domingo, 31 de maio de 2020

03/06/2020
Meu Pão Do Céu - SÁBADO – SÃO TIMÓTEO E SÃO TITO, BISPOS... | FacebookÉ PRECISO CAMINHAREvangelho de hoje (Mc 12,18-27) - Egídio Serpa | Egídio Serpa ...
O DEUS DA VIDA NOS CAPACITA COM A FORTALEZA, A SOBRIEDADE E O AMOR
Quarta-Feira da IX Semana Comum


Primeira Leitura: 2Tm 1,1-3.6-12
1 Paulo, Apóstolo de Jesus Cristo pelo desígnio de Deus referente à promessa de vida que temos em Cristo Jesus, 2 a Timóteo, meu querido filho: Graça, misericórdia e paz da parte de Deus Pai e de Cristo Jesus, nosso Senhor! 3 Dou graças a Deus – a quem sirvo com a consciência pura, como aprendi dos meus antepassados –, quando me lembro de ti, dia e noite, nas minhas orações. 6 Por este motivo, exorto-te a reavivar a chama do dom de Deus que recebeste pela imposição das minhas mãos. 7 Pois Deus não nos deu um espírito de timidez mas de fortaleza, de amor e sobriedade. 8 Não te envergonhes do testemunho de Nosso Senhor nem de mim, seu prisioneiro, mas sofre comigo pelo Evangelho, fortificado pelo poder de Deus. 9 Deus nos salvou e nos chamou com uma vocação santa, não devido às nossas obras, mas em virtude do seu desígnio e da sua graça, que nos foi dada em Cristo Jesus desde toda a eternidade. 10 Esta graça foi revelada agora, pela manifestação de nosso Salvador, Jesus Cristo. Ele não só destruiu a morte, como também fez brilhar a vida e a imortalidade por meio do Evangelho, 11 do qual fui constituído anunciador, apóstolo e mestre. 12 Esta é a causa pela qual estou sofrendo, mas não me envergonho, porque sei em quem pus a minha fé. E tenho a certeza de que ele é capaz de guardar aquilo que me foi confiado até o grande dia.

Evangelho: Mc 12,18-27
Naquele tempo, 18vieram ter com Jesus alguns saduceus, os quais afirmam que não existe ressurreição e lhe propuseram este caso: 19“Mestre, Moisés deu-nos esta prescrição: Se morrer o irmão de alguém, e deixar a esposa sem filhos, o irmão desse homem deve casar-se com a viúva, a fim de garantir a descendência de seu irmão”. 20Ora, havia sete irmãos: o mais velho casou-se, e morreu sem deixar descendência. 21O segundo casou-se com a viúva, e morreu sem deixar descendência. E a mesma coisa aconteceu com o terceiro. 22E nenhum dos sete deixou descendência. Por último, morreu também a mulher. 23Na ressurreição, quando eles ressuscitarem, de quem será ela mulher? Porque os sete se casaram com ela!” 24Jesus respondeu: “Acaso, vós não estais enganados, por não conhecerdes as Escrituras, nem o poder de Deus? 25Com efeito, quando os mortos ressuscitarem, os homens e as mulheres não se casarão, pois serão como os anjos do céu. 26Quanto ao fato da ressurreição dos mortos, não lestes, no livro de Moisés, na passagem da sarça ardente, como Deus lhe falou: ‘Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó’? 27Ora, ele não é Deus de mortos, mas de vivos! Vós estais muito enganados”.
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Viver na Fortaleza, Na Sobriedade e No Amor


Exorto-te a reavivar a chama do dom de Deus que recebeste pela imposição das minhas mãos. Pois Deus não nos deu um espírito de timidez mas de fortaleza, de amor e sobriedade”, escreveu São Paulo na Segunda Carta ao Timóteo que lemos na Primeira Leitura (2Tm 1,7).


Timóteo, para quem São Paulo dirigiu duas Cartas, era filho de mãe judia e pai grego (At 16,1-3). Desde pequeno ele aprendeu a Sagrada Escritura através da mãe, Eunice, e da avó, Lóide (2Tm 1,5). Ele aprendeu o Evangelho de São Paulo. Ele é companheiro inseparável de Paulo, a quem o apostolo Paulo confia missões importantes (1Ts 3,1ss; 1Cor 4,1.7; 16,10-11; At 19,22; Fl 2,19).  Uma vez evangelizado peo apostolo Paulo, Timóteo cumpre radicalmente a função de discípulo e missionário. Deixando seu pai e mãe, ele parte para a missão, com Paulo, nas terras da Macedônia e da Acaia superando dificuldades e perigos (At 17,13-14; 18,15). Na saudação dessa Segunda Carta, Timóteo é chamado “filho caríssimo” pelo Paulo. Como “filho caríssimo”, Timóteo é representante autorizado de Paulo (1Cor 4,17), e é a garantia de continuidade da missão evangelizadora herdada pelo Paulo.


Entre outras exortações, na Primeira Leitura de hoje, Paulo quer relembrar Timóteo sobre o espirito de fortaleza, de amor e de sobriedade dado por Deus: “Deus não nos deu um espírito de timidez, mas de fortaleza, de amor e sobriedade”.


Aqui são Paulo recorda para Timóteo três virtudes que ele deve manter vivas: a fortaleza diante das dificuldades, o amor que impulsionará para uma entrega total a Cristo e ao bem dos homens e a sobriedade (prudência) necessária para o governo do rebanho. Mantendo tudo isso, Timóteo será uma valente testemunha de Cristo para o mundo.


“Fortaleza, Amor e Sobriedade”, contrapostas ao medo e à preguiça, são três qualidades ligadas ao dom do Espírito, que todo cristão deve ter, e Timóteo é o protótipo.


A fortaleza é uma das virtudes morais. No At não se fala propriamente da fortaleza como virtude moral e sim como força física, na qual, poré, não se pode confiar (Sl 33,16) nem gloriar-se, mas deve ser considerada dom de Deus (Is 10,13). Para o AT quem tem a fortaleza deve estar consciente de que essa força vem de Deus. Por isso, para receber a força de Deus (fortaleza) da parte do homem são exigidas fé e esperança, condições necessárias (Sl 19,2; 27,14; 28,7; 33,20; 31,25). Por isso, podemos entender que no NT, Jesus, que foi ungido com espírito e poder, não procura a sua própria glória (Mt 4,3-7) e sim a glória do Pai e o cumprimento da vontade dele (Jo 5,30; 17,4). Precisamente, essa obediência  e humildade são a fonte de seus poderes.


 A fortaleza é o dom que sustentou os mártires nas dificuldades e provações em prol da fidelidade a Cristo. A fortaleza é o dom que nos impele a enfrentarmos corajosamente os obstáculos que se opõem à prática do bem. Quem tem esse dom, vive as palavras de São Paulo: “Tudo posso naquele que me fortalece” (Fl 4,13). A fortaleza apela ao testemunho corajoso que incluem o anúncio corajoso e a perseverança nas provações ou perseguições.


A sobriedade ou a temperança é a moderação pela qual permanecemos senhores de nossos prazeres, em vez de seus escravos. A sobriedade ou a temperança pertence à arte de desfrutar. A sobriedade ou a temperança é a prudência aplicada aos prazeres sem ultrapassar os limites. A sobriedade ou a temperança é um meio para a independência. Ao contrário, o intemperante é um escravo, um prisioneiro de seu corpo, de seus desejos ou de seus hábitos, prisioneiro de sua força ou de sua fraqueza. O sóbrio, o temperante sabe estabelecer limites para os desejos.


O amor não é uma virtude entre as outras virtudes. O amor é a virtude que ilumina, sustenta e dirige as demais virtudes. Sem o amor, todas as outras virtudes ficariam sem sentido: “Põe amor nas coisas e as coisas terão sentido. Retira-lhes o amor e se tornarão vazias” (Santo Agostinho, Serm. 138,2). Não há virtude autentica sem amor, pois somente o amor é capaz de levar alguém a estar em comunhão plena com Deus, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). Mas quando o NT fala de amor é sempre no sentido de ágape, isto é, o amor de benevolência que não espera nada em troca, pois é dom de si mesmo. O amor basta por si mesmo. Dizia Santo Agostinho: “Ama e faze o que queres” (Dilige et quod vis fac). A prática do bem, da bondade, da solidariedade, do perdão, da compaixão faz com que o amor se torne fortalecido e consolidado no coração de cada cristão.


Portanto, “Exorto-te a reavivar a chama do dom de Deus que recebeste pela imposição das minhas mãos. Pois Deus não nos deu um espírito de timidez mas de fortaleza, de amor e sobriedade


A esperança na ressurreição é a força capaz de ordenar as realidades humanas numa escala de valores


A discussão entre Jesus e autoridades passa agora do campo político-religioso para o campo puramente dogmático. Entram em cena os saduceus que Marcos cita somente na passagem do evangelho. O assunto é sobre a ressurreição.


Os saduceus são um grupo formado por pessoas ricas e por isso, são uma “classe separada”: fazendeiros e dominam os comércios da cidade. Eles pertencem às famílias sacerdotais dirigentes. Eles têm uma grande influência na política e na administração da justiça na Palestina. Eles são conservadores em termos da religião. Eles aceitam apenas a Tora (Pentateuco ou cinco primeiros Livros da Bíblia: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio). Eles não acreditam na vida depois da morte (ressurreição), pois não está escrita (explicitamente) no Pentateuco. Por isso, eles aplicam o ditado “Carpe diem” (aproveite o dia ou ser hedonista) ou salve-se quem puder. O divórcio entre eles é comum. Por não acreditar na vida após a morte, eles perguntam a Jesus a partir de um caso especial como conta o evangelho deste dia.


Jesus se baseia nas Escrituras (Mc 12,24) ainda que, depois, se limite a citar uma passagem do Pentateuco para se adaptar a seus interlocutores. A resposta de Jesus está contida nas duas frases praticamente idênticas: ”Vós estais enganados (Mc 12,24) e “Vós estais muito enganados” (Mc 12,27). Por dois motivos: Não conheceis as Escrituras nem o poder de Deus (Mc 12,24). A passagem que Jesus cita é Ex 3,1-12 onde se narra como Deus apareceu a Moisés na sarça. Nessa cena Deus se define como o Deus de Abraão, o Deus de Isaac, o Deus de Jacó, isto é, o Deus qua atua na história e que quer continuar sendo, com o homem, protagonista da história. O Deus de Abraão é o Deus dos vivos, o Deus fonte de vida. O homem que atua com Deus não pode ter como meta o fracasso da morte. A comunidade ou cada pessoa que tem a experiência com Jesus ressuscitado é um povo que vai além da história e é destinado para uma vida sem fim com Deus.


Além disso, Jesus olha para toda a revelação divina, inclusive a que teve lugar depois de Moisés na qual o conceito de ressurreição é evidente. Por exemplo, no Livro de Sabedoria onde se diz: “Deus criou o homem para a imortalidade” (cf. Sb 1,12-3,9; etc.). Para Jesus a vida dos ressuscitados é eterna, é imortal, como a dos anjos e por isso, não necessita perpetuar-se por geração.


Uma das coisas que sempre preocupam o homem é o seu destino final. O que passa depois da morte? Nós nos encontramos hoje diante da Palavra de Deus que toca um dos pontos mais difíceis de entender em nossa vida: a realidade da morte e a proposta cristã da Ressurreição. Ainda não entendemos as propostas cristãs da Ressurreição porque constantemente vivemos aferrados a uma falsa corporalidade pelo medo que nos inculcaram diante da realidade da morte. Cada dia os homens e as mulheres de nosso tempo vivem em um pânico constante diante da morte. Pânico que nos faz viver a vida de forma escrupulosa e de falsos moralismos.


Para o cristão, a resposta de Jesus ilumina este mistério e o faz viver em paz, pois agora sabe que não existe a morte e sim simplesmente uma transformação para quem vive no Senhor e com o Senhor e que se traduz na convivência fraterna com os demais.


A esperança na ressurreição é a força capaz de ordenar as realidades humanas numa escala de valores posta na vida eterna. Por isso, Jesus ensina que a vida eterna será dada na gratuidade e a universalidade na relação entre os homens, não haverá domínio de uns sobre outros, a existência será uma grande festa de vida eterna e plena. A ressurreição não pode ser entendida na perspectiva dos valores temporais. Isso é o que no texto significam os anjos.


Por outro lado, devemos entender no texto que Deus é um Deus dos vivos e não dos mortos. Devemos aprofundar sobre o mistério de um Deus que dá a vida, que transforma nosso ser, que nos ressuscita. Desta forma, o evangelista Marcos antecipa o conteúdo da ressurreição de Jesus como vida depois da morte e nos convida a descobrirmos o verdadeiro poder de Deus que transforma as forças da morte em forças de vida. O Deus que Jesus dá a conhecer é um Deus doador de vida e que deseja que as pessoas voltem a nascer de dentro com novos valores de vida e de justiça.


Diante da morte temos que ter uma atitude de acolhida e uma grande capacidade de tratá-la como fez São Francisco de Assis que chamava a morte de “a irmã Morte”, e diante da Ressurreição nós temos que entender o conteúdo de justiça que ela esconde.


A morte é um mistério, também para nós. Mas fica iluminada pela afirmação de Jesus: “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto viverá” (Jo 11,25). Não sabemos como, mas estamos destinados a viver, a viver com Deus, participando da vida pascal de Cristo, nosso irmão. A ressurreição é a morte de nossa morte para vivermos eternamente com Deus. Santo Agostinho nos dá o seguinte conselho: “Confia em Deus; Ele sempre dá o que promete. Sabe o que promete, porque é a verdade. Pode prometer porque é onipotente. Dispõe de tudo porque é a própria vida. Oferece todas as garantias porque é eterno” (In ps. 35,13). “Deus, de quem separar-se é morrer, a quem retornar é ressuscitar, com quem habitar é viver. Deus de quem fugir é cair, a quem voltar é levantar-se, em quem apoiar-se é estar seguro. Deus, a quem esquecer é morrer, a quem buscar é viver, a quem ver é possuir” (Solil. 1,1,3). “A perda (de nossos entes queridos) que sofremos oprime-nos o coração, mas a esperança nos consola; nossa fraqueza natural nos acabrunha, mas a fé nos ergue outra vez; nossa condição mortal nos faz derramarmos copiosas lagrimas, mas as promessas de Deus as enxugam, acrescentou Santo Agostinho.
 
P. Vitus Gustama,svd

sábado, 30 de maio de 2020

02/06/2020
CAMPANHA PARA A EVANGELIZAÇÃO - ppt carregarDai a César o que é de César, e dai a DEUS o que é de Deus! | O ...
O HOMEM, CRIATURA DE DEUS, É A IMAGEM DO DEUS ABSOLUTO
Terça-Feira do IX Semana Comum


Primeira Leitura: 2Pd 3,12-15a.17-18
Caríssimos, 12 esperais com anseio a vinda do Dia de Deus, quando os céus em chama se vão derreter, e os elementos, consumidos pelo fogo, se fundirão? 13 O que nós esperamos, de acordo com a sua promessa, são novos céus e uma nova terra, onde habitará a justiça. 14 Caríssimos, vivendo nesta esperança, esforçai-vos para que ele vos encontre sem mancha e em paz. 15ª Considerai também como salvação a longanimidade de nosso Senhor. 17 Vós, portanto, bem-amados, sabendo disto com antecedência, precavei-vos, para não suceder que, levados pelo engano desses ímpios, percais a própria firmeza. 18 Antes procurai crescer na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. A ele seja dada a glória, desde agora, até o dia da eternidade.


Evangelho: Mc 12,13-17
Naquele tempo, 13as autoridades mandaram alguns fariseus e alguns partidários de Herodes, para apanharem Jesus em alguma palavra. 14Quando chegaram, disseram a Jesus: “Mestre, sabemos que tu és verdadeiro, e não dás preferência a ninguém. Com efeito, tu não olhas para as aparências do homem, mas ensinas, com verdade, o caminho de Deus. Dize-nos: É lícito ou não pagar o imposto a César? Devemos pagar ou não?” 15Jesus percebeu a hipocrisia deles, e respondeu: “Por que me tentais? Trazei-me uma moeda para que eu a veja”. 16Eles levaram a moeda, e Jesus perguntou: “De quem é a figura e inscrição que estão nessa moeda?” Eles responderam: “De César”. 17Então Jesus disse: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. E eles ficaram admirados com Jesus.
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Viver o Presente Com Alegria Na Espera Da Vinda Gloriosa Do Senhor


Através do texto da Primeira Leitura o autor da Carta de Pedro nos convida a olharmos para o futuro vivendo bem o nosso hoje. “Caríssimos, esperais com anseio a vinda do Dia de Deus, quando os céus em chama se vão derreter, e os elementos, consumidos pelo fogo, se fundirão? O que nós esperamos, de acordo com a sua promessa, são novos céus e uma nova terra, onde habitará a justiça”. O cristão vive em uma tensão para o futuro na espera da vinda do Senhor. A vinda do Senhor, seja próxima ou distante, deve iluminar e dar sabedoria para nossa vida diária.


Alinguagem do texto é apocalíptica: “Os céus em chama se vão derreter, e os elementos, consumidos pelo fogo, se fundirão”. Quando se passa do “dia dos homens” para o “Dia de Deus” é como se com fogo se destruísse uma cidade para construir outra nova. Não se passa deste mundo para o mundo de Deus em uma continuidade total. Segundo o autor da Carta não há que imaginar a eternidade como uma continuidade indefinida do tempo. Há uma ruptura.


Mas não podemos viver no pessimismo e sim otimismo, pois são apenas imagens que não devem ser tiradas em sentido material. Pelo contrário, deixemo-nos capturar pela extraordinária esperança que estas palavras sugerem: isto será para permitir o advento radical do mundo de Deus, o mundo da justiça, da beleza, do amor, da santidade. a vinda do mundo de Deus é a destruição total de toda injustiça, de toda feiúra, de todo egoísmo, de todo mal!


Com efeito, os cristãos deveriam ser encontrados por Deus entre os primeiros em fazer crescer na terra essa justiça que será triunfante no mundo novo prometido por Deus: “O que nós esperamos, de acordo com a sua promessa, são novos céus e uma nova terra, onde habitará a justiça”. Para que tudo isso aconteça conforme a promessa devemos nos esforçar para viver sem mancha, para viver em paz, para viver em justila sem nos deixar cair na mentira do mundo. Em resumo: “Procurai crescer na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo”. Se confiarmos plenamente nossa vida no Senhor, viveremos com alegria apesar das dificuldades que tem caráter passageiro.


Por isso, “Esforçai-vos para que Ele vos encontre sem mancha e em paz. Precavei-vos, para não suceder que, levados pelo engano desses ímpios, percais a própria firmeza. Procurai crescer na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo”, são conselhos e advertências do autor da Segunda Carta de São Pedro que lemos na Primeira Leitura de hoje.


Esta advertência é a consequência da vinda de Deus. Em outras palavras, o que devemos fazer como preparação para a vinda de Deus, embora o momento seja desconhecido, mas a própria vinda de Deus é certa? Quem espera a vinda de Deus deve viver uma vida sem mácula e irrepreensível, em paz. “Paz” neste contexto não se trata da tranquilidade do espirito e sim da salvação escatológica que agora já cabe ao batizado como fruto  da reconciliação com Deus por Jesus Cristo.


A Eucaristia que celebramos é alimento, luz e força para o caminho enquanto esperamos a gloriosa vinda de nosso Salvador, Jesus Cristo. Com o olhar posto na Páscoa de Jesus, vivamos com firmeza o nosso hoje apesar de seus desafios e dificuldades. Deus terá a última palavra sobre cada ser humano.


Nós Pertencemos Ao Senhor. Somos De Deus


Estamos no segundo episódio de choque entre as autoridades e Jesus (veja o primeiro em Mc 11,27-33). Estes dois choques têm a mesma ideia de fundo: indagar sobre a consciência que Jesus tem de si mesmo e de sua missão. Na resposta precedente, dada em forma de parábola (Mc 12,1-12), aparece sua consciência messiânica e, portanto, sua missão de libertador do povo. Mas como, de quem e de que Jesus liberta o povo?


No episódio do evangelho lido neste dia entram em ação alguns fariseus e herodianos (do partido de Herodes) enviados pelo Sinédrio que não pode pegar Jesus por causa do povo (medo do povo. O povo apesar de não ter cargo e de ser pobre causa medo nas autoridades por se tratar de uma maioria na sociedade.  A esse povo que os candidatos para o poder público “mendigar” voto de confiança). Esses dois grupos (fariseus e herodianos) já decidiram há muito tempo em eliminar Jesus (Mc 3,6). Agora querem apanhá-Lo “em alguma palavra”. A armadilha é essencialmente política, mas se disfarça, hipocritamente, de religiosidade e de adulação. Eles chamam Jesus de “Mestre”, algo insólito entre os fariseus e O definem como “verdadeiro” e que Jesus ensina o caminho de Deus.


Os fariseus e os herodianos apresentam a Jesus um problema ou um dilema aparentemente insolúvel: “Mestre, sabemos que tu és verdadeiro, e não dás preferência a ninguém. Com efeito, tu não olhas para as aparências do homem, mas ensinas, com verdade, o caminho de Deus. Dize-nos: É lícito ou não pagar o imposto a César? Devemos pagar ou não?”


Jesus relativiza o insolúvel problema introduzindo Deus no horizonte do problema: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus. Quando o ser humano conta com Deus, tudo tem sua solução. O surpreendente de Jesus é que quando introduz Deus Ele não faz discursos sobre Deus. Jesus simplesmente vive de Deus, fala com Ele, O presente e O sente. Para Jesus Deus é Alguém, e não algo. É Alguém com quem conta em quaisquer momentos. É Alguém com quem Jesus convive. “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30).


Jesus lhes pede a moeda para a imagem incisa na moeda. Na moeda estava incisa a imagem de Tibério com a coroa de laurel para indicar sua dignidade divina, e a inscrição: Tibério César, filho do divino Augusto. Os fariseus e os herodianos tinham a moeda e a levavam ao Templo. Isto significa que eles profanaram o Templo com uma imagem de um pagão. Mas o que interessa ao evangelista Marcos é outra coisa: o ensinamento de Jesus é o único que tem valor para a comunidade cristã. Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. Logicamente, o ensinamento está na segunda parte: “Devolva a César o que é de César”. Podem ser propriedade uma moeda e um território, mas cada homem é propriedade de Deus, feito a imagem de Deus.


Devolva a Cesar o que é do César”, diz Jesus. Mas somente devolver o que é do César e não tudo o que o poder pretende com todo seu aparato coercitivo. Por isso, Jesus acrescenta: “Devolva a Deus o que é de Deus”. Isto significa que nem tudo é do César, ou seja, que o poder do Estado não é absoluto. Na linguagem política os limites do poder político radicam na soberania popular, no reconhecimento e na declaração dos direitos humanos. Na linguagem espiritual ou religiosa o que se enfatiza é que os poderes do Estado ou qualquer poder estão limitados pela soberania de Deus, pois Deus criou o homem a sua imagem e semelhança. Assim expressa o profeta Isaias do seguinte modo: “Eu sou Deus. Não há outro Deus fora de mim” (cf. Is 45,20-25). A existência de Deus, o Absoluto, é a negação de qualquer outro que se apresente como absoluto. Só há um Deus, o resto não é Deus.


Na verdade, aqui não há uma verdadeira oposição, baseada no Evangelho, entre o que é do César e o que é Deus. Dar ou devolver a Deus o que é lhe devido implica que seja dado a César o que somente lhe pertence. O Reino de Deus não se situa fora dos reinos terrestres que são assumidos por Deus em Jesus Cristo. Por isso, não se pode ser cristão autentico à margem das realidades. O cristão é chamado e enviado para ser o sal e a luz do mundo (cf. Mt 5,13-16) para que ninguém explore ninguém, pois todos são filhos do mesmo Pai. O cristão na vida política deve ser justo. A obediência cívica não pode estar em contradição com deveres com Deus. Jesus respeita a autonomia do poder político, mas ao mesmo tempo afirma implicitamente que as estruturas políticas, representadas neste caso pelo imperador romano, não podem nunca ser divinizadas. Somente Deus é Deus.


Às vezes podemos cair na tentação de pensar que o evangelho e a vida cristã se reduzem à mera vida espiritual. O evangelho de hoje nos mostra que não é assim. A vida do evangelho toca todas as áreas da vida, e entre elas a vida econômica e a da justiça. “Devolva a César o que é do César e a Deus o que é de Deus” é o princípio da justiça equitativa, que, todavia, está longe da justiça cristã. Pagar o que se deve são deveres elementares de justiça. A injustiça não cabe na vida do cristão. Devolvamos a cada um o que lhe é próprio e nossa vida se encherá de paz e de alegria. Podemos até ganhar na justiça humana. Mas precisamos estar conscientes de que ainda resta a justiça divina, como diz São Paulo: “Todos nós teremos de comparecer manifestamente perante o tribunal de Cristo, a fim de que cada um receba a retribuição do que tiver feito durante sua vida no corpo, seja para o bem, seja para o mal” (2Cor 5,10).


“Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. Com sua resposta, Jesus não põe Deus e o César no mesmo plano e muito menos considera como independentes ambas realidades. É idolatria colocar em pé de igualdade Deus e César, o Criador e as criaturas (César). O âmbito da criatura é limitado, pois a criatura está cheia de limitações. O Criador tem tudo sob seu domínio. Por isso, Jesus jamais se submetia aos tiranos deste mundo que são simplesmente criaturas limitadas cuja existência neste mundo tem seu fim.
P. Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 29 de maio de 2020

01/06/2020
DECRETO SOBRE MARIA MÃE DA IGREJA - Província BSPMaria, Mãe da Igreja
BEM-AVENTURADA VIRGEM MARIA, MÃE DA IGREJA
Segunda-feira Após Pentecostes
Memória
Primeira Leitura: Gn 3,9-15.20
9 O Senhor Deus chamou Adão, dizendo: “Onde estás?” 10 E ele respondeu: “Ouvi tua voz no jardim, e fiquei com medo porque estava nu; e me escondi”. 11 Disse-lhe o Senhor Deus: “E quem te disse que estavas nu? Então comeste da árvore, de cujo fruto te proibi comer?” 12 Adão disse: “A mulher que tu me deste por companheira, foi ela que me deu do fruto da árvore, e eu comi”. 13 Disse o Senhor Deus à mulher: “Por que fizeste isso?” E a mulher respondeu: “A serpente enganou-me e eu comi”. 14 Então o Senhor Deus disse à serpente: “Porque fizeste isso, serás maldita entre todos os animais selvagens! Rastejarás sobre o ventre e comerás pó todos os dias da tua vida! 15 Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar”. 20 E Adão chamou à sua mulher “Eva”, porque ela é a mãe de todos os viventes.


Evangelho: Jo 19,25-34
Naquele tempo, 25 perto da cruz de Jesus, estavam de pé a sua mãe, a irmã da sua mãe, Maria de Cléofas, e Maria Madalena. 26 Jesus, ao ver sua mãe e, ao lado dela, o discípulo que ele amava, disse à mãe: “Mulher, este é o teu filho”. 27 Depois disse ao discípulo: “Esta é a tua mãe”. Daquela hora em diante, o discípulo a acolheu consigo. 28 Depois disso, Jesus, sabendo que tudo estava consumado, e para que a Escritura se cumprisse até o fim, disse: “Tenho sede”. 29 Havia ali uma jarra cheia de vinagre. Amarraram numa vara uma esponja embebida de vinagre e levaram-na à boca de Jesus. 30 Ele tomou o vinagre e disse: “Tudo está consumado”. E, inclinando a cabeça, entregou o espírito. 31 Era o dia da preparação para a Páscoa. Os judeus queriam evitar que os corpos ficassem na cruz durante o sábado, porque aquele sábado era dia de festa solene. Então pediram a Pilatos que mandasse quebrar as pernas aos crucificados e os tirasse da cruz. 32 Os soldados foram e quebraram as pernas de um e depois do outro que foram crucificados com Jesus. 33 Ao se aproximarem de Jesus, e vendo que já estava morto, não lhe quebraram as pernas; 34 mas um soldado abriu-lhe o lado com uma lança, e logo saiu sangue e água.
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Razão Da Memória


A memória da Virgem Maria, Mãe da Igreja, foi incluída no Calendário romano pelo Papa Francisco através do Decreto: Ecclesia Mater, publicado pela Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, no dia 11 de Fevereiro de 2018.


O Papa Francisco estabelece que, para toda a Igreja de Rito Romano, a memória de Maria, Mãe da Igreja torne-se obrigatória nas segundas-feiras depois do Pentecostes. Para o Papa Francisco, a Virgem Maria é Mãe de Cristo e com Cristo é Mãe da Igreja: “De certa forma, este fato, já estava presente no modo próprio do sentir eclesial a partir das palavras premonitórias de Santo Agostinho e de São Leão Magno. De fato, o primeiro diz que Maria é a mãe dos membros de Cristo porque cooperou, com a sua caridade, ao renascimento dos fiéis na Igreja. O segundo, diz que o nascimento da Cabeça é, também, o nascimento do Corpo, o que indica que Maria é, ao mesmo tempo, mãe de Cristo, Filho de Deus, e mãe dos membros do seu corpo místico, isto é, da Igreja. Estas considerações derivam da maternidade divina de Maria e da sua íntima união à obra do Redentor, que culminou na hora da cruz”, diz o Decreto.


“A Mãe, que estava junto à cruz (cf. Jo 19, 25), aceitou o testamento do amor do seu Filho e acolheu todos os homens, personificado no discípulo amado, como filhos a regenerar à vida divina, tornando-se a amorosa Mãe da Igreja, que Cristo gerou na cruz, dando o Espírito. Por sua vez, no discípulo amado, Cristo elegeu todos os discípulos como herdeiros do seu amor para com a Mãe, confiando-a a eles para que estes a acolhessem com amor filial”, continuou o Decreto.


Para o Papa Francisco, através desta Memória a vida cristã pode crescer se for enraizada no mistério da Cruz, na Eucaristia e no SIM incondicional da Virgem Maria: “Esta celebração ajudará a lembrar que a vida cristã, para crescer, deve ser ancorada no mistério da Cruz, na oblação de Cristo no convite eucarístico e na Virgem oferente, Mãe do Redentor e dos redimidos”, finalizou o Decreto.


Quando fala sobre Maria, a Mãe da evangelização, na sua exortação apostólica Evangelii Gaudium, o Papa Francisco escreveu: “Como Mãe de todos, (Maria) é sinal de esperança para os povos que sofrem as dores do parto até que germine a justiça. Ela é a missionária que Se aproxima de nós, para nos acompanhar ao longo da vida, abrindo os corações à fé com o seu afeto materno. Como uma verdadeira mãe, caminha connosco, luta connosco e aproxima-nos incessantemente do amor de Deus. Através dos diferentes títulos marianos, geralmente ligados aos santuários, compartilha as vicissitudes de cada povo que recebeu o Evangelho e entra a formar parte da sua identidade histórica. Muitos pais cristãos pedem o Batismo para seus filhos num santuário mariano, manifestando assim a fé na ação materna de Maria que gera novos filhos para Deus. É lá, nos santuários, que se pode observar como Maria reúne ao seu redor os filhos que, com grandes sacrifícios, vêm peregrinos para A ver e deixar-se olhar por Ela. Lá encontram a força de Deus para suportar os sofrimentos e as fadigas da vida. Como a São João Diego, Maria oferece-lhes a carícia da sua consolação materna e diz-lhes: ‘Não se perturbe o teu coração. (...) Não estou aqui eu, que sou tua Mãe?’” (n.286).


No seu livro A Alegria De Ser Discípulo (Ed. Best Seller, Rio de Janeiro,2017 p.138), o Papa Francisco escreveu: “Nossa peregrinação de fé está inseparavelmente ligada a Maria desde que Jesus, ao morrer na cruz, deu-a a nós como nossa Mãe, dizendo: ‘Eis aí tua mãe!’ (Jo 19,27). Essas palavras servem como um testamento, legando uma mãe ao mundo. A partir desse momento, a Mãe de Deus também se tornou nossa Mãe! Quando a fé dos discipulos foi muito testada por dificuldades e incertezas, Jesus os confiou a Maria, que foi a primeira a acreditar e cuja fé nunca falhou. A “mulher” se tornou nossa mãe quando ela perdeu seu divino Filho. Seu coração sofrido se ampliou para dar espaço a todos os homens e mulheres – todos, sejam bons ou maus -, e ela os ama como amava Jesus. A mulher que nas bodas de Caná, na Galileia, deu sua cooperação chei de fé para que as maravilhas de Deus pudessem ser exibidas ao mundo, manteve no Calvário, viva, a chama da fé na ressurreição de seu Filho, e ela comunica isso a cada pessoa, com carinho materno. Maria se torna, dessa forma, uma fonte de esperança e de alegria verdadeira”.
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As leituras são escolhidas em função desta Memória: Gn 3,9-15.20 (Primeira Leitura) e Jo 19,25-34 (Evangelho).


O Gn 3 se refere à situação criada pelo pecado original. Deus intervém como um Juiz no quadro de um processo. Deus interroga os culpáveis, estabelece as responsabilidades e fixa as sanções.


Adão e Eva, os primeiros pais, pensaram que comendo o fruto daquela árvore proibida seriam como deuses, isto é, creram e escolheram e desejaram ser eles mesmos os donos de tudo, o critério último de tudo.


Quando o Gênesis nos narra que Deus proibiu comer da árvore da ciência do bem e do mal, nos quer dizer que Deus não queria que os homens se considerassem os proprietários particulares do bem e do mal; não queria que este ou aquele homem chegasse a dizer: “Isso é bom, e isso é mau, porque eu o digo, porque eu quero, porque isso vai ser bom para mim e os demais que me compreendam e me aguentem!”. O plano de Deus, o projeto de Deus, era outro, e não abandonava pelos caminhos da autossuficiência e da insolidariedade e sim pelos caminhos do amor, da partilha, da paz e da harmonia.


E os homens, desde o princípio, romperam este projeto de Deus, e assim estraga ou deforma toda a história humana, pois sem amor, sem paz e sem ordem não haverá a harmonia. “A paz é a tranquilidade da ordem”, dizia Santo Agostinho. E esta ruptura, esta marca que desde o princípio os homens puseram na história, chegou até nós. É isso que chamamos “pecado original” e origina outros pecados. Somos também marcados, de muitas formas, por essa ruptura, esse mal, esse pecado: queremos ser dono de nossa vida, esquecendo-nos que a vida é um dom maior recebido de Deus. O ser humano é um ser vincular. O vínculo é a medula de sua existência. Para tornar-nos aptos, competentes, necessitamos, imprescindivelmente, de colaboração e de ajuda dos outros. O vínculo nos leva a termos o sentimento de pertença. Através da vivência desse sentimento de pertença aprendemos a receber algo de bom dos outros e a dar aos outros o que temos de bom.


Porém, não se trata agora de ficarmos assim, lamentando por estar marcados desse modo, pois precisamente nossa fé nos diz que Deus não quis para sempre esta marca, esta ruptura. Deus não permitiu que os homens fossem condenados para sempre a não poder nos levantar do mal que desde o princípio nos ata. E por isso, ao final da mesma leitura que nos fala da condenação dos primeiros pais, escutamos o anúncio que Deus diz: da estirpe da mulher, ia surgir alguém capaz de destruir o mal e a morte, e de refazer a vida dos homens. Alguém, um homem como nós, Jesus Cristo. Com Cristo será criado novamente o caminho do amor, da paz e da unidade entre os homens. Ele, Jesus Cristo, um homem como nós, um homem que é o Filho de Deus, reconstrói esse caminho: amando totalmente até o fim (Jo 13,1) a ponto de dar a vida pela nossa salvação.


Fomos salvos por Jesus Cristo, que é o Filho de Maria. Por Jesus Cristo, que se fez presente neste mundo graças ao amor, à fidelidade, à generosidade daquela Virgem de Nazaré que se chamava MARIA, e que hoje recordamos nesta Memória, como Mãe da Igreja, de todos, e portanto, Mãe de cada um de nós em particular. Sua atitude de disponibilidade, de colaboração na obra redentora, de confiança incondicional em Deus e de esperança ativa torna Maria um modelo que merece ser seguido pelos cristãos, por todos nós.


Quando na fé se dá espaço ao absoluto primado de Deus, a consequência lógica de ser habitado, de ser amado por Deus é sair de si, viver o êxodo sem regresso, que é o amor. O acolhimento da gratuidade do amor eterno torna-se a doação gratuita de tudo que se recebeu. Quem crê e vive da fé, tem capacidade de olhar para fora, aprecia o dom e o comunica. Certamente, respeitamos o dom de Deus quando nos tornamos arca irradiante e quando o restituímos a Deus, que nos estende a mão nos nossos irmãos. Nisto tudo, Maria é nosso grande espelho.


“Virgem e Mãe Maria,
Vós que, movida pelo Espírito,
Acolhestes o Verbo da vida
Na profundidade da vossa fé humilde,
Totalmente entregue ao Eterno,
Ajudai-nos a dizer o nosso ‘sim’
Perante a urgência, mais imperiosa do que nunca,
De fazer ressoar a Boa Nova de Jesus” (Papa Francisco: Evangelii Gaudium).
P. Vitus Gustama,SVD

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Domingo,31/05/2020
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PENTECOSTES
I Leitura: At 2,1-11
1Quando chegou o dia de Pentecostes, os discípulos estavam todos reunidos no mesmo lugar. 2De repente, veio do céu um barulho como se fosse uma forte ventania, que encheu a casa onde eles se encontravam. 3Então apareceram línguas como de fogo que se repartiram e pousaram sobre cada um deles. 4Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito os inspirava. 5Moravam em Jerusalém judeus devotos, de todas as nações do mundo. 6Quando ouviram o barulho, juntou-se a multidão, e todos ficaram confusos, pois cada um ouvia os discípulos falar em sua própria língua. 7Cheios de espanto e admiração, diziam: “Esses homens que estão falando não são todos galileus? 8Como é que nós os escutamos na nossa própria língua? 9Nós, que somos partos, medos e elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, 10da Frígia e da Panfília, do Egito e da parte da Líbia próxima de Cirene, também romanos que aqui residem; 11judeus e prosélitos, cretenses e árabes, todos nós os escutamos anunciarem as maravilhas de Deus em nossa própria língua!”


II Leitura: 1Cor 12,3b-7.12-13
Irmãos: 3bNinguém pode dizer: Jesus é o Senhor, a não ser no Espírito Santo. 4Há diversidade de dons, mas um mesmo é o Espírito. 5Há diversidade de ministérios, mas um mesmo é o Senhor. 6Há diferentes atividades, mas um mesmo Deus que realiza todas as coisas em todos. 7A cada um é dada a manifestação do Espírito em vista do bem comum. 12Como o corpo é um, embora tenha muitos membros, e como todos os membros do corpo, embora sejam muitos, formam um só corpo, assim também acontece com Cristo. 13De fato, todos nós, judeus ou gregos, escravos ou livres, fomos batizados num único Espírito, para formarmos um único corpo, e todos nós bebemos de um único Espírito.


Evangelho: Jo 20.19-23
19Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou e, pondo-se no meio deles, disse: “A paz esteja convosco”. 20Depois dessas palavras, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos se alegraram por verem o Senhor. 21Novamente, Jesus disse: “A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, também eu vos envio”. 22E, depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: “Recebei o Espírito Santo. 23A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem não os perdoardes, eles lhes serão retidos”.
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Pentecostes: Plenitude Da Páscoa


Celebramos hoje a festa de Pentecostes. Pentecostes é a culminação do mistério pascal. Em Pentecostes celebramos a Páscoa em sua plenitude. De fato, desde o primeiro dia dos cinquenta dias do tempo pascal, estamos celebrando o mistério pascal como vitória de Cristo. Neste dia celebramos o Espirito como dom pascal de Cristo glorificado, o mistério da Igreja como obra do Espirito e a missão evangelizadora que o Espirito impulsiona.


A palavra “Pentecostes” vem do grego “pentekostê” significa exatamente “quinquagésimo” dia (cf. Tb 2,1; 2Mc 12,32). Originalmente “Pentecostes” era uma festa agrícola na qual se agradecia a Deus a colheita da cevada e do trigo, por volta de maio-junho, isto é, ocorre no “quinquagésimo” dia depois da Páscoa.


Pentecostes ou “festa das semanas” era a festa israelita celebrada sete semanas depois da Páscoa, quando terminava a colheita (Ex 34,22; Nm 28,26). No século I d.C., de festa agrícola tornou-se a festa histórica em que se lembrava o dom da Lei no Sinai e a constituição do povo, libertado da escravidão do Egito, como povo de Deus. Por isso, o barulho, o vento e a violência mencionados em At 2,2 (Primeira Leitura: At 2,1-11), são típicos da aliança do Sinai (Ex 19,6). O vento vem do céu como o que sopra sobre a montanha (Ex 19,3; Dt 4,36). As línguas de fogo também se explicam no contexto do Sinai (At 2,3).  Estas línguas foram do fogo como se relata em Ex 19,18; 24,17, bem como em Dt 4,15; 5,5, que na teofania do Sinai, mostram Javé (Deus) falando na flama (chama).


Assim, para os primeiros cristãos, Pentecostes aparece como a inauguração da Nova Aliança e a Promulgação de uma lei que não é mais gravada sobre a pedra e sim no Espírito e na liberdade (At 2,4; cf. Ez 11,19; 36,26). O essencial é este: Deus não dá apenas uma lei, mas seu próprio Espírito através de vários carismas ou dons.


A menção da “multidão”, “plêthos” (At 2,6) é uma alusão à promessa feita a Abraão de um dia ser pai de uma “multidão” (plêthos) de nações (Gn 17,4-5; Dt 26,5). Aqui as nações estão presentes de modo simbólico, pois a multidão é composta apenas de judeus que deixaram provisória ou definitivamente sua Diáspora para vir a Jerusalém em peregrinação ou para ai se estabelecer (At 2,9-10). A lista das nações é bastante heteróclita (distinta), a menção dos crentes e dos árabes (At 2,11). Simbolicamente trata-se da universalidade. Isto significa que a Igreja nasceu universal (a Igreja é católica, universal), e a aliança que o Espírito concluiu com a Igreja interessa ou serve para toda a humanidade pela sua salvação. E por ser universal, a Igreja será sempre missionária até o fim dos tempos a serviço de todas as línguas e de todas as culturas e de todos os povos. O cristão é batizado para ser missionário.


Além de tudo isso, ao afirmar que O Espírito Santo tinha descido sobre os discípulos justamente no dia de Pentecostes, Lucas nos quis ensinar só uma coisa: que o Espírito Santo tinha substituído a Lei antiga e ele se torna a nova Lei para os cristãos. Qual é a Lei do Espírito Santo? É o coração novo, é a vida de Deus que, quando penetra no ser humano o transforma e produz naturalmente as obras de Deus. Quando o homem é permeado pelo Espírito Santo, nele acontece algo inaudito: ama com o mesmo amor de Deus. João chega a dizer que o homem animado pelo Espírito Santo é simplesmente incapaz de pecar: “Todo aquele que nasceu de Deus não comete pecado, porque sua semente permanece nele; ele não pode pecar porque nasceu de Deus” (1Jo 3,9).


A narrativa da vinda do Espírito Santo nos Atos dos Apóstolos (At 2,1-11) é muito simples. Os discípulos de Jesus estão reunidos numa sala. Do céu vem um barulho, como de forte vendaval, e enche a casa. Aparecem línguas de fogo, que pousam sobre cada um. Esses elementos: barulho, vento e fogo, são típicos das manifestações de Deus. Significam que Deus está agindo.


O Espirito Santo Como Dom


O fato de tudo isso vir “do céu” indica o dom de Deus, isto é, o Espírito Santo não é uma invenção dos cristãos, mas um dom que lhes foi dado, conforme a promessa de Jesus (Jo 14,15-17). O ES não é um produto da sugestão humana. Ele é uma força irresistível que foge ao controle e às manipulações humanas. Ele sopra para onde quer (cf. Jo 3,8)


O que significa que o ES é um Dom?


Primeiro, a descrição do ES como Dom enfatiza o fato de que estamos no Reino da Graça. Isto significa que Deus derrama seu Espírito e seus dons sobre o seu povo, não como promoção por suas realizações, e sim na liberdade de sua misericórdia e graça. Deus não exige um pagamento velado em troca de seus dons. Seus dons levam a consequências que mudam a vida, sem quaisquer precondições, exceto a vontade para que recebamos o dom. O Dom do Espírito Santo, então, nos faz lembrar que não estamos vivendo num mundo calculista de benefícios conferidos em proporção às condições atendidas, mas no reino de um Pai gracioso, que derrama generosamente seu Espírito, em graça livre e incondicional para todos nós.


Segundo, a descrição do Espírito Santo como um Dom enfatiza o fato de que estamos no Reino dos relacionamentos dinâmicos, do movimento que vem de um doador para um receptor, de abertura de uma pessoa para outra. A palavra Espírito Santo é uma palavra que tem significado apenas num relacionamento. Ele é o que é e faz tudo o que faz apenas dentro de uma rede de relacionamentos divinos e divino- humanos.


Terceiro, quando descrevemos o ES como um Dom, estamos deixando claro que nos encontramos no campo pessoal. Um dom só é um dom, no sentido apropriado da expressão, quando incorpora a intenção de um doador no sentido de dá-lo, e é recebido como dom apenas quando o receptor reconhece essa intenção. Uma vaca não dá o leite; o leite é tirado dela. O ES transmite e expressa o amor a todos nós e nós o recebemos, por isso é que ele é um dom. Quando Deus em Cristo nos doa o Espírito, ele nos doa nada menos que a si mesmo. Por isso, o Dom é um sujeito, vivo, atuante, que ama, soberano e livre.


O Espirito Santo Possibilita Comunicação


Conforme o texto, o ES se manifesta simbolicamente como “línguas de fogo”. A língua é instrumento de comunicação, de fala, e dá origem à linguagem, que é o meio dos seres humanos se comunicarem. Mas São Tiago (Tg 3,1-10) alerta que a língua pode desviar o homem do caminho de Deus e pode transtornar sua vida e desvia a linguagem do seu uso correto.  Segundo São Tiago, a língua, por menor que seja, é uma força devastadora capaz de pôr a vida a perder. O poder da língua pode sujar o corpo inteiro, tanto para quem fala como também o corpo no sentido de uma comunidade inteira. Temos impressão de que muita gente ainda não consegue domesticar a língua por isso causa a inquietação e o sofrimento em muitas pessoas.


O fato de o ES se manifestar simbolicamente como “línguas de fogo” nos leva diretamente ao seu significado que o dom do ES não é para a edificação pessoal, mas para a comunicação, e concretamente, para a comunicação da “boa notícia” do Evangelho, que transforma as relações e faz surgir a fraternidade e a partilha que podem proporcionar liberdade e vida para todos.


Efeitos Do Espirito Santo


O efeito do dom do ES ou a ação interior e transformadora do ES torna-se externamente uma nova capacidade de comunicação: conforme o texto (At 1,4) “começaram a falar outras línguas”. Mas não se trata do fenômeno como falar em línguas que ninguém compreende. Falar em línguas incompreensíveis não comunica nada a ninguém. A linguagem foi feita para produzir comunicação entre as pessoas. Trata-se aqui claramente, do horizonte universal e ecumênico do novo povo mobilizado pela força unificante do ES. Poder-se-ia ver neste elenco de povos, reunidos para escutar a voz do ES na própria língua nativa, uma referência à dispersão dos povos e à confusão das línguas depois de Babel (Gn 11,1-9). A humanidade, dispersa e dividida depois da tentativa de construir um imperialismo religioso- político, é reunida pela força do ES que unifica os diferentes grupos humanos, respeitando e promovendo as características culturais, das quais a língua é expressão. Nem a força ou a repressão, nem a planificação econômica ou política podem assegurar a unidade dos povos ou dos grupos, mas sim o poder interior do ES, que promove com a liberdade e o amor novas relações e cria espaços alternativos de comunicação.


O ES produz unidade ao mesmo tempo que promove diferentes maneiras de servir, (1Cor 12,3-7.12-13). Ele é a força criadora de diferenças e de comunhão entre as diferenças. É ele que suscita entre as pessoas os mais diversos dons e nas comunidades os mais diferentes serviços e ministérios, como se ensina nas cartas aos Romanos (Rm 12) e aos Coríntios(12). Mas esta diversidade não decai em desigualdades e discriminações porque bebemos da mesma fonte que é o Espírito Santo (1Cor 12,13). Os dons não são dados para a autopromoção, mas para o bem da comunidade (1Cor 12,7). O Espírito Santo interfere para melhorar e não para atrapalhar a comunicação da Igreja de Jesus Cristo. A comunidade fundada em Pentecostes (no Espírito Santo) é um lugar de diálogo, de encontro, de comunicação, de unidade (não necessariamente uniformidade), de acolhimento. O erro não está em sermos diferentes. O erro está em sermos divididos. A comunidade nascida em Pentecostes não é o lugar da lei que mata mas é o lugar do Espírito Santo, isto é, o lugar da abertura e da vida, do reconhecimento e do despertar, o lugar de uma libertação fundada no amor. O amor é o caminho para Deus, o único carisma realmente imprescindível na vida cristã, o carisma que jamais cessará.


O ES habita os corações das pessoas (1Cor 3,16), dando-lhes entusiasmo, coragem e determinação. Ele consola os aflitos e mantém viva a esperança. Ele nos consola, exorta e ensina como as mães fazem junto a seus filhinhos (Jo 14,26;16,13).


O Espirito Santo E Seus Frutos Na Vida Cristã


Outros frutos do Espírito Santo são o amor, a bondade, moderação e autocontrole, cortesia, mansidão e longanimidade, jovialidade e paz (veja Gl 5,22-24).


Segundo Gálatas, o amor que é o fruto do ES se expressa através de cordialidade, simpatia, coração bom. Trata-se de uma atitude típica da interioridade; é a disposição interior para o pensar bem, para o falar bem, para o agir bem. O amor traduzido com cordialidade, simpatia (simpatia vem do grego sumpáscho que significa igualar-se ao outro, ter uma atitude de profunda sintonia com o outro), coração aberto é a capacidade imediata de entender os sofrimentos e as alegrias de quem está perto de nós; é um coração espaçoso, raiz de toda a moral do NT. O amor é a virtude pela qual resplandecem até mesmo as coisas mais pequenas, e os gestos mais simples se tornam belos e construtivos. Tudo que se faz com amor, por pequeno que seja, se torna uma obra prima. E nada vale aquilo que se faz sem amor, por maior que ele seja.


A bondade é fruto do ES. A bondade é um reflexo da atitude divina. Ela é a prerrogativa daquele que se compraz em fazer por primeiro o bem, em suscitar sempre e somente o bem ao seu redor. Ela é uma qualidade criativa(tudo que Deus criou era bom. cf. Gn 1). Nossa bondade é nada mais que uma participação, no ES, da característica divina, e por isso, é bela, criativa, fascinante, capaz de suscitar uma sociedade nova. Nenhum coração resiste diante da bondade. Se a bondade é fruto do ES, então, ela é um dom a ser invocado, a ser implorado, dispondo-nos a acolhê-lo com humildade e reconhecimento.


Outro fruto do ES é a moderação. A palavra que se usa em grego é epieíkeia (ocorre 7 vezes no NT) que significa respeito, afabilidade, acessibilidade, moderação, flexibilidade e equilíbrio ao aplicar as leis, as regras; é capacidade de saber prever também as oportunas exceções às regras. Trata-se de uma atitude fundamental na vida social. O contrário da moderação é a arrogância, a petulância, a rudez, a presunção, a falta de educação etc.


O domínio de si ou autocontrole, que é outro fruto do ES, está muito ligado à moderação. É uma atitude que exige de si o respeito pelo outro, mantendo sob controle os próprios sentimentos ou instintos de poder e de prevaricação, de ser oportunista diante da fragilidade do outro. O autocontrole evita todo senso de superioridade e toda violência física, verbal e moral nos relacionamentos; evita a exploração da dignidade alheia; evita a busca da própria vantagem, do próprio prazer em prejuízo da dignidade ou do interesse de alguém. É uma virtude social fundamental.


A cortesia é outro fruto do ES. Ela é a atitude de Deus em relação ao homem, o modo com o qual o Senhor se comporta conosco, segundo o que Jesus diz: “Ele é benévolo (chrestós) para os ingratos e para os maus” (cf. Lc 6,35). A cortesia é a arte de acolher, de ir ao encontro do outro fazendo-o sentir que é bem-vindo, esperado, amado. Quando uma pessoa se sente acolhida, estimada e compreendida, ela se solta, fala, dá corda ao discurso.


Outro fruto do ES é a mansidão. Ela é uma atitude que facilmente pode ser mal interpretada, pois é confundida com a fraqueza ou com a ingenuidade. Mas, na verdade, ela é a atitude típica de Jesus que se autodefine manso (cf. Mt 11,29). E ela é uma das bem-aventuranças por ele proclamada (cf. Mt 5,5). Mansidão é a atitude que acalma a ira ou cólera. A mansidão é a atitude de quem elimina ou modera a própria cólera e a dos outros; é responder à ira com a ponderação.


A longanimidade é outro fruto do ES. É uma virtude que está ligada estreitamente à cortesia e à mansidão. Ela permite sustentar no tempo a esperança (Cf. Lc 13,6-9; 2Cor 2,1-4). Ela é a capacidade de saber investir, sem pretender a obtenção de resultados imediatos ( o contrário da precipitação). Ela é a atitude que permite superar frustrações, que permite superar a irritação e o desencorajamento diante da aparente esterilidade da ação apostólica, educativa, formativa. Ela nos permite semear, eventualmente com sofrimento, olhando para a colheita que nos será dada pelas mãos de Deus. Ela nos convida a ter coragem e a resistir, na certeza de que da resistência virá a alegria.


Outro fruto do ES é a alegria/jovialidade (cf. Fl 4,4-7). O termo grego “chará” que se traduz por “alegria”, ocorre 59 vezes no NT, sem contar os sinônimos e os verbos a ele ligados. É muito mais fácil experimentar a alegria do que defini-la. Ela é a atitude que torna tudo mais fácil. “Deus ama a quem doa com alegria” (2Cor 9,7), pois quem doa com alegria, doa bem. Ela é a capacidade que torna outros felizes e contentes. Ela é um sinal claríssimo da presença do ES. Se quisermos entender onde o ES está agindo, precisamos verificar a presença ou a ausência da alegria. Onde há a alegria, está aí o ES. O objetivo da obra de Jesus é o tornar-nos plenos de alegria: “Eu vos disse isso para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja plena” (cf. Jo 16,22-24). Por isso, ela é a característica típica do Reino de Deus.


O oposto da alegria é a tristeza, aquele sentimento pelo qual tudo parece mais pesado. E uma variante da tristeza é a depressão ou mau humor, a melancolia, o descontentamento. Como resistir à atitude da tristeza? Como superar a depressão? É invocar o ES, pois a alegria é o dom do ES. É preciso invocar o ES, na certeza de que a alegria existe, de que ela está no fundo de nós mesmos, porque ela é a presença de Jesus ressuscitado ainda que esteja escondida. A alegria vem e virá, e tal certeza, cultivada no coração, ajuda a superar depressões, maus humores, escuridão etc....


Outro fruto conjuntural e central do ES é a paz (shalom), que representa também uma espécie de síntese de todo bem na Bíblia. Biblicamente a paz é entendida como todo e qualquer bem, humano e divino. Por isso, São Paulo até diz: “E a paz de Deus, que ultrapassa toda a compreensão, guardará vossos corações e vossos pensamentos em Jesus Cristo (Fl 4,7). A paz podemos definir como a atitude que nos defende da ânsia, que reina sobre a ânsia, que a domina. Ela é, obviamente, dom de Deus, do Espírito; é a riqueza que o Espírito derrama sobre os que a acolhem. A paz é a sensação de sentir-se em casa, de ter familiaridade com o ambiente em que vivemos. E sentir-se em casa com Deus, em Deus; o repouso em Deus é a paz que bloqueia a inquietude do coração. Como dizia Sto. Agostinho: “Nosso coração está inquieto enquanto não repousa em ti”. A paz é sentir-se em casa com os outros, quando os relacionamentos são construtivos. A paz leva a pessoa a superar os medos e as desconfianças recíprocas.


O Espirito Santo Transforma Cada Cristão Em Missionário


Para os discípulos, Jesus ressuscitado diz: “Como o Pai me enviou, também eu vos envio” (v.21). Jesus é o Enviado por excelência (Jo 3,31-34;5,30;7,17s.28; 8,16.28s.42; 12,44s;16,28).        A missão provém de Deus, que quer dar a vida ao mundo. O envio dos discípulos implica tudo o que visava o ministério confiado a Jesus: glorificar o Pai, fazendo conhecer seu nome e manifestando seu amor (cf. 17,6.26). Do mesmo modo como o Pai esteve presente com Jesus na sua missão, assim os discípulos não estarão nunca sozinhos no cumprimento de sua missão (cf. Mt 28,20).  


Aqui a ressurreição está vinculada à missão. Os discípulos são chamados e enviados para ser testemunhas do anúncio da morte que foi vencida. A Igreja surge ao redor dessa fé na ressurreição. Os discípulos são enviados para proclamar a verdade de que não é qualquer vida pode ressuscitar gloriosamente como a de Jesus, e sim somente uma vida que tem como características: vida de doação, de serviço, de perdão, de fidelidade plena a Deus, como foi a vida de Jesus. Somente assim, o cristão possuirá a vida eterna ressuscitada. Ser enviado significa ser pessoa que lança as sementes da ressurreição feito de justiça, de amor, de reconciliação e de abertura incondicional a Deus. Se um cristão, o enviado, fizer assim, a vida nova e a ressurreição estão germinando. E ele tem que cuidar bem deste germe para que ele possa chegar à sua plenitude.


Dito isso, soprou sobre eles e disse: ‘Recebei o Espírito Santo’” (Jo 20,22). O gesto de Jesus reproduz o gesto primordial da criação dos seres humanos por Deus (Gn 2,7). O Criador “insuflou no homem um sopro que faz viver” (Sb 15,11; Ez 37,9). “Soprar” quer dizer dar vida a quem não tem. Isso significa que o ser humano só existe porque é sustentado pelo sopro de Deus. Trata-se agora da nova criação: Jesus glorificado comunica o Espírito que faz renascer o homem novo (cf. Jo 3,3-8), capacitando-o para partilhar a comunhão divina. O Filho que “tem a vida em si mesmo” dispõe dela a favor dos seus (cf. 5,26.21); e seu sopro é o da vida eterna. 


O Espirito Santo e Pluralidade de Carismas


Há diversidade de dons, mas um mesmo é o Espírito. Há diversidade de ministérios, mas um mesmo é o Senhor. Há diferentes atividades, mas um mesmo Deus que realiza todas as coisas em todos. A cada um é dada a manifestação do Espírito em vista do bem comum”. Assim escreveu São Paulo aos coríntios que lemos hoje na Segunda Leitura.


Esta leitura recorda a pluralidade da ação do Espirito Santo. A pluralidade dos carismas e a unidade da Igreja procedem do mesmo Espirito. A pluralidade de carismas é expressão da riqueza e vitalidade da Igreja. Mas há que recordar que ministérios e carismas, em sua diversidade, estão destinados para o bem comum (utilidade comum). Ninguém tem todos os carismas.


Há uma pluralidade de dons para o serviço do único Corpo que é a Igreja. A cada um é dado uma manifestação do Espirito Santo porque o Espirito Santo não é monopólio de ninguém. Assim o Espirito Santo não significa uniformidade sem variedade, não dispersão e sim unidade, não pobreza e sim riqueza. Pentecostes significa reconhecer esta realidade na Igreja, descobrir o próprio carisma e respeitar o carisma dos demais irmãos na Igreja. Os dons ou os carismas são auto-revelação do Espirito Santo. Nos carismas se faz visível o invisível Espirito de Deus. O dom ou o carisma é dado a cada um, mas o que se quer sublinhar não é o individualismo e sim a relação de serviço aos demais. Os carismas são para a edificação da Igreja e não para a promoção pessoal.


Por isso, São Paulo define o critério para distinguir os verdadeiros carisma dos falsos. Primeiro, o carisma autentico deve contribuir sempre para reforçar a profissão de fé no Senhor Jesus Cristo: “Ninguém pode dizer: Jesus é o Senhor, a não ser no Espírito Santo” (1Cor 12,3).


Segundo critério de juízo se verifica na colaboração dos carismas mais diversos para o único desígnio de Deus (1Cor 12,4-6). O politeísmo pagão ostentava carismas muito variados concedidos por deuses diferentes. Na Igreja, pelo contrário, tudo se unifica na vida trinitária para as funções comunitárias ou para o bem comunitário. Não pode haver oposições entre os carismas, pois a fonte dos carismas é um único Deus. Quando existe alguma oposição entre os carismas é porque não provêm de Deus, isto é, não provêm do Deus trinitário.


Terceiro critério para discernir os carismas: sua maior ou menor capacidade de servir ao bem comum: “A cada um é dada a manifestação do Espírito em vista do bem comum” (1Cor 12,7) e a unidade do Corpo (1Cor 12,12-13). Os carismas são distribuídos por Deus em vista do bem comum. Os carismas devem servir para o crescimento e a vitalidade do Corpo que é a Igreja.


Portanto, quero concluir esta reflexão com as palavras de Inácio de Laodicéia: “Sem o Espírito Santo, Deus se torna longínquo; Cristo fica no passado; o Evangelho vira letra morta; a Igreja, uma simples organização; a autoridade, uma opressão; a missão, uma propaganda; o culto, uma evocação; o comportamento cristão, uma moral de escravos. Mas, com o Espírito Santo, Cristo está presente; o Evangelho é poder de vida; a Igreja torna-se comunhão trinitária; a autoridade, um serviço libertador; a missão, um Pentecostes; a liturgia, um memorial e uma antecipação da glória; e o comportamento torna-se divino”.


E São Basílio afirma: “o Espirito Santo é Fonte de santificação, Luz de nossa inteligência, Ele é quem dá, de Si mesmo, uma espécie de claridade a nossa razão natural para que conheça a verdade. Inacessível por natureza, se faz acessível por sua bondade” (Sobre o Espirito Santo 9,22-23).


“Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos Vossos fiéis e acendei neles o fogo do Vosso amor e envia o Teu Espírito, e tudo será criado, e renovareis a face da terra”. Assim seja!
P. Vitus Gustama,svd