sexta-feira, 28 de junho de 2019

02/07/2019
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A VERDADEIRA FÉ EM DEUS NOS TORNA CORAJOSOS EM LEVAR JESUS E SUA MENSAGEM PARA OS QUE ESTÃO EM “OUTRA MARGEM”
Terça-Feira da XIII Semana Comum


Primeira Leitura: Gn 19,15-29
Naqueles dias, 15 os anjos insistiram com Ló, dizendo: “Levanta-te, toma tua mulher e tuas duas filhas, e sai, para não morreres também por causa das iniquidades da cidade”. 16 Como ele hesitasse, os homens tomaram-no pela mão, a ele, à mulher e às duas filhas – pois o Senhor tivera compaixão dele –, fizeram-nos sair e deixaram-nos fora da cidade. 17 Uma vez fora, disseram: “Trata de salvar a tua vida. Não olhes para trás, nem te detenhas em parte alguma desta região. Mas foge para a montanha, se não quiserdes morrer”. 18 Ló respondeu: “Não, meu Senhor, eu te peço! 19 O teu servo encontrou teu favor e foi grande a tua bondade, salvando-me a vida. Mas receio não poder salvar-me na montanha, antes que a calamidade me atinja e eu morra. 20 Eis aí perto uma cidade onde poderei refugiar-me; é pequena, mas aí salvarei a minha vida”. E ele lhe disse: 21 “Pois bem, concedo-te também este favor: não destruirei a cidade de que falas. 22 Refugia-te lá depressa, pois nada posso fazer enquanto não tiveres entrado na cidade”. Por isso foi dado àquela cidade o nome de Segor. 22 O sol estava nascendo, quando Ló entrou em Segor. 24 O Senhor fez então chover do céu enxofre e fogo sobre Sodoma e Gomorra. 25 Destruiu as cidades e toda a região, todos os habitantes das cidades e até a vegetação do solo. 26 Ora, a mulher de Ló olhou para trás e tornou-se uma estátua de sal. 27 Abraão levantou-se bem cedo e foi até o lugar onde antes tinha estado com o Senhor. 28 Olhando para Sodoma e Gomorra, e para toda a região, viu levantar-se da terra uma densa fumaça, como a fumaça de uma fornalha. 29 Mas, ao destruir as cidades da região, Deus lembrou-se de Abraão e salvou Ló da catástrofe que arrasou as cidades onde Ló havia morado.


Evangelho: Mt 8, 23-27
Naquele tempo, 23 Jesus entrou na barca, e seus discípulos o acompanharam. 24 E eis que houve uma grande tempestade no mar, de modo que a barca estava sendo coberta pelas ondas. Jesus, porém, dormia. 25 Os discípulos aproximaram-se e o acordaram, dizendo: “Senhor, salva-nos, pois estamos perecendo!” 26 Jesus respondeu: “Por que tendes tanto medo, homens fracos na fé?” Então, levantando-se, ameaçou os ventos e o mar, e fez-se uma grande calmaria. 27 Os homens ficaram admirados e diziam: “Quem é este homem, que até os ventos e o mar lhe obedecem?”
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Quem Vive Conforme a Vontade De Deus Encontrará a Serenidade e a Salvação


Trata de salvar a tua vida. Não olhes para trás, nem te detenhas em parte alguma desta região. Mas foge para a montanha, se não quiserdes morrer”.


A Primeira Leitura nos fala sobre a destruição de Sodoma e Gomorra, por um lado e a salvação da família de Ló, por outro lado.


A maldade dos sodomitas e dos habitantes de Gomorra ultrapassa o limite.  Nestas cidades nem tem um número mínimo (dez) das pessoas justas, isto é, aquelas que vivem de acordo com a lei de Deus (Cf. Gn 18,16-33), a não ser a família de Ló. Os pecados cometidos os tornam cegos para o que é certo e justo e para o que é sagrado. O pecado corrompe a relação com Deus e com o próximo.


Em que consiste a maldade de Sodoma e Gomorra?
  • Em não respeitar nenhuma lei para orientar sua vida e sua convivência fraterna com os demais. Acham-se superiores a qualquer lei (Gn 19,9). Eles se acham a própria lei.
  • Em desprezar o sagrado ou em invadir o espaço sagrado (Cf. Gn 19,5-11).
  • Em não respeitar o próximo nem a família dos outros.
  • Em abandonar a hospitalidade, algo sagrado para os antigos.
  • Em banalizar o sexo. O sexo sem freio termina em violar a dignidade de qualquer mulher, de qualquer casamento, de qualquer família.
     
    Sodoma e Gomorra foram destruídas. Este drástico castigo revela de modo dramático o estado da gravidade a que conduz o pecado como estrutura. Com efeito, estamos acostumados a olhar para o pecado como uma responsabilidade individual diante de Deus. Mas o texto nos mostra que isto não é certo. Qualquer pecado tem seus efeitos sociais ou efeitos na convivência. O texto sagrado nos mostra que pecado tende a institucionalizar-se (pecado estrutural). O caos em qualquer lugar ou nação provém, de modo geral, do pecado estrutural ou do pecado institucional que contamina toda uma estrutura. Este pecado vai criando um tecido de cumplicidades que se torna cada vez mais pegajoso e, por isso, quase onipresente que asfixia as pessoas com seus tentáculos pegajosos.
     
    Deus está sempre pronto para perdoar quando houver sinal de bondade que se expressa através do arrependimento. Mas Deus não impõe, e sim propõe. Uma pessoa ou um grupo que perseverar no seu pecado, no fim haverá uma destruição total para a pessoa ou grupo em questão.
     
    A prostituição (como aconteceu em Sodoma e Gomorra) e a corrupção administrativa, como exemplo, não são eventos isolados em vidas isoladas e sim verdadeiras redes que dominam alguns setores de qualquer cidade e de qualquer país. Estamos diante dos pecados estruturais que não devem ser avaliados simplesmente como pecados individuais, pois implicam processos, manejo de recursos, inclusive leis oficiais que tornam difícil o esforço de erradicar sua presença e sua obra. Mas o tempo é o mestre de quem vive. Cedo ou tarde haverá uma destruição, pois a maldade não tem futuro e por isso, um dia será revelada e ela conhecerá seu fim trágico.
     
    A cena das duas cidades, Sodoma e Gomorra, nos convida a sabermos superar o próprio fato do castigo, qualquer que seja sua expressão concreta. O mais importante da cena é como superar o pecado, pois às vezes nos preocupamos mais com o castigo para os culpáveis do que fazer o bem aos inocentes.
     
    O castigo de Deus sobre as cidades de Sodoma e Gomorra se converteu no protótipo de castigo contra a corrupção e a maldade. A destruição destas cidades seguramente se deve a algum fenômeno natural: o fogo, um terremoto ou talvez erupção num terreno que apresenta características de tipo vulcânico. Mas a intenção religiosa do Genesis é mostrar todo juízo de Deus que condena a maldade de seus habitantes. Assim sucede muitas vezes na Bíblia como quando se justifica a destruição de Babel ou de Babilônia ou de Jerusalém.
     
    A tradição de a “estátua de sal” na qual se converteu a esposa de Ló, provavelmente também se originou em alguma caprichosa formação rochosa e salina da zona, interpretada popularmente como a figura de uma mulher. Aqui se apresenta como consequência de ter voltado o olhar para trás, coisa que o anjo lhes havia proibido. O passado é observável, mas não é modificável. O futuro é modificável mas não é observável, pois nossa vida não é uma bola de cristal. Mas o presente é uma oportunidade preciosa para o bem ou para o mal para a nossa vida. Deus me presenteia o presente. Deus me vê como sou e não como era. Eu sou chamado a olhar para frente e não a fixar o olhar no passado mesmo que tenha sido bom. É preciso tirar o que é valioso do passado e largar o que nos atrapalha para caminhar. Somos peregrinos e não somos uma estátua. “Trata de salvar a tua vida. Não olhes para trás, nem te detenhas em parte alguma desta região. Mas foge para a montanha, se não quiserdes morrer”.
     
    É Preciso Manter a Fé Em Jesus Cristo Que Supera as Tempestades Da Vida
     
    Se a primeira leitura nos deixa vermos uma destruição total de Sodoma e Gomorra, o Evangelho de hoje nos apresenta o contrário mostrando-nos Jesus sossegado no meio da tempestade do mar da Galileia. Deus não deixa de ser Deus nem na guerra nem na paz, nem na tribulação nem no consolo, nem na confusão nem na claridade. Pode parecer que Deus está longe nas horas de tribulação ou carinhoso na horas de consolo; distante quando há confusão e presente quando volta a claridade. Mas todas estas coisas são interpretações nossas. Como mostra o Evangelho de hoje, temos que saber na fé que Deus é sempre Deus e que sua soberania não tem eclipse nem há pálpebras nos seus olhos. Não há nada que esteja escondido para o olhar de Deus.
     
    Para entender o relato do evangelho de hoje com seus detalhes nós precisamos ter na mente alguns textos do AT que servem como o pano de fundo. Controle sobre o mar e o ato de acalmar tempestade são sinais característicos do poder divino (Jô 7,12; Salmo 73(74),13; 88(89),8-10; 92(93),3-4; Is 51,9-10). Acalmar uma tempestade no mar é a maior prova da atenção ou do cuidado amoroso de Deus (Salmo 106(107),23-32). É digno de notar também que dormir em paz e sem preocupar-se com nenhum problema é um sinal da perfeita confiança em Deus (cf. Pr 3,23-24; Sl 3,6;4,9; Jô 11,18-19).
     
    Na literatura antiga a barca é imagem da comunidade. Jesus convida os discípulos a irem a “outro lado do mar”. “Do outro lado” estão os pagãos, ou o território não- judeu. Jesus convida os discípulos para esse território para que lá possam semear também entre os pagãos a Boa Notícia do Reino. Atravessar, ou “ir para outro lado”, então, significa sair de si mesmo, pensar nos outros e não ficar apenas no nosso lado. É preciso ampliar o horizonte para ver as pessoas, a vida e seus acontecimentos, o mundo em geral na sua justa perspectiva e no seu justo valor. É preciso ampliar o olhar para ver o campo maior de atuação. O convite para ir a outro lado é um convite para tomar coragem de adotar novas maneiras de viver e de atuar. É sair de nosso mundo pequeno para o mundo maior a fim de que renovemos nossa reflexão sobre tudo na nossa vida. Precisamos ir a “outro lado”. Precisamos estar no lugar do outro para saber e compreender a vida do outro. Quem sabe no “outro lado” em vez de evangelizarmos os outros, seremos muita mais evangelizados por eles do que eles por nós. Travessia é muitas vezes sinônimo de abertura ao novo e diferente.
     
    Mas para que possamos atravessar para “outro lado”, precisamos vencer o “mar” de nossa vida. Andar seria impossível. Afundaríamos. Precisamos de algum meio. E o meio para chegar no “outro lado” para superar o “mar” a fim de levar Jesus é “barco”. Quem sabe um dos barcos mencionados neste texto que sumiram do relato é o nosso barco que ainda não foi usado para levar Jesus. É preciso ter coragem para renovar ou procurar meios para que Jesus e seus ensinamentos possam chegar até as pessoas. Os meios são sempre mutáveis, mas a mensagem de Jesus é eterna, pois só Jesus “tem palavras de vida eterna” (Jo 6,68). Não podemos eternizar os meios, pois eles podem se tornar caducos para outro tempo e lugar. O que é eterna é a mensagem de Jesus: “Passarão o céu e a terra. Minhas palavras, porém, não passarão” (Mt 24,35). Qualquer movimento, grupo ou pastoral que não se renovar, morrerá no caminho. Podemos andar no mesmo caminho, mas é preciso mudar o jeito de andar para que a caminhada não se torne cansativa. “Na doação, a vida se fortalece; e se enfraquece no comodismo e no isolamento. De fato, os que mais desfrutam da vida são os que deixam a segurança da margem e se apaixonam pela missão de comunicar a vida aos demais. A vida se alcança e amadurece à medida que é entregue para dar vida aos outros” (Papa Francisco: Exortação Apostólica: Evangelii Gaudium, no. 10).
     
    Fala-se de uma violenta tempestade que agita o mar, a ponto de as ondas caírem dentro do barco. Para o povo da Bíblia, o mar agitado é a imagem da revolta dos povos inimigos que gera caos primitivo (cf. Sl 46,3-4.7; 65,8; 93,3-4). Além disto, tempestade é imagem de incerteza e de sentimento de derrota, daí se eleva a Deus o grito do povo (cf. Sl 18,16-20;69,2-5.15-16). E somente Deus pode dominar o mar e seu tumulto (Jô 38,7.11). Enquanto isso, Jesus parece estar ausente, dorme e parece estar completamente alheio à tragédia. O sono tranquilo de Jesus simboliza uma confiança total em Deus como foi explicado nos textos do AT acima mencionados.
     
    “Jesus entrou na barca e os discípulos O seguiram”. Assim Mateus relatou o episódio do evangelho deste dia. A palavra “seguir” aqui é um termo chave que tem função de ligar este episódio com o episódio anterior sobre o seguimento radical (cf. Mt 8, 18-22). Seguir Jesus supõe riscos e renúncias. É por isso que Mt, logo depois da exortação sobre o seguimento radical (episódio anterior), fala da tempestade no meio do lago balançando o barco onde se encontram Jesus e seus discípulos.
     
    As tempestades do Lago de Galileia têm fama por ser súbitas e muito violentas. E Jesus dormia no meio dessa perigosa tempestade (em grego se usa a palavra “sismo” semelhante ao terremoto, movimento interno violento). Deus dorme! Deus parece ficar calado! Por que não se manifesta? Por que o Senhor não intervém na minha vida?
     
    “Por que tendes tanto medo, homens fracos na fé?”, responde Jesus diante de nossos gritos. É o núcleo deste relato: “Homens de pouca fé”. Jesus apela para a fé. Jesus se estranha. E Jesus dá confiança: “Não tenhais medo!”. Para seguir Jesus a fé é condição essencial. As exigências, as renúncias fazem parte da perspectiva de fé. Quanto mais humanamente desesperadora e sem saída for a situação, mais a fé será necessária, pois Deus continua sendo Deus em qualquer momento.
     
    Jesus nos chama a termos fé. Há situações extremas para as quais todo apoio humano perde sua força. Nessas situações somente a fé em Deus é capaz de manter alguém em pé diante dessas situações. Para ficarmos em pé diante das situações extremas, é preciso mantermo-nos de joelhos diante de Deus. Quando a morte se aproximar, por exemplo, não há outra solução melhor do que a própria fé em Deus cujos braços permanecem abertos para nos acolher em sua casa (cf. Jo 14,1-2). No curso da vida de todo homem ou mulher há muitas situações nas quais a fé é o único recurso, o único meio de evitar o pânico: abandonar-se em Deus, confiar nele. Nessa situação precisamos ouvir profundamente o que Jesus nos diz hoje: “Por que vós tendes tanto medo, homens fracos na fé?”.
     
    Ao relatar a tempestade acalmada por Jesus o evangelista Mateus quer nos mostrar que Jesus tem em suas mãos o poder criador de Deus. Por isso, com sua palavra apenas, tudo lhe obedece. O evangelista quer nos chamar a termos fé neste Jesus em qualquer situação onde nos encontramos.
     
    Se encontrarmos alguma dificuldade, precisamos manter a cena do evangelho deste dia diante de nossos olhos: a tempestade violenta, o sono de Jesus, o grito de seus amigos, a chamada a uma fé mais forte e a paz que procede desta fé. Quando tudo parece contrário ou contraditório, Jesus está ali, na minha barca, na barca da Igreja. Precisamos rezar em silêncio: “Senhor, suprima meu medo, pois somente o Senhor tem palavras da vida eterna”.
     
    A Palavra de Deus de hoje quer que tenhamos mais fé em Deus em qualquer situação, pois Ele é o nosso Pai e só quer nosso bem. Precisamos estar conscientes de que Cristo, Deus-Conosco está na barca da Igreja e na barca de nossa vida. É verdade que Jesus parece estar dormindo. Mas, na verdade, a nossa fé é que está adormecida. E o Deus-Conosco, Jesus Cristo, promete sua presença permanente na nossa vida: “Eis que estou convosco todos os dias até o fim do mundo” (Mt 28,20). “Coragem! Eu venci o mundo!” (Jo 16,33c). Temos que ter consciência dessa promessa e colocá-la em prática.
     
    É Bom Saber Que:

    Cada cristão e cada comunidade há-de discernir qual é o caminho que o Senhor lhe pede, mas todos somos convidados a aceitar esta chamada: sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho (Papa Francisco: Exortação Apostólica, Evangelii Gaudium no. 20).
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  • A fé nasce no encontro com o Deus vivo, que nos chama e revela o seu amor: um amor que nos precede e sobre o qual podemos apoiar-nos para construir solidamente a vida. Transformados por este amor, recebemos olhos novos e experimentamos que há nele uma grande promessa de plenitude e nos é aberta a visão do futuro. A fé, que recebemos de Deus como dom sobrenatural, aparece-nos como luz para a estrada orientando os nossos passos no tempo (Papa Francisco: Encíclica Lumen Fidei, no. 4).
     
P. Vitus Gustama,svd
01/07/2019
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SEGUIR A JESUS PARA ALCANÇAR A SALVAÇÃO E PARA INTERCEDER POR OUTROS PELA SUA SALVAÇÃO   
Segunda-Feira da XIII Semana Comum


Primeira Leitura: Gn 18,16-33
16 Os homens levantaram-se e partiram na direção de Sodoma. Abraão acompanhava-os para encaminhá-los. 17 E o Senhor disse consigo: “Acaso poderei ocultar a Abraão o que vou fazer? 18 Pois Abraão virá a ser uma nação grande e forte e nele serão abençoadas todas as nações da terra. 19 De fato, eu o escolhi, para que ensine seus filhos e sua família a guardarem os caminhos do Senhor, praticando a justiça e o direito, a fim de que o Senhor cumpra em favor de Abraão tudo o que lhe prometeu”. 20 Então, o Senhor disse: “O clamor contra Sodoma e Gomorra cresceu, e agravou-se muito o seu pecado. 21 Vou descer para verificar se as suas obras correspondem ou não ao clamor que chegou até mim”. 22 Partindo dali, os homens dirigiram-se a Sodoma, enquanto Abraão ficou na presença do Senhor. 23 Então, aproximando-se, disse Abraão: “Vais realmente exterminar o justo com o ímpio? 24 Se houvesse cinquenta justos na cidade, acaso iríeis exterminá-los? Não pouparias o lugar por causa dos cinquenta justos que ali vivem? 25 Longe de ti agir assim, fazendo morrer o justo com o ímpio, como se o justo fosse igual ao ímpio. Longe de ti! O juiz de toda a terra não faria justiça?” 26 O Senhor respondeu: “Se eu encontrasse em Sodoma cinquenta justos, pouparia por causa deles a cidade inteira”. 27 Abraão prosseguiu dizendo: “Estou sendo atrevido em falar a meu Senhor, eu que sou pó e cinza. 28 Se dos cinquenta justos faltassem cinco, destruirias por causa dos cinco a cidade inteira?” O Senhor respondeu: “Não destruiria, se achasse ali quarenta e cinco justos”. 29 Insistiu ainda Abraão e disse: “E se houvesse quarenta?” Ele respondeu: “Por causa dos quarenta, não o faria”. 30 Abraão tornou a insistir: “Não se irrite o meu Senhor, se ainda falo. E se houvesse apenas trinta justos?” Ele respondeu: “Também não o faria, se encontrasse trinta”. 31 Tornou Abraão a insistir: “Já que me atrevi a falar a meu Senhor, e se houver vinte justos?” Ele respondeu: “Não a iria destruir por causa dos vinte”. 32 Abraão disse: “Que o meu Senhor não se irrite, se eu falar mais uma vez: e se houvesse apenas dez?” Ele respondeu: “Por causa dos dez, não a destruiria”. 33 Tendo acabado de falar, o Senhor retirou-se, e Abraão voltou para a sua tenda.


Evangelho: Mt 8,18-22
Naquele tempo, 18 vendo uma multidão ao seu redor, Jesus mandou passar para a outra margem do lago. 19 Então um mestre da Lei aproximou-se e disse: “Mestre, eu te seguirei aonde quer que tu vás”. 20 Jesus lhe respondeu: “As raposas têm suas tocas e as aves dos céus têm seus ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça”. 21 Um outro dos discípulos disse a Jesus: “Senhor, permite-me que primeiro eu vá sepultar meu pai”. 22 Mas Jesus lhe respondeu: “Segue-me, e deixa que os mortos sepultem os seus mortos”.
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O Senhor É Um Deus Justo e Misericordioso


O texto da Primeira Leitura é uma das páginas mais belas da Bíblia onde se enfatizam dois aspectos maravilhosos em relação ao Senhor: a justiça no estilo de Deus e o poder ilimitado da oração. Destaca-se, dentro deste contexto, a missão do eleito (Abraão) em fazer súplicas a Deus em favor dos homens justos, e a capacidade de mudar a decisão de Deus. Tudo se desenvolve em um diálogo simples e franco entre Deus e seu amigo, Abraão.


A fé nos põe em diálogo com Deus e nos introduz no mistério da salvação da humanidade. Somos parte da humanidade toda. Por isso, temos a missão de suplicar a Deus para que tenha a misericórdia dos homens (humanidade). A fé nos faz vermos o mundo a partir de um certo ângulo: vemos o mundo como um mundo que necessita de ser salvo. É uma humanidade a que temos que ajudar para sair do mal. A fé nos faz participarmos da maneira de ver de Deus. A fez nos faz descobrirmos os caminhos de Deus. A fé nos faz adotarmos o ponto de vista de Deus: no fundo, apesar de tudo, Deus quer salvar os homens. Os amigos de Deus, como Abraão, compartilham a vontade de Deus de salvar a humanidade. Consequentemente, não podemos jamais desejar o mal para a humanidade apesar de tudo.


Diante da decisão de Deus de destruir as cidades de Sodoma e Gomorra, como símbolo do mal e da corrupção, neste caso, de aberrações sexuais, nós escutamos hoje a entranhável oração de Abraão intercedendo pela população dessas duas cidades, onde vivia seu sobrinho Lot.


Deus trata Abraão como um amigo: comunica-lhe seus propósitos. E Abraão assume seu papel e pede a Deus a misericórdia, em atenção aos justos que possam ter nessas cidades. Abraão está convencido da justiça de Deus e, ao mesmo tempo, de sua misericórdia. Mas não se atreve a baixar do número de dez justos. E como não se encontram tantos(dez) em Sodoma, cai o juízo de Deus sobre esta cidade, como lemos na Primeira Leitura do dia seguinte.


Já que me atrevi a falar a meu Senhor, e se houver... justos?”, disse Abraão a Deus.


Abraão se sente a si mesmo pecador. Diante do Deus Santíssimo, Abraão está ao lado da humanidade pecadora e pobre amassada de frágil barro. Por isso, Abraão se esforça a defender seus irmãos: se sente solidário porque há também mal nele. A fé nos ajuda a aprofundarmos em nós solidariedade com o mundo pecador.


Abraão nos ensina a não julgarmos, inclusive quando combatemos o mal, pensando que nós mesmos participamos também desse pecado. Cada um de nós necessita ser salvo primeiro. O nosso desejo de salvar os demais não é uma superioridade orgulhosa, porque nós mesmos fomos beneficiados pelo perdão de Deus e temos a missão de fazer chegar aos outros este mesmo benefício divino.


No Novo testamento chegou ao extremo a misericórdia de Deus: um só Justo, Jesus, se entregou por todos para salvar a humanidade inteiro. Mas Jesus Cristo, na Cruz, é um exemplo mais admirável, pois ele não oferece somente sua oração e sim sua própria vida para salvar a humanidade.


Será que sabemos interceder diante de Deus pelos demais, por esta humanidade na qual vivemos, pelos jovens que criticamos, pela comunidade eclesial, pelos pecadores, pelos afastados da Igreja, pelos doentes, e assim por diante?


Neste mundo, no país em que vivemos há muita corrupção, mas também há muitas pessoas boas, entre os maiores e e entre os jovens. Temos coração solidário, ou somente rezamos pelas nossas próprias necessidade e que os outros se virem? Sabemos apreciar também o bom que existe ou somente nos dedicamos a julgar e a condenar? Abraão é um bom modelo de coração compreensivo e nos convida a fazermos tudo o possível, por nossa parte, para evangelizar e acompanhar as pessoas na busca de sentido para sua vida. É uma figura magnífica.


É Preciso Seguir a Jesus Para Alcançar a Salvação


“É graça divina começar bem.
Graça maior, persistir na caminhada certa, manter o ritmo...
Mas a graça das graças é não desistir.
Podendo ou não podendo,
Caindo, embora aos pedaços,
Chegar até o fim...” (Dom Hélder Câmara)


O evangelho de Mateus foi escrito em torno dos anos 80 para os fieis de sua comunidade. Os fieis de sua comunidade já tinham feito sua escolha cristã. Mas em determinado tempo vacilavam por causa das dificuldades, e abatidos por causa de duras perseguições. Por isso, veio a exortação para que os fiéis retomassem consciência mais viva de sua identidade cristã, chamados a transformar a história humana em história de salvação.


Nesta perspectiva Mt coloca dois personagens para transmitir essa exortação. O primeiro é um especialista da Lei que escolheu ser cristão. Trata-se de um letrado que reconhece em Jesus um mestre superior a si mesmo e decide seguir a Jesus, o grande mestre. Mas ele ainda não é comprometido com o cristianismo e por isso, ele é alertado antecipadamente para não tomar uma decisão superficial e ilusória. “As raposas têm suas tocas e as aves têm seus ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeção”. Para o letrado o caminho de Jesus tem seu termo. Mas Jesus alerta ao letrado que toda a vida de Jesus, até o momento de Sua morte, será uma entrega total, sem instalação nem descanso.


Para ser um verdadeiro cristão, um verdadeiro seguidor de Cristo, é preciso ter espírito de despojamento e de pobreza, pois aquele que está cheio de coisas do mundo não sobra nenhum espaço para Deus nem para o próximo. O cristão existe para fazer o bem permanentemente. Fazer o bem não tem descanso nem tem término. Ninguém ama suficientemente nem definitivamente. O amor sempre deixa quem ama em dívida. O amor não descansa nem cansa.


As raposas têm suas tocas e as aves dos céus têm seus ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça” (Mt 8,20)


O instinto de segurança e a necessidade de estabilidade estão inscritos profundamente na natureza humana: o homem busca o calor de um refúgio, uma fogueira, uma casa para morar, uns objetos que lhe pertencem. Os animais têm este mesmo instinto de propriedade.


Jesus desde que saiu de sua casa familiar de Nazaré, deixando sua mãe sozinha, não tem seu próprio lugar, vive como nômade, como viajante: “Não tenho onde reclinar minha cabeça”. Renunciou o calor de um lugar, renunciou a toda propriedade.


Seguir a Jesus é fazer forçosamente certa escolha; é renunciar a uma série de coisas; é viver na segurança com Deus que criou tudo. Jesus quer que estejamos sempre caminhando em busca da perfeição. Jesus quer que estejamos abertos ao novo, à novidade, ao impulso do seu Espírito. Jesus não quer que estejamos parados, pois o Espírito de Deus sopra para onde quer. Jesus não quer que fiquemos apegados às coisas mortas, pois elas servem apenas de meio e não de fim.


Por esta razão Jesus adota para si o título de “Filho do Homem”. O duplo título “Filho do Homem” indica unicidade e excelência: é “Homem acabado”, o modelo de homem, por possuir em plenitude o Espírito de Deus. Para chegar a ser um homem acabado, pleno do Espírito de Deus, o cristão precisa participar da missão de Jesus, precisa levar adiante a Palavra de Deus.


A mensagem cristã é exigente. Não se trata de aderir a uma doutrina, mas a uma pessoa; não se trata de adotar um modo de pensar, mas de orientar-se para um modo de viver: o modo de viver de Jesus Cristo. Um cristão que se contenta de não fazer mal a ninguém não é suficiente. É preciso fazer o bem em função do bem e não em função do mal. É colocar o interesse do Reino de Deus acima de todas as preocupações pessoais assim como dos afetos mais caros, com plena dedicação. É viver aberto diante de Deus permanentemente.


O segundo personagem já é discípulo, mas ainda não compreendeu todas as exigências de sua escolha. Por isso, o texto diz que ele pede um período de interrupção antes de seguir o Mestre. Ele quer ser um cristão periódico. Cristão de estação. É um cristão que procura Deus quando estiver livre de tudo, quando tiver tempo livre. É um cristão que procura Deus de vez em quando. Mas para este tipo de cristão Jesus faz prevalecer a exigência de uma escolha coerente, total e radical para si que é escolha para toda a vida.


Este segundo personagem pede a Jesus permissão para enterrar o pai, mas recebe de Jesus esta resposta: “Segue-me! Deixa que os mortos sepultem os seus mortos”. A menção do pai nos leva ao episódio relacionado com a chamada de Eliseu no Antigo Testamento. Eliseu pediu licença a Elias para ir despedir-se de seu pai (cf. 1Rs 19,20). No Antigo Testamento a tradição (o pai) estava viva, mas para Jesus está morta.


Segue-me! Deixa que os mortos sepultem os seus mortos”. Não se trata da falta com os deveres de piedade para o pai defunto. O “pai” aqui representa uma tradição que não mais salva. Abandonar o “pai” significa ficar independente da tradição transmitida que não tem mais valor para ser mantida. O pedido para “enterrar o pai” indica a veneração, o respeito e a estima pelo passado que não mais salva homem algum. Por isso, os mortos aqui são os que professam essas tradições mortais. São figuras de um mundo de morte, sem salvação. A tradição morta ou a cultura de morte gera morte e mortos.


O discípulo, o cristão, ao contrário, é chamado a ser defensor e protetor da vida em qualquer instância e circunstância, pois a vida é o dom de Deus, e o próprio Jesus se identifica com a Vida: “Eu sou a Vida e a Ressurreição” (Jo 11,25; cf. 14,6).


Segue-me! Deixa que os mostos sepultem seus mortos”. Jesus não quer que descuidemos dos nossos falecidos. Isto seria falta de caridade e da humanidade. O que Jesus quer é que abandonemos todos os hábitos que não nos fazem crescer como pessoas e filhos de Deus e irmãos dos outros. Precisamos deixar o modo de viver e de pensar que nos fazem como mortos: sem vida, sem horizonte, sem criatividade e assim por diante. A tradição morta gera a morte e mortos. Ao contrário, precisamos seguir Aquele que nos faz viver, Aquele que nos diz: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6). Precisamos crer n’Aquele que nos garante a vida: “Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crer em mim, ainda que esteja morto, viverá” (Jo 11,25).


Precisamos olhar com carinho e seriedade para o nosso modo de viver para descobrirmos nele os hábitos que não nos fazem crescer ou não nos fazem viver com dignidade e avançar na caminhada da perfeição cristã. Sabemos que nosso grande problema não é implementar as coisas novas na nossa cabeça e sim tirar as coisas velhas e mortas de nossa cabeça. Ao mesmo tempo precisamos olhar para o modo de viver de Jesus para que sejamos homens acabados como foi ele. “Se queres seguir a Deus, deixa-O ir adiante. Não queiras que Ele te siga” (Santo Agostinho. In ps. 124,9).


Para estar aberto diante de Deus é preciso abandonar hábitos negativos, isto é, todos os hábitos ou costumes que não nos levam à vida plena. Nos ensinamentos de Jesus encontramos o caminho para a verdadeira vida. Vale a pena encarar todas as dificuldades, pois a vitória está reservada para quem é perseverante neste caminho (cf. Mt 10,22; Jo 16,33).
P. Vitus Gustama,svd

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Domingo,30/06/2019
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SOLENIDADE DE SÃO PEDRO E SÃO PAULO


Primeira Leitura: At 12,1-11
Naqueles dias, 1 o rei Herodes prendeu alguns membros da Igreja, para torturá-los. 2 Mandou matar à espada Tiago, irmão de João. 3 E, vendo que isso agradava aos judeus, mandou também prender a Pedro. Eram os dias dos Pães ázimos. 4 Depois de prender Pedro, Herodes colocou-o na prisão, guardado por quatro grupos de soldados, com quatro soldados cada um. Herodes tinha intenção de apresentá-lo ao povo, depois da festa da Páscoa. 5 Enquanto Pedro era mantido na prisão, a Igreja rezava continuamente a Deus por ele. 6 Herodes estava para apresentá-lo. Naquela mesma noite, Pedro dormia entre dois soldados, preso com duas correntes; e os guardas vigiavam a porta da prisão. 7 Eis que apareceu o anjo do Senhor e uma luz iluminou a cela. O anjo tocou o ombro de Pedro, acordou-o e disse: “Levanta-te depressa!” As correntes caíram-lhe das mãos. 8 O anjo continuou: “Coloca o cinto e calça tuas sandálias!” Pedro obedeceu e o anjo lhe disse: “Põe tua capa e vem comigo!” 9 Pedro acompanhou-o, e não sabia que era realidade o que estava acontecendo por meio do anjo, pois pensava que aquilo era uma visão. 10 Depois de passarem pela primeira e segunda guarda, chegaram ao portão de ferro que dava para a cidade. O portão abriu-se sozinho. Eles saíram, caminharam por uma rua e logo depois o anjo o deixou. 11 Então Pedro caiu em si e disse: “Agora sei, de fato, que o Senhor enviou o seu anjo para me libertar do poder de Herodes e de tudo o que o povo judeu esperava!”.


Segunda Leitura: 2Tm 4,6-8.17-18
Caríssimo: 6 Quanto a mim, eu já estou para ser derramado em sacrifício; aproxima-se o momento de minha partida. 7 Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé. 8Agora está reservada para mim a coroa da justiça, que o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que esperam com amor a sua manifestação gloriosa. 17 Mas o Senhor esteve a meu lado e me deu forças, ele fez com que a mensagem fosse anunciada por mim integralmente, e ouvida por todas as nações; e eu fui libertado da boca do leão. 18 O Senhor me libertará de todo mal e me salvará para o seu Reino celeste. A ele a glória, pelos séculos dos séculos! Amém.


Evangelho: Mt 16,13-19
Naquele tempo, 13 Jesus foi à região de Cesareia de Filipe e ali perguntou aos seus discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” 14 Eles responderam: “Alguns dizem que é João Batista; outros que é Elias; outros ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas”. 15 Então Jesus lhes perguntou: “E vós, quem dizeis que eu sou?” 16 Simão Pedro respondeu: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. 17 Respondendo, Jesus lhe disse: “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. 18 Por isso eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la. 19 Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que desligares na terra será desligado nos céus”.
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Celebramos neste domingo a solenidade de duas colunas principais da Igreja: São Pedro e São Paulo. Os dois servem o mesmo Cristo embora de maneira diferente. Não há uma maneira só para servir Cristo e sua Igreja. Cada um dos dois tem suas qualidades. Mas como seres humanos eles também têm suas debilidades ou fraquezas. No entanto essas debilidades jamais deixam os dois de servir o Senhor e Sua Igreja.


“E vós, quem dizeis que eu sou?”. É a pergunta de Jesus no Evangelho de hoje. Esta interrogação pode ser o ponto de partida. Tem a vantagem de nos situar no centro da fé.


De todas as maneiras, a pergunta poderia obter uma profundidade total: Cristo continua presente na Igreja; Cristo está vivo e vive conosco (Mt 28,20). A resposta da fé é uma resposta à Igreja. A resposta não é fácil. Todos sabem a dificuldade de aceitar a mediação eclesial. Com facilidade se aceita Deus e Cristo, porém a Igreja…? Convém enfatizar que não há separação entre Cristo (Cabeça) e a Igreja (Corpo místico de Cristo). Com efeito, sem a Igreja não é possível a fé. A fé é vivida comunitariamente.


Também é muito difícil crer na comunidade cristã, isto é, crer que meus irmãos são o Corpo de Cristo! Aqui surge o problema da aceitação mútua. Pelo menos temos de repartir as culpas entre todos e mutuamente temos de nos convidar a crer uns nos outros. Trata-se de fazer um esforço para valorizar a boa vontade de todos, de descobrir como podemos nos ajudar a lutar com alegria e confiança mútuas.


Não podemos omitir uma consideração às figuras de Pedro e Paulo. Os dois demonstram sua grandeza no sofrimento, que é a suprema prova da vida. Não viveram um cristianismo alienante. Seu existir foi duro e conheceram muitas tensões. Uma vez entregues a Cristo, não voltaram para trás. Entregaram a vida pela comunidade: pelo Corpo de Cristo, por Cristo.


Neste Domingo, tão tradicional no calendário litúrgico, a Igreja inteira volta seus olhos para os dois apóstolos que são colunas da Igreja. Celebrar são Pedro e são Paulo é reconhecer que nossa fé está fundamentada neles.


Também neste dia a Igreja católica volta seus olhos e seu coração para o novo Pedro, que é o Papa de Roma, que continua o ministério apostolico de confirmar na fé os irmãos. Por isso, a coleta deste Domingo é conhecida como Óbolo de São Pedro. A coleta seria enviada à Nunciatura Apostólica através da Cúria Diocesana, para participar nasu preocupações do Santo Padre pelas aflições e necessidades da Igreja em todo o mundo (Cf. Diretório da Liturgia da CNBB, 2019 p. 40)


Surpreende um tanto a leitura dos Atos dos Apóstolos, na qual aparece um Pedro débil, atado, encarcerado e perseguido por pregar o Evangelho, que de repente se vê livre das cadeias para prosseguir sua missão apostólica.


Celebramos Pedro da fé intrépida, que confessa que Jesus de Nazaré é o Filho do Deus vivo e o Messias, e ao mesmo tempo, recordamos Pedro da negação, que nos momentos difíceis e trágicos da Paixão do Senhor dizze três vezes que não conhecia Jesus. Através do caminho paradoxal da negação e da queda, Pedro purifica e fortalece sua fé para constituir-se em roça firme para seus irmãos. Todos nós que estamos na barca de são Pedro com a esperança de chegar ao porto da eternidade e da luz, a exemplo de são Pedro, temos que entender que a fé é um risco, que apesar de nossas debilidades e negações, lavadas com lágrimas de conversão purificadora, devemos ser colunas e sinais de fé no mundo de hoje, anunciando que Jesus de Nazaré é o Salvador dos homens.


1. Quando sou fraco, então é que sou forte


Estas palavras foram ditas pelo próprio Paulo na sua Segunda Carta aos Coríntios (2Cor 12,10). O “Quando sou fraco, então é que sou forte” reflete a vida destes dois grandes santos: Pedro e Paulo.


Pedro foi chamado de homem de pouca fé (Mt 14,31), de Satanás (Mt 16,23). Ele falhou em vigiar e orar junto com Jesus apesar do aviso de Jesus (cf. Mt 26,37-44; Mc 14,33-41). No momento da prisão de Jesus, numa atitude impetuosa, cortou a orelha de Malco, empregado do sumo sacerdote (Jo 18,10). No pátio de Caifás, a determinação de Pedro (cf. Mt 26,33-35) entrou em colapso, não diante de um tribunal, mas diante da pergunta de uma jovem empregada. Ele negou ser discípulo de Jesus (Mt 26,58.69-75). Mas apesar de tudo, ele reconhece que somente Jesus tem palavras de vida eterna (Jo 6,69). Ele sempre encabeça a lista dos discípulos (cf. Mt 10,2; Mc 3,16; Lc 6,14). Faz parte do círculo mais íntimo dos discípulos (Mc 5,37;9,2;13,3; Lc 8,51), e é o primeiro entre os discípulos (Mt 16,23; Jo 21,19). Ele admite sua ignorância (Mt 15,15; Lc 12,41; cf. também Jo 13,6-10 sobre o lava-pés) e a própria pecaminosidade (Lc 5,8). Ele questiona sobre o perdão e é advertido sobre as consequências do não- perdão (Mt 18,21-35).


Uma piedosa tradição conta que, durante a perseguição cruel de Nero, Pedro saía de Roma, abandonando a própria comunidade cristã em busca de um lugar mais seguro. Junto às portas da cidade, cruzou-se com Jesus que carregava a Cruz. Quando Pedro lhe perguntou: “Aonde vais, Senhor (Quo vadis, Domine)?” ouviu a resposta do Mestre: “Vou a Roma para deixar-me crucificar novamente”. Pedro entendeu a lição e voltou para a cidade onde o esperava a sua cruz. Um historiador antigo refere que Pedro pediu para ser crucificado de cabeça para baixo, por sentir-se indigno de morrer como o seu Mestre, de cabeça para o alto. Apesar das suas fraquezas, Pedro foi fiel a Cristo, até dar a vida por Ele.


Ficamos perguntando, por que Pedro, homem que demonstra um pouco de volubilidade e que tem tantos defeitos, foi eleito por Jesus para ser rocha sobre a qual edifica sua Igreja e para apascentar as ovelhas de Jesus? (Cf. Jo 21,5-17). Até o próprio Pedro questiona Jesus sobre essa eleição (cf. Jo 21,21). Será que, ao reconhecer os próprios defeitos e fraquezas, Pedro terá condições de compreender os defeitos e fraquezas dos outros sem condená-los, mas ajudá-los a saírem destes? Pois aquele que já passou por uma experiência de miséria, normalmente, sabe repartir o que tem para quem não tem nada para viver. Nunca podemos compreender completamente os mistérios de Deus. Talvez o profeta Isaías tenha razão quando coloca estas palavras na boca de Deus: “Pois meus pensamentos não são os vossos, e o vosso modo de agir não é meu... meus pensamentos ultrapassam os vossos” (Is 55,8.9b). Por isso, junto com o salmista podemos rezar: “Ensina-me, Senhor, vosso caminho...!” (Sl 26,11), pois “os caminhos de Deus são perfeitos” (2Sm 22,31).


Paulo também passou por uma experiência dolorosa antes de conhecer Jesus Cristo. A queda de Paulo na estrada de Damasco foi a linha divisória para sua vida entre antes e depois (At 9,1ss). Essa queda é a chave geral para entender Paulo e toda a sua luta incansável.


Paulo sempre foi um homem profundamente religioso, judeu praticante, irrepreensível na mais estrita observância da Lei (Fl 3,6; At 22,3) cheio de zelo pelas tradições paternas (Gl 1,14). Para defender essas tradições, chegou a perseguir os cristãos e isso com o apoio do Sinédrio.


Mas na estrada de Damasco Paulo, em vez de perseguir, ele foi perseguido por Cristo. A entrada de Jesus na vida de Paulo não foi pacífica, mas sim de uma maneira violenta.


Deus não pediu licença a Paulo. Ele entrou e o derrubou (At 9,4;22,7;26,14). Caído no chão, Paulo se entregou. Lucas não diz que Paulo caiu do cavalo, mas “cai por terra”, porque essa é a fraseologia usada em alguns textos bíblicos para descrever a reação humana diante da manifestação divina. Paulo é interpelado duas vezes pelo seu nome hebraico, transcrito em grego: “Saoúl, Saoúl” (v.4). A repetição do nome corresponde ao esquema de diálogos de revelação aos patriarcas bíblicos: Abraão, Jacó, Moisés (Gn 22,1;46,2; Ex 3,4). A novidade na experiência de Paulo é a pergunta: “Por que você me persegue?” (v.4). Ela revela uma situação singular. Aquele que fala com Paulo, no contexto de uma luz divina, se identifica com aqueles que Paulo está perseguindo (v.5). A identificação de Jesus com os seus discípulos perseguidos coloca Paulo diante de uma escolha sem alternativas (cf. Mt 25,40.45). Ele precisa mudar radicalmente os seus projetos.


Uma luz o envolveu (v.3) e era tão forte que Paulo ficou cego. Ele começou a enxergar até que Ananias interveio para dar-lhe o sentido da sua aceitação na Igreja e da certeza de caminhar na via que leva a Deus. Paulo ressuscitou no exato momento em que foi acolhido na comunidade como irmão(v.18).


Paulo ganhou novos olhos. Ele via as mesmas coisas de sempre: a vida, as pessoas, a Bíblia, o povo, a sinagoga, o trabalho e tudo que pertencia ao seu mundo. Mas a nova experiência do amor de Deus em Jesus (Rm 8,39) mudou os olhos, e o ajudou a descobrir novos valores que antes não via. A visão de Deus é luz, mas para a carnalidade do homem é motivo de espanto e faz com que o homem perceba toda a escuridão em que se encontra. Em contato com Deus que é luz, o homem se reconhece que é trevas.       


O nascimento de Paulo, segundo 1Cor 15,8, para Cristo não foi normal. Deus o fez nascer de maneira forçada. Paulo foi arrancado de dentro de seu mundo, como se arranca uma criança do seio da mãe por meio de uma operação.


A partir da experiência de Damasco, Paulo não consegue confiar naquilo que ele faz por Deus, mas só naquilo que Deus fez por ele. Já não coloca sua segurança na observância da Lei, mas sim no amor de Deus por ele (Gl 2,20s; Rm 3,21-26). Essa experiência chama-se Gratuidade. Essa foi a marca de experiência de Paulo na estrada de Damasco que renova por dentro todo o seu relacionamento com Deus. Essa experiência da gratuidade do amor de Deus vai dar rumo à vida de Paulo e vai sustentá-lo nas coisas que virão. Essa experiência é a nova fonte da sua espiritualidade que faz brotar nele uma “poderosa energia” (Cl 1,29), energia muito mais forte e muito mais exigente do que a sua vontade anterior de praticar a Lei e de conquistar a justificação. Essa experiência levou Paulo a desocupar o barraco da sua vida para deixar Jesus entrar nela.  Ele cresce tanto no amor de Cristo, a ponto de dizer: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20). Essa “desapropriação” de si mesmo, porém, não lhe tira a liberdade. Pelo contrário, ele diz: “É para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gl 5,1;2,4). A experiência da gratuidade do amor de Deus faz Paulo suportar lutas e perseguições, viagens e canseira, o peso do dia-a-dia (2Cor 11,23-27); sofrer com aqueles que sofrem (2Cor 11,29). Essa experiência mudou os olhos de Paulo e o ajudou a descobrir novos valores que antes não via.


Pálido, doente e acabado, Paulo foi levado a um vale solitário chamado Aquae Salviae em Roma. Seu corpo foi açoitado pela última vez. Inclinou a cabeça à espera da espada que o conduziria ao martírio. O lugar onde ele foi martirizado, hoje chama-se Tre Fontane como recordação de Cabeça de Paulo que por três vezes bateu no chão antes de parar no instante dramático da morte. Realizou, assim, o único desejo de sua vida: estar com seu Senhor e Mestre Jesus Cristo: “Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20).


O Deus do Evangelho e da misericórdia é Aquele que no instante em que me faz compreender que errei completamente com relação a Ele, porque me coloquei em seu lugar, demonstra-me a sua misericórdia ao perdoar-me e me dá confiança ao chamar-me ao seu serviço, confiando-me a sua própria Palavra.


Este instante resume para Paulo tudo o que ele sabia de Deus de maneira errada. O escuro se torna claro, o violento se torna misericordioso.


O evento de Damasco é algo tão rico que devemos aproximar-nos com muita humildade e reverência, convencidos de que compreendemos pouco, que sabemos pouco com relação a isto, mas que poderemos conhecer muito mais pela graça de Deus. Então, compreenderemos melhor a nós mesmos, o caminho da nossa vida e as nossas conversões.


A experiência de Paulo nos faz perguntar: “Quando foi que me converti? Existe em minha vida um “quando” da conversão ao qual posso referir-me como momento histórico? Mesmo que não tenha havido um “quando” temporal, certamente aconteceram momentos de mudança, de transformação, de crise que nos levaram a uma nova compreensão do mistério de Deus.


Se nunca realizamos a fundo esta mudança de mentalidade que é essencial para a vida cristã, ainda não chegamos a compreender o que é a novidade do caminho cristão. Se não compreendo bem as coisas ditas sobre Paulo, provavelmente é difícil que compreenda o que aconteceu em mim. 


2. Pedro e Paulo revelam face institucional e carismática da Igreja


Pedro e Paulo são chamados as duas colunas da Igreja. Os dois revelam, de maneira expressiva, as duas faces da Igreja: a institucional e a carismática. Por um lado, a Igreja é um dom que recebemos de Cristo e da Tradição. Aqui não se inventa nem se acrescenta; acolhe-se com gratidão. Entretanto ela pode conter perigos; favorece a acomodação, facilmente se incorre no legalismo, no moralismo e na rigidez dogmática que impede ou suspeita de toda novidade. Pedro corporifica a face institucional da Igreja.


Mas estes limites são superados ou equilibrados por outra face: a face carismática. Porque, a Igreja é resposta humana, criatividade face aos desafios de cada geração, adaptação aos valores das culturas, inovação nos modos de pensar a fé, de rezar a Deus e de viver o Evangelho. Mas esta face tem também seus limites: a invenção não pode adulterar a substância da fé apostólica; cumpre guardar uma fidelidade essencial ao espírito de Jesus e dos Apóstolos. Paulo corporifica a face carismática da Igreja. A Igreja que hoje possuímos é fruto desta síntese feliz. A festa de Pedro e Paulo nos quer recordar os bons frutos que nos vêm desta tensão conservando a unidade dentro da pluralidade.


3. Pedro e Paulo Nos Trazem a Mensagem da Esperança


Eis por que sinto alegria nas fraquezas, nas afrontas, nas necessidades, nas perseguições, no profundo desgosto sofrido por amor de Cristo. Porque quando me sinto fraco, então é que sou forte”, contou-nos São Paulo sua experiência (2Cor 12,10).


As duas figuras, Pedro e Paulo, nos trazem uma mensagem de esperança. Na vida podemos ter muitos defeitos e fraquezas a ponto de não conseguirmos sair deles, mas ninguém pode escapar do amor de Deus desde que acolhamos este amor com muita humildade. Pedro e Paulo são testemunhas de tudo isto. Como se os dois quisessem nos dizer: “Não desista! Tudo tem seu tempo e sua solução, pois Deus te ama”. 


Deus conta com o tempo para formar cada um de nós, seus instrumentos, como conta também com a nossa boa vontade. Se tivermos a boa vontade de Pedro e de Paulo, se formos dóceis à graça de Deus, iremos convertendo-nos em instrumentos idôneos para servir o Mestre e para levar a cabo a missão que nos confiou. Até os acontecimentos que parecem mais adversos, os nossos próprios erros e vacilações, se recomeçarmos uma vez e outra, se abrirmos o coração ao Senhor e às pessoas capacitadas na direção espiritual, haverão de ajudar-nos a estar mais perto do Senhor que não se cansa de suavizar os nossos modos rudes e toscos. É provável que, em momentos difíceis de nossa vida, cheguemos a ouvir como Pedro: “Homem de pouca fé, por que duvidaste?” (Mt 14,31). E veremos Jesus ao nosso lado, estendendo-nos a mão para nos ajudar.


Todos nós recebemos, de diversas maneiras, uma chamada concreta para servir o Senhor. E ao longo da vida chegam-nos novos convites para segui-lo, e temos de ser generosos com Ele em cada novo encontro. Temos de saber perguntar a Jesus na intimidade da oração, como São Paulo: “Que devo fazer, Senhor? Que queres que eu deixe por Ti? Em que desejas que eu melhore? Neste momento da minha vida, que posso fazer por Ti?


4. Alguma Mensagem do Evangelho


4.1. A Identidade De Jesus Segundo O Povo: Simplesmente Um Profeta


“Quem sou Eu?”, pergunta Jesus. É uma pergunta surpreendente que não é nada natural. Ao personagem mais insólito não se pergunta quem ele é; perguntam-se-lhe os motivos e as razões do seu comportamento. Os profetas, por ex., devem responder à pergunta que lhe é feita sobre porque eles vivem e falam de determinada maneira. Por isso, eles narram a sua vocação e explicam porque tomaram esse estilo de vida (Is 8,11; Jr 15,17). Para Jesus, ao contrário, a pergunta decisiva é a de saber quem ele é.  A profissão de Cesareia, por isso, não é uma proclamação qualquer, mas é uma profissão de fé (profissão de fé petrina). Para que essa profissão seja realmente profissão de fé, Jesus procede em dois tempos, fazendo sucessivamente a pergunta: quem é Jesus na opinião dos homens (povo) e na opinião dos próprios discípulos de Jesus. Há, portanto, duas maneiras de compreender Jesus, uma que fica do lado de fora e a outra que atinge a realidade profunda.


“Quem dizem os homens ser o Filho do Homem (Filho do Homem = Eu. cf. Ez 2,1)?”. Os discípulos comunicam várias avaliações. Os discípulos partem sua resposta a partir de o “ouvir falar”. Para o povo (os homens), Jesus não tem personalidade própria. O povo simplesmente assimila Jesus a personagens conhecidos do AT como Elias que era muito venerado pelo povo e foi arrebatado até Deus de maneira milagrosa (2Rs 2,11) e cujo retorno estava esperado como precursor do Messias (Ml 3,23-24; Eclo 48,10); como João Batista (Herodes Antipas considerou Jesus como João Batista ressuscitado dentre os mortos. cf. Mt 14,2); e como Jeremias que era associado a uma renovação do culto no Templo; ou então, como um dos profetas. Todas as quatro respostas localizam Jesus na tradição profética. Jesus, então, é visto em continuidade com o passado. O povo não consegue descobrir a novidade trazida por Jesus. Por isso também o povo não é capaz de saber a originalidade de Jesus. A resposta do povo fica na superfície e na margem da realidade verdadeira e profunda.


Será que sabemos ou conhecemos Jesus a partir de “ouvimos falar” ou porque o conhecemos? Ficamos, assim, na superfície da realidade.


4.2. A Identidade De Jesus Na Profissão Petrina: Cristo, Filho De Deus Vivo


Jesus continua a perguntar para os mais íntimos, os seus discípulos: “E vós, quem dizeis que Eu sou?” (v.15). Esta pergunta tem um sentido entre dois seres que se amam e que descobrem o que são no olhar e no coração do outro. Tem um sentido para aquele que assume uma responsabilidade para com os outros e que tem necessidade de que ela seja reconhecida. Nesta pergunta coincidem completamente o ser e a função. Ser o Messias significa existir exclusivamente para todos os homens e ser Jesus significa ser aquele que salva (Mt 1,21) todos os homens. Por isso, é preciso que a resposta seja real, que exprima uma experiência autêntica. Uma resposta puramente escolar ou a repetição duma fórmula cuidadosamente registrada, criaria um equívoco total. Por isso, a pergunta de Jesus nada contém que possa encaminhar, mas obriga o homem a colocar-se de todo perante esse personagem misterioso, a encontrar a resposta exclusivamente na contemplação da sua pessoa e a empenhar todo o seu ser na resposta.


Em nome dos discípulos, Pedro responde: “Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo” (v.16). Esta é a primeira vez que um discípulo usa o termo “Cristo”, embora os leitores de Mt saibam isto desde o início do Evangelho (cf. Mt 1,1.16.17.18; veja também 2,4;11,2) e os discípulos tinham feito uma confissão comparável em Mt 14,33. A resposta de Pedro atinge a verdadeira personalidade de Jesus, a sua relação com Deus, diferente de tudo quanto conheceram os profetas e o povo, e a sua missão no mundo, a qual interessa diretamente a todos os filhos de Israel e, através deles, à humanidade inteira. A resposta de Pedro à pergunta de Jesus é a mais comprometida. É uma profissão de fé messiânica que adquire dimensão teológica. Estes dois títulos “Messias” (a profissão de fé pré-pascal) e “Filho de Deus vivo” (a profissão de fé pós-pascal) resumem a fé da Igreja de Mateus.


O “Messias” ou “Cristo” (“Mashiah”, hebraico = “Ungido”) é uma expressão mais importante das esperanças de salvação no AT e no judaísmo subsequente. No contexto da teologia bíblica, a questão do Messias tem especial relevância, porque este título, em sua tradução grega “christos”, além de ser título (Jesus, o Cristo), tornou-se praticamente o nome de Jesus (Jesus Cristo). No NT este termo “Christos” é atribuído 530 vezes a Jesus de Nazaré.


Quando Pedro reconhece em Jesus o Messias, não renuncia à sua esperança de judeu, mas dá a essa esperança o rosto que tem diante de si. É aquele que o seu povo espera, aquele que vai mudar o destino das nações, que Pedro descobre sob os traços de Jesus.


Mt sublinha que Jesus é o Messias enviado ao povo de Israel. As genealogias o vinculam com Davi e Abraão (Mt 1,1). Mt afirma que Jesus é o Filho de Davi (Mt 1,1.17.20) e, portanto, o Messias de Israel (Mt 2,6). Segundo Mt, Jesus tem relação especial com Israel por ser o cumprimento de suas tradições: suas vitórias finais sobre os adversários, sobre a morte pela ressurreição etc. são a concretização das esperanças apocalípticas judaicas. Mt, então, apresenta Jesus à luz do AT como seu cumprimento. 


Se Jesus é o Messias, então, é preciso procurá-lo e é mister segui-lo. Mas, certamente, acontece o contrário. Mt sublinha também o fato de Israel desprezar o Messias que lhe foi enviado, principalmente foi desprezado pelas autoridades (Mt 2,1-12;9,33s;12,23s;21,45s;26,4s etc....).


Pedro também professa que Jesus é o “Filho de Deus vivo”. O título “Filho de Deus” era usado comumente para honrar e exaltar imperadores, especialmente Augusto. Os imperadores eram considerados e reconhecidos como agentes da vontade e poder dos deuses expressos pelo governo romano. Por isso, designar Jesus como “Filho de Deus” é contestar e desafiar essas reivindicações de soberania e representação.


Filho de Deus” é o título mais importante de Jesus, mas, sobretudo, é o mistério íntimo de sua pessoa. Este segundo título, nesta profissão petrina, indica que Jesus tem relação especial com Deus, como seu Filho. “Filho de Deus” é título tradicional para líderes judaicos com aprovação divina. Esta expressão “Filho de Deus” concorda com a perspectiva de Deus sobre Jesus (cf. Mt 2,15;3,17) com as próprias declarações de Jesus (cf. Mt 11,25-27) e repete a confissão dos discípulos em Mt 14,33: “Tu és verdadeiramente o Filho de Deus”. A autoridade e o poder de Jesus vêm de Deus que o legitima em seu batismo (Mt 3,17) e na sua transfiguração (Mt 17,5) e no reconhecimento da parte dos próprios discípulos como tal quando Jesus anda sobre as águas (Mt 14,33). Jesus é, certamente, tentado três vezes na sua qualidade de Filho de Deus (Mt 27,39-43). Estas três tentações no final afirmam uma clara relação com três tentações do início do relato (Mt 4,1-11). No deserto Jesus, recém-proclamado Filho de Deus no batismo, é tentado por Satanás para que use desta filiação numa demonstração de poder em benefício próprio. Mas Jesus não é o Filho de Deus pela demonstração de seu poder, mas na aceitação da condição humana e na plena fidelidade à vontade de Deus, seu Pai, na aceitação da cruz como consequência de sua fidelidade ao projeto do Pai onde se manifesta a sua filiação divina.


Neste segundo título, Mt acrescenta também o adjetivo “vivo”: “Filho de Deus vivo”. Jesus como o “Filho de Deus vivo” equivale à fórmula “Deus Conosco/Emanuel” (Mt 1,23; 18,20; 28,20). Se Deus sempre está conosco porque Ele é vivo. “Vivo” (cf. 2Rs 19,4.16; Is 37,4.17;Os 2,1;Dn 6,21) opõe o Deus verdadeiro aos ídolos mortos; significa o que possui a vida e a comunica para quem acredita nele. O Deus de Jesus é vivo e vivificante. Jesus é o Filho de Deus vivo, portanto também é doador de vida e vencedor da morte. O Deus de Jesus Cristo é o Deus da vida (Dt 5,26; Js 3,10;1Sm 17,26.36; 2Rs 19,4.16;Sl 42,2;84,2;Os 1,10;Dn 6,20). Isto quer dizer que ele é criativo, ativo, fiel e justo. Ser o Deus vivo e vivificante, possuir a vida e comunicá-la é a característica do Deus verdadeiro. Os “deuses”, os ídolos não têm vida própria e por isso, não podem comunicá-la. Ao contrário, eles exigem sacrifícios humanos e escravizam e devoram todos os que se tornam seus adoradores. E como Filho, Jesus expressa esta vida em suas palavras e ações (curas, alimentar o povo faminto, exorcismos etc. cf. Mt 11,2-6) e criando uma comunidade que participa no império de Deus.


Quem aceitar Jesus e estiver pronto para segui-Lo deve proteger a vida em todas as suas instâncias.  Ninguém pode decidir se alguém pode viver ou pode ser eliminado. Cada ser humano é o próprio templo de Deus (cf. 1Cor 3,16-17; 6,19). A vida humana é o sopro ou o hálito de Deus (cf. Gn 2,7).


Pedimos hoje a São Pedro e ao Apóstolo dos pagãos, Paulo, um coração como o deles, para sabermos passar por cima das pequenas humilhações ou dos aparentes fracassos que acompanham necessariamente a ação apostólica, ou a nossa vida em geral. E dizemos a Jesus que estamos dispostos a conviver com todos, a oferecer a todos a possibilidade de conhecê-lo e amá-lo, sem nos importarmos com os sacrifícios nem pretendermos êxitos imediatos. Assim seja!
P. Vitus Gustama,svd