde a capacidade permitir, seremos pessoas realizadas e as outras serão beneficiadas.


Jerusalém que significa “cidade da paz” faz o contrário. Em vez de viver para criar a paz, Jerusalém provoca a violência: “Jerusalém, Jerusalém! Tu que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados!”, lamenta Jesus. Jerusalém não vive de acordo com seu nome: “cidade da paz”. Talvez possamos dizer isto, na linguagem de Santo Agostinho, para nosso contexto: “O nome de cristão traz em si a conotação de justiça, bondade, integridade, paciência, castidade, prudência, amabilidade, inocência e piedade. Como podes explicar a apropriação de tal nome se tua conduta mostra tão poucas dessas muitas virtudes?” (De vit. christ. 6).


Pelo Batismo nos é confiada a missão de proclamar a Boa Nova de salvação. No cumprimento fiel dessa missão não podemos dar-nos descanso: “Eu faço curas hoje e amanhã; e no terceiro dia terminarei o meu trabalho. Preciso caminhar hoje, amanhã e depois de amanhã”. São Paulo escreveu ao Timóteo: “Prega a palavra, insiste oportuna e importunamente, repreende, ameaça, exorta com toda paciência e empenho de instruir” (2Tm 4,2). Não podemos enterrar as oportunidades, pois precisamos viver para fazer o bem (cf. At 10,38). Eu preciso fazer o bem hoje, amanhã e depois de amanhã (em todos os dias da minha vida). Nisto alcançarei a minha perfeição humana.
P. Vitus Gustama,svd

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

31/10/2018
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FAZER-SE PEQUENO POR AMOR NO ESPIRITO DO SENHOR PARA TORNAR-SE GRANDE AOS OLHOS DE DEUS
Quarta-Feira da XXX Semana Comum


Primeira Leitura: Efésios 6,1-9
1 Filhos, obedecei aos vossos pais, no Senhor, pois isto é que é justo. 2 ”Honra teu pai e tua mãe” – é o primeiro mandamento – que vem acompanhado de uma promessa: 3 ”A fim de que tenhas felicidade e longa vida sobre a terra”. 4 Vós, pais, não revolteis os vossos filhos contra vós, mas, para educá-los, recorrei à disciplina e aos conselhos que vêm do Senhor. 5 Escravos, obedecei aos vossos senhores deste mundo com respeito e tremor, de coração sincero, como a Cristo, 6 não para servir aos olhos, como quem busca agradar aos homens, mas como escravos de Cristo, que se apressam em fazer a vontade de Deus. 7 Servi de boa vontade, como se estivésseis servindo ao Senhor, e não aos homens. 8 Vós os sabeis: o bem que cada um tiver feito, seja ele escravo ou livre, tornará recebê-lo do Senhor. 9 E vós, senhores, fazei o mesmo com os escravos. Deixai de lado a ameaça; vós sabeis que o Senhor deles e vosso está nos céus e diante dele não há acepção de pessoas.


Evangelho: Lc 13,22-30
Naquele tempo, 22 Jesus atravessava cidades e povoados, ensinando e prosseguindo o caminho para Jerusalém. 23 Alguém lhe perguntou: “Senhor, é verdade que são poucos os que se salvam?” Jesus respondeu: 24 “Fazei todo esforço possível para entrar pela porta estreita. Porque eu vos digo que muitos tentarão entrar e não conseguirão”. 25 Uma vez que o dono da casa se levantar e fechar a porta, vós, do lado de fora, começareis a bater, dizendo: ‘Senhor, abre-nos a porta!’ Ele responderá: ‘Não sei de onde sois’. 26 Então começareis a dizer: ‘Nós comemos e bebemos diante de ti, e tu ensinaste em nossas praças!’ 27 Ele, porém, responderá: ‘Não sei de onde sois. Afastai-vos de mim todos vós que praticais a injustiça!’ 28 Ali haverá choro e ranger de dentes, quando virdes Abraão, Isaac e Jacó, junto com todos os profetas no Reino de Deus, e vós, porém, sendo lançados fora. 29 Virão homens do oriente e do ocidente, do norte e do sul, e tomarão lugar à mesa no Reino de Deus. 30 E assim há últimos que serão primeiros, e primeiros que serão últimos”.
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Conviver Numa Relação De Amor e De Mútuo Respeito


 
Continuamos a acompanhar as recomendações ou exortações sobre a vida de cada dia na Carta aos Efésios. No texto da Primeira Leitura de hoje, o autor da Carta fala sobre as relações entre os pais e filhos (família) e entre os amos e escravos.


Relação Entre Os Filhos e Os Pais: Educação e Responsabilidade


Aos filhos, o autor lhes diz que obedeçam a seus pais para cumprir o antigo mandamento e sempre atual: ”Honra teu pai e tua mãe” ao que ele chama “primeiro mandamento” (“primeiro” aqui é entendido a partir dos mandamentos referentes ao próximo, no decálogo). Aos pais ele lhes recorda que não devem exercer sua autoridade com tirania e sim “como fazia o Senhor”.


Honrar o pai e a mãe não se reuz ao respeito e à ajuda que os filhos possam proporcionar aos pais. Honrá-los também significa dar testemunho diante dos demais de tudo que os filhos têm recebido dos pais: não só bens materiais e sim a vida, a educação, os diversos valores humanos e cristãos, a fé e muitas outras coisas que são a melhor herança que os pais transmitiram aos filhos.


Por isso, os pais devem também levar a sério a educação de seus filhos, pois deles depende o futuro da fé na Igreja e o futuro de uma sociedade justa e livre de tudo que possa se converter em algo escravizante para a humanidade. Os pais devem levar a sério o valor da educação e a educação de valores. Educar é ajudar a ser; é possibilitar o nascimento do ser. E isso só é possível à medida que se transmite aos filhos forças para ser, sabedoria para descobrir o que são e o que podem ser, e esperanças e visões para continuar. Educar na fé é a reconstrução da experiência espiritual que leva os filhos além dos instintos e dos instantes, fazendo-os enraizar-se no Eterno. É a experiência de nossa conaturalidade com o Absoluto. É a reconstrução da consciência de fé pela qual o ser humano reconhece que existe a partir de Deus.


Relação Entre Os Amos e Os Escravos


Destaca no texto de hoje a atenção que o autor da Carta aos efésios dedica sobre os servos/escravos (Ef 6,5-8). A escravidão é apresentada no texto como um fato, mas são Paulo não a justifica, pois inerente à escravidão é a falta de liberdade.


Diante deste fato, o autor da Carta, preocupado pelo homem concreto, tal como é e como deve viver, de forma delicada e sutil, fala aos servos  e aos amos. Aos escravos lhes pede que obedeçam a seus amos com respeito: “Escravos, obedecei aos vossos senhores deste mundo com respeito e tremor, de coração sincero, como a Cristo, não para servir aos olhos, como quem busca agradar aos homens, mas como escravos de Cristo, que se apressam em fazer a vontade de Deus”. No fundo o Apóstolo reflete aqui sua própria situação pessoal, pois se sente servo de Cristo e dos homens. Para o Apóstolo nenhuma situação qualifica o homem. O que realmente vale para o homem é o bem que faz: “Vós os sabeis: o bem que cada um tiver feito, seja ele escravo ou livre, tornará recebê-lo do Senhor” (Ef 6,8). A fidelidade da própria consciência ao bem, acima das circunstâncias concretas é que mais importante para o homem. Para o servo de Cristo não há “amos” neste mundo. Ser amo é aqui tao caduco como ser escravo. Para o Senhor, todos são iguais: “Vós sabeis que o Senhor deles e vosso está nos céus e diante dele não há acepção de pessoas” (Ef 6,9b).


Por isso, aos amos, o Apóstolo sugere que não sigam uma política de ameaça e castigo, pois les têm que recordar que os escravos “têm um Amo no céu e que esse Amo não é parcial com ninguém”.


O Apóstolo não se deidca a mudar a sociedade em suas estrututras no seu tempo e sim ele se deica a pregar uns critérios que as transformarão  a partir de seu interior. Tanto no seio de uma família como em qualquer outro grupo (amor-escravos) continuam válidos os “slogans” de são Paulo. Quem tem uma responsabilidade sobre os demais, não tem que fazer sentir o peso de sua autoridade caprichosamente e sim com diálogo e respeito. E a obediência tem que ser feita com sinceridade e corresponsabilidade.


Nosso Deus e Pai nos pede que cumpramos de coração sua vontade, sabendo que para Ele não conta ser escravo ou livre, mas somente a fidelidade à sua Palavra e aceitar em nossa vida Aquele que Ele nos enviou para nos salvar. É claro que Deus, como Pai, jamais permitiria a existência de escravidão, pois todos são filhos e filhas d´Ele. Recorramos, portanto, ao Senhor para que Ele nos fortaleça e nos ajude a viver como irmaos, não esquecendo que todos nós somos filhos seus e que temos que buscar e praticar o bem para os outros desinteressadamente até que, um dia, possamo gozar dos bens que Deus tem reservado para todos nós.


Mas será que muitos ou poucos que vão gozar dos bens que Deus reserva para os homens? Não é melhor perguntar-se se alguém vao no caminho aadequado, seguindo as pegadas de Jesus Cristo, carregando a própria cruz de cada dia com o olhar posto na Glória da qual Deus quer nos fazer coherdeiros junto aos seu próprio Filho? O Senhor pede que nos façamos pequenos com a simplicidade dos humildes, dos que se sentem sempre necessitados de Deus. não basta escutar Cristo pelas praças, há que escutá-Lo no coração e fazer vida em nós sua Palavra, pois não basta dizer-Lhe “Senhor, Senhor” para entrar no Reino dos céus. O único que contará será nossa fé traduzida em obra de amor, como enfatiza o Evangelho de hoje.


Fé e  Nosso Esforço Para Estar Em Comunhão Com Deus


Continuamos a nos encontrar com Jesus no seu Caminho para Jerusalém (Lc 9,51-19,28). Para Jesus, Jerusalém é o ponto culminante e a meta decisiva, seja pela cruz de morte e triunfo, seja pela ascensão de Jesus ao céu. Neste caminho Jesus vai dando suas últimas instruções ou lições para que os discípulos possam levar adiante os ensinamentos de Jesus.


A lição dada aos discípulos nesta passagem é sobre o que e como o discípulo deve viver para merecer, pela misericórdia divina, a vida eterna (salvação). E para falar deste tema Lucas parte da pergunta de um anônimo (alguém) sobre a salvação. A pergunta desse anônimo é a pergunta de todos os que sabem que a vida tem o fim e por isso, todos os comportamentos ou modo de viver pesam para este fim. Interrogar-se pela salvação e desejar a vida eterna é interrogar-se pelo sentido da vida no presente: “Senhor, são poucos os que se salvarão?” (v.23).


Em vez de responder “quantos se salvarão” Jesus fala do “modo” como se salvar. Trata-se de um apelo urgente ao empenho: “Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, pois eu vos digo que muitos procurarão entrar e não conseguirão” (v.24).


“Esforçai-vos” (agonizesthi/agonizomai, de onde deriva a palavra “agonia”) é uma palavra que denota ação feita de todo o coração. É um termo técnico para competir nos jogos, e dele obtemos nossa palavra “agonizar”. Não se trata, por isso, de nenhum esforço desanimado. O caminho que conduz ao céu passa por uma luta intensa. Sobre esse empenho na luta São Paulo escreve: “Combate o bom combate da fé, conquista a vida eterna, para a qual foste chamado, como o reconheceste numa bela profissão de fé diante de muitas testemunhas” (1Tm 6,12; cf. 2Tm 4,7-8). O Reino de Deus é exigente, não “se ganha” comodamente. Em outra ocasião Jesus chegou a dizer: “É mais fácil o camelo passar pelo fundo de uma agulha do que o rico entrar no Reino de Deus” (Mc 10,25).


A porta é estreita porque não há salvação sem esforço e sacrifício depois que o pecado se instalou no mundo. Não é Deus quem estreita a porta, é o clima de pecado presente nas relações humanas que vai exigir escolhas nem sempre fáceis no caminho da salvação. A expressão “porta estreita” quer nos dizer que o problema da salvação é uma questão de empenho, de esforço, de conversão e de testemunho. A porta da salvação é estreita, mas está aberta para todas as pessoas de boa vontade, pessoas que se esforçam para viver na fraternidade.


Se a porta é estreita, então há uma só condição para entrar: tornar-se pequeno: “Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como as crianças, de modo algum entrareis no Reino dos Céus. Aquele, portanto, que se tornar pequenino como esta criança, esse é o maior no Reino dos céus” (Mt 18,3-4).  Se a porta é estreita, então os “gordos” não conseguirão entrar. Não podemos ser discípulos de Jesus se não renunciarmos a ser grandes, poderosos, dominadores, arrogantes, prepotentes, donos da verdade. Pequeno é aquele que se sente extraviado, humilde e só pode apelar à misericórdia de Deus. Quem não assumir a atitude interior do pequeno, sejam quais forem as suas práticas religiosas, orações, catequese, sermões, até milagres (Mt 7,22), não conseguirá entrar.


Não há pessoas recomendadas junto a Deus, nem privilegiadas que possam se gabar diante d’Ele com base em sua pertença étnica, cultural ou religiosa (v.28). Não basta freqüentar a Igreja assistindo ou participando da missa. A única condição para ser reconhecido pelo Senhor, para fazer parte da comunhão salvífica é a vivencia do amor fraterno. É viver como irmão dos outros e tratar ao outro como irmão. Para passar pela porta do Reino precisamos praticar a justiça. E a justiça, mais do que questão de direito, isto é, dar a cada um o que lhe pertence e respeitar os direitos e a dignidade de todos, é uma questão de amor. Quem ama, pratica a justiça. A maior de todas as injustiças é a falta de amor, pois outras injustiças são fruto da falta de amor. Para o evangelho deste dia a justiça é como um bilhete de passagem para entrar no Reino de Deus, pois o Reino de Deus é o Reino de amor e de justiça.


No Sermão da Montanha Jesus nos avisou: “Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduzem à perdição e numerosos são os que por aí entram. Estreita, porém, é a porta e apertado o caminho da vida e raros são os que o encontram” (Mt 7,13-14). O Reino é aberto para todos, mas é exigente. Não se entra pela razão étnica ou pela associação a qual alguém pertence e sim pela resposta de fé que vivemos na convivência fraterna com os demais. O critério para entrar no Reino segundo o evangelho de Mateus é a caridade fraterna: dar de comer aos faminto e pobre, dar de beber aos sedentos, vestir os nus, acolher os estrangeiros, visitar os doentes e os presos (cf. Mt 25,40.45). Daí se vê qual é o sentido da porta estreita do céu. A caridade fraterna é a que mais nos custa, mas nos faz entrar no céu, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16).


A afirmação de Jesus “Esforçai-vos por entrar pela porta estreita” é uma mensagem de ânimo e de esperança para todos nós e para as pessoas de boa vontade. A esperança não ignora as dificuldades e os riscos de fracasso ocasionalmente, mas ela os enfrenta. A esperança não quer saber quando ganhará, mas simplesmente está convencida da vitória final. Praticar a esperança em Deus é renunciar ao passado, às feridas, aos medos e à escuridão para deixar-se guiar pela luz divina da qual surge a abertura que permitirá o homem chegar a uma vida nova e renovada. Praticar a esperança é abrir nossas asas não para fugir, mas para ascender a espaços de qualidade superiores dos anteriores. Deus não nos inspira sonhos sem nos dar também a força de realizá-los: “Javé é o Deus que me cinge de força e torna perfeito o meu caminho” (Sl 18,33).


Precisamos viver cada dia como se fosse o dia do juízo, e viver em plenitude cada dia como se fosse o último para nossa caminhada nesta terra. Pensar e viver desta maneira nos levam a melhorarmos nosso empenho, nossa convivência fraterna e a valorizarmos nosso tempo para fazer o bem. Na verdade ainda temos muita coisa para melhorar. É preciso que tratemos nossa vida com carinho, respeito e profundidade.
P. Vitus Gustama,svd

domingo, 28 de outubro de 2018

30/10/2018
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A PALAVRA DE DEUS TEM PODER DE TRANSFORMAR VIDA MATRIMONIAL E NOSSA VIDA COTIDIANA EM UMA VIDA DO AMOR MÚTUO
Terça-Feira da XXX Semana Comum


Primeira Leitura: Efésios 5,21-33
Irmãos, 21 vós, que temeis a Cristo, sede solícitos uns para com os outros. 22 As mulheres sejam submissas aos seus maridos como ao Senhor. 23 Pois o marido é a cabeça da mulher, do mesmo modo que Cristo é a cabeça da Igreja, ele, o Salvador do seu Corpo. 24 Mas como a Igreja é solícita por Cristo, sejam as mulheres solícitas em tudo pelos seus maridos. 25 Maridos, amai as vossas mulheres, como o Cristo amou a Igreja e se entregou por ela. 26 Ele quis assim torná-la santa, purificando-a com o banho da água unida à Palavra. 27 Ele quis apresentá-la a si mesmo esplêndida, sem mancha nem ruga nem defeito algum, mas santa e irrepreensível. 28 Assim é que o marido deve amar a sua mulher, como ao seu próprio corpo. Aquele que ama a sua mulher ama-se a si mesmo. 29 Ninguém jamais odiou a sua própria carne. Ao contrário, alimenta-a e cerca-a de cuidados, como o Cristo faz com a sua Igreja; 30 e nós membros do seu corpo! 31 Por isso o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher, e os dois serão uma só carne. 32 Este mistério é grande, e eu o interpreto em relação a Cristo e à Igreja. 33 Em todo caso, cada um, no que lhe toca, deve amar a sua mulher como a si mesmo; e a mulher deve respeitar o seu marido.


Evangelho: Lc 13,18-21
Naquele tempo, 18 Jesus dizia: “A que é semelhante o Reino de Deus, e com que poderei compará-lo? 19 Ele é como a semente de mostarda, que um homem pega e atira no seu jardim. A semente cresce, torna-se uma grande árvore e as aves do céu fazem ninhos nos seus ramos”. 20 Jesus disse ainda: “Com que poderei ainda comparar o Reino de Deus? 21 Ele é como o fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de farinha, até que tudo fique fermentado”.
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Imitar o Amor De Cristo Pela Igreja Nas Matrimoniais e nas outras relações fraternais


O autor da Carta aos Efésios continua com as recomendações ou exortações sobre a vida de cada dia. Desta vez ele fala sobre as relações entre marido e mulher (matrimônio).


Sejam as mulheres solícitas em tudo pelos seus maridos. Maridos, amai as vossas mulheres, como o Cristo amou a Igreja e se entregou por ela”.


O convite ao mútuo amor se baseia na vontade originária de Deus no Gênesis, quando criou o homem e a mulher e quis que os dois fossem “uma só carne”. Por isso, “cada um, no que lhe toca, o marido deve amar a sua mulher como a si mesmo; e a mulher deve respeitar o seu marido”.


O matrimônio cristão é também uma opção radical e irrevogável, imagem da opção de Cristo por sua Igreja. A primeira vista, este texto paulino parece definir a superioridade do homem sobre a mulher. É evidente que a imagem não se pode levar até o extremo de dizer que o marido salva a mulher no mesmo sentido que Cristo salva a Igreja e seus membros. O marido não é “cabeça” de sua mulher no mesmo sentido em que Cristo o é da Igreja.


Há que ter em conta a evoluição antropológica e social das pessoas como da família. Hoje o matrimônio é entendido muito mais em termos de complementariedade e corresponsabilidade. Mas na sociedade na qual, de fato, viviam os primeiros cristãos, a superioridade do homem era absoluta.


Tendo em conta esta superioridade, que são Paulo não define e sim que consta, o que esta passagem inculca é que a autoridade do marido deve ser um serviço de amor e de proteção, imitação do de Jesus Cristo para com sua Igreja. O marido deve amar sua esposa até a morte e considerá-la não como um objeto e sim como o próprio corpo: “O marido deve amar a sua mulher, como ao seu próprio corpo. Aquele que ama a sua mulher ama-se a si mesmo” (Ef 5,29).


Maridos, amai as vossas mulheres, como o Cristo amou a Igreja e se entregou por ela. Ele quis assim torná-la santa, purificando-a com o banho da água unida à Palavra”.


O autor da Carta aos Efésios não sentia dificuldade em trazer a imagem da Igreja como Esposa de Cristo. O profeta Oseias, para descrever as exigências da Aliança, já havia recorrido a esta imagem de Deus, Esposo de seu povo, e já havia desenvolvido o tema com realismo (Os 2,18-22). Em sua Segunda Carta aos Coríntios, são Paulo vê em Cristo o esposo, e na Igreja a esposa (2Cor 11,2). Na Carta aos Efésios, vê Cristo como Cabeça, e a Igreja como Corpo. É uma nova maneira de expressar a unidade entre Deus e seu povo; é um modo de expressao totalmente novo. Por outra parte, a nova imagem utilizada por são Paulo não era uma criação artificial de sua imaginação. Na Bíblia, e segundo o que nos diz o Gênesis, a esposa é o corpo de seu esposo: “Eis agora aqui o osso de meus ossos e a carne de minha carne porque foi tomada do homem” (Gn 2,23-24). Por isso, depois de citar esta passagem do Gênesis, são Paulo declara que este mistério é grande, e o diz pensando em Cristo e na Igreja.


São Paulo entende a união entre homem e mulher da perspectiva de Deus, e portanto, afirma que “Aquele que ama a sua mulher ama-se a si mesmo”, porque “é a própria carne”. Mas, sobretudo, ele a relaciona com o amor que se tem mutuamente Cristo e a Igreja: “Este mistério é grande, e eu o interpreto em relação a Cristo e à Igreja”. Este “tipo” da união do homem e a mulher que encontramos no Gênesis, se realiza na união de Cristo e sua Igreja e, por sua vez, o amtrimônio encontra hoje sua verdadeira realização em conformidade com esta união de Cristo e sua Igreja.


O amor de Cristo a sua Igreja não é precisamente romântico: Cristo o demonstrou na sua entrega na morte na cruz por amor à humanidade. Ai éstá a razão  de ser do mútuo amor para são Paulo entre o marido e a esposa.


O matrimônio é destinado a reproduzir a relação entre Cristo e Sua Igreja, e como Cristo é a cabeça da Igreja, tal deve ser o marido para a mulher. São Paulo não está querendo dizer que o marido seja autoritário em relação à mulher. Por isso, ele acrescenta: “Como Cristo, o Salvador do seu corpo”. Isto significa que a posição do marido como “cabeça” ou “comando” deve estar endereçada à “salvação” da mulher, como faz Cristo em relação à Igreja. A “submissão” endereçada à mulher da qual São Paulo fala deve ser sempre entendida no sentido do amor e do serviço e não no sentido da escravidão.


Como Cristo e a Igreja formam um só corpo, do mesmo modo marido e esposa, comprometidos numa comunidade de amor, formam um só corpo: “Por isso, o homem deixará pai e mãe para se unir à sua mulher e serão dois numa só carne” (Ef 5,31).


A expressão “uma só carne” aqui usada por Paulo não alude só à união carnal dos esposos, mas a toda a sua vida conjugal, feita de um empenho quotidiano na vivência do amor, da fidelidade e da partilha de toda a existência. “Os esposos, feitos à imagem de Deus e estabelecidos numa ordem verdadeiramente pessoal, estejam unidos em comunhão de afeto e de pensamento e com mútua santidade, de modo que, seguindo a Cristo, princípio da vida, se tornem, pela fidelidade do seu amor, através das alegrias e sacrifícios da sua vocação, testemunhas daquele mistério de amor que Deus revelou ao mundo com a sua morte e ressurreição” (Gaudium et Spes, 52).


Em nossas relações comunitárias: de família ou de vida religiosa ou de atividade paroquial, deveríamos aceitar este critério profundo: ver Cristo nos demais, imitar Cristo em sua entrega por amor. Todos, tanto casados como não casados, quando comungamos o “Cristo entregue por”, devemos também aprender seu amor de entrega pelos demais. O entregar por amor pelos demais deve-se notar durante o dia nas relações entre marido e esposa, entre filhos e pais, entre irmaos ou companheiros de trabalho e de vida da comunidade. Se não, será uma Eucaristia que não produz os frutos que Cristo esperava.


A Palavra De Deus Vivida Tem Poder De Transformar Nossa Vida


Continuamos acompanhando Jesus no seu caminho para Jerusalém, durante o qual escutamos Suas últimas e importantes lições para nossa vida como cristãos (Lc 9,51-19,28).


A passagem do evangelho de hoje fala de duas parábolas: a semente da mostarda e o fermento. As duas querem sublinhar claramente que a graça de Deus cresce em extensão (grão de mostarda) e em intensidade (fermento na massa). No entanto, elas não sublinham apenas sobre o crescimento, mas também sobre todo estado final que apontam para um valor escatológico. Elas servem, por isso, para animar qualquer cristão, qualquer comunidade para não desistirem em levar adiante a causa de Jesus apesar de se sentirem tão pequenos no meio dos “poderosos” deste mundo, pois no final Deus é quem tem a última palavra.


O Reino de Deus é como a semente de mostarda, que um homem pega e lançou no seu jardim. A semente cresce, torna-se uma grande árvore e as aves do céu fazem ninhos nos seus ramos(Lc 13,19), assim Jesus disse-nos hoje.


Lançar semente à terra é um gesto absolutamente natural, apaixonante e misterioso. É um gesto de esperança e de aventura. Basta a semente estar na terra, começa, então, em segredo e em silêncio uma serie de maravilhas, pouco importa que o semeador se preocupe ou não com a semente. Cada semente lançada na terra surge a esperança no coração do semeador de ver a semente brotar e crescer em alguns dias. O semeador é aquele que crê na vida, que tem confiança no porvir. E ao ver a semente que se transformou em plantinha, a alegria inunda o coração do semeador a ponto de ele “conversar” com a plantinha quase diariamente. E com cuidado ele vai capinar ao redor dela para facilitar o crescimento saudável da plantinha a fim de ela dar bons frutos. O semeador é aquele semeia a mãos cheias para que a vida se multiplique que se transforma em alimento para cada família. O semeador é aquele que investe no porvir.


Jesus está consciente de estar fazendo isto: semear, lançar, esperar com paciência!  Ele empreende uma obra que tem porvir. Ele semeia a Palavra de Deus em cada coração. E aquele que escuta e se deixa guiar pela Palavra de Deus, vai produzir muitos bons frutos para a convivência fraterna.


A Palavra de Deus tem dentro de si uma força misteriosa que apesar dos obstáculos encontrados no seu caminho vai germinar e dar fruto. Com esta parábola Jesus quer sublinhar a força intrínseca da graça e da intervenção de Deus.


O Reino de Deus é como a semente de mostarda, que um homem pega e atira no seu jardim. A semente cresce, torna-se uma grande árvore e as aves do céu fazem ninhos nos seus ramos”.


Ao falar da pequenez de uma semente como a de mostarda, Jesus quer nos convidar a rever os nossos critérios de atuação e a nossa forma de olhar o mundo e os nossos irmãos. Por vezes, naquilo que é pequeno, débil e aparentemente insignificante é que Deus se revela (cf. Mt 11,25-28). Deus está nos pequenos, nos humildes, nos pobres, nos que renunciaram a esquemas de triunfalismo e de ostentação; e é deles que Deus se serve para transformar o mundo.


O Reino de Deus é como o fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de farinha, até que tudo fique fermentado”, acrescentou Jesus.


Esta comparação tem em conta a potência de transformação do fermento apesar de sua invisibilidade: assim que o fermento se mistura com a massa, a massa se transforma em tamanho maior  para se transformar em pão para a mesa de cada família: os começos são modestos, mas o resultado final é surpreendente.


Através das duas parábolas, Jesus quer nos dar lição de que os meios podem ser muito pequenos, como a pequena semente de mostarda ou como o fermento, mas podem produzir frutos inesperados, não proporcionados nem a nossa organização nem a nossos métodos e instrumentos. A força da Palavra de Deus vem do próprio Deus e não de nossas técnicas. Quando em nossa vida há uma força interior, a eficácia do trabalho cresce notavelmente. Mas quando essa força interior é o amor que Deus nos tem, ou seu Espírito ou a Graça salvadora de Cristo ressuscitado, então, o Reino de Deus germina e cresce poderosamente. O que devemos fazer é colaborar com nossa liberdade. Mas o protagonista é Deus. Necessitamos trabalhar com o olhar posto em Deus, sem impaciência, sem exigir frutos a curto prazo, sem absolutizar nossos méritos, meios e técnicas e sem demasiado medo ao fracasso. Há que ter paciência como a tem o lavrador esperando a colheita.


O evangelho de hoje nos ajuda a entendermos como conduz Deus nossa história. Não teríamos que nos orgulhar nunca, como se o mundo se salvasse por nossas técnicas, métodos e esforços. Não podemos esquecer aquilo que São Paulo nos aconselhou: “Eu plantei, Apolo regou, mas Deus é quem fez crescer. Assim, nem o que planta é alguma coisa nem o que rega, mas só Deus, que faz crescer. O que planta ou o que rega são iguais; cada um receberá a sua recompensa, segundo o seu trabalho.  Nós somos operários com Deus. Vós, o campo de Deus, o edifício de Deus. Segundo a graça que Deus me deu, como sábio arquiteto lancei o fundamento, mas outro edifica sobre ele. Quanto ao fundamento, ninguém pode pôr outro diverso daquele que já foi posto: Jesus Cristo” (1Cor 3,6-11). 


Os frutos da graça de Deus se produzem às ocultas, em pequenos gestos e projetos bem simples sem que ninguém se dê conta. Nossa tarefa é semear a bondade constantemente, catar um pedaço de felicidade diariamente para compartilhá-la com aqueles que não conseguiram catar nenhum pedaço. A fé vivida na obediência à vontade de Deus é capaz de operar uma transformação total da pessoa, uma reestruturação de todo o ser, como a semente que se transforma totalmente em uma planta. Nos fatos aparentemente irrelevantes, na simplicidade e normalidade de cada dia, na insignificância dos meios, esconde-se o dinamismo de Deus que atua na história e que oferece aos homens caminhos de salvação e de vida plena. Não podemos deixar nenhum dia sem semear a bondade nos corações de pessoas.
P. Vitus Gustama,svd