segunda-feira, 17 de junho de 2019

19/06/2019
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VIVER NA INTERIORIDADE RESULTA NO VIVER NA AUTENTICIDADE E NA GENEROSIDADE
Quarta-Feira da XI Semana Comum


Primeira Leitura: 2Cor 9,6-11
Irmãos, 6 “quem semeia pouco colherá também pouco e quem semeia com largueza colherá também com largueza”. 7 Dê cada um conforme tiver decidido em seu coração, sem pesar nem constrangimento; pois Deus “ama quem dá com alegria”. 8 Deus é poderoso para vos cumular de toda sorte de graças, para que, em tudo, tenhais sempre o necessário e ainda tenhais de sobra para toda obra boa, 9 como está escrito: “Distribuiu generosamente, deu aos pobres; a sua justiça permanece para sempre”. 10 Aquele que dá a semente ao semeador e lhe dará o pão como alimento, ele mesmo multiplicará as vossas sementes e aumentará os frutos da vossa justiça. 11 Assim, ficareis enriquecidos em tudo e podereis praticar toda espécie de liberalidade, que, através de nós, resultará em ação de graças a Deus.


Evangelho: Mt 6,1-6.16-18
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 1“Ficai atentos para não praticar a vossa justiça na frente dos homens, só para serdes vistos por eles. Caso contrário, não recebereis a recompensa do vosso Pai que está nos céus. 2Por isso, quando deres esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem elogiados pelos homens. Em verdade vos digo: eles já receberam a sua recompensa. 3Ao contrário, quando deres esmola, que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua mão direita, 4de modo que, a tua esmola fique oculta. E o teu Pai, que vê o que está oculto, te dará recompensa. 5Quando orardes, não sejais como os hipócritas, que gostam de rezar em pé, nas sinagogas e nas esquinas das praças, para serem vistos pelos homens. Em verdade, vos digo: eles já receberam a sua recompensa. 6Ao contrário, quando tu orares, entra no teu quarto, fecha a porta, e reza ao teu Pai que está oculto. E o teu Pai, que vê o que está escondido, te dará a recompensa. 16Quando jejuardes, não fi­queis com o rosto triste como os hipócritas. Eles desfiguram o rosto, para que os homens vejam que estão jejuando. Em verdade, vos digo: Eles já receberam a sua recompensa. 17Tu, porém, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto, 18para que os homens não vejam que estás jejuando, mas somente teu Pai, que está oculto. E o teu Pai, que vê o que está escondido, te dará a recompensa”.
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Ser Generoso É a Manifestação Da Gratidão Pela Generosidade De Deus Pelo Que Somos e Temos


Deus é poderoso para vos cumular de toda sorte de graças, para que, em tudo, tenhais sempre o necessário e ainda tenhais de sobra para toda obra boa... Aquele que dá a semente ao semeador e lhe dará o pão como alimento, ele mesmo multiplicará as vossas sementes e aumentará os frutos da vossa justiça”, escreveu São Paulo para os Coríntios no texto que lemos na Primeira Leitura.


Segundo os especialistas o capitulo nove da Segunda Carta aos Coríntios é um bilhete que São Paulo escreveu para outras comunidades cristãs na região de Corinto sobre o tema da coleta para a Igreja-mãe de Jerusalém. Por ser do mesmo tema, mais tarde foi inserido logo depois do capítulo oito da mesma Carta com as mesmas ideias e argumentações.


Teologicamente, o texto da Primeira Leitura de hoje enfatiza que Deus sempre recompensa a generosidade do homem que dá de bom grado. Este é um conceito clássico do AT e encoraja o homem a agir de tal maneira que o torne um beneficiário das bênçãos de Deus. Os valores espirituais que vêm de Deus ultrapassam os bens materiais que o homem procura. O pensamento de Paulo neste ponto está impregnado de referências bíblicas.


Quem semeia pouco colherá também pouco e quem semeia com largueza colherá também com largueza”, escreveu São Paulo.


O gesto humano (semear) se amplifica e se converte em uma colheita. Mas ao semear, corre-se um risco: não se sabe como será a colheita, nem sequer se sabe se colherá.


A caridade é como um ato de semear. Segundo São Paulo, a caridade não empobrece ninguém, pois Deus retribui a quem a pratica com bens e bênçãos (2Cor 9,6-10). A caridade praticada é, para o homem, como a sementeira. A colheita, como retribuição de Deus, corresponderá ao que foi semeado: “O generoso será abençoado porque reparte seu pão com o pobre” (Pr 22,8). A imagem da colheita é símbolo da recompensa no tribunal de Deus, no julgamento final (cf. Mt 25,31-45).


Além disso, a gratidão dos beneficiados será expressa em forma de agradecimento a Deus, origem de todo o bem. A caridade também é um dos instrumentos para levar os beneficiados a se aproximarem de Deus pelo bem recebido. O bem e a bondade praticados convencem os outros a acreditarem em Deus. E Deus compensa a caridade concedendo-lhe sempre a possibilidade de praticar novos atos caritativos.


Na prática da caridade São Paulo apela para a espontaneidade sem constrangimento nem coação nem má vontade nem pressão exterior.  Por isso, São Paulo afirma: “Deus ama a quem dá com alegria” (2Cor 9,7). Repartir com alegria o que se tem é um gesto muito nobre. Quando tivermos consciência de que tudo de bom recebemos de Deus, repartiremos gratuitamente o que temos com os que se encontram na extrema necessidade.


Somos Chamados a Viver Na Interioridade e Na Autenticidade


Ficai atentos para não praticar a vossa justiça na frente dos homens só para serdes vistos por eles. Caso contrário, não recebereis a recompensa do vosso Pai que está nos céus” (Mt 6,1).


O texto do evangelho de hoje pertence ao Sermão da Montanha (Mt 5-7). Através de sua Palavra de hoje o Senhor nos convida a vivermos na interioridade e na autenticidade, pois esse modo de viver nos traz a paz e a felicidade. Quando nossa interioridade ficar vazia, procuraremos algo fora de nós para nos apoiar. Somente usa a bengala quem tem pernas fracas para caminhar. Quem vive na interioridade a partir da interioridade, isto é, viver de acordo com os valores, não precisa provar que é importante. uma pessoa é valorizada pelos valores vividos e não pelos bens que se tem.


Através do Sermão da Montanha, Jesus quer que nossa vida seja na interioridade e na autenticidade; que não busquemos elogios nem a aprovação nem a recompensa; que busquemos apenas o bem e vivamos de acordo com ele. Simplesmente trabalhemos pelo bem. Em nome do bem, não temamos a reprovação nem o esquecimento nem a ingratidão. Basta viver com Deus, para Deus e na Sua presença. O que conta na nossa vida não é a opinião que os demais podem/possam ter de nós, e sim o que pensa Deus de nós, pois somente Deus tem capacidade de nos ver por dentro. É um deixar-se julgar por Deus, deixar-se interrogar por Ele, deixar-se impugnar por Ele. Por isso, é uma exigência muito mais forte do que a exigência dos homens e de todos os tipos de comentários.


Agradar a Deus exige um desprendimento de si infinitamente maior do que agradar os homens. Mas esta exigência é apaziguadora porque procede do interior, não busca vaidade nem vantagens humanas, nem exibicionismo nem apresentação teatral ao ajudar os demais ou ao fazer o bem. É preciso viver na autenticidade. É preciso saber distinguir o que apresentamos e o que representamos; o que é apresentação e o que é representação. Não basta apresentação, é preciso saber o que você está representando em tudo que você diz, comenta e faz.


Jesus nos alerta para vivermos na interioridade porque os mais belos gestos da verdadeira religião como a esmola, jejum e oração, podem, por desgraça, ser desviados de seu sentido: busca apenas de si mesmo, dos próprios interesses. A hipocrisia religiosa é pior de todas porque ela pode afastar as pessoas de Deus, especialmente os mais simples. Que nossa caridade seja invisível para os olhos dos homens, mas visível para os olhos de Deus. As obras de piedade não devem ser praticadas para ganhar prestígio diante dos homens e com isto, adquire uma posição de poder ou privilégio. Quem faz assim se priva da comunicação divina, cessa a relação de filho-Pai com Deus.


Quando se trabalha somente por Deus ou para Deus no bem praticado pelo bem do homem não há perigo de cair na demagogia, na adulação e no compromisso interesseiro. Na presença de Deus não há lugar para oportunismos nem para os oportunistas. A vida cristã há de ser vivida na simplicidade. Não podemos confundir o testemunho com teatralidade.


Três Práticas de Piedade: a Esmola, a Oração e o Jejum


Dar a esmola é uma prática comum no AT (cf. Dt 15,7-10; PR 11,17; Tb 4,7-11; Dn 11,17). É um convite para a prática de misericórdia para os pobres. A esmola une quem a dá com quem a recebe e com Deus, segundo os antigos. Por isso é que Jesus disse: “Quando deres esmola, não toques a trombeta diante de ti..”, isto é, não buscar a própria glória, humilhando o pobre, pois perderia a recompensa de Deus e diante de Deus. É preciso ajudar o pobre pelo seu bem e não pelo bem de quem presta a ajuda. É o bem pelo bem. Mais nada! O fim da própria atuação ao dar esmola é unir-se a Deus, o Pai que vê tudo em segredo.


No NT, a comunidade cristã vive profundamente esse compromisso (cf. Lc 4,18-21; At 2,42-46; 4,32.37; 2Cor 8,9.13). Quem dá esmola quer restabelecer a relação com o pobre. A situação de pobreza é contrária à vontade de Deus (cf. Mt 5,1-12) e, por isso, quem dá esmola cumpre a vontade de Deus. No entanto, o gesto de dar esmola deve ser fruto de cálculos egoístas e sim de uma verdadeira comunhão de bens: “Que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua mão direita”. Ao mesmo tempo a esmola não pode favorecer à preguiça pela facilidade em ganhar bens (dinheiro e outros bens materiais) por parte de quem a recebe. Não podemos trabalhar somente pelo pobre; temos que trabalhar com o pobre. Se você fizer um benefício ou um bem, nunca se lembre dele; se você receber um, nunca se esqueça dele.


A segunda prática de piedade é a oração. Não tem como não rezar se o homem leva a sério seu ser; se o homem vive sua vida na profundidade. A oração aproxima a terra ao céu. A oração derruba o muro que separa a humanidade de Deus. Oração leva quem reza para a esfera divina e introduz o homem no terreno sagrado. Mas Jesus nos alerta que o momento de oração não é um momento de ostentação. Quem reza, busca Deus e não a própria glória ou para ser visto pelos demais. Por isso, Jesus insiste na prática da interioridade. Jesus nos ensina que precisamos buscar momentos de encontro pessoal com o Pai e manter as conversas com Ele.


Além disso, Jesus acrescenta que o importante na oração não é a materialidade das palavras e sim como se vivem essas palavras no coração e como se pode expressar através delas a própria relação com o Pai e sentir-se em sintonia com Ele. Se o momento de oração é o momento de conversar com o Pai, logo o momento de oração é o momento de Deus se revelar. Para Deus se revelar é preciso criar o silêncio. O silêncio possibilita a presença da Eternidade no nosso presente.


A terceira prática da piedade é o jejum. Na tradição do Povo de Deus tanto o jejum como a esmola e a oração são fundamentos da relação: Deus-homem (eu)-irmãos. No AT se pratica também o jejum comunitário, por exemplo, no dia da Expiação (cf. Lv 16,29; 23,27). Jesus não elimina a prática de piedade; Ele quer que a cumpramos com sinceridade, sem nenhum tipo de hipocrisia. Todo sinal externo de jejum pessoal deve desaparecer para converter-se em um ato dirigido exclusivamente para Deus. A prática do jejum tem como objetivo buscar um contato mais íntimo com Deus, com Seu perdão, com Sua benevolência e com Sua graça. O jejum bíblico é um ato essencialmente de buscar o contato íntimo com Deus para que vivamos como irmãos. O profeta Isaias critica duramente quem pratica o jejum, mas oprime o irmão (cf. Is 58,3-9). Os elementos essenciais de um jejum agradável a Deus: o jejum unido à oração e encontra sua expressão mais autentica no serviço aos pobres. Trata-se de um jejum com uma dimensão social.


Ficai atentos para não praticar a vossa justiça na frente dos homens só para serdes vistos por eles. Caso contrário, não recebereis a recompensa do vosso Pai que está nos céus” (Mt 6,1) é o recado de Jesus para nós todos. Vivamos na interioridade e na autenticidade para que sejamos felizes e firmes nesta vida.
P. Vitus Gustama, SVD

sábado, 15 de junho de 2019

18/06/2019
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SOMOS CHAMADOS A SER GENEROSOS E A AMAR E REZAR PELOS INIMIGOS, POIS SOMOS FILHOS DO PAI DO CÉU
Terça-Feira da XI Semana Comum


Primeira Leitura: 2Cor 8,1-9
1 Irmãos, queremos levar ao vosso conhecimento a graça de Deus que foi concedida às Igrejas da Macedônia. 2 Com efeito, em meio a grandes tribulações que as provaram, a sua extraordinária alegria e extrema pobreza transbordaram em tesouros de liberalidade. 3 Eu sou testemunha de que esses irmãos, segundo os seus recursos e mesmo além de seus recursos, por sua própria iniciativa 4 e com muita insistência, nos pediram a graça de participar da coleta em favor dos santos de Jerusalém. 5 E, indo além de nossas expectativas, puseram-se logo à disposição do Senhor e também à nossa, pela vontade de Deus. 6 Por isso solicitamos a Tito que, assim como a iniciou, ele leve a bom termo entre vós essa obra de generosidade. 7 E como tendes tudo em abundância – fé, eloquência, ciência, zelo para tudo, e a caridade de que vos demos o exemplo – assim também procurai ser abundantes nesta obra de generosidade. 8 Não é uma ordem que estou dando; mas é para testar a sinceridade da vossa caridade que eu lembro a boa vontade de outros. 9 Na verdade, conheceis a generosidade de nosso Senhor Jesus Cristo: de rico que era, tornou-se pobre por causa de vós, para que vos torneis ricos, por sua pobreza.


Evangelho: Mt 5,43-48
43“Vós ou­vistes o que foi dito: ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo!’ 44Eu, porém, vos digo: ‘Amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem!’ 45Assim, vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus, porque ele faz nascer o sol sobre maus e bons, e faz cair a chuva sobre os justos e injustos.46Porque, se amais somente aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Os cobradores de impostos não fazem a mesma coisa? 47E se saudais somente os vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Os pagãos não fazem a mesma coisa? 48Portanto, sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito.
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Ser Generoso Para Os Necessitados Expressa Nossa Riqueza Interior e Nossa Humanidade


Conheceis a generosidade de nosso Senhor Jesus Cristo: de rico que era, tornou-se pobre por causa de vós, para que vos torneis ricos, por sua pobreza”.


A generosidade é um sinal de gratidão pelos benefícios recebidos de Deus e, ao mesmo tempo, manifesta a liberdade interior. O generoso não só dá as coisas para os necessitados, mas dá-se a si próprio por amor de Deus e do próximo, graças à sua liberdade interior. O generoso é livre interiormente porque ele não procura o seu próprio proveito, mas o daquele a quem favorece. Por isso, a generosidade que se concretiza na partilha e na solidariedade não empobrece, mas é geradora de vida e de vida em abundância.


O capitulo oito todo da Segunda Carta aos Coríntios fala do tema sobre a “coleta em favor da comunidade de Jerusalém” (no capitulo 9 será a continuação do tema sobre a generosidade). A comunidade-mãe, Jerusalém, passava por sérios problemas financeiros e outros problemas (At 11,28) porque a colheita daquele ano (no ano 48 a.C) era pouco. Sabendo dessa dificuldade, São Paulo procurou a ajuda nas outras comunidades cristãs como Macedônia e Corinto.


No texto da Primeira Leitura de hoje São Paulo pede, aos cristãos de Corinto para que participem com generosidade na coleta que se está organizando a favor da comunidade de Jerusalém.


São Paulo lhes põe como exemplo desta generosidade os cristãos de Macedônia na Grécia. Os cristãos de Macedônia eram mais pobres que os de Corinto, mas se esforçaram para conseguir a coleta para ajudar a comunidade-mãe de Jerusalém. Há outro exemplo desta generosidade mais expressivo: o próprio Jesus Cristo que “de rico que era, tornou-se pobre por causa de vós, para que vos torneis ricos, por sua pobreza”.


O sentido econômico da coleta na Igreja, dentro do contexto da leitura de hoje, é, pelos menos duplo. É uma ajuda para a sustentação da própria Igreja para que ela possa cumprir todos seus fins.


A coleta é, também, sinal da solidariedade com os mais pobres sejam ou não crentes. Ajudar os necessitados é procedimento bíblico, cristão e humano. Bíblico é porque a coleta em forma de esmola é um dos três pilares da piedade bíblica, além do jejum e da oração. A chamada “esmola” é costume bíblico. Cristão é porque o próprio Jesus Cristo a quem seguimos mantém os três pilares da piedade bíblica no qual está a esmola (cf. Mt 6,2-4). Humano é porque nos colocamos no lugar de quem é necessitado para aliviar uma parte de sua carência através de nossa ajuda. Ajudar os pobres e necessitados potencia nossa humanidade. O necessitado nos ajuda a sermos mais humanos e irmãos. Ajudar o necessidade nos leva a termos uma consciência plena de que fazemos parte da própria humanidade. Somos um como o corpo (cf. 1Cor 12,1-30). A dor um membro de nosso corpo afeta o resto do corpo. É assim a humanidade vivida na sua profundidade.


Mas a coleta ou “esmola” não pode ser feita a partir daquilo que sobra ou daquilo que resta. Nem pode ser feita em nome do poder, de superioridade ou do exibicionismo econômico. Se for assim, perderá seu valor de mérito. Partilhar é o reconhecimento de que tudo que sou e tenho vem de Deus. Ao partilhar o que tenho para aquele que se encontra em necessidade eu estarei prolongando o ato generoso do Deus-Criador de todas as coisas. Mas tudo tem que ser feito em segredo (cf. Mt 6,3).


É interessante observar que são os pobres os que mais sabem repartir ou partilhar. A Igreja em si, na sua maioria, é sustentada pelos que tem menos. Em nome dos pobres e em nome da honestidade, da justiça e da verdade jamais alguém dentro Igreja do Senhor poderá abusar de qualquer doação em nome do próprio interesse. Lembremo-nos de que é mais fácil fazer a caridade a partir do dinheiro dos outros (doação) do que do próprio bolso. O pior ainda, ao fazer isso, ainda nos sentimos “caridosos”.


Somos Chamados a Viver Como Misericordiosos


Amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem!’ Assim, vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus, porque ele faz nascer o sol sobre maus e bons, e faz cair a chuva sobre os justos e injustos


O texto do Evangelho de hoje se encontra no Sermão da Montanha (Mt 5-7). O texto do evangelho de hoje faz parte das seis antíteses nesse Sermão. Encontra-se no texto de hoje a última antítese. Nesta última antítese Jesus nos diz: “Ouvistes o que foi dito: ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo’”. Através desta antítese o cristão é chamado a não apenas superar a justiça dos fariseus (Mt 5,20), mas também a dos publicanos (pecadores), inclusive a dos pagãos. O cristão é chamado a viver sua filiação divina na convivência com os demais seres humanos. Viver na filiação divina é viver na sintonia com o coração do Pai que “faz nascer o sol sobre maus e bons, e faz cair a chuva sobre os justos e injustos”.


Por isso, diante da lei antiga Jesus faz seu comentário e sua reflexão que servem de instrução para os cristãos: Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem, para serdes filhos do vosso Pai que está nos Céus».


Inimigo” é uma palavra muito forte. Geralmente se refere àqueles que estão em estado de guerra. Pode também ser usada para descrever grupos ou indivíduos que oprimem outros, que algemam sua liberdade e impedem seu crescimento. Inimigo também é alguém que se coloca no caminho da nossa liberdade e dignidade. É alguém a quem evitamos e com quem nos recusamos comunicar. Nem sempre temos coragem de dizer que temos inimigos, pois esta palavra é muito forte.


Porém, consciente ou conscientemente a atitude de uma pessoa de não querer se comunicar com seu rival/inimigo vai virar a antipatia e a antipatia pode se transformar em mágoa; a mágoa se torna raiva e a raiva vai virar ódio. O ódio é como uma gangrena: devora a pessoa. Também o ódio é igual alguém a tomar o veneno e espera que o outro morra. Mas na verdade, quem toma o veneno é que vai morrer. Todas as nossas recusas em nos comunicarmos com os outros e nos abrirmos a eles encerram-nos na prisão. Em vez de nos ajudar a crescermos no amor, no perdão e na abertura, esse processo pode nos fechar em formas sutis de depressão e inércia. Nesse caso somos prisioneiros de nós mesmos ou do nosso grupo.


Creio que ainda temos plena consciência que as forças da vida e os desejos de comunhão são maiores do que a força da morte e do ódio. Por isso, no fundo, em todos os momentos nós somos chamados à liberdade e à abertura. Viver é uma permanente busca da liberdade para a salvação.


Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem”, diz-nos Jesus. Aqui amar o inimigo consiste em se tornar seu intercessor: “Orai por aquele que vos persegue”. O verdadeiro amor recusa qualquer tipo d vingança contra o inimigo. Ao contrário, deve-se oferecer-lhe alternativa para conviver. A motivação para fazer tudo isso é o modo de agir do Pai que “faz nascer o sol sobre maus e bons, e faz cair a chuva sobre os justos e injustos”.


Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem”. Trata-se de um apelo à mudança, a não mais sermos controlados por nossas mágoas e nossos medos, mas em pensarmos sobre a paz na direção à maturidade cristã.  Essas palavras parecem impossíveis de serem vividas quando o relacionamento foi profundamente atingido, ou mesmo rompido; quando o inimigo é aquele ou aquela que está na origem das graves feridas ou dos profundos sofrimentos, que talvez tenham destruída toda a nossa vida; quando nos encontramos diante do imperdoável.


Quando Jesus nos diz: “Amai vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem”, ele não vive no sonho. Em nenhum caso, amar o inimigo e orar por ele poderia significar que lhe damos licença de nos destruir. O amor é nunca destrutivo.


Amar o inimigo não pertence ao âmbito do sentimento, do sensível, mas ao domínio da vontade profunda, da opção, da vontade de estar em concordância com as leis do Reino. A palavra de Cristo é uma ordem de vida, não se refere ao sentimento.


Por isso, o mandamento do amor ao inimigo é a maior exigência da mensagem de Jesus. Segundo Jesus, o amor há de chegar a todos porque todo homem há de ter a experiência do amor de Deus. Neste ponto o homem há de ser colaborador de Deus. A medida da ação do homem é Deus: “Sejam perfeitos como o Pai do céu é perfeito”. Deus está no ato de amar. É o que diz o evangelho falando de “imitação de Deus” no mesmo ato de amar acima das comunidades naturais e sagradas nas quais vivemos. É o mesmo ato de amar que constitui caminho para Deus e não a qualidade sagrada do objeto amado.


Amar os inimigos e rezar por eles quando nos tratam mal superam todo preceito. É uma exigência que se apóia no exemplo do próprio Deus, que vê todos, bons e maus, como os Seus filhos. Amar os inimigos é gratuidade do amor que é vivido na presença de Deus e palavras que encontram a sua garantia na própria prática de Jesus. Na cruz Jesus rezou pelos inimigos: “Pai perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34). Tão integral foi sua identificação com os pecadores e criminosos, que ele teve que suplicar ao Pai que perdoasse aos responsáveis por sua crucificação. Perdão é o último testemento do Senhor para seus seguidores, para todos os cristãos. O perdão é a maior necessidade de toda a humanidade, pois somente através do perdão de nossos pecados e através do perdão que oferecemos aos outros é que alcançaremos paz de espírito, sem o qual a vida se tornará um tormento, uma infindável procura de uma satisfação que jamais chega. O perdão é o testamento escrito por Jesus na cruz.


Jesus não dá apenas leis novas para os cristãos e para as pessoas de boa vontade. Ele dá aquilo que não cabe dentro de nenhuma lei: uma atitude totalmente nova que não se explica humanamente.  “Amigo” e “inimigo” não serão nem salvos por minha simpatia, nem malditos por meu ódio. Pelo contrário, o que será julgado, salvo ou maldito, será meu ódio e meu amor. No relacionamento com o próximo, na minha facilidade de classificar amigos e inimigos, o julgado sou eu. O decisivo, portanto, não é o meu sentimento, mas a fé de que eles também estão colocados diante da face de Deus. A partir do meu comportamento diante deles e contra eles, eu serei julgado por Deus.


Verifiquemos a Verdade Dos Seguintes Pensamentos:
  • "Ama os teus inimigos, porque eles falam-te dos teus defeitos. Causar um dano coloca você abaixo do inimigo, vingar-se faz com que você se iguale a ele, perdoá-lo coloca você acima dele" (Benjamin Franklin).
     
  • Não tenha medo do inimigo que te ataca e sim do amigo falso que te abraça.
     
  • Não há amigos falsos, apenas os falsos que dizem ser amigos.
     
  • Nem teus piores inimigos podem fazer tanto dano como teus próprios pensamentos (Buda).
     
  • Quando não há inimigos interiores, os inimigos exteriores nada podem contra você (Provérbio africano).
     
  • Antes de querer derrubar um inimigo, aprenda a levantar um amigo.
     
  • O inimigo não estaria o atacando se você não tivesse algo de muito valor dentro de você. Ladroes não tentam roubar casas vazias de valores.

    P. Vitus Gustama, SVD

quinta-feira, 13 de junho de 2019

17/06/2019
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VIVER COMO JUSTOS E RECONCILIADOS
Segunda-Feira da XI Semana Comum


Primeira Leitura: 2Cor 6,1-10
1 Na qualidade de colaboradores seus, exortamo-vos que não recebais a graça de Deus em vão. 2 Pois ele diz: “Eu te ouvi no tempo favorável e te ajudei no dia da salvação”. Agora é o tempo favorável, agora é o dia da salvação. 3 A ninguém damos qualquer motivo de escândalo, para que o nosso ministério não seja criticado. 4 Mas em todas as coisas nos apresentamos como ministros de Deus, por uma grande constância nas tribulações, nas misérias, nas angústias, 5 nos açoites, nos cárceres, nos tumultos populares, nos trabalhos, nas vigílias, nas privações; 6 pela pureza, pela ciência, pela longanimidade, pela bondade, pelo Espírito Santo, por uma caridade sincera, 7 pela palavra da verdade, pelo poder de Deus; pelas armas da justiça ofensivas e defensivas, 8 através da honra e da desonra, da boa e da má fama. 9 Tidos por impostores, somos, no entanto, sinceros; por desconhecidos, somos bem conhecidos; por agonizantes, estamos com vida; por condenados e, no entanto, estamos livres da morte. 10 Somos julgados tristes, nós que estamos sempre contentes; indigentes, porém enriquecendo a muitos; sem posses, nós que tudo possuímos!


Evangelho: Mt 5,38-42
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 38 “Ouvistes o que foi dito: ‘Olho por olho e dente por dente!’ 39 Eu, porém, vos digo: Não enfrenteis quem é malvado! Pelo contrário, se alguém te dá um tapa na face direita, oferece-lhe também a esquerda! 40 Se alguém quiser abrir um processo para tomar a tua túnica, dá-lhe também o manto! 41 Se alguém te forçar a andar um quilômetro, caminha dois com ele! 42 Dá a quem te pedir e não vires as costas a quem te pede emprestado”.
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Nós Existimos e Vivemos Por Causa De Deus, Criador Da Existência


Exortamo-vos que não recebais a graça de Deus em vão. Agora é o tempo favorável, agora é o dia da salvação”.


Lendo ou escutando atentamente as palavras de São Paulo parece claro que cada um de nós tem que mostrar fidelidade a Deus nas circunstancias concretas de nossa existência, pois existimos por causa de Deus, sem nenhum mérito de nossa parte. Como escreveu São Lucas: “Nele vivemos, nos movemos e existimos” (At 17,28). A vida que possuímos não somos nós que damos a nós mesmos. Esta vida é outorgada a nós como um dom excelente para cultivá-la e protege-la como um tesouro, no sentido de não a usarmos para os prazeres do mundo, pois a vida não é nosso e sim é de Deus. A vida é dada para ser doada. A vida é um dom para ser dom para os demais na convivência. Cada um é dom de Deus para a humanidade. “Que não recebais a graça de Deus em vão”, exorta São Paulo. Assumir o fato de que existimos como dom de Deus nos permite experimentarmos a plenitude da vida, pois na vida existe Deus, o Doador da vida. As boas obras se tornam uma dádiva. Assumir o fato de que somos dom de Deus nos motiva a investirmos na generosidade e na partilha do que somos e temos para os outros seres humanos.


Se começarmos o dia, mal humorados, desconfiados e tristes, nem mesmo o próprio sol, nem as fogueiras, nem as lâmpadas coloridas acesas pelo consumismo conseguirão substituir a luz que nós mesmos deveríamos irradiar, pois existe uma luz que o sol e as centrais elétricas não podem gerar: É a luz do nosso coração, de nossa alma, de nosso interior. É a luz que vem do Alto. É a luz, que muitas das vezes, abávamos com os prazeres mundano e acabamos não vendo o sentido de nossa existência neste mundo. Somos a luz do mundo (Mt 5,14), isto é, somos aquelas pessoas que ajudam os outros a enxergarem melhor a vida e seu sentido. Quando uma pessoa começar a enxergar a vida, ela não vai querer mais tempo para viver e conviver bem.


O Momento Presente É a Nossa Própria Vida


Agora é o tempo favorável, agora é o dia da salvação”, acrescentou São Paulo. A única realidade que temos é o presente. Este instante é tudo que temos. Só podemos agir no momento presente ou nunca mais. E não há como apressar a chegada do próximo instante nem segurar o tempo que está fugindo de nós. É possível que tenhamos tido tempos no passado que foram especiais ou ruins para nós; pode ser que o futuro nos reserve momentos preciosos. Porém, o único tempo realmente “nosso” é este instante em que estamos agora. Cabe a nós decidir o que fazer com ele. Cada momento é meu para torná-lo belo ou doloroso de acordo com minha escolha. A consciência de que hoje ou agora é o tempo favorável me leva a viver uma total responsabilidade pelas minhas atitudes, ações e a ter coragem de aceitar o que somos e de encarar todo tipo de sofrimento, pois agora é o meu tempo favorável de salvação.


Agora é o tempo favorável, agora é o dia da salvação”. Não importa o quanto somos ocupados. Todos nós precisamos usar o tempo para gastá-lo em coisas que tornam a vida digna de ser vivida e convivida. Gaste o tempo para criar amigos, pois “Um amigo é um presente que você dá a si mesmo” (Robert Louis Stevenson). Ser bom para os outros é ser bom para si mesmo. Dar o melhor para os outros é uma forma de dar o melhor para si próprio. Quando limitarmos nossa bondade paralisaremos nosso crescimento para o bem.


Agora é o tempo favorável, agora é o dia da salvação”. Vamos nos concentrar no HOJE, pois é tudo que temos. Dentro deste dia há muitas escolhas e uma rica gama de experiências que teremos. Não podemos controlar os resultados, pois somente este instante, este hoje, este agora que está ao nosso alcance. Devemos saborear o momento presente e aprender com ele, pois este momento é a própria vida. Os próximos momentos não pertencem a nós, pois a vida não é uma bola de cristal. Fomos feitos para viver agora, pois “Agora é o tempo favorável, agora é o dia da salvação”.


A Misericórdia Divina Pede Para Vivermos Reconciliados


O texto do evangelho lido neste dia se encontra no Sermão da Montanha (Mt 5-7). Este texto é conhecido como a quinta antítese nesse Sermão que nos fala sobre como devemos nos relacionar com quem nos ofendeu. Para entender o significado desta antítese precisamos conectá-la com as bem-aventuranças na abertura do Sermão da Montanha. Em algumas das bem-aventuranças Jesus declara: “Bem-aventurados os mansos... Bem-aventurados os misericordiosos... Bem-aventurados os que promovem a paz...”. É isto que Jesus nos ensina agora e nos ensinará também com seu exemplo (cf. Mt 11,28-30; 12,18-21). Na Paixão, Jesus pedirá o perdão ao Pai para os malvados (cf. Lc 23,34). São Pedro na sua primeira Carta escreveu: “Quando injuriado, não revidava; ao sofrer, não ameaçava, antes, punha a sua causa nas mãos daquele que julga com justiça” (1Pd 2,23).


Nesta quinta antítese, Jesus faz seu comentário sobre a lei de talião do Antigo Testamento. No Livro do Êxodo lemos: “Vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, queimadura por queimadura, ferida por ferida, golpe por golpe” (Ex 21,23-25; cf. Lv 20,17-22). Aqui se acentua a vingança proporcional ou a vingança na mesma medida.


A lei de talião era conhecida em todo o Oriente Antigo. Ela é encontrada no Código Hammurábi, nas leis assírias, na Torá bem como também entre os gregos e os romanos.


No famoso Código de Hammurábi (século XVIII a.C) encontramos os seguintes artigos referentes à Lei de talião:
  • O artigo 196: “Se alguém arrancar um olho de outro, também seu olho será arrancado”.
  • O artigo 197: “Se alguém quebrar um membro de outro, também um de seus membros será quebrado”.
  • O artigo 200: “Se alguém quebrar um dente de outro, um de seus dentes será quebrado”.
     
    A finalidade primordial dessa lei era colocar um limite a uma vontade desenfreada de vingança em uma sociedade em que a vingança era quase que institucionalizada (cf. Gn 4,23-24). Portanto, a intenção dessa lei era proteger os direitos das pessoas contra os excessos de violência.
     
    Na quinta antítese do Sermão da Montanha Jesus faz uma reflexão sobre a lei de talião e oferece uma solução: “Pelo contrário, se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a esquerda. Se alguém quiser levar-te ao tribunal, para ficar com a tua túnica, deixa-lhe também o manto. Se alguém te obrigar a acompanhá-lo durante um quilômetro, caminha dois com ele. Dá a quem te pedir e não vires as costas a quem te pede emprestado” (Mt 5,38-42).
               
    Com esta antítese Jesus coloca como alternativa à violência, não a lei de talião, mas a não-violência. Na verdade, Jesus já colocou nas Bem-aventuranças a atitude certa contra a violência: “Bem-aventurados os mansos, bem-aventurados os misericordiosos, bem-aventurados os que promovem a paz”. Jesus nos ensina também com seu exemplo (cf. Mt 11,28-30; 12,18-21). E São Pedro na sua Carta escreveu que Cristo “Quando injuriado, não revidava; ao sofrer não ameaçava, antes, punha a sua causa nas mãos daquele que julga com justiça” (1Pd 2,23).
     
    A reação paradoxal que Jesus sugere aos cristãos, diante da violência, tem uma finalidade concreta: mostrar as possibilidades extremas de aplicação do seu mandamento de amor. Quem é movido por um amor incondicional ao próximo será capaz de fazer gestos radicais para coibir a violência, sem responder com a mesma moeda. Tudo supõe que se tenha um coração limpo (cf. Mt 5,8). A lei de talião é excluída pela pureza de coração e pela compaixão. O cristão é chamado a não entrar na engrenagem infernal de um violento e não reagir com a violência à violência.
           
    Segundo Jesus não basta “aguentar” os maus; devemos fazer, por eles, algo de positivo. Jesus não quer bobos, mas fortes, capazes de fazer algo para que o mundo mude ou melhore. Não é suficiente sofrer, enquanto tivermos ainda uma possibilidade de fazer positivamente o bem.
     
    Não é possível viver odiando em inimizade profunda e irreversível. O dano interior provocado por uma relação esfarrapada corrói nossas melhores energias e o Templo de Deus em nós se deteriora (cf. 1Cor 3,16-17) e os sentimentos de vingança o deformam lentamente. O perdão é o testamento escrito por Jesus na cruz. Da cruz Jesus pede perdão por todos aqueles que o crucificaram: “Pai, perdoa-lhe porque sabem o que fazem” (Lc 23,34).
     
    Vamos olhar para nossa realidade, tanto dentro da Igreja como fora dela, na sociedade, e vamos nos perguntar: a Lei de Talião ainda continua sendo praticada? Será que abandonamos a cultura que o Papa Francisco denomina a Cultura do encontro em que um se torna próximo do outro e por isso, um tem que cuidar do outro? A cultura do encontro freia até elimina a cultura de violência em que tudo se resolve com a briga e a vingança? Não temos tentação em fazer vingança contra o outro que não está de acordo com nosso pensamento e nossa maneira de viver? Viver uma vida de uma maneira só é uma grande pobreza e mata toda a criatividade.
     
    Deveríamos realizar um progressivo desarme intelectual, moral e religioso. É não justificar o injustificável. É crer na força do amor. É tirar da Eucaristia a certeza de curar nossas feridas profundas. Toda vez que fazemos memória da morte e ressurreição de Cristo, o mesmo Senhor nos introduz, pelo Espírito, na plenitude de sua existência pascal.
     
    Quando o amor for “excesso” o mal é obrigado a não se produzir e sua existência se extingue. Não é uma petição aos heróis e sim para todos os cristãos para que imitem o exemplo do seu Senhor Jesus Cristo. Para isso, temos que pedir permanentemente ao Senhor sua graça e força que vem de Seu Espírito para acontecer uma transformação profunda no nosso modo de viver com os demais homens. Mas “Empregar o nome de não-violência quando existe uma espada em vosso coração é, não somente hipocrisia e desonesto, mas, ainda, covardia. Se permanecermos não-violentos, o ódio ficará sem efeito. O primeiro princípio da ação não-violenta é o da não-cooperação com tudo que é humilhante” (Mahatma Gandhi).
     
    Reflitamos as seguintes palavras do escritor e psicólogo argentino, René Juan Trossero:
     
    Não me importam as suas teorias sobre a violência;
    O que me interessa saber é como você vive
    No meio da violência que nos cerca por todas as partes.
     
    Se você nunca foi vítima da violência,
    Fale sobre ela com prudência
    Por respeito aos que a sofrem na pele.
     
    Provocar a violência em nome de Deus
    E do Evangelho é um sacrilégio.
    Pregar a resignação para os que sofrem a violência,
    Invocando Deus e o Evangelho, é uma trapaça.
     
    Não acabará a violência quando houver menos armas,
    E sim quando houver mais amor.
     
    Destruir a violência com a violência
    É como apagar um incêndio com gasolina.
    A única maneira de lutar contra a violência
    É não provocá-la”.   (René Juan Trossero)
     
    São Pedro descreve Jesus da seguinte maneira: “Quando injuriado, não revidava; ao sofrer, não ameaçava, antes, punha a sua causa nas mãos daquele que julga com justiça” (1Pd 2,23).
     
    O ser humano não deve responder ao mal com o mal, pois gerará mais violência. Ele deve trabalhar pela paz e, para isso, ele tem que interromper a cadeia de vingança. Ele tem que surpreender com amor e generosidade ao próximo que o ofende. Somente assim poderemos criar uma sociedade nova.
     
    Diante deste Jesus precisamos olhar para nossa maneira de viver e de conviver, pois adotamos a maneira de viver de Jesus como nossa e assumimos seus ensinamentos para nossa vida cotidiano, pois somos cristãos? Será que podemos nos dizer como somos cristãos, ou estamos cristãos ainda?
    P.Vitus Gustama,svd

Domingo,16/06/2019
Imagem relacionadaImagem relacionadaResultado de imagem para Quando, porém, vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à plena verdade. Pois ele não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido; e até as coisas futuras vos anunciará.
VIVER EM COMUNHÃO COM A SANTÍSSIMA TRINDADE
ANO C


Primeira Leitura: Pr 8,22-31
Assim fala a Sabedoria de Deus: 22 “O Senhor me possuiu como primícia de seus caminhos, antes de suas obras mais antigas; 23 desde a eternidade fui constituída, desde o princípio, antes das origens da terra. 24 Fui gerada quando não existiam os abismos, quando não havia os mananciais das águas, 25 antes que fossem estabelecidas as montanhas, antes das colinas fui gerada. 26 Ele ainda não havia feito as terras e os campos, nem os primeiros vestígios de terra do mundo. 27 Quando preparava os céus, ali estava eu, quando traçava a abóbada sobre o abismo, 28 quando firmava as nuvens lá no alto e reprimia as fontes do abismo, 29 quando fixava ao mar os seus limites — de modo que as águas não ultrapassassem suas bordas — e lançava os fundamentos da terra, 30 eu estava ao seu lado como mestre-de-obras; eu era seu encanto, dia após dia, brincando, todo o tempo, em sua presença, 31 brincando na superfície da terra, e alegrando-me em estar com os filhos dos homens”.


Segunda Leitura: Rm 5,1-5
Irmãos: 1 Justificados pela fé, estamos em paz com Deus, pela mediação do Senhor nosso, Jesus Cristo. 2 Por ele tivemos acesso, pela fé, a esta graça, na qual estamos firmes e nos gloriamos, na esperança da glória de Deus. 3 E não só isso, pois nos gloriamos também de nossas tribulações, sabendo que a tribulação gera a constância, 4 a constância leva a uma virtude provada, a virtude provada desabrocha em esperança; 5 e a esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado.


Evangelho: Jo 16,12-15
Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 12 “Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de as compreender agora. 13 Quando, porém, vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à plena verdade. Pois ele não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido; e até as coisas futuras vos anunciará. 14 Ele me glorificará, porque receberá do que é meu e vo-lo anunciará. 15 Tudo o que o Pai possui é meu. Por isso, disse que o que ele receberá e vos anunciará, é meu”.
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No Domingo depois do Domingo de Pentecostes celebramos a festa da Santíssima Trindade. A Santíssima Trindade é um mistério, mas um mistério no qual estamos imersos. O que adoramos é o Deus vivo, o Deus em que vivemos, nos movemos e existimos (Cf. At 17,28).


As pessoas divinas da Trindade não são estranhas para nossa fé cristã. Ainda nos braços da mamãe aprendemos a fazer o sinal da cruz e é nossa primeira oração: “Em nome do Pai e do Filho e do Espirito Santo”.  Depois decoramos a doxologia: “Glória ao Pai, ao Filho e ao Espirito Santo”.


Pelo Batismo participamos na vida de Deus; entramos em relação pessoal com o Deus uno e trino. A graça batismal nos incorpora a Cristo, nos enche com seu Espirito e nos faz filhos e filhas de Deus. Em uma meditação sobre a Trindade, santo Tomás de Aquino afirma que pela graça não somente o Filho, mas também o Pai e o Espírito Santo vem morar na mente e no coração. O Pai vem nos fortalecendo com seu poder; o Filho nos iluminando com sua sabedoria; o Espirito Santo com sua bondade enche de amor nossos orações.


Os nossos pecados são perdoados no sacramento da confissão em nome da Santíssima Trindade: “Eu te absolvo dos teus pecados em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”.


E por ser central para a nossa vida, a Santíssima Trindade é continuamente invocada em toda a liturgia e em todas as nossas orações. E ao começarmos e terminarmos a missa e muitas orações nossas diariamente, inclusive as orações presidenciais da missa, nós invocamos a presença da Santíssima Trindade. Nossa vida diária é realmente cercada pela Santíssima Trindade. A nossa vida é uma liturgia: ao iniciarmos a vida, fomos batizados em nome da Santíssima Trindade e ao terminarmos a nossa caminhada terrena, mais uma vez, a presença da Santíssima Trindade é convocada: a nossa vida se entrega de volta para a comunhão eterna com a Santíssima Trindade.


A presença da Santíssima Trindade em todos os momentos de nossa vida nos leva a uma vida serena pois, na verdade, há alguém que nos envolve, nos abraça e nos cerca por todos os lados e nos ama de verdade. Ninguém nos conhece melhor como ele nos conhece, pois ele nos conhece e penetra lá no fundo de nosso coração. Não só isso, também ele conhece todos os segredos, todos os mistérios e todos os caminhos. Nele encontramos respostas para todas as nossas interrogações. Ele é realmente um útero infinito e a última ternura onde todos nós podemos nos refugiar. Com ele ninguém se sente só, pois ele é eternamente aberto para nós.


Cremos em um Deus, mas nosso Deus não é solitário nem isolado. É um Deus que deseja compartilhar sua vida; é pura bondade, e a propriedade da bondade é comunicar-se.


Não é um Deus distante ou remoto. Na Primeira Leitura tirada do Livro dos Provérbios (Ciclo C), a sabedoria personificada grita: “Eu estava ao seu lado como mestre-de-obras; eu era seu encanto, dia após dia, brincando, todo o tempo, em sua presença, brincando na superfície da terra, e alegrando-me em estar com os filhos dos homens” (Pr 8,30-31). Deus está tão perto de nós, por seu Espírito que nos capacita a gritar: “Abbá, Paizinho” (Rm 8,15). Seu amor foi derramado em nossos corações por esse mesmo Espírito: “O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5).


Para entender melhor a fé no Deus uno e trino, temos que unir dois elementos fundamentai de nossa fé que são objeto da revelação de Deus sobre Si mesmo. Primeiro, professamos e cremos na existência de um só Deus e único Deus (Monoteísmo). Recebemos esta convicção do Antigo Testamento, e tem em comum com o judaísmo e o islamismo. Segundo, a partir de nossa fé que recebemos da revelação no Novo Testamento acreditamos que este único Deus subsiste em três pessoas: Pai, Filho e Espirito Santo, fé que especifica a originalidade cristã e a distingue de todas as outras religiões, monoteístas e politeístas.


Um conceito-chave na teologia trinitária para compreender este mistério é o de PERICÓRESE, já utilizado desde os primeiros tempos do cristianismo. É um termo empregado pela teologia em sua forma original grega, pois não se encontra um termo técnico nas línguas modernas para traduzir o termo. Em relação à Trindade, PERICÓRESE significa “a mútua inclusão, o recíproco estar-um-dentro-do-outro, a presença ou compenetração que se dá reciprocamente entre as Pessoas divinas, que se unem distinguindo-se e se distinguem unindo-se” (Enrique Cambón). “Unidas sem confusão e separadas sem divisão”, dizia são João Damasceno. Na vida trinitária, cada pessoa é ela mesma ao dar-se às outras, é ela mesma por meio das outras.


Mas não basta crer em um e único Deus. Devemos perguntar de que jeito vive Deus, para podermos questionar a nós mesmos, de que jeito também nós vivemos e convivemos? Deus vive do jeito trinitário. Cremos que Deus é único mas não é solidão ou solitário, é comunhão.


Crer na Santíssima Trindade significa que a verdade está do lado da comunhão e não da exclusão; a verdade está na solidariedade, na compaixão, na ajuda mútua. Isto implica que tudo se relaciona com tudo. É uma inclusão no relacionamento e na convivência.


A Trindade nos afirma que Deus é Comunhão. O que significa quando dizemos que Deus é comunhão? O que isso implica? Implica uma estar em presença da outra, distinta da outra, mas aberta, numa radical reciprocidade. Para que haja verdadeira comunhão, devem existir relações diretas e imediatas: olho a olho, rosto a rosto, coração a coração. O resultado da mútua entrega e da comunhão recíproca é a comunidade. A comunidade resulta de relações pessoais, onde cada um é aceito como é, cada um se abre ao outro e dá o melhor de si mesmo.


Crer na Santíssima Trindade é crer e viver na comunhão e não na divisão nem no isolamento. A comunhão é a realidade mais profunda e fundadora que existe. É por causa da comunhão que existem o amor, a amizade, a benquerença e a doação entre as pessoas humanas e divinas. A comunhão da Santíssima Trindade não é fechada sobre si mesmo. Ela se abre para fora. Todas as criaturas, de modo especial os homens e as mulheres são convidados para também entrarem no jogo da comunhão entre si e com as Pessoas divinas. A comunhão é sempre a inclusão. A comunhão transforma o estrangeiro em pessoa de casa para sentir-se em casa. O espirito da comunhão nos torna acolhedores (espírito de acolhimento).


A fé viva na Santíssima Trindade tem como consequência necessária, para nós, a busca de relações novas e até mesmo a criação de novos tipos de sociedade, animados pela procura da igualdade e da fraternidade. Por isso, o egoísmo, a exclusão, o isolamento, a opressão e a exploração são uma negação ao Deus como comunhão. A comunhão, que é a natureza da Santíssima Trindade, significa crítica a todas as formas de exclusão e não participação que existem e persistem na sociedade e também nas comunidades eclesiais ou nas Igrejas. A Santíssima Trindade também incentiva as necessárias transformações para que haja comunhão e participação em todas as esferas da vida social e religiosa. Ela também incentiva cada família, que é o símbolo perfeito e a imagem mais rica da Santíssima Trindade, a buscar sua perfeição na comunhão e no amor, no mútuo comunhão e reconhecimento.


Toda a Trindade é um diálogo de amor sobre a salvação e a vida que o Filho derrama sobre o mundo, criado por amor. O Pai envia o Filho, o Espírito fecunda e faz possível esta missão audaz: o Filho se faz homem e entra em nossa história como primogênito de muitos irmãos (Rm 8,29), para reunir os filhos e as filhas de Deus dispersos pelo pecado e pela divisão (Jo 11,51-52), para superar a divisão de Babel (Gn 11).


Quem revela a Santíssima Trindade para nós? É Jesus Cristo. Jesus Cristo é o revelador do mistério da Santíssima Trindade em Deus, como relata o texto do Evangelho de hoje (Pai, Filho e Paráclito). Ele é o verdadeiro autor de uma primeira teologia trinitária. Por meio dele o Pai revelou o que necessitamos saber para nossa salvação; e não haverá outra revelação pública.


No pequeno trecho tirado do Evangelho de João que serve como o evangelho desta Santa Missa, encontramos a Santíssima Trindade revelada por Jesus Cristo. Nele ele fala do Pai, de si e do Espírito Santo. Jesus ensina tudo que recebe do Pai (Jo 15,15) para os discípulos. Neste texto, Jesus diz: “Tenho ainda muitas coisas a vos dizer, mas não sois capazes de compreender agora”. Ele quer lhes dizer que não dá para explicar tudo de uma vez para sempre. É impossível entender o sentido das coisas antes que aconteçam.


Mas como, então, eles poderão entender sem a presença de Jesus? Aí é que vem a promessa de Jesus: “Quando vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá na verdade plena”. A verdade na qual o Espírito da Verdade nos conduz não é coisa feita e acabada, mas a compreensão certa de cada novo momento. O Espírito da Verdade nos guia na plenificação da verdade porque Jesus viveu num determinado momento e lugar (Palestina), mas o Espírito Santo que ele envia é para todos os momentos. O Espírito da Verdade participa ativamente do “anúncio” que está sendo levado pela comunidade.


O papel do Espírito da Verdade não é dar-nos nova revelação, acrescentada à de Jesus, pois o ensinamento do Espírito Santo tem a mesma natureza, qualidade e importância que o ensinamento de Jesus durante sua vida terrestre. O papel do Espírito Santo é iluminar, guiar, estimular a Igreja, todos nós, a interpretar sempre mais a fundo a Palavra de Deus. Ele é atualizador da memória de Jesus. Ele nunca deixa que as palavras de Jesus permaneçam mortas, mas que sempre sejam relidas, ganhem novas significações e implementem novas práticas. Com efeito, a Palavra de Deus não é um depósito de proposições cristalizadas, mas é uma palavra viva. A Palavra de Deus é uma força dinâmica que continua a revelar-se seu significado na história que se enriquece pela reflexão, pela experiência e vicissitudes históricas da Igreja com a ajuda do Espírito Santo. E o Espírito Santo foi e continua sendo derramado sobre todos nós. Ele habita os corações das pessoas, dando-lhes entusiasmo, coragem e determinação. Ele é uma Pessoa divina junto com o Filho e o Pai, emergindo simultaneamente com Eles e estando essencialmente unidos a Eles pelo amor, pela comunhão e pela mesma vida divina.


A solenidade da Santíssima Trindade nos remonta à intimidade de Deus a partir da história da salvação. A oração da coleta descreve assim o itinerário da salvação: “Ó Deus, nosso Pai, enviando ao mundo a Palavra da verdade e o Espírito Santificador, revelastes o vosso inefável mistério”. A petição é esta: “Fazei que, professando a verdadeira fé, reconheçamos a glória da Trindade e adoremos a Unidade onipotente”.


O Deus Trindade se revela para comunicar-se. Deus nos introduz em sua própria vida de comunhão. O amor é a razão essencial e o cumprimento total de nossa existência humana. Assim é a salvação.


A exclamação de quem viveu a Páscoa passo a passo somente pode ser esta: “Bendito seja Deus Pai, e seu Filho Unigênito, e o Espírito Santo, porque tem misericórdia de nós”. A partir dessa realidade da misericórdia de Deus é que necessitamos dizer cordialmente (com coração): “Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Como era no princípio, agora e sempre. Amém!”.
P. Vitus Gustama,SVD