quarta-feira, 22 de abril de 2015

Domingo, 26/04/2015
JESUS É O BOM PASTOR E DEVEMOS SER BOAS OVELHAS

IV Domingo Da Páscoa Do Ano Litúrgico “B


Evangelho: Jo 10,11-18
 
Naquele tempo, disse Jesus: 11“Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida por suas ovelhas.12O mercenário, que não é pastor e não é dono das ovelhas, vê o lobo chegar, abandona as ovelhas e foge, e o lobo as ataca e dispersa. 13Pois ele é apenas um mercenário que não se importa com as ovelhas. 14Eu sou o bom pastor. Conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem, 15assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai. Eu dou minha vida pelas ovelhas. 16Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil: também a elas devo conduzir; elas escutarão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor. 17É por isso que meu Pai me ama, porque dou a minha vida, para depois recebê-la novamente. 18Ninguém tira a minha vida, eu a dou por mim mesmo; tenho poder de entregá-la e tenho poder de recebê-la novamente; esta é a ordem que recebi de meu Pai”.
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O quarto domingo da Páscoa é conhecido como “o Domingo do Bom Pastor”, porque em cada um dos três anos do ciclo litúrgico é lida uma passagem do capítulo 10 do Evangelho de João, no qual é desenvolvido o tema do “Bom Pastor”.
  

Como o pano de fundo de Jo 10 é necessário ler dois textos do AT: Ez 34,1ss e Jr 23,1ss (leia também o Sl 23(22) sobre o bom Pastor. Nestes textos fala-se da denúncia profética contra os maus pastores (dirigentes). Os maus pastores são denunciados por estarem mais preocupados em se alimentar do que em fornecer alimento para as ovelhas confiadas ao seu cuidado; preocupados mais em cuidar da própria vida do que ad vida do rebanho. Em vez de tomar conta das ovelhas, eles se omitiram, e sacrificavam as mais gordas para se deliciar da sua carne e se vestir com sua lã. Os maus pastores estão preocupados com o seu conforto, com o seu bem estar, em salvar a situação pessoal e familiar, e deixam o restante se perder. Os maus pastores se preocupam em usar do poder para o proveito próprio.


Esses pastores se esquecem de que eles não são donos das ovelhas; são apenas “funcionários” de Deus, pois as ovelhas são de Deus (compare Jo 21,15-17: Jesus confia a Pedro a tarefa de apascentar as ovelhas de Jesus: apascenta as minhas ovelhas). Por isso, o profeta Ezequiel repete expressivamente o possessivo “minhas ovelhas” no capítulo 34 do seu livro. Evita-se, assim, a tendência de querer se considerar o dono das ovelhas, o dono da comunidade, o dono da paróquia etc. Quem se considera dono da comunidade ou da paróquia ou qualquer cargo, tem dificuldade de dialogar com os outros para resolver os problemas do rebanho. O dono das ovelhas é o próprio Deus. A Igreja é de Jesus Cristo. Se nos esquecermos disto, nos tornaremos novos tiranos e ditadores. E as ovelhas se tornarão vítimas ou serão sacrificadas em nome do poder destruidor do seu líder.


E os pastores de hoje (sacerdotes/padres, religiosos, pastores, líderes de comunidades), são melhores ou são piores do que os antigos pastores? Será que temos interesse por “ovelhas gordas” mais do que por “ovelhas magras” na comunidade? Seja gorda ou marga, a ovelha é de Deus.  E Deus quer que as apascentemos de igual maneira. Quanto mais magra for uma ovelha, mais atenção deverá ser prestada a ela.


Além de ler os textos acima citados, para entender a mensagem de Jo 10,1-18 é necessário situar o texto dentro do contexto de Jo cap. 7-10 num contexto de confronto entre Jesus e os judeus. Ele é o “Eu sou”. A vinda de Jesus para o meio dos homens os força a definir-se. Diante da afirmação “Eu sou”, uns rejeitam Jesus, outros o aceitam. Daí começam as controvérsias.  Jesus se torna, assim, sinal de contradição. Contradição que o leva à Paixão.


E o discurso de Jesus sobre a porta das ovelhas e o Bom Pastor (Jo 10) se apresenta como continuação lógica da perícope imediatamente anterior, sobre o cego de nascença (Jo 9). Se lemos Jo 9,41 e o começo do sermão sobre o Bom Pastor (Jo 10,1) percebemos que não há nenhuma separação cronológica nem mudança de cenário. O homem que voltou a enxergar por obra de Jesus foi expulso da sinagoga e excomungado por causa de sua fé em Jesus Messias. Apesar disto, o cego iluminado encontrou o Bom Pastor e partir de então ele não viverá como ovelha desgarrada.
 

O uso metafórico do substantivo “pastor” (poimén em grego) aparece pelo menos 14 vezes no NT (Mt 9,36;25,32;26,31;Mc 6,34;14,27;Jo 10,2.11.12.14.16;Ef 4,11;Hb 13,20;1Pd 2,25). Lucas nunca usa o termo “pastor” em sentido figurado, mas só em sentido próprio (cf. Lc 2,8.15.20). Também na parábola da ovelha perdida (Lc 15,4-6) ele não chama o protagonista de “poimén”, “pastor”, como o faz Mt, mas simplesmente de ánthropos, “homem”.


No evangelho de João, a palavra “pastor” faz parte do vocabulário da auto-revelação do Messias; ela é precedida da afirmação “egó eimí”, “Eu sou” (Em Jo, sete vezes, Jesus toma a palavra para se autoproclamar: 6,35: Eu sou o pão da vida; 8,12: Eu sou a luz do mundo; 10,7: Eu sou a porta; 10,11: Eu sou o bom pastor; 11,25: Eu sou a ressurreição e a vida; 14,6: Eu sou o caminho, a verdade e a vida; 15,1: Eu sou a videira verdadeira).
 

O pastor de Jo 10 assume o comportamento do guia: conduzir para fora, levar para fora, caminhar adiante(v.4) e os aspectos de providência e salvação: quem entra pela porta, que é Jesus(v.9) será salvo, pois ele veio para que as suas ovelhas “tenham a vida em abundância”(v.10). O bom pastor arrisca ou expor a vida frente a um perigo que ameaça outrem.
   

Essa doutrina cristológica contém mensagem de importância excepcional para nossa vida de fé e nossa missão de guia ou pastores. Jesus Cristo é o mediador perfeito em sentido descendente e ascendente; na direção vertical e horizontal. O Pai comunica a revelação de sua vida de amor ao homem por meio de seu Filho(cf. Jo 1,17s); a salvação é dada ao homem somente por meio do Filho unigênito(Jo 3,14ss); a vida divina foi trazida ao mundo por meio de Jesus(Jo 14,6). E o homem pode subir até Deus unicamente por meio do seu Filho, que é a vida(Jo 14,2-6); a vida de comunhão com o Pai só é possível através de Jesus Cristo. Enfim, o homem pode exercer função pastoril e salvífica somente se comungar com eles por meio de Cristo, a única porta do redil de Deus (Jo 10,7ss).
 

A mensagem desta doutrina é dirigida tanto para todos os cristãos em geral como, particularmente, para os que exercem função de guia no seio da comunidade. Para ser instrumento de vida e salvação para os irmãos e irmãs, é necessário estar em contato íntimo e vital com aquele que é a salvação personificada: o Senhor Jesus. Para a função pastoral ser exercida com fruto, torna-se indispensável uma comunhão profunda com Cristo, o pastor supremo do rebanho de Deus; exige-se amor forte e concreto à sua pessoa.


Alguns elementos importantes do texto para a nossa reflexão:


1. Jesus É O Meu Bom Pastor
    

No evangelho Jesus diz: “Eu sou o Bom Pastor”(v.11). Temos três elementos para se explicar: “Eu sou”, “ bom” e “pastor”.
   

O “Eu sou” é a expressão máxima da liderança que dá a vida. E “Eu sou” é carregado de sentido teológico, porque o “Eu sou” é uma abreviatura do nome de Deus/Javé: “Eu sou Aquele que sou”(Êx 3, 14). Jesus se coloca em pé de igualdade com Deus. Quem é este Deus ? No êxodo ele tirou o povo hebreu do curral do Egito, conduziu-o no deserto e introduziu-o para a Terra prometida. Ao dizer “Eu sou o Bom Pastor”, Jesus, de fato, faz o que o Pai sempre fez. Jesus é a presença viva do Deus que conduz cada um de nós para fora de tudo o que nos oprime e que diminui e lesa a vida. Jesus tira as pessoas de todos os tipos de exclusão.
  

“Eu sou o bom pastor”. Em grego usa-se o termo “kalós” (Egó eimi o poimèn o kalos) que em si significa “belo”, mas se traduz com o termo “bom” em português. “kalós” pode significar também alguma coisa excelente, excepcional; ou pode significar a qualidade de uma coisa ou de uma pessoa que corresponde plenamente à sua função ou a adequação à finalidade de objetos, situações, pessoas e ações(cf. Mt 13,8;7,17s;Jo 2,10;10,32;1Pd 4,10;2Tm 2,3 etc.). Jesus que se dedica total e exclusivamente às ovelhas pode ser chamado o “bom” pastor por excelência. A figura do pastor no AT é o símbolo da dedicação, do cuidado e do amor desinteressado. O pastor é aquele que está plenamente desperto, vigilante, prevenido, pronto, atento e aplicado. É uma pessoa devotada, no sentido próprio: vive com e para seu rebanho. Essa imagem é muitas vezes aplicada a Javé(cf. Is 40,11;Sl 23,1;80,2) para exprimir o amor de Deus na eleição e direção de seu povo, Israel.
 

Jesus aplica a si mesmo a imagem do bom pastor, porque ele sabe muito bem que existem maus pastores. Eles são chamados no Evangelho de hoje com palavras muito fortes: mercenários, ladrões e assaltantes. Ou seja, alguém que se serve do povo para manter seus interesses e privilégios, deixando o povo morrer. Usa-se também outro termo “lobo”. O lobo representa um perigo mortal para as ovelhas ou adversário. Biblicamente “lobo” representa pessoas maléficas(cf. Hab 1,8;Ez 22,27;Sf 3,3). Não é por acaso que temos um dito “Homo homini lupus est”, o homem é (capaz de ser) um lobo para outro homem. O profeta Isaías até sonhou com o tempo ideal em que “o lobo habitará com o cordeiro” (Is 11,6;65,25). Temos, então, aqui uma oposição entre bom pastor e mau pastor.
 

Para quem tem um coração de mercenário, o mais importante é ater-se às condições mínimas estipulados em contrato. Quem tem o coração de verdadeiro pastor não fica fazendo contas: aonde chegam os meus direitos, onde terminam as minhas obrigações. Ele segue uma única lei: o amor. Aquele que não ama, nunca vai entender Jesus e seu amor louco que aceitou morrer na cruz para resgatar a humanidade.
 

Como sabemos que todo pastor tem direitos sobre o rebanho: veste-se com a lã das ovelhas e alimenta-se com a carne e o leite delas. O rebanho sustenta a vida do pastor. Jesus é um pastor diferente. Ele é o Bom Pastor porque ele é, literalmente, não retém nada para si; ele não exige nada das ovelhas. Pelo contrário, ele dá a vida por elas(10,11).


Para o Evangelho de João, então, pastor é o lutador que, ao preço da própria vida, enfrenta todos os que colocam em perigo o seu rebanho. Jesus é o bom pastor porque se despoja até da própria vida para proteger e defender as ovelhas. Por isso, a qualificação “bom” aqui não tem qualquer valor sentimental: não significa doce, suave que não causa mal algum a ninguém. O “bom” aqui significa o verdadeiro, o autêntico, o corajoso, lutador. Jesus é o Bom Pastor porque o seu amor é tão imenso para conosco que está disposto a sacrificar a sua própria vida.
 

Jesus nos convida, por isso, a imitá-lo na solidariedade sem fronteiras com os seus irmãos, em particular com os mais explorados e fracos, sem defesa nenhuma. Essa solidariedade pode ir até a entrega da própria vida: oferenda feita voluntariamente, com plena liberdade; um compromisso por amor e não por obrigação formal. Nisto consiste a imitação de Jesus, o Bom Pastor... Ser pastor não é uma profissão, mas é uma opção de vida. Todos somos pastores dos nossos irmãos; temos uma responsabilidade frente a eles que devemos assumir livremente. Não podemos, contudo, ser pastores para os outros, se tivermos ainda a mentalidade de assalariados.


2. Jesus Me Conhece


Jesus diz também: “Eu conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas me conhecem”(v.14b). O verbo “conhecer”(ginósko em grego) deve ser entendido no contexto semita. Para um semita “conhecer” não é apenas uma atividade intelectual, mas tem toda uma conotação existencial de união profunda. O verbo “conhecer” em Jo envolve toda a vida religiosa, moral e social do indivíduo que aceita a mensagem de Deus e pauta por ela todo o modo de viver.  O verbo “conhecer” envolve o ver, o ouvir, o perceber, o experimentar. No AT, o homem é objeto do conhecimento divino. Deus sabe o meu nome: “Eis que te gravei nas palmas da minha mão...”(Is 49,16). Deus nunca pode olhar sua mão sem ver o meu nome.. E meu nome quer dizer: Eu mesmo. Santo Agostinho diz: Um amigo é alguém que tudo sabe a teu respeito e, apesar disso, gosta de ti”. Mas o homem também conhece a Deus. Conhecer Deus significa ter com ele uma relação pessoal, religiosa e ética: buscá-lo(Sl 9,11;36,11), temê-lo(1Rs 8,43;Is 11,2),crer nele(Is 43,10, apegar-se a Deus que liberta e salva(Sl 91,14).
  

Jesus Cristo conhece pessoalmente cada um de nós, suas ovelhas. Ele não conhece como massa de pessoas. Ele conhece cada um em sua integridade. E devemos estar conscientes disso. Quando rezamos devemos sempre ter consciência de que Jesus me conhece na minha integridade, no meu ser, na minha especificidade, na minha estrutura, que eu sou irrepetível, eu sou insubstituível como pessoa e não como função(pois os outros podem fazer o melhor do que aquilo que fiz na minha função. Na minha função sou substituível, na minha existência como pessoa, eu sou insubstituível: não existe outra pessoa igual a mim). Jesus me ama com os meus ideais e minhas decepções, com os meus sacrifícios e alegrias e com os meus sucessos e fracassos. O próprio Senhor Deus é a razão de ser mais profunda de minha existência. Se Deus me ama devo também me aceitar a mim mesmo. O Senhor me conhece verdadeiramente, tal como realmente sou, sem aplicar rótulos e categorias. Por isso, ele é a única garantia de que eu posso ser eu mesmo. Essa consciência da origem divina torna-me justamente mais precioso e mais seguro. Nessa dependência reside uma profunda paz que o mundo nunca pode dar.
   

No meio da multidão das grandes cidades, e até mesmo dentro de nossas imensas igrejas cheias de gente, muitas vezes a pessoa se sente sozinha, cercada por desconhecidos que não sabem o seu nome, que não se interessam por seus problemas. Conhecer e ser conhecido é um conforto emocional do qual muita gente está precisando.
    

Jesus diz que conhece as suas ovelhas e é por elas conhecido. Uma comunidade que anuncia e continua a missão de Jesus não poderia ser um amontoado de gente que não se conhece, onde um não conta com o outro, onde cada um vai fazer sua oração como se estivesse sempre sozinho na igreja.
     

As primeiras comunidades cristãs eram espaço de intimidade e intercâmbio fraterno. Não estaria bem na hora de criar esse clima nas nossas impessoais comunidades urbanas ?(Na hora de dar a paz, sai um pouco do seu lugar para cumprimentar o outro e perguntar o nome dele. Decorar um nome por domingo é uma forma para criar uma comunidade de nomes e não de números).


1. Jesus É O Meu Bom Pastor Porque Se Preocupa Também Com Outras Ovelhas.
 

Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil: também a elas devo conduzir; elas escutarão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor”(v.16), diz Jesus.  Isto quer dizer que o amor de Cristo não tem limite e não faz distinções. Judeus e pagãos são co-envolvidos no mesmo amor. O amor de Jesus é universal. Ele quer salvar todos. Os pagãos desprezados por bom número de judeus eram chamados a incorporar-se ao “rebanho” de Jesus. Quando ele diz que um dia haverá um só rebanho e um só pastor, Jesus não está querendo uniformizar todos: no pensar, no dizer, no fazer ou no rezar. Quando olhamos uma realidade a partir de nosso ponto de vista devemos estar conscientes de que não estamos em outros pontos de vista ao mesmo tempo. Isto nos permite deixar alguém ver de outro ângulo sobre a mesma realidade. Afinal, cada ponto de vista é vista de um ponto. Por isso, posso estar certo e posso também estar errado. A diversidade é sempre uma riqueza. Não é errado sermos diferentes, errado é sermos divididos, é errado estarmos uns contra os outros. Temos de aplicar na nossa vida um dito conhecido: “Nas coisas essenciais unidade, nas coisas acidentais liberdade, e em tudo caridade”.


4.Preciso Viver Despreocupado, Pois O Senhor É Meu Pastor
   

Devemos observar a vida dos rebanhos de ovelhas com seu pastor. Os rebanhos não têm pressa, nem agitação ou preocupação. Eles sabem que o seu pastor está ali para cuidar deles. E, por isso, são livres para fruir a verde pastagem. Jubilosos e despreocupados, os rebanhos não calculam: onde iremos amanhã, se as chuvas serão suficientes para fornecerem pastagem no ano seguinte. Eles não se preocupam, porque há quem cuide deles. Eles vivem o dia-a-dia, o hora-a-hora. E isso é felicidade.
   

O Salmo 23(22) diz: “O Senhor é meu Pastor”. Emmanuel Kant chegou a dizer que o Salmo 23(22) lhe deu mais consolo que todos os livros que havia lido. Se eu ao menos acreditar nisso, a minha vida se transformará. A minha ansiedade desaparecerá, os meus complexos se dissolverão e a paz voltará aos meus nervos perturbados. Viver o dia-a-dia, o hora-a-hora, porque o Senhor está presente. Se acreditar de fato nele, serei livre para me movimentar, para respirar, para viver. Livre para fruir a vida. Cada momento é precioso porque não é maculado pelas preocupações com o próximo momento. O Senhor, meu Pastor, sabe e isso me basta. É a felicidade sob a graça. É a bênção de crer na Providência. É a bênção de viver na obediência ao Bom Pastor. É a bênção de seguir a prontidão do Espírito Santo pelos caminhos da vida. O Senhor é meu pastor; nada me faltará. Crer em Deus é admitir que ele vela sobre nós como um pastor.
   

Se nós somos ovelhas do bom Pastor Jesus, Deus faz de nossa vida uma bênção para muitas pessoas. Se somos realmente seus, então devemos amá-lo com o amor divino. Se somos realmente ovelhas do bom Pastor Jesus, então devemos ouvir somente sua voz. Quem conhece Jesus, a voz de Jesus para ele é inconfundível.


Portanto, vamos lançar alguma perguntas para nós mesmos: Acredito realmente que o Senhor é o meu Pastor? Posso afirmar, a partir da minha vida, que sou bom. Será que eu tenho sempre tendência de fugir da minha responsabilidade? Em outras palavras: tenho mentalidade de assalariado?

P. Vitus Gustama,svd
25/04/2015

SÃO MARCOS EVANGELISTA  



Evangelho: Mc 16,15-20


Celebramos no dia 25 de Abril a festa do evangelista Marcos que escreveu um evangelho mais curto do que os demais evangelhos. Ele é conhecido como João Marcos: o primeiro nome (João) é hebraico e o segundo (Marcos) é romano. Ele era primo de Barnabé (Cl 4,10), de família levita (At 4,36). Acompanhou o Apóstolo Paulo e Barnabé (At 12,25; 13,5) e depois separou-se deles (At 13,13) e  isso parece ter irritado Paulo, então Marcos e Barnabé foram para Chipre (At 15,36-39). Mas na prisão de Paulo está com ele novamente (Cl 4,10), que o cita entre os “seus colaboradores” (Fm 14) e o Apóstolo pede sua ajuda antes de morrer (2Tm 4,11). Foi também companheiro de Pedro, que o chamava de “meu filho” (1Pd 5,13). Alguns afirmam que o Evangelho de Marcos é o resumo da Catequese de Pedro.


O evangelho de Marcos é o mais curto dos quatro evangelhos. Ele possui somente 16 capítulos (1,1-16,8). Mc 16,9-20 é um apêndice acrescentado posteriormente e há indícios de que esse apêndice surgiu a partir do ano 150.


Através de seu evangelho Marcos quer responder à pergunta: Quem é Jesus?  Logo no inicio de seu evangelho Marcos respondeu: Evangelho de Jesus, Messias e Filho de Deus. A partir destes dois títulos é que o evangelho de Marcos é dividido em duas grandes partes. Primeira parte: Mc 1,1-8,30. Nessa primeira parte fala-se do messianismo de Jesus e do Reino de Deus. Segunda parte: Mc 8,31-16,8 fala da filiação divina de Jesus e da paixão e morte de Jesus.


Marcos nos apresenta que Jesus é o Messias, o Ungido, e por isso, sua palavra está cheia de autoridade. “Ele ensina como quem tem autoridade e não como os escribas”, dizia o povo (Mc 1,22). As palavras de Jesus estão cheias de autoridade porque elas fazem crescer as pessoas e despertam consciência crítica sobre a realidade. Se alguém quer saber quanta autoridade tem, não se pergunte a quantos ele submete e sim a quantos ele ajuda a crescer. O servilismo de seus súditos mostra o autoritarismo de seu líder. Um líder que ama, é respeitado. Mas um líder temido não é respeitado. A força de quem tem autoridade não está em seu poder e sim em seu amor. Uma pessoa que apela ao poder para afirmar ou firmar sua autoridade, ela desautoriza a si mesma como pessoa, muitas mais ainda como líder e mostra que ela não tem mais autoridade. Um leão não tem autoridade na selva, embora tenha força para se impor. (O evangelho de Marcos tem como símbolo LEÃO, pois Marcos apresenta a figura de João Batista como a VOZ que clama no deserto semelhante ao rugir de leão).


Jesus é também apresentado por Marcos como o Filho de Deus, título que Marcos colocou logo no inicio de seu evangelho (Mc 1,1) e no fim ao colocá-lo na boca de um centurião romano vendo Jesus crucificado na cruz. “Este homem era realmente o Filho de Deus” (Mc 15,39), confessou o centurião. Trata-se da confissão de um pagão que reconhece a divindade de Jesus Cristo. Um coração puro, como o do centurião, nos ajuda a termos um olhar puro para perceber algo divino na nossa vida e nos outros. Nãopoema mais belo do que viver com um coração imaculado e um olhar puro.


Mas para Marcos o Filho de Deus não era uma figura triunfal, pois dentro da dura realidade da vida da sua época Jesus fez opções radicais que o envolviam em perseguições e conflitos com as autoridades que o levaram à morte na cruz. Mas somente por essas opções radicais é que Jesus entrou na glória de Deus. Por isso, a cruz de Jesus sempre derrama uma luz sobre o mistério do sofrimento. Um cristão que é fiel ao Senhor e aos Seus ensinamentos sofrerá conflitos e perseguições. Em cada provação e perseguição, pequena ou grande, o cristão fiel contempla o que Cristo sofreu nas mesmas circunstâncias.  Dessa maneira, o sofrimento do cristão se confunde com o de Cristo e ele n’Ele. Dentro deste contexto, o sofrimento se torna um instrumento de redenção e de santificação. Neste sentido, os momentos de perseguição e de provas são os momentos do trabalho fecundo. Sofrer por uma causa digna é uma vitória em Deus.


Esses dois títulos: Jesus é o Messias, o Ungido e Jesus é o Filho (amado) de Deus formam o evangelho de Marcos. É claro que ainda tem outros títulos dados a Jesus pelo evangelista Marcos como o Filho de Davi, o Filho do Homem, Mestre, Santo de Deus, Senhor do Sábado e assim por diante.


Algumas das características do Evangelho de Marcos:

1.    Sobre o Início: O Evangelho inicia com a palavraprincípio”. É o começo, assim como foi o início da Bíblia. E termina com o retorno à Galiléia (16,7). Portanto, nós também devemos sempre começar, partir do início...

2.    Sobre A multidão: é impressionante ver como a “multidãoou as “multidõesvão ao encontro de Jesus, elas seguem Jesus, estão presentes nos momentos importantes. Quem são essas multidões? Os pobres, excluídos, doentes, endemoninhados, cegos, surdos-mudos... todos os excluídos da época de Jesus.

3.    Sobre Movimento: Quase todas as ações narradas no Evangelho começam com um movimento. Ver os verbos usados no início da frase de cada narração: entrar, sair, caminhar, ir, retirar-se, começar, chegar, dizer...

4.    Sobre O Caminho: Esta palavra aparece várias vezes. É o Profeta que prepara o caminho (1,2) e clama para o povo preparar o caminho (1,3). Jesus está quase sempre caminhando (1,16). Vai com os discípulos “a caminho do mar” (3,7) e também descreve o que acontece pelo caminho (8,3.27; 9,33-34; 10,32.52). Da mesma forma, quem aceita Jesus deve segui-lo. Ver quantas vezes encontramos o verboseguirem Marcos (1,17.18.20; 2,14.15; 8,34; 10,21.28.32.52...). Os primeiros cristãos pertenciam ao Caminho (At 9,2; 18,25-26; 19,9-23).

5.    Sobre Conflitos: A proposta de Jesus é exclusiva e por isso, são freqüentes os contrastes. Ou se está do lado de Jesus ou contra Ele. Várias vezes aparece o verbodiscutir (1,27; 8,11; 9,10; 14,16; 12,28).

6.    Sobre Dois banquetes: Marcos coloca em seguida dois fatos importantes: o banquete da morte (festa de Herodes, cf.  6,14-29) e o banquete da vida (multiplicação dos pães, cf. 6,30-44).


O evangelista Marcos fez chegar até nós Jesus Cristo, o Filho de Deus. Chegou nossa vez para que façamos chegar Jesus aos outros, seja pelo testemunho de uma vida de filhos de Deus, seja pelo anúncio, seja pelos bons conselhos aos demais. Em outras palavras, sejamos evangelhos vivos para os outros. “Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura!”.  Mas para que possamos ser missionários (enviados) temos que estar em companhia de Jesus, primeiramente (cf. Mc 3,14). Não podemos ser missionários sem ser primeiro discípulos do Senhor. Se não, vamos pregar a nós mesmo e não o próprio Jesus. “Quando caminhamos sem a Cruz, edificamos sem a Cruz ou confessamos um Cristo sem Cruz, não somos discípulos do Senhor: somos mundanos, somos bispos, padres, cardeais, papas, mas não discípulos do Senhor... Quando não confessa Jesus Cristo, confessa o mundanismo do diabo, o mundanismo do demônio (Papa Francisco). São Marcos interceda por nós para que sejamos evangelizadores diariamente!
P. Vitus Gustama,svd
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JESUS TEM PALAVRAS QUE SACIA NOSSA SEDE DE VIDA

Sábado da III Semana da Páscoa


Evangelho: Jo 6,60-69

Naquele tempo, 60muitos dos discípulos de Jesus, que o escutaram, disseram: “Esta palavra é dura. Quem consegue escutá-la?” 61 Sabendo que seus discípulos estavam murmurando por causa disso mesmo, Jesus perguntou: “Isto vos escandaliza? 62E quando virdes o Filho do Homem subindo para onde estava antes? 63O Espírito é que dá vida, a carne não adianta nada. As palavras que vos falei são espírito e vida. 64Mas entre vós há alguns que não creem”. Jesus sabia, desde o início, quem eram os que não tinham fé e quem havia de entregá-lo. 65E acrescentou: “É por isso que vos disse: ninguém pode vir a mim a não ser que lhe seja concedido pelo Pai”. 66A partir daquele momento, muitos discípulos voltaram atrás e não andavam mais com ele. 67Então, Jesus disse aos doze: “Vós também vos quereis ir embora?” 68Simão Pedro respondeu: “A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna. 69Nós cremos firmemente e reconhecemos que tu és o Santo de Deus”.

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O texto do evangelho deste dia, com que se encerram as reflexões sobre o sinal da multiplicação dos pães e peixes, formula a única atitude de entender esse sinal. Quem entende o significa do sinal ou quem capta o espírito de Jesus nesse discurso, continua a seguir Jesus (Pedro e companheiros). Os que não o entendem, ou não penetram no espírito de Jesus, abandonam Jesus (outros discípulos que se sentem escandalizados). Somente aqueles que descobrem a importância da mensagem de Jesus, pois cheia de vida eterna, são capazes de relativizar o que até aquele momento parecia ser fundamental. Quem encontra a prata, relativiza o bronze; quem descobre o ouro, relativiza a prata.


No fim do discurso sobre o Pão da vida o entusiasmo das multidões por Jesus vai se esfriando e chega um momento em que, escandalizadas pelas palavras de Jesus, O abandonaram. A desilusão penetra, inclusive, no interior do círculo dos mais apegados: no grupo dos discípulos. Mas Jesus, apesar deste aparente fracasso, anuncia já a vitória de sua ressurreição e a glória de sua ascensão ao céu: “E quando virdes o Filho do Homem subindo para onde estava antes?”, perguntou Jesus retoricamente. Os que permanecerem até o fim, terão, um dia, experiência deste mistério e conhecerão a existência gloriosa do Senhor ascendido ao céu e serão confirmados na fé. As palavras de Jesus são espírito e vida. O Espírito de Deus dá às palavras de Jesus um sentido e uma força divina capaz de fortalecer os que nele crêem e escutam as palavras de Jesus: “O Espírito é que dá vida, a carne não adianta nada. As palavras que vos falei são espírito e vida”.


Muitos se escandalizaram por causa das palavras de Jesus porque não penetraram ainda no mistério da pessoa de Jesus. Uma palavra ou uns fatos são escandalosos na medida em que rompem os esquemas, hábitos ou comportamentos dos indivíduos ou dos grupos.


O grupo que hoje se escandaliza já não é o grupo dos mestres de Israel e sim um grupo dos discípulos de Jesus. Eles se sentem mais seguros sendo observantes do que sendo crentes. Eles preferem o estado de vida orientado pela Lei ao estilo de vida orientado pela fé, preferem o estilo de vida carnal ao estilo de vida espiritual. Diferentemente da pessoa carnal, a pessoa espiritual é aquela que se entende a si mesma a partir de uma relação com Deus manifestada por Jesus: “O espírito é que dá vida, a carne não adianta nada. As palavras que vos falei são espírito e vida”, disse Jesus aos discípulos. Mesmo assim muitos discípulos abandonaram Jesus.


“Vós também vos quereis ir embora?”, perguntou Jesus aos demais discípulos. Pedro responde à pergunta de Jesus fazendo em nome de seus companheiros uma sincera profissão de fé: “A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna. Nós cremos firmemente e reconhecemos que tu és o santo de Deus”.


Pela primeira vez e única vez no quarto Evangelho aparecem os Doze como um grupo já formado. João os apresenta como os homens da experiência mística: “A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna. Nós cremos firmemente e reconhecemos que tu és o santo de Deus”. É Pedro quem fala por todos. Trata-se do descobrimento do insondável mistério de Jesus, de sua pessoa de carne e de osso. Daí o caráter fundamental e insubstituível dos Doze. Os Doze crêem que Jesus tem palavra de vida eterna e que ele é o Messias ou “santo de Deus” por outra parte.


Por isso, a questão não é somente seguir ou deixar de seguir Jesus, e sim encontrar o Outro que tenha ele palavras capazes de dar o sentido para nossa vida e por isso, a vida eterna. Este descobrimento leva os Doze a relativizarem tudo que até naquele momento parecia ser fundamental e importante. No lugar de tudo isso surge Jesus, sua pessoa, sua palavra, iluminando tudo na vida deles com uma luz nova. Sob a luz de Jesus há coisas que deixam de ter interesse e valor, outras que surgem e outras que cobrem novo valor. A sede da busca do absoluto se sacia em Jesus, e a partir de Jesus, o relativo perde sua importância. Jesus tem palavras de vida eterna, pois Ele é a Palavra do Pai no meio da humanidade e para a humanidade (cf. Jo 1,1-3.14).


São Paulo nos convida a descobrirmos e a experimentamos a maravilhosa experiência mística: “Por essa razão eu dobro os joelhos diante do Pai de quem toma o nome toda família no céu e na terra para pedir-lhe que ele conceda, segundo a riqueza da sua glória, que vós sejais fortalecidos em poder pelo seu Espírito no homem interior, que Cristo habite pela fé em vossos corações e que sejais arraigados e fundados no amor. Assim tereis condições para compreender com todos os santos qual é a largura e o comprimento e a altura e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo que excede a todo conhecimento, para que sejais plenificados com toda a plenitude de Deus” (Ef 3,14-19).


Também no mundo de hoje, como para os ouvintes que estavam em Cafarnaum, Jesus se converte em sinal de contradição, como anunciou o ancião Simeão, quando Maria e José apresentaram seu filho no Templo (cf. Lc 2,34-35). A dureza da fé pode nos levar ao cansaço e ao abandono. São muitos batizados que optaram por buscar caminhos mais fáceis em vez de encarar a verdade e se esforçar para melhorar a qualidade de vida e de fé. Cristo é exigente, e seu estilo de vida está não poucas vezes em contradição com os gostos e as tendências de nosso mundo. Crer em Jesus, e concretamente comungar com ele na Eucaristia, que é uma maneira privilegiada de mostrar nossa fé nele, pode resultar no algo difícil, mas termina na coisa preciosa.


Quando nos cansamos de seguir o bem, de viver de acordo com a verdade, o amor, e a justiça, de praticar a caridade e o perdão, quando nos pesa a fidelidade a Deus e aos irmãos, quando o mal nos circunda e nos assedia, quando a dúvida e a incredulidade nos oprimem, então, Jesus também nos pergunta: “Também tu queres partir e me abandonar?”. Constantemente temos que escolher entre vários deuses e senhores. Temos que matar muitos deuses que criamos e que não nos dá salvação. Se quisermos optar pela vida em plenitude, sem limite nem ocaso, temos que fazer nossas as palavras de Pedro: “A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna”.


Nós cremos em Jesus e sabemos disso. Mas a fé é uma adesão pessoal a Cristo. A fé entendida como adesão pessoal a Cristo nos conduz a um maior conhecimento de sua mensagem e de sua pessoa. A fé entendida como pautar nossa vida à vida de Cristo nos exige renunciar a muitas coisas. Conhecer Jesus, refletir sua mensagem e assimilar suas atitudes nos conduz a uma maior maturidade na fé.


A quem iremos, Senhor?”. Esta expressão é incompreensível para o mundo, mas cheia de luz para nós que cremos em Jesus, pois “Tu tens palavras de vida eterna, Senhor”. “Palavras de vida eterna!”. Palavras que nos dão garantia para vivermos eternamente com Deus. A expressão “Palavras de vida eterna”, quando vividas por nós, nos torna portadores de sinais de vida e não de morte; quando vividas por nós torna a vida eterna presente desde já na nossa vida em história.


Ao participar da Eucaristia, ao comungar o Corpo e Sangue do Senhor estamos permitindo Deus que, por meio do Mistério pascal de Seu Filho, sejamos restaurados no íntimo de nosso ser, pois somente em Jesus tem “palavras de vida eterna”. A Igreja de Cristo, que são todos os batizados, é chamada a ser portadora de vida; da Vida que nos vem do próprio Deus. No cumprimento da missão que o Senhor nos confiou, nos encontraremos com muitas pessoas deterioradas pelo pecado, pela enfermidade, pela pobreza, pela injustiça, pelo abuso, pela exploração da dignidade humana. Não podemos passar adiante sendo traidores de Cristo e de seu evangelho. Quem abandona Cristo não somente quem não reza nem participa dos sacramentos, mas também quem fecha os olhos diante do sofrimento de seu próximo com quem Jesus se identifica (cf. Mt 25,40.45). Nenhum cristão pode justificar o próprio egoísmo ao perguntar: “Acaso, sou eu responsável do meu irmão ou pelo meu irmão?”. A Eucaristia nos faz entrarmos numa comunhão de vida com Cristo que passou a vida fazendo o bem (cf. At 10,38). A Eucaristia nos move para que sejamos pão de vida a fim de continuarmos a fortalecer aqueles que necessitam de uma mão para levantá-los de seus túmulos de maldade e para ajudá-los a caminharem no bem.
 
P. Vitus Gustama,svd

terça-feira, 21 de abril de 2015

24/04/2015
 
COMER A CARNE E BEBER O SANGUE DE JESUS É VIVER A VIDA DE JESUS

Sexta-Feira da III Semana da Páscoa


Evangelho: Jo 6, 52-59

Naquele tempo, 52os judeus discutiam entre si, dizendo: “Como é que ele pode dar a sua carne a comer?” 53Então Jesus disse: “Em verdade, em verdade vos digo, se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. 54Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. 55Porque a minha carne é verdadeira comida e o meu sangue, verdadeira bebida. 56Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. 57Como o Pai, que vive, me enviou, e eu vivo por causa do Pai, assim o que me come viverá por causa de mim. 58Este é o pão que desceu do céu. Não é como aquele que os vossos pais comeram. Eles morreram. Aquele que come este pão viverá para sempre”. 59Assim falou Jesus, ensinando na sinagoga em Cafarnaum.
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No final do discurso de Jesus sobre o Pão da vida, o tema é claramente eucarístico. Antes Jesus falava da fé no Enviado de Deus: “ver”, “vir”, “crer”, “permanecer” que no evangelho de João são sinônimos. Agora fala de “comer”  a Carne e de “beber” o Sangue que Jesus vai dar para a vida do mundo na Cruz, mas também na Eucaristia, porque quer que a comunidade celebre este memorial da Cruz (cf. 1Cor 11,24-25) . O fruto do comer e do beber a Carne e o Sangue de Jesus Cristo é o mesmo que o do crer nele: participar de sua vida. Antes Jesus havia dito: “Quem crê, tem vida eterna” (Jo 6,47). Agora: “Quem come deste pão viverá para sempre” (Jo 6,58).


Por isso, a palavra que se repete no texto deste dia, dentro do discurso de Jesus sobre o Pão da vida é “carne”. A palavra “carne” designa tudo o que constitui a realidade do homem com suas possibilidades e debilidades (Jo 1,14;3,16;8,15). A carne designa aqui o ser humano, considerado sob o aspecto de ser material, sensível e perceptível; designa o homem na sua condição de fraqueza e de mortalidade.


E um dos verbos que se repete neste texto é comer. Comer a carne e beber o sangue de Jesus significa incorporar-se, fusionar. É entrar em comunhão de amor e de destino de Jesus. Tomar o Corpo e o sangue, além disso, é reconhecer a vida do Espírito na carne e no sangue da humanidade (cf. 1Cor 3,16-17). É a humanidade que sofre, que busca, que dá a luz ao mundo com dor; a humanidade que se alegra, que canta e dança. É a humanidade de ricos e de pobres, humanidade de pecadores e de santos. É a humanidade dos rápidos e dos atrasados em descobrir a graça de Deus. É a humanidade da humanidade.


A eucaristia proporciona uma comunhão real de vida e de destino com a pessoa de Jesus. Seu Corpo nos faz participarmos na ressurreição, nos faz vivermos por Cristo que é vida para sempre, nos faz convivermos como irmãos, nos leva a vivermos na igualdade.


Há três efeitos da Eucaristia que o discurso sobre o Pão da vida nos indica:


1. A vida eterna e a ressurreição


“Quem come minha carne e bebe meu sangue tem vida eterna e Eu o ressuscitarei”.


O pão eucarístico segue as leis de todo pão oferecido pelo pai da família aos seus. O pão não tem significado especial em si sem outros componentes. Alguém tem que ganhá-lo e produzi-lo ou fabricá-lo e tem que ter alguém para comê-lo. Ao entregar ou ao distribuir o pão, que representa sua vida e seu trabalho, o pai e a mãe de uma família podem dizer em certo modo aos seus: “Este pão é minha carne entregue aos meus filhos” (cf. Jo 6,51). E os comensais, ao participar desse pão, compartilham, em certo modo, a própria vida de quem deu ou entregou esse pão (Jo 6,54).


Na Eucaristia comungamos o Cristo vivo ressuscitado. E este corpo ressuscitado passa a ser em nós “semente” de vida divina, vida que recebemos de Cristo (cf. 1Cor 15,1-58). No momento da Ceia Jesus falará do banquete celestial onde reunirá de novo seus amigos: “Não beberei mais do fruto da vinha até o dia em que beberei convosco o vinho novo no Reino do meu Pai” (Mt 26,29). Vamos caminhando até este encontro feliz onde beberemos com Cristo o vinho novo, uma alegria sem limite, uma vida sem ameaça de morte, uma vida eterna.


2. A imanência recíproca de Cristo e do cristão


“Quem come minha carne e bebe meu sangue permanece em mim e eu nele”.


Nós sabemos muito bem o que significa o estar com alguém a quem se ama? É ser feliz com ele. A vocação de todo homem é estar com Deus, permanecer em Deus e estar com todos os homens. É o tema fundamental da Aliança, que se expressou, ao curso da história da salvação, na Sagrada Escritura, por fórmulas cada vez mais íntimas: “Vós sereis meu povo, e Eu serei vosso Deus”, “Meu amado está comigo e Eu estou com ele”, “Permanecei em Mim e Eu em vós”.


A incorporação a Cristo, que tem lugar pelo Batismo, se renova e se consolida continuamente com a participação no Sacrifício eucarístico, sobretudo, quando esta é plena perante a comunhão sacramental. Podemos dizer que não somente cada um de nós recebe Cristo na comunhão, mas também que Cristo recebe cada um de nós. Cristo estreita sua amizade conosco: “Vós sois meus amigos” (Jo 15,14). Além disso, nós vivemos graças a Cristo: “Aquele que comer minha carne viverá por mim” (Jo 6,57). Na comunhão eucarística se realiza de maneira sublime que Cristo e o cristão estão unidos: um está no outro: “Permenecei em mim e eu permanecerei em vós” (Jo 15,4).


Precisamos meditar aquilo que São João Crisóstomo dizia: “Com efeito, o que é o pão? É o corpo de Cristo. E em que se transformam aqueles que o recebem? No corpo de Cristo; não muitos corpos, mas um só corpo. De fato, tal como o pão é um só apesar de constituído por muitos grãos, e estes, embora não se vejam, todavia estão no pão, de tal modo que a sua diferença desapareceu devido à sua perfeita e recíproca fusão, assim também nós estamos unidos reciprocamente entre nós e, todos juntos, com Cristo”.


E o Papa João Paulo II escreveu: “O dom de Cristo e do seu Espírito, que recebemos na comunhão eucarística, realiza plena e sobreabundantemente os anseios de unidade fraterna que vivem no coração humano e ao mesmo tempo eleva esta experiência de fraternidade, que é a participação comum na mesma mesa eucarística, a níveis que estão muito acima da mera experiência dum banquete humano. Pela comunhão do corpo de Cristo, a Igreja consegue cada vez mais profundamente ser, em Cristo, como que o sacramento, ou sinal, e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano” (Carta Encíclica Ecclesia De Eucharistia no. 24)


3. A consagração do cristão a Cristo


Assim como o Pai que me enviou vive, e eu vivo pelo Pai, assim também aquele que comer a minha carne viverá por mim”. 


Jesus consagrou sua vida ao Pai, viveu totalmente para Ele para viver totalmente para os homens. Por sua vez, ele nos pede para que vivamos para Ele a fim de alcançar a comunhão plena com o Pai na comunhão com os irmãos.


Por isso, comungar o Corpo e Sangue do Senhor não é uma coisa mágica, automática. É um compromisso sério para viver a vida como Cristo a viveu: Viveu somente para o bem. Ensinou somente para indicar o caminho para o bem e para alcançá-lo. Usou até palavras duras como “hipócrita”, “vida como um túmulo: belo por fora, podre por dentro” para dizer-nos que vale a pena largar outros interesses em função do bem e da verdade.


A vida de Cristo é a vida de Deus, pois Cristo vive pelo Pai, e quem comungar o Corpo e o Sangue de Cristo viverá por Cristo. Trata-se de uma vida que se doa, que se sacrifica, que se presenteia. Como Cristo, o cristão deve viver para os outros, para os favoritos de Deus: os pobres, os pequenos, os sofredores e assim por diante. Quem vive em Cristo o egoísmo é superado totalmente.

P. Vitus Gustama,svd