quinta-feira, 29 de novembro de 2018

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A FÉ PROFUNDA NOS FAZ ERGUER A CABEÇA EM TODAS AS SITUAÇÕES DA VIDA, POIS DEUS ESTÁ PRONTO PARA NOS SALVAR
I DOMINFO DO ADVENTO ANO “C”

I Leitura: Jr 33,14-16
14 “Eis que virão dias, diz o Senhor, em que farei cumprir a promessa de bens futuros para a casa de Israel e para a casa de Judá. 15 Naqueles dias, naquele tempo, farei brotar de Davi a semente da justiça, que fará valer a lei e a justiça na terra. 16 Naqueles dias, Judá será salvo e Jerusalém terá uma população confiante; este é o nome que servirá para designá-la: ‘O Senhor é a nossa justiça’”.
 


II Leitura: 1Ts 3,12-4,2
Irmãos: 3,12 O Senhor vos conceda que o amor entre vós e para com todos aumente e transborde sempre mais, a exemplo do amor que temos por vós. 13 Que assim ele confirme os vossos corações numa santidade sem defeito aos olhos de Deus, nosso Pai, no dia da vinda de nosso Senhor Jesus, com todos os seus santos. 4,1 Enfim, meus irmãos, eis que vos pedimos e exortamos no Senhor Jesus: Aprendestes de nós como deveis viver para agradar a Deus, e já estais vivendo assim. Fazei progressos ainda maiores! 2 Conheceis, de fato, as instruções que temos dado em nome do Senhor Jesus.


Evangelho: Lc 21,25-28.34-36
Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 25 “Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas. Na terra, as nações ficarão angustiadas, com pavor do barulho do mar e das ondas. 26 Os homens vão desmaiar de medo, só em pensar no que vai acontecer ao mundo, porque as forças do céu serão abaladas. 27 Então eles verão o Filho do Homem, vindo numa nuvem com grande poder e glória. 28 Quando estas coisas começarem a acontecer, levantai-vos e erguei a cabeça, porque a vossa libertação está próxima. 34 Tomai cuidado para que vossos corações não fiquem insensíveis por causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida, e esse dia não caia de repente sobre vós; 35 pois esse dia cairá como uma armadilha sobre todos os habitantes de toda a terra. 36 Portanto, ficai atentos e orai a todo momento, a fim de terdes força para escapar de tudo o que deve acontecer e para ficardes em pé diante do Filho do Homem”.
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I. Advento


Estamos novamente no Tempo do Advento. O termo “advento” é cristão, mas de origem profana/pagã, pois significava chegada, vinda; aniversário de uma chegada, de uma vinda; ou visita oficial de uma personagem importante no tempo de sua posse. Nos escritos cristãos dos primeiros séculos (especialmente a partir do século IV) o termo tornou-se termo clássico para designar a vinda de Cristo.


        


O tempo do advento tem uma dupla característica:


É o tempo de preparação para a solenidade do Natal, em que se recorda a primeira vinda do Filho de Deus entre os homens. O advento nos lembra a dimensão histórico-sacramental da salvação. Deus do advento é o Deus da história, o Deus que veio plenamente para a salvação do homem em Jesus de Nazaré em que se revela a face do Pai (Jo 14,9). A história é o lugar da realização das promessas de Deus.


Simultaneamente é o tempo no qual, através desta recordação, o espírito é conduzido à espera da segunda vinda de Cristo no final dos tempos. O advento é o tempo litúrgico em que se evidencia fortemente a dimensão escatológica do mistério cristão. Estamos em permanente viagem rumo à casa do Pai. Cristo veio na nossa carne, manifestou-se e revelou-se como ressuscitado, depois da morte, aos apóstolos e às testemunhas previamente escolhidas por Deus (cf. At 10,40-42) e aparecerá glorioso no fim dos tempos (At 1,11). Os cristãos, na sua peregrinação terrena, vivem continuamente a tensão do já da salvação toda realizada em Cristo e o ainda não da sua realização plena em nós e de sua plena manifestação na volta gloriosa do Senhor juiz e salvador.

Por esta dupla característica, o tempo do advento se apresenta como um tempo de piedosa e alegre expectativa. O advento celebra o Deus da esperança (Rm 15,13) e vive a alegre esperança (cf. Rm 8,24s) com fé. A fé une o homem a Cristo, a esperança abre esta fé para o vasto futuro de Cristo. A fé transforma a esperança em confiança e certeza; e a esperança torna a fé ampla e lhe dá a vida.

Dentro desta alegre esperança, os cristãos são chamados a viver algumas atitudes essenciais à expressão evangélica da vida: a espera vigilante e jubilosa, a esperança, e a conversão. Os cristãos podem acreditar em Deus de Jesus Cristo cegamente porque o Deus da revelação é o Deus da promessa que em Cristo manifestou a sua fidelidade ao homem (cf. 2Cor 1,20). Os cristãos vivem esta espera na vigilância e na alegria. Mas Deus que entra na história põe em causa o homem, questiona- o. Por isso, o tempo do advento, sobretudo através da pregação de João Batista, é o convite à conversão para preparar os caminhos do Senhor e acolher alegremente o Senhor que vem pois ele só traz a salvação.

Esse significado envolve o lecionário inteiro.

O evangelho do PRIMEIRO DOMINGO DO ADVENTO nos fala da segunda vinda do senhor e nos exorta à vigilância. Se o Reino dos céus está próximo, é necessário preparar os caminhos. Este domingo no relembra sobre a dimensão futura de nossa vida. Vivemos o presente mas sempre com o olhar posto no Senhor. A nossa vida é uma caminhada rumo à comunhão plena com Deus, nosso Criador. É necessário que estejamos preparados para acolher o reino que nos é oferecido todos os dias. Assim estaremos preparados para o encontro derradeiro com o Nosso Criador, Deus.


Por isso, o evangelho do SEGUNDO DOMINGO DO ADVENTO contém a pregação da penitência de João Batista, Precursor do Senhor. O pecado bloqueia o canal da graça para chegar até nós. O pecado faz o coração fechado diante da graça. Pecar significa dizer não a Deus. A penitência e a conversão fazem com que o coração esteja aberto novamente à graça de Deus, e, consequentemente, a graça de Deus não encontrará nenhum impedimento para entrar no nosso coração.
 
O TERCEIRO DOMINGO DO ADVENTO é conhecido por muitos como o domingo “GAUDETE” (alegra-te!). Se a graça de Deus estiver no nosso coração, então teremos motivos para ficar alegres. A graça sempre traz a alegria para nós. Por isso, este domingo nos convida a tomarmos parte na alegria do advento, pois Deus vem nos salvar (cf. Fl 4,4s). Deus vem para nos salvar porque com a nossa própria força humana não sairíamos de nossa condição de pecadores. O mistério de alegria nasce de Deus, é um dom, e por isso não se compra em nossos mercados nem se encontra em nossas salas de festa. A alegria brota de dentro e tem sua origem no Espírito Deus. Dois amores, quando estiverem juntos, são sempre felizes, onde quer que eles estejam. Seria blasfêmia apresentar Deus como inimigo da vida e da alegria. O homem foi criado para expandir-se na alegria e é, por isso, chamado por Deus para expandir a alegria.  Um aspecto que logo nos chama a atenção são os paramentos róseos usados na missa (embora não seja obrigatório). Estes paramentos substituem o roxo severo dos domingos anteriores e assinalam a alegria antecipada do Natal. O evangelho do terceiro domingo do advento nos coloca diante da figura do Batista.

O QUARTO DOMINGO DO ADVENTO nos coloca no mais próximo da preparação para a festa do nascimento do Senhor ou anuncia a vinda iminente do Messias. Neste domingo aparece a figura de José, Maria, Isabel. Por isso, os textos próprios da missa são determinados por aqueles acontecimentos.
  • No ano A o evangelho fala do conflito interior de José e da mensagem que o anjo lhe transmite, e segundo a qual ele deve receber Maria.
  • Nos ciclos B e C leem-se as perícopes da Anunciação do Senhor (Lc 1,26-38) e da visita de Maria à sua parenta Isabel, onde Maria é proclamada feliz por causa de sua fé e entoa o Magnificat (Lc 1,39-47).
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Neste primeiro Domingo do Advento a liturgia nos fala da expectativa do retorno do Senhor. Nosso olhar, então, se fixa em Deus que vem ao nosso encontro.


Na Coleta (oração da entrada, Gelasiano) pedimos ao Senhor que aviva em seus fiéis o desejo de sair ao encontro de Cristo, acompanhados pelas boas obras, para que mereçamos o Reino eterno.


Na oração do ofertório (Veronense), suplicamos ao Senhor para que aceite os bens que recebemos dele e, através da apresentação do pão e do vinho, conceda que a ação santa que celebramos possa ser um penhor de salvação para nós.


E na oração depois da Comunhão (recém-escrita, inspirada nos Sacramentais Veronense e Bergamo): suplicamos ao Senhor para que a celebração dos sacramentos seja frutífera em nós, com a qual ele nos ensina a descobrir o valor dos bens eternos e a colocar neles nossos corações.


II. Sobre As Leituras Deste Primeiro Domingo Do Advento Ano C


Na memória do passado em que Deus se encarnou, somos convidados a viver o presente com autenticidade cristã e a levar a sério a nossa vocação de eternidade, pois Ele veio para nos mostrar o caminho para a eternidade. O cristão é sempre um crente projetado para a eternidade, mas, ao mesmo tempo, ele deve viver sua responsabilidade todos os dias como o eleito de Cristo e testemunhar uma vida baseada no Evangelho.


A Primeira Leitura (Jr 33,14-16) quer nos transmitir uma mensagem de esperança de que apesar da degradação e dos desvios dos homens, Deus é fiel à sua promessa messiânica. O Messias seria o descendente legítimo da linhagem de Davi, seu filho vivendo com os homens. A vontade e a disposição de Deus para oferecer sua graça repetidas vezes, apesar das prevaricações do homem, são permanentes na Bíblia. Deus vive e desde que criou o homem, Deus vive sempre atento ao homem. Da parte Deus, o homem nunca será abandonado, pois Deus é como o pai do filho pródigo está sempre na espera da volta do filho perdido. Deus procura e quer salvar o homem. Em toda a história da salvação, Deus aparece como fiel cúmplice de suas promessas. Eles são cumpridos na plenitude dos tempos, quando Cristo, o Salvador, veio.


Através do Salmo Responsorial (Sl 24) pedimos ao Senhor que nos ensine Seus caminhos, que nos instrua em Suas sendas, que caminhemos com lealdade, como o próprio Senhor sempre é fiel a suas promessas para todos nós por amor, pois o Senhor é bom e reto. Através de Jesus, Deus ensina o caminho aos pecadores e faz o humilde andar com justiça. Seus caminhos são misericórdia e lealdade para com aqueles que guardam sua aliança e seus mandamentos.


Podemos entender a mensagem da Segunda Leitura da Primeira Carta aos Tessalonicenses (1Ts 3,12-4,2) que a vontade de Deus é nossa santificação. Nossa autenticidade cristã consiste em viver cada dia nossa santidade para que possamos chegar irrepreensíveis ao julgamento de Deus para possuir seu Reino eternamente. Para o cristão, não há outra finalidade ou outro propósito para sua vida e atividade responsável do que servir e amar a Deus com alegria e, portanto, estar sempre disponível para os outros, como Deus quer. Um vive pelo outro, mas como Deus quer, à maneira de Cristo. O cristão vive esperando e com os olhos fixos no futuro, não só no passado. Não é uma espécie de vida passiva ou resignada, melancólica ou retrógrada, mas em uma tensão alegre e pacífica, aguardando seu encontro definitivo com Jesus Cristo. O cristão espera não de braços cruzados, mas vivendo um amor ativo e concreto. Deste modo, o cristão está adiantando o que vai ser sua existência última e plena.


A carta é dirigida a uma comunidade cristã em uma situação de diáspora no meio dos pagãos. Corre-se o risco de ser sufocada pelo ambiente que exerce uma forte pressão. A comunidade existe graças ao amor de Cristo. O amor e a presença de Cristo no meio da comunidade devem irradiar-se e manifestar-se no amor recíproco que cria a unidade da comunidade e está aberto a todos até atingir o seu aspecto mais radical: amar os inimigos (Mt 5,44).


O próprio são Paulo coloca em prática o que ele recomenda. A autoridade de seu ministério é animada pelo amor aos irmãos. Com eles, ele se coloca no caminho da fé. A partir do amor, será mais fácil entender como agradar a Deus e colaborar na realização de seu plano de salvação.


A salvação que Cristo trouxe não é totalmente realizada. É uma realidade em expansão que avança em direção a sua realização escatológica, para a realização do mundo em Cristo ressuscitado. Assim, a Igreja de Cristo é, por definição, uma igreja a caminho, chamada para ser enviada em missão. Somente uma Igreja a caminho  ou uma Igreja em saída conforme o Papa Francisco, pode colocar o mundo na estrada rumo à Casa celeste.


Ser uma Igreja e ser enviado é um dom que comporta uma responsabilidade. O dinamismo, os imperativos da história, a vinda do Senhor e a salvação exigem a colaboração do homem. O Deus da promessa exige do homem a responsabilidade de suas opções. O homem nunca está satisfeito consigo mesmo, nem com suas conquistas ou realizações. Está sempre em tensão para um futuro melhor.


Mensagem do Evangelho Lc 21,25-28.34-36


“Levantai-vos e erguei a cabeça, porque a vossa libertação está próxima!”


Como os dois outros evangelhos sinóticos (Mt e Mc), também o evangelho de Lucas encerra a atividade de Jesus em Jerusalém (Lc19,29-21,38), antes de sua prisão e morte, com o discurso sobre o fim (escatológico) ou discurso apocalíptico (Lc 21,5-38). Tanto Mateus como Lucas inspiram seu discurso escatológico/apocalíptico do evangelho de Marcos capítulo 13.


Mas Lucas tem seu próprio estilo, pois seu evangelho foi escrito depois do ano 70 d.C. Para ele a destruição de Jerusalém é um fato passado. Por isso, ele distingue claramente a Parusia (Segunda Vinda) de Jesus dos eventos ligados ao destino de Jerusalém. Além disso, ele leva em consideração o aspecto histórico e eclesial do discurso dentro do contexto da história da salvação. No discurso ele projeta a sua visão da história da salvação em três momentos: primeiro, a destruição de Jerusalém (julgamento sobre Jerusalém) como o fim de toda uma etapa da história salvífica, mas não é o sinal da chegada do fim; segundo, tempo da missão da Igreja e terceiro, a segunda vinda do Filho do Homem (Parusia) que trará a plenitude do Reino de Deus.


Ao redimensionar a perspectiva escatológica deste discurso Lucas quer chamar a atenção de dois grupos, seja o dos fanáticos que esperam com impaciência o fim, seja o dos decepcionados e resignados que não esperam mais nada pela demora, para a necessidade do empenho presente, no Tempo da Igreja. Este é o tempo oportuno do testemunho em meio às perseguições violentas, a confiança e a esperança perseverante na espera da libertação com a vinda gloriosa do Senhor Ressuscitado, o Filho do Homem. Por isso, Jesus diz: “Quando estas coisas começarem a acontecer, levantai-vos e erguei a cabeça, porque a vossa libertação está próxima” (v.28).


“Levantar-se” e “erguer a cabeça” são características de quem tem fé. Quando ousamos crer no domingo de Páscoa, porque em nós está a força da ressurreição, não há fracasso que nos faça sentir perdedores.  Os cristãos não podem se entregar a utopia futurista, perdendo o laço com a realidade histórica e cotidiana, a realidade do presente embora ela esteja cheia de mentiras, violências, perturbações absurdas que podem levar a desejar o fim. Se o Senhor havia vencido a morte, pensa Lucas, a comunidade cristã não está caminhando rumo à uma utopia anônima, mas o Filho do Homem, que é garantia e primícia da libertação humana. A nossa esperança, por isso, não será fraudada, pois ela tem um nome: Jesus Cristo. Por isso, São Paulo diz: ”Se Deus está conosco, quem estará contra nós? Quem nos separará do amor de Cristo? Em tudo isto somos mais que vencedores, graças àquele que nos amou” (Rm 8, 31.35.37). Por isso, “tudo posso naquele que me fortalece” (Fl 4,13).


Lucas convida, assim, a comunidade cristã a trilhar o caminho da fidelidade e da coragem, o caminho que o próprio Senhor trilhou, mesmo diante da repressão violenta das estruturas do poder, sinagogas, e reis, mesmo perante a morte violenta (Lc 21,12). Lucas não fornece informações sobre o fim, mas refunda a esperança no acontecimento central da morte e ressurreição de Jesus. Ele convida os cristãos a olharem para a história para decifrar seus sinais, que fazem pressagiar/prever já agora a passagem da morte à vida, da escravidão à liberdade, como os primeiros brotos anunciam após o inverno a boa estação (vv. 29-30).


O que importa para uma comunidade cristã é a vivacidade de esperança. É a esperança que arranca o homem de uma existência sem futuro e sem expectativas. A tristeza e o desânimo são um sinal da ausência de uma verdadeira esperança cristã que no fundo provém de uma falta de fé.


Este discurso, portanto, é o discurso sobre o Filho do Homem, sobre Jesus, o Senhor Ressuscitado, o Homem fiel até a morte para dar a todos um futuro novo e diferente, e para afirmar aos cristãos ou para quem quer que seja que vale a pena lutar pelo que é digno, como o bem, o amor, a justiça, a solidariedade, a honestidade, a fraternidade, a paz etc., pois tudo isto tem a vitória sobre a morte como o ponto final.


Para isso, são necessárias duas atitudes de esperança que recebem seu dinamismo da meta que é o encontro decisivo com o Filho do Homem: Vigilância (e conversão) e oração constante.


1. Vigilância


No sentido literal do termo, vigiar significa renunciar ao sono da noite com o intuito de prolongar o tempo para trabalhar ou para não ser apanhado de surpresa pelo inimigo. Daí o sentido metafórico: vigiar significa estar atento e pronto para acolher o Senhor quando vier. Toda a moral evangélica está fundada na vigilância. O tema da vigilância não é acidental nos evangelhos, mas sempre intervém nos textos. De certa forma, o cristão é sinônimo de pessoa vigilante. A vigilância é a qualidade de quem emprega todo cuidado naquilo que deve ouvir, olhar, pensar, falar e fazer. Para o cristão, qualquer momento pode-se transformar em momento de graça (kairós). Ele tem consciência de estar inserido na história da salvação como receptor e como cooperador da graça. O cristão vigilante vive profundamente imerso na história da salvação, isto é, no aqui-e-agora, descobrindo tudo o que lhe oferece e respondendo tudo o que lhe exige o momento presente. O cristão vigilante não se lamenta perante os momentos espinhosos e sufocantes, mas sabe decifrar seu sentido para torná-los em oportunidades preciosas. O cristão vigilante sempre pergunta: “O que é que Deus quer de mim através daquele acontecimento ou através daquela pessoa”. Ele sempre procura decifrar o sentido das coisas. Vigilância, por isso, significa acordar para os fatos, despertar do sono das ilusões para enfrentar a realidade. O vigilante está sempre em contato com Deus e com a realidade. Ele tem uma intuição do que significa viver, respirar, ver, reunir-se com as pessoas e degustar o mistério de cada momento.


Se o sentido literal da vigilância aponta para o ato de renunciar ao sono da noite, isto quer dizer que quando se fala da vigilância é inevitável falar da renúncia. Renunciar quer dizer optar por aquilo que tem o valor absoluto ou simplesmente um valor maior que tenho até então. A renúncia precisa sempre da liberdade interior e ao mesmo tempo pode levar alguém à liberdade. Ela não permite o relaxamento moral e espiritual. Os cristãos, por isso, devem sempre tomar cuidado para não relaxar, pervertendo o testemunho e acabando por assumir os vícios provocados pela sociedade injusta como a gula, a embriaguez e a preocupação exagerada sobre a vida. Quem precisa satisfazer toda necessidade imediatamente fica dependente. Acaba determinado por suas necessidades, e por isso, perde a liberdade.


O julgamento está sempre operando na história, pois Deus continua nos visitando através de Seu Espírito. Em qualquer momento Deus bate a nossa porta. Os impulsos com os quais Deus nos chama a atenção para o que se deve fazer agora são suaves e por isso, precisa-se de muita vigilância (atenção). Em outras palavras, vigilância significa prestar atenção àquilo que aflui até nós. Mas, muitas vezes, por causa de nossas preocupações, acabamos reprimindo essa voz suave. Vigilância no momento significa estar inteiramente presente, envolver-se por inteiro no momento presente sem pensar no passado ou já planejar o futuro. Quando não vigiarmos, vai entrar furtivamente em nós muita coisa que nos desvia de nosso caminho consciente. Não devemos dar livre acesso a qualquer pensamento ou emoção, porque eles logo revelariam ser invasores que nos dificultam a vida em nosso lar interior e querem nos expulsar cada vez mais longe de nosso centro. Consequentemente, não viveremos nós mesmos mas seremos guiados por forças inconscientes e não seremos mais os senhores em nossa casa, pois seremos dominados por insatisfação e amargura, por medo e depressão que tomarão para si o governo de nossa casa.


Os cristãos devem, portanto, estar sempre de prontidão, vigiando e praticando a justiça. Somente a sua perseverança na prática e no anúncio da justiça lhes permitirá ser considerados justos e inocentes no dia do julgamento.


2. Oração


Além da vigilância, no seguimento de Jesus, a oração sustenta a caminhada dos cristãos. Ela é a expressão mais viva da fé. Quem crê, precisa orar e quem ora porque acredita. A oração é a alma da espera, o vigor espiritual de quem crê, capaz de assumir a lembrança do passado e de preparar para o futuro. Para tanto, Jesus ilustra o sentido profundo do advérbio “sempre” e do “não desistir jamais” por meio de uma parábola (cf. Lc 18,1-8). O rezar “sempre” é o programa de quem crê.


A oração exige uma relação em que nós permitimos ao outro entrar no centro de nossa pessoa, permitimos-lhe falar ali, permitimos-lhe tocar o núcleo sensitivo de nosso ser e permitimos-lhe ver tudo o que nós preferiríamos ocultar na escuridão para que ninguém o soubesse.


Ao homem convidado para rezar se pede que abra seus punhos fechados firmemente cerrados e dê sua última moeda.  Se nós não ousamos fazer ao menos uma pergunta a partir de nossa experiência com todos os nossos apegos, é porque já nos enrolamos no destino dos fatos. Nós nos sentimos mais seguros apegando-nos a um triste passado do que confiando em um novo futuro. Por isso, enchemos as mãos com pequenas moedas pegajosas das quais nunca quereremos nos desfazer.


Por isso, sempre que nós rezamos de verdade, a nossa oração é eficaz, não porque modificamos Deus, mas porque nos modificamos. O mais difícil da oração não é tanto saber se Deus nos escuta, mas conseguirmos que nós O escutemos.


Quando pararmos de rezar, e quando começarmos a nos impressionar demais os resultados de nosso trabalho, devagar chegaremos à conclusão errônea de que a vida é um grande placar onde alguém marca os pontos para medir nosso valor. Então, somos inteligentes porque alguém nos dá nota alta, úteis porque alguém agradece, dignos de estima porque alguém nos estima e importantes porque alguém nos considera indispensáveis. Em suma, somos de valor porque alcançamos sucessos.


Mas de baixo de toda a nossa ênfase na ação bem sucedida, muitos de nós sofremos de uma arraigada falta de amor-próprio e com o medo constante de que, algum dia, alguém descubra a ilusão e mostre que não somos tão espertos, tão bons ou tão estimáveis quanto fizemos o mundo acreditar que éramos. Esse medo desgastante de que descubram nossas fraquezas impede a participação comunitária e criativa. E corremos o sério perigo de ficar isolados, pois a amizade e o amor são impossíveis sem uma vulnerabilidade mútua.


Levar uma vida cristã significa viver no mundo sem ser do mundo. É na solidão (oração) que essa liberdade se fortalece. A vida sem um lugar deserto torna-se facilmente destrutiva. Quando nos apegamos aos resultados de nossas ações como nosso único meio de identificação pessoal, tornamo-nos possessivos, ficamos na defensiva e tendemos a ver nossos semelhantes mais como inimigos a ser mantidos a distância que como amigos com os quais partilhamos as dádivas da vida.


Na solidão (oração) descobrimos no centro de nossa personalidade que não somos mais o que conquistamos, mas o que nos é dado. Na solidão, escutamos a voz daquele que nos falou antes de pronunciarmos uma palavra, (Sl 139) que nos curou antes de esboçarmos um gesto pedindo ajuda, que nos libertou muito antes de libertarmos os outros e nos amou muito antes de darmos amor a alguém. Na solidão(oração), descobrimos que nossa vida não é um bem a ser defendido, mas uma dádiva a compartilhar.


Quando deixamos de depender deste mundo, formamos uma comunidade de fé em que há pouco a defender, mas muito a partilhar. E como comunidade de fé lembramos uns aos outros constantemente que formamos uma fraternidade dos fracos, compreensível para aquele que nos fala nos lugares desertos de nossa existência e diz: Não temais, sois aceitos.


Cristo já veio mas nunca deixa de vir a caminho de nossa casa. O lugar que ele mais ambiciona é um coração convertido, que tenha a coragem de se “reformar” e de se abrir ao amor, à fraternidade, à justiça...Só criando espaço para Cristo num coração convertido é que conseguiremos à meta. Jesus continuamente visita e frequenta o coração daqueles que sabem crer, esperar e amar. Se na vida jogarmos sementes de egoísmo, de violência e de orgulho, de arrogância e de prepotência, estes serão nossos companheiros da viagem e por isso, nunca seremos felizes e nunca faremos ninguém feliz. Se jogarmos sementes da justiça, do amor, da fraternidade e da esperança e da fé em Cristo, Cristo será nossa herança feliz e com ele teremos a experiência da libertação. Importa viver sempre na presença de Cristo. Por isso,” ficai atentos e orai a todo momento, a fim de terdes força para escapar de tudo o que deve acontecer e para ficardes em pé diante do Filho do Homem” (v.36).
 
P. Vitus Gustama,svd

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

01/12/2018
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ORAR E VIGIAR SEMPRE PARA PERMANECER COM O PODER DE DEUS E ALCANÇAR O CÉU

Sábado da XXXIV Semana Comum


Primeira Leitura: Ap 22,1-7
A mim, João, 1 o anjo do Senhor mostrou-me um rio de água viva, o qual brilhava como cristal. O rio brotava do trono de Deus e do Cordeiro. 2 No meio da praça, de cada lado do rio, estão plantadas árvores da vida; elas dão frutos doze vezes por ano; em cada mês elas dão fruto; suas folhas servem para curar as nações. 3 Já não haverá maldição alguma. Na cidade estará o trono de Deus e do Cordeiro e seus servos poderão prestar-lhe culto. 4 Verão a sua face e o seu nome estará sobre suas frontes. 5 Não haverá mais noite: não se precisará mais da luz da lâmpada, nem da luz do sol, porque o Senhor Deus vai brilhar sobre eles e eles reinarão por toda a eternidade. 6 Então o anjo disse-me: “Estas palavras são dignas de fé e verdadeiras, pois o Senhor, o Deus que inspira os profetas, enviou o seu Anjo, para mostrar aos seus servos o que deve acontecer muito em breve. 7 Eis que eu venho em breve. Feliz aquele que observa as palavras da profecia deste livro”.


Evangelho: Lc 21,34-36
34 “Tomai cuidado para que vossos corações não fiquem insensíveis por causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida, e esse dia não caia de repente sobre vós; 35 pois esse dia cairá como uma armadilha sobre todos os habitantes de toda a terra. 36 Portanto, ficai atentos e orai a todo momento, a fim de terdes força para escapar a tudo o que deve acontecer e para ficardes de pé diante do Filho do Homem”.
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O Céu Se Alcança Através De Nossa Fidelidade Ao Cordeiro De Deus Até o Fim, Aqui Na Terra


Com a liturgia deste dia chegamos ao final deste ano litúrgico B (ano em que refletimos o evangelho de Marcos). Amanhã, primeiro Domingo do Advento, se enicia o Ano Novo litúrgico: o Ano C em que leremos e refletiremos cada domingo sobre o evangelho de Lucas.


O Apocalipse de são João, em seu último capítulo que lemos hoje na Primeira Leitura, nos mostra, através de imagens de extraordinária qualidade poética, a plenitude dos tempos, o Reino de Deus, desse Deus que é “Emanuel”, Deus-Conosco. Esta humanidade, fiel ao Cordeiro, agora chegou por Cristo, com Ele e n´Ele à Árvore da Vida: “No meio da praça, de cada lado do rio, estão plantadas árvores da vida; elas dão frutos doze vezes por ano; em cada mês elas dão fruto; suas folhas servem para curar as nações. Já não haverá maldição alguma” (Ap 22,2). Recuperou a intimidade com Deus, a experiência da unidade gozosa com o Todo e com cada um de suas partes no Novo Céu e Nova Terra.


A última página da Bíblia (Apocalipse) é a repetição da primeira página da Bíblia (Gênesis). É o novo começo do “Génesis”, o paraíso encontrado novamente, o projeto de Deus realizado até o fim, a vida que corre como o rio de água viva, como árvore de vida que dá seus frutos, como a luz sem ocaso. É como o retorno ao paraíso terrestre.


As leituras deste último dia do ano litúrgico  nos assinalam, então, o fim de nosso caminhar aqui na terra rumo à Casa do Pai, nossa morada definitiva (cf. 2Cor 5,1). O livro do Apocalipse nos ensina, através de símbolos, a realidade da vida eterna onde será cumprido o anseio do homem: a visão de Deus e a felicidade sem término e sem fim: “Verão a sua face e o seu nome estará sobre suas frontes. Não haverá mais noite: não se precisará mais da luz da lâmpada, nem da luz do sol, porque o Senhor Deus vai brilhar sobre eles e eles reinarão por toda a eternidade” (Ap 22,4-5). Para o homem a plenitude da vida consiste em ver o rosto de Deus, pois foi destinado para esta contemplação. A morte dos filhos de Deus será somente o passo prévio, a condição indispensável para unir-se com seu Deus Pai e permanecer com Ele por toda a eternidade.  A marca na fronte de cada fiel é o sinal de sua vocação e da predileção divina.


O Céu será a nova comunidade dos filhos e filhas de Deus que alcançam ali a plenitude de sua adoção divina. No Céu veremos Deus face a face e gozaremos n´Ele com um gozo infinito, segundo a santidade e os méritos adquiridos na terra conforme a misericórdia de Deus.


O livro de Apocalipse quer nos dizer que é bom e necessário fomentarmos a esperança do Céu; consolo nos momentos mais duros e ajuda a manter firme a virtude da fidelidade. Pensemos sempre nas palavras consoladoras de Jesus: “Vou preparar um lugar para vós” (Jo 14,2). Ali no Céu temos nossa casa definitiva, muito perto do Senhor e de sua Mãe Santíssima, Maria. Neste mundo estamos apenas de passagem. Amanhã começa o Advento, tempo da espera e da esperança: esperamos Jesus que está conosco (cf. Mt 28,20).


Ficam claras para nós duas coisas: que há combate e que há vitória. Como há combate devemos estar preparados. Como há vitória, nosso coração deve estar firme até o fim.


O evangelho deste dia está na mesma tônica: estar despertados/acordados, mas não angustiados; atentos, mas não desesperados; vigilantes do perigo, mas sem obsessão com ele. E sobretudo: orar. Deixar de orar já significa perder. Necessitamos da oração para que nossos olhos vejam como Deus vê tudo. Necessitamos da oração para que nossas forças não fiquem esgotadas. Necessitamos da oração porque nenhuma previsão será perfeita e nenhum raciocínio pode deduzir quando será aquele dia e aquela hora.


É Preciso Viver Na Sobriedade Para Viver Saudavelmente Físico e Espiritualmente


Tomai cuidado para que vossos corações não fiquem insensíveis por causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida”.


Estamos na ultima parte do discurso escatológico ou apocalíptico de Jesus na versão de Lucas. Desta vez, somos alertados sobre a importância da vigilância e da oração no seguimento de Jesus Cristo.


Ficai atentos e orai a todo momento, a fim de terdes força para escapar a tudo o que deve acontecer e para ficardes de pé diante do Filho do Homem”, assim Jesus nos alerta.


No contexto do discurso, colocado imediatamente antes dos relatos da Paixão e da ressurreição do Senhor, esta exortação designa com claridade a Paixão do Filho do Homem durante a qual os discípulos se encontrarão em uma situação complicada. Consciente da situação complicada, com esta exortação Jesus quer animar seus discípulos para que sejam firmes em tudo, pois atrás do mistério da cruz está a ressurreição, atrás de uma aparente debilidade se encontra uma força irresistível, atrás de umas nuvens negras se esconde o sol. Em outras palavras, é preciso ir além da aparência e penetrar a camada exterior para entrar no miolo das coisas. Ao contemplar o mistério da Cruz na sua profundidade acabaremos enxergando o mistério da ressurreição, mistério que nos fortalece para superar tudo na nossa caminhada.


Mas o evangelista Lucas também pensa nos seus leitores de hoje e de amanhã. Encontrados ou situados no mistério da existência, com seus altos e baixos, não sentirão a tentação de abandonar tudo? Daí a importância da vigilância e da oração na vida de qualquer seguidor do Senhor.


Viver Orando


“Quando o Espírito (Santo) fixa a sua morada no coração do homem, este não pode parar de rezar... e a sua alma exala espontaneamente o perfume de oração” (Santo Isaac da Síria).


Para Jesus, rezamos “a fim de terdes força para escapar a tudo o que deve acontecer e para ficardes de pé diante do Filho do Homem”. A oração é a força sem limites para encarar a realidade, pois a encaramos com Deus, e se encararmos tudo com Deus, será cumprido aquilo que São Paulo escreveu: “Se Deus é por nós, quem será contra nós? Aquele que não poupou seu próprio Filho, mas que por todos nós o entregou, como não nos dará também com ele todas as coisas?” (Rm 8,31-32). Aquele que aprende a ficar de joelho diante de Deus em uma atitude de oração e adoração, ele ficará de pé firmemente diante da vida e de seus acontecimentos. Se pararmos de rezar, erraremos o caminho, pois rezar significa estar em comunhão com Deus e por isso, estar no caminho de Deus e com Deus. “Tuas orações são a seta que o mantém na raia” (Santo Agostinho: Serm. 22,5).


Na verdadeira oração encontramos Deus, Fonte do ser e do existir, e ao encontrar a Fonte de nosso ser, acabamos encontrando nosso próximo, objeto do amor de Deus (cf. Jo 3,16). Por isso, não pedimos a Deus que governe nossa vida através de milagres, e sim Lhe pedimos o milagre de amar até o fim (cf. Jo 13,1), pois somente o amor capaz de transformar o mundo porque “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). O amor fraterno nos identifica como verdadeiros seguidores de Jesus Cristo (cf. Jo 13,35). Por isso, se nossa oração nos afasta dos homens, ainda não nos encontramos com o Deus dos homens, mas com sua fantasia. Sempre que rezamos de verdade, a nossa oração é eficaz porque nós nos modificamos. Não rezamos para convencer Deus que faça o que queremos e sim para conseguir nos aproximar de tudo que Deus espera de nós. Dizia Santo Agostinho: “É injusto desejar qualquer coisa do Senhor e não desejar a Ele mesmo. Pode, por acaso, a doação ser preferida ao doador?” (In ps.76,2).


Viver Na Vigilância e Na Permanente Atenção

Ficai atentos! Tomai cuidado para que vossos corações não fiquem insensíveis por causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida, e esse dia não caia de repente sobre vós; pois esse dia cairá como uma armadilha sobre todos os habitantes de toda a terra”.


A última recomendação de Jesus no seu discurso escatológico na versão de Lucas, o ultimo conselho do ano litúrgico é este: “Ficai atentos!” ou “Estejais vigilantes”.


Ser vigilante não é uma opção para um cristão, e sim faz parte do seu ser como seguidor do Senhor. Estar atento é a verdadeira espiritualidade cristã, pois o centro é sempre o outro e o Outro. A atenção nos leva a nos aproximarmos do outro para estar com ele ou para ajudá-lo na sua necessidade. A vigilância nos capacita a detectarmos tudo que possa desviar nossa atenção de nossa meta de estar em comunhão plena com o Senhor, fonte de nosso ser. Somente os vigilantes são capazes de se afastar do mal.


Além disso, a vigilância e a oração têm o seguinte objetivo: “para ficardes de pé diante do Filho do Homem”.  Estar de pé diante de Cristo é estar em vigilância e em atitude de oração na nossa passagem neste mundo cumprindo nossa missão como seguidores de Jesus Cristo. O verdadeiro cristão não se preocupa se a vinda gloriosa de Jesus está próxima ou ainda está distante, pois ele tem um compromisso com o presente de levar até o fim uma grande tarefa de evangelização, isto é, em levar o que é bom e digno para os outros.


O contrário da vigilância é a gula, a embriaguez e as preocupações da vida:Tomai cuidado para que vossos corações não fiquem insensíveis por causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida, e esse dia não caia de repente sobre vós; pois esse dia cairá como uma armadilha sobre todos os habitantes de toda a terra”.


Na época de Jesus, o alcoolismo, o afã de riqueza, a prostituição e os jogos de azar eram as grandes distrações. O povo judeu era muito zeloso de suas leis religiosas. Posteriormente as comunidades primitivas tiveram que definir parâmetros muito claros diante dos vícios que propagavam as culturas greco-romanas centradas no culto ao poder e ao prazer. 


O evangelho de hoje põe na boca de Jesus um conjunto de advertências acima mencionadas que tratam de resistir diante dos vícios que ameaçavam a integridade da pessoa e da comunidade. Não se trata de uma pregação moralista e sim um chamado para uma atitude ética consciente e responsável. O ser humano não pode ser livre se ainda permanece atado aos vícios que a cultura lhe impõe. O cristão não pode ficar atento à presença do Senhor se estiver dominado pelo vício. Ao contrário, o cristão precisa estar livre e estar atento diante da realidade para dar uma resposta adequada e eficaz. Por esta razão, o cristão precisa cultivar uma atitude orante que lhe permite estar atento diante da realidade e descobrir os sinais dos tempos. O fracasso sempre nos deixa muitos ensinamentos que nos ajudam a melhorar. Ele favorece a humildade e nos ajuda a manter os pés no chão; estimula nossa imaginação e nos leva a explorar novas alternativas; faz de nós pessoas mais reflexivas, evitando decisões precipitadas; é um convite para recomeçar. Ser cristão é ser eterno recomeço.


Em cada Eucaristia se concentram três direções para resumir tudo que foi falado até agora, no discurso escatológico de Jesus, através das palavras de São Paulo: “Todas as vezes que comeis desse pão e bebeis desse cálice (momento privilegiado do “hoje”) anunciais a morte do Senhor (o “ontem” da Páscoa), até que ele venha (o “amanhã da manifestação do Senhor)” (1Cor 11,26). Por isso aclamamos no momento central da missa: “Anunciamos, Senhor, a vossa morte, proclamamos a vossa ressurreição, vinde Senhor Jesus”.


Com este texto terminamos o Tempo Comum para entrar a partir do próximo domingo no Tempo do Advento e do Natal. Na época de Natal é bom ficar na nossa memória as palavras do Senhor lidas hoje:Tomai cuidado para que vossos corações não fiquem insensíveis por causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida, e esse dia não caia de repente sobre vós; pois esse dia cairá como uma armadilha sobre todos os habitantes de toda a terra”.
P. Vitus Gustama,svd

terça-feira, 27 de novembro de 2018

30/11/2018
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SANTO ANDRÉ, APÓSTOLO
30 de novembro

Primeira Leitura: Rm 10,9-18
Irmãos, 9 se, com tua boca, confessares Jesus como Senhor e, no teu coração, creres que Deus o ressuscitou dos mortos, serás salvo. 10 É crendo no coração que se alcança a justiça e é confessando a fé com a boca que se consegue a salvação. 11 Pois a Escritura diz: “Todo aquele que nele crer não ficará confundido”. 12 Portanto, não importa a diferença entre judeu e grego; todos têm o mesmo Senhor, que é generoso para com todos os que o invocam. 13 De fato, todo aquele que invocar o Nome do Senhor será salvo. 14 Mas como invocá-lo, sem antes crer nele? E como crer, sem antes ter ouvido falar dele? E como ouvir, sem alguém que pregue? 15 E como pregar, sem ser enviado para isso? Assim é que está escrito: “Quão belos são os pés dos que anunciam o bem”. 16 Mas nem todos obedeceram à Boa Nova. Pois Isaías diz: “Senhor, quem acreditou em nossa pregação?” 17 Logo, a fé vem da pregação e a pregação se faz pela palavra de Cristo. 18 Então, eu pergunto: Será que eles não ouviram? Certamente que ouviram, pois “a voz deles se espalhou por toda a terra, e as suas palavras chegaram aos confins do mundo”.


Evangelho: Mt 4,18-22
Naquele tempo, 18 quando Jesus andava à beira do mar da Galileia, viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André. Estavam lançando a rede ao mar, pois eram pescadores. 19 Jesus disse a eles: “Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens”. 20 Eles imediatamente deixaram as redes e o seguiram. 21 Caminhando um pouco mais, Jesus viu outros dois irmãos: Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João. Estavam na barca com seu pai Zebedeu, consertando as redes. Jesus os chamou. 22 Eles imediatamente deixaram a barca e o pai, e o seguiram.
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Santo André


Hoje celebramos a festa do apostolo André. A primeira característica que em André chama a atenção é o nome: não é hebraico, mas grego, “André” (viril, robusto) sinal de que sua família tem uma certa abertura cultural. Estamos na Galileia, onde a língua e a cultura gregas estão bastante presentes. Nas listas dos Doze, André ocupa o segundo lugar, como em Mateus (10, 1-4) e em Lucas (6, 13-16), ou o quarto lugar como em Marcos (3, 13-18) e nos Atos (1, 13-14). Contudo, ele gozava certamente de grande prestígio nas primeiras comunidades cristãs.


A liturgia grega distingue Santo André com o título de “protóklitos”, “o primeiro chamado”. Mas, em rigor, este título há de compartilhá-lo com o apóstolo João. Os dois foram os primeiros que em uma tarde inesquecível, escutaram as palavras de Jesus, novas para o mundo. Esta recordação, que sempre fresca na memória de João, ficou esculpida em seu Evangelho (cf. Jo 1,35-42)


Segundo as fontes bíblicas André é irmão de Pedro. Os evangelhos mostram explicitamente o laço de sangue entre Pedro e Andre (Mt 4, 18-19; Mc 1, 16-17). E no evangelho de João lemos outro pormenor: num primeiro momento, André era discípulo de João Batista; e isto nos mostra que era um homem que procurava, que partilhava a esperança de Israel, que queria conhecer mais de perto a palavra do Senhor, a realidade do Senhor presente. Era verdadeiramente um homem de e de esperança. E certa vez, de João Batista ouviu proclamar Jesus como "o Cordeiro de Deus" (Jo 1, 36); então ele voltou-se e, juntamente com outro discípulo que não é nomeado, seguiu Jesus, Aquele que era chamado por João o "Cordeiro de Deus". O evangelista narra: eles "viram onde morava e ficaram com Ele nesse dia" (Jo 1, 37-39). Portanto, André viveu momentos preciosos de familiaridade com Jesus.


Podemos imaginar o diálogo comovente naquela tarde entre Jesus e os dois discípulos de João Batista. Aquelas palavras de Jesus, que inicia sua vida pública de uma forma tão simples que servem como o caminho para a fonte que mata para sempre a sede de Deus e o sentido da vida. As palavras de Jesus estavam penetrando os corações daqueles simples pescadores, já preparados pela pregação de João Batista. Essa alegria espiritual, essa descoberta insuspeitada encheu o coração de André com um entusiasmo sem hesitação.


Ao chegar em casa com a impressão da entrevista, ele contou ao irmão Pedro: "Encontramos o Messias". E Pedro, influenciado pela fé de seu irmão, corre para Jesus, e nEle encontrou a hora inicial de uma grandeza singular que o futuro vai preparar para Pedro, pois sobre ele Jesus vai edificar sua Igreja (Mt 16,17-19). André apresntou Pedro, seu irmão, a Jesus. O que é bom e precioso não é guardado apenas no coração de Andre. Ele tem um espírito apostólico extraordinário ao partilhar a preciosidade do encontro com seu irmão Pedro e o levou para Jesus.


O evangelho de João relatou que foi André quem avisou a Jesus que alguns gregos queriam vê-Lo. E Jesus deu a seguinte resposta, bastante enigmática: "Chegou a hora de se revelar a glória do Filho do Homem. Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica ele ; mas, se morrer, dá muito fruto" (Jo 12, 23-24). Com estas palavras Jesus profetiza a Igreja dos gregos, a Igreja dos pagãos, a Igreja do mundo como fruto da sua Páscoa.


Segundo as tradições muito antigas ele foi anunciador e intérprete de Jesus para o mundo grego. Uma tradição sucessiva narra a morte de André em Patrasso, onde também ele sofreu o suplício da crucifixão. Mas, naquele momento supremo, de modo análogo ao do irmão Pedro, ele pediu para ser posto numa cruz diferente da cruz de Jesus. Em seu caso, tratou-se de uma cruz em forma de letra “X”, ou seja, com os dois madeiros cruzados diagonalmente, que por este motivo é chamada «cruz de Santo André» para distinguir este apóstolo. Jesus e os dois irmãos - Pedro e André - foram crucificados, embora cada um deles de uma maneira diferente. Cristo lhes reservou uma morte semelhante, como um vínculo que os une na vida e na morte, na fidelidade à missão evangelizadora, no último testemunho do sangue. Conectar-se a Jesus também na morte é uma graça que Deus concedeu aos dois pescadores da Galiléia.


O apóstolo André ensina-nos a seguir Jesus com prontidão (cf. Mt 4, 20; Mc 1, 18), a falar com entusiasmo d'Ele a quantos encontramos na nossa vida cotidiana, e sobretudo a cultivar com Ele um relacionamento de verdadeira familiaridade, bem conscientes de que n'Ele podemos encontrar o sentido último da nossa vida e da nossa morte. Todas as etapas anteriores servem como uma preparação para o verdadeiro encontro com Aquele que é o autor da vida: Jesus Cristo.


Santo André aparece como um homem de natureza calma e serena, oposto à impetuosidade característica de seu irmão Pedro. Com um coração nobre e aberto, inspirou simpatia e confiança. De natureza sensível, foi fácil entusiasmo simples quando uma ótima idéia o dominava. Embora tenha participado das pequenas rivalidades dos apóstolos sobre quem seria o maior e poderia apresentar o título de "primeiro chamado", não parece, no entanto, desejar grandes coisas. Os filhos do Zebedeu, e especialmente o seu irmão Pedro, o dominaram com ousadia e ousadia. André é mais sensato e prudente; mais pago de si mesmo, e, portanto, sujeito a mais imprudência é o seu irmão, Pedro.


O apóstolo é o enviado por Jesus, e aqui está a grandeza dele e não em seus dons pessoais, em seus valores humanos, em sua atividade, em sua influência. A magnitude de sua personalidade reside naquele dia em que Jesus colocou seus olhos nele, entendeu o olhar penetrante, aceitou a missão que lhe foi confiada e foi fiel à morte pela mensagem recebida de Jesus, sem se assustar com a morte ou com os poderes humanos. Ser apóstolo é orientar a vida e trabalhar para Jesus e para os homens: receber da palavra e da vida de Jesus e dar aos homens, sem adulterar, sem mudar, a vida e a palavra. O dom do apostolado leva a dar vida, a selar a palavra recebida com a morte se assim o desejar. E isso com fé, com alegria e amor. Ser apóstolo é dar testemunho de Jesus até o final.


Entre as virtudes de Santo André destacam-se a mansidão e a humildade, a simplicidade e a ingenuidade de sua alma, o entusiasmo sincero por Jesus que conheceu numa tarde inesquecível, perto das águas do Jordão. O "primeiro chamado" mostrou uma grande constância na pregação e uma inquebrável paciência na dor, diz o breviario gótico. Que ele interceda por nós para que sejamos perseverantes no testemunho de Jesus e de seus ensinamentos mesmo que encaremos a cruz na qual somos crucificados com Jesus e os irmãos André e Pedro.


Mensagem Do Evangelho De Hoje


“Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens”. É o convite de Jesus aos dois irmãos, Simão e André, que lemos no Evangelho de hoje. A expressão se encontra na boca de Eliseu (2Rs 6,19). A fórmula “ir-se” ou “seguir atrás de” aparece repetidamente na cena da chamada de Eliseu pelo profeta Elias (1Rs 19,19-21). Jesus se apresenta, portanto, como profeta e sua chamada promete a comunicação do Espírito profético a seus seguidores. Por outro lado, o trabalho dos dois irmaos (pescadores) e a metáfora de Jesus “pescadores de homens” aludem a Ez 47,10, onde se utiliza também a metáfora dos pescadores que recolhem uma pesca abundante. A menção do mar/lago, do trabalho de pescadores e a metáfora usada por Jesus esclarecem o significado da frase: Jesus chama a uma missão profética, que pretenderá atrair os homens, tanto judeus como pagãos (o mar como fronteira) e cujo êxito está assegurado.


A resposta dos dois irmaos é imediata. Aparece pela primeira vez o verbo “seguir”, que referido a discípulos, indicará a adesão à pessoa de Jesus e a colaboração em sua missão. A adesão à pessoa de Jesus comporta uma ruptura com a vida anterior, uma mudança radical para entregar-se a fim de procurar o bem do homem.


A segunda cena (vv.21-22), isto é, a chamada de Tiago e João, é descrita mais brevemente que a primeira, mas tem o mesmo significado. Esses dois irmãos estão unidos não apenas pelo vínculo de fraternidade, mas também pela presença de um pai comum. No evangelho, "o pai" representa a autoridade que transmite uma tradição. Jesus não teve pai humano, não está condicionado por uma tradição anterior; seus discípulos abandonam o pai humano. Doravante, como o próprio Jesus, eles não deverão reconhecer mais do que o Pai no céu: “A ninguém na terra chameis ‘Pai’, pois só tendes o Pa celeste” (23,9).


O chamado de André e de seus companheiros é então inscrito na produção de vida para a humanidade e para toda a criação. Compartilhando o projeto de Jesus, eles encontram a força para realizar sua missão. Graças aos discípulos, o Reino está presente na vida dos homens e a missão profética de Jesus é plenamente cumprida. O futuro de Deus é antecipado e tornado presente no meio da existência humana pela colaboração do próprio homem nesse projeto.


Também a cada um de nós - a todos os cristãos - Jesus nos pede todos os dias para colocar a seu serviço tudo o que somos e temos para que, vivendo com Ele, as tarefas de nossa vida: trabalho profissional e nossa família, sejamos "pescadores de homens". O que quer dizer com "pescadores de homens"? Uma boa resposta pode ser um comentário de São João Crisóstomo. Este Pai e Doutor da Igreja diz que André não sabia explicar bem ao seu irmão Pedro quem era Jesus e, por isso, "levou-o à mesma fonte de luz", que é Jesus Cristo. "Pescadores" significa ajudar os que nos rodeiam na família e no trabalho a encontrar Cristo que é a única luz para o nosso caminho.
 
P. Vitus Gustama,SVD