quarta-feira, 29 de maio de 2019

Domingo,02/06/2019
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ASCENSÃO DO SENHOR-
ANO “C”


I Leitura: At 1,1-11
1 No meu primeiro livro, ó Teófilo, já tratei de tudo o que Jesus fez e ensinou, desde o começo, 2 até o dia em que foi levado para o céu, depois de ter dado instruções, pelo Espírito Santo, aos apóstolos que tinha escolhido. 3 Foi a eles que Jesus se mostrou vivo, depois de sua paixão, com numerosas provas. Durante quarenta dias, apareceu-lhes falando do Reino de Deus. 4 Durante uma refeição, deu-lhes esta ordem: “Não vos afasteis de Jerusalém, mas esperai a realização da promessa do Pai, da qual vós me ouvistes falar: 5 ‘João batizou com água; vós, porém, sereis batizados com o Espírito Santo, dentro de poucos dias’”. 6 Então os que estavam reunidos perguntaram a Jesus: “Senhor, é agora que vais restaurar o Reino em Israel?” 7 Jesus respondeu: “Não vos cabe saber os tempos e os momentos que o Pai determinou com a sua própria autoridade. 8 Mas recebereis o poder do Espírito Santo que descerá sobre vós, para serdes minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e na Samaria, e até os confins da terra”. 9 Depois de dizer isso, Jesus foi levado ao céu, à vista deles. Uma nuvem o encobriu, de forma que seus olhos não podiam mais vê-lo. 10 Os apóstolos continuavam olhando para o céu, enquanto Jesus subia. Apareceram então dois homens vestidos de branco, 11 que lhes disseram: “Homens da Galileia, por que ficais aqui, parados, olhando para o céu? Esse Jesus, que vos foi levado para o céu, virá do mesmo modo como o vistes partir para o céu”.


II Leitura: Ef 1,17-23
Irmãos: 17 O Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai, a quem pertence a glória, vos dê um espírito de sabedoria que vo-lo revele e faça verdadeiramente conhecer. 18 Que ele abra o vosso coração à sua luz, para que saibais qual a esperança que o seu chamamento vos dá, qual a riqueza da glória que está na vossa herança com os santos, 19 e que imenso poder ele exerceu em favor de nós que cremos, de acordo com a sua ação e força onipotente. 20 Ele manifestou sua força em Cristo, quando o ressuscitou dos mortos e o fez sentar-se à sua direita nos céus, 21 bem acima de toda a autoridade, poder, potência, soberania ou qualquer título que se possa nomear, não somente neste mundo, mas ainda no mundo futuro. 22 Sim, ele pôs tudo sob seus pés e fez dele, que está acima de tudo, a Cabeça da Igreja, 23 que é o seu corpo, a plenitude daquele que possui a plenitude universal.


Evangelho: Lc 24,46-53
Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 46 “Assim está escrito: O Cristo sofrerá e ressuscitará dos mortos ao terceiro dia 47 e no seu nome serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém. 48 Vós sereis testemunhas de tudo isso. 49 Eu enviarei sobre vós aquele que meu Pai prometeu. Por isso, permanecei na cidade, até que sejais revestidos da força do alto”. 50 Então Jesus levou-os para fora, até perto de Betânia. Ali ergueu as mãos e abençoou-os. 51 Enquanto os abençoava, afastou-se deles e foi levado para o céu. 52 Eles o adoraram. Em seguida voltaram para Jerusalém, com grande alegria. 53E estavam sempre no Templo, bendizendo a Deus.
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Certos teólogos e Padres da Igreja (Tertuliano, Hipólito, Eusébio, Atanásio, Ambrósio e Jerônimo) concordam que a ascensão de Jesus acontece simultaneamente com a ressurreição. O dia da Páscoa, por isso, não é somente o dia da ressurreição, mas também o dia da ascensão. Esta ideia durou até o fim do século IV. Celebrava-se no assim chamado “Pentecostes”, que durava desde a Páscoa até o dia de Pentecostes, num período festivo de cinquenta dias, a ressurreição, a ascensão e a missão do Espírito Santo como um único mistério festivo. A Igreja primitiva tinha bastante consciência da unidade íntima da ressurreição, ascensão e missão do Espírito Santo. Só a partir do século V (ou no fim do século IV), baseia-se sobre o relato lucano, é que começou a existir uma festa da ascensão no quadragésimo dia, após a Páscoa e Pentecostes, separadamente como hoje temos costume de celebrar. É claro que, de ponto de vista teológico, esta separação se considera como uma perda (para ter uma visão maior sobre esse assunto veja Gerhard Lohfink, A Ascensão de Jesus, Paulinas,1977).


A ressurreição, a Ascensão e Pentecostes são aspectos diversos do mistério pascal. São apresentados como momentos distintos e são celebrados como tais na liturgia para pôr em destaque o rico conteúdo do mistério pascal.  A ressurreição sublinha a vitória de Cristo sobre a morte, a Ascensão seu retorno ao Pai e tomada de posse do Reino e Pentecostes, sua nova forma de presença na história.


Por isso, afirmar que Jesus “subiu ao céu” (1Pd 3,22) ou “foi exaltado na glória” (1Tm 3,16) é exatamente a mesma coisa que afirmar que ele “ressuscitou”, que foi glorificado, que entrou na glória de Deus. Não foi uma viagem interplanetária. Não houve nenhum deslocamento no espaço. A ascensão significa a caminhada de Jesus que vai da morte à glória do Pai, caminhada que para nós é invisível e incompreensível. Não é uma caminhada como as que conhecemos pela nossa experiência aqui na terra. Não se pode fixá-lo no tempo, nem medir sua distância, nem se pode dizer se vai nesta ou naquela direção. Tempo, distância, direção, tudo isso vale para as nossas caminhadas terrenas. A caminhada de Jesus até a glória do Pai realiza-se na ressurreição. A ascensão é um evento pascal.


Ficando independente de tempo e espaço, Jesus está totalmente liberto. Ninguém mais pode retê-lo para si, ninguém pode ser dono de Jesus, ninguém tem a última palavra para interpretá-lo. Nesse novo modo de presença, Jesus ultrapassa tudo que quisermos usar para defini-lo. A narrativa de Lucas nos Atos dos Apóstolos (a primeira leitura) é uma página de teologia, não uma informação sobre fatos. Neste relato Lucas quer nos dizer que a ressurreição de Jesus não significa que a história agora já chegou a seu termo e que a volta de Jesus na glória esteja imediatamente às portas (isso se discutia muito na época). Ao contrário, a Páscoa significa que Deus concede agora à Igreja espaço e tempo para se desenvolver: para uma missão sem fronteiras. Além disso, neste livro nos é ensinado que tudo o que acontece aqui na terra: sucesso ou fracasso, injustiças, sofrimentos e até mesmo os fatos mais absurdos, como uma morte ignominiosa, não estão excluídos do projeto e do olhar amoroso de Deus.


A festa da Ascensão nos dá a oportunidade de reacender cada dia com nova luz a maior das certezas de nossa vida: Jesus está vivo e está conosco todos os dias com seu poder (Mt 28,20). Jesus não foi para um outro lugar, mas permanece na companhia de cada um de nós. Com a Ascensão a sua presença não ficou limitada, mas se multiplicou. Por isso, a nossa esperança não está perdida no espaço, mas baseia-se na confiança depositada na lealdade de um Deus, “o qual faz viver os mortos e chama à existência as coisas que não existem” (Rm 4,17). O Deus da vida é fiel aos homens. Se este é o destino de todo o homem, a morte já não inspira medo. Jesus a transformou num nascimento para a vida com Deus. Todo aquele que tem essa esperança não se deixa ficar olhando para o céu, como fizeram os apóstolos naquele dia, mas ao contrário, traduz esta esperança em empenho e testemunho.


Sobre A Bênção E Adoração De Jesus (vv.50-52)


O motivo da bênção e da adoração foi tomado do AT, especialmente do Eclo 50,20-23 (os mesmos elementos e na mesma ordem encontram-se no texto lucano, menos a frase no v. 51). Nestes versículos narra-se a conclusão de uma liturgia no templo onde o Sumo Sacerdote ergueu as mãos e abençoou o povo. Depois disso, o povo se prostrou em adoração.


“Jesus, erguendo as mãos, os abençoou” (v.50). “Erguer as mãos” caracteriza o ressuscitado que se despede como sacerdote: a despedida em forma de bênção é fim da liturgia de sua vida, mas essa bênção há de ficar sobre eles: “Enquanto os abençoava, Jesus afastou-se deles” (v.51). Ao se despedir, Jesus abrange a comunidade dos discípulos com sua bênção, subtraindo-se, mas permanecendo próximo e presente de uma nova maneira.


Os discípulos, abençoados com toda a bênção espiritual, recebem a missão de comunicar a bênção da fé, da conversão e da salvação a todas as nações (v.47). Todo cristão, abençoado, é também enviado. Em cada missa/eucaristia todos nós somos abençoados pela experiência da comunhão fraterna, pela Palavra de Deus, pelo Pão da vida, o Pão eucarístico. Por isso nós recebemos também uma missão: transformarmo-nos em fonte de bênção para o próximo. Isso é explicitado no rito final da Missa. Dá-se a bênção e realiza-se o envio: “Ide em paz e o Senhor vos acompanhe!” respondemos: “Graças a Deus!” Também minha vida será uma ação de graças e uma bênção e uma paz para os outros. A eucaristia/missa nos consagra em cada domingo a esta missão. Voltemos para casa na expectativa de ser “revestidos da força do alto” (Lc 24,49), da paz e da bênção do Senhor.


A celebração da Ascensão do Senhor urge-nos a passar da comodidade (comodismo), dos bons sentimentos à realidade dos fatos, mesmo chegando a complicar nossa vida por amor de Cristo e dos irmãos mais necessitados. Somente assim cumpriremos como discípulos de Jesus a tarefa de tornar real em nosso mundo Cristo, nossa esperança e salvação.


Sobre A Alegria (v.52)


 Em seguida voltaram para Jerusalém, com grande alegria” (v.52). É uma alegria estranha numa despedida! Certamente, no dia da Ascensão do Senhor aconteceu uma transformação maravilhosa nos discípulos. Os discípulos compreenderam claramente, apesar de todas as tendências humanas, que deviam procurar a alegria para além do visível, no reino do invisível, e que poderiam encontrá-la porque Cristo está presente por toda a parte. E assim os discípulos começaram a experimentar vivamente que o invisível e o inefável se ocultam no visível. A partir daí, o homem não tem mais que olhar extasiado para o céu, para encontrar a alegria, mas para se desempenhar nas tarefas terrenas. O Senhor habita no coração que sabe amar. E o amor nos alegra.


O Evangelho de Lucas é, além de outros títulos, conhecido também como “o Evangelho de alegria”. O verbo ”alegrar-se” se encontra sete vezes em Lc e nenhum em outros evangelhos. O substantivo “alegria” ocorre 12 vezes em Lucas e 16 vezes em outros evangelhos. Em Lucas, a alegria é um mandamento de Jesus: “Alegrai-vos porque vossos nomes estão escritos nos céus” (Lc 10,20).


A alegria é sinal da salvação que se aproxima e que já se realiza em Jesus Cristo. Ela é a característica do cristão na esperança, na expectativa e na certeza da ressurreição. Por isso, a tristeza e o desânimo não são apenas sintomas de um profundo cansaço, mas são um sinal da ausência de uma verdadeira esperança cristã que no fundo provém de uma falta de fé.


A autêntica alegria constitui sempre um presente para nós. Ela procede de Deus. A alegria humana é uma participação graciosa na alegria divina, na essência de Deus, que constitui um único espaço de sublime alegria. As fontes da autêntica alegria estão, portanto, lá onde o homem sai ao encontro de Deus.


Um coração feliz e um caráter alegre são um dom precioso não só para aquele que os possui, mas também para aqueles que vivem à sua volta. A Bíblia fala da dança e da salmodia como expressões de júbilo. E a Bíblia fala frequentes vezes das muitas e boas razões que temos para estarmos alegres. A revelação divina é, do princípio ao fim, uma mensagem de alegria contagiosa. São Paulo, por exemplo, grita: “Alegrai-vos sempre no Senhor” (Fl 4,4). Se interiorizarmos esta rica mensagem de alegria, nada deverá perturbar ou mesmo destruir a nossa paz interior. Toda a nossa existência, qualquer gesto da nossa parte, deveria manifestar ao mundo que temos origem na transbordante bem-aventurança de Deus que nos chamou a concelebrar o festim eterno da Sua felicidade e da Sua alegria.


A alegria cristã é independente de qualquer coisa no mundo porque tem sua fonte na contínua presença de Cristo (cf. Mt 28,20). O cristão pode perder todas as coisas e todas as pessoas, mas ele jamais perderá Cristo Jesus (Rm 8,35-39). Embora se encontre numa circunstância em que a alegria se tornaria impossível, a alegria cristã permanece. Para São Paulo, nenhum obstáculo ou dificuldade é capaz de impedir a verdadeira alegria, pois ela é um dos frutos do Espírito Santo (cf. Gl 5,22). Trata-se da origem superior, e por isso, está acima de tudo que é passageiro. Tudo pode passar, inclusive o sofrimento, mas a alegria permanece, pois é o fruto da aceitação de Deus na vida do homem, fruto do Espírito Santo. O mistério de alegria nasce de Deus, é um dom, e por isso não se compra em nossos mercados nem se encontra em nossas salas de festa. A alegria brota de dentro e tem sua origem no Espírito Deus. Dois amores, quando estiverem juntos, são sempre felizes, onde quer que eles estejam. Seria blasfêmia apresentar Deus como inimigo da vida e da alegria. O homem foi criado para expandir-se na alegria e é, por isso, chamado por Deus para expandir a alegria.  Não é por acaso que para o evangelista Lucas a alegria é um mandamento: “Alegrai-vos porque vossos nomes estão inscritos nos céus” (Lc 10,20). O verdadeiro cristão jamais perderá sua alegria porque jamais perderá Jesus Cristo.


Quando fizermos o tão necessário da alegria, não pensemos só em nós. O nosso próximo necessita do nosso rosto alegre e, às vezes, também de uma palavra que o faça sorrir. A firme intenção de sermos portadores de alegria e o empenho em contagiar os outros com uma alegria santa, são uma defesa muito eficaz contra a perda da mesma. Na medida em que nós distribuímos alegria, a experimentamos também.  Podemos e devemos, por isso, rezar para alcançarmos um coração alegre e aprendermos a arte de alegrar os outros. é preciso nos manter em união plena com o Espirito Divino para nos manter na verdadeira alegria.


Ascensão É Uma Festa De Compromisso Cristão


O livro dos Atos dos Apóstolos nos relata que durante quarenta dias depois da ressurreição Jesus apareceu aos discípulos falando-lhes do Reino de Deus (At 1,3b). O número quarenta é um número simbólico: é o número que define o tempo necessário para que um discípulo possa aprender e repetir as lições do mestre. Aqui define, portanto, o tempo simbólico de iniciação ao ensinamento do Ressuscitado.


Além disso, o mesmo livro nos relata que dois homens vestidos de branco chamam atenção dos discípulos ao dizer: “Homens da Galileia, por que ficais aqui, parados, olhando para o céu?” (At 1,10b.11).


Tudo isto quer nos dizer que o cristão é chamado a não ficar parado num espiritualismo alienado da realidade, e sim a transformar o mundo através da vivência e do anúncio dos valores que Cristo lhes ensinou que se resumem no mandamento do amor fraterno. Os cristãos recebem de Jesus o encargo de anunciar a Boa Notícia para todos. Anunciar Jesus Cristo significa dar testemunho de um fato, de um acontecimento. O anúncio tem de ser acompanhado por sinais que dão credibilidade que serão por si mesmos Boa Notícia. A mensagem deve ser um anúncio de libertação para todos, libertação daquelas ideologias que propõem ao homem um modo de vida contrário ao que Deus quer.


Portanto, a prova de que alguém fala em nome de Jesus são estes: quando as suas palavras saem do coração livre, as palavras que têm a marca do coração; quando se compromete com a libertação dos homens; quando sua vida mostra que o amor é muito mais importante do que o poder, o prestígio e o dinheiro; Quando ele é apaixonado pela vida e pela defesa da vida em todas as suas etapas: no seu início, na sua duração e no seu fim. Estes sinais: a libertação, o amor e a vida são os sinais que devem identificar aos seguidores de Jesus, os sinais que garantem que a mensagem anunciada é a mensagem de Cristo.


A ascensão de Jesus nos recorda que Ele foi elevado para junto do Pai e nos encarregou de continuar a tornar realidade o seu projeto libertador no meio dos homens, nossos irmãos. Jesus não está aqui fisicamente, mas podemos lhe emprestar nosso corpo para fazer Jesus presente no mundo. Jesus não tem aqui Suas mãos, mas as nossas lhe servem para continuarmos a abençoar, a libertar e a construir a fraternidade. Jesus não pode mais, fisicamente, percorrer nossos caminhos, mas podemos emprestar nossos pés para ir ao encontro dos necessitados (Igreja em saída), como Jesus fazia. Jesus não pode repetir Suas bem-aventuranças nem proclamar o Ano da graça nem pronunciar Suas palavras de vida eterna, mas podemos lhe emprestar nossos lábios para continuar a anunciar a Boa Notícia aos pobres/necessitados e a salvação a todas as pessoas. Jesus não pode acariciar as crianças, curar os enfermos, perdoar aos pecadores, mas podemos emprestar-lhe nosso coração para continuar a estar próximos de todos os que sofrem e a mostrar e anunciar-lhes a misericórdia de Deus.


É relativamente frequente ouvirmos dizer que muitos seguidores de Jesus gostam mais de olhar para o céu, do que comprometerem-se na transformação da terra. Estamos, efetivamente, atentos aos problemas e às angústias dos homens, ou vivemos de olhos postos no céu, num espiritualismo alienado? Sentimo-nos questionados pelas inquietações, pelas misérias, pelos sofrimentos, pelos sonhos, pelas esperanças que enchem o coração dos que nos rodeiam? Sentimo-nos solidários com todos os homens, particularmente com aqueles que sofrem?


Tudo isso quer nos dizer que não existe lugar definitivo aqui neste mundo. O lugar definitivo não está aqui. Também nossos bens, tudo o que possuímos é provisional. Não poderemos levar nada conosco. Tudo o que não partilhamos com os outros perdemos. Tudo o que guardamos para nós somente, tudo o que intentamos conservar com nossas próprias forças, se desfazer em nossas mãos. Tudo o que conservamos com carinho, tudo o que consideramos mais valioso de nossa vida, o perderemos se não pusermos ao serviço dos irmãos: bens materiais, tempo, conhecimento.


Nossa vida sobre a terra deve ser uma constante Ascensão, isto é, deve ser uma constante superação, um progresso, uma maduração. Viver é dar passos adiante, alcançar novas metas, aproximar-se da plenitude. As imagens que indicam as possibilidades da vida humana são a semente que cresce, o caminho a percorrer, a meta a ser alcançada. A vida é um projeto que se vai perfilando, mas que nunca se acaba. Para manter a esperança temos ter sempre presente a meta que queremos alcançar. Ao dizer que Jesus subiu aos céus ou foi levado ao céu, o texto bíblico quer nos dizer que a vida de Jesus alcançou a plenitude, pois ele sempre a viveu em função do bem, da bondade, do amor, da compaixão. A vida de Jesus foi uma vivida em Deus que se traduziu no amor sem limite ao ser humano, especialmente aos necessitados.
P. Vitus Gustama,svd
01/06/2019
Imagem relacionadaResultado de imagem para Em verdade, em verdade vos digo: se pedirdes ao Pai alguma coisa em meu nome, ele vo-la dará.
A ORAÇÃO NOS APROXAIMA DE DEUS E NOS TORNA ALEGRES
Sábado da VI Semana da Páscoa


Primeira Leitura: At 18,23-28
23 Paulo permaneceu algum tempo em Antioquia. Em seguida, partiu de novo, percorrendo sucessivamente as regiões da Galácia e da Frígia, fortalecendo todos os discípulos. 24 Chegou a Éfeso um judeu chamado Apolo, natural de Alexandria. Era um homem eloquente, versado nas Escrituras. 25 Fora instruído no caminho do Senhor e, com muito entusiasmo, falava e ensinava com exatidão a respeito de Jesus, embora só conhecesse o batismo de João. 26 Então, ele começou a falar com muita convicção na sinagoga. Ao escutá-lo, Priscila e Áquila tomaram-no consigo e, com mais exatidão, expuseram-lhe o caminho de Deus. 27 Como ele estava querendo passar para a Acaia, os irmãos apoiaram-no e escreveram aos discípulos para que o acolhessem bem. Pela graça de Deus, a presença de Apolo aí foi muito útil aos fiéis. 28 Com efeito, ele refutava vigorosamente os judeus em público, demonstrando pelas Escrituras que Jesus é o Messias.


Evangelho: Jo 16, 23-28
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 23b “Em verdade, em verdade vos digo: se pedirdes ao Pai alguma coisa em meu nome, ele vo-la dará. 24 Até agora nada pedistes em meu nome; pedi, e recebereis; para que a vossa alegria seja completa. 25 Disse-vos estas coisas em linguagem figurativa. Vem a hora em que não vos falarei mais em figuras, mas claramente vos falarei do Pai. 26Naquele dia pedireis em meu nome, e não vos digo que vou pedir ao Pai por vós, 27pois o próprio Pai vos ama, porque vós me amastes e acreditastes que eu vim da parte de Deus. 28Eu saí do Pai e vim ao mundo; e novamente parto do mundo e vou para o Pai”.
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É Preciso Cada Cristão Empenhar-se Para o Bem Da Igreja/Comunidade


A Primeira Leitura se concentra em um personagem chamado Apolo. Apolo era um judeu que se formou em Alexandria de Egito e era experto na Escritura (AT). Ele pregou Jesus como Messias, embora ainda fosse discípulo de João Batista.


Lucas disse que Apolo era “um homem eloquente” ou “poderoso”. “Eloquente” ou “poderoso” é um termo retórico para lógica e persuasão. Apolo aprendeu a arte da habilidade nos debates em sua educação secular e usava isso de maneira excelente para ensinar que Jesus era o Messias Prometido. Ele era um judeu-cristão, apologista e debatedor. Ele combinava seu conhecimento vasto sobre o AT com sua educação secular na arte da retórica.


Inicialmente, Apolo pregava na sinagoga de Éfeso, onde foi ouvido por Áquila e Priscila, um casal muito amigo de São Paulo, dois grandes ministros da Igreja primitiva em Corinto. Áquila e Priscila convidaram Apolo para visita-los em Corinto. Nessa época Áquila e Priscila eram o ele entre a comunidade de Éfeso e Corinto. Apolo fortaleceu grandemente a comunidade cristã de Corinto.


Apolo permaneceu algum tempo em Corinto e engajou-se numa obra promissora. Os que converteram por meio do seu ministério, quando começaram a surgir divisões após o retorno dele a Éfeso, viam a si mesmos como pertencentes a Apolo, em termos seculares. Logicamente, os outros se consideravam seguidores de São Paulo. Este problema podemos ler em 1Cor 1-4. Ciúmes e rivalidades entre professores eram exatamente o que mestres e discípulos seculares faziam, com o espirito competitivo, na luta pela reputação de suas escolas e por maior influência nas assembleias políticas (1Cor 3,1.3; Cf. 1Cor,1,11).


Em 1Cor 4,6, São Paulo condena a divisão ou a competição entre ele e Apolo e chama tal atitude de “imatura” e “mundana”. São Paulo revela as funções distintas de cada um, destacando que um plantava e outro regava, cooperando conjuntamente para o crescimento da Igreja/Comunidade, pois apenas Deus pode fazer crescer (1Cor 3,5-6). Tanto São Paulo como Apolo eram de tal estrutura espiritual, que nenhum dos dois reagiu ao jogo de poder dos coríntios, mas continuaram empenhados em prol do bem da Igreja/Comunidade.


O ciúme é tóxico. O ciúme acontece quando sentimos medo de perder algo. Pode-se ter ciúme de uma pessoa amada, do trabalho. Um bebê/criança pode ter ciúme da mãe ou do pai quando estes falam com outras crianças. Pode-se ter ciúme dos amigos. O circuito do ciúme funciona da seguinte maneira: em primeiro lugar, sentir a ameaça. A pessoa ciumenta sente que há um terceiro que pode ser real ou imaginário que vem rouba seu amor, seu trabalho, seu amigo(a). Em segundo lugar, o ciumento gosta de controlar seu parceiro, vigiar, revisar, seguir para descobrir a prova. Em terceiro lugar, o ciumento gosta de proibir seu parceiro, em termos de se vestir, de amizades, e assim por diante. Em quarto lugar, o ciumento é capaz de pedir perdão ao seu parceiro até que apareça um terceiro para voltar tudo outra vez.


A partir da vida de Apolo e São Paulo, será que somos capazes de usar bem nossa capacidade acadêmica para evangelizar os outros ou somente para o uso próprio? Será que se repete nas nossas comunidades, como em Corinto, em que há seguidores de uns sacerdotes e há também seguidores de outros padres? Será que no próprio sacerdote há ciúmes de outro sacerdote? É preciso que cada um se empenhe para o bem da Igreja a exemplo de Apolo e São Paulo.


Rezar Em Nome Do Senhor


Continuamos a acompanhar o discurso de despedida de Jesus de seus discípulos segundo o quarto Evangelho/Evangelho de João (Jo 13-17).


O texto do evangelho de hoje começa com a seguinte expressão: “Em verdade, em verdade vos digo...”. Toda vez que Jesus quer falar algo importante, ele usa essa fórmula solene. Hoje ele fala sobre a importância de fazer a oração com fé, isto é, fazê-la em nome de Jesus: “Em verdade, em verdade vos digo: se pedirdes ao Pai alguma coisa em meu nome, ele vo-la dará. Até agora nada pedistes em meu nome; pedi, e recebereis; para que a vossa alegria seja completa”.


Jesus quer que os discípulos façam seus pedidos em seu nome. A expressão “pedir em meu nome” significa pedir na fé em Jesus; significa suplicar ao Pai enquanto discípulo de Jesus mediante a fé que o reconheceu como Filho do Pai. Aqui a oração se torna uma participação no diálogo divino onde a conversa é desprovida de qualquer pretensão, pois a oração é o momento de participação no diálogo divino isto é, no diálogo entre o Filho e o Pai. Para o evangelista João aqui está o sentido da verdadeira oração. Na participação desse diálogo a vontade suprema de Deus ocupa o lugar importante na oração.


Além disso, na participação do diálogo divino percebemos algo importante que Jesus quer nos transmitir: que a oração é a fonte de gozo, de expansão, e de equilíbrio: “pedi, e recebereis; para que a vossa alegria seja completa”. Orar/rezar é estar na contemplação, no repouso em Deus. Estar na oração é estar no mundo de Deus, tão próximo de nós na oração. Estar no mundo de Deus é estar na alegria plena e na serenidade. A verdadeira oração sempre nos causa alegria e nos dá a serenidade sabendo que Deus nos ama no Filho (Jo 3,16), que ama cada um até o fim (Jo 13,1) Cada um precisa fazer isso permanentemente. É impossível experimentar o mundo divino na oração no lugar dos outros; cada um há que experimentar esse mundo por si mesmo.


“Pedi, e recebereis; para que a vossa alegria seja completa”. A oração é fonte de gozo, fonte de expansão, fonte de equilíbrio. Rezar é repousar em Deus. Na oração nós nos aproximamos do mundo divino para iluminar nosso mundo de cada dia. É preciso rezarmos permanentemente para que nossa alegria seja completa e permanente. Até agora Jesus nos indica o caminho para chegar à nossa alegria plena: através do amor fraterno (cf. Jo 15,9-11) e através da oração (Jo 16,24). Orar e amar permanentemente nos mantém na alegria plena.


Na oração não há distância entre nós e Deus. A distância é abolida. Na oração, entre o mundo invisível e o mundo visível não há muros de separação. A oração faz com que a terra se aproxima do céu, a humanidade se une à divindade. Na oração há uma comunicação direta entre quem reza e Deus. Da terra sobem sem cessar orações de amor e de fé. E do céu descem sem cessar graças e palavras divinas de amor. Na oração nossa fé no amor de Deus por nós aumenta, pois mesmo que façamos nossos pedidos a Deus erradamente, Deus sempre dá algo corretamente pela nossa salvação. Deus atende aquilo que nos salva. Porém, temos que estar conscientes de que sempre que nós rezamos de verdade, a nossa oração é eficaz, não porque modificamos Deus, mas porque nos modificamos. O mais difícil da oração não é tanto saber se Deus nos escuta, mas conseguirmos que nós O escutemos.


Orar ou rezar é como entrar na esfera de Deus. De um Deus que quer nossa salvação, pois já nos ama antes de nos dirigirmos a Ele, como quando tomamos o sol que já estava brilhando. Ao entrarmos em sintonia com Deus, por meio de Cristo e seu Espírito, nossa oração coincide com a vontade salvadora de Deus e nesse momento nossa oração já é eficaz.


“Em verdade, em verdade vos digo: se pedirdes ao Pai alguma coisa em meu nome, ele vo-la dará”. Na oração entramos nas profundezas de Deus e nos deixamos envolver pelo mistério da Santíssima Trindade. Na fé cristã a oração é sempre trinitária, pois se dirige ao Pai no Espírito através do Filho. É do Pai que vem o dom pelo Filho no Espírito Santo. A oração é o momento e o acontecimento trinitário.


Jesus veio do mundo divino/celeste onde reina o amor que nos envolve inteiramente: “Eu saí do Pai e vim ao mundo; e novamente parto do mundo e vou para o Pai”.  É o mundo em que as relações entre as Pessoas (Santíssima Trindade) são totalmente satisfatórias, profundas e perfeitas. É o mundo onde o amor é rei e faz todos felizes. Jesus veio para nos revelar quem é nosso Deus? Deus é Pai, Deus é amor, Deus nos ama.


Portanto, para que nossa alegria seja completa e nossa felicidade seja plena temos que aprender a amar e a orar permanentemente. Amamos os outros para que nos tornemos divinos. O divino nos dá a alegria, pois o divino nos salva. E “só se ama verdadeiramente o próximo quando se ama a Deus no próximo, seja porque Deus já vive nele, seja para que Deus viva nele. Isto é amor” (Santo Agostinho: Serm. 336,1,1). Oramos para que estejamos na esfera divina e consequentemente, nossa alegria será completa. Quer ser alegre? Ame e reze permanentemente!


Senhor, preciso de ti para não me apoiar nas muletas que limitam a liberdade, nem em algo que hoje me estimula e amanhã me prostra até o pó e lama. Abre-me o coração ao teu projeto e dá-me força para encaixá-lo em minha vida. Que assim seja!
P. Vitus Gustama,svd

31/05/2019
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VISITAÇÃO DE MARIA A ISABEL
31 de Maio

Primeira Leitura: Sofonias 3,14-18
14 Canta de alegria, cidade de Sião; rejubila, povo de Israel! Alegra-te e exulta de todo o coração, cidade de Jerusalém! 15 O Senhor revogou a sentença contra ti, afastou teus inimigos; o rei de Israel é o Senhor, ele está no meio de ti, nunca mais temerás o mal. 16 Naquele dia, se dirá a Jerusalém: “Não temas, Sião, não te deixes levar pelo desânimo! 17 O Senhor, teu Deus, está no meio de ti, o valente guerreiro que te salva; ele exultará de alegria por ti, movido pelo amor; exultará por ti, entre louvores, 18 como nos dias de festa. Afastarei de ti a desgraça, para que nunca mais te cause humilhação”.

Evangelho: Lc 1, 39-56
39Naqueles dias, Maria partiu para a região montanhosa, dirigindo-se, apressadamente, a uma cidade da Judeia. 40Entrou na casa de Zacarias e cumprimentou Isabel. 41Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança pulou no seu ventre e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. 42Com um grande grito exclamou: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto de teu ventre!” 43Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar? 44Logo que a tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança pulou de alegria no meu ventre. 45Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu”. 46Maria disse: “A minha alma engrandece o Senhor, 47e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, 48porque olhou para a humildade de sua serva. Doravante todas as gerações me chamarão bem-aventurada, 49porque o Todo-poderoso fez grandes coisas em meu favor. O seu nome é santo, 50e sua misericórdia se estende, de geração em geração, a todos os que o temem. 51Ele mostrou a força de seu braço: dispersou os soberbos de coração. 52Derrubou do trono os poderosos e elevou os humildes. 53Encheu de bens os famintos, e despediu os ricos de mãos vazias. 54Socorreu Israel, seu servo, lembrando-se de sua misericórdia, 55conforme prometera aos nossos pais, em favor de Abraão e de sua descendência, para sempre”. 56Maria ficou três meses com Isabel; depois voltou para casa.
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Maria, Filha de Sião


Não temas, Sião, não te deixes levar pelo desânimo! O Senhor, teu Deus, está no meio de ti, o valente guerreiro que te salva; ele exultará de alegria por ti, movido pelo amor; exultará por ti, entre louvores, como nos dias de festa. Afastarei de ti a desgraça, para que nunca mais te cause humilhação” (Sofonias 3,17-18).


Com o profeta Sofonias, cujo texto da Primeira Leitura tiramos do seu livro, nos encontramos no século VI a.C, nos tempos do Rei Josias. É um período marcado pelas contínuas infidelidades a Deus por parte de Israel, pois esta faz alianças com o poder estrangeiro com seus cultos pagãos (idolatria). O profeta Sofonias tem diante de seus olhos esta situação amarga. Consequentemente, o profeta proclama “O Dia terrível de Javé” sobre todas as nações, inclusive Judá. Porém, atrás desta proclamação está o convite à conversão para que “O Dia terrível de Javé” se transforme em “O Dia messiânico”. Com a conversão do povo, já não terá mais o dia de ira do Senhor e sim será o Dia da misericórdia, o Dia do novo amor entre Deus e seu povo. Não existirá mais medo. Tudo motivo de alegria: serão vencidos os inimigos, Deus voltará a ser o único rei de Israel que é o Deus salvador.


A Filha de Sião da qual fala o profeta Sofonias é figura de Maria, pois através de seu sim incondicional nasceu para a humanidade o Salvador, Jesus Cristo. Ele é a encarnação do amor misericordioso do Pai do céu. Por isso, ele pede para que todos sejam misericordiosos como o Pai é misericordioso (cf. Lc 6,36).


Aprendemos que toda conversão sempre resulta na alegria e na salvação. Não há a verdadeira conversão que não traga a alegria a quem é beneficiada. Sejamos facilitadores da concretização da misericórdia divina a exemplo de Maria, Mãe do Senhor, para que a alegria volte a reinar no meio de nós.


Maria Serve Com Dignidade Como Uma Irmã


Terminamos o mês de maio com a festa da Visitação de Nossa Senhora a Isabel. A festa da Visitação está cheia de encantos e de uma ternura inigualável. Duas mulheres, que se encontram, que se saúdam, estão cheias de Deus e por isso, cheias de alegria para fazer o ambiente mais humano, mais leve e mais fraterno e por isso, mais divino.


O evangelista Lucas nos relatou que Maria “se dirigiu apressadamente”, que no grego soa assim: “metà spoudés”. As Bíblias (versões) costumam traduzir “com pressa” ou “apressadamente”. A palavra grega “spoudé” tem muitos outros significados: zelo, diligencia, compromisso, cuidado, seriedade, dignidade. Maria vai ao encontro de Isabel com dignidade, cuidado e prontidão. Maria não vai para satisfazer uma necessidade pessoal, isto é, para sentir-se bem, estar bem, ser elogiada, mas para responder a uma necessidade que, de certo modo, quebra seus planos pessoais. Ela faz isso com dignidade, não como escrava e sim como irmã, com cuidado prontamente, isto é, com um espirito feliz e com uma disponibilidade total.


Santo Ambrósio comentou a expressão “dirigindo-se apressadamente” com as seguintes palavras: “A graça do Espírito Santo não admite demora” (“Nescit tarda molimina Spiritus Sancti gratia”). É preciso fazer ou cumprir aquilo que é importante e essencial, pois, caso contrário, acaba morrendo tudo. Jamais podemos adiar o que é essencial para não nos lamentar mais tarde: uma visita para um doente ou um idoso, um perdão que precisa ser dado ou recebido, uma ajuda oferecida sem muita discusão, um trabalho importante que decidimos fazer, e assim por diante. Os adiantamentos, os atrasos podem nos desgastar e nos consomem interiormente. Precisamos trabalhar permanentemente sobre nossa capacidade de intuir o que deve ser feito agora e aqui na graça de Deus.


Maria é uma mulher que se põe em caminho com dignidade, com cuidado, com prontidão. Não o faz para satisfazer uma necessidade pessoal: ela faz para servir sua parenta, Isabel, que está grávida e que necessita de uma ajuda. Ela faz tudo com dignidade como uma irmã. Maria é de Deus e por isso, ela é do povo e para o povo. Maria é mulher de nossa história, aberta a Deus e aos seres humanos. Viveu sempre em atitude de gratuidade e de doação. Será que fazemos tudo, a exemplo de Maria, com dignidade, com cuidado e com prontidão?


Contemplando Maria dessa maneira, compreendemos até que ponto a graça de Deus pode florescer nos seres humanos, que tipo de humanidade surge quando Deus "agrada" uma pessoa disposta a aceitar seu dom?


Encontro De Duas Pessoas Benditas


Na Anunciação o Anjo do Senhor “entrou” na casa de Maria e a “saudou”. Nessa visita Maria fez a mesma coisa: ela “entrou” na casa de Zacarias e saudou a Isabel. É a saudação da Mãe do Senhor para a mãe do Precursor do Senhor. A saudação de Maria comunica o Espírito a Isabel e ao menino no seu ventre. A presença do Espírito Santo em Isabel se traduz em um grito poderoso e profético: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar? Logo que tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança pulou de alegria no meu ventre. Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu” (Lc 1,42-45). Aqui Isabel fala como profetisa: se sente pequena e indigna diante da visita daquela que leva em seu seio o Senhor do universo. Sobram as palavras e explicações quando alguém entra na sintonia com o Espírito. Maria leva no seu seio o Filho de Deus concebido pela obra do Espírito Santo. E a presença do Espírito Santo em Isabel faz com que Isabel glorifique a Deus. Por isso, o encontro entre Maria e sua prima Isabel é uma espécie de “pequeno Pentecostes”. Onde entra o Espírito Santo, ai entra também paz, alegria e vida divina.


A Mãe de Deus que leva Jesus em seu seio é a causa de alegria. Quando estivermos cheios de Jesus Cristo em nosso coração, a nossa presença traz alegria e a paz para a convivência. A ausência de Cristo em nosso coração produz problemas e discórdias na convivência. O encontro de duas pessoas benditas sempre causa alegria: Maria causa alegria em Isabel e Jesus em pequeno João Batista. Ao contrário, o encontro de duas pessoas não benditas sempre causa angústia e mal-estar na convivência. Cada cristão deve fazer os encontros felizes e alegres com os outros. E isso só pode acontecer se houver lugar para Cristo em nosso coração. Precisamos engravidar Jesus Cristo para fazê-lo nascer para os outros. Por isso, vale a pena cada um se perguntar: Que tipo de encontro que fazemos diariamente: de pessoas benditas ou de pessoas não benditas?


Na narração da visitação, Isabel, “cheio do Espírito Santo” acolhendo Maria em sua casa, exclama: ”Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu”. Esta bem-aventurança, a primeira que se encontra no evangelho de Lucas, apresenta Maria como a mulher que com sua fé precede à Igreja na realização do espírito das bem-aventuranças. Maria, crendo na possibilidade do cumprimento do anúncio, interpela ao Mensageiro divino somente a modalidade de sua realização para corresponder melhor à vontade de Deus a que quer aderir-se e entregar-se com total disponibilidade. “Buscou o modo; não duvidou da onipotência de Deus”, comentou Santo Agostinho (Serm. 291). Maria se adere plenamente ao projeto de Deus sem subordinar seu consentimento à concessão de um sinal visível. É uma entrega total ao projeto de Deus. É uma confiança sem reservas à vontade de Deus: “Faça-se em mim segundo Vossa palavra!”. Maria tem muito a dizer sobre a vivência de nossa fé na nossa vida cotidiana.


Anunciação-Visita A Isabel E Ação Pastoral


Na anunciação Maria faz perguntas para ter certeza sobre sua missão de ser Mãe do Salvador (cf. Lc 1,26-37). Quando tudo se torna certo, Maria diz seu Sim a Deus radicalmente. Maria deixa a Palavra de Deus entrar em sua vida e ela é fecundada pelo Salvador. Jesus, o Salvador, que está no seio de Maria já empurra Maria para a ação pastoral, isto é, ir ao encontro de Isabel que está precisando da presença de Maria. Maria poderia pensar em si mesma, na sua gravidez. Mas ela pensa no outro e vai ao encontro do outro.


Quem permitir e viver o mistério da Anunciação, será fecundado como Maria. Quem não é fecundado, não é feliz. Com a fecundação e a fecundidade na vivência do mistério da Anunciação, eu serei capaz de sair de mim mesmo para a ação pastoral como Maria visitou Isabel na sua necessidade. Se permitirmos a entrada da Palavra de Deus na nossa vida, ficaremos fecundados e seremos capazes de fazer Jesus nascer para o mundo.


É preciso fazer uma ligação entre a Anunciação e a Ação Pastoral. Sem a Anunciação, isto é, sem ser fecundado pela Palavra de Deus, a ação pastoral se torna estéril. A Anunciação sem a Ação Pastoral se torna um isolamento estéril e mortal.
P. Vitus Gustama,svd