quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Domingo,16/02/2020
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O CRISTÃO É AQUELE QUE SEMPRE FAZ UM PASSO ADIANTE NO BEM E NA BONDADE
VI DOMINGO DO TEMPO COMUM “A”

Primeira Leitura: Eclo 15,16-21
16 Se quiseres observar os mandamentos, eles te guardarão; se confias em Deus, tu também viverás. 17 Diante de ti, Ele colocou o fogo e a água; para o que quiseres, tu podes estender a mão. 18 Diante do homem estão a vida e a morte, o bem e o mal; ele receberá aquilo que preferir. 19 A sabedoria do Senhor é imensa, ele é forte e poderoso e tudo vê continuamente. 20 Os olhos do Senhor estão voltados para os que o temem. Ele conhece todas as obras do homem. 21 Não mandou a ninguém agir como ímpio e a ninguém deu licença de pecar.

Segunda Leitura: 1Cor 2,6-10
Irmãos: 6 Entre os perfeitos nós falamos de sabedoria, não da sabedoria deste mundo nem da sabedoria dos poderosos deste mundo, que, afinal, estão votados à destruição. 7 Falamos, sim, da misteriosa sabedoria de Deus, sabedoria escondida, que desde a eternidade Deus destinou para nossa glória. 8 Nenhum dos poderosos deste mundo conheceu essa sabedoria. Pois, se a tivessem conhecido, não teriam crucificado o Senhor da glória. 9 Mas, como está escrito, “o que Deus preparou para os que o amam é algo que os olhos jamais viram nem os ouvidos ouviram nem coração algum jamais presse ntiu”. 10 A nós Deus revelou esse mistério através do Espírito. Pois o Espírito esquadrinha tudo, mesmo as profundezas de Deus.

Evangelho: Mt 5,17-37
“Não penseis que vim abolir a Lei e os profetas. Não vim para abolir, mas para cumprir. Em verdade, eu vos digo: antes que o céu e a terra deixem de existir, nem uma só letra ou vírgula serão tiradas da Lei, sem que tudo aconteça. [...] Eu vos digo: Se vossa justiça não for maior que a dos escribas e dos fariseus, não entrareis no Reino dos Céus. Ouvistes que foi dito aos antigos: ‘Não cometerás homicídio! Quem cometer homicídio deverá responder no tribunal’. Ora, eu vos digo: todo aquele que tratar seu irmão com raiva deverá responder no tribunal; quem disser ao seu irmão ‘imbecil’ deverá responder perante o sinédrio; quem chamar seu irmão de ‘louco’ poderá ser condenado ao fogo do inferno. Portanto, quando estiveres levando a tua oferenda ao altar e ali te lembrares que teu irmão tem algo contra ti, deixa a tua oferenda diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão. Só então, vai apresentar a tua oferenda. Procura reconciliar-te com teu adversário, enquanto ele caminha contigo para o tribunal. Senão o adversário te entregará ao juiz, o juiz te entregará ao oficial de justiça, e tu serás jogado na prisão. Em verdade, te digo: dali não sairás, enquanto não pagares o último centavo. Ouvistes que foi dito: ‘Não cometerás adultério’. Ora, eu vos digo: todo aquele que olhar para uma mulher com o desejo de possuí-la, já cometeu adultério com ela em seu coração. Se teu olho direito te leva à queda, arranca-o e joga para longe de ti! De fato, é melhor perderes um de teus membros do que todo o corpo ser lançado ao inferno. Se a tua mão direita te leva à queda, corta-a e joga-a para longe de ti! De fato, é melhor perderes um de teus membros do que todo o corpo ir para o inferno. Foi dito também: ‘Quem despedir sua mulher dê-lhe um atestado de divórcio’. Ora, eu vos digo: todo aquele que despedir sua mulher – fora o caso de união ilícita – faz com que ela se torne adúltera; e quem se casa com a mulher que foi despedida comete adultério. Ouvistes também que foi dito aos antigos: ‘Não jurarás falso’, mas ‘cumprirás os teus juramentos feitos ao Senhor’. Ora, eu vos digo: não jureis de modo algum, nem pelo céu, porque é o trono de Deus; nem pela terra, porque é o apoio dos seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do Grande Rei. Também não jures pela tua cabeça, porque não podes tornar branco ou preto um só fio de cabelo. Seja o vosso sim, sim, e o vosso não, não. O que passa disso vem do Maligno.”
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Viver Conforme a Sabedoria Do Alto

Hoje, através do texto do Evangelho, Jesus nos dá uma autêntica lição do que é a fé cristã, porque nos dá uma autêntica lição de vida. Temos ouvido muitas vezes que a fé cristã, se não vale para a vida, não vale para nada. Isto é tão importante e de tanta transcendência que vale a pena ser lembrado e ser repetido. Temos que colocar a fé na vida e a vida na fé. É viver na fé e da fé. É colocar a oração na vida e a vida na oração. Vida e fé devem estar em sintonia total.

Jesus veio ao mundo para conseguir criar um homem novo, um homem que tivesse uma hierarquia de valores distinta à que existe entre os homens de todas as épocas e de todos os países, um homem cujas categorias mentais estivessem perfeitamente de acordo com a vontade de Deus que ama a todos sem exclusão.

O cristão, segundo Jesus, não somente aquele que cumpre a lei e sim aquele que supera a lei: “Se vossa justiça não for maior que a dos escribas e dos fariseus, não entrareis no Reino dos Céus”. Cumprir a lei já seria um triunfo, porque em muitas ocasiões o homem quebra ou obedece à lei estabelecida. Basta termos um olhar ao nosso redor para nos encontrar com um panorama de morte para o homem, provocada pelo próprio homem (assassinato), de extorsões, de torturas, de explorações, de corrupção, de desonestidade, de sofrimentos impressionantes provocados pelos próprios homens, de abortos, de assassinato de mulheres, de infidelidades matrimoniais, de tantas mentiras e falsidades, e assim por diante.

Hoje não é apenas a infidelidade nas relações homem-mulher, mas a propaganda constante que coloca a satisfação ou o prazer pessoal acima de qualquer outro sentimento e valor. O importante, já que se vive apenas uma vez, é gozar, possuir, comandar, ter sucesso, quanto mais, melhor.

Jesus vem dando um giro para esta atitude. O homem do Reino de Deus, o cristão, tem que ter  consciência muito clara de que é filho de Deus e que o homem com quem convive e trabalha com ele é o também, pois Deus é Pai de todos os homens e mulheres. Dentro disso, entendemos aquilo que fala a Primeira Leitura de hoje: “Se quiseres observar os mandamentos, eles te guardarão; se confias em Deus, tu também viverás. Os olhos do Senhor estão voltados para os que o temem ”. É viver de acordo com a sabedoria de Deus. E esta sabedoria é revelada a todos nós pela graça do Espirito Santo conforme a Segundo leitura de hoje: “A nós Deus revelou esse mistério através do Espírito. Pois o Espírito esquadrinha tudo, mesmo as profundezas de Deus”.

Com esta verdade revelada e vivida, o homem não somente não pode matar seu irmão e sim que não pode insultá-lo, desprezá-lo, maltratá-lo nem ignorá-lo. Para o cristão, o homem, qualquer homem, não pode ser nunca plataforma para seu proveito pessoal. Ao contrário, o cristão deve ser ocasião de salvação para o próximo.

Por isso, o cristão crê que é possível o amor, esse amor “até que a morte nos separe” e crê que o amor é fundamentalmente entrega e não satisfação própria, usando o outro como objeto. Quem vive somente em função do prazer é, porque, no fundo, não tem prazer de viver.

Não basta com não matar, há que respeitar a vida. E não se respeita a vida quando se consente e não se faz o suficiente para impedir que o próximo morra de fome. Como é possível que com tantos recursos técnicos, com tanto progresso, com tanta sobra de alimentos, com tantas colheitas e frutas que ficam sem recolhidos, há milhares de homens, mulheres e crianças na mais absoluta miséria. Se analisarmos profundamente tudo isso, percebemos que nosso progresso não é um progresso humano. Por isso, todos nós temos que ser melhores do que “os fariseus” que respeitam a lei, mas que amam menos o próximo.

Se o outro for apenas um concorrente, qualquer armadilha parecerá justificada. Se o outro for apenas um consumidor, qualquer abuso parecerá legal. Se o outro não for mais do que um cidadão, qualquer pretexto será válido para cobrar mais impostos. Se o outro for qualquer um, continuaremos marginalizando os pobres, os idosos, desprezando viciados em drogas, expulsando minorias étnicas do bairro, bloqueando o caminho e maltratando imigrantes. Mas acreditamos que o vizinho é meu irmão. “O irmão por quem Jesus morreu”, como diz São Paulo.

Esta maneira de crer, este modo de pensar e de viver é a sabedoria mais alta, a sabedoria que não é deste mundo, como nos diz são Paulo na Segundo Laitura: “Entre os perfeitos nós falamos de sabedoria, não da sabedoria deste mundo nem da sabedoria dos poderosos deste mundo, que, afinal, estão votados à destruição. Falamos, sim, da misteriosa sabedoria de Deus, sabedoria escondida, que desde a eternidade Deus destinou para nossa glória. Nenhum dos poderosos deste mundo conheceu essa sabedoria. Pois, se a tivessem conhecido, não teriam crucificado o Senhor da glória” (1Cor 2,6-8). Neste mundo, de modo geral, somente conta e se tem em conta o dinheiro, a categoria social, o passaporte ou a carteira identidade. Mas neste mundo e apesar do mundo, nós como  cristãos, somos chamados a compartilhar e difundir esta sabedoria divina, a sabedoria do Evangelho de Jesus Cristo, a sabedoria de que todos os homens e mulheres somos uma só família num só mundo que é nossa Casa Comum, conforme o Papa Francisco, cujo Pai comum é Deus que chamamos de “Pai Nosso”. Os demais são pretextos, excusas, aparências legais, porém imorais ou sem ética, isto é, legal mas não é ético.

Para os seus o Senhor quer uma fé para a vida. Uma fé que se reflete nas relações sociais fraternas, nas atitudes individuais e coletivas dos que se chamam cristãos, no respeito à sacralidade do matrimônio. Uma fé que se reflete no trabalho, no sentido da justiça, no compromisso com os necessitados e débeis, no respeito ao homem, na capacidade de diálogo e de compreensão, no enterramento da intolerância, do insulto, da agressividade, do dogmatismo fatal, na abertura ao amor fraterno, um amor cujo raiz está em Deus, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). Uma fé capaz de transformar o inimigo em irmão através do perdão mútuo e do diálogo fértil.  O cristão deve ser uma espécie de “fé pública”. Mas sem Deus nada podemos fazer (Jo 15,5). “Quem não conta com Deus é porque não sabe contar” (Pascal).

Viver Um Passo Adiante Com Cristo

Vamos estender um pouco mais nossa meditação sobre as antíteses encontradas no texto do Evangelho deste domingo.

Jesus Cristo se encontra no Sermão da Montanha (Mt 5-7). No Sermão da Montanha percebemos que Jesus Cristo representa uma continuidade: “Não penseis que vim abolir a lei e os profetas, mas para dar-lhes cumprimento”. Esta expressão surgiu como resposta para a questão na comunidade de Mateus nos anos oitenta: Será que somos obrigados a cumprir a Lei de Moises, sendo seguidores de Cristo?  Se Cristo tem a autoridade maior do que a de Moisés, porque Jesus não aboliu, então, a Lei de Moisés? Onde consiste a novidade dos ensinamentos de Jesus? O evangelista Mateus quer dizer à sua comunidade que a missão de Jesus tem como objetivo não abolir o que já foi revelado e sim promulgar definitivamente a vontade de Deus.

Mas, ao mesmo tempo, Jesus Cristo representa uma ruptura com a Lei de Moisés. Por isso, nas antíteses que serão apresentadas encontraremos a seguinte expressão: “Vocês ouviram... Eu, porém, lhes digo”. Nisto a autoridade de Jesus é maior do que a de Moisés. Moisés recebeu a Lei de Deus, mas Jesus promulga a Lei.

Por esta razão Jesus exige: “Eu vos digo: se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da lei e dos fariseus, vós não entrareis no reino dos céus”. O Reino que Jesus anuncia supõe a prática da justiça. A nova justiça anunciada por Jesus não será medida em termos “quantitativos” como observância externa de uns preceitos, mas será medida em virtude da adesão do coração às exigências do Reino. Mas não se trata de uma justiça legal nem formal. Trata-se de uma justiça profunda e de razão profunda. Sempre é mais fácil seguir uma norma a comprometer-se por amor ou a trabalhar por amor. Uma pessoa comete a maior injustiça quando não ama. As outras injustiças são conseqüência da falta de amor. Por isso, a justiça não é questão de números e quantidades, mas de amor. Para este amor que o Senhor quer nos levar. Somente o amor pode criar família, unidade, comunidade, fraternidade. Somente o amor fraterno pode nos levar até o Céu ou elevar até o Céu.

O inimigo do bom é o melhor. Na Igreja de Cristo não basta ser bom. É preciso ser melhor: “Se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da lei e dos fariseus, vós não entrareis no reino dos céus”. O cristão é aquele sempre faz uma passagem do bom para o melhor diariamente. Cada dia o cristão deve ser melhor do que seu estado anterior.

O que é ser melhor concretamente no contexto do Sermão da Montanha? As antíteses vão nos mostrar do que se trata.

Jesus enumera seis exemplos dessa nova justiça e os apresenta de maneira antitética (Antíteses). Neste dia lemos as quatro primeiras antíteses (Mt 5,21-37).

Na primeira antítese Jesus nos convida a darmos um passo adiante na fraternidade: “Vós ouvistes o que foi dito aos antigos: ‘Não matarás! Quem matar será condenado pelo tribunal’. Eu, porém, vos digo: todo aquele que se encoleriza com seu irmão será réu em juízo; quem disser ao seu irmão: ‘patife!’ será condenado pelo tribunal; quem chamar o irmão de ‘tolo’ será condenado ao fogo do inferno” .

Nesta primeira antítese Jesus nos afirma que não basta não matar o irmão fisicamente, importa respeitá-lo, ter consideração para com ele, respeitar sua dignidade e sua honra, não se acha superior a ele. Não só matar alguém fisicamente, pode-se matar com palavras, com um julgamento severo, com uma atitude de desprezo, com difamação, com comentários maldosos, com discriminação, e assim por diante. Pode-se matar o irmão deixando-o de lado, fazendo extinguir-se seu entusiasmo e seus bons projetos, não lhe permitindo expressar-se livremente. Não se pode honrar a Deus se o irmão é desonrado, pois Deus não só está no céu, mas também está em cada irmão que encontramos, especialmente nos pobres, nos pequenos, nos humildes desprezados, naqueles que nós, às vezes, chamamos de cretinos (cf. Mt 25,40.45). Para Jesus é impossível o culto autêntico a Deus sem amor ao próximo, pois o próximo é a passagem obrigatória para chegar até Deus. Em outras palavras, o culto e a religião devem refletir a vida, e vice-versa.

Por isso, Jesus enfatiza a importância da reconciliação fraterna para estar bem com Deus. A oferenda que levamos ante o altar carecerá de valor, se esquecermos o irmão, se não nos reconciliarmos com o próximo. Não se trata de escrúpulos pessoais, o assunto é objetivo: se um “irmão seu tem alguma coisa contra você” (v.23). Essa é referência, o outro/o irmão. A reconciliação com o irmão implica respeitar os seus direitos e abrir-lhe o nosso coração através de gestos concretos. Mas tampouco devemos ficar nisso; é necessário voltarmos para apresentar a oferenda (v.24). O círculo se fecha. Oração e compromisso são inseparáveis. A Eucaristia exige a criação da fraternidade humana.

Na segunda e terceira antítese Jesus fala do amor conjugal:Ouvistes que foi dito aos antigos: Não cometerás adultério. Eu, porém, vos digo: todo aquele que lançar um olhar de cobiça para uma mulher, já adulterou com ela em seu coração”.

Nesta antítese Jesus volta a insistir na limpeza de coração (em seu interior = em seu coração). O adultério é injustiça contra a família, contra o matrimonio. E o desejo de cometê-lo também é injustiça. Enquanto seus contemporâneos preocupam-se com o ato exterior de adultério, Jesus preocupa-se com o ato interior, onde tem início o desrespeito ao mandamento divino. Por isso, é preciso eliminar o mau desejo com a pureza de coração (uma das bem-aventuranças: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão Deus” –Mt 5,8). O cristão é exortado a olhar para a mulher do próximo (ou o homem do próximo) com pureza de coração, sem se deixar envolver pelo desejo de possuí-la (lo). Só o coração não pervertido pela maldade pode olhar uma mulher (um homem) de maneira respeitosa, sem convertê-la (lo) em objeto de pensamentos maliciosos.

Com estas palavras Jesus convida o cristão a dar um passo adiante no amor. O amor do homem e da mulher não é desejo e busca egoísta da própria satisfação. O amor é querer o bem do amado, é encontro livre e libertador. A atração física sem amor é sinal de alienação e imaturidade profunda, é a negação da liberdade e da dignidade da pessoa, é tentativa de destruir o outro para fazer dele coisa, objeto de desejo ou de ambição.

Um amor verdadeiro, com raiz na totalidade da pessoa, se insere na corrente única de amor que é Deus, Amor que dá/entrega o Filho: dom total. A família deve viver estas características de amor, que a marcam profundamente e solidificam a unidade. Dom total. Total até dar-se, sacrificar-se completamente.

Na quarta antítese Jesus fala da necessidade da sinceridade na convivência. A palavra “sinceridade” provém do latim sincérus que significa 'puro, sem mistura; leal, franco, verdadeiro'. Ser sincero significa fazer ou falar sem artifício nem intenção de enganar ou de disfarçar o seu pensamento ou sentimento; é aquilo é dito ou feito de modo franco, isento de dissimulação. Uma pessoa sincera é uma pessoa em quem se pode confiar, pois ela é verdadeira, leal e pura de coração, que demonstra afeto e cordialidade para com os demais.

No reino de Deus, na Igreja de Cristo a sinceridade é regra: “Ouvistes o que foi dito aos antigos: Não jurarás falso, mas cumprirás para com o Senhor os teus juramentos. Eu, porém, vos digo: não jureis de modo algum, nem pelo céu, porque é o trono de Deus. Seja o vosso Sim, sim e o vosso não, não. Tudo o que for além disso vem do Maligno.       

O juramento se praticava na sociedade pela falta de sinceridade entre os homens. No Reino de Deus, onde a sinceridade é regra, o juramento é supérfluo; além disso, seria sinal de corrupção das relações humanas. A falta de sinceridade nasce da ambição e de um interesse pessoal. Para Jesus, a mentira e o dolo são incompatíveis com o proceder do cristão. Quem recorre a este tipo de procedimento, renega sua adesão ao Senhor.

Outro objetivo da proibição de Jesus sobre o juramento falso é evitar a vulgarização de Deus. O juramento falso infringe o mandamento que proíbe usar em vão do nome de Deus. O sim do cristão é sim e o seu não é não. Não lhe interessa enganar. Tudo quanto é dito fora destes limites não vem de Deus. Por isso, tem de ser evitado. Enganar os outros significa deturpar o sinal da palavra, torná-la sinal de divisão e confusão, em lugar de comunhão, de fraternidade e de limpidez de coração. Ser verdadeiro no falar é uma forma de imitar o modo de ser de Deus. A religião de Israel era toda baseada na Palavra de Deus. Seria impossível imaginar que Deus quisesse se enganar o seu povo. Do mesmo modo, seria inimaginável que o cristão abusasse da boa-fé de seu próximo.
P. Vitus Gustama,svd
15/02/2020
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VIDA VIVIDA NA PARTILHA QUE SE ENRAIZA EM CRISTO É A VIDA EM PLENITUDE
Sábado Da V Semana Comum


Primeira Leitura: 1Rs 12,26-32;13,33-34
Naqueles dias, 12,26 Jeroboão refletiu consigo mesmo: “Como estão as coisas, o reino vai voltar à casa de Davi. 27 Se este povo continuar a subir ao templo do Senhor em Jerusalém, para oferecer sacrifícios, seu coração se voltará para o seu soberano Roboão, rei de Judá; eles me matarão e se voltarão para Roboão, rei de Judá”. 28 Depois de ter refletido bem, o rei fez dois bezerros de ouro e disse ao povo: “Não subais mais a Jerusalém! Eis aqui, Israel, os deuses que te tiraram da terra do Egito”. 29 Colocou um bezerro em Betel e outro em Dã. 30 Isto foi ocasião de pecado, pois o povo ia em procissão até Dã para adorar um dos bezerros. 31Jeroboão construiu também templos sobre lugares altos, e designou como sacerdotes homens tirados do povo, que não eram filhos de Levi. 32 E instituiu uma festa no dia quinze do oitavo mês, à semelhança da que era celebrada em Judá. E subiu ao altar. Fez a mesma coisa em Betel, para sacrificar aos bezerros que havia feito. E estabeleceu em Betel sacerdotes nos santuários que tinha construído nos lugares altos. 13,33 Depois disso, Jeroboão não abandonou o seu mau caminho, mas continuou a tomar homens do meio do povo e a constituí-los sacerdotes dos santuários dos lugares altos. Todo aquele que queria era consagrado e se tornava sacerdote dos lugares altos. 34 Esse modo de proceder fez cair em pecado a casa de Jeroboão e provocou a sua ruína e o seu extermínio da face da terra.


Evangelho: Mc 8,1-10
1Naqueles dias, havia de novo uma grande multidão e não tinha o que comer. Jesus chamou os discípulos e disse: 2“Tenho compaixão dessa multidão, porque já faz três dias que está comigo e não têm nada para comer. 3Se eu os mandar para casa sem comer, vão desmaiar pelo caminho, porque muitos deles vieram de longe”. 4Os discípulos disseram: “Como poderia alguém saciá-los de pão aqui no deserto?” 5Jesus perguntou-lhes: “Quantos pães tendes?” Eles responderam: “Sete”. 6Jesus mandou que a multidão se sentasse no chão. Depois, pegou os sete pães, e deu graças, partiu-os e ia dando aos seus discípulos, para que o distribuíssem. E eles os distribuíram ao povo.7Tinham também alguns peixinhos. Depois de pronunciar a bênção sobre eles, mandou que os distribuíssem também. 8Comeram e ficaram satisfeitos, e recolheram sete cestos com os pedaços que sobraram.9Eram quatro mil, mais ou menos. E Jesus os despediu. 10Subindo logo na barca com seus discípulos, Jesus foi para a região de Dalmanuta.
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Somos Chamados a Ser Construtores Da Unidade Enraizando-nos em Cristo Jesus


Hoje terminamos as cinco semanas da leitura dos livros históricos do AT com nuvens escuras sobre a casa de Davi e Salomão: o pecado da idolatria de Jeroboão.  Na segunda-feira que vem passaremos a ler livros do NT, começando pela Carta de São Tiago.


Estamos na parte do livro dos Reis em que se narra a história sincrônica dos dois reinos (1Rs 12,1-2Rs 17,41): Israel (Norte) e Judá (Sul) até a queda e o desaparecimento do primeiro. Esta divisão aconteceu no fim do reinado de Salomão.


Já divididos no plano político as tribos israelitas se separam também no plano religioso com a construção dos dois novos templos no reino do Norte (Israel): um em Betel e outro em Dan, isto é, nos centros religiosos antigos que haviam conservado a confiança da maioria do povo (Gn 12,8; 13,3; 28,19; 35; Juiz 18). Trata-se do cisma político e religioso ao mesmo tempo.


Imediatamente sucumbe o reinado do Norte (Israel) ao desejo de reproduzir Javé (Deus) em escultura (bezerro de ouro). E para servir de par à Arca de Jerusalém, Jeroboão constrói o mesmo bezerro de ouro erguido aos pés do Sinai (Ex 32). E finalmente, o rei Jeroboão designa para ocupar-se destes dois templos sacerdotes escolhidos entre o povo e não entre os levitas.


Aqui Jeroboão constrói nos antigos santuários de Betel e Dan dois bezerros de ouro, que num princípio parece que queriam representar Javé: “Não subais mais a Jerusalém! Eis aqui, Israel, os deuses que te tiraram da terra do Egito”, disse Jeroboão. Mas que logo facilmente o povo cairá na idolatria: estabelece festas e sacrifícios. Jeroboão se aproveita da religião para os fins políticos.


Como tantas vezes ao longo da história antiga e moderna, o poder político é tentado a usar a religião para seus fins político. E desde que pagaram os templos na sua construção, o poder político é capaz de silenciar os profetas ou os sacerdotes, pastores e bispos.


Mas os livros históricos do AT querem defender a crença de que Deus não quer em torno d´Ele o povo com um amor dividido. Mais tarde o Senhor Jesus dirá: “Ninguém pode servir a dois senhores. Com efeito, ou odiará um e amará o outro, ou se apagará ao primeiro e desprezará o segundo. Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro” (Mt 6,24).


A religião é questão de fé que tem função de ser consciência para uma política abusada em nome do próprio interesse de quem está no poder e não em nome do bem comum. Jesus nos dirá que seu Reino não é deste mundo (Jo 18,36). É para nos dizer que todos devem se preocupar com a salvação de todos.  A Igreja não pode converter-se realmente em uma comunidade de fé enquanto muitos membros pela vaidade ou pela ânsia querem dominar os outros. Vivamos enraizados em Cristo para que sejamos construtores ou restauradores da unidade, da fraternidade e da paz. Deus é Deus de todos. Não podemos criar imagens falsas de Deus para assegurar nossos interesses. Quem se aproxima do Senhor deve estar livre de tudo e se sentir filho(a) de Deus.


Através da Primeira Leitura somos avisados de que o pecado nos leva à destruição: “Esse modo de proceder fez cair em pecado a casa de Jeroboão e provocou a sua ruína e o seu extermínio da face da terra”. É a última frase da Primeira Leitura de hoje. Os ídolos são normalmente agradáveis, mas nos fazem cegos e nos fazem perdermos o censo crítico. Os ídolos nos levam a vermos tudo a partir dos olhos do mundo e não dos olhos da fé. Quantas vezes temos que nos arrepender de ter iniciado aquele caminho que já víamos que não era o caminho reto e certo. Nós nos deixamos seduzir por muitos deuses e altares que nos oferece o mundo de hoje, mas que nos deixará na nossa solidão mortal, mais tarde. No leito da doença e da morte, todo poder mundano termina seu reinado. O início e o fim é para todos igual.  Todos nascem da barriga da mãe e todos entrarão na barriga da terra, um dia. Temos que aproveitar o intervalo para fazer o bem. Ninguém pode viver à toa nem morrer à toa, pois a cada um é dado os talentos de Deus para serem multiplicados.


Somos Chamados a Ser Pão Para Os Outros


No evangelho de Mc se relata duas vezes a multiplicação dos pães (Mc 6,30-44; 8,1-10). A segunda multiplicação nós lemos neste dia e sucede em território pagão. Trata-se do banquete de Jesus com os pagãos. Assim Jesus se apresenta como Messias para todos, judeus e outros povos da terra. Ele veio para todos e por isso, ninguém escapa de seu amor.


O texto nos diz que “Jesus chamou os discípulos e disse: ’Tenho compaixão dessa multidão, porque já faz três dias que está comigo e não têm nada para comer’”. O povo se sente abandonado e que está ali porque quer confiar totalmente em Jesus, pois Jesus se apresenta como Pastor destinado para apascentar, restaurar e unificar o rebanho de Deus, o povo de Deus e não para dispersá-lo. Jesus é a revelação da misericórdia divina que quer socorrer e que se faz pão para todos.


Nesta segunda multiplicação, Jesus não manda os discípulos para que resolvam a fome da multidão como na primeira multiplicação (cf. Mc 6,37), mas Ele lhes manifesta a Sua preocupação: “Tenho compaixão dessa multidão, porque já faz três dias que está comigo e não têm nada para comer. Se eu os mandar para casa sem comer, vão desmaiar pelo caminho, porque muitos deles vieram de longe”.  “Tenho compaixão dessa multidão”. Nosso Deus é um Deus compassivo. Ele é “louco” de amor por nós todos: “Pode uma mulher esquecer-se daquele que amamenta? Não ter ternura pelo fruto de suas entranhas? E mesmo que ela o esquecesse, eu não te esqueceria nunca”, diz o Senhor (Is 49,15). Somos frutos deste amor “louco” de Deus.


Os discípulos pensam que deveria ter bastante dinheiro para comprar pão para alimentar o povo. O problema se torna grave ainda, pois o povo se encontra no deserto (longe dos povoados): “Como poderia alguém saciá-los de pão aqui no deserto?”.


Mas Jesus encontra a solução no próprio povo que os próprios discípulos deixam de lado: “Quantos pães vós tendes?”. E os seus discípulos responderam: “Sete”. “Sete” é um número simbólico indicativo das nações.  Sete era o número das nações pagãs habitantes da terra de Canaã (cf. At 13,19). A totalidade das nações é setenta (7x10). O sete era o numero da perfeição e da totalidade, da plenitude acabada e perfeita (Santo Agostinho), da universalidade (Santo Tomás), o numero que une o par e o impar, o fechado e o aberto, o visível e o invisível. Para os autores do século XII o sete tinha uma dignidade suprema: sete foram os dias da criação, sete eram os dons do Espírito Santo, sete virtudes (três teologais, quatro cardinais), sete os pecados capitais.


Isso significa que a partilha (com cinco pães e dois peixes) é a plenitude da vida, pois a alma do projeto de Jesus é a partilha, a generosidade. A plenitude da vida está na partilha, está na generosidade, está na solidariedade. A partilha, a generosidade, e a solidariedade tiram o homem da garra da ganância para transformá-lo em irmão para os demais, especialmente para os necessitados. A generosidade transforma o coração de pedra em coração humano para sentir novamente a necessidade dos outro. A generosidade é o caminho da libertação; é o caminho da fraternidade. “Somente uma vida vivida para os outros, vale a pena ser vivida”, dizia Albert Einstein. Através da partilha assumimos uma parte do fardo de dor que pesa sobre a humanidade.


Jesus resolve o problema da fome a partir da partilha e da solidariedade do próprio povo, a partir do amor mútuo. “Ensine muito cedo os seus filhos que o pão dos homens é feito para ser dividido” (P. Carré). “Quem espera o supérfluo para dar aos pobres, nunca lhes dará nada (Provérbio chinês). O amor que se faz piedade e compaixão tem uma força enorme que leva à ação concreta para resolver o problema existente. De fato, o evangelista nos relatou que houve “sete cestos com os pedaços que sobraram”.


“Tenho compaixão dessa multidão”, disse Jesus aos discípulos. Aprendemos de Jesus seu bom coração, sua misericórdia diante das situações de fome e de outras necessidades da grande maioria. Não sabemos fazer milagres porque não temos poder para fazer isso. Mas há multiplicações de pães, de paz e de esperança, de cultura e de bem-estar que não necessitam do poder milagroso, e sim de um bom coração, semelhante ao de Jesus Cristo para fazer o bem. Através do milagre da multiplicação dos pães Jesus quer nos ensinar que a força de solidariedade não fará falta o essencial na vida de todos. O egoísmo, ao contrário, causa a fome da maioria, pois uns querem agarrar tudo. Onde há o acúmulo de bens, há a fome para a maioria.


Nas duas multiplicações Jesus faz o mesmo gesto: “Pegou os sete pães, e deu graças”.  Esse gesto nos recorda a Eucaristia. A mensagem é, portanto, bastante clara para nós: aqueles que participam da Eucaristia devem ter o espírito de partilha e de doação. É ser pessoa eucarística. Além disso, nas duas multiplicações dos pães há sobras. Isto indica que o alimento distribuído é inesgotável. É o símbolo de um ato que terá que ser repetido constantemente pelos cristãos e pelas pessoas de boa vontade. Se cada um tirar um pouco de bom que tem para os outros, jamais faltará nada no mundo. Este é o grande desafio da espiritualidade eucarística. Viver eucaristicamente significa viver na permanente solidariedade e partilha. Sem tudo isto, a eucaristia da qual participamos carecerá de sentido. Partilha e solidariedade são formas de ação de graças a Deus por tudo que temos e recebemos de Deus.


A multiplicação dos pães por parte de Jesus não é um quadro de um museu, nem é uma peça arqueológica. Os que assumem a causa de Jesus, os que se dizem cristãos devem viver continuamente a espiritualidade da partilha e da solidariedade. Diante do Senhor cada cristão deve se perguntar: Senhor o que queres de mim neste mundo com tantos famintos em todos os sentidos? Nós cristãos temos que fazer possível o milagre da solidariedade, da partilha, da compaixão, do amor mútuo no meio de tantas pessoas governadas pelo egoísmo, pelos interesses particulares. O amor vencerá, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16).
P. Vitus Gustama,svd
14/02/2020
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É NECESSÁRIO UNIR-SE E COMUNICAR-SE PARA PARTILHAR OS DONS
Sexta-Feira Da V Semana Comum
 


Primeira Leitura: 1Rs 11,29-32; 12,19
11,29 Aconteceu, naquele tempo, que, tendo Jeroboão saído de Jerusalém, veio ao seu encontro o profeta Aías, de Silo, coberto com um manto novo. Os dois achavam-se sós no campo. 30 Aías, tomando o manto novo que vestia, rasgou-o em doze pedaços 31 e disse a Jeroboão: “Toma para ti dez pedaços. Pois assim fala o Senhor, Deus de Israel: Eis que vou arrancar o reino das mãos de Salomão e te darei dez tribos. 32 Mas ele ficará com uma tribo, por consideração para com meu servo Davi e para com Jerusalém, cidade que escolhi dentre todas as tribos de Israel”. 12,19 Israel rebelou-se contra a casa de Davi até o dia de hoje.


Evangelho: Mc 7,31-37
Naquele tempo, 31Jesus saiu de novo da região de Tiro, passou por Sidônia e continuou até o mar da Galileia, atravessando a região da Decápole. 32Trouxeram então um homem surdo, que falava com dificuldade, e pediram que Jesus lhe impusesse a mão. 33Jesus afastou-se com o homem, para fora da multidão; em seguida, colocou os dedos nos seus ouvidos, cuspiu e com a saliva tocou a língua dele. 34Olhando para o céu, suspirou e disse: “Efatá!”, que quer dizer: “Abre-te!” 35Imediatamente seus ouvidos se abriram, sua língua se soltou e ele começou a falar sem dificuldade. 36Jesus recomendou com insistência que não contassem a ninguém. Mas, quanto mais ele recomendava, mais eles divulgavam. 37Muito impressionados, diziam: “Ele tem feito bem todas as coisas: Aos surdos faz ouvir e aos mudos falar”.
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Que Todos Sejam Um É o Querer De Jesus Para Todos Os Homens


Aparecem na Primeira Leitura dois personagens: o profeta Aías e Jeroboão no momento de crise da casa de Davi: Divisão do reino.


Aías, cujo significado em hebraico “meu irmão é o Senhor”, é bisneto do sacerdote Eli e filho de Aitube. Ele era sacerdote em Silo. Sempre acompanhava o rei Saul para lhe dar orientação e era um dos responsáveis pela Arca da Aliança, quando Jônatas conquistou uma importante e notável vitória sobre os filisteus (1Sm 14,3.18). Era profeta de Silo que se opôs à idolatria de Salomão e falou sobre a divisão do reino, rasgando simbolicamente seu próprio manto. As doze partes desta roupa simbolizavam a ruptura do reino. Dez tribos se revoltaram contra Roboão que é filho e sucessor de Salomão e fizeram Jeroboão rei no Norte (1Rs 11,29-31). O neto de Davi (Roboão) ficou como rei no Sul, sobre as tribos de Judá e Benjamin. A razão teológica para a divisão do reino foi o sincretismo e a apostasia de Salomão (1Rs 11,7-13; 12,15; 2Cr 9,29; 10,15).


O oráculo de Aías (1Rs 11,29-39) é uma composição deuteronomista, cujo objetivo fundamental é oferecer, antecipadamente, uma interpretação teológica da separação dos dois reinos (Norte/Israel e Sul/Judá). Como em outros textos proféticos, a mensagem é previamente representada através de um gesto simbólico: o manto é rasgado em doze pedaços (1Rs 11,29-31ª; 1Sm 15,27-28).


O segundo personagem é Jeroboão. Ele era um homem proeminente da tribo de Efraim (uma tribo poderosa nortista) a quem o rei Salomão colocou como supervisor de todo o trabalho forçado. Essa nomeação real colocou Jeroboão no centro de um conflito político entre as tribos do Norte (Israel) e do Sul (Judá). Jeroboão foi o maior adversário de Salomão contra a idolatria praticada por Salomão por causa de suas esposas estrangeiras que adoram seus deuses. Jeroboão liderou uma rebelião contra a casa de Davi e tornou-se rei sobre as dez tribos do Norte. Ele governou o reino do Norte (Israel) de 930 a 909 a.C. Por medo de o povo voltar para adorar Deus no Templo de Jerusalém (1Rs 12,26-27), Jeroboão inaugurou dois centros de culto alternativo: um em Betel (alguns quilômetros de Jerusalém) e o outro no extremo norte de Israe, na região de Dã. A atitude de Jeroboão foi interpretada não somente contra Roboão, mas também contra o Senhor que estabelece sua morada no Templo de Jerusalém, o único local de adoração (1Rs 8,27-30). Futuramente, Jeroboão cometerá a idolatria ao misturar a adoração a Deus com o culto a Baal.


O texto da Primeira Leitura nos relatou o início da divisão do reino sob o comando de Roboão, filho de Salomão cujo começo partiu da idolatria de seu pai, o rei Salomão. O reino de Norte em Israel finalmente volatará a viver separado como antes dos reinados de Davi e Salomão (foi Davi que unificou os dois reinos).


As causas do cisma são as falhas de Salomão que colhem seus frutos. Ao se casar com mulheres estrangeiras, por razões de prestígio político, introduziu cultos idólatras: os profetas de Yahweh reagem contra a idolatria. Os fatos grandiosos e as construções de Salomão pesavam sobre a economia do país, em particular sobre os pobres. A rebelião se torna realidade. As reformas administrativas favoreceram o feudo real, a tribo de Judá (Sul), em detrimento das tribos do norte que exigirão autonomia, que no fundo permaneceu fiel à memória de Saul e se sentiu marginalizado em relação aos de Judá. Mas neste livro dos Reis tudo é interpretado como castigo pelo mal que Salomão tinha vindo a fazer no final.


Mais uma vez, a Bíblia nos desafia ou interpela. Não podemos simplesmente ficar com a história desses acontecimentos "antigos": problema da idolatria. É necessário ouvir o que Deus quer dizer HOJE, através desses textos. O pecado da idolatria e do egoísmo tem consequências fatais a curto ou longo prazo. Este tema (idolatria) não pode ser próprio somente de épocas passadas. Também atualmente se inventam ideologias alienadas, fetiches e ídolos. Também em qualquer lugar e época existem pessoas egoístas e sistemas de opressão que para manter-se em seus privilégios produzem ídolos justificadores, aos quais diariamente oferecem suas vítimas.


O Deus revelado na Bíblia está sempre muito acima da debilidade e da incapacidade humana; é sempre o Deus que não aceita o medo e a alienação do povo. O Deus que promete a libertação pode realizar essa libertação. Recusar o projeto de Deus como não viável é um ato de idolatria. Deus é transcendente, não porque é invisível ou espiritual e sim porque atua muito além de toda possibilidade humana. Ele pede que acreditemos n´Ele apesar das dificuldades encontradas. O Deus transcendente é sempre o Deus da esperança contra toda esperança. A idolatria geralmente acontece nos momentos de crise. O homem sempre é tentado para obter ou buscar um resultado imediato, sem processo nem esforço. O verdadeiro Deus, o Deus da Bíblia interpela, exigindo sempre mais. O ídolo pede sempre menos: justifica qualquer tipo de injustiça ou de desamor. Por isso, a presença de Deus se manifesta principalmente através da Palavra. Ao contrário, as atitudes idolátricas se manifestam especialmente através de imagens. Por isso, o povo deve encontrar sua força e identidade na fé no Deus libertador que deve ser traduzida em relações de justiça e fraternidade entre seus membros. A acumulação de riquezas e poder nas mãos  dos reis, como aconteceu com o rei Salomão, rompe estas relações fraternas com que o povo é conduzido longe de seu Deus para ir atrás de deuses estrangeiros, destruindo assim sua própria identidade.


Não podemos negar as divisões que por diversas causas, foram ou são geradas dentro da Igreja, entre os próprios cristãos. O Senhor nos chama à unidade. O Senhor Jesus pede essa unidade ao Pai na Última Ceia (cf. Jo 17,6-26). São Paulo nos lembará que devemos viver unidos por um só Senhor, uma só fé, um só Batismo, um só Deus e Pai. Somente o Espírito Santo que habita no coração dos centes, alcançará a unidade entre todos os homens. No entanto, por querer manipular o mesmo Espírito, muitos também o converteram em uma razão de divisão, dando preeminência, não para amar, mas para os carismas que deveriam nos colocar ao serviço dos outros.


Temos que ouvir em silêncio e com a cabeça inclinada a queixa de Deus no Salmo Responsorial de hoje (Sl 80): “Mas meu povo não ouviu a minha voz, Israel não quis saber de obedecer-me. Deixei, então, que eles seguissem seus caprichos, abandonei-os ao seu duro coração. Quem me dera que meu povo me escutasse! Que Israel andasse sempre em meus caminhos! Seus inimigos, sem demora, humilharia e voltaria minha mão contra o opressor”.


Sou um daqueles que se resignam aos cismas, á divisão entre os cristãos, ao racismo, à opressão? ou, mais modestamente, sou daqueles que não fazem nenhum esforço para retomar os contatos perdidos? Sou aquele que tem como filosofia de vida: “Estou nem ai. Cada um se vire como pode!”?


Felizes a família, a comunidade ou as pessoas que conhecem e entendem, que apreciam cordialmente seus valores de unidade cultural, social e religiosa, e aproveitam corretamente seus benefícios em harmonia compartilhada.


Evangelho e Sua Mensagem Para Nós


Viagem de Jesus por terra pagã continua: Tiro, Sidônia, Decápole. Tem como personagem central do relato de hoje é um homem surdo que fala com dificuldade.


Na tradição profética, a surdez e a cegueira são figuras da resistência à mensagem de Deus (Is 6,9; 42,18; Jr 20-23; Ez 12,2). Paralelamente, no evangelho, são figura da incompreensão e da resistência à mensagem de Jesus.

No processo da cura do surdo-mudo, Jesus abre primeiro os ouvidos do homem, depois desata sua língua. Com isso, Jesus coloca o homem em situação de escutar primeiro para depois falar.


Todos nós sabemos que a capacidade de falar depende também da capacidade que o homem tem para escutar. Por isso, as crianças, antes de começar a falar, antes de poder falar, necessitam desenvolver sua capacidade auditiva. Falar significa abrir o próprio interior, colocar-se ao lado de alguém de igual a igual. Escutar é estar em sintonia com o outro para entender sua mensagem. Escutar supõe a existência de silêncio. Se você nunca pode calar-se, pergunte-se o que é que você quer esconder? Uma conversa sem silêncios é desperdício de monólogos sem destinatários. “Para o sábio é difícil falar de sua sabedoria e para o tolo é difícil calar suas tolices” (René Juan Trossero).


Um cristão ou qualquer pessoa de boa vontade precisa aprender a escutar, a falar e a calar a seu tempo, levando a sério a verdade e a caridade fraterna. Quando buscarmos a verdade e levarmos em consideração a caridade fraterna, falaremos e escutaremos com responsabilidade, isto é, saber escutar quando há que escutar; saber calar quando há que calar e saber falar quando, como e o que há que falar. Para isso, precisamos manter nossos ouvidos e coração abertos à Palavra de Deus, pois a Palavra de Deus tem o único objetivo: salvar a humanidade. Muitas tragédias na Bíblia eram frutos da falta da escuta da Palavra de Deus.


Pode ser que não sejamos surdos fisicamente. Mas hoje em dia ficamos cada vez mais duros de ouvido porque todos nós temos que filtrar o que ouvimos a fim de não sentirmos oprimidos, irritados, desorientados pela superabundância de informações, de barulhos e de conversas que entram em nossa vida com uma velocidade impressionante. E os nossos ouvidos continuam a ficar abertos em tempo integral. Cada dia uma quantidade enorme de notícias entra na nossa vida, mas sem a qual não poderíamos nos posicionar bem nesta vida. Podemos ficar tristes ou alegres, animados ou desanimados por aquilo que ouvimos e pelo modo como ouvimos e pela maneira que interpretamos sobre o que ouvimos e os acontecimentos. O que precisamos manter é a capacidade de sintetizar todas as informações para construir nossa própria vida e nossa convivência. Tudo o que ouvimos, para poder compreendê-lo temos que organizá-lo em um determinado horizonte, o qual é distinto de pessoa a pessoa. Tal horizonte se produz a partir de decisões vitais para nossa vida: o que preciso ouvir e o que eu preciso evitar de ouvir. Aquilo que eu ouço é capaz de me dar um bom descanso ou de tirar meu bom sono. É preciso termos uma audição seletiva para todas as informações para não formarmos nossa personalidade erradamente. Sem a audição seletiva um dia as coisas, que não deveriam entrar, acabarão dando comando para nossa vida. Conseqüentemente, as portas que deveriam ficar fechadas, estarão abertas e as que deveriam abertas, ficarão fechadas. Em outras palavras, perderemos totalmente o controle sobre nossa vida por falta desta audição seletiva. Um veículo sem bom controle de seu piloto tem grandes possibilidades ou probabilidades de ter acidente.


O personagem central da cena do evangelho de hoje é um surdo-mudo. O homem foi criado para se comunicar. Por isso, mudez e surdez são dois empecilhos para a comunicação fluente. Esta era a situação do homem que foi apresentado para Jesus.


Boca e ouvido têm um rico simbolismo na Bíblia. O ser humano precisa da boca para cantar os louvores de Deus e proclamar Suas maravilhas e narrar às gerações futuras a misericórdia de Deus. Através dos ouvidos o homem é instruído nos caminhos de sabedoria. Mas a língua pode levar o homem a perder-se. Daí o provérbio: “Falar com sabedoria é prata, ouvir com amor é ouro”.


Para o evangelista Marcos esse homem representa aqueles que vivem fechados no seu mundo sem partilha, sem diálogo. O surdo-mudo representa aqueles que não se preocupam em comunicar, em partilhar a vida, em dialogar, em deixar-se interpelar pelos outros. O surdo-mudo representa aqueles que vivem instalados, no seu egoísmo, nas suas certezas e nos seus preconceitos, convencidos de que é dono absoluto da verdade. Uma pessoa que está cheia de si paradoxalmente é uma pessoa vazia. 


“Abre-te”, diz Jesus ao surdo-mudo. E ele saiu de seu isolamento e de seu silêncio mortal. Este “abre-te” é também dirigido a cada um de nós.  A ordem “abre-te” existe porque há dentro de nós algo fechado. O que é que está muito fechado em você que o impede de se comunicar com os demais e com o mundo? Abra seu coração a quem lhe oferece a amizade. Abra-se aos que necessitam de seu carinho. Abra seus ouvidos e mova sua língua para aqueles que necessitam de suas palavras de consolo e de conforto. Quem tem ouvidos novos e os lábios libertados do mal tem também os olhos abertos para os demais, a mão estendida para os necessitados e o coração limpo para testemunhar o verdadeiro amor. Quem faz o bem não faz barulho. Como dizia o Papa Pio XI: “O bem não faz barulho e o barulho não faz bem”.


 “Abre-te!”, diz Jesus a cada um de nós. Cada um precisa se perguntar: “O que é que está fechado em mim que necessita do toque de Jesus para eu poder ser libertado?”.


Para Ser Lembrado


“Jesus colocou os dedos nos seus ouvidos, cuspiu e com a saliva tocou a língua dele. Olhando para o céu, suspirou e disse: ‘Efatá!’ que quer dizer: ‘Abre-te!’ Imediatamente seus ouvidos se abriram, sua língua se soltou e ele começou a falar sem dificuldade”.

A comunidade cristã entendeu o valor sacramental do ensinamento de Jesus e realiza sobre os candidatos para o batismo, sobre os catecúmenos, o gesto de Jesus. Quem preside toca os ouvidos do candidato para que possa acolher a Palavra de Deus e a boca para professar a fé: “O Senhor Jesus, que fez os surdos ouvir e os mudos falar, te conceda que possas logo ouvir sua Palavra e professar a fé para louvor e glória de Deus”.
P. Vitus Gustama,svd

13/02/2020
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É PRECISO TER E MANTER A FÉ NO DEUS ÚNICO PARA NOSSA SALVAÇÃO
Quinta-Feira Da V Semana Comum


Primeira Leitura: 1Rs 11,4-13
4 Quando Salomão ficou velho, suas mulheres desviaram o seu coração para outros deuses e seu coração já não pertencia inteiramente ao Senhor, seu Deus, como o do seu pai Davi. 5 Salomão prestou culto a Astarte, deusa dos sidônios, e a Melcom, ídolo dos amonitas. 6 Ele fez o que desagrada ao Senhor e não lhe foi inteiramente fiel, como seu pai Davi. 7 Foi então que Salomão construiu um santuário para Camos, ídolo de Moab, no monte que está defronte de Jerusalém, e para Melcom, ídolo dos amonitas. 8 Fez o mesmo para todas as suas mulheres estrangeiras, as quais queimavam incenso e ofereciam sacrifícios aos seus deuses. 9 Então o Senhor irritou-se contra Salomão, porque o seu coração tinha-se desviado do Senhor, Deus de Israel, que lhe tinha aparecido duas vezes 10 e lhe proibira expressamente seguir a outros deuses. Mas ele não obedeceu à ordem do Senhor. 11 E o Senhor disse a Salomão: “Já que procedeste assim, e não guardaste a minha aliança, nem as leis que te prescrevi, vou tirar-te o reino e dá-lo a um teu servo. 12 Mas, por amor de teu pai Davi, não o farei durante a tua vida; é da mão de teu filho que o arrebatarei. 13 Não te tirarei o reino todo, mas deixarei ao teu filho uma tribo, por consideração para com meu servo Davi e para com Jerusalém, que escolhi”.


Evangelho: Mc 7,24-30
Naquele tempo, 24 Jesus saiu e foi para a região de Tiro e Sidônia. Entrou numa casa e não queria que ninguém soubesse onde ele estava. Mas não conseguiu ficar escondido.25 Uma mulher, que tinha uma filha com um espírito impuro, ouviu falar de Jesus. Foi até ele e caiu a seus pés. 26 A mulher era pagã, nascida na Fenícia da Síria. Ela suplicou a Jesus que expulsasse de sua filha o demônio. 27 Jesus disse: “Deixa primeiro que os filhos fiquem saciados, porque não está certo tirar o pão dos filhos e jogá-lo aos cachorrinhos”.28 A mulher respondeu: “É verdade, Senhor; mas também os cachorrinhos, debaixo da mesa, comem as migalhas que as crianças deixam cair”.29 Então Jesus disse: “Por causa do que acabas de dizer, podes voltar para casa. O demônio já saiu de tua filha”. 30 Ela voltou para casa e encontrou sua filha deitada na cama, pois o demônio já havia saído dela.
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É Preciso Ser Fiel Ao Único Deus Criador Do Céu e Da Terra


Já que procedeste assim, e não guardaste a minha aliança, nem as leis que te prescrevi, vou tirar-te o reino e dá-lo a um teu servo. Mas, por amor de teu pai Davi, não o farei durante a tua vida; é da mão de teu filho que o arrebatarei. Não te tirarei o reino todo, mas deixarei ao teu filho uma tribo, por consideração para com meu servo Davi e para com Jerusalém, que escolhi”, disse Deus a Salomão infiel.


O reino de Salomão escureceu no final. Ele tinha problemas políticos e econômicos, e dificuldades dentro e fora de suas fronteiras. A divisão que em breve ocorreria entre os reinos do Norte e do Sul já estava sendo apontada. O autor do livro não hesita em atribuir essa decadência ao pecado em que Solomão caiu.


Na sua velhice Salomão se mostrou infiel aos mandamentos de Deus, principalmente o primeiro mandamento do Decálogo. Ele começou a ter uma coração desviado. Desviar o coração significa em Salomão, dar culto a outros deuses.


Por que aconteceu tudo isso? As alianças com outros povos se concretizaram por infinidade de matrimônios do rei Salomão com mulheres estrangeiras, que exigindo ter lugares onde dar culto a seus deuses. As mulheres estrangeiras obrigaram Salomão a construir os santuários onde poder continuar com seus cultos idolátricos. E o coração do rei Salomão se desviou também para esse culto. O pecado do rei Salomão é a idolatria.


A Bíblia não é senão um processo de descobrimento do rosto de Deus, mas para isso a pedagogia  que usa com frequência é ir esclarecendo o que não é Deus. Segundo a mensagem bíblica, o relacionamento de Deus é, fundamentalmente, a negação dos ídolos. O oposto à fé em Deus, na Bíblia, não é o ateísmo e sim a idolatria. Por isso, a luta contra a idolatria é o tema principal que recorre o Antigo Testamento e está sempre presente no pano de fundo do Novo testamento. A história de salvação, falando biblicamente, não é outra coisa que um desapegar-se dos ídolos: desde Abraão à Igreja de nossos dias; e a tarefa do crente é “não ir atrás do vazio” (Jr 2,5) e “guardar-se dos ídolos” (1Jo 5,21) para servir ao único Deus vivente.


Salomão se esqueceu do primeiro mandamento do Decálogo: “Não terás outros deuses diante de mim” (Ex 20,3). Por isso, Deus se encoleriza contra Salomão e lhe anuncia o castigo que seguirá por sua infidelidade. Notemos que o Mandamento não impugna a existência e o poder de outros deuses; ao contrário: conta com eles. Mas sua razão de ser é justamente a preocupação de que Israel volte a se entregar à idolatria diante da liberdade que foi conquistada (saída do Egito e de suas idolatrias para a terra de liberdade).


Jamais podemos fazer alianças com os poderosos mundanos, nem com os malvados sob pena de estar presos em seus males e desvios. Há muitos que, para não perder a amizade ou o apoio dos poderosos deste mundo, buscam razões para justificar o seu mal. Finalmente, eles não estão mais a serviço de Deus, mas dos poderosos. Se somos pessoas consagradas ao Senhor, devemos ser um sinal profético para ajudar os outros na vivência de sua dignidade de filhos e filhas de Deus.


O que significa para você a afirmação da Primeira Leitura: “O coração de Salomão já não pertencia inteiramente ao Senhor, seu Deus”? Será seu coração pertence inteiramente ao Senhor? Qual prova de que seu coração pertence completamente ao Senhor?


Em segundo lugar, é bom lançarmos outras perguntas para aprofundar mais nossa reflexão: Que deuses estranhos aos quais adoramos? Quais são deuses que você adora, mas que no fim de sua vida eles vao deixar você na solidão mortal? Quais são altares construímos para esses deuses em vez de adorar e seguir ao único Deus, Criador do céu e do universo? Em nosso caso não será a multidão de mulheres ou os templos para deuses falsos e sim pode ser o dinheiro ou o desejo de poder ou a ambição ou o pouco controle da sensualidade ou o apego desncontrolado ao dinheiro e assim por diante. São coisas que nos afastam de nosso seguimento de Cristo e de Deus. São coisas que nos leva a dividirmos coração entre o amor a Deus e o amor a esses deuses falsos.


Parecia impossível pensar que Salomão que tinha iniciado seu reinado pedindo humildemente a Deus que lhe concedesse a sabedoria e que construíu o Templo em honra a Javé, poderia cair logo em idolatria e construir templos para outros deuses. Também podemos cair na nossa vida por causa das pequenas coisas não pensadas ou por causa das grandes coisas. Ninguém está seguro. Podemos chegar a negar Cristo como Simão Pedro. É preciso estar em dia nossas orações e nosso exame de consciência para que não caiamos facilmente diante de qualquer tentação.


É Preciso Manter Uma Fé Firme Mesmo Que As Circunstâncias Sejam Impossíveis


Jesus saiu e foi para a região de Tiro e Sidônia...”


Desta vez Marcos nos relata que Jesus deixou a terra de Israel, terra santa e vai a uma terra pagã, considerada sempre “impura” por Israel. Mas para o Senhor nenhuma terra é impura, pois tudo é obra de Suas mãos. Quando criou o universo “Deus contemplou toda a sua obra, e viu que tudo era muito bom” (Gn 1,31). É o homem, com sua maldade que contamina e profana a obra de Deus.


Jesus entrou numa casa (na região de Tiro e Sidônia) e não queria que ninguém soubesse onde ele estava” (Mc 7,24).


Jesus não busca as ações brilhantes. Ele é sempre o Messias discreto. Deus faz as coisas silenciosamente sem muito barulho. Ele não faz barulho nem busca fazê-lo. Deus está “no murmúrio de uma brisa ligeira” (cf. 1Rs 19,21b). Todas as grandes obras sempre foram e são frutos de um silêncio. Coisas vazias sempre fazem barulhos e o barulho sempre faz mal para a vida. Muitas vezes acontece que as palavras dizem tão pouco. Apenas fazem ruído. Somente no silêncio e na solidão é que podemos escutar o essencial. Não há progresso ou crescimento sem reflexão e silêncio. Por isso, o silêncio e a reflexão se tornam o maior luxo para qualquer lugar e época. A verdadeira ação, na verdade, procede dos momentos de silêncio. O silêncio é a plenitude de vida.


O grandioso do relato do evangelho deste dia é a forma como uma mulher pagã é colocada como modelo de fé entendida no seu sentido mais genuíno e original. Ela se abandona nos braços d’Aquele que vem da parte de Deus e se declara fraca e limitada humanamente diante do problema que afeta a vida de sua filha e conseqüentemente afeta também sua vida como mãe. A tristeza da filha é a tristeza dobrada para a mãe. O sucesso da filha é o sucesso dobrado para a mãe. A mãe reconhece a superioridade e poder de Jesus, mostrando ao mesmo tempo a gravidade do problema de sua filha. O problema de sua filha é insustentável. Na sua declaração essa mulher quer dizer a Jesus: “Sem sua ajuda, Jesus, sem seu poder, é impossível eu sair do meu problema!”.


Essa mulher era uma Cananéia, uma pagã, uma estrangeira. Isto quer dizer que se trata de um ser impuro que faz os outros impuros. Mas não para Jesus, pois Ele que é o Santo de Deus (Mc 1,24) não pode fazer-se impuro e sim somente para purificar como fez com o leproso e com os pecadores, com os arrecadadores de impostos (publicanos), com a mulher de hemorragia e com os endemoniados. Agora Jesus está em contato com uma mulher duplamente impura: é uma pagã e mora em terra pagã com uma filha possuída pelo demônio. No entanto ela está ali aos pés de Jesus e lhe suplica que tire de sua filha o demônio.


Jesus não disse que não. Somente Jesus lhe diz que espere, que tenha paciência, que “Deixa primeiro que os filhos fiquem saciados, porque não está certo tirar o pão dos filhos e jogá-lo aos cachorrinhos”.


“Filhos- cachorros”, isto é, judeus- pagãos. “Cachorro” é o termo usado para falar dos pagãos e estrangeiros. Jesus recorre a este termo para dar a entender que os pagãos não estão excluídos para sempre do banquete de salvação, do banquete dos filhos. Aqui se trata da salvação e da salvação para todos os povos (cf. Is 2,2-5; 25,6). Mas há um “antes” e um “depois” que São Paulo observará em sua Carta para os romanos (Rm 1,16; cf. At 13,46). Mas Jesus aboliu tudo isso no dia de sua ressurreição ao dizer aos discípulos: “Há que proclamar o arrependimento para a remissão dos pecados a todas as nações, a começar por Jerusalém” (Lc 24,47). Em todo caso, o “depois” se antecipa aqui.


A mulher pagã confia na justiça e na misericórdia de Deus. Ela não perde sua fé mesmo que os obstáculos sejam grandes e desagradáveis. Por isso, ela responde sabiamente a Jesus: “É verdade, Senhor; mas os cachorrinhos também comem as migalhas que as crianças deixam cair”. Quanta fé nas palavras dessa mulher! Quanta humildade e quanta esperança! Ela chama Jesus de “Senhor”. É o titulo pascal ou pós-pascal, usado somente por essa mulher pagã no Evangelho de Marcos para assinalar que essa mulher tem fé e quando há fé, há admissão para a mesa dos filhos. “Ter fé é assinar uma folha em branco, e deixar que Deus escreva o que quer” (Santo Agostinho). “Ter fé não é somente elevar os olhos a Deus para contemplá-Lo, é também olhar a terra com os olhos de Cristo” (Michel Quoist)


Pela sua fé verdadeira e profunda e pela perseverança na sua oração essa mulher é premiada pela cura de sua filha. “Por causa do que acabas de dizer, podes voltar para casa. O demônio já saiu de tua filha”, disse Jesus à mulher.  Fé é crer no que não vemos. O premio da fé é ver o que cremos”, dizia Santo Agostinho (Serm. 43,1,1; cfr. Hb 11,1). A verdadeira fé é uma adesão a uma pessoa (Deus) e não a uma fórmula dogmática.


O evangelho nos mostra a fé de uma mulher que não pertencia ao povo eleito, não pertencia à uma Igreja ou a uma religião, mas tinha confiança e fé no poder de Jesus. Ela pode não pertencer a uma religião ou a uma Igreja, mas ela pertence a Deus pela fé que tem no poder de Deus.


Ser pagão não depende da pertença ou não a uma religião ou a uma Igreja. Ser pagão se define a partir do modo de viver. Por isso, há cristãos pagãos como também há pagãos cristãos. Há cristãos que perdem com facilidade sua fé e vive sem esperança. São “cristãos” pagãos. Há muitos que são considerados pagãos pelos outros, como a mulher Cananéia, mas acreditam no poder de Deus incondicionalmente. São “pagãos” cristãos.


A mulher Cananéia não perde sua fé, não protesta, não se revolta ainda que experimente a humilhação. Ela conseguiu o que pedia, pois ela se abandonava totalmente nos braços de Deus e encarava todos os tipos de obstáculos e dificuldades. Santo Agostinho dizia que muitos não conseguem o que pedem porque são maus de coração e por isso, eles têm que ser, primeiramente, bons. Ou muitos não conseguem o que pedem porque pedem malmente, sem insistência no lugar de fazê-lo com paciência, com humildade, com fé e por amor. Há que esforçar-se por pedir o que bom para todos. A mulher Cananéia é boa mãe, pede algo bom e pede bem. Através do evangelho de hoje o Senhor quer nos mover a termos fé e perseverança e a vivermos na esperança porque Deus nos ama. Deus se vence com fé e não com orgulho. De Deus se obtém tudo com confiança. Em Deus sempre encontra uma acolhida quando cada um se aproxima com humildade e não com auto-suficiência.


Essa mulher é um modelo acabado de fé e oração unidas. Ela chama Jesus de “Senhor”, um título dado a Jesus pós-pascal. Sua fé é orientada para a libertação do próximo, nesse caso de sua filha. E sua oração cumpre aquilo que Jesus pede: a fé, confiança, perseverança e sem desfalecimento.


Ela nos ensina que a fé e a oração devem andar juntas. Quem tem fé em Deus precisa rezar. E quem reza, precisa ter fé. A fé é a atitude básica de qualquer crente, de qualquer cristão, pois ela é a resposta nossa diante da oferta do amor de Deus para nós. A oração evidencia, por sua vez, a presença e a vitalidade de nossa fé em Deus.


Ali onde há a fé, Jesus atua. E fé, aqui, significa convencimento de que Jesus é a Vida e o Caminho (cf. Jo 14,6) e confiança nele. Hoje somos convidados a examinar se nossa fé é verdadeira e firme, se temos Jesus presente em nossa vida, se confiamos nele em qualquer situação de nossa vida.
P. Vitus Gustama,svd