sexta-feira, 29 de março de 2019

02/04/2019
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JESUS, ÁGUA VIVA, SATISFAZ MEUS ANSEIOS MAIS PROFUNDOS DA MINHA VIDA
Terça-Feira da IV Semana da Quaresma


I Leitura: Ez 47,1-9.12
Naqueles dias, 1 o anjo fez-me voltar até a entrada do Templo e eis que saía água da sua parte subterrânea na direção leste, porque o Templo estava voltado para o oriente; a água corria do lado direito do Templo, ao sul do altar. 2 Ele fez-me sair pela porta que dá para o norte, e fez-me dar uma volta por fora, até a porta que dá para o leste, onde eu vi a água jorrando do lado direito. 3 Quando o homem saiu na direção leste, tendo uma corda de medir na mão, mediu quinhentos metros e fez-me atravessar a água: ela chegava-me aos tornozelos. 4 Mediu outros quinhentos metros e fez-me atravessar a água: ela chegava-me aos joelhos. 5 Mediu mais quinhentos metros e fez-me atravessar a água: ela chegava-me à cintura. Mediu mais quinhentos metros, e era um rio que eu não podia atravessar. Porque as águas haviam crescido tanto, que se tornaram um rio impossível de atravessar, a não ser a nado. 6Ele me disse: “Viste, filho do homem?” Depois fez-me caminhar de volta pela margem do rio. 7Voltando, eu vi junto à margem muitas árvores, de um e de outro lado do rio. 8Então ele me disse: “Estas águas correm para a região oriental, descem para o vale do Jordão, desembocam nas águas salgadas do mar, e elas se tornarão saudáveis. 9Onde o rio chegar, todos os animais que ali se movem poderão viver. Haverá peixes em quantidade, pois ali desembocam as águas que trazem saúde; e haverá vida onde chegar o rio. 12Nas margens junto ao rio, de ambos os lados, crescerá toda espécie de árvores frutíferas; suas folhas não murcharão e seus frutos jamais se acabarão: cada mês darão novos frutos, pois as águas que banham as árvores saem do santuário. Seus frutos servirão de alimento e suas folhas serão remédio”.


Evangelho: Jo 5,1-16
1Houve uma festa dos judeus, e Jesus foi a Jerusalém. 2Existe em Jerusalém, perto da porta das Ovelhas, uma piscina com cinco pórticos, chamada Betesda em hebraico. 3Muitos doentes ficavam ali deitados — cegos, coxos e paralíticos. 4De fato, um anjo descia, de vez em quando, e movimentava a água da piscina, e o primeiro doente que aí entrasse, depois do borbulhar da água, ficava curado de qualquer doença que tivesse. 5Aí se encontrava um homem, que estava doente havia trinta e oito anos. 6Jesus viu o homem deitado e sabendo que estava doente há tanto tempo, disse-lhe: “Queres ficar curado?” 7O doente respondeu: “Senhor, não tenho ninguém que me leve à piscina, quando a água é agitada. Quando estou chegando, outro entra na minha frente”. 8Jesus disse: “Levanta-te, pega tua cama e anda”. 9No mesmo instante, o homem ficou curado, pegou sua cama e começou a andar. Ora, esse dia era um sábado. 10Por isso, os judeus disseram ao homem que tinha sido curado: “É sábado! Não te é permitido carregar tua cama”. 11Ele respondeu-lhes: “Aquele que me curou disse: ‘Pega tua cama e anda’”. 12Então lhe perguntaram: “Quem é que te disse: ‘Pega tua cama e anda’?” 13O homem que tinha sido curado não sabia quem fora, pois Jesus se tinha afastado da multidão que se encontrava naquele lugar.  14Mais tarde, Jesus encontrou o homem no Templo e lhe disse: “Eis que estás curado. Não voltes a pecar, para que não te aconteça coisa pior”. 15Então o homem saiu e contou aos judeus que tinha sido Jesus quem o havia curado. 16Por isso, os judeus começaram a perseguir Jesus, porque fazia tais coisas em dia de sábado.
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Em Deus Encontro a Fonte Para Fecundar Minha Vida


O anjo fez-me voltar até a entrada do Templo e eis que saía água da sua parte subterrânea na direção leste, porque o Templo estava voltado para o oriente; a água corria do lado direito do Templo, ao sul do altar”. É a visão do profeta Ezequiel. Ezequiel usa a imagem da água para falar dos efeitos vivificantes que produz a presença da glória do Senhor no Templo.


A palavra “água” aparece em torno de 582 vezes no AT e cerca de 80 vezes no NT. Mas em torno do termo “água” aparece toda uma constelação de términos que expressam mais diretamente à experiência humana de água. Assim na Bíblia se encontra:
  1. Terminologia meteorológica: chuva, orvalho, geada, neve, granizo, furacão etc. 
  2. Terminologia geográfica: oceano, abismo, mar, fonte, rio, torrente.
  3. Terminologia de provisionamento: poço, canal, cisterna.
  4. Terminologia do uso da água: beber, saciar a sede, submergir/batizar, lavar, purificar, derramar.
     
    A água assume em todas as áreas geográfico-culturais um valor simbólico-evocativo. Para o AT o tema sobre água afeta uns 1500 versículos e mais de 430 versículos no NT. É uma massa enorme de textos que testemunham a quase contínua presença desse elemento na Bíblia, em suas diversas expressões e valorizações.
     
    A Bíblia se abre (Gn 1,1ss) e se fecha (Ap 21-22) sobre um fundo de “visões”, em que a água é um elemento dominante. As duas tradições do Pentateuco (P: Gn 1,1ss; J: Gn 2,4bss) que se remontam às origens põem em cena a água como elemento decisivo da protologia (princípio). O mesmo faz o Apocalipse (Ap 21-22) com a escatologia (fim). Parece como se a protologia e a escatologia não pudessem pensar-se sem associar de algum modo o homem bíblico a este elemento que envolve a vida do ser humano: a água. Numa terra seca a busca de água e seu provisionamento era e é um problema constante e uma questão de vida e de morte.
     
    Para o homem bíblico a água é benéfica, condição do bem-estar e de felicidade, indispensável para a vida do homem e seus ritos religiosos. Mas o homem bíblico tem consciência de que a água também pode se converter em água de morte, de devastação: dilúvio, mar, inundações, tempestades e assim por diante.
     
    Na Primeira Leitura, o profeta Ezequiel utiliza a imagem de torrente (água). No AT as torrentes são símbolo da vida que Deus dá, especialmente nos tempos messiânicos. Ezequiel utiliza a imagem da torrente de água milagrosa que mana do lado direito do templo (o lugar da presença de Deus e o centro do culto que Lhe é agradável) e inunda tudo com sua saúde e fecundidade. No evangelho de João (Jo 7,35-37) esta água é o Espírito que mana de Cristo glorificado. E no texto do Evangelho de hoje, Jesus cura um paralitico perto da piscina. É o tema da água viva, água que vive e dá a vida.
     
     “Estas águas correm para a região oriental, descem para o vale do Jordão, desembocam nas águas salgadas do mar, e elas se tornarão saudáveis. Onde o rio chegar, todos os animais que ali se movem poderão viver. Haverá peixes em quantidade, pois ali desembocam as águas que trazem saúde; e haverá vida onde chegar o rio. Nas margens junto ao rio, de ambos os lados, crescerá toda espécie de árvores frutíferas; suas folhas não murcharão e seus frutos jamais se acabarão: cada mês darão novos frutos, pois as águas que banham as árvores saem do santuário. Seus frutos servirão de alimento e suas folhas serão remédio”. Assim descreveu o profeta Ezequiel sobre a água.
     
    São imagens simbólicas. Deus anuncia aqui uns tempos maravilhosos: do Templo sai uma fonte cujo curso cresce, cresce até chegar a ser uma torrente saudável. Isto quer nos dizer que Deus não retém Seus bens para Si, mas deixa os homens participarem das Suas bênçãos. Até o próprio Filho Ele enviou para o mundo a fim de salvar a humanidade (Jo 3,16). As abundantes graças de Deus continuam a nos inundar desde que estejamos abertos a Deus, como Maria, a Mãe do Senhor, está cheia de graça (Lc 1,28).
     
    “Onde o rio chegar, todos os animais que ali se movem poderão viver. Haverá peixes em quantidade, pois ali desembocam as águas que trazem saúde; e haverá vida onde chegar o rio. Nas margens junto ao rio, de ambos os lados, crescerá toda espécie de árvores frutíferas”. Há aqui uma “água nova” como um poder de ressurreição: suscita seres vivos. É uma água que dá vida.
     
    O sinal atual desta água é o Batismo. Com o Batismo entramos na força divina. Com Sua graça Deus é capaz de transformar o deserto de nossos corações em jardins florescentes de vida. Meu Batismo é uma fonte de Vida. Tenho que estar consciente disso.
     
    Ezequiel usa a imagem da água para falar dos efeitos vivificantes que produz a presença da glória do Senhor no Templo.
     
    Jesus É a Água Viva Que Satisfaz Nossos Anseios Profundos
     
    Jo 5,1-16 como o texto de nossa reflexão neste dia se encontra na primeira parte do evangelho de João (Quarto Evangelho) conhecida como “Livro dos sinais” (Jo 2,1-12,50). Chama-se “Livro dos Sinais” porque, nesta parte, referem-se aos sete sinais realizados por Jesus. Os sete sinais são: a transformação da água em vinho (Jo 2,1-12), a cura do filho do funcionário real (Jo 4,46-54), a cura do paralítico (Jo 5,1-9), a multiplicação dos pães/partilha dos pães (Jo 6,1-15), Jesus anda sobre as águas (Jo 6,16-21), a cura do cego de nascença (Jo 9,1-41), e a “ressurreição” / reanimação de Lázaro (Jo 11,1-44).
     
    O “sinal”, por definição, visa a outra realidade além de si mesmo. Por isso, este nome (sinal) indica que se trata de ações simbólicas, pois os sete sinais são as setas indicadoras que nos impulsionam a buscarmos muito mais além do episódio concreto, uma realidade mais profunda para a qual aponta o relato narrado.
     
    No evangelho de hoje, Jesus cura um paralítico perto da piscina. É o tema da água viva, água que vive e dá a vida. Podemos ler também este tema através da revelação na visão do profeta Ezequiel na primeira leitura (Ez 47,1-9.12). A água como princípio de vida é uma imagem que se encontra frequentemente na Bíblia (Por exemplo: Jl 4,18; Zc 14,8; Is 35 etc.).
     
    A água de Ez 47 é protótipo de a água dos últimos tempos abertos por Cristo: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crê em mim, do seu interior manarão rios de água viva” (Jo 7,37-38; cf. Zc 14,8; Is 58,1). Em Jesus se cumpriu a profecia do profeta Ezequiel. Dele nos vem a grande efusão do Espírito que simbolizava a água. Unicamente de Jesus nos pode vir a fecundidade, a vida individual e coletivamente. A única salvação, a única solução se encontra em Jesus Cristo: “Em nenhum outro há salvação, porque debaixo do céu nenhum outro nome foi dado aos homens, pelo qual devamos ser salvos” (At 4,12).
     
    O evangelista João nos apresenta Jesus, no evangelho de hoje, como libertador, como aquele que vem salvar a humanidade. A libertação se adquire não por meios mágicos, como o correr da água da piscina de Betesda, e sim mediante um encontro pessoal com o Senhor. Buscar a proximidade de Deus, permanecer junto a Ele, respirar Sua própria vida é o único mandamento que Deus propõe ao homem para que o homem seja salvo.
     
    1. Jesus é Água viva
     
    O nome da piscina onde se encontra o paralítico, como outros enfermos, é “Betesda”. Sua etimologia aramaica significaria “casa da misericórdia” (outros dizem que significaria “lugar do derramamento”: beth ‘eshdah, hebariaco). É uma espécie de refúgio para adoentados de todo tipo. Essa piscina foi descoberta pelos arqueólogos em 1931-1932 entre as ruínas da basílica de Santa Ana.
     
    Os enfermos (cegos, coxos e paralíticos) estavam próximos dessa piscina porque acreditava-se que aquelas águas tinham poder curativo. Acreditava-se, conforme o relato, que quem pulasse primeiro nessas águas, ficaria curado de sua doença. Por isso, podemos imaginar cada disputa e concorrência sem piedade, pois cada um quer ficar curado. Raiva, rancor e expectativa se misturam numa pessoa só. Raiva e rancor ao ver que o outro conseguiu rapidamente entrar na água. Expectativa porque cada um fica esperando o borbulhar da água para poder pular a fim de ficar curado. Mas isso supõe pessoas prontas para ajudar o doente a entrar na piscina. Mas até quando pode pular na piscina, tendo tanta gente doente perto da piscina. O nome “Betesda” que significa “casa de misericórdia” se torna um paradoxo, pois há mais miséria do que misericórdia.
     
    Podemos imaginar também a solidão de um que sofria durante trinta e oito anos sem ninguém para ajudá-lo. Trinta e oito anos de sofrimento. Só faltavam dois anos para completar uma geração.  É um solitário que necessita da misericórdia de outras pessoas ali presentes, mas quem daria lugar para ele para pular na piscina? Cada uma dessas pessoas se preocupa com seu próprio doente.
     
    O doente em questão está num estado desesperador: “Senhor, não tenho ninguém que me leve à piscina, quando a água é agitada. Quando estou chegando, outro entra na minha frente”.  O evangelista João gosta de ressaltar casos tão desesperadores, como Lázaro enterrado há quatro dias (Jo 11,39-44), o cego de nascença (Jo 9,1-41) para destacar o poder de Deus que ultrapassa os limites humanos, que faz o impossível em possível (Lc 1,37), o morto em uma pessoa viva etc....
       
    Por esta razão o que mais importante neste relato não é saber se as águas tinham ou não tinham poder curativo. O ensinamento fundamental que o evangelista João quer nos transmitir é que a Palavra de Jesus é vivificante. A palavra de Jesus dá vida. Jesus é a água viva que purifica e sacia a sede eterna da felicidade do homem (cf. Jo 4,1-42). A palavra de Jesus tem poder vivificador, isto é, dá vida, vivifica. A vida eterna, a salvação só encontra em Jesus. Em são João esta água é o Espírito que mana de Cristo glorificado: “Se alguém tiver sede, venha a mim e beba. Quem crê em mim, do seu interior manarão rios de água viva” (Jo 7,37-38). Unicamente de Cristo nos pode vir a fecundidade, a vida, tanto para o nível pessoal como para o nível coletivo. Nossa vida se rejuvenesce quando o Espírito de Deus nos inunda.
     
    2. A Primazia Do Amor Sobre A Lei Por Sagrada Que Ela Seja
     
    “Ora, esse dia era um sábado” e o homem curado carrega sua cama no sábado que é proibido para os judeus. Com isso, o relato da cura do enfermo da piscina Betesda nos coloca diante da polêmica típica dos evangelhos: a primazia do amor sobre a lei. Jesus enfatiza que a necessidade do ser humano está acima de qualquer lei ainda que uma lei seja sagrada. Jesus não se preocupa em cumprir o preceito de descanso (Jo 5,9b); para ele conta somente o bem do homem em qualquer circunstância, muito mais ainda quando se trata de uma vida em jogo.  Jesus comunica uma nova vitalidade que permite os homens se levantarem de prostração. Para os dirigentes do povo, ao contrário, conta somente a observância da lei ou do preceito (Jo 5,10). A observância da lei de descanso equivale à observância da lei toda; sua violação é a violação da lei inteira. O foco da atividade de Jesus é o homem e não a própria atividade.
               
    Precisamos nos examinar se frequentamos a Igreja só para cumprir preceitos ou para celebrar alguma coisa. Precisamos nos perguntar também se colocamos pessoas no centro de nossas atividades ou fazemos apenas uma agitação estéril. Se não colocarmos as pessoas como o centro de todas as nossas atividades pastorais, trabalharemos inutilmente na Igreja de Jesus Cristo. Ama menos que se preocupa demasiadamente com as regras. As regras devem ajudar o homem a crescer e a se aproximar mais de Deus.
     
    3. Jesus É A Nossa Única Esperança
     
    Os enfermos estão próximos da piscina, não podem entrar no Templo, estão esperando uma possibilidade de encontrar-se com Deus. Para o paralitico do evangelho de hoje, símbolo de tantos que esperam, a agitação da água era algo que o mantinha na esperança ainda que essa esperança levasse já muitos anos sem ver-se realizada: 38 anos de sofrimento, quase uma vida inteira (o numero 40 representa uma geração).
     
    A única coisa que mantinha o paralítico na esperança, apesar de um longo sofrimento, era a água agitada de cura. Mas apareceu o inesperado, maior do que a água agitada: Jesus Cristo, Água viva.
     
    O que mantém você na esperança nesta vida?  Qual é sua esperança nesta vida?
     
    Jesus se aproxima do paralítico com esta pergunta: “Queres ficar curado?”. Apesar de seu relato pouco longo, Jesus compreende que o paralítico quer realmente a cura. Por isso, logo em seguida Jesus disse as seguintes palavras: “Levanta-te, pega tua cama e anda”. A cama carregava o paralítico durante tanto tempo e o fazia deitado nela. Agora é ele quem carrega a cama. É superação! A força de Jesus penetra na vida desse homem que o faz capaz de superar tudo na vida e de carregar tudo, pois a força que está dentro é a própria força do Senhor.
     
    “Queres ficar curado?” é a pergunta dirigida a cada um de nós. Queres ficar curado do teu pecado e de tua mesquinhez? Queres ficar curado da tua angústia, da tua confusão, e de tua preocupação? Queres ficar curado da tua doença, da tua depressão? Mas será que nós sabemos o que queremos? Será que ainda somos capazes de querer e de querer viver? Quem nos dará hoje a vontade de viver, de reviver? Quem nos dará forças para lutar e andar?
     
    “Levanta-te e anda!”. Levantar-se e andar é o começo de uma vida nova. Deus quer um “homem de pé”, um homem que avança, um homem capaz de superar-se. O pecado é uma paralisia. O pecado paralisa o homem. O “homem de pé” é capaz de levar sua “cama” que o oprimia, é capaz de suportar-se a si mesmo. Para isso o homem precisa escutar atentamente a Palavra de Deus.
P. Vitus Gustama,svd
01/04/2019
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CRER EM JESUS É VIVER PARA SEMPRE E VIVER NA ALEGRIA APESAR DAS DIFICULDADES
Segunda-Feira da IV Semana da Quaresma


I Leitura: Is 65,17-21
Assim fala o Senhor: 17 Eis que eu criarei novos céus e nova terra, coisas passadas serão esquecidas, não voltarão mais à memória. 18 Ao contrário, haverá alegria e exultação sem fim em razão das coisas que eu vou criar; farei de Jerusalém a cidade da exultação e um povo cheio de alegria. 19 Eu também exulto com Jerusalém e alegro-me com o meu povo; ali nunca mais se ouvirá a voz do pranto e o grito de dor. 20 Ali não haverá crianças condenadas a poucos dias de vida nem anciãos que não completem seus dias. Será considerado jovem quem morrer aos cem anos; e quem não alcançar cem anos, passará por maldito. 21 Construirão casas para nelas morar, plantarão vinhas para comer seus frutos.


Evangelho: Jo 4,43-54
Naquele tempo, 43 Jesus partiu da Samaria para a Galileia. 44 O próprio Jesus tinha declarado, que um profeta não é honrado na sua própria terra. 45 Quando então chegou à Galileia, os galileus receberam-no bem, porque tinham visto tudo o que Jesus tinha feito em Jerusalém, durante a festa. Pois também eles tinham ido à festa. 46 Assim, Jesus voltou para Caná da Galileia, onde havia transformado água em vinho. Havia em Cafarnaum um fun­cionário do rei que tinha um filho doente. 47 Ouviu dizer que Jesus tinha vindo da Judeia para a Galileia. Ele saiu ao seu encontro e pediu-lhe que fosse a Cafarnaum curar seu filho, que estava morrendo. 48 Jesus disse-lhe: “Se não virdes sinais e prodígios, não acreditais”. 49 O funcionário do rei disse: “Senhor, desce, antes que meu filho morra!” 50 Jesus lhe disse: “Podes ir, teu filho está vivo”. O homem acreditou na palavra de Jesus e foi embora. 51 Enquanto descia para Cafarnaum, seus empregados foram ao seu encontro, dizendo que o seu filho estava vivo. 52 O funcionário perguntou a que horas o menino tinha melhorado. Eles responderam: “A febre desapareceu, ontem, pela uma da tarde”. 53 O pai verificou que tinha sido exatamente na mesma hora em que Jesus lhe havia dito: “Teu filho está vivo”. Então, ele abraçou a fé, juntamente com toda a sua família. 54 Esse foi o segundo sinal de Jesus. Realizou-o quando voltou da Judeia para a Galileia.
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Toda a liturgia deste dia nos fala da renovação e de alegria. O profeta Isaías anuncia que Deus vai realizar o novo céu e nova terra. A ação de Deus, através do Messias prometido, construirá uma sociedade nova, porque o Espírito de Deus palpitará em todos os homens e mulheres que escutam a Palavra de Deus e vivem em harmonia com Sua mensagem.


Mediante o Mistério Pascal de Cristo, Deus levou a sua plenitude o que hoje nos anuncia o profeta Isaías. Deus não somente perdoou nossos pecados, mas nos converteu em filhos seus, fazendo-nos participar de seu próprio Espírito, que nos capacita para que entremos em diálogo amoroso com Ele e para que, todos os dias, possamos ser cada vez mais perfeitos como filhos seus por nossa união, cada vez mais íntima com Jesus, seu Filho único e amado em quem Ele se compraz. Mantenhamos nossa fidelidade ao amor que Ele nos tem!


Segundo o Evangelho de João, Jesus começou sua vida pública com seus sinais visíveis em Caná da Galileia. E agora voltou outra vez ao mesmo lugar onde ele fez o primeiro sinal. Nesta volta Ele devolveu a alegria para uma família ao curar à distância um dos membros (filho) que está doente gravemente.


Voltar ao Estado Inicial Para o Qual Deus nos criou é Ser Nova Criatura


“Assim fala o Senhor: Eis que eu criarei novos céus e nova terra, coisas passadas serão esquecidas, não voltarão mais à memória”.


Is 56-66, onde se encontra o texto da Primeira Leitura, foram escritos depois da volta do exílio na Babilônia. A volta do desterro de Babilônia é descrita com tons poéticos, de nova criação em todos os sentidos: tudo será alegria, fertilidade nos campos e felicidade nas pessoas. “Eis que eu criarei novos céus e nova terra, coisas passadas serão esquecidas, não voltarão mais à memória”. Com esta expressão o profeta anuncia uma volta ao paraíso inicial: Deus está projetando um novo céu e nova terra. Deus quer que o homem e a sociedade voltem ao estado primordial de felicidade, equilíbrio e harmonia,


A ideia de uma transformação cósmica que se fala na Primeira Leitura é um tópico na literatura profética, sobretudo, na literatura apocalíptica. São Paulo dirá que toda a criação está em dores de parto esperando a regeneração dos filhos de Deus. A natureza está violentada no estado de pecado do homem, pois o homem está contra os fins para os quais a criação foi feita (Rm 8,22.27). Nos tempos messiânicos, a transformação cósmica se associará ao estado de exultação dos novos cidadãos de Sião.  São João no Apocalipse vai aplicar a transformação cósmica (novo céu e nova terra) para falar da Igreja triunfante (Ap 21,1). Nesse novo estado de coisas já não se recordará o passado, os tempos de angústia física e moral terminaram. Passou a hora das misérias. Até o reino animal participará também deste bem-estar geral. Os animais carnívoros perderão seus instintos sanguinários. É uma volta ao estado de paz dos primeiros dias da criação. Na época messiânica ocorrerá algo parecido, segundo o profeta Isaias.


A Igreja primitiva confessa, como testemunharam os escritos neotestamentários, que com a morte e ressurreição de Jesus começou já a nova criação, os “novos céus e a nova terra”.  Por isso, quem segue os passos de Jesus é uma nova criatura: “Todo aquele que está em Cristo é uma nova criatura. Passou o que era velho; eis que tudo se fez novo!” (2Cor 5,17). Conversão significa voltar ao estado da graça para o qual fomos criados (cf. Jo 1,16-17) e viver permanentemente neste estado.


Para descobrir as “novas” maravilhas de Deus, do homem e do cosmos (novo céu e nova terra), há que começar a vivenciar, cada amanhecer e cada tarde, a novidade de que hoje é nosso dia, meu dia, o dia com que contamos para viver, para recomeçar, para fazer o bem, trabalhar, sorrir; o dia para encontrar-se com um amigo e assim por diante. Cada novo dia é o novo céu e a nova terra nado a mim para ser vivido profundamente. Se não viver cada dia como novo céu e nova terra, será mais um dia perdido da minha vida. Não nascemos para morrer e sim para viver e por isso, temos que saber viver na novidade de Cristo.


Crer Em Jesus Significa Não Parar De Existir


O funcionário do rei disse: ‘Senhor, desce, antes que meu filho morra!’. Jesus lhe disse: ‘Podes ir, teu filho está vivo’”.


Ao começar a Quarta Semana da Quaresma, as leituras quaresmais mudam de orientação. Antes leiamos os evangelhos sinóticos (Mc, Mt e Lc) com passagens do AT formando uma unidade temática com os textos do evangelho lido nos dias da semana. A partir de hoje até a Páscoa (também durante o tempo pascal) vamos ler alguns textos do Evangelho de João numa leitura semicontinuada. Antes o que se enfatizava é o caminho de conversão dia após dia através das leituras. Daqui em diante as leituras nos indicam o modelo do caminho da Páscoa e nossa luta contra o mal no caminho de Jesus com a crescente oposição de seus adversários que acabarão crucificando Jesus.


Hoje o evangelho nos relata que Jesus se encontra novamente em Caná da Galileia onde ele realizou o primeiro sinal: a transformação de água em vinho (Jo 2,1-11). No evangelho de hoje Ele operou outro sinal: a cura do filho de um funcionário real. Ainda que o primeiro sinal seja um espetacular, mas este segundo é mais valioso porque não é algo material o que se soluciona e sim a vida de uma pessoa que está quase para terminar.


O evangelista João escolhe, como protagonista para o segundo sinal operado por Jesus, um homem que exerce autoridade, um funcionário real (de um rei). E por isso, pode ser figura de qualquer tipo de poder.


Esse funcionário apenas ouviu falar de Jesus. Movido pela necessidade ele foi procurar Jesus para que este pudesse curar seu filho de uma doença mortal. O funcionário pede uma intervenção direta de Jesus a favor de seu filho que está para morrer. Jesus contestou: “Se não virdes sinais e prodígios, não acreditais”. Com esta resposta Jesus quer mostrar a mentalidade comum desse tipo de grupo de pessoas: “Não acreditais”. Com este plural Jesus assinala a categoria dos instalados no poder. Jesus, através desse funcionário, quer se dirigir aos poderosos e em geral, para aqueles que esperam a salvação na demonstração do poder. Para eles, a fé somente pode ter como fundamento o desdobramento de força, o espetáculo maravilhoso.


O funcionário não se intimidou, mas insiste: “Senhor, desce antes que meu filho morra!”. Com este pedido renovado esse funcionário confessa a impotência do poder diante da debilidade e da morte. O poder deste mundo é impotente para salvar o homem.


Por causa de sua fé, Jesus disse ao funcionário: “Podes ir, teu filho está vivo!”. Com sua resposta Jesus indica que a salvação que ele trouxe não requer a colaboração do poderoso. Jesus atua na simplicidade sem ostentação. Jesus não precisa descer até Cafarnaum. Sua ação não necessita de sua presença física. Será sua mensagem que comunica vida. Basta acreditar nela. Jesus comunica vida com sua Palavra que é Palavra criadora e chega a todo lugar.


Com sua Palavra e seu convite para que o funcionário real vá, pois o filho está vivo, Jesus quer colocar o funcionário à prova para sua fé e para ver se ele renuncia a seu desejo de sinais espetaculares (“Se não virdes sinais e prodígios, não acreditais”). O funcionário aceita o desafio posto por Jesus e acredita no poder de Sua Palavra.


Como resultado, o funcionário viu seu filho vivo certamente no momento em que Jesus pronunciou sua Palavra: “Podes ir, teu filho está vivo”. Ele que pedia a Jesus como poderoso, agora crê como “homem”; antes se definia por sua função, agora por sua condição humana, pressuposta para toda relação pessoal. Ele confia na Palavra de Jesus e por isso se põe em caminho. Ele renunciou a sua mentalidade de poder e aos sinais portentosos.


Estamos na Quaresma, mas caminhamos para a Páscoa, isto é, para a ressurreição, como professamos no Credo: “Creio na ressurreição da carne”. Toda nossa vida aqui na terra é uma “quaresma”, isto é, uma preparação para a Páscoa definitiva, para o encontro derradeiro com Deus na felicidade sem fim. Para isso, é necessário crer na Palavra de Deus.


A Igreja primitiva confessa, como testemunham os escritos do Novo Testamento, que com a morte e ressurreição de Jesus começou já a nova criação, os “novos céus e nova terra” (cf. 2Pd 3,13; Ap 21,1). Esse começo é imperceptível para os olhos nus. A história humana continua dominada, em grande parte, pelo pecado, pela corrupção e pela morte (seja natural seja forçada ou abortada), porém algo vai mudar. A convivência do lobo e do cordeiro continua, porém o ódio e a hostilidade devem dar lugar para o amor, isto é, o amor vencerá, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). Quem segue os passos de Jesus que se resumem nos passos de amor se torna nova criatura e o amor não morrerá, pois é o nome do próprio Deus: “Se alguém está em Cristo, é nova criatura. Passaram-se as coisas antigas; eis que se fez uma realidade nova” (2Cor 5,17). Cristo é autor desta nova criação, pois nele Deus se faz presente para o mundo. A fé na nova criação significa o princípio da liberdade humana.


O que chama a atenção deste segundo sinal é que Jesus atua à distância. Ele não precisa ir até Cafarnaum para curar diretamente o enfermo. Sem se mover de Caná Jesus faz o possível o restabelecimento. Diante do pedido do funcionário real: “Senhor, desce, antes que meu filho morra!”, Jesus responde: “Podes ir, teu filho está vivo”.


Isto nos recorda que podemos fazer tantas coisas boas à distância, isto é, sem ter que estar presentes no lugar onde nos solicita nossa generosidade. Assim, por exemplo, colaborar economicamente com nossos missionários ou com entidades católicas e semelhantes que ali estão trabalhando, com as instituições de caridade. Inclusive, podemos dar uma alegria a muita gente que está muito distante de nós com uma chamada de telefone, uma carta ou um correio eletrônico. A distância não é nenhum problema para ser generoso porque a generosidade sai do coração e ultrapassa todas as fronteiras. Como dizia Santo Agostinho: “Quem tem caridade em seu coração, sempre encontra alguma coisa para dar”.


Em segundo lugar, S. João, ao narrar a cura, à distância, do filho do funcionário real, quer nos apresentar Jesus como Palavra de vida. Mas a Palavra que exige a fé. A Palavra de Jesus é o sinal extraordinário e o prodígio que nos oferece. Quem acolhe a Palavra e acredita nela, experimenta milagres e muitas transformações na vida. O funcionário real acolheu a Palavra de Jesus e recebeu como prêmio a cura do próprio filho. Jesus comunica vida com sua Palavra, que é palavra criadora e chega a todo lugar. “Crer” sem necessidade de sinais nem de prodígios é fonte de vida e de cura e de outras tantas transformações na vida. A pesar de ser um excluído da religião oficial, por ser um estrangeiro e por isso, impuro, no entanto Jesus descobre no funcionário real um homem de fé que crê na promessa de cura apesar com palavra apenas e à distância. O perigo de toda religião é chegar a crer no legalismo. Quando a lei se entroniza no interior da mesma, a surpresa e a gratuidade do encontro com Deus, que é o que realmente define o milagre, se tornam impossíveis. O legalismo, por fazer que as coisas boas sucedam como recompensa para a observância da lei, destrói a possibilidade da graça e do verdadeiro milagre. A possibilidade de encontrar-se com as pessoas do tipo do funcionário real, necessitadas do amor mais que da lei, faz renascer em Jesus a imensa alegria da misericórdia. A partir daqui todo milagre é possível.


Portanto, acreditar e obedecer, acolher a Palavra de Deus e pô-la em prática é uma questão de vida ou de morte. Se soubermos caminhar na fé acreditando na Palavra de Deus, mesmo na noite escura do sofrimento e da provação, a Palavra será como uma lâmpada para os nossos passos.


Aprendemos da cena do evangelho deste dia que a verdadeira fé em Deus e na Sua Palavra significa crer sem necessidade de sinais nem prodígios, crer sem milagres, crer sem ver (cf. Hb 11,1). O evangelista João sublinha que o funcionário real acreditou na Palavra de Deus sem verificação. Ele simplesmente foi embora com a Palavra de Deus em seu coração. Não tinha nenhuma prova no momento, tinha somente “a Palavra” de Jesus. O funcionário está totalmente na fé, no salto da fé, na confiança ilimitada da fé. “A quem nós iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna” (Jo 6,68).
P. Vitus Gustama,svd

quinta-feira, 28 de março de 2019

Domingo,31/03/2019
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A MISERICORDIA DIVINA DIANTE DA MISÉRIA HUMANA
IV DOMINGO DA QUARESMA DO ANO “C”


Primeira Leitura: Josué 5,9a.10-12
Naqueles dias, 9 ao Senhor disse a Josué: “Hoje tirei de cima de vós o opróbrio do Egito”. 10 Os israelitas ficaram acampados em Guilgal e celebraram a Páscoa no dia catorze do mês, à tarde, na planície de Jericó. 11 No dia seguinte à Páscoa, comeram dos produtos da terra, pães sem fermento e grãos tostados nesse mesmo dia. 12 O maná cessou de cair no dia seguinte, quando comeram dos produtos da terra. Os israelitas não mais tiveram o maná. Naquele ano comeram dos frutos da terra de Canaã.


Segunda Leitura: 2Cor 5,17-21
Irmãos: 17 Se alguém está em Cristo, é uma criatura nova. O mundo velho desapareceu. Tudo agora é novo. 18 E tudo vem de Deus, que, por Cristo, nos reconciliou consigo e nos confiou o ministério da reconciliação. 19 Com efeito, em Cristo, Deus reconciliou o mundo consigo, não imputando aos homens as suas faltas e colocando em nós a palavra da reconciliação. 20 Somos, pois, embaixadores de Cristo, e é Deus mesmo que exorta através de nós. Em nome de Cristo, nós vos suplicamos: deixai-vos reconciliar com Deus. 21 Aquele que não cometeu nenhum pecado, Deus o fez pecado por nós, para que nele nós nos tornemos justiça de Deus.


Evangelho: Lc 15, 1-3. 11-32
Naquele tempo, 1 os publicanos e pecadores aproximavam-se de Jesus para o escutar. 2 Os fariseus, porém, e os mestres da Lei criticavam Jesus: “Este homem acolhe os pecadores e faz refeição com eles”. 3Então Jesus contou-lhes esta parábola: 11 “Um homem tinha dois filhos. 12 O filho mais novo disse ao pai: ‘Pai, dá-me a parte da herança que me cabe’. E o pai dividiu os bens entre eles. 13 Poucos dias depois, o filho mais novo juntou o que era seu e partiu para um lugar distante. E ali esbanjou tudo numa vida desenfreada. 14 Quando tinha gasto tudo o que possuía, houve uma grande fome naquela região, e ele começou a passar necessidade. 15 Então foi pedir trabalho a um homem do lugar, que o mandou para seu campo cuidar dos porcos. 16 O rapaz queria matar a fome com a comida que os porcos comiam, mas nem isto lhe davam. 17 Então caiu em si e disse: ‘Quantos empregados do meu pai têm pão com fartura, e eu aqui, morrendo de fome. 18 Vou-me embora, vou voltar para meu pai e dizer-lhe: Pai, pequei contra Deus e contra ti; 19 já não mereço ser chamado teu filho. Trata-me como a um dos teus empregados’. 20 Então ele partiu e voltou para seu pai. Quando ainda estava longe, seu pai o avistou e sentiu compaixão. Correu-lhe ao encontro, abraçou-o, e cobriu-o de beijos. 21 O filho, então, lhe disse: ‘Pai, pequei contra Deus e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho’. 22 Mas o pai disse aos empregados: ‘Trazei depressa a melhor túnica para vestir meu filho. E colocai um anel no seu dedo e sandálias nos pés. 23 Trazei um novilho gordo e matai-o. Vamos fazer um banquete. 24 Porque este meu filho estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado’. E começaram a festa. 25 O filho mais velho estava no campo. Ao voltar, já perto de casa, ouviu música e barulho de dança. 26 Então chamou um dos criados e perguntou o que estava acontecendo. 27 O criado respondeu: ‘É teu irmão que voltou. Teu pai matou o novilho gordo, porque o recuperou com saúde’. 28 Mas ele ficou com raiva e não queria entrar. O pai, saindo, insistia com ele. 29 Ele, porém, respondeu ao pai: ‘Eu trabalho para ti há tantos anos, jamais desobedeci a qualquer ordem tua. E tu nunca medeste um cabrito para eu festejar com meus amigos. 30 Quando chegou esse teu filho, que esbanjou teus bens com prostitutas, matas para ele o novilho cevado’. 31 Então o pai lhe disse: ‘Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. 32 Mas era preciso festejar e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido, e foi encontrado’”.
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Voltar Para Casa


Como sabemos, a Quaresma é um tempo de graça em que todos são convidados para o grande gesto penitencial pelos caminhos que nos conduzem a um encontro pessoal e íntimo com Deus. As leituras de hoje descrevem esse movimento sobre como "voltar para casa".


A Primeira Leitura narra o final dos quarenta anos da travessia do deserto pelos hebreus. Trata-se da volta à Terra Prometida. Para isso, os hebreus tiveram que abandonar a terra da escravidão, o Egito, para viver o novo.


A isto somos convidados: a abandonar a escravidão das nossas atitudes negativas e, assim, regressar a casa onde o nosso Pai nos espera. A esplêndida parábola do filho pródigo propõe o "voltar para casa" como o único remédio para a situação daquele que é um símbolo de como todos nós estamos vivendo (filho mais novo, o pródigo).


São Paulo (na Segunda Leitura), mais que repetir as ideias de que temos que voltar para casa, nos faz aprofundar na novidade cristã da reconciliação. Desde o princípio adverte: “O mundo velho desapareceu. Tudo agora é novo”. O antigo é a distância que nos separa de Deus. Temos que percorrer para acabar com nossa distância com Deus e com nossos irmãos da mesma jornada neste mundo. A realidade é que já estamos em casa, mas nem sempre temos o espirito fraterno, como aconteceu com o filho mais velho da parábola do filho pródigo. É uma ausência na presença, paradoxalmente. O nosso corpo está no lugar onde moramos, mas através de nossa maneira de viver e conviver estamos muito longe do espirito da casa, do espirito familiar em que todos são irmãos e irmãs do mesmo pai com os mesmos direitos e obrigações.


Pão Eucarístico É Nosso Pão Pascal, Fonte De Nossa Força e Alegria.


A Primeira Leitura, tirada do livro de Josué, nos narra que com a chegada à terra que Deus tinha prometido a Abraão, Isaac e Jacó, termina o êxodo, a peregrinação. O povo peregrino se converte em sedentário e começa a comer frutos da terra. Na planície de Jericó, ao anoitecer do dia 14 do mês, os hebreus celebraram a Páscoa para comemorar esta chegada. É o ponto culminante da libertação: “Hoje tirei de cima de vós o opróbrio do Egito”.


Tudo isso é símbolo de nossa peregrinação atual: a libertação da escravidão do pecado pela conversão quaresmal (catecumenal-penitencial), a entrada na Igreja- visibilidade do Reino de Deus, da Terra prometida, aqui e agora, o saciar-se do Pão eucarístico (memorial da Páscoa) e de todos os frutos da Nova Terra.


Esta primeira leitura de hoje nos convida a celebrarmos a Páscoa, nos estimula em nosso caminho para a Páscoa da Nova Aliança. Para nós, os cristãos libertados da ignominia do pecado (cf. a Segunda Leitura e o Evangelho), a Páscoa é a culminação das celebrações do ano, liturgicamente. A Páscoa do Senhor nos abre as portas do Paraiso e do Reino, da Terra Prometida (cf. Lc 23,43). Da Páscoa do Senhor, temos um sacramento: a Eucaristia que é na Terra o Pão do Reino de Deus, o Pão sem fermento, que significa, como nos dirá são Paulo no dia da Páscoa (1Cor 5,8), uma renovação total em sinceridade e verdade.


Também hoje, na Segunda Leitura, são Paulo nos diz que em Cristo somos uma criatura nova: “Se alguém está em Cristo, é uma criatura nova. O mundo velho desapareceu. Tudo agora é novo” (2Cor 5,17). Portanto, a Eucaristia é sempre para nós o Pão da novidade pascal, o Pão que continuamente nos renova. Mas pelo fato de sermos peregrinos ainda neste mundo para a Terra Prometida (céu), o Pão descido do céu nos dá vida permanentemente (cf. Jo 6). O Pão da Eucaristia é nos apresentado como alimento de peregrinos (viático) e como alimento do Reino que já nos chegou pela Páscoa do Senhor. A Eucaristia é também o ponto culminante de nossa peregrinação quaresmal em seu aspecto penitencial: é o banquete festivo depois da reconciliação, a passagem da morte para a vida (cf. Evangelho de hoje).


Como o filho pródigo que nos narra o Evangelho de hoje, temos que empreender o itinerário penitencial para voltar à casa do Pai. O caminho da penitência será autêntico na medida em que saibamos abrir compreensivamente nosso coração aos demais, perdoando-os e evitando qualquer atitude de superioridade ou soberba espiritual (filho mais velho do parábola do filho pródigo).


O itinerário de nossa conversão, de nossa volta para a casa do Pai sempre termina na alegria festiva (o filho perdido que voltou é recebido com festa). Por isso, a liturgia de hoje, desde seu começo, nos convida à alegria: “Alegra-te, Jerusalém! Reuni-vos, vós todos que a amais; vós que estais tristes, exultai de alegria! saciai-vos com a abundância de suas consolações” (antífona de entrada). E é que já estão próximas as festas pascais, e com elas, a plena restauração da comunidade cristã pela Morte Ressurreição de Cristo. Por isso, pedimos ao Senhor, na Oração de Coleta (oração inicial) que o povo cristão corra, cheio de fervor e exultando de fé, ao encontro das festas que se aproximam. Assim entramos nos sentimentos do coração de Deus que nos diz hoje: “Filho, era preciso festejar e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido, e foi encontrado” (Evangelho de hoje).


Estendamos nossa reflexão sobre o Evangelho proclamado neste Quarto Domingo da Quaresmo!


A parábola sobre o filho pródigo, ou melhor, a do Pai cheio de misericórdia, é considerada a pérola das parábolas evangélicas. A parábola do Pai misericordioso é “a obra mestra de todas as parábolas de Jesus” (J.E.Compton). “Esta parábola é, com certeza, uma das páginas mais cativantes de todo o evangelho” (J.Dupont). “Esta parábola é a mais conhecida e a mais amada de todas as parábolas de Jesus, com toda razão apreciada como um tesouro por sua extraordinária beleza literária, pela penetrante descrição dos personagens, assim como pela sua afirmação da misericórdia divina que ultrapassa todas as expectativas” (G.B.Caird). É quase um “evangelho “dentro do Evangelho. É uma parábola que fala Do ensinamento de Jesus sobre a Divina Misericórdia e a alegria de Deus por ter reencontrado o que estava perdido. Estes dois temas, misericórdia e alegria, são característicos da obra de Lucas. Por isso, sem dúvida nenhuma “a face mais bonita do Amor de Deus é a Misericórdia” (João Paulo II).


Lucas 15 é o coração do Evangelho de Lucas. Neste capítulo se revela para nós o que Deus quer, o que Jesus faz e se revela também o julgamento que divide as pessoas entre as que aceitam e as que rejeitam a Boa Notícia que constrói a nova sociedade e a nova história, a nova fraternidade.


Na parte anterior desta parábola há duas parábolas: a da ovelha perdida e a da moeda de prata perdida (Lc 15,4-10). O que admirável na parábola da ovelha reencontrada é a medida drástica que o pastor toma para buscar uma ovelha perdida. Deixa noventa e nove no deserto em perigo, para que a perdida possa ser trazida de volta ao aprisco. A ovelha não se desgarrou (cf. Mt 18,12) mas “se perdeu” e o pastor toma a iniciativa de encontrá-lo. Essa é a condição do pecador antes da conversão, e a resposta de Deus é buscar o perdido. Outro aspecto que Lucas sublinha também é o tom de alegria que acompanha essa bem-sucedida conversão. Para Lucas, o resultado da verdadeira conversão é a experiência de estar perdido, depois encontrado, que leva à alegria sem limites.


A segunda parábola é a da moeda reencontrada, desta vez usando uma mulher como personagem central. É uma parábola paralela do mesmo motivo. A mulher pobre faz tudo para encontrar a moeda perdida. ”Acende uma lâmpada, varre a casa e procura cuidadosamente até encontrá-la”(v.8). Os verbos mostram o esforço incansável para recuperar a moeda perdida. Com essa solicitude, com essa impaciência amorosa, com esse carinho Deus se comporta para encontrar e salvar os perdidos.


O tema de perdido e reencontrado culmina na parábola do Pai misericordioso ou, na do filho reencontrado. Nestas parábolas, o evangelista Lucas procede do menos precioso ao mais precioso. Na parábola do Pai misericordioso, não se trata mais de um animal, ainda que de estimação, como uma ovelha, nem de um objeto, mesmo precioso como uma moeda de prata, mas de um ser humano amado por Deus, por ser Seu filho ainda que seja/fosse um filho transviado. Cada um de nós é precioso nos olhos de Deus e ninguém escapa do olhar d´Ele. “Veja, Eu tatuei você na palma da Minha mão: suas muralhas estão sempre diante de mim“ (Is 49,16). Basta que um de nós esteja perdido para que seja objeto da preocupação de Deus.


Estes temas, misericórdia e alegria, são importantes também em nossos dias, pois vivemos num mundo, que cada vez mais está ficando sem coração, sem sensibilidade, sem acolhimento. No mundo de hoje as pessoas são meros números. Milhões delas não contam: os velhos, os aleijados, os loucos, etc.  O homem perdeu a humanidade. Ele não vê no outro alguém igual a ele. Ele não vê no outro um irmão com as mesmas emoções, sentimentos, necessidades. O outro não passa de objeto de produção, de consumo, de exploração.


As três parábolas da misericórdia têm como destinatários os escribas e os fariseus. O que Jesus quer proclamar ao contá-las é que o amor, a misericórdia, o perdão e a comunhão são oferecidos por Deus aos perdidos; que a alegria de Deus quando um pecador se converte e acolhe a salvação que lhe é oferecida é muito maior do que tudo o que nós poderíamos imaginar.


Queremos refletir, de modo geral, sobre o retrato de cada personagem nesta parábola e cada um pode se identificar com um deles ou quem sabe com um pouco de cada.


RETRATO DO FILHO MAIS VELHO


Fisicamente ele fica tão perto do seu pai e irmão, mas tem uma grande distância interior que o separa deles. A proximidade física, de fato, não é uma garantia para ter amor, misericórdia, compreensão e perdão, somente a proximidade interior. Uma verdade nos diz: “É muito mais fácil ferir as pessoas que estão próximas do que as pessoas estranhas, os distantes “. Nenhuma vez ele chama seu pai de pai, nem seu irmão de irmão; ele chama o irmão de “teu filho “. Ele acusa o pai como cego e injusto. Para demonstrar-lhe sua cegueira e sua injustiça, ele compara seu comportamento exemplar com a conduta irresponsável do irmão caçula.  Ele perdeu a sensibilidade, o que o liga com os demais na família.


Este filho mais velho não ama e nem se sente amado; e porque não se sente amado, é desconfiado e ciumento. Do começo ao fim da parábola, ele não manifesta nenhum sinal de felicidade interior. Porque ele pensa que o que ele sempre desejou nunca lhe foi dado, mas foi dado ao outro (vv. 29-30). Suas atitudes e reações estão dominadas pelo desejo insatisfeito e pela inveja. A partilha da alegria é totalmente estranha para ele, a alegria dos outros resulta-lhe insuportável. O que deveria ser também para ele um motivo de alegria é sentido como ameaça à própria segurança. Fechado em si mesmo, só olha para si, para suas obras e para sua observância dos preceitos.


Vítima de ressentimento e do rancor, o filho mais velho recusa-se terminantemente a entrar e participar da festa: “Não queria entrar” (v.28). Para ele, que se considera justo e irrepreensível, seria uma humilhação e uma indignidade sentar-se à mesa com um degenerado e um perdido, que se tornou impuro no contato com os pagãos, com as prostitutas e com os porcos.


Portanto, não basta reconhecer a Misericórdia de Deus para com os outros, autorizá-la e até mesmo concordar com ela, temos de partilhá-la, fazer nossa a alegria de um Deus que quer não a morte do homem mas sua vida. E isto permanecerá sempre o mais difícil: acolher o Reino de Deus e Sua Justiça que nem sempre é a nossa.


Neste filho mais velho encontramos o que chamamos de “pecado dos bons “. Este pecado discreto, camuflado que passa despercebido por vezes até os olhos de quem o comete. Pensam à nossa volta que somos melhores do que os outros e nós mesmos facilmente pensamos que quando se fala em pecados ou em pecadores, se trata dos outros. E chega uma ocasião inesperada em que nos convencemos de que também nós pertencemos redondamente à família dos pecadores. Talvez já tenhamos passado por essa experiência sob um exterior virtuoso, o filho mais velho revela subitamente os maus sentimentos que se escondem no fundo do seu coração. Talvez os viesse reprimindo mas explodirão repentinamente sob a ação da cólera. As mais belas virtudes empalidecem aos olhos de Deus quando a pessoa se orgulha das suas virtudes.


Ao contemplar o comportamento do filho mais velho, devemos refletir sobre nós mesmos para ver em que medida o nosso coração, como o do filho mais velho, está triste e ressentido; para ver em que medida trabalhamos e observamos as normas e os preceitos, mas vivemos fechados em nós mesmos, na nossa “justiça” e na nossa autossuficiência, e somos incapazes de abrir-nos à alegria da comunhão com Deus e com os irmãos.


O filho mais velho é agressivo e intransigente porque é vítima do ciúme e do ressentimento. Confrontando nossos sentimentos, atitudes e comportamentos com os do filho mais velho, devemos nos perguntar com toda sinceridade, até que ponto nos deixamos conduzir também pela dureza e intransigência da “justiça” farisaica em vez de acolher, viver e partilhar a bondade de Deus. Muitas vezes, feridos pelas rejeições das quais nos julgamos vítimas, tendemos a fechar-nos dentro de nós mesmos, cultivando insatisfações e frustrações. Quanto mais nos fechamos, mais insatisfeitos nos sentimos e mais razões encontramos para condenar os outros e a nós mesmos. E quanto mais nos queixamos de nós mesmos e dos outros, mais rejeitados somos e mais incompreendidos e “perdidos” nos sentimos. Se nos deixarmos envolver nesse círculo vicioso, seremos incapazes de experimentar a alegria em nós mesmos e de partilhar a alegria dos outros.


Jesus convida todos nós a depor toda a inveja e toda compreensão legalista da lei e da ordem e a abrir-nos ao amor generoso e gratuito de Deus para com todos, inclusive e sobretudo para com os que não o “merecem”. Justamente porque seu amor é absolutamente gratuito, Deus oferece-o também aos que não têm “direitos” nem “méritos” para apresentar, mas só necessidade e o reconhecimento do seu pecado. Nós devemos decidir se queremos ficar presos ao princípio de uma justiça rígida e excludente ou, se queremos aderir ao Evangelho de Jesus acolhendo a bondade e generosidade ilimitada de Deus. O Reino de Deus acontece quando nós acolhemos o amor gratuito de Deus que nos é oferecido e quando essa acolhida muda nossa conduta, nossa relação com Deus e com os homens.


E nós, ajudamos os outros irmãos a se levantarem das quedas ou só temos o costume de atirar pedras? E a minha atitude diante dos irmãos que erram se parece mais com a dos fariseus que condenam ou com a de Jesus que perdoa e restaura a dignidade?


RETRATO DO FILHO MAIS NOVO (vv.11-16)


As palavras do filho mais novo” “Dá-me a parte dos bens que me cabe” são a ferida mais dolorosa que um filho podia causar no pai, pois elas expressam a ruptura do convívio e da comunhão com ele. Trata-se também de uma morte simbólica do pai, pois o filho mais novo pede logo a herança enquanto seu pai está vivo. Ele quebra os laços com o pai, com o lar, com a família. Esta ruptura é ainda mais enfatizada pela menção da partida para “um país longínquo”, isto é para uma terra pagã, para um mundo onde a maneira de pensar, de viver, de comportar-se, não tem nada a ver com a família e a casa onde o filho nasceu, foi alimentado, cresceu e aprendeu a relacionar-se. Esta partida significa um afastamento, uma rejeição de seu pai como pai. As consequências da ruptura com o pai serão a miséria extrema e a degradação máxima. Quando atravessou o limiar da casa paterna e deu as costas ao pai, o filho estava partindo sem o saber, para a solidão, para a alienação e para a perdição. Santo Agostinho comentou: “O homem, para onde se dirija, sem se apoiar em Deus só encontrará dor e sofrimento”.


Quando nos afastamos de Deus, estamos rejeitando, na verdade, o amor com que nos amou e escolheu desde toda a eternidade (Jr 31,3), estamos rejeitando o Deus que nos conhece e chama pelo nome (Is 43,1), nome que tem gravado nas palmas de suas mãos (Is 49,16); o Deus que nos leva nas suas asas, que nos protege e nos carrega nos seus ombros como o bom pastor. E quando nos afastamos de Deus e não ouvimos mais a sua voz, somos seduzidos pelas vozes dos ídolos que nos prometem a felicidade pela conquista do êxito, do poder e do prazer; da estima, da fama, do prestígio. Uma vez perdemos a liberdade interior, perdemos também a confiança nos outros. Nosso coração se endurece, o mundo se torna hostil e escuro, nossa vida não tem mais sentido. Estamos perdidos, e sentimo-nos perdidos.


Enquanto ele tinha dinheiro, não lhe faltavam amigos. Aliás, tais amigos (falsos) sempre existem em tal situação. Todos os que se aproximaram dele estavam interessados no seu dinheiro e nas festas que ele pagava. Mas um dia o dinheiro acabou. E ele se viu abandonado por todos. Quando o dinheiro acabou, também ele deixou de existir para os “amigos”. Ele cuida dos porcos. Isto para um judeu é um trabalho sumamente humilhante, pois a lei considera o porco um animal impuro (cf. Lv 11,7; Dt 14,8). O Talmud afirmará: “Maldito seja o homem que cuida de porcos”. Alimentar e fazer crescer o que há de mais imundo no mundo é a abominação máxima para um judeu. As consequências da opção do filho pródigo são a perda da justiça, ao não cumprir as exigências da Lei, e a apostasia da própria religião, pois um judeu que serve a um pagão rompe o vínculo com Deus. Isto quer dizer que a vida do filho mais novo desce até o nível de animal, sem valor, sem sentido, sem rumo e sem salvação. Ele chegou ao fundo do abismo da degradação.


Mas ele reconhece a misericórdia do pai, por isso ele volta.  Ele começou a refletir sobre si mesmo quando chegou ao mais fundo da miséria, da solidão e da humilhação, quando não tinha mais nenhum vínculo humano com ninguém. Foi justamente ao chegar ao fundo desse abismo, ao comparar sua situação de perdição com as condições de vida na casa do pai, que o filho perdido reencontrou seu verdadeiro eu. A conversão dele inicia pelo estômago antes de atingir o coração, uma tomada de consciência, prossegue com uma decisão de retorno, um pedido de perdão e finalmente o ato de retorno. O que é a penitência/conversão? Não é nada mais que o ser reencontrado e o voltar para casa. Onde provamos da jovialidade de Deus em sua alegria por nós e reacendemos nosso ânimo de viver, ali o Reino de Deus é a própria fonte da vida. Se experimentarmos assim o Reino de Deus, assumiremos a plenitude de nossas possibilidades de vida.


A figura do filho pródigo, no momento em que é abraçado pelo pai nos mostra como termina quem dá ouvidos às promessas de felicidade do mundo. A figura do pai que o acolhe nos mostra que quaisquer que tenham sido os caminhos do nosso afastamento e os abismos da nossa perdição, sempre podemos empreender o caminho de volta. O coração de Deus está sempre aberto para nos acolher, seus braços estão sempre abertos para nos abençoar. Suas palavras serão sempre as mesmas: “Tu és meu filho muito amado”. O amor incondicional e criador de Deus nos devolve a dignidade perdida.


Todos nós, de um ou de outra forma, nos afastamos da casa do Deus Pai; rompemos durante um tempo maior ou menor, a comunhão com ele e estivemos perdidos. Mas um dia retomamos o caminho de volta e fomos acolhidos, abraçados e perdoados pelo Pai que nos esperava.


RETRATO DO PAI


O que Jesus quer nos mostrar nesta parábola é o modo como Deus se comporta conosco, seus filhos; como ele pensa e sente, age e reage diante dos nossos comportamentos. Jesus nos revela um Deus cheio de ternura e de misericórdia, que vai ao encontro dos perdidos, libertando-os da exclusão e do isolamento; um Deus que exulta de alegria quando os reencontra e que convida a todos para a festa da comunhão e da alegria pelo seu retorno.


Então, o que nos interessa aqui é a atitude fora do comum do pai que na verdade é o amor sem limite de Deus e a total gratuidade de seu perdão. Perdoar significa concretamente refazer uma verdadeira comunidade, o que supõe um amor sem medida. O amor de Deus por nós não é o fruto de nossas obras ou de nossos méritos. Seu amor é anterior a tudo (1Jo 4,19). Portanto, a questão não ‘e como ganhar ou conquistar o amor de Deus. A verdadeira questão, a questão primeira e última é como conhecer, acolher e experimentar esse amor primeiro de Deus. Em outras palavras, como deixar-se amar por Deus.


Se nos for dada a graça de crer nesse amor e de experimentá-lo, ele curará todas as feridas e todos os sofrimentos causados em nós pela nossa baixa estima, pela nossa insegurança e pelos nossos ressentimentos. Se nos for dada a graça de experimentar esse amor, serão exorcizados todos os “demônios”, disfarçados de ídolos, que tentam de todas as formas nos seduzir para nos destruir: os falsos deuses que nos prometem a felicidade por meio de ter, do dinheiro, exibição e consumo de coisas materiais; por meio do prazer (sexo, drogas, bebidas etc.); ou por meio do poder. Esses ídolos só terão poder de sedução sobre nós se nos sentirmos afetivamente carentes. Se, porém, nos sentirmos amados por Deus com um amor total e eterno, esses ídolos serão vistos por nós como ídolos com pés de barro.


Quem conhece e experimenta o amor de Deus, recebe os dons da liberdade interior, da alegria e da paz, que lhe permitem pautar todas as suas opções e ações pelos valores do Evangelho. A uma pessoa com essa liberdade e com essa alegria, nada lhe falta. Essa pessoa vai chegar a conhecer, experimentar e amar a Deus como Criador, e como Pai, como origem e o fim de todas as coisas. Quem, pelo contrário, não estiver enraizado no amor de Deus, não poderá encontrar em nenhuma criatura a alegria e a liberdade buscadas porque elas são convertidas em ídolos.


A parábola termina com um ponto de interrogação. Nunca saberemos se o filho mais velho entrou em casa e participou da festa ou continuou em sua raiva, suas certezas, seu direito e sua justiça. É deste ponto de interrogação que precisaríamos partir, sabendo que o convite feito ao filho mais velho pretende atingir e questionar os cristãos deste tempo. Provavelmente teremos que fazer, para nós mesmos, a experiência extraordinária do que é a misericórdia de Deus. Temos que purificar a imagem que dele fazemos, com a nossa mediocridade de falsários inconscientes. Temos ainda que entender que não somente devemos agir como Deus, mas também alegrar-nos com Ele. Isto é uma maneira de viver a misericórdia de Deus, a face mais bonita do Amor d’Ele por todos nós. Temos a generosidade de perdoar ou somos vingativos?


E o pai dá três ordens para os empregados: trazer a melhor túnica, colocar um anel no dedo do filho e sandálias nos pés.
·        Na cultura oriental do tempo de Jesus, uma vestimenta elegante era sinal de dignidade de seu portador. Isto quer dizer que o filho mais novo volta a ter a mesma dignidade que ele tinha antes de sair de casa.


·        Anel significa a plena condição de herdeiro, com todos os direitos, incluindo o poder de representar o pai e selar contratos. Em outras palavras, anel significa plenos poderes. O filho voltou a ter o poder que tinha antes.


·        Sandálias representam a condição de homem livre e de senhor de casa. Os hóspedes tiram as sandálias ao entrar na casa, o filho as põe; os escravos andam descalços, as pessoas de condição elevada calçam sandálias. Caminhar calçado pela casa significa posse. Isto quer dizer que o filho mais novo voltou a ter sua dignidade perdida.


Assim será minha vida, sua vida, nossa vida quando decidirmos voltar para Deus. Nesta parábola o filho mais novo quer nos dizer: Qualquer um de nós pode se perder no caminho, mas jamais esqueçamos o caminho de volta para a casa de Deus, nosso verdadeiro lar. Que esta volta não seja tarde demais para que o espirito mundano não nos destrua. Assim seja!
 
P. Vitus Gustama,svd