quinta-feira, 25 de abril de 2019

29/04/2019
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DEIXAR-NOS GUIAR PELO ESPÍRITO DE DEUS PARA QUE NOSSA VIDA SEJA RENOVADA E FRUTÍFERA
Segunda-Feira da II Semana da Páscoa


Primeira Leitura: At 4,23-31
23 Naqueles dias, logo que foram postos em liberdade, Pedro e João voltaram para junto dos seus e contaram tudo o que os sumos sacerdotes e os anciãos haviam dito. 24 Ao ouvirem o relato, todos eles elevaram a voz a Deus, dizendo: “Senhor, tu criaste o céu, a terra, o mar e tudo o que neles existe. 25 Por meio do Espírito Santo, disseste através do teu servo Davi, nosso pai: ‘por que se enfureceram as nações, e os povos imaginaram coisas vãs? 26 Os reis da terra se insurgem e os príncipes conspiram unidos contra o Senhor e contra o seu Messias’. 27 Foi assim que aconteceu nesta cidade: Herodes e Pôncio Pilatos uniram-se com os pagãos e os povos de Israel contra Jesus, teu santo servo, a quem ungiste, 28 a fim de executarem tudo o que a tua mão e a tua vontade haviam predeterminado que sucedesse. 29 Agora, Senhor, olha as ameaças que fazem e concede que os teus servos anunciem corajosamente a tua palavra. 30 Estende a mão para que se realizem curas, sinais e prodígios por meio do teu santo servo Jesus”. 31 Quando terminaram a oração, tremeu o lugar onde estavam reunidos. Todos, então, ficaram cheios do Espírito Santo e anunciaram corajosamente a palavra de Deus.


Evangelho: Jo 3,1-8
1Havia um chefe judaico, membro do grupo dos fariseus, chamado Nicodemos, 2que foi ter com Jesus, de noite, e lhe disse: “Rabi, sabemos que vieste como mestre da parte de Deus. De fato, ninguém pode realizar os sinais que tu fazes, a não ser que Deus esteja com ele”. 3Jesus respondeu: “Em verdade, em verdade, te digo, se alguém não nasce do alto, não pode ver o Reino de Deus”. 4Nicodemos disse: “Como é que alguém pode nascer, se já é velho? Poderá entrar outra vez no ventre de sua mãe?” 5Jesus respondeu: “Em verdade, em verdade, te digo, se alguém não nasce da água e do Espírito, não pode entrar no Reino de Deus. 6Quem nasce da carne é carne; quem nasce do Espírito é espírito. 7Não te admires por eu haver dito: Vós deveis nascer do alto. 8O vento sopra onde quer e tu podes ouvir o seu ruído, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim acontece a todo aquele que nasceu do Espírito”.
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Quem Se Une a Cristo Une-se Aos Outros Na Fraternidade


Logo que foram postos em liberdade, Pedro e João voltaram para junto dos seus e contaram tudo o que os sumos sacerdotes e os anciãos haviam dito. Ao ouvirem o relato, todos eles elevaram a voz a Deus”, relatou-nos o autor dos Atos dos Apóstolos. Este relato está ainda dentro do contexto da narrativa da cura do paralítico.


Pedro e João voltaram para junto dos seus e contaram tudo o que os sumos sacerdotes e os anciãos haviam dito”. Esta frase nos mostra a harmonia existente entre os Apóstolos e a comunidade.  Esta harmonia é um traço especial dos Atos dos Apóstolos. Mais adiante em At 12,5 a comunidade vai suplicar a Deus por Pedro que se encontrará encarcerado. O relato de que Pedro e João, após sua libertação da prisão pelo Sinédrio, foram aos “seus” nos indica os laços de fraterna amizade que uniam os fiéis e seus dirigentes (Apóstolos).  Tertuliano (+220) testemunha que os primeiros cristão levavam a sério as palavras de Jesus que os pagãos exclamavam: “Vede, como eles se amam” (Apologético 39).


A vocação do ser humano é essencialmente comunitária. De fato, o ser humano nasce em uma comunidade de amor (família) e avança estendendo essa experiência de amor às amizades e às relações de proximidade. Ele é um ser sociável por natureza. Por isso, a pessoa humana só pode realizar-se de forma plena em comunidade com seus membros ou semelhantes. E por sua vez, a comunidade/família depende da perfeição das pessoas que a integram. O ser humano não pode realizar o seu destino em solidão, mas em comunidade.


Quando ficarmos isolados, estaremos propensos a ser prejudicados, a ser doentes. Sentir-se integrado ou unido mantém cada homem em equilíbrio, em meio às imensidões interiores e exteriores. Os antigos e eternos valores da vida humana como família, comunidade, unidade, verdade, bondade, justiça, beleza, ternura e amor, solidariedade e compaixão são afirmações da verdadeira integração, da unidade, da comunhão. Viver em solidariedade é qualidade de vida, porque o outro, para mim, não é rival e, sim, complemento, estímulo, fonte de minha própria personalidade. Consequentemente, é preciso crucificar o egoísmo, o individualismo e o narcisismo, pois o egoísmo vai matando em mim o amor, que é a autêntica vida. O individualismo me converte em um ser odioso e receoso.


O primeiro reflexo dessa comunidade de irmãos é rezar/orar. Isto nos mostra que se trata de um grupo ou de uma convivência fraterna que sempre se situa diante de Deus. A oração cristã se situa na confluência da salvação encarnada por Jesus Cristo e na confluência dos fatos da vida encarnados na Igreja ou na vida em geral. A oração apostólica nos proporciona o exemplo de duas dimensões essências da oração. Primeiro, o aspecto de anamnese (aspecto de recordação, de memória) que repassa a história da salvação. Segundo, o aspecto de epiclese (aspecto de invocação. É a invocação que se eleva a Deus para que envie o seu Espírito Santo e transforme as coisas ou as pessoas substancialmente: transubstanciação) que repassa a revelação dessa salvação na vida atual. Aqui se enfatiza a importância do Espirito Santo para iluminar o ser do cristão a fim de entender o sentido do que se passa na vida e na Igreja. Na oração eucarística são lembrados esses dois aspectos. Na Eucaristia estão unidos o presente e o passado para nos dispor para o futuro. Podemos dizer que a estrutura principal de nossa oração diária, individualmente, se encontra nestes dois aspectos. Conversamos com Deus sobre o que se passou e o que está se passando na nossa vida presente para pedir a Deus um futuro melhor (saída dos problemas pela ajuda do Espirito Santo ao invocar sua presença). História de nossa vida é a história de nossa oração e a história de nossa oração é a história de nossa vida. Quem não reza não tem história com Deus.


Para Viver Com Sentido e Guiado Pelo Espirito Divino É Preciso Nascer Do Alto


Em verdade, em verdade, te digo, se alguém não nasce do alto, não pode ver o Reino de Deus”.


Durante seis semana faremos uma leitura quase contínua do Evangelho segundo são João. O tempo pascal é um tempo de plenitude: a ressurreição de Jesus revelou seu ser profundo, seu mistério divino. O Filho único de Deus se encarnou e foi entregue pelo Pai ao mundo a fim de revelar e comunicar ao homens as riquezas misteriosas da vida divina. Ao acolhê-Lo, o ser humano terá a vida eterna.


A partir do segundo capitulo, o evangelista João se preocupa com os sinais (milagres, segundo os sinóticos) operados por Jesus e a atitude que provoca nas pessoas que os presenciam. Para o primeiro sinal, os discípulos respondem com fé (Jo 2,1-11), mas, diante do Templo, os judeus mostraram sua incredulidade (Jo 2,13-25). João dedica os capítulos 3 e 4 para a análise das reações diversas diante dos sinais messiânicos propostos por Jesus: um judeu: Nicodemos; uma mulher meia-pagã: a samaritana, e um pagão: o centurião.


No texto do evangelho deste dia fala-se do encontro pessoal de Nicodemos com Jesus. Nicodemos era um dirigente judeu muito representativo (membro do Sinédrio). Como homem de boa vontade ele ficava impressionado com as palavras e as ações de Jesus ou com os sinais operados por Jesus. E decidiu procurar conversar com Jesus à noite. A noite, aqui, significa a resistência para deixar-se iluminar por Jesus, pois Jesus é a Luz do mundo (Jo 8,12). Esta resistência existe por causa de uma ideologia que se opõe ao amor gratuito de Deus pelo homem. O mundo da lei que Nicodemos representa é o inimigo da vida contida no projeto de Deus. Jesus não admite os pressupostos de Nicodemos. A lei não pode levar o homem ao Reino, pois a lei é de baixo, dos homens, e por isso, não é fonte de vida. A vida vem de cima, de um novo nascimento. Com sua disposição de conversar com Jesus, Nicodemos se aproxima da luz que é o próprio Jesus.


Quanto mais nos aproximarmos de Jesus, mais iluminada ficará nossa vida. Consequentemente, seremos reflexos de Deus na convivência com os demais (cf. Mt 5,14-16), em vez de ser um peso para os outros e de criar confusão na vida dos outros. Ser reflexo de Deus significa ser orientador do bem, como a luz que orienta a vida dos homens.


Nicodemos começa a conversa com o seu reconhecimento de que Jesus vem de Deus: “Rabi sabemos que vieste como mestre da parte de Deus. De fato, ninguém pode realizar os sinais que tu fazes a não ser que Deus esteja com ele”. Aquele que pratica o bem e que se preocupa com o bem do próximo ou de todos só pode ser uma pessoa de Deus. Nicodemos reconhece a bondade de Jesus tanto nas palavras como na ação. “A bondade em palavras cria confiança; a bondade em pensamento cria profundidade; a bondade em dádiva cria amor”, dizia Lao-Tsé. E a bondade em ação cria a comunhão de irmãos. Toda ação feita pelo bem da humanidade, ou pela fraternidade é feita sob o impulso do Espírito de Deus embora aquele que a faz não tenha consciência disso: “Toda árvore boa dá bons frutos; toda árvore má dá maus frutos. Uma árvore boa não pode dar maus frutos; nem uma árvore má, bons frutos”, disse Jesus na conclusão do Sermão da Montanha (Mt 7,17-18). Os ideais que iluminaram o meu caminho são a bondade, a beleza e a verdade”, dizia Albert Einstein. A bondade é o único investimento que nunca falha.


Diante das palavras de Nicodemos, Jesus afirma: “Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus”. Na Antiguidade, havia a ideia de que, para entrar numa nova religião ou num sistema filosófico, era preciso “renascer”. Ou na linguagem de hoje podemos dizer que é preciso mudar de mentalidade para mudar o modo de viver e de trabalhar. Mas o que Jesus quer enfatizar é o nascimento “do alto” ou de Deus. A expressão “nascer de novo” designa um giro completo da existência que situa o homem em dependência de Deus na fé. Ou na linguagem do evangelista Mateus “tornar-se como criança” (Mt 8,3). Trata-se de fazer-se pequeno diante de Deus, de aceitar o depender de Deus, de não empenhar-se em salvar-se por si mesmo, pois isso é impossível para uma criatura como um ser humano. E aquele que nasce de Deus vive sob o impulso do Espírito Santo para fazer unicamente o bem, e sempre se renova. O poder de Deus é capaz de romper com o passado porque é possível esperar de Deus uma vida nova e uma nova força que ninguém pode segurar.


Por isso, Jesus acrescenta outra afirmação: “O vento sopra para onde quer”. Para o homem antigo o sopro do vento era algo totalmente misterioso. O vento não pode ser segurado, não pode ser colocado num punho e ninguém pode estabelecer sua direção. A imagem de “vento” é sugestiva. Jesus quer sublinhar o caráter misterioso, invisível, difícil de controlar do vento. Não se sabe de onde vem e para onde vai. Estar batizado é ser conduzido por este sopro divino invisível, mas deixa a marca de sua passagem como o vento. Jesus usa essa comparação para quem é nascido do Espírito. Aquele que é dominado pelo Espírito de Deus e vive de acordo com seu impulso, não vive sob cálculos humanos, porque sua pessoa e sua existência se fundam em Deus e no Espírito divino. Como dizia Shakespeare: “Sabemos o que somos, mas não o que podemos ser, pois a vida é sempre para frente e nunca para trás.  Aquele que se deixa conduzir pelo Espírito de Deus terá muitas surpresas de Deus na sua vida. É uma existência que participa do sopro do Espírito e, portanto, de Deus. Quem se deixa guiar pelo Espírito de Deus sempre pratica o bem e procura o bem do próximo. Os que se deixam conduzir pelo Espírito de Deus se renovam permanentemente, como o próprio Espírito que sempre renova a face da terra. Os renovadores no Espírito divino são pessoas otimistas. Eles vivem profundamente no presente com um olhar de confiança para o futuro, pois eles se deixam impulsionar pelo Espírito de Deus.


Mudança, renovação e transformação são o código do mundo avançado, no entanto nem sempre queremos mudar. Quando estamos felizes, desejamos que o relógio pare, e que nada mude: queremos parar o tempo, “imobilizar” o instante fugido. Apenas mudamos quando estamos mal (necessidade) ou quando tememos uma piora. Dizia Platão: “A necessidade é a mãe da inovação”. Mas quem quer avançar profissionalmente ou espiritualmente é preciso adotar o código do mundo avançado: renovação, mudança e transformação. “Quem não nascer de novo, não pode ver o Reino de Deus”.  Criatividade consiste no total rearranjo do que sabemos com o objetivo de descobrir o que não sabemos” (George Kneller). ”O que os empreendedores têm em comum não é determinado tipo de personalidade, mas um compromisso com a prática sistemática da inovação” (Peter Drucker). É necessário inovarmos sempre no Espírito divino para nos motivar e crescer na vida. Inovar é colocar algo novo; é a coragem de fazer algo que não era feito antes, mas que é necessário para viver e crescer.


Para podermos aprender continuamente, crescer permanentemente, nos renovar constantemente necessitamos da humildade. Humildade é ter atitude de aprendizagem. E a aprendizagem é o caminho do sucesso. Uma pessoa soberba sempre acredita saber tudo e por isso, fica parado no tempo e deixa de ter sucesso na vida. Dizia Confúcio: “Quando não se aprende, a sinceridade vira grosseria; a valentia, desobediência; a Constância, caprichosa teimosia; a humanidade, estupidez; a sabedoria, confusão; a veracidade, ruína”. “Somente quando aprendermos ou conhecermos, teremos a possibilidade de começar a mudar o que não nos agrada” (Alvará Reyes). Nada mudará, quando nossa mente não mudar. A pior prisão é a prisão mental, isto é, aquela que acaba sendo um obstáculo para atingir tudo o que está por vir. Quando eliminamos as armadilhas mentais, estaremos aptos a começar a ter sucesso. Uma mentalidade velha e caduca resiste diante do novo e do avançado. Para acessar um novo nível de vida qualitativamente, precisamos renovar nossa mente. Mente sã, corpo são e sucesso garantido. Em verdade, em verdade, te digo, se alguém não nasce do alto, não pode ver o Reino de Deus... Quem nasce da carne é carne; quem nasce do Espírito é espírito”, disse-nos Jesus.
 
P. Vitus Gustama,svd

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Domingo,28/04/2019
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JESUS RESSUSCITADO DEVE OCUPAR O LUGAR CENTRAL NA VIDA DOS HOMENS PARA QUE HAJA A PAZ NA CONVIVÊNCIA
II DOMINGO DA PÁSCOA


I Leitura: At 2,42-47
 Os que se haviam convertido 42 eram perseverantes em ouvir o ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações. 43 E todos estavam cheios de temor por causa dos numerosos prodígios e sinais que os apóstolos realizavam. 44 Todos os que abraçavam a fé viviam unidos e colocavam tudo em comum; 45 vendiam suas propriedades e seus bens e repartiam o dinheiro entre todos, conforme a necessidade de cada um. 46 Diariamente, todos frequentavam o Templo, partiam o pão pelas casas e, unidos, tomavam a refeição com alegria e simplicidade de coração. 47 Louvavam a Deus e eram estimados por todo o povo. E, cada dia, o Senhor acrescentava ao seu número mais pessoas que seriam salvas.


II Leitura: 1Pd 1,3-9
3Bendito seja Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Em sua grande misericórdia, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, ele nos fez nascer de novo, para uma esperança viva, 4para uma herança incorruptível, que não se mancha nem murcha, e que é reservada para vós nos céus. 5Graças à fé, e pelo poder de Deus, vós fostes guardados para a salvação que deve manifestar-se nos últimos tempos. 6Isto é motivo de alegria para vós, embora seja necessário que agora fiqueis por algum tempo aflitos, por causa de várias provações. 7Deste modo, a vossa fé será provada como sendo verdadeira — mais preciosa que o ouro perecível, que é provado no fogo — e alcançará louvor, honra e glória no dia da manifestação de Jesus Cristo. 8Sem ter visto o Senhor, vós o amais. Sem o ver ainda, nele acreditais. Isso será para vós fonte de alegria indizível e gloriosa, 9pois obtereis aquilo em que acreditais: a vossa salvação.


Evangelho: Jo 20,19-31
19Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou e, pondo-se no meio deles, disse: “A paz esteja convosco”. 20Depois dessas palavras, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos se alegraram por verem o Senhor. 21Novamente, Jesus disse: “A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, também eu vos envio”. 22E, depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: “Recebei o Espírito Santo. 23A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem os não perdoardes, eles lhes serão retidos”. 24Tomé, chamado Dídimo, que era um dos doze, não estava com eles quando Jesus veio. 25Os outros discípulos contaram-lhe depois: “Vimos o Senhor!” Mas Tomé disse-lhes: “Se eu não vir a marca dos pregos em suas mãos, se eu não puser o dedo nas marcas dos pregos e não puser a mão no seu lado, não acreditarei”. 26Oito dias depois, encontravam-se os discípulos novamente reunidos em casa, e Tomé estava com eles. Estando fechadas as portas, Jesus entrou, pôs-se no meio deles e disse: “A paz esteja convosco”. 27Depois disse a Tomé: “Põe o teu dedo aqui e olha as minhas mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado. E não sejas incrédulo, mas fiel”. 28Tomé respondeu: “Meu Senhor e meu Deus!” 29Jesus lhe disse: “Acreditaste, porque me viste? Bem-aventurados os que creram sem terem visto!” 30Jesus realizou muitos outros sinais diante dos discípulos, que não estão escritos neste livro. 31Mas estes foram escritos para que acrediteis que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e, para que, crendo, tenhais a vida em seu nome.
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Neste Domingo que encerra a oitava da Páscoa, voltamos os olhos ao apostolo Tomé, o cético, o incrédulo, o modelo dos realistas, de todos os pessimistas, dos que desconfiam quando as coisas saem bem. São Tomé é, como muitos homens modernos, um existencialista que não crê naquilo que não pode ser tocado ou visto porque não quer viver de ilusões. Para Tomé, como para muitos, o pior é sempre o mais seguro, paradoxalmente. Mas o que mais comovente, o que faz tão fraternal o apóstolo Tomé é sua violenta resistência. Porque ele sofreu muito mais do que os outros na paixão do Mestre. Mas sofrer por não crer é uma forma discreta, humilde, trágica, leal de começar a crer. Mas Tomé tem a humildade para voltar à comunidade que ele abandonou.


I. APARIÇÃO DE JESUS SEM TOMÉ


A cena do evangelho deste dia acontece em Jerusalém num lugar não especificado. A tradição o identificou, embora não tenha fundamento, com o Cenáculo, a sala de cima na qual os discípulos se reuniram antes de Pentecostes (At 1,13), e onde fora instituída a Eucaristia (Lc 22,12). Jo só nos relatou que os discípulos estavam reunidos num mesmo lugar para sublinhar o caráter eclesial da aparição. A primeira unidade do evangelho de hoje (Jo 20,19-23) narra sobre a aparição do Ressuscitado aos discípulos sem a presença de Tomé.


1. Jesus Vem Nos Trazer “Shalom” Conquanto Ele Deve Estar No Meio De Nós


O relato diz que as portas estão fechadas por medo dos judeus. “Todos os homens têm medo. Todos. Aquele que não tem medo não é normal, isso nada tem a ver com a coragem”, escreveu Sarte. “Sem o medo nenhuma espécie teria sobrevivido”, acrescentou G. Delpierre.


Realmente, a segurança fica cada vez mais distante de nós hoje em dia. Os homens perdem cada vez mais o direito de ir e de vir. Praticamente como se não fôssemos dono das coisas que conquistamos pelo nosso trabalho duro de cada dia. Perdemos o direito de usar as coisas que são nossas, fruto de nossa conquista e suor. Todos têm medo de andar na rua com coisas valiosas na mão. O muro de um prédio ou casa fica cada vez mais alto com intuito de impedir um pouco a invasão dos estranhos. As câmeras podem ser vistas em qualquer canto vigiando os que entram e saem num e dum prédio. Mas todas são feitas por um ser humana o que sugere a sua precariedade. Todos começam, por isso, a ter saudade dos tempos antigos em que podiam ficar na rua numa noite de lua cheia sem medo nem preocupação. É uma saudade do paraíso perdido pela própria culpa do ser humano. O pecado expulsa de nossa convivência a beleza do Paraíso da fraternidade. Consequentemente o ser humano se torna cada vez mais estranho para si e para os outros. Ele vive suspeitando qualquer outro desconhecido por causa da insegurança. O outro não é mais considerado como irmão, mas como uma ameaça. “A necessidade de segurança é, portanto, fundamental; está na base da afetividade e da moral humanas. A insegurança é símbolo de morte e a segurança símbolo da vida. Mas se ultrapassa uma dose suportável, ele se torna patológico e cria bloqueios. Pode-se morrer de medo, ou ao menos ficar paralisado por ele”, afirma Jean Delumeau. Nas cidades grandes tem-se impressão de que o medo já ultrapassou uma dose suportável. “O medo é um inimigo mais perigoso do que todos os outros” (Simenon). O medo constitui uma das maiores ameaças à vida; impede que a vida seja desfrutada e vivida em sua tranquilidade. O medo impede a criatividade e põe em perigo a esperança.


Será que temos ainda alguma esperança de encontrar algum meio para arrancar todo este medo que ultrapassou uma dose suportável? A Bíblia conhece somente um meio pelo qual o coração humano se pode defender do medo: a fé em Deus. Só Deus é a rocha. As outras seguranças desiludem. Somos desafiados, por isso, a viver e a mostrar este Deus, Pai de todos para que a fraternidade universal volte a ser marca de uma convivência humana. Mas enquanto Deus continuar a ser marginalizado (ficar na margem de nosso coração), o medo e a insegurança permanecerão na convivência humana.


O motivo do medo não é novo no quarto evangelho (cf. Jo 7,13;9,22;12,42). Os discípulos experimentaram amplamente o medo dos judeus. Seu Mestre foi executado e eles corriam risco de receber o mesmo castigo. O medo é uma emoção-choque, frequentemente precedida de surpresa, provocada pela tomada de consciência de um perigo presente e urgente que ameaça.  Normalmente o medo provoca efeitos como: a aceleração dos movimentos do coração ou sua diminuição; uma respiração demasiadamente rápida ou lenta; um comportamento de imobilização ou uma exteriorização violenta etc. Nessa situação, para os discípulos, ter medo era ser realista.


Certamente nessa situação Jesus apareceu no meio deles e disse: “A paz esteja convosco”.  A paz, Shalom, é a palavra que os judeus usam até hoje como uma saudação comum. A ideia bíblica de paz, Shalom, é rica. Significa muito mais que a cessação de violência e conflito. É o estado para o qual o mundo foi criado por Deus. É a melhor descrição de como será o Reino de Deus: um “lugar” de segurança, justiça e verdade; “lugar” de confiança, inclusão e amor; “lugar” de alegria, felicidade e bem-estar. Talvez possamos traduzir a palavra “Shalom” para o português com a expressão: “Tudo de bom para você!”


O “A paz esteja convosco” de Jesus, aqui neste texto, não é um desejo, e sim uma declaração. Ele vai além de um cumprimento por causa daquilo que Jesus proclamou na última ceia: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não vos dou a paz como o mundo dá” (Jo 14,27). A própria presença de Jesus Ressuscitado oferece aos discípulos essa paz maravilhosa, pois essa é, agora, a experiência de Jesus. Seu sofrimento ficou atrás, e ele agora habita na paz de Deus. Jesus ressuscitado vem libertar os seus. Ele é fiel, pois cumpriu aquilo que ele tinha prometido: “Não vos deixarei órfãos. Eu virei a vós” (Jo 14,18). Aquele que se sente desamparado, aquele que está desorientado, aquele que se sente perdido deve escutar e refletir a verdade dessa promessa da presença de Jesus ressuscitado: “Não vos deixarei órfãos. Eu virei a vós”. A paz voltará para a convivência, se houve um lugar central para Jesus na convivência.


Sejam órfãos no sentido literal da palavra, sejam aqueles órfãos de sentido, de carinho, de reconhecimento, de amor etc., todos encontrarão o amparo em Jesus Cristo. Procuremos este Amparo para que não sejamos órfãos de tudo. Não é por acaso que o evangelista João usa esta expressão “pôr-se no meio (centro) deles” (v.19). Isto quer dizer que Jesus deve ser o centro de nossa vida, deve ser o centro da vida da comunidade, pois ele é a fonte da vida, ele é o tronco dos galhos (cf. Jo 15,1-8), ele é o ponto de referência, o fator da unidade (cf. Jo 17,11.21-22). Para que uma comunidade se torne cristã, ela deve estar centrada em Jesus Cristo e somente nele.  Somente quando Jesus se torna centro de uma comunidade, evitar-se-á todo tipo de disputa desnecessária, a não ser somente uma disputa para servir. Sem este centro ficaremos órfãos, desamparados e perderemos a segurança. Além do mais a presença do outro se torna sempre uma ameaça e não mais uma presença de um irmão ou de uma irmã, quando Jesus Cristo não se torna único centro para todos.


Os discípulos são convidados a superar o medo e a abrir-se à fé; só assim tornam-se disponíveis para o dom da paz e da alegria, os dois dons que Jesus lhes tinha prometido no seu discurso de despedida (cf. Jo 14,27;16,33). A paz e a alegria são o dom do Cristo Ressuscitado, mas também condição para reconhecê-lo.


Ao contar a reação dos discípulos, Jo escreveu: “Então os discípulos se alegraram por verem o Senhor” (v.20b). O uso deste título-padrão “Senhor” pós-ressurreição é o mais próximo que João podia empregar para nos dizer que os discípulos acreditavam. Certamente “crer” no Senhor é o objetivo principal do Evangelho de João.


2. Missão de Jesus é a missão dos discípulos que tem origem no Pai


O que se segue é a missão dos discípulos: “Como o Pai me enviou, também eu vos envio” (v.21). Jesus é o Enviado por excelência (Jo 3,31-34;5,30;7,17s.28;8,16.28s.42;12,44s;16,28).        A missão provém de Deus, que quer dar a vida ao mundo. O envio dos discípulos implica tudo o que visava o ministério confiado a Jesus: glorificar o Pai, fazendo conhecer seu nome e manifestando seu amor (cf. 17,6.26). Do mesmo modo como o Pai esteve presente com Jesus na sua missão, assim os discípulos não estarão nunca sozinhos no cumprimento de sua missão (cf. Mt 28,20).  O uso do termo “como” aqui (vv.17.18.20.21), por isso, expressa ao mesmo tempo semelhança e causalidade. A missão dos discípulos deve ser uma continuação da missão de Jesus que tem como modelo na missão de revelação e de salvação que Jesus recebeu do Pai (cf. Jo 3,17.34; 5,36.38;6,57 etc.). Isto significa que os discípulos devem seguir o caminho que Jesus percorreu, devem agir como Jesus agiu, servir como ele serviu, perdoar como ele perdoou; ou simplesmente pode-se dizer que devem amar como ele amou (cf. Jo 13,34; 15,12). Trata-se, por isso, de uma única missão.


Aqui a ressurreição está vinculada à missão. Os discípulos são chamados e enviados para ser testemunhas do anúncio da morte que foi vencida, para ser testemunhas do “Shalom”. A Igreja surge ao redor dessa fé na ressurreição. Os discípulos são enviados para proclamar a verdade de que não é qualquer vida pode ressuscitar gloriosamente como a de Jesus, e sim somente uma vida que tem como características: vida de doação, de serviço, de perdão, de fidelidade plena a Deus, como foi a vida de Jesus. Somente assim, o cristão possuirá a vida eterna ressuscitada. Ser enviado significa ser pessoa que lança as sementes da ressurreição feito de justiça, de amor, de reconciliação e de abertura incondicional a Deus. Se um cristão, o enviado, fizer assim, a vida nova e a ressurreição estão germinando. E ele tem que cuidar bem deste germe para que ele possa chegar à sua plenitude.


3. O Sopro De Jesus É O Sopro Da Vida


“Dito isso, soprou sobre eles e disse: ‘Recebei o Espírito Santo’” (v.22). O gesto de Jesus reproduz o gesto primordial da criação dos seres humanos por Deus (Gn 2,7). O Criador “insuflou no homem um sopro que faz viver” (Sb 15,11;Ez 37,9). Assim como na primeira criação o sopro de Deus trouxe a vida ao ser humano, à sua imagem e semelhança, assim também a dádiva de Jesus de seu próprio Espírito torna os discípulos filhos de Deus, à semelhança do Filho. Agora eles nasceram do Espírito (cf. Jo 3,5). O sopro de Deus no Gênesis deu vida; o sopro de Jesus dá vida eterna. “Soprar”, por isso, quer dizer dar vida a quem não a tem. Isso significa que o ser humano só existe porque é sustentado pelo sopro de Deus. Trata-se agora da nova criação: Jesus glorificado comunica o Espírito que faz renascer o homem (cf. Jo 3,3-8), capacitando-o para partilhar a comunhão divina. O Filho que “tem a vida em si mesmo” dispõe dela a favor dos seus (cf. 5,26.21); e seu sopro é o da vida eterna. 


4. A Participação Dos Discípulos No Poder De Jesus Ressuscitado De Perdoar


João relata a dádiva do Espírito por Jesus com poder sobre o pecado: “A quem perdoardes os pecados eles lhes serão perdoados; a quem os não perdoardes, eles lhes serão retidos” (v.23). Jesus foi enviado como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo 1,29; cf. 1Jo 2,1-2). Agora Jesus compartilha esse poder com seus discípulos. A descrição deste poder se relaciona ao fato de que a vinda de Jesus produzirá um julgamento (krisis) na medida em que as pessoas optarem pelas trevas ou pela luz, de modo que alguns serão condenados e outros, não (cf. Jo 3,18-21).  Jesus se assemelha tanto a Deus, a ponto de as pessoas que o encontram serem levadas a um autojulgamento. Do mesmo modo, os discípulos devem se assemelhar a Jesus para que aqueles que os encontram sejam levados também a um autojulgamento similar. Neste sentido, representar Cristo em um grau que força as pessoas a tomarem uma decisão em suas vidas é um tremendo poder. A outorga do poder de perdoar os pecados, repetida duas vezes, é formulada de maneira tipicamente semita. A frase acima dita por Jesus (v.23) significa que o poder de perdoar dado por Ressuscitado à sua Igreja é total e definitivo. Os discípulos representam, em Jo, todos os cristãos futuros: as palavras que Jesus lhes dirige coletivamente visam sempre aos fiéis em geral. Do ponto de vista exegético, não se pode limitar aos “Onze” e aos seus “sucessores” a mediação do perdão divino que o Ressuscitado confia à comunidade dos seus, menos ainda porque esta palavra segue-se imediatamente depois daquela sobre o dom do Espírito Santo.


Para Jo o pecado fundamental é a recusa do Logos libertador. E essa recusa se manifesta através do medo e a busca da própria glória (Jo12,42s), da mentira (Jo 8,44), do ódio (Jo 15,18-25), do assassinato do Justo (Jo 7,19;8,40 e cf. 19,11). Estes princípios frustram o projeto criador e levam o homem à sua própria condenação. O pecado é opção que frustra o desígnio divino sobre o homem, privando-o da vida. O pecado cria assim uma situação de morte. O homem que faz a opção pelo pecado condena-se com ela à morte. O pecado é a solidariedade com o mal. Essa solidariedade opõe-se à solidariedade do bem criada por Jesus. Mas a salvação divina prevaleceu sobre as trevas e alcançou doravante todo ser humano, pela mediação dos discípulos. No contexto joanino, é o próprio Jesus que por meio dos seus discípulos, exerce o ministério do perdão (Jo 14,12. 20). A formulação em forma positiva e negativa vem do estilo semítico, que exprime a totalidade por um par de opostos. “Perdoar/manter” significa aqui a totalidade do poder misericordioso transmitido pelo Ressuscitado aos discípulos. A forma passiva “serão perdoados/retidos” referente ao efeito obtido implica que Deus é o autor do perdão. Pode-se dizer que no momento em que a comunidade perdoa, Deus mesmo perdoa.


II. A APARIÇÃO DE JESUS AOS DISCÍPULOS COM TOMÉ (Jo 20,24-29)


1. A Incredulidade E A Profissão De Fé De Tomé 


A segunda unidade fala do episódio com Tomé. É exclusivo de Jo. Tomé foi retratado em Jo 11,16 e 14,5 como uma figura não facilmente persuasível. Ele é um seguidor fino ou sutil mas é lento em captar o mistério da pessoa de Jesus, pois ele procura provas concretas e claras de fé (Jo 11,16;14,5).


O texto nos diz que “Tomé não estava com eles quando Jesus apareceu” (v.14). Ele está ausente da comunidade não só em sentido próprio, mas também no figurado. Com intransigência, ele rejeita o testemunho pascal dos outros discípulos que viram o Senhor. Recusar o testemunho da ressurreição é romper com a comunidade. Por esta recusa Tomé estraga sua própria alegria e ele se torna um isolado e decepcionado. Uma pessoa que se isola não tem como curá-la. As pessoas decepcionadas têm logo a tendência a criticar duramente nos outros aquilo que mais ardentemente desejaram para si mesmas, e que não puderam conseguir. A inveja torna a pessoa amarga. A pessoa se fecha no passado, incapaz de superá-lo. A dificuldade de Tomé é ter permanecido na Paixão quando a Ressurreição mudou tudo. Ele vive nas trevas do passado e recusa o hoje radioso. Por isso, ele se torna um isolado. Uma pessoa isolada não pode ser ajudada. Só ao sair do isolamento é que ela pode ser ajudada.


Os discípulos, que viram Jesus ressuscitado em Jo 20,19-23, fazem exatamente o mesmo relato que Maria Madalena fizera a eles: “Vimos o Senhor!”(Jo 20,18.25). Mas Tomé foi inflexível ao recusar-se a acreditar na palavra deles: “Se eu não vir... e puser meu dedo... não acreditarei” (v.25b). Na verdade, outros evangelistas relatam também dúvidas dos discípulos depois da ressurreição (cf. Mt 28,17; Mc 16,11.14; Lc 24,11.41), mas somente o evangelista João dramatiza a dúvida de modo tão pessoal em um só indivíduo. A atitude de Tomé em pedir provas foi condenada por Jesus em Jo 4,48: “Se não virdes sinais e prodígios, não crereis”. O Jesus de João não rejeita a possibilidade de que sinais (milagres) e prodígios levem o povo à fé, mas rejeita sinais(milagres) que exijam o cumprimento absoluto de condições. Neste relato Tomé é apresentado como um discípulo pré-pascal, pois ele exige o aspecto miraculoso da aparição de Jesus (Jo 4,48). Como Natanael, Tomé rejeitou a fé dos outros discípulos que tinham “visto o Senhor” (v.25;1,45-46). Tomé não só não aceita o testemunho dos que viram Jesus, mas põe condições para crer. Para ele a ressurreição não aconteceu e ele acha que ele tem razão e o resto está enganado. Tais exigência revelam a teimosia e a autossuficiência de Tomé. Ele pretende ter razão sozinho contra o testemunho de todos os outros. A teimosia, geralmente, costuma pagar caro.


Apesar da decepção e da dúvida que ele tem, no coração de Tomé ainda sobrevive o sentimento ou o desejo de ver o Senhor. Embora, para ele, voltar ao grupo signifique curvar a cabeça. Mas justamente no lugar de cura é que alguém tem coragem de mostrar as feridas. Diante de um médico é que uma pessoa tem coragem de falar das doenças.   


Nesse encontro quem toma a iniciativa é Jesus. Depois de saudá-los, Jesus logo convida Tomé a colocar dedo nas suas feridas dos pregos. Nessa altura, na sua experiência pessoal com Jesus, Tomé somente é capaz de dizer: “Meu Senhor e meu Deus” (v.28). A profissão de fé de Tomé encerra uma série de confissões feitas ao longo do Evangelho de João: por Natanael (1,49), pelos samaritanos(4,42), por Pedro(6,69), pelo cego de nascença(9,38), por Marta (11,27). ”Senhor” e “Deus” (Yahweh Elohim) são nomes para Deus no AT (Sl 35,23). Isto quer dizer que a fé pascal de Tomé reconhece Deus em Jesus ressuscitado. Na verdade, o evangelista já reconhece a divindade de Jesus desde o prólogo do seu evangelho: “No princípio era o Verbo... e o Verbo era Deus... E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,1.14). A resposta de Tomé em sua profissão de fé chama de volta as palavras de Jesus para si próprio e para Filipe: “Se me conheceis, também conhecereis a meu Pai...Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14,7.9).  Como Natanael, o seu firme cepticismo se transforma numa suprema profissão de fé depois que ele teve uma experiência pessoal com Jesus (v.28; 1,45-49).


A profissão de fé: “Meu Senhor e meu Deus” é a maior profissão de fé no Evangelho de João. A resposta de Tomé é tão extremada como sua incredulidade. Ao chamá-lo “meu Senhor”, Tomé reconhece o amor de Jesus e o aceita, expressando ao mesmo tempo sua total adesão. Tomé reconhece em Jesus o acabamento do projeto divino sobre o homem e o toma como modelo para si (meu Senhor e meu Deus) e reconhece em Jesus o servo glorificado em pé da igualdade com o Pai (Deus).


Esta confissão de fé no fim do Evangelho de João faz um elo com o prólogo (Jo 1,1). A ironia final do Evangelho é que o discípulo que mais duvidou faz a mais alta da profissão de fé e diz a expressão da mais alta avaliação de Jesus, proferida em qualquer Evangelho: “Meu Senhor e meu Deus”. No prólogo o evangelista afirma que a Palavra era Deus (Jo 1,1). Agora, por uma inclusão, ele mostrou como foi difícil para os seguidores de Jesus chegarem à tal visão. Tomé tem sido lembrado como o homem que duvida por excelência; todavia, as últimas palavras de Jesus para ele, em resposta à sua profissão de fé, constituem um invejável elogio: “Tu acreditaste” (v.29a).


3. A Bem-Aventurança Dirigida A Tomé E A Todos Os Que Creem Em Cristo


Tomé acreditou quando foi desafiado pelo Mestre a realizar seu projeto de investigação para acabar com a incredulidade. O louvor final para a fé, no entanto, é estendido por Jesus àqueles que tinham acreditado sem ver a presença corporal: “Felizes os que, sem terem visto, creram!” (v.29b). Esta é a única bem-aventurança explícita referente à fé no Evangelho de João (compare Jo 13,17). Além desta bem-aventurança, somente há em todo o NT mais uma bem-aventurança referente à fé: “Feliz és tu que creste...” (Lc 1,45) dita por Isabel a Maria. A autenticidade da fé não é verificada por experiências extraordinárias, como pretendia Tomé, mas pelas práticas concretas de comunhão (Tomé antes afastou-se da comunidade), de amor (que é o maior mandamento do Senhor cf. Jo 15,12), e de serviço aos irmãos como Jesus enfatizou no lava-pés (Jo 13,14-17). Por isso, esta bem-aventurança está ao alcance de todos. Ela privilegia os que creem sem ter visto. Esta bem-aventurança é dirigida aos cristãos de todos os tempos. Portanto ela é dirigida também a mim.  Tenho que estar consciente de que para Jesus sou feliz porque creio nele como o Senhor da minha vida.  Exageradamente posso dizer que eu deveria gritar diante do mundo que sou feliz, sou bem-aventurado pelo fato de eu acreditar n´Aquele que dá sentido à minha existência, Aquele se chama “Meu Senhor e meu Deus”. No evangelho de João, nenhum maior louvor pode ser dado a Jesus do que a frase “Meu Senhor e meu Deus”; e nenhum maior louvor pode ser dado aos seguidores de Jesus do que a frase “Felizes os que, sem terem visto, creram!”. Através desta fé, a profecia de Oséias 2,25 é cumprida: “Um povo que antigamente não era um povo disse: ‘O Senhor é meu Deus’”. O próprio evangelista João afirma que através daquela fé, os seguidores de Jesus “têm a vida em seu nome” (Jo 20,31).


Na verdade, não precisamos mais de outros sinais ou aparições. É basta abrir o Evangelho, descobrir o sentido profundo da Palavra de Deus e crer em Jesus para ter a vida em abundância (Jo 20,31), pois Jesus é a maior revelação do Pai. Crendo, começaremos ver o mundo com olhos diferentes, começaremos a perceber sentido na proposta de Jesus. A fé produz um modo novo de ver, traz uma nova escala de valores. A carta de São João diz que a vitória que vence o mundo é a fé (1Jo 5,4). Essa fé é que dá força para viver a partilha, mesmo quando a sociedade vive de acumular e explorar o próximo. Não se pode viver em paz enquanto outros sofrem e têm carência do essencial. Não sobra espaço onde cada um só pensa em si. Crer em Jesus é apostar a vida naquilo que ele propôs, mesmo quando não vemos logo um resultado. Ele nos diz que seremos felizes se acreditarmos nele. Mas também nos convida a levar a outros essa capacidade de crer e viver o evangelho. Pedro nos oferece um paralelo em sua primeira carta: “Sem tê-Lo visto, vós o amais “(1Pd 1,8). Este amor pede coragem porque jamais vimos Jesus histórico; e esta fé exige generosidade, porque não há mão que possamos segurar a não ser a mão de Deus. Que esta fé se realize na vida de cada um de nós e por nós na vida de muitos outros pois somos carta viva do Senhor ressuscitado, como diz São Paulo: “Evidentemente, sois uma carta de Cristo, entregue ao nosso ministério, escrita não com tinta, mas com o Espírito de Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, nos corações!” (2Cor 3,3).
 
P. Vitus Gustama,svd
27/04/2019
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APRENDER A INSTRUIR-SE PARA SER EVANGELIZADOR EFICAZ NAS MÃOS DO SENHOR
Sábado da I Semana da Páscoa


Primeira Leitura: At 4,13-21
Naqueles dias, os chefes dos sacerdotes, os anciãos e os escribas 13 ficaram admirados ao ver a segurança com que Pedro e João falavam, pois eram pessoas simples e sem instrução. Reconheciam que eles tinham estado com Jesus. 14 No entanto viam, de pé, junto a eles, o homem que tinha sido curado. E não podiam dizer nada em contrário. 15 Mandaram que saíssem para fora do Sinédrio, e começaram a discutir entre si: 16 “Que vamos fazer com esses homens? Eles realizaram um milagre claríssimo, e o fato tornou-se de tal modo conhecido por todos os habitantes de Jerusalém, que não podemos negá-lo. 17 Contudo, a fim de que a coisa não se espalhe ainda mais entre o povo, vamos ameaçá-los, para que não falem mais a ninguém a respeito do nome de Jesus”. 18 Chamaram de novo Pedro e João e ordenaram-lhes que, de modo algum, falassem ou ensinassem em nome de Jesus. 19 Pedro e João responderam: “Julgai vós mesmos, se é justo diante de Deus que obedeçamos a vós e não a Deus! 20 Quanto a nós, não nos podemos calar sobre o que vimos e ouvimos”. 21 Então, insistindo em suas ameaças, deixaram Pedro e João em liberdade, já que não tinham meio de castigá-los, por causa do povo. Pois todos glorificavam a Deus pelo que havia acontecido.


Evangelho: Mc 16,9-15
9Depois de ressuscitar, na madrugada do primeiro dia após o sábado, Jesus apareceu primeiro a Maria Madalena, da qual havia expulsado sete demônios. 10Ela foi anunciar isso aos seguidores de Jesus, que estavam de luto e chorando. 11Quando ouviram que ele estava vivo e fora visto por ela, não quiseram acreditar. 12Em seguida, Jesus apareceu a dois deles, com outra aparência, enquanto estavam indo para o campo. 13Eles também voltaram e anunciaram isso aos outros. Também a estes não deram crédito. 14Por fim, Jesus apareceu aos onze discípulos enquanto estavam comendo, repreendeu-os por causa da falta de fé e pela dureza de coração, porque não tinham acreditado naqueles que o tinham visto ressuscitado. 15E disse-lhes: “Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura!”
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Todos os especialistas concordam que o texto lido neste dia foi acrescentado ao evangelho de Marcos posteriormente para preencher a ausência das aparições de Jesus após a ressurreição, as quais relataram os outros evangelhos e outros textos do Novo Testamento. A exegese moderna reconhece a canonicidade deste texto, mas nega sua autenticidade como o de Marcos. O próprio evangelho de Marcos termina em Mc 16,8. Esse acréscimo aconteceu ainda na época apostólico.
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O Espirito Do Ressuscitado É Capaz De Transformar Os Humildes Em Pessoas Valentes


Os chefes dos sacerdotes, os anciãos e os escribas ficaram admirados ao ver a segurança com que Pedro e João falavam, pois eram pessoas simples e sem instrução. Reconheciam que eles tinham estado com Jesus”.


Lemos no texto da Primeira Leitura que os membros do Sinédrio ficam maravilhados ao ver a valentia de Pedro e João no discurso e na atuação como seguidores de Cristo, pois eles são homens sem instrução nem cultura. Tudo isto é o resultado da fé e do contato cotidiano com a Palavra de Deus capazes de transformar os mais humildes, como Pedro e João, em homens valentes e seguros de si mesmos. Três anos convivendo com Jesus eram suficientes para aprender muita coisa do Senhor Jesus, e sobretudo, porque eles viram o Cristo Ressuscitado. O contato pessoal com o Senhor Ressuscitado faz com que os apóstolos ganhem a coragem para levar adiante os ensinamentos de Jesus Cristo sem nenhum medo de qualquer tipo de autoridade e perseguição.


Viver é um privilégio, pois é um dom de Deus. É uma ocasião propícia para construir um mundo melhor, como lemos a história dos apóstolos no Livro dos Atos. Isto traz consigo outra consequência de que viver é construir um caminho novo a partir dos dons recebidos de Deus a fim de percorrer uma estrada que nenhuma outra pessoa poderá percorrer por mim. Além de ser um privilégio, como cristãos também viver é amar: amar os seres humanos, amar o Criador, amar a natureza e toda a criatura, pois todos pertencem a Deus. Para amar não se pode viver superficialmente, pois amar é questão de qualidade de vida. Quanto mais eu amo, mais me identifico com Deus, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). Nunca fracassa quem se empenha naquilo que tem o conteúdo de amor, pois o amor torna tudo perfeito e sem o qual tudo ficaria sem sentido.


Como cristãos, a exemplo dos Apóstolos, para avançar é preciso instruir-se, pois avançar significa superar obstáculos, semear esperança nos corações, aliviar pesares das pessoas, acalentar solidões, alimentar utopias apesar dos tropeços. Como cristãos avançar é aprender a olhar para cima (Deus) para não deter os passos, é deixar-se encher da Luz divina para enxergar melhor o caminho e permitir que Deus atue através de nós como o Senhor atuava através dos Apóstolos. Avançar do ponto de vista cristão significa estar pronto para servir, para estudar, para instruir-se a fim de servir melhor ainda. Diante da rápida evolução social somos obrigados cada vez mais a nos instruir, a ter contato permanente com o Senhor, pois sem Ele nada podemos fazer (cf. Jo 15,5). Um cristão que não avança nem progride se torna uma semente estéril. Nada se constrói de quem não quer progredir e avançar no Espirito do Senhor e na sensibilidade humana e solidariedade com a humanidade.


Somos Enviados Pelo Senhor Para Evangelizar


O texto nos relatou a aparição de Jesus aos Onze discípulos que aconteceu durante a refeição. A refeição é o momento fraterno, momento de partilha durante o qual se estreitam os laços de amizade, de família e de fraternidade mesmo que a qualidade daquilo que se come e se bebe esteja longe de seu valor nutritivo. O momento da refeição é o momento sagrado. É o momento de dar graças a Deus pela terra, criada por Deus, que produz o alimento e pela colaboração do homem em cultivar a terra para produzir alimentos para todos. Por isso, a ausência de um membro da família é bastante sentida nesses momentos, especialmente nos dias comemorativos. Um dos sacramentos instituídos por Jesus é, precisamente, o sacramento da “refeição fraterna” chamado a Eucaristia. É preciso que a nossa participação na Eucaristia reflita nossas refeições familiares e fraternas em nossas famílias, pois cada família é uma Igreja doméstica. E que a Eucaristia da qual participamos reflita também nas nossas refeições familiares e na convivência mais fraterna com os demais.


Durante a refeição é que o Senhor deu aos Onze discípulos o mandato de anunciar a Boa Nova para o mundo inteiro (toda criatura): “Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura!”.  O mandato de ir pelo mundo inteiro para evangelizar dado durante a refeição nos quer enfatizar que toda a atividade de evangelização deve ser feita no espírito de fraternidade e familiaridade, pois todos nós somos filhos e filhas do mesmo Pai celeste pela participação na filiação divina de Jesus Cristo que nos deu o mandato de proclamar a Boa Nova aprofundando nosso laço de fraternidade entre todos. Evangelizar, neste sentido, significa transformar todos em uma família cujo Deus é o Pai de todos. Consequentemente, todos são irmãos. Graças aos Apóstolos chegou até nós a Boa Nova. E por nossa vez, devemos levar adiante a evangelização.


Os apóstolos são testemunhas da grande mensagem da ressurreição e sua pregação está em torno da ressurreição do Senhor. E os apóstolos se defenderam com valentia diante do tribunal como lemos nos Atos dos Apóstolos. A fé e o contato cotidiano com a Palavra de Deus são capazes de transformar os mais humildes em homens valentes e seguros de si mesmos. É a valentia que nasce da liberdade da fé. Os apóstolos (acusados) eram gente simples e sem cultura, mas os homens seguros e valentes, intérpretes da Escritura e pregadores que passaram de acusados para acusadores. Não havia ordens nem ameaças capazes de os fazerem calar porque a força irresistível de Deus estava com eles. Os seus adversários se encontraram em nítida dificuldade ou em beco sem saída, e pretendiam ocultar fatos. Mas os fatos, como a cura do coxo (cf. At 4,13-21), falam ou se argumentam por si mesmos. Negar os fatos tão evidentes é considerar-se como mentiroso, cego ou manipulador, fruto de um autoritarismo e arrogância que por trás de tudo isso se esconde algum interesse pessoal ou coletivo, ou sente-se ameaçado nos seus negócios interesseiros. Mas quem vive no bem e do bem reconhece facilmente a presença da verdade onde estiver. Viver de acordo com a verdade é viver na liberdade e na leveza: “Se permanecerdes na minha palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8,32). Quem vive de acordo com a Palavra de Deus vive na verdade e conforme a verdade. Mas a verdade é para ser dita com caridade a fim de ganharmos os outros para Deus e para o bem maior.


Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura!”. Os Onze discípulos que saem para proclamar o evangelho pelo mundo são uns indivíduos duplamente culpáveis. São culpáveis de ter abandonado o Mestre durante a Paixão. São culpáveis também pela sua incredulidade depois da ressurreição, como relatou o evangelho de hoje: “Jesus apareceu aos onze discípulos enquanto estavam comendo, repreendeu-os por causa da falta de fé e pela dureza de coração, porque não tinham acreditado naqueles que o tinham visto ressuscitado”. Precisamente para estes discípulos é que Jesus dê este mandato: “Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura!”.  É levar a mensagem que não pertence aos discípulos, mas pertence a Jesus Cristo. Isto significa que eles devem se apoiar totalmente em Jesus Cristo permanentemente para ser fieis à mensagem do Senhor. Se não se apoiar em Jesus Ressuscitado acontecerão novamente a traição e a incredulidade. Quem prega não é porque seja melhor e mais inteligente do que os demais e sim por reconhecer-se pecador que recebeu o perdão de Deus e por ser incrédulo que foi libertado da incredulidade.


 Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura”. Pregar é o dever da Igreja. Isto quer dizer que é o dever de cada cristão. Cada cristão tem dever de transmitir a história da Boa Nova de Jesus para todos os que nunca a ouviram ou ouviram muito pouco. O dever do cristão é ser o mensageiro de Jesus. Cada cristão é, então, o mensageiro de Cristo neste mundo. E cada cristão tem que usar todos os meios ao seu alcance para propagar a Palavra de Deus: homilia, catequese, meios de comunicação, literatura, arte, festas e convivência. Mas é o anúncio respeitoso, sem impor, mas convidando; sem ameaçar, mas ofertando a salvação que liberta.


São Francisco nos aconselhou com as seguintes palavras: “Pregai sempre o Evangelho e, se for necessário, também com as palavras”. A atitude, o testemunho de vida, as obras precedem as palavras no anúncio do Evangelho. No anúncio, nossas palavras não podem ultrapassar nossas ações ou nosso testemunho de vida. Um provérbio latino diz: “Verba movent, exempla trahunt” = “As palavras movem, os exemplos arrastam”.  “A missão não se limita a um programa ou projeto, mas é compartilhar a experiência do acontecimento do encontro com Cristo, testemunhá-lo e anunciá-lo de pessoa a pessoa, de comunidade a comunidade e da Igreja a todos os confins do mundo (cf. At 1,8)”. (Documento Aparecida no.145).


Para todos os evangelizadores o Papa Francisco na sua exortação (Evangelii Gaudium: EG) escreveu: «Na doação, a vida se fortalece; e se enfraquece no comodismo e no isolamento. De fato, os que mais desfrutam da vida são os que deixam a segurança da margem e se apaixonam pela missão de comunicar a vida aos demais. Quando a Igreja faz apelo ao compromisso evangelizador, não faz mais do que indicar aos cristãos o verdadeiro dinamismo da realização pessoal: Aqui descobrimos outra profunda lei da realidade: “A vida se alcança e amadurece à medida que é entregue para dar vida aos outros”. Isto é, definitivamente, a missão. Consequentemente, um evangelizador não deveria ter constantemente uma cara de funeral. Recuperemos e aumentemos o fervor de espírito, a suave e reconfortante alegria de evangelizar, mesmo quando for preciso semear com lágrimas! (...) E que o mundo do nosso tempo, que procura ora na angústia ora com esperança, possa receber a Boa Nova dos lábios, não de evangelizadores tristes e descoroçoados, impacientes ou ansiosos, mas sim de ministros do Evangelho cuja vida irradie fervor, pois foram quem recebeu primeiro em si a alegria de Cristo». (EG 10) ... Espero que todas as comunidades se esforcem por atuar os meios necessários para avançar no caminho duma conversão pastoral e missionária, que não pode deixar as coisas como estão. Neste momento, não nos serve uma ‘simples administração’. Constituamo-nos emestado permanente de missão’, em todas as regiões da terra... O Evangelho convida, antes de tudo, a responder a Deus que nos ama e salva, reconhecendo-O nos outros e saindo de nós mesmos para procurar o bem de todos... A Igrejaem saída’ é uma Igreja com as portas abertas. Sair em direção aos outros para chegar às periferias humanas não significa correr pelo mundo sem direção nem sentido... Saiamos, saiamos para oferecer a todos a vida de Jesus Cristo! Repito aqui, para toda a Igreja, aquilo que muitas vezes disse aos sacerdotes e aos leigos de Buenos Aires: prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças.” (Evangelii Gaudium n 25.46.49)
P. Vitus Gustama,svd


Para Refletir: Documento Aparecida (DA)
 
  1. “Ao chamar os seus para que o sigam, Jesus lhes dá uma missão muito precisa: anunciar o evangelho do Reino a todas as nações (cf. Mt 28,19; Lc 24,46-48). Por isso, todo discípulo é missionário, pois Jesus o faz partícipe de sua missão, ao mesmo tempo, que o vincula como amigo e irmão. Dessa maneira, como ele é testemunha do mistério do Pai, assim os discípulos são testemunhas da morte e ressurreição do Senhor até que ele retorne. Cumprir essa missão não é tarefa opcional, mas parte integrante da identidade cristã, porque é a extensão testemunhal da vocação mesma (DA 144).
  2. Quando cresce no cristão a consciência de pertencer a Cristo, em razão da gratuidade e alegria que produz, cresce também o ímpeto de comunicar a todos o dom desse encontro. A missão não se limita a um programa ou projeto, mas é compartilhar a experiência do acontecimento do encontro com Cristo, testemunhá-lo e anunciá-lo de pessoa a pessoa, de comunidade a comunidade e da Igreja a todos os confins do mundo (cf. At 1,8). (DA 145)
  3. Bento XVI nos recorda que "o discípulo, fundamentado assim na rocha da Palavra de Deus, sente-se motivado a levar a Boa Nova da salvação a seus irmãos. Discipulado e missão são como as duas faces da mesma moeda: quando o discípulo está apaixonado por Cristo, não pode deixar de anunciar ao mundo que só ele nos salva (cf. At 4,12). De fato, o discípulo sabe que sem Cristo não há luz, não há esperança, não há amor, não há futuro". Essa é a tarefa essencial da evangelização, que inclui a opção preferencial pelos pobres, a promoção humana integral e a autêntica libertação cristã [DA 146] (Documento de Aparecida da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe,).