quarta-feira, 31 de julho de 2019

Domingo,04/08/2019
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SABER PARTILHAR É SER IRMÃO DO PRÓXIMO E SER RICO DIANTE DE DEUS
XVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM “C”


I Leitura: Ecl 1,2;2,21-23
2 “Vaidade das vaidades, diz o Eclesiastes, vaidade das vaidades! Tudo é vaidade”. 2,21 Por exemplo: um homem que trabalhou com inteligência, competência e sucesso, vê-se obrigado a deixar tudo em herança a outro que em nada colaborou. Também isso é vaidade e grande desgraça. 22 De fato, que resta ao homem de todos os trabalhos e preocupações que o desgastam debaixo do sol? 23 Toda a sua vida é sofrimento, sua ocupação, um tormento. Nem mesmo de noite repousa o seu coração. Também isso é vaidade.


II Leitura: Cl 3,1-5.9-11
Irmãos: 1 Se ressuscitastes com Cristo, esforçai-vos por alcançar as coisas do alto, onde está Cristo, sentado à direita de Deus; 2 aspirai às coisas celestes e não às coisas terrestres. 3 Pois vós morrestes, e a vossa vida está escondida, com Cristo, em Deus. 4 Quando Cristo, vossa vida, aparecer em seu triunfo, então vós aparecereis também com ele, revestidos de glória. 5 Portanto, fazei morrer o que em vós pertence à terra: imoralidade, impureza, paixão, maus desejos e a cobiça, que é idolatria. 9 Não mintais uns aos outros. Já vos despojastes do homem velho e da sua maneira de agir 10 e vos revestistes do homem novo, que se renova segundo a imagem do seu Criador, em ordem ao conhecimento. 11 Aí não se faz distinção entre judeu e grego, circunciso e incircunciso, inculto, selvagem, escravo e livre, mas Cristo é tudo em todos.


Evangelho: Lc 12,13-21
Naquele tempo, 13 alguém, do meio da multidão, disse a Jesus: “Mestre, dize ao meu irmão que reparta a herança comigo”. 14 Jesus respondeu: “Homem, quem me encarregou de julgar ou de dividir vossos bens?” 15 E disse-lhes: “Atenção! Tomai cuidado contra todo tipo de ganância, porque, mesmo que alguém tenha muitas coisas, a vida de um homem não consiste na abundância de bens”. 16E contou-lhes uma parábola: “A terra de um homem rico deu uma grande colheita. 17 Ele pensava consigo mesmo: ‘O que vou fazer? Não tenho onde guardar minha colheita’. 18 Então resolveu: ‘Já sei o que fazer! Vou derrubar meus celeiros e construir maiores; neles vou guardar todo o meu trigo, junto com os meus bens. 19 Então poderei dizer a mim mesmo: Meu caro, tu tens uma boa reserva para muitos anos. Descansa, come, bebe, aproveita!’ 20 Mas Deus lhe disse: ‘Louco! Ainda esta noite, pedirão de volta a tua vida. E para quem ficará o que tu acumulaste?’ 21 Assim acontece com quem ajunta tesouros para si mesmo, mas não é rico diante de Deus”.    
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Ser Nova Criatura Em Jesus Cristo


Continuamos a acompanhar as Lições do Caminho do Evangelho de Lucas (Lc 9,51-19,28) dadas por Jesus na sua viagem sem volta da Galileia para Jerusalém, pois lá em Jerusalém Ele será crucificado e morto. Com efeito, a vida é uma caminhada sem volta. Nunca para trás, mas sempre para frente. A história do homem é estruturada com base no esquema da peregrinação, no sentido de saída de Deus e retorno a Deus em uma relação entre a eternidade e o tempo, entre o céu e o mundo. Sair de si para voltar a Deus não é apenas remontar às origens, mas também e principalmente progredir em novidade e em crescimento. Caminhar é renovar e inovar.


O evangelista Lucas não tem pressa de contar a chegada de Jesus em Jerusalém, pois ele se concentra em apresentar as últimas lições de Jesus para seus discípulos que vão continuar sua missão neste mundo. A lição dada por Jesus no texto de hoje é a lição sobre o uso dos bens materiais neste mundo e o perigo no seu abuso: a avareza.


A Primeira Leitura deste Domingo começa com a célebre reflexão, tantas vezes, repetida: “Vaidade das vaidades, vaidade das vaidades! Tudo é vaidade. ... De fato, que resta ao homem de todos os trabalhos e preocupações que o desgastam debaixo do sol?”. Vivemos na permanente tentação: Podem-se ter muitas coisas, mas estar vazio por dentro. Pode-se ser rico humanamente e espiritualmente pobre. O egoísmo de acumular e encher os próprios celeiros com os bens materiais pode nos deixar vazios diante de Deus, como enfatiza o Evangelho deste Domingo.


A vaidade consiste na distância existente entre o ideal do homem e as realizações para as quais ele chega. O coração do homem experimenta um desejo do absoluto que nunca chega a satisfazer neste mundo.


Isto não é uma consequência do pecado e sim simplesmente a expressão da limitação humana. Hoje se chama à vaidade o absurdo ou a ambiguidade. Tomar uma decisão e não poder dar-lhe a solução melhor; buscar e não poder alcançar jamais a verdade absoluta; trabalhar para o futuro e vê-lo em mãos dos que vem destruir tudo. A vaidade se converte na falta do homem que desconhece os limites e equívocos que se impõem a seu esforço. A vaidade é a loucura humana que não conta com a morte e se encontra, desta maneira, brutalmente ridiculizada por ela: “Louco! Ainda esta noite, pedirão de volta a tua vida. E para quem ficará o que tu acumulaste?” (Lc 12,20).


Com o texto da Segunda Leitura, começa a seção parenética da Carta de São Paulo aos Colossenses. Nesta seção, como em outras, são abordados temas da ética e moral cristã. É claro que são Paulo espera dos crentes uma maneira concreta de viver sua fé. Como fundamento da conduta cristã é apresentada a vida nova do homem em Cristo, procedente de sua união com o Morto e Ressuscitado por eles. Trata-se, no fundo, de viver o que se é. É procurar reproduzir a imagem do Ressuscitado na conduta de todos os dias. É conhecer Jesus Cristo biblicamente: o estar em Cristo, unidos com Ele, ser membros seus. Tudo isto tem exigências não exatamente morais e sim ontológicas. Se um é filho de alguém, viverá como filho de quem é. O cristão é aquele que vive e age conforme Cristo. Esta é a razão de viver de um modo determinado.


A expressão “nova condição” (cf, Ef 2,15; 4,24) é claramente a transformação pelo ou no Batismo, que implica um novo começo. Já no AT há temas afins a este: a renovação pelo espirito (Ez 36,22s); a nova forma de ser (Ez 18). O homem chega a ser um novo homem, um novo Adão (1Cor 15,45), uma nova imagem de Deus (Cl 1,15). Por isso, não tem sentido a diversidade de raças/etnias, de formas de ser ou pensar, já que tudo é Cristo: “Aí não se faz distinção entre judeu e grego, circunciso e incircunciso, inculto, selvagem, escravo e livre, mas Cristo é tudo em todos” (Cl 2,11). O que Coelet ou Eclesiastes ansiava (Primeira Leitura) se faz realidade no fato de Jesus: ele associa ao que crê n´Ele a uma novidade radical. Aquele que nao se deu conta ainda da novidade de seu próprio Batismo é como um cristão de alma velha.


Aqui temos uma fórmula conscisa e clara do que significa o Batismo: Cristo tudo em todos, “Cristo é tudo em todos” (cf. 1Cor 12,13; Gl 3,28). Não é que o novo tipo de vida que Cristo instaura faça desaparecer as antigas categorias, e sim que estas deixam de ser o determinante e exclusivo para o homem.


Se não experimentarmos esta novidade é porque não decidimos ainda romper com as obras da velha condição humana. Tudo o que significa romper e rasgar produz dor, mas é a única forma de criar a vida.


Lucas e Os Bens Materias


Um dos temas prediletos do Evangelista Lucas é a advertência sobre o perigo dos bens materiais quando não são usados como meio e sim como fim.


Para Lucas, todos os bens deste mundo pertencem a Deus e eles são bons e necessários e devemos desfrutá-los como um presente de Deus que os criou para nosso bem enquanto estivermos neste mundo. O dono de todos os bens continua sendo o Deus-Criador. Temos apenas o direito de uso enquanto estivermos neste mundo. Quando terminar nossa passagem deste mundo, ficará aqui; nada é levado materialmente. O dinheiro é um bem desejável, um meio para conseguir coisas necessárias à vida. Mas sendo um “bem”, facilmente se deseja mais e mais dinheiro, muitas vezes de maneira injusta o que causa a concentração dos bens nas mãos de poucas pessoas.


A atitude crítica diante dos donos dos bens materiais é muito radical em Lucas. A bem-aventurança dos pobres em Lucas é completada com os quatro “ais” sobre os ricos (Lc 6,24). Só Lucas usa a expressão “Mamon (Dinheiro) de iniquidade” (Lc 16,9). E quando se trata de abandonar os bens ou vendê-los e dá-los aos pobres Lucas usa o termo “tudo”: deve-se deixar “tudo” (Lc 5,11.28), deve-se renunciar a “tudo” (Lc14,33;18,22). Somente em Lucas encontram-se as parábolas sobre o perigo das riquezas ou da acumulação dos bens (Lc19,16-31;12,16-21;16,1-9). A riqueza e a cobiça dos bens temporais sufocam o crescimento da semente da Palavra de Deus. A passagem do Evangelho deste domingo está dentro deste tema.


O Texto Do Evangelho e Sua Mensagem


O texto do Evangelho deste Domingo pode ser dividido em três partes: vv. 13-14 falam de alguém que pede a Jesus que resolva o problema de herança; v.15, uma sentença de Jesus sobre os perigos da avareza; e vv.16-21: uma parábola que serve para exemplificar o sentido da sentença de Jesus.


Mestre, dize ao meu irmão que reparta a herança comigo” é a pergunta de alguém do meio da multidão dirigida a Jesus.


As leis de herança entre os judeus eram determinadas pela Torá (cf. Nm 27,28ss; Dt 21,17), e por isso o doutor da lei era o homem capaz de dirimir questões de herança, já que era, ao mesmo tempo, jurista e teólogo. Segundo as tradições jurídicas judias (especialmente numa família camponesa), o filho mais velho tinha direito a 2/3 dos bens móveis da casa paterna, além de herdar a casa e o campo.


Jesus recusa exercer a função de juiz na divisão da herança daqueles irmãos: “Homem, quem me encarregou de julgar ou de dividir vossos bens?”.   A missão de Jesus é outra. Sua vida estava plenamente dedicada ao anúncio do Reino de Deus pela salvação da humanidade.


O choque entre dois irmãos pela repartição da herança depende, em última análise, da avareza insaciável do homem: “Atenção! Tomai cuidado contra todo tipo de ganância, porque, mesmo que alguém tenha muitas coisas, a vida de um homem não consiste na abundância de bens”. Qualquer desejo de aumentar os bens materiais sem necessidade é julgado por Jesus como um perigo, do qual os discípulos se devem precaver. A ganância ou a cobiça traz sempre consigo a ilusão de que, pelas posses e pela abundância, a vida se torna segura. Temos que ter uma plena consciência de que a vida é um presente de Deus e não fruto dos bens ou da abundância em bens terrenos e em riquezas. Não é o homem que dispõe da vida e sim o próprio Deus.


Para Jesus, enquanto houver pobres, a riqueza não se justifica. Ele não pretende fazer com que os ricos fiquem pobres a fim de que os pobres se enriqueçam, pois a situação continuaria sendo injusta. Surgiriam novos opressores. Jesus se dirige a ricos e pobres para convidá-los à “conversão” para a alternativa que Jesus propõe: partilhar (que é a alma do projeto de Deus: Deus se doa) o que se tem com irmãos, filhos do mesmo Pai celeste que o necessitam (cf. Mt 25,31-46). Mesmo que isso nos leve a deixar de ser “ricos”. No dia do julgamento o Filho do Homem não perdoará ao que lhe negou o pão ou a água (cf. Mt 25,40.45). Como alerta São Tiago: “Será julgado sem misericórdia quem não fez misericórdia” (Tg 2,13).  Ninguém é pobre quando sabe amar.


Quando avançamos na idade até chegar para a nossa velhice começaremos a perceber que a avareza não tem nenhum sentido para nossa vida. Desfrutaremos muito pouco quando ficarmos idosos mesmo que tenhamos bastantes recursos. Tudo que se adquire aqui neste mundo vai ficar aqui neste mundo. Tudo é emprestado para nós. Ficar apegado aos bens materiais não vale a pena. Um dia seremos obrigados a largar tudo pela força da lei igual a todos: a morte. Necessitamos de alguém com quem conversar. Precisamos de companhia de um ser humano. Temos que gostar de gente usando os bens, e não usar as pessoas em função dos bens. Todos os bens materiais continuam sendo alheios a nós. Consequentemente, eles nunca serão nossos amigos. Por isso, não basta possuir coisas materiais e fruir delas dentro dos limites da moderação imposta pela ordem racional; temos de ser capazes de nos elevar acima de toda alegria e ultrapassar toda posse para podermos chegar à pura posse e à pura alegria de Deus.


Sabemos muito bem de que o ser humano tende por natureza ao desenvolvimento de si mesmo e, como garantia deste direito, ele procura apropriar-se das coisas que o rodeiam, no intuito de utilizá-las. Trata-se de uma aspiração legítima. É bem verdade, está claro, que as criaturas de Deus são boas e que o uso moderado que delas fazemos nos leva à união mais íntima com Deus. É também verdade que os que estão mais intimamente unidos a Deus e desapegados do próprio eu exterior são capazes de saborear a mais pura alegria na beleza das coisas criadas, a qual não mais é obstáculo à luz de Deus. Mas, se a cobiça dos bens for exagerada, excessivo o apego a eles, doentia a afeição pelas coisas e a sua posse não tiver o caráter de meio, impondo-se tiranicamente como um fim, então a pessoa não estará mais exercendo um direito, mas sendo vítima de um vício hediondo: a avareza. Por isso, não basta possuir coisas materiais e fruir delas dentro dos limites da moderação imposta pela ordem racional; temos de ser capazes de nos elevar acima de toda alegria e ultrapassar toda posse para podermos chegar à pura posse e à pura alegria de Deus.


A avareza é, na verdade, um desvio do significado de infinito, uma transposição do absoluto para o que é relativo; ela consiste em acreditar que a riqueza não é um meio para se servir, mas a própria razão de ser da vida. Tudo que amamos por causa de nós mesmos, fora de Deus, só cega nosso intelecto e paralisa nosso julgamento sobre os valores morais; vicia nossas opções, de maneira que não podemos distinguir com nitidez o bem do mal nem saber qual é a vontade de Deus. Quando amamos e desejamos as coisas por elas mesmas, ainda que tenhamos o conhecimento dos princípios morais gerais, não os sabemos aplicar. A avareza obscurece nossas visão das coisas e da vida.


O avarento é vítima de um prazer em possuir as coisas que jamais será satisfeito, mas o estimulará cada vez mais numa espiral sem fim. A satisfação em possuí-las é tão grande que até torna o medo de perdê-las maior que o desejo de aumentá-las. Está tão apegado a elas que, para não se desprender delas, ele até renuncia à possibilidade de multiplicá-las através de investimentos. Ele considera os bens que possui como parte da sua existência, sentindo sua perda ou o desprender-se deles como uma amputação. Ele sacrifica qualquer satisfação da vida ao prazer de contemplar sua riqueza, impondo a si próprio sacrifícios na alimentação, renunciando ao prazer das viagens etc. Ele seria capaz de morrer de fome só para ter à sua disposição os bens necessários para não morrer de fome num amanhã que ele não irá ver. Esta é uma lógica para se viver mal e morrer pior ainda.


Para exemplificar o sentido de sua sentença, Jesus conta uma parábola (vv.16-21). O rico produtor de trigo, que acredita que não terá necessidade, por muitos anos, de temer insucessos de colheita é um tolo/insensato. Biblicamente o tolo/insensato é um modo de falar de um homem que praticamente renega Deus (Sl 14,1). Ele não conta com Deus nem vê a ameaça de morte. É o homem que põe toda sua confiança num falso fundamento. Um projeto de vida fundamentado na acumulação dos bens não tem solidez, porque a fonte da vida não está nos bens e a sua segurança não é proporcional à posse. O homem fechado a Deus e aos outros na sua solidão é destituído daquela lucidez que permite acolher as exatas proporções da realidade. O teor de sua advertência através desta parábola mostra que Jesus considera como perigo ameaçador, não a morte imprevista do indivíduo (porque morrer é algo universal a que todos nós teremos de chegar), mas a catástrofe e o julgamento escatológicos que estão às portas. Por isso, deve-se ler essa parábola dentro do contexto do fim dos tempos. Jesus espera que apliquemos a conclusão à nossa situação: seremos insensatos como o rico tolo ameaçado de morte, se formos avarentos.


Somos convidados ao despojamento (kénosis). Ele é todo um empenhamento para dar lugar à riqueza do poder da graça de Deus, a fim de nos tornarmos imunes contra as ciladas do orgulho e da avareza. Enquanto o despojamento não tiver ocupado o nosso coração, o desapego do nosso egoísmo, da nossas presunção e da ânsia de possuir, poderá tornar-se momentaneamente penoso e cansativo. Mas se, ao contrário, o despojamento se transformará num processo curativo, libertador e generoso. Por ter experimentado o despojamento São Paulo chega a dizer: “Mas tudo isso, que para mim era lucro, reputei-o perda por Cristo...Por Ele, tudo desprezei e tenho em conta de esterco, a fim de ganhar Cristo...Não que eu já tenha alcançado a meta, ou que já seja perfeito, mas prossigo a minha carreira para ver se de algum modo a poderei alcançar, visto que já fui alcançado por Jesus Cristo” (Fl 3,7-12).  O homem que se deixa conquistar pelo despojamento de Cristo, deixa de estar alienado ou agarrado a qualquer coisa, sentindo-se, pelo contrário, livre em Cristo pelo seu Evangelho. O despojamento torna-se, então, um encontro libertador consigo próprio, com Deus e com o próximo.


O homem é sempre tentado a buscar sua salvação nos bens, a pôr nas riquezas sua segurança. O cristão deve estar vigilante contra essa tentação insidiosa /cheia de ciladas. Os bens não asseguram nem a mesma vida, menos ainda a salvação. O homem da parábola dialoga consigo mesmo. Este diálogo falha na ordem de salvação. Faltam-lhe interlocutores. Não intervém Deus. Não intervêm os demais homens, pois esse homem fala consigo próprio.


Ser rico diante de Deus significa dar importância àquelas coisas que levaremos conosco na morte: as boas obras, a caridade praticada na verdade, a solidariedade, a partilha e assim por diante. É saber compartilhar com os outros nossos bens que é uma riqueza que vale diante de Deus.
  • "O avarento vive sempre na pobreza." (Horácio)
  • "Ser avarento é pior do que ser pobre." (Textos Judaicos)
  • "A avareza é um tirano bem cruel; manda ajuntar e proíbe o uso daquilo que se junta; visita o desejo e interdiz o gozo." (Plutarco)
  • "A avareza perde tudo ao pretender ganhar tudo." (Jean de La Fontaine)
  • Um homem que trabalhou com inteligência, competência e sucesso, vê-se obrigado a deixar tudo em herança a outro que em nada colaborou (Ecl 2,21).
P. Vitus Gustama,svd
03/08/2019
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SER CRISTÃO É SER PROFETA E MÁRTIR DE UMA VIDA DE JUSTIÇA SOCIAL E DE IGUALDADE
Sábado da XVII Semana Comum


Primeira Leitura: Lv 25,1.8-17
1 O Senhor falou a Moisés no monte Sinai, dizendo: 8 “Contarás sete semanas de anos, ou seja, sete vezes sete anos, o que dará quarenta e nove anos. 9 Então farás soar a trombeta no décimo dia do sétimo mês. No dia da Expiação fareis soar a trombeta por todo o país. 10 Declarareis santo o quinquagésimo ano e proclamareis a libertação para todos os habitantes do país: será para vós um jubileu. Cada um de vós poderá retornar à sua propriedade e voltar para a sua família. 11 O quinquagésimo ano será para vós um ano de jubileu: não semeareis, nem colhereis o que a terra produzir espontaneamente, nem colhereis as uvas da vinha não podada; 12 pois é um ano do jubileu, sagrado para vós, mas podereis comer o que produziram os campos não cultivados. 13 Nesse ano de jubileu cada um poderá retornar à sua propriedade. 14 Se venderes ao teu conterrâneo, ou dele comprares alguma coisa, que ninguém explore o seu irmão; 15 de acordo com o número de anos decorridos após o jubileu, o teu conterrâneo fixará para ti o preço de compra, e de acordo com os anos de colheita, ele fixará o preço de venda. 16 Quanto maior o número de anos que restarem após o jubileu, tanto maior será o preço da terra; quanto menor o número de anos, tanto menor será o seu preço, pois ele te vende de acordo com o número de colheitas. 17 Não vos leseis uns aos outros entre irmãos, mas temei o vosso Deus. Eu sou o Senhor, vosso Deus”.


Evangelho: Mt 14,1-12
1 Naquele tempo, a fama de Jesus chegou aos ouvidos do governador Herodes. 2 Ele disse a seus servidores: “É João Batista, que ressuscitou dos mortos; e, por isso, os poderes mira­culosos atuam nele”. 3 De fato, Herodes tinha mandado prender João, amarrá-lo e colocá-lo na prisão, por causa de Herodíades, a mulher de seu irmão Filipe. 4 Pois João tinha dito a Herodes: “Não te é permitido tê-la como esposa”. 5 Herodes queria matar João, mas tinha medo do povo, que o considerava como profeta. 6 Por ocasião do aniversário de Herodes, a filha de Herodíades dançou diante de todos, e agradou tanto a He­ro­des 7 que ele prometeu, com juramento, dar a ela tudo o que pedisse. 8 Instigada pela mãe, ela disse: “Dá-me aqui, num prato, a cabeça de João Batista”. 9 O rei ficou triste, mas, por causa do juramento diante dos convidados, ordenou que atendessem o pedido dela. 10 E mandou cortar a cabeça de João, no cárcere. 11 Depois a cabeça foi trazida num prato, entregue à moça e esta a levou a sua mãe. 12 Os discípulos de João foram buscar o corpo e o enterraram. Depois foram contar tudo a Jesus.
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É Preciso Descansar Para Estar Com o Senhor Do Céu e do Universo


O Senhor falou a Moisés no monte Sinai, dizendo: ´Contarás sete semanas de anos, ou seja, sete vezes sete anos, o que dará quarenta e nove anos. Então farás soar a trombeta no décimo dia do sétimo mês. Declarareis santo o quinquagésimo ano e proclamareis a libertação para todos os habitantes do país: será para vós um jubileu’”. São as primeiras frases da Primeira Leitura do livro de Levítico.


A lei prescrevia cada sete anos um ano sabático, cuja origem não foi outra que a necessidade de deixar de alqueivar uma terra que era bastante pobre: “Durante seis anos, semearás a terra e recolherás o produto. Mas, no sétimo ano, a deixarás repousar em alqueive; os pobres de teu povo comerão o seu produto, e os animais selvagens comerão o resto. Farás o mesmo com a tua vinha e o teu olival. Durante seis dias, farás o teu trabalho, mas no sétimo descansarás, para que descansem o teu boi e o teu jumento, e respirem o filho de tua escrava e o estrangeiro” (Ex 23,10-12). E que se converteu em ocasião de dar a liberdade aos escravos (Ex 21,2-6).


Esta prescrição foi considerada utópica, pois em seguida a legislação sacerdotal a substituiu pela criação de um ano jubilar (Ex 25,11).


A trombeta com que se anunciava esse ano particular era um chifre de carneiro, que se chama “yobel”, em hebraico. Daí surgiu a palavra “Jubileu”. A celebração do ano jubilar levava consigo, entre outras coisas, a restituição das terras a seus antigos proprietários, a remissão das dívidas, a libertação de escravos e o repouso da terra. Na Bíblia era tempo jubilar ao final de cada sétimo ano sbático, a saber: depois de sete grupos de sete anos e, portanto, cada cinquenta anos (Lv 25,8ss). Suas características são interessantes, especialmente do ponto de vista social: cada um recupera a propriedade daquilo que alienou; as terras retornam à família, as dívidas são perdoadas, os escravos são libertados e até o campo fica em descanso (sem usá-lo) durante aquele ano.


O jubileu tinha, então, para os judeus um sentido religioso, de culto a Deus; mas também um caráter social, de uma justiça igualitária, pois as propriedades não são acumuladas em umas poucas mãos, mas todos têm que viver dignamente.


Por isso, para além deste contexto económico e social, os israelitas começam a manifestar algumas ideias religiosas que têm interesse para o desenvolvimento futuro do ano jubilar. Em primeiro lugar, a concepção segundo a qual a terra pertence a Deus. Esta é a razão fundamental pela qual não pode ser descartada definitivamente.


A exploração sem limite da terra pode causar dano para o próprio homem. Na falta de água e de comida, de animais, de peixes etc., todos vão entender que o ouro e a prata não podem ser comidos. A terra precisa de respiração e de cuidados. Esta irmã (Terra) clama contra o mal que lhe provocamos por causa do uso irresponsável e do abuso dos bens que Deus nela colocou.... Por isso, entre os pobres mais abandonados e maltratados, conta-se a nossa terra oprimida e devastada, que ‘geme e sofre as dores do parto´ (Rm 8, 22). Esquecemo-nos de que nós mesmos somos terra (cf. Gn 2, 7)” (Papa Francisco: Carta Encíclica Laudato Si n.2).


Em segundo lugar, a ideia do “resgate”, subjacente às prescrições do jubileu e que exige uma propriedade familiar seja resgatada preferentemente por um parente (o “goel”) para que não se perca o direito à herança.


E por fim, a ideia da remissão, não somente das dívidas, mas também dos pecados.


Tomando essas três ideias como base, os profetas salvarão a instituição da decadência a fim de o povo eleito voltar a alcançar um futuro escatológico onde as perspectivas tomarão uma densidade mais espiritual. O profeta Isaías tem muito mérito para esta perspectiva escatológica (Is 61,1-3). Então, não será mais necessário tocar a trombeta para anunciar o ano jubilar, pois basta a palavra do profeta que ressoa como trombeta. A palavra “evangelho” nasceu nesse contexto: a boa nova do ano da graça do Senhor.


O primeiro discurso pronunciado por Jesus ao iniciar sua vida pública será precisamente um comentário do texto de Isaías no qual anuncia o ano jubilar espiritual (Lc 4,21). Jesus Cristo enfoca seu ministério como um verdadeiro ano jubilar. Ele usará seu poder messiânico para perdoar os pecados que escandalizará os fariseus (Mt 9,6). O ministério público de Cristo será, com efeito, uma série ininterrupta de libertações, de curas, de remissões de dívidas e de pecados. Quando sobe ao Pai, confiará este poder aos apóstolos em sua primeira aparição pelo dom do Espirito messiânico (Jo 20,22-23).


A tradição cristã começou a seguir este costume muito mais tarde. No ano 1300 o Papa Bonifácio VIII proclamou o ano jubilar pela primeira vez. A partir de então tem sido celebrado o jubileu cada cinquenta anos, ao princípio e logo depois, cada vinte e cinco anos.


O Papa João Paulo II, com sua Carta Apostólica “Tertio Millennio Adveniente” nos convocou em 2000 para um Jubileu por ocasião dos dois mil anos do nascimento de Jesus e o início do terceiro milênio. O Papa, em sua Carta, resumia o que lemos hoje no livro de Levítico sobre a igualdade social que persegue o Jubileu: “Se Deus, em sua providência, tinha entregue a terra aos homens, isso queria significar que a tinha dado a todos. Por isso, as riquezas da criação haviam de ser consideradas como um bem comum da humanidade inteira. Quem possuia estes bens como sua propriedade, era na verdade apenas seu administrador, isto é, um ministro obrigado a operar em nome de Deus, o único proprietário em sentido pleno, sendo vontade de Deus que os bens criados servissem equitativamente a todos. O ano jubilar devia servir precisamente também para o restabelecimento desta justiça social”, escreveu o Papa João Paulo II (n. 13).


No fundo, um Jubileu é uma homenagem, Dono do tempo e do Cosmos que quer que todos possam viver de seus dons. O culto a Deus vai sempre unido à justiça para com seus filhos, sobretudo os mais débeis ou necessitados.


Quem Vive Na Mentira É Capaz de Reagir Violentamente Diante Da Verdade Revelada


Na passagem do Evangelho deste dia fala-se da identidade de Jesus, relacionada à de João Batista. O motivo dessa colocação é sempre o mesmo: para entender Jesus há que entender antes quem é João Batista, pois João Batista é o Precursor de Jesus. O destino de João Batista preanuncia o de Jesus.


O evangelho nos relatou que a fama de Jesus estava cada vez mais espalhada ao seu redor. Por isso chegou também aos ouvidos de Herodes que já tinha mandado decapitar João Batista. A presença e a fama de Jesus incomodam a consciência de Herodes: “É João Batista, que ressuscitou dos mortos; e, por isso, os poderes miraculosos atuam nele”, pensou Herodes. Herodes que já tinha mandado decapitar João Batista, por instigação de Herodíades, ficou sem a consciência tranquila.


A partir da reação de Herodes é que se conta o drama da vida de João Batista que denunciou Herodes por ter se casada com Herodíades, ex-mulher de seu irmão, pois era proibido pela Lei (cf. Lv 18,16).


A adúltera Herodíades não gostou da denúncia de João Batista em nome de seu prazer e interesse pessoal, e esperava momento certo para vingar-se. Quando chegou o momento oportuno ela pediu, através de sua filha, a cabeça de João Batista.


João Batista é o último profeta do Antigo testamento. Ele enfrenta abertamente os governantes da nação para chamá-los à mudança e para exigir um comportamento ético. O deserto, lugar de sua pregação, é símbolo de sua oposição à cidade e ao templo. Ele quer reviver a experiência do êxodo e recordar seu povo que o destino depende completamente da fidelidade a Deus. No entanto, como qualquer profeta, João Batista pagou o preço alto de sua denúncia: a própria vida. Herodes, ainda que tivesse respeito pelo João Batista, se submeteu diante das pressões da adúltera Herodíades que pediu a cabeça de João Batista.


A morte de João Batista antecipa a morte de Jesus como mártir. Ambos são encarcerados injustamente, ambos rubricam com seu sangue a verdade de Deus. Jesus espera o mesmo destino de João Batista. Um profeta autêntico não é somente recusado em sua própria pátria (cf. Mt 13,57), mas também essa recusa termina, muitas vezes, com sua morte.


A denúncia de João Batista nos mostra que o Evangelho não é neutro. Diante de certos grandes problemas, o Evangelho toma posição com o risco de conduzir os crentes para o martírio pelo fato de defender a verdade, a justiça, a honestidade e assim por diante.


A figura de João Batista é admirável em sua coerência, na lucidez de sua pregação e de suas denúncias. João Batista é valente e comprometido. Diz a verdade ainda que desagrade.


É figura também de tantos cristãos que morreram vitimas da intolerância pelo testemunho que davam contra situações injustas e insuportáveis do ponto de vista da justiça e da honestidade. Os “profetas mudos” prosperam, mas os autênticos terminam pagando tudo com a própria vida.


Toda vez que celebramos o martírio de um discípulo de Cristo tocamos o próprio núcleo de nossa fé. A Igreja de Cristo é a Igreja dos mártires. Mas o que acontece é que estamos tão acostumados com o comodismo. Muitas vezes nos sentimos instalados comodamente no acampamento capitalista ou nas avenidas do hedonismo. Ninguém vai nos perseguir se não vivermos nosso martírio, nosso verdadeiro testemunho dos valores ensinados por Jesus Cristo. A vida iluminada pela verdade ameaça quem está na sombra da desonestidade e da falsidade, e este reage violentamente diante da verdade em nome da defesa dos seus interesses e prazeres. Toda vez que os cristãos se arriscarem para adentrar-se nos territórios obscuros, eles vão pagar o preço com sua própria vida, como João Batista. Toda vez que a Igreja abrir a boca contra a injustiça, a desonestidade, a corrupção, a exploração do ser humano, ela será perseguida. Mas dar a vida é a única maneira de dar vida. Ser verdadeira Igreja de Cristo não dá para parar de sofrer enquanto ela viver seu verdadeiro martírio, seu profundo testemunho de valores. A verdadeira Igreja de Cristo é a Igreja dos mártires, das testemunhas de Cristo.


Jesus nos diz que devemos ser luz, sal e fermento deste mundo. Ou seja, profetas. Ser cristão é estar disposto a tudo. Profetas são os que interpretam e vivem as realidades deste mundo a partir da perspectiva de Deus e denunciam quando há injustiça ou desonestidade nelas.


Geralmente não gostamos de escutar as críticas que nos recordam o lado escuro de nossa vida. Sempre temos dificuldade para escutar um profeta. Mas mesmo que não gostamos de ouvir o profeta, suas palavras continuam a conter a verdade. Mesmo que eliminemos o profeta, mas suas palavras continuam a ressoar ou a incomodar nossa consciência, como aconteceu com Herodes. Viver na verdade ou de acordo com a verdade, com a justiça, com a desonestidade, etc. é viver na serenidade.
 
P. Vitus Gustama,svd

terça-feira, 30 de julho de 2019

02/08/2019
Resultado de imagem para festas judaicasResultado de imagem para festas judaicasResultado de imagem para De onde lhe vem essa sabedoria e esses milagres? 55 Não é ele o filho do carpinteiro? Sua mãe não se chama Maria, e seus irmãos não são Tiago, José, Simão e Judas?
É PRECISO FICARMOS ATENTOS, POIS DEUS SE MANIFESTA NO COTIDIANO PARA A NOSSA ALEGRIA
Sexta-Feira da XVII Semana Comum


Primeira Leitura: Lv 23,1.4-11.15-16.27.34b-37
1 O Senhor falou a Moisés, dizendo: 4 “São estas as solenidades do Senhor em que convocareis santas assembleias no devido tempo: 5 No dia catorze do primeiro mês, ao entardecer, é a Páscoa do Senhor. 6 No dia quinze do mesmo mês é a festa dos Ázimos, em honra do Senhor. Durante sete dias comereis pães ázimos. 7 No primeiro dia tereis uma santa assembleia, não fareis nenhum trabalho servil; 8 oferecereis ao Senhor sacrifícios pelo fogo durante sete dias. No sétimo dia haverá uma santa assembleia e não fareis também nenhum trabalho servil”. 9 O Senhor falou a Moisés, dizendo: 10 “Fala aos filhos de Israel e dize-lhes: Quando tiverdes entrado na terra que vos darei, e tiverdes feito a colheita, levareis ao sacerdote um feixe de espigas como primeiros frutos da vossa colheita. 11 O sacerdote elevará este feixe de espigas diante do Senhor, para que ele vos seja favorável: e fará isto no dia seguinte ao sábado. 15 A partir do dia seguinte ao sábado, desde o dia em que tiverdes trazido o feixe de espigas para ser apresentado, contareis sete semanas completas. 16 Contareis cinquenta dias até ao dia seguinte ao sétimo sábado, e apresentareis ao Senhor uma nova oferta. 27 O décimo dia do sétimo mês é o dia da Expiação. Nele tereis uma santa assembleia, jejuareis e oferecereis ao Senhor um sacrifício pelo fogo. 34b No dia quinze deste sétimo mês, começa a festa das Tendas, que dura sete dias, em honra do Senhor. 35 No primeiro dia haverá uma santa assembleia e não fareis nenhum trabalho servil. 36 Durante sete dias oferecereis ao Senhor sacrifícios pelo fogo. No oitavo dia tereis uma santa assembleia, e oferecereis ao Senhor um sacrifício pelo fogo. É dia de reunião festiva: não fareis nenhum trabalho servil. 37Estas são as solenidades do Senhor, nas quais convocareis santas assembleias para oferecer ao Senhor sacrifícios pelo fogo, holocaustos e oblações, vítimas e libações, cada qual no dia prescrito.


Evangelho: Mt 13, 54-58
Naquele tempo, 54 dirigindo-se para a sua terra, Jesus ensinava na sinagoga, de modo que ficavam admirados. E diziam: “De onde lhe vem essa sabedoria e esses milagres? 55 Não é ele o filho do carpinteiro? Sua mãe não se chama Maria, e seus irmãos não são Tiago, José, Simão e Judas? 56 E suas irmãs não moram conosco? Então, de onde lhe vem tudo isso?” 57 E ficaram escandalizados por causa dele. Jesus, porém, disse: “Um profeta só não é estimado em sua própria pátria e em sua família!” 58 E Jesus não fez ali muitos milagres, porque eles não tinham fé.
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Festas Litúrgicas e Seu Sentido Para Nossa Existência Humana


Hoje e amanhã a Primeira Leitura é tirada do livro de Levítico que faz parte do Pentateuco (cinco primeiros livros da Bíblia) ou da Torá. Depois, seguiremos com o livro dos Números, o Deuteronômio, Josué, os Juízes e Rute.


Nas Bíblias hebraicas este livro se chama “Wayyiqra’”, (“E Ele chamou”), palavra que figura o começo do livro. Como outros livros do Pentateuco são chamados de acordo com a primeira palavra no início do livro.


Os cristãos adotaram uma forma latinizada da palavra grega “Leveitikon” (Leviticus) que é o título dado pela Septuaginta (LXX). O título hebraico alude a uma vocação-chamado na instrução da Torá. Este livro é chamado “Levítico” porque a grande parte do livro trata do culto que era tarefa dos sacerdotes e da santidade dos próprios sacerdotes que eram considerados descendentes de Levi, um dos filhos de Jacó. Consequentemente, o que se exige também é a santidade do povo em geral para poder participar do culto. Por isso, o Levítico contém muitas prescrições relativas ao culto e à santidade da vida do povo de Israel: os sacrifícios (Lv 1-7); os sacerdotes (Lv 8-10); as regras da pureza (Lv 11-16); as normas de santidade (Lv 17-26; dentro dessas normas, encontram-se as festas do ano e do ano jubilar em Lv 23-25 onde se encontra a Primeira Leitura de hoje).


Etimologicamente, a palavra “CULTO” se deriva do latim “cultum” cujo verbo é “colere”, verbo que é rico em significados: “cultivar”, “cuidar”, “servir”, etc. Por culto se entende, pois, o serviço prestado pelo homem a forças superiores ou à divindade em que crê. Segundo a ciência da Religião, culto significa o exercício ou forma com que o homem ou uma comunidade expressa interno ou externamente suas relações com forças superiores, divindade ou Deus. A religião adquire sua forma concreta no culto que tende a expressar-se num conjunto de normas fixas ou ritos. O culto e seus ritos tendem à santificação do homem e da comunidade. A prática do culto externo exige lugares sagrados, como templos, e determinados tempos relevantes, como festas, peregrinações, etc. Para tomar parte no culto validamente são necessários um ato de iniciação e a observância de determinadas normas de pureza de culto. É uma forma de santificar-se para poder se aproximar da divindade.


SANTIDADE, por sua vez, também se entende, no contexto do livro de Levítico, como integridade, e não apenas o mistério de Deus. A palavra “integridade” supõe a existência das partes ou componentes. Quando as partes ou os componentes estiverem bem ordenados o resultado será a santidade. A integridade e a unicidade resultam na santidade. A santidade é a resposta do homem a Deus que é santo, por excelência: “Sede santos, pois eu sou santo, eu, o Senhor, vosso Deus” (Lv 11,44-45; 19,2; 20,7.26).


No texto de hoje nos são apresentadas (na versão Sacerdotal) as principais festas de Israel nas quais são unidos os elementos mais antigos do mundo rural e a recordação das intervenções de Deus na história da salvação:


1. PÁSCOA, no primeiro mês do ano, o mês de Nisan, na qual se juntam as antigas festas agrícolas dos ázimos e dos cordeiros com a recordação da libertação da Escravidão do Egito.


2. PENTECOSTES, aos cinquenta dias, quando, junto à festa das feixes e dos primeiros frutos da colheita, se celebra a Aliança selada no Sinai.


3. A FESTA DA EXPIAÇÃO (Yom-Kippur), no sétimo mês, já no outono, com ritos de penitencia e oferenda de sacrifícios.


4. A FESTA DAS TENDAS ou TABERNÁCULOS, também no sétimo mês, por ocasião da colheita quando se recorda a marcha pelo deserto, construindo para uns dias umas cabanas no campo.


Em cada uma destas festas é convocada uma assembleia litúrgica, oferecendo sacrifícios a Javé e ao mesmo tempo se abstém do trabalho.


O Salmo Responsorial (Sl 80) ressalta, sobretudo, a parte litúrgica: “Cantai salmos, tocai tamborim, harpa e lira suaves tocai! Em teu meio não exista um deus estranho nem adores a um deus desconhecido! Porque eu sou o teu Deus e teu Senhor, que da terra do Egito te arranquei”.


Em todas as culturas e religiões, a festa é um elemento valioso na dinâmica da vida da fé comunitária. Também nós cristãos damos importância à celebração de nossas festas, algumas das quais são herança das festas de Israel, mas com conteúdo cristão. Celebramos o domingo cada semana, que uma vez ao ano se converte na Páscoa do Senhor, com sua morte e ressurreição, preparada pela Quaresma e prolongada durante cinquenta dias festivos que termina com Pentecostes. Ao longo do ano celebramos outras festas do Senhor, da Virgem Maria e dos Santos.


Qual é a função destas festas para nós cristãos? As festas litúrgicas nos ajudam no nosso caminho de fé:


1. Para despertar nossa memória de povo redimido por Deus em Jesus Cristo.


2. Para alimentar nossa identidade e nosso sentido de pertença à Igreja do Senhor.


3. Para dar à nossa existência uma dimensão de alegria rompendo a rotina da vida cotidiana.


4. Para nos ajudar a nos libertar da escravidão do tempo e do trabalho.


5. Para atualizar e fazer presente o acontecimento que celebramos: o Deus, em outro tempo, se mostrou Salvador, continua oferecendo a salvação para todos nós, seu povo. A Páscoa de Jesus não terminou. Ela é comunicada também a nós hoje, em sua celebração anual e na Eucaristia diária.


6. A festa é memória e presença e, ao mesmo tempo, anúncio do futuro, porque Cristo nos prometeu que estará conosco todos os dias até o fim dos tempos (Mt 28,20).


7. Também em nossas celebrações humanas: aniversário, bodas de prata e ouro, celebrar um festa é celebrar o passado, o presente e o futuro, o que dá a nosso caminho pela vida um sentido e uma força especiais.


Nossa festa é uma Pessoa: Jesus, o Senhor Ressuscitado. Em torno d’Ele nos reunimos para celebrar a Eucaristia diária, o domingo semanal e as festas anuais. Com isso vamos participando da vida do Senhor e encontramos o sentido de nosso caminho até a festa eterna do céu, o banquete do céu. A alegria cristã tem sua fonte na contínua presença de Cristo (cf. Mt 28,20). Para São Paulo, nenhum obstáculo ou dificuldade é capaz de impedir a verdadeira alegria, pois ela é um dos frutos do Espírito Santo (cf. Gl 5,22).


Deus Está No Nosso Cotidiano: Prestemos bem a Atenção Sobre Esta Presença Misteriosa


“‘Não é ele o filho do carpinteiro? Sua mãe não se chama Maria... Então, de onde lhe vem tudo isso?’. E ficaram escandalizados por causa dele”.


Os conterrâneos de Jesus, os nazarenos, acham conhecer Jesus, mas na verdade eles não O conhecem na sua profundidade. Não há nada que seja tão perigoso do que a pretensão de saber de tudo. Uma pessoa que tem essa pretensão se fecha em si mesma e deixa de aprender. A humildade sempre nos move a aprender mais para poder partilhar com os demais. “Você sabe? Então, ensine. Você não sabe, então, aprenda”, dizia Confúcio que viver quinhentos anos antes de Cristo. Para ter resultados extraordinários precisamos ter humildade para aprender. A falta da humildade impede alguém de aprender mais e de continuar a crescer e impede alguém de ser irmão do outro. A pessoa que se fecha em si se torna conservadora. Todo conservador não tem futuro, pois não aceita qualquer novidade. Ela acha que não tenha mais nada para aprender. Certamente essas pessoas são os familiares de Jesus; são os mais próximos de Jesus.


Tenho medo de que essas pessoas sejamos nós também. Nós que achamos seguidores de Jesus, frequentadores de cultos ou celebrações, mas não queremos andar ou caminhar atrás de Jesus para segui-Lo. A palavra “seguir” supõe movimento, dinâmica, peregrinação. O verdadeiro seguidor é aquele que sempre olha para aquilo que seu Mestre faz, e escuta aquilo que o Mestre diz e ensina. O verdadeiro seguidor é aquele que mantém a mente e coração abertos, disponíveis, e prestes a renunciar tudo para aprender além do que já sabe ou supostamente sabe. Só seguindo atrás de Jesus é que poderemos ver muito mais coisas na vida e entenderemos o significado de cada coisa e acontecimento. Quem vive dentro de quatro paredes vê sempre as mesmas coisas e por isso, não há surpresa nem novidade. Ao sair do quatro para ir à rua, começam as surpresas para sua vida.


Não é ele o filho do carpinteiro?”.


Os nazarenos reprovam a origem humilde de Jesus. Para eles, Jesus é nada mais do que um simples filho de um carpinteiro. Por ser filho de um carpinteiro, as palavras de Jesus não valem para eles embora nelas se encontrem toda a verdade. É preciso sabermos distinguir quem fala e o que se fala. Se na fala de alguém, mesmo que não gostemos dele, contém verdade, temos que reconhecer e aceitar essa verdade. Jesus nos deu o seguinte critério: “Observai e fazei tudo o que eles dizem, mas não façais como eles, pois dizem e não fazem” (Mt 23,3). Não podemos estar do lado de ninguém e sim do lado da verdade e do amor. Podemos estar do lado de qualquer um, mas temos que mostrar a verdade e o amor. Os nazarenos esperam um Messias cheio de glória e poder; um messias misterioso, celestial e transcendente. Mas Deus não encaixa em nossas ideias estereotipadas. Deus cabe no nosso coração, mas não cabe na nossa cabeça, pois o coração sente aquilo que os olhos não veem. O coração compreende quando a mente se tranquiliza. Além disso, é preciso que ouçamos aquilo que alguém diz e não para aquele que o diz.


Os nazarenos preferem a imagem de Deus que eles têm na cabeça ao próprio Deus. Para eles, Jesus é cotidiano demais para ser Deus. Este é o maior perigo para qualquer adepto de qualquer religião ou Igreja: identificar a imagem que tem de Deus com o próprio Deus. Por isso, vale a pena cada um fazer esta pergunta: “A imagem de Deus que você tem será que é o próprio Deus?”. Muitas vezes abandonamos o próprio Deus para ficar com a imagem que achamos que seja Deus. Muitas vezes condenamos os outros a partir da imagem de Deus que temos. Quem sabe que os que se acham crédulos são muito mais incrédulos como os próprios conterrâneos de Jesus.


 “Um profeta só não é estimado em sua própria pátria e em sua família!”.  E Jesus não fez ali muitos milagres, porque eles não tinham fé.


As pessoas da cidade de Jesus (vilarejo de Nazaré), do lugar de seu trabalho não se dispõem de tempo para meditar se ali há um Profeta ou mais que um Profeta. Basta-lhes a vida rotineira. Falta-lhes a fome da verdade. Falta-lhes o discernimento. Falta-lhes a reflexão sobre a realidade. Deus se manifesta no nosso cotidiano sem espetáculo, como o vento que ao vemos, mas sentimos o efeito de sua presença ou de sua passagem. E a novidade do Reino trazida por Jesus suscita neles apenas dúvidas, suspeitas e gozação. É o grande desafio da própria encarnação. É o grande mistério da fé. A fé somente floresce em campos fecundos que se deixam regar com chuva do céu. Os mistérios de Deus somente são compreendidos com coração, pois o coração sente aquilo que a inteligência desconhece.


Ao longo da história tem tido muitas pessoas inspiradas por Deus para denunciar situações injustas e más condutas. Algumas são conhecidas. Mas há muitíssimos profetas anônimos, gente que se atreve a denunciar o que é injusto e desonesto. Muitos desses profetas pagam com a própria vida pela denúncia feita, pois os que defendem os próprios interesses, e não os interesses comuns não têm piedade de eliminar quem os denuncia.


Uma das funções como batizados é a função profética: anunciar o bem e denunciar o mal. Um batizado não pode ficar em silêncio diante da desonestidade e da injustiça. O silêncio nos faz cúmplices. Somos chamados a ser profetas na nossa atualidade.


Não somente somos chamados a denunciar, mas também a ouvir os que denunciam. Quem sabe que dentro dessa denúncia estamos nós também, pois muitas vezes nos sentimos tão cômodos em nossa vidinha tão perfeitamente organizada, em nossas próprias ideias tão formadas e preestabelecidas, em nossa maneira inflexível de entender as coisas, em nossa imagem estática de Deus que nos fazem surdos diante do apelo do Espírito de Deus para fazer e seguir o bem. Se há verdade na denúncia, temos que agradecer a Deus, pois é um chamado para voltarmos a trilhar o caminho do bem. Fé é caminhada. Quando ficamos incomodados, paramos de ter fé. É mais cômodo crer em um Deus todo-poderoso que controla tudo o que ocorre do que em um Deus que sofre com seus filhos, que é crucificado para salvar os outros filhos de Deus, e em um Deus que nos criou para que resolvamos as injustiças do mundo. No ritmo da velocidade do avanço tecnológico precisamos estar atentos para ver e ouvir o que Deus quer nisto tudo. Não tapemos nossos ouvidos nem fechemos nossos olhos nem paralisemos nossa mente. Precisamos tempo todo estar atentos ao que ocorre para que possamos nos posicionar como filhos e filhas de Deus, luz do mundo e sal da terra. Precisamos ter muita flexibilidade e disponibilidade para acolher aquilo que Deus nos quer dizer, inclusive através de quem menos esperamos, pois o Espírito de Deus sopra para onde quer e por quem quer.


Pare e verifique, Deus se manifesta na nossa vida cotidiana. Pergunte-se: “De que maneira Deus se manifesta a mim hoje? O que Ele quer me manifestar? Para que Ele se manifesta?”. Estejamos todos atentos. Em cada momento Deus se manifesta a nós.
P. Vitus Gustama,svd

segunda-feira, 29 de julho de 2019

01/08/2019
Imagem relacionadaResultado de imagem para O Reino dos Céus é ainda como uma rede lançada ao mar e que apanha peixes de todo tipo.
ESFORÇAR-SE PARA SER SELECIONADO POR DEUS NO FIM DA CAMINHADA DE NOSSA VIDA AQUI NESTE MUNDO
Quinta-Feira da XVII Semana Comum


Primeira Leitura: Ex 40,16-21.34-38
Naqueles dias, 16 Moisés fez tudo o que o Senhor lhe havia ordenado. 17 No primeiro mês do segundo ano, no primeiro dia do mês, o santuário foi levantado. 18 Moisés levantou o santuário, colocou as bases e as tábuas, assentou as vigas e ergueu as colunas. 19 Estendeu a tenda sobre o santuário, pondo em cima a cobertura da tenda, como o Senhor lhe havia mandado. 20 Depois, tomando o documento da aliança, depositou-o dentro da arca e colocou sobre ela o propiciatório. 21 E, introduzindo a arca no santuário, pendurou diante dela o véu de proteção, como o Senhor tinha prescrito a Moisés. 34 Então a nuvem cobriu a Tenda da Reunião e a glória do Senhor encheu o santuário. 35 Moisés não podia entrar na Tenda da Reunião, porque a nuvem permanecia sobre ela, e a glória do Senhor tomava todo o santuário. 36 Em todas as etapas da viagem, sempre que a nuvem se elevava de cima do santuário, os filhos de Israel punham-se a caminho; 37 e nunca partiam antes que a nuvem se levantasse. 38 Pois, de dia, a nuvem do Senhor repousava sobre o santuário, e de noite aparecia sobre ela um fogo, que todos os filhos de Israel viam, em todas as suas etapas.
Evangelho: Mt 13, 47-53
Naquele tempo, disse Jesus à multidão: 47 “O Reino dos Céus é ainda como uma rede lançada ao mar e que apanha peixes de todo tipo. 48 Quando está cheia, os pescadores puxam a rede para a praia, sentam-se e recolhem os peixes bons em cestos e jogam fora os que não prestam. 49 Assim acontecerá no fim dos tempos: os anjos virão para separar os homens maus dos que são justos, 50 e lançarão os maus na fornalha de fogo. E aí, haverá choro e ranger de dentes. 51 Compreendestes tudo isso?” Eles responderam: “Sim”. 52 Então Jesus acrescentou: “Assim, pois, todo mestre da Lei, que se torna discípulo do Reino dos Céus, é como um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas”. 53 Quando Jesus terminou de contar essas parábolas, partiu dali.
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Deus Caminho Conosco Para a Terra De Liberdade


Em todas as etapas da viagem, sempre que a nuvem se elevava de cima do santuário, os filhos de Israel punham-se a caminho; e nunca partiam antes que a nuvem se levantasse. Pois, de dia, a nuvem do Senhor repousava sobre o santuário, e de noite aparecia sobre ela um fogo, que todos os filhos de Israel viam, em todas as suas etapas”.


Estamos no último capítulo do livro de Êxodo. Começamos o livro de Êxodo com a imagem da opressão pelas mãos de Faraó, símbolo dos poderosos mundanos. Agora terminamos o livro com a visão de um povo livre, que marcha, e é protegido e guiado por Javé (Deus) até a terra prometida. Quando caminharmos com Deus e contar com Ele, nossa vida sempre termina na libertação e na liberdade.


“Livre” é o conceito contraposto a “escravo”. A liberdade se opõe à escravidão. O homem livre se contrapõe ao escravo. Deus é Libertador do homem. Deus liberta seu povo da escravidão do Egito (Ex 9,5). Esta libertação do povo coincide com sua constituição como povo de Deus e como povo independente. Todos os demais atos libertadores de Deus narrados na Bíblia não são mais que atos continuadores deste grande ato libertador. Os profetas, mais tarde, se convertem nos grandes proclamadores da liberdade e em grandes defensores dos direitos dos pobres, dos débeis, dos explorados. Jesus Cristo aparece como o grande Libertador de todos os homens (Lc 4,19.21; Jo 8,31-39). A atuação do Espirito Santo leva consigo a liberdade (Rm 8,2; 2Cor 3,17; Gl 5,1). Porque somos filhos de Deus, então somos homens livres (Rm 8,21). Se assim é, então temos que lutar para que nada nem ninguém nos escravize. “É para que sejamos homens livres que Cristo nos libertou” (Gl 5,1).


A Primeira leitura nos diz que o povo de Israel cumpriu a ordem de Javé. O autor sacerdotal desta narração tem muito presente o Templo de Salomão. Moisés edificou o tabernáculo/santuário do deserto e o santificou depositando nele os objetos sagrados da comunidade: a arca com o testemunho da aliança, os pães sagrados, o candelabro, o altar dos perfumes. É a ordem habitual nos templos semitas.


O santuário era o sinal da presença de Javé no meio de seu povo. Por isso, Moisés, o mediador, não terá necessidade de entrar nele. Javé está ali como um a mais que habita e marcha com o povo e compartilha sua luta e sua vida.


Apesar desse cumprimento histórico, nosso relato não deixa de ser uma imagem da plena realização da presença de Deus em Jesus Cristo, a própria Palavra de Deus que se fez homem e plantou sua tenda entre nós e nos permitiu vermos sua glória.


Além disso, no texto da Primeira Leitura fala-se da tenda. Tenda é um abrigo frágil e transportável, que se desmonta para cada partida e se remonta para cada nova etapa, na nova parada. Nesta desmontagem e remontagem Deus sempre faz presente: “Em todas as etapas da viagem, sempre que a nuvem se elevava de cima do santuário, os filhos de Israel punham-se a caminho; e nunca partiam antes que a nuvem se levantasse”. Estas frases querem nos dizer que o Deus de Israel é um Deus que “faz caminho” com seu povo. Ele é invisível, mas está presente. E Ele aceita que os homens materializem um lugar, como santuário, que simbolize Sua Presença. Deus não abandona seu povo por seu infinito amor. Na nossa caminhada diária sempre está presente misteriosamente Deus que nos acompanha. Jamais estamos sozinhos. Estamos bem acompanhados (Cf. Mt 28,20). É sempre bom termos consciência disso. O reconhecimento da presença misteriosa de Deus na nossa caminhada diária nos potencia para encararmos qualquer dificuldade para alcançar nossa liberdade de filhos de Deus. A fé na presença permanente de Deus nos faz crermos no incrível e impossível e nos faz vermos o Invisível no nosso cotidiano e, consequentemente, nos faz realizarmos o impossível. O Corpo de Cristo é a verdadeira presença de Deus entre nós, em todas as etapas da vida, em todos os lugares da terra: “Tomai todos e comei, isto é o Meu Corpo. Tomai todos e bebei. Isto é o meu sangue!”.


O aspecto misterioso da presença de Deus se enfatiza com a presença de “nuvem” e de “fogo”. Deus não se vê. Vê-se somente uma “nuvem”. Deus é misterioso. Na transfiguração, Jesus e seus apóstolos foram também envoltos por uma nuvem luminosa, evocação da divindade. E “... de noite aparecia sobre ela um fogo”. Aqui o “fogo” também é símbolo de Deus. Sabemos que esse “fogo” veio ao coração dos homens: no dia de Pentecostes o fogo encheu a Igreja.


Em todas as etapas da viagem, sempre que a nuvem se elevava de cima do santuário, os filhos de Israel punham-se a caminho; e nunca partiam antes que a nuvem se levantasse”.


A Igreja de Cristo é um povo peregrino, em marcha. Neste caminho nós nos sentimos acompanhados por Deus. Ele nos enviou Seu Filho, o Deus-Conosco, que “plantou sua tenda entre nós” (Jo 1,14). Pensando na Igreja a que pertencemos, podemos fazer nosso o Salmo 83: “Felizes os que habitam em vossa casa; para sempre haverão de vos louvar! Felizes os que em vós têm sua força, caminharão com um ardor sempre crescente”. Somos povo nômada, mas caminha ao nosso lado o Deus da Aliança, o Deus de Jesus. É o próprio Jesus que é o Caminho, a Verdade e a Vida (Jo 14,6). Na Igreja-Comunidade, de modo particular, na Eucaristia, o sacramento mais entranhável da proximidade do Senhor Ressuscitado, no qual Ele próprio se dá a nós como alimento para o caminho (viático). Não somente durante a celebração eucarística, mas ao longa da jornada, com sua presença eucarística prolongada no sacrário de nossas igrejas e capelas.


Mas será que sentimos a presença misteriosa de Deus, mas real na nossa vida diária? Será que captamos os apelos de Deus diariamente?


Esforçar-se Para Ser Contado Entre Os Escolhidos


No fim dos tempos os anjos virão para separar os homens maus dos que são justos, e lançarão os maus na fornalha de fogo”.


Estamos ainda no discurso de Jesus sobre o Reino de Deus em parábolas (Mt 13). Desta vez Jesus conta uma parábola sobre a rede na pescaria em que no fim haverá a seleção entre os peixes bons e os peixes que não prestam: “Quando está cheia, os pescadores puxam a rede para a praia, sentam-se e recolhem os peixes bons em cestos e jogam fora os que não prestam”.


Na vida cotidiana sempre selecionamos e escolhemos o que é bom ou o que é melhor.  Selecionamos boas amizades. Selecionamos algo de bom ou de melhor para comprar, para comer, para morar, selecionamos roupa melhor, e assim por diante. Vivemos selecionando o que é bom ou o que é melhor. O bom ou o melhor é sempre o objeto do apetite ou do desejo do homem, qualquer que seja esse objeto. O ruim é, ao contrário, o objeto de ódio ou de aversão do homem. Mas nem tudo o que desejamos é bom, mas tudo o que é bom sempre desejamos. A bondade atrai, pois ela agrada e edifica. A bondade é a própria perfeição possuída por um ser. Por possuir a bondade, um ser que a tem é capaz de dar a outro a perfeição que lhe falta.


Quando Jesus compara o Reino de Deus a uma rede que é lançada sobre todos, mas que só os peixes bons são selecionados, ele está dizendo que se trata de uma coisa seletiva, em que a bondade é que tem valor e permanece para sempre. A bondade é sinal de amabilidade. Quem ama porque é bom. Quem é bom, ama.  A bondade é algo que em si tem algo divino, pois Deus é a Bondade por excelência. Por isso, a bondade tem uma marca de eternidade.


Os maus, ao contrário, vão fazer parte de outro reino, onde as pessoas somente vão odiar-se, segundo Jesus. A expressão: “Chorar e ranger os dentes” mostra bem como é a pessoa que odeia: vive como que rangendo os dentes. Eternamente infeliz. A frustração definitiva do homem (pranto e ranger de dentes) é perder a vida para sempre. A grande frustração do homem é sua incapacidade de viver na bondade, no bem, na compaixão, na simplicidade, na solidariedade. A bondade atrai. A simplicidade atrai. A arrogância, a prepotência, o orgulho, o complexo de superioridade afasta as pessoas e mata a caridade e a igualdade, elimina a comunhão fraterna e afasta os demais. Qualquer arrogante, prepotente, orgulhoso, ambicioso vive na tremenda solidão. Viver é conviver. Através da convivência saudável é que podemos crescer como seres humanos. Até a própria vulnerabilidade da convivência nos ajuda a crescermos como pessoas saudáveis.


A parábola da rede lida neste dia se refere ao julgamento final. A imagem da pesca ilustra a dinâmica do Reino de Deus feita de perdas e ganhos. Uma vez a rede lançada ao mar, a pescaria já não depende da vontade do pescador. Cada lançada de rede é uma surpresa. A seleção será feita somente no final da pescaria, quando os peixes bons são colocados em cestas, enquanto os maus são jogados fora.


A parábola propõe a todos nós a sorte final, para orientar-nos na decisão presente. Quando soubermos para onde vamos, saberemos também escolher por onde devemos caminhar (saber escolher o caminho). Os únicos que chegam à vida em plenitude, pela misericórdia de Deus, são os que produzem fruto bom nesta vida; são os que em si tem a marca de eternidade como a bondade, o amor, a compaixão, a solidariedade e assim por diante. Tudo que tem algo divino em mim e na minha vivência será reconhecido por Deus (cf. Mt 25,31-46). A sabedoria cristã consiste no discernimento dos verdadeiros valores do Evangelho como amor, partilha, solidariedade, compaixão, perdão, honestidade, justiça, paz etc., e em sua aplicação para as circunstâncias atuais. Há que estabelecer uma escala de valores para que cada cristão possa orientar sua maneira de viver no presente. Os outros valores devem estar subordinados em função dos valores superiores do Reino de Deus.


Mas ao mesmo tempo, esta parábola quer nos recordar que somente Deus tem a competência na seleção entre os bons e os maus no fim de cada história. Cristão nenhum tem condições para classificar quem vai para o céu e quem não vai para lá, pois sua própria salvação ainda não está garantida, pois ele continua sendo pessoa capaz de pecar em qualquer momento. É preciso olharmos para cada ser humano como filho(a) de Deus e nosso irmão. Como dizia Santo Agostinho: “Amando ao próximo tu limpas os olhos para ver a Deus” (In Joan. 17,8). Quanto mais santo for o homem, mais se reconhecerá como pecador. A conversão não é uma carreira acabada. A conversão é diária, pois somos capazes de optar por outros valores em nome de algum interesse não-cristão. Deixemos Deus determinar a qualidade de cada um e não nos arroguemos pelas qualidades que temos, pois tudo de bom em nós tem sua origem no Supremo Bem que é Deus. Tudo de bom em nós deve ser partilhado para com os outros. Fazemos tudo de bom, porque Deus da bondade faz isso. “Faze o que deves fazer. E faze-o bem. Esta é a única norma para alcançar a perfeição”, dizia Santo Agostinho (In ps. 34,2,16). Somos prolongamento da generosidade do Deus-Criador que criou tudo para o bem da humanidade gratuitamente. Temos apenas o direito de usufruto. Esse direito cessará neste mundo cessará quando terminar nossa caminhada na história.


Deus tem paciência para esperar os frutos bons de cada um de nós. a história é o tempo para crescermos no bem e na bondade e para nos amadurecermos como filhos e filhas de Deus.  Primordialmente, somos bons porque tudo o que Deus criou era bom (cf. Gn 1,1ss). Deus aguarda a colheita, não diminuída por prematuras intervenções de escolha. Só então, no fim, haverá a colheita, com base na realidade de ser grão ou joio/cizânia, peixe bom ou mau, de ser caridoso ou egoísta. É uma advertência eficaz, embora tácita: Deus é paciente com todos e deixa aos pecadores, cada um de nós, tempo para amadurecer sua conversão; Deus sabe esperar a livre decisão do homem, cabe a cada um escolher ser bom grão e bom peixe e não peixe imprestável.


Portanto, é prudente premunir-se, pensar enquanto é tempo, decidir-se a fazer o bem, ser útil aos outros, ser peixe bom, ser selecionado por Deus no fim de nossa história, pois “No fim dos tempos os anjos virão para separar os homens maus dos que são justos, e lançarão os maus na fornalha de fogo”.
P. Vitus Gustama, SVD