sexta-feira, 8 de maio de 2015

Domingo, 10/05/2015
 
AMAR O PRÓXIMO COMO JESUS NOS AMOU

VI Domingo Da Páscoa Ano “B”
 

Evangelho: Jo 15,9-17

Naquele tempo Jesus disse aos discípulos: 9“Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei. Permanecei no meu amor. 10Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como eu guardei os mandamentos do meu Pai e permaneço no seu amor. 11Eu vos disse isto, para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja plena. 12Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei. 13Ninguém tem amor maior do que aquele que dá sua vida pelos amigos. 14Vós sois meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando. 15Já não vos chamo servos, pois o servo não sabe o que faz o seu Senhor. Eu chamo-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai. 16Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi e vos designei para irdes e para que produzais fruto e o vosso fruto permaneça. O que, então, pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo concederá. 17Isto é o que vos ordeno: amai-vos uns aos outros”.
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Amor Como O Maior Mandamento


O texto do evangelho de hoje se encontra no contexto do “discurso” da despedida de Jesus de seus discípulos (Jo 13,1-17,26). Como discurso de despedida, nele se encontram últimas lições de Jesus para seus discípulos que vão levar adiante a missão de Jesus.


No evangelho de hoje Jesus fala do mandamento de amor. Pela segunda vez encontramos este mandamento no evangelho de João (cf. Jo 13,34-35; 15,12-17). Independentemente da questão de redação posterior, percebemos aqui a importância da vivência do amor fraterno, pois o amor fraterno nos leva até o céu (1Cor 13,13). Viver o amor fraterno significa cumprir todas as leis (cf. Rm 13,10). Pelo caminho do amor não há outro caminho que possa nos levar à comunhão plena com Deus, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16).


A comunicação e circulação da vida divina, de que se falou no Domingo anterior (cf. Jo 15,1-8), através da imagem da verdadeira videira que é Cristo e os ramos que são os que nele crêem, abre o caminho a uma comunicação e circulação do amor de que se fala no Evangelho deste Domingo.


Qual o valor do amor? Por que Jesus coloca o amor como o maior mandamento?


A resposta é simples: Porque Deus é Amor (1Jo 4,8.16). Se Deus é amor, o maior mandamento não pode ser outra senão o próprio amor. Quando se fala de cristianismo fala-se do amor. Onde não existe o amor, lá não existe o cristianismo. Se alguém fala do cristianismo sem falar do amor, não é o verdadeiro cristianismo. O amor é a alma da Bíblia, a força da profecia, a vida dos sacramentos, o fundamento da ciência, o fruto da fé e a vida dos moribundos (Sto. Agostinho). Ele sozinho já seria capaz de manter a esperança no mundo, pois nele está a chave de tudo. Ele é a força que move o mundo. Compreendê-lo e vivê-lo será justamente alcançar o mistério do universo/criação, da encarnação e da redenção. E conseqüentemente, compreender e viver o amor significa encontrar a chave do sentido da vida e ao mesmo tempo chegar à fonte da vida que é Deus. O paraíso, então, está onde habita o amor. Se formos um dia condenados, não será por termos amado demais, mas por termos amado de menos. Por isso, o homem vive não quando respira, mas quando ama. Por isso também, o homem morre não quando deixa de viver, mas quando deixa de amar, pois Deus é amor (1Jo 4,8.16) e a vida (Jo 14,6). E ninguém é pobre quando sabe amar. Mas quando alguém não sabe amar, embora seja muito rico, ele é o mais pobre do mundo.
  

A suprema felicidade da vida é a certeza de que somos capazes de amar e somos amados. “Somente o amor não fica molestado pela felicidade alheia, pois não é invejoso. Somente ele não se deixa enfatuar na felicidade própria, pois não se incha de orgulho ”(Sto. Agostinho).
 

Por isso, à medida que a vida avança, o critério da maturidade real é a capacidade de amar. Quem ainda não é capaz de amar, com suas várias expressões como: respeito, atenção, agradecimento, perdão, paciência, solidariedade, sinceridade, justiça, fidelidade, misericórdia, ternura, sem discriminação (de cor , de raça ou de experiência acadêmica) etc., ele ainda não cresceu do ponto de vista cristão.


Jesus fala de amor neste Evangelho numa relação de cadeia. É como uma fonte que vem do Pai, passa por Jesus, chega à comunidade, satisfaz nossas necessidades e deve ir aos outros. Por isso, Jesus diz: “Como meu Pai me amou, assim também eu amei vocês”. Por isso, “amem-se uns aos outros como eu amei vocês” (Jo 15,9.12). Naturalmente a iniciativa do amor vem do Pai, pois nele tem início: “Amamos porque Deus nos amou primeiro”(1Jo 4,19). A prática do amor (ágape) coloca o homem em total sintonia com a Caridade por excelência: Deus.  Fazemos parte do amor de Deus à medida que crescemos na relação amorosa com as pessoas, por meio da caridade, como diz São Paulo: “Permanecei em concórdia, vivei em paz e o Deus de amor e de paz estará convosco” (2Cor 13,11b). Amado, o homem existe e é amado que ele se afirma. Parece um paradoxo, mas é verdade profunda: para o homem, amar a Deus significa antes de tudo deixar-se amar por ele, porque amar a Deus nunca é iniciativa do homem, mas sempre reposta a um dom. É simples o raciocínio de Jesus: o Pai ama o Filho (Jesus) que observou sua vontade. Cristo amou os seus discípulos/seguidores, todos nós, com o mesmo amor que recebia do Pai e no qual os seus, por sua vez, podem permanecer em Jesus, observando o mandamento do amor de seu Mestre. Um pecador, um afastado de Deus, saberá que há um Deus que o busca e que lhe perdoa, se há um irmão que vai em busca dele, por ele se interessa e lhe perdoa em nome do Deus de amor. Um pobre, um doente, um ancião abandonado, descobrirá que há um Pai de amor para ele, se vir um irmão que, em nome de Cristo, a manifestação do amor infinito do Pai, se aproxima dele, divide com ele o seu pão e toma para si um pouco da tristeza dele. O amor de Deus em nós faz-nos solidários e responsáveis uns pelos outros.


Mas de que amor Jesus fala quando diz: “Amem-se uns aos outros como eu amei vocês”? O amor que Jesus quer colocar não é o amor puramente humano, passional e natural, mas o amor evangélico, ou caridade, ágape. O amor puramente humano, passional e natural é dominado por esta regra: “Como eu te amo, assim tu deves me amar”. No certo sentido, é mais um buscar que um dar. Dou para que tu me dês. O amor evangélico, chamado ágape ou caridade, quebra esse círculo vicioso que tão facilmente se torna egoísmo a dois. A fundamental regra para o amor evangélico é esta: “Amem-se uns aos outros como eu amei vocês”. A retribuição que Jesus quer não é para ele: é para oferecer aos outros.  O amor, neste caso, não se estagna, mas circula perenemente e com ele circula a vida; um dom que se mantém pela transmissão, como o rio que permanece vivo fluindo. Jesus não pede tanto ser amado, mas sobretudo que seja acolhido o amor que desce dele e de seu Pai. Por isso, ele não nos diz: “Amem-me porque amei vocês”, mas “Amem-se uns aos outros como eu amei vocês”. A retribuição que ele quer não é para ele: é para oferecer aos outros. É amando os irmãos que mostramos nossa gratidão pelo amor do Pai que se manifesta a nós em Jesus Cristo. Na expansão de seu amor, nos tornamos “aliados” de Deus e de Jesus. O amor é um testemunho indiscutível que define com quem se pode contar para fazer o bem, um testemunho que convence e conquista outros para fazer a mesma tarefa. . Por isso, o comentário que atrai sempre mais gente para o cristianismo é este: “Vejam como eles se amam”. A glória de Deus não aumenta quando nos prostramos tenebrosos diante da Sua majestade, mas sim quando fazemos com que sua ternura esteja presente no mundo, nas pessoas. Quem ama, mesmo sem ser batizado, tem em si a vida de Deus e por isso, é seu filho: “...todo aquele que ama, nasceu de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama, não conheceu a Deus, pois Deus é Amor”(1Jo 4,7b-8). “...quem não ama seu irmão, a quem vê, a Deus, a quem não vê, não poderá amar...aquele que ama a Deus, ame também o seu irmão” (1Jo 4,20b.21b).


O amor é visível, circulante e motivo de alegria: “ Eu disse isso a vocês para que a minha alegria esteja em vocês e sua alegria seja plena”, diz Jesus. Aquele que é capaz de amar sempre tem uma vida alegre, um rosto feliz e sorridente naturalmente (não é um sorriso comercial). Ao contrário, aquele que guarda rancor ou mágoa ou não quer perdoar os outros, normalmente não tem uma vida feliz.


Mas de que modo Jesus nos amou quando ele diz: “Amem-se uns aos outros como eu amei vocês”? No centro da passagem, o versículo 13 nos responde: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos”. Amor é isto: querer o bem do outro e, por isso, fazer o sacrifício se for necessário. Jesus pode pedir tanto, porque foi isso mesmo que ele fez: ele amou os seus discípulos e os amou até o fim: até a morte na cruz (Jo 13,1). Só o amor justifica a cruz. A cruz é a manifestação do amor louco e apaixonado de Jesus por nós. Somente a partir do amor é que podemos entender o significado da cruz. Basta tirar o amor da cruz, ela (a cruz) se torna uma condenação.


Se é uma doação total, o amor, então, começa com a superação do egoísmo, com o sair de si mesmo, de seus interesses e reivindicações, o abrir-se para o outro. Quando interiormente nos comprometemos com os outros, começamos a compreender. O egoísta não vai ao encontro, pode se camuflar em timidez ou se traduzir pelo comodismo, ou desinteresse. Egoísmo refinado é querer sempre “levar vantagem”. O egoísta se fecha sobre si mesmo, seus interesses mesquinhos, suas pequenas preocupações. Por isso, o egoísta é um infeliz. Ele não percebe que é justamente no entregar-se ao próximo que está o segredo infalível da felicidade.


O verdadeiro amor é sempre como uma experiência de derrota que se transforma em vitória; uma experiência de entrega que se transforma em enriquecimento; uma experiência de sair de si que se transforma no mais profundo encontro consigo mesmo; uma experiência de morte que se transforma em vida. O ponto final do amor é a vitória sobre a morte. O ponto final do egoísmo é a morte; a ausência do amor; a ausência de Deus.


Amor também é autocomunicação do bem, pois o amor é a presença do bem naquele que sabe amar. Amor é capacidade de sair de si mesmo, de transferir-se para outro ser, de participar de outro ser e de entregar-se por um outro ser. Aquele que ama está totalmente no outro, conservando sua identidade. O amor não pode realizar-se na esfera de um sujeito isolado.


Jesus confiou a todos nós algo muito valioso que é o amor. Tendo nos comunicado o que precisamos saber, agora ele nos convida a agir de forma criativa, não como subalternos ou pessoas tristes que cumprem ordens, mas como sócios/amigos. ”Já não chamo vocês de servos porque o servo não sabe o que faz o senhor. Mas chamo vocês de amigos porque dei a vocês a conhecer tudo quanto ouvi do meu Pai” (Jo 15,15).


Será que eu sou amigo de Jesus?


Todos nós conhecemos algumas pessoas que são corretas, fazem tudo direitinho, mas parecem duras com os outros. São honestas, mas não parecem viver essa honestidade com compaixão e alegria. Cumprem seus deveres fielmente, mas fazem isso como quem carrega um peso, sempre de cara feia/triste, como se a vida fosse uma obrigação desagradável.


Outras pessoas, porém, são acolhedoras, fazem a gente se sentir bem, prestam serviço com alegria. Conseguem nos passar amor à vida, ao próximo e a Deus sem fazer muito discurso. Seu serviço simples e alegre nos comunica que escolheram na vida um caminho que está valendo a pena.


A prática do mandamento de amor não só nos torna uma só pessoa com Cristo, mas une também ao Pai. A glória do Pai não aumenta quando nos prostramos, temerosos, diante da sua infinita majestade, mas sim, quando fazemos com que seu amor esteja presente no mundo.


Para podermos amar aos outros verdadeiramente devemos olhar sempre para Jesus Cristo, o modelo máximo de toda a caridade ou amor evangélico, pessoal e comunitário. Ele recebeu tudo do Pai(Mt 11,27), mas o que ele recebeu ele deu tudo para a vida do mundo., até mesmo a Sua carne. A eucaristia que celebramos é a memória viva deste amor evangélico, a tal ponto que o próprio termo “ágape” muito cedo significou para os cristãos a refeição eucarística da comunidade. Essa é a maior memória que possa existir do amor evangélico, visto que como hoje, ouvimos do próprio Jesus Cristo estas palavras: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos”(Jo 15,13).


Vamos nos perguntar: qual é a maior prova de amor que podemos dar? É justo querer dar a vida por Jesus sem entregar a vida pelos irmãos? Quais são as pessoas que ainda não amei bastante ou ainda não consegui perdoar? Vamos lembrar novamente a palavra do Senhor do domingo passado: “Sem mim nada podeis fazer. Comigo tudo é possível”. Será que contamos sempre com o Senhor ou só nos concentramos na nossa própria força por isso nos sentimos impotentes?

P. Vitus Gustama,svd

quarta-feira, 6 de maio de 2015

09/05/2015
 
SER MÁRTIR DE CRISTO

Sábado da V Semana da Páscoa
 

Evangelho: Jo 15,18-21

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 18“Se o mundo vos odeia, sabei que primeiro me odiou a mim. 19Se fôsseis do mundo, o mundo gostaria daquilo que lhe pertence. Mas, porque não sois do mundo, porque eu vos escolhi e apartei do mundo, o mundo por isso vos odeia. 20Lembrai-vos daquilo que eu vos disse: ‘O servo não é maior que seu senhor’. Se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós. Se guardaram a minha palavra, também guardarão a vossa. 21Tudo isto eles farão contra vós por causa do meu nome, porque não conhecem aquele que me enviou”.
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Continuamos ainda a acompanhar o discurso de despedida de Jesus dos seus discípulos (Jo 13-17).


O evangelho de hoje descreve a situação precária da comunidade cristã no mundo, principalmente nos finais do século I e nos começos do século II. É uma situação que se caracteriza pela recusa e até pela perseguição abertas. A resistência à revelação não cessou na cruz de Jesus. A mesma resistência agora é dirigida contra a comunidade cristã que mantém os ensinamentos de Jesus Cristo. “Se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós”, alerta Jesus aos seus. Na época em que João escreveu seu evangelho muitos morreram como mártires.


No evangelho deste dia, Jesus contrapõe o amor do Pai com o ódio do mundo manifestado pela perseguição. “Se o mundo vos odeia, sabei que primeiro me odiou a mim”. Ódio é paixão ou sentimento que leva a fazer ou a desejar mal para o próximo. É uma paixão provocada pela vista do mal e que se traduz por um sentimento de aversão. Mas o ódio é igual a tomar o veneno e espera que o outro morra. O mundo é caracterizado pelo ódio. A comunidade cristã é caracterizada pelo amor fraterno: “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13,35).


Se o mundo vos odeia, sabei que primeiro me odiou a mim”. Os cristãos estão bem advertidos. Não têm porque se estranham de ser recusados ou odiados por causa da vivencia dos ensinamentos de Cristo. Nada de estranho! A Igreja é o Corpo de Cristo. Por isso, tem que sofrer inevitavelmente os ataques do homem mundano que se crê deus de si mesmo e que não pode renunciar a ser ele o autor de sua própria salvação. Este tipo de homem sempre buscará acusações contra a Igreja, pelos mesmos motivos que as buscou contra Jesus. Para o mundo a fé em Deus é irracional e atrasada; o perdão aos inimigos é uma debilidade; a oração e o amor a Deus são atitudes ineficazes e dos fracos. Por isso e por tantos outros motivos a Igreja de Cristo é perseguida. Mas a perseguição é um meio de união com Cristo; é correr a mesma sorte que Jesus. Enquanto a Igreja viver fielmente de acordo com os ensinamentos de Jesus, ela será perseguida (cf. 2Tm 3,12).


Para São João, habitualmente, especialmente no contexto do evangelho deste dia, o mundo significa “o mundo pecador”, “o mundo que recusa Deus”. O processo de Jesus não terminou enquanto a Igreja estiver no mundo. Por isso, o mundo neste sentido é sinônimo de todo um sistema ideológico, político e social que aliena o ser humano e o converte num escravo; designa a todo sistema injusto. Mas o seguimento de Jesus, a amizade com ele leva os cristãos a romperem com a mentalidade alienada que o mundo impõe.


Mas a ruptura com o mundo não é fácil. Pelo contrário, resulta num conflito em extrema deprimente e perigoso, porque o mundo, como mentalidade alienadora, não permite a mínima dissensão ou oposição. Por isso, enquanto a Igreja existir sobre a face da terra, vão continuar a existir também mártires. Mas o sangue do mártir é a semente para a Igreja. Não dá para a verdadeira Igreja de Cristo parar de sofrer. A Igreja de Jesus continua com sua função profética de anunciar e de denunciar que resulta na perseguição e no martírio. Viver de acordo com os ensinamentos de Cristo significa ser sinal de contradição (cf. Lc 2,34-35).


Os cristãos devem lutar incansavelmente por superar, em sua própria pessoa e na comunidade, a mentalidade que o mundo lhes impõe. A vida de um cristão é uma luta permanente contra o mal. Qualquer cristão verdadeiro sofrerá por manter sua opção pelos valores do Reino tais como amor, justiça, honestidade, verdade, igualdade, fraternidade e assim por diante.


O que o cristão deve continuar a fazer é testemunhar o amor fraterno. O amor fraterno é o selo de autenticidade de cada cristão (cf. Jo 13,35). Somente o amor vivido na fraternidade salva, pois “Deus é Amor” (1Jo 4, 8.16).


O perigo que temos é a assimilação insensível da hierarquia de valores do mundo em vez da hierarquia de valores que Jesus Cristo ensinou. Por isso, há perseguição contra a Igreja que é fruto da incoerência da própria Igreja com seus próprios ensinamentos éticos e morais recebidos de Jesus Cristo. Se a Igreja estiver de mãos dadas com o mundo é porque a Igreja deixa de viver de acordo com sua função profética de anunciar e de denunciar. Neste sentido, a Igreja é perseguida porque não está vivendo os valores cristãos que ela própria prega. Este tipo de perseguição serve para que a Igreja volte a ser como antes: uma comunidade cristã que vive os valores éticos e morais antes de pregá-los.


Mas há outro tipo de perseguição que se deriva do choque do evangelho com muitos dos critérios que hoje são vigentes. Esta segunda perseguição é um claro sinal da autenticidade da Igreja. Se os cristãos forem perseguidos por estar vivendo os valores éticos e morais e os demais valores evangélicos, estarão recebendo, na verdade, um grande aplauso apesar do sofrimento. Que bom que alguém me critica por praticar o bem. Que bom que alguém me denuncia por eu ser solidário com os pobres e os excluídos da sociedade. Que bom que alguém me persegue por eu lutar pela justiça e honestidade e assim por diante. Se alguém me criticar por cometer algo do nível ético, eu tenho que ficar de joelho diante de Deus para pedir perdão e voltar a viver os valores éticos e os demais valores evangélicos.


Ser cristão é ser mártir; é ser testemunha. A palavra “mártir” em grego pode significar: afirmar o que se viu para que os demais se convençam disso; é testemunhar para que o juiz faça justiça. No cristianismo, o testemunho significa também firmar com sangue o que se afirma. No Antigo Testamento sem testemunhas declarantes, não pode ter sentença penal (Nm 5,13). Na Bíblia, é preciso ter, pelo menos, dois ou três testemunhas coincidentes (Dt 19,15-16; Nm 35,30; Mt 26,59-61; Mc 14,56-57). As falsas testemunhas eram duramente castigadas (Dt 19,16-20; 1Rs 21,10-13; Dn 13,34-41). Os sábios de Israel anatematizam o testemunho falso (PR 19,9). Havia obrigação grave de testemunhar (Lv 5,1.5.6).


Ao participar da Eucaristia sabemos que aceitamos as exigências do Evangelho, de tal forma que, daqui em diante, temos que viver totalmente comprometidos com Jesus Cristo. É sermos testemunhas de Cristo onde estivermos e para onde formos. Comungar o Corpo do Senhor significa viver como Ele viveu. Comungar o Corpo do Senhor significa assumir o estilo de vida que ele viveu. Sem isto, a Eucaristia e a comunhão carecerão de sentido. Quando o cristão deixar de ser testemunhas dos valores cristãos, o mundo vai avançando na sua maldade. E os pequenos, os inocentes serão sempre suas vítimas preferidas. O cristão é chamado a ser voz desses pequeninos: dos sem voz e sem vez.

 P. Vitus Gustama,svd

terça-feira, 5 de maio de 2015

08/05/2015
 
AMAR COMO ESTILO DE VIDA CRISTÃ

Sexta-Feira da V Semana da Páscoa
 

Evangelho: Jo 15,12-17

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 12“Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei. 13Ninguém tem amor maior do que aquele que dá sua vida pelos amigos. 14Vós sois meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando. 15Já não vos chamo servos, pois o servo não sabe o que faz o seu Senhor. Eu chamo-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai. 16Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi e vos designei para irdes e para que produzais fruto e o vosso fruto permaneça. O que, então, pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo concederá. 17Isto é o que vos ordeno: amai-vos uns aos outros”.
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Continuamos ainda a acompanhar o discurso da despedida de Jesus dos seus discípulos no evangelho de João (Jo 13-17). No evangelho de hoje Jesus fala do amor como o maior mandamento para seus seguidores e Jesus se apresenta como amigo dos discípulos e de todos os seus seguidores. Creio que este mandamento é tão importante a ponto de ser apresentado duas vezes no evangelho de João: Jo 13,34-35 e Jo 15,12-14. “Meu amor é meu peso”, dizia Santo Agostimho (Conf. 13,9). “Quanto mais cresce teu amor, maior é tua perfeição. A perfeição da alma é o amor”, acrescentou Santo Agostinho (In epist. Joan. 9,2).


Amar Como o Estilo De Vida Cristã


“Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei”. Este é o mandamento do Senhor! Não se trata de uma lei (nomos), e sim de um estilo de vida (entolé). Aqui a palavra “mandamento” tem a ver com o estilo de vida. Para o evangelista João “amar” é um estilo de vida. Trata-se de uma coisa que faz parte da vida cotidiana de cada seguidor de Cristo.


Mas que tipo de amor que Jesus recomenda? Que tipo de amor que ele fala como o estilo de vida? Em que sentido o amor como o estilo de vida?


Jesus se põe a si mesmo como modelo: Amai-vos uns aos outros como eu vos amei (Jo 15,12). De que maneira Jesus nos amou? O amor de Jesus é gratuito, generoso, universal, incondicional e sem limites: “Jesus amou os seus, e os amou até o fim” (Jo 13,1). Jesus amou ao longo dos dias e dos anos; amou até a morte e além da morte. Sem limites: até dar tudo, gastar tudo, despojar-se de tudo. O amor de Deus não se deixa condicionar (cf. Jo 3,16), e nem sequer impor limites pelos maus comportamentos do homem: “Deus faz nascer o seu sol igualmente sobre maus e bons e cair a chuva sobre justos e injustos”, diz Jesus no Sermão da Montanha (Mt 5,45).   Ele se entregou pelos demais ao longo de sua vida até o extremo: a morte na cruz: Ninguém tem amor maior do que aquele que dá sua vida pelos amigos (Jo 15,13). É o amor concreto. É amar não com palavras apenas, e sim com obras, com a compreensão, com a ajuda oportuna, com a palavra amável, com a tolerância, com a doação gratuita de si mesmo, com o perdão (cf. Lc 23,34). O amor autêntico exige sempre o sacrifício e o total esquecimento de si. É amar por amor. São Bernardo afirma: O amor basta por si só e por causa de si. Seu prêmio e seu mérito se identificam com ele mesmo. O amor não requer outro motivo fora de si mesmo. Amo porque amo; amo para amar”. Se assim é, podemos dizer que você vive não quando respira, mas quando ama. Do ponto de vista cristão a capacidade de viver o amor fraterno é o critério da maturidade cristã.


Para nós, cristãos, a atitude de amor aos demais deve ser uma conseqüência prática de nossa comunhão profunda com Cristo. O cristão é reconhecido, fundamentalmente, pelo amor que vive: “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros”, disse-nos Jesus (Jo 13,35).


Somos Amigos De Jesus

Eu vos chamo amigos”, diz o Senhor.

·        A amizade é uma predisposição recíproca que torna dois seres igualmente ciosos da felicidade um do outro (Platão).

·        Sem amigo, nada é agradável [Sine amico nihil amicum] (Santo Agostinho).

·         A amizade é o conforto indescritível de nos sentirmos seguros com uma pessoa, sem ser preciso pesar o que se pensa, nem medir o que se diz (George Eliot).

·        A verdadeira amizade é aquela que nos permite falar ao amigo de todos os seus defeitos e de todas as nossas qualidades (Millôr Fernandes).

·        O amigo é o melhor terapeuta nas experiências de abandono e humilhação (Anselm Grün).

·        Refugiado em peito amigo, sumindo vai pesar antigo (Johann Wolfgang Goethe).

·        Não me alegro tanto pela andorinha que me traz a mensagem da primavera e que à renovação eterna canta hinos, mas alegro-me bem mais pela mensagem do amigo que me traz o que preciso para a vida (Friedrich Rückert, poeta).

·        Com um amigo ao lado, nenhum caminho é longo demais (ditado japonês).


Para ser amigo do outro é preciso ser amigo de si mesmo, no sentido de que é preciso colocar em ordem o próprio coração e direcioná-lo para o bem. Um coração bom está sempre do lado do bem. Um coração bom nos leva a praticarmos a bondade. Dizia Cícero que a amizade é “doadora da alegria de viver tanto para os nossos amigos como para nós mesmos”. Por isso, ter ou não ter amigo depende de ser ou não ser amigo de si mesmo. Quem é muito humano para si próprio, será muito humano para o outro. É o ponto de partida para uma amizade.


Quando alguém reclama que não tem amigo ou amiga, é preciso se perguntar: “Será que eu sou amigo de mim mesmo? Será que sei me tratar? Será que eu me respeito e me amo?”. Somente poderemos ser felizes quando aprendermos a fazer o outro feliz. Somente podemos ser próximos dos outros, se aprendermos a ser próximos dos outros.


Eu vos chamo amigos”, diz o Senhor. Jesus chamou seus discípulos de amigos porque partilhou tudo com eles o que ouviu de seu Pai: experiências, conhecimentos, salvação, amor etc.. Jesus abriu aos discípulos Seu coração. Isto significa que o discípulo, o cristão não é um simples subalterno. O cristão é um amigo pessoal de Jesus Cristo. O amigo não é um simples conhecido ou um sócio, e sim alguém com quem se compartilha a intimidade, o mais profundo de nosso ser: “Eu vos chamo amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai” (Jo 15,15b). O amigo sempre está disposto a fazer o que o amigo lhe pedir: “Vós sois meus amigos se fizerdes o que eu vos mando” (Jo 15,14). O amigo demonstra a verdade de seu amor estando disposto a entregar a própria vida se for necessário: “Ninguém tem amor maior do que aquele que dá sua vida pelos amigos” (Jo 15,13). O verdadeiro amigo inclui a doação da vida pelo amigo. Para Jesus a noção de amizade é muito profunda. “Amigo é alguém que te conhece a fundo e, apesar disso, te ama” (Hublard). “A amizade é como todos os títulos honoríficos: quanto mais velha, mais preciosa”, dizia Goethe. “A amizade duplica as alegrias e divide as tristezas” (Francis Bacon).


“Eu vos chamo amigos”, disse-nos Jesus. É uma mensagem consoladora. É uma mensagem que dá força e ânimo. De fato, eu não estou sozinho (a). Eu estou bem acompanhado (a). Eu estou acompanhado (a) pelo Salvador do mundo: Jesus Cristo. Se o cristão viver verdadeiramente esta fé, ele jamais se sentirá só independentemente da situação em que se encontra. O cristão não é solitário, e sim solidário. “O mundo é tão vazio quando pensamos apenas nas montanhas, rios e cidades; mas saber que cá e lá existe alguém que comunga conosco, com o qual também nós convivemos tacitamente, isto faz deste globo terrestre para nós um jardim habitado” (Johann Wolfgang von Goethe).


Vós sois meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando, disse Jesus.  Será que você pode ser considerado como amigo de Jesus? Para ser amigo do outro é preciso ser amigo de si mesmo. Você é amigo de si mesmo?


Lembremo-nos do recado do Pequeno Príncipe: “Você precisa me cativar. As pessoas já não têm tempo de aprender coisa alguma. Compram tudo nas casas comerciais. Mas, como não existem lojas de amizade, as pessoas não têm mais amigos. Se quiser um amigo, cative-me” (Saint-Exupéry: O Pequeno Príncipe).

P. Vitus Gustama,svd

segunda-feira, 4 de maio de 2015

07/05/2015
 
AMOR CRISTÃO É UM AMOR CIRCULANTE:
DE DEUS PARA JESUS E DE JESUS PARA NÓS E DE NÓS PARA OS OUTROS


Quinta-Feira da V Semana da Páscoa
 

Evangelho: Jo 15,9-11

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 9 “Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei. Permanecei no meu amor. 10Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como eu guardei os mandamentos do meu Pai e permaneço no seu amor. 11Eu vos disse isto, para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja plena”.
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O texto do evangelho se encontra no discurso da despedida de Jesus dos seus discípulos no evangelho de João (Jo 13-17). Jesus sabe de sua morte iminente e por isso, deu as ultimas recomendações para os seus discípulos.


Hoje Jesus nos disse: “Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei”. Isto quer dizer que o amor cristão nasce e começa em Deus. Originalmente é coisa de Deus e não nossa. A iniciativa é de Deus: “Amamos porque Deus nos amou primeiro” (1Jo 4,19). Deus é amor (1Jo 4,8.16), origem e motor do amor. O Filho, Jesus, se origina do Pai num processo de amor que é o Espírito. Este amor em Deus é comunidade, Trindade. E este amor vai se manifestando na criação, na encarnação, na filiação, na amizade, na alegria definitiva do encontro derradeiro. Deus é sempre a origem e o término. “Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei”. Que profundidade encontrada nesta afirmação. Eu sou amado de Deus e por Deus. Jesus me ama como o Pai ama Jesus. Eu sou privilegiado/privilegiada. Eu preciso viver esta verdade na minha vida cotidiana, em todas as circunstâncias. Deus me ama e eu creio no Seu amor. Com o amor divino por mim eu posso encarar tudo na minha vida como o amado/amada de Deus. Quanta serenidade terei eu se eu viver profundamente esta verdade! Não há nada que possa me separar do amor de Deus (cf. Rm 8,35-39).


E o sinal mais evidente, a encarnação desse amor divino é Jesus: “Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha vida eterna” (Jo 3,16). Jesus é a medida do amor de Deus e o exemplo a seguir. Todas as palavras de Jesus, todas as obras de Jesus são manifestação do seu amor por nós todos. Jesus é o amor de Deus feito rosto humano.


E este amor que nasce no Pai e passa por Jesus termina necessariamente nos irmãos. O amor cristão tem dois pólos: Deus e os irmãos (o homem). Quem não ama o irmão, não conhece Deus, não conhece Jesus, não entendeu o que é a fé cristã. Sem amor a Deus e ao irmão, não há fé cristã.


Amor cristão é, então, um amor circulante: o amor que vem do Pai para o Filho, Jesus e de Jesus  para nós e de nós para os irmãos.


Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei”. É maravilhoso o que Jesus nos diz hoje. Há alguém que me ama com o amor divino: Jesus Cristo. O amor com que Jesus me ama é o mesmo amor com que Ele é amado pelo Pai. Diante de Deus sou amado e sou amado eternamente, porque Aquele que me ama é eterno: “Eu te amei com amor eterno, por isso, conservei para ti o amor”, diz Deus através do profeta Jeremias (Jr 31,3). Posso estar rodeado pelas dificuldades ou problemas, mas eu sei que há alguém que me ama. A certeza desse amor eterno por mim me dá força para lutar e para melhorar minha vida. A certeza desse amor eterno me dá serenidade em tudo. De fato, eu não estou sozinho na minha luta de cada dia, pois há alguém que me ama: “Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei”. Na minha oração só posso dizer a Jesus: “Obrigado, Senhor Jesus, porque me ama eternamente”.


Mas a relação com Deus não é algo automático. Por isso, Jesus acrescenta: “Permanecei no meu amor”.  A palavra “permanecer” é uma forma de acreditar em Jesus, de deixar-se penetrar pelo amor de Jesus, de deixar-se envolver pela ternura. É uma entrega total em Jesus para que Ele possa operar totalmente em nós a fim de que possamos ser reflexos do mesmo amor para o mundo ao nosso redor.


“Se guardardes os meus mandamentos, vós permanecereis no meu amor, assim como eu guardei os mandamentos do meu Pai e permaneço no seu amor”. Este “Se” é inquietante para nós, porque é a responsabilidade de nossa liberdade. Eu sei que Deus me ama, mas será que eu permaneço no amor de Deus? Eu sei que sou filho (a) de Deus, mas será que eu vivo como tal? Eu sei que faço parte da família de Deus, mas será que estou dela? São Paulo nos esclarece sobre este tema ao nos dizer: “Não devais nada a ninguém, a não ser o amor mutuo, pois quem ama o outro cumpriu a Lei... A caridade não pratica o mal contra o próximo. Portanto, a caridade é a plenitude da Lei” (Rm 13,8.10). Tudo isto significa que o amor divino com que eu sou amado deve também transparecer e circular na minha relação com os outros. Nisto mostrarei que eu permaneço no amor divino.


O amor fraterno quando for vivido na sua profundidade leva a pessoa à alegria: “Eu vos disse isso para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja plena” (Jo 15,11). A verdadeira alegria brota do amor e da fidelidade com que se guardam na vida concreta as leis do amor. Sentiremos essa alegria na medida em que permanecermos no amor a Jesus, guardando os mandamentos de amor, seguindo o estilo de sua vida.


 Se vivermos tristes, será que isso acontece por causa da falta de nossa permanência no amor divino? Será que abandonamos o amor na nossa vida, por isso é que ficamos tristes o tempo todo? Será que nosso amor está nem morno nem quente, como diz o livro de Apocalipse (Ap 3,16)?
 
P. Vitus Gustama,svd
06/05/2015
 
PERMANECER EM CRISTO PARA TER UMA VIDA FRUTÍFERA

Quarta-Feira da V Semana da Páscoa


Evangelho: Jo 15,1-8

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 1“Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. 2Todo ramo que em mim não dá fruto ele o corta; e todo ramo que dá fruto, ele o limpa, para que dê mais fruto ainda. 3Vós já estais limpos por causa da palavra que eu vos falei. 4Permanecei em mim e eu permanecerei em vós. Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim também vós não podereis dar fruto, se não permanecerdes em mim. 5Eu sou a videira e vós os ramos. Aquele que permanece em mim e eu nele, esse produz muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer. 6Quem não permanecer em mim, será lançado fora como um ramo e secará. Tais ramos são recolhidos, lançados no fogo e queimados. 7Se permanecerdes em mim e minhas palavras permanecerem em vós, pedi o que quiserdes e vos será dado. 8Nisto meu Pai é glorificado: que deis muito fruto e vos torneis meus discípulos.
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O Evangelho deste dia nos situa numa ceia de despedida de Jesus de seus discípulos (Jo 13-17). Por isso, os gestos e as palavras de Jesus, neste contexto, representam as suas últimas indicações e recomendações, os seus últimos “testamento”. Os discípulos recebem essas orientações para poderem continuar no mundo a missão de Jesus. Nasce, assim, a comunidade da Nova Aliança, alicerçada no serviço (cf. Jo 13,1-17) e no amor (cf. Jo 13,33-35), que pratica as obras de Jesus, animada pelo Espírito Santo (cf. Jo 14,15-26).


Conectar Minha Vida Na Vida de Jesus Para Produzir Bons Frutos


Eu sou a videira e vós, os ramos”, diz Jesus. É uma comparação simples, mas profunda que nos oferece muitas sugestões para a vida cristã. O ramo não vive sem o tronco. O ramo, para viver, precisa receber a seiva do tronco permanentemente, sem a qual morrerá.


Nesta metáfora encontramos uma maravilhosa certeza de nossa vida: que estamos enraizados em Alguém que nos dá vida, estabilidade e força para lutar e ter sucesso na luta: Jesus Cristo. Jesus vem para nos dar vida em abundância (Jo 10,10).


Além disso, esta imagem serve para sublinhar a comunicação e circulação de vida divina que existe entre Jesus e aqueles que nele crêem. A vida de Deus passa a circular na vida daqueles que aceitam Jesus e vivem de acordo com seus ensinamentos. Trata-se de uma relação que nos liga, na sua dimensão mais profunda, a Jesus. Jesus vive e é para todos os crentes o único autor da vida e o princípio de sua organização. Jesus é a seiva, a raiz e o fundamento da vida do crente. Eu preciso viver conectado com Cristo para viver profundamente e abundantemente.


Eu sou a videira e vós, os ramos”. Entre Jesus e o cristão há uma comunhão de vida. Se assim é, os cristãos se alimentam e crescem com a mesma vida de Jesus Cristo, como os ramos que se alimentam da seiva que vem do tronco. Quem se alimenta dos ensinamentos de Jesus acaba sendo vida para os demais. Quem se alimenta dos ensinamentos de Cristo vive e pensa sempre no bem e na salvação de todos como a seiva passa para todos os ramos a fim de alimentá-los.


Estar Unido a Cristo é a Condição Para Ter Uma Vida Frutífera


Aquele que permanece em mim e eu nele, esse produz muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer” (Jo 15,5; cf. Gl 2,20; 5,24;6,14;Fl 1,21;3,8.12;Ef 4,24;Cl 2,6;3,1).


Se nossa vida e seus frutos dependem de Jesus Cristo, isso significa que permanecer unido a Jesus Cristo é uma condição sine qua non (incondicionalmente). Permanecer em Cristo é a condição e a capacidade de produzir muitos frutos para Deus e para os outros. Jesus é “a verdadeira videira”, de onde brotam os frutos da justiça, do amor, de verdade e da paz; é n’Ele e nas suas propostas que os homens podem encontrar a vida verdadeira. A vida enraizada em Cristo faz com que produzamos algo de bom e de útil para a humanidade. Jesus quer que produzamos o que tem a ver com vida para os demais. Para isso só há uma condição: estar sempre ligado a Cristo.


O Cristão Pertence ao Senhor


Eu sou a videira e vós, os ramos”, diz-nos o Senhor. Tenho que estar consciente de que eu pertenço ao Senhor. Eu sou do Senhor. Eu vivo por causa do Senhor. Eu devo falar e agir em nome do Senhor. Eu devo fazer aquilo que tem a ver com a vontade do Senhor que se resume no amor fraterno. O cristão não é nem deve ser um ser isolado e não pode ficar isolado dos outros. O cristão pertence ao Senhor e está com o Senhor. O cristão não é solitário e sim solidário. Cada cristão é membro de um corpo – o Corpo místico de Cristo. A sua vocação é seguir Cristo, integrado numa família de irmãos que partilha a mesma fé, percorrendo em conjunto o caminho do amor. A vivência da fé é sempre uma experiência comunitária. É no diálogo e na partilha com os irmãos que a nossa fé nasce, cresce e amadurece, e é na comunidade, unida por laços de amor e de fraternidade, que a nossa vocação se realiza plenamente.


O que pode interromper a nossa união com Cristo e tornar-nos ramos secos e estéreis é quando conduzirmos a nossa vida por caminhos de egoísmo, de isolamento, de ódio, de injustiça, de divisão; quando nos fecharmos em esquemas de auto-suficiência, de comodismo e de instalação. Ninguém cresce sem o outro.


É Necessária Uma Poda Permanente Para Poder Produzir Bons Frutos


“Todo ramo que dá fruto, ele o limpa, para que dê mais fruto ainda”.


Qualquer vinhateiro não tem medo de cortar alguns ramos ou folhas para que toda a seiva se concentre nuns determinados ramos para que produzam frutos abundantes e de qualidade.


Os ramos não têm vida própria e não podem produzir frutos por si próprios; necessitam da seiva do tronco. Para que não nos tornemos “ramos” secos, temos que ter coragem de cortar o que não presta em nossa vida. não tenha medo de eliminar uma dor pequena em função de retirada da dor maior. Não deixemos nenhuma coisa negativa crescer em nós, pois um dia tudo isso achamos que seja normal. Deixemos somente o bem crescer em nós para que sejamos o bem para os outros. Não podemos viver no comodismo em nome do prazer que nos esmaga e oprime. Vivamos na sinceridade, na retidão, na bondade, na verdade, no amor, na caridade e assim por diante. Somos não pelos bens que possuímos, nem pelo cargo que ocupamos nem pelo poder que temos e sim pelos valores que vivemos. Para isso, precisamos podar o que não é o bem nem faz bem para nossa vida e a vida das pessoas ao nosso redor. A poda é uma atividade positiva: elimina fatores de morte, fazendo que o cristão seja cada vez mais autêntico, mais livre, tenha capacidade maior de entrega e aumente sua eficácia. É um corte purificador, produtivo e libertador.
     

Algumas perguntas para a revisão de nossa vida: Que parte do meu modo de viver que está seca? Que parte da minha maneira de viver e de pensar que precisa ser podada? Como cristão, de que minha vida cristã se alimenta?

P. Vitus Gustama,svd

sábado, 2 de maio de 2015

05/05/2015
 
A PAZ QUE CRISTO QUER NOS DAR


Terça-Feira da V Semana da Páscoa
 

Evangelho: Jo 14,27-31ª

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 27“Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; mas não a dou como o mundo. Não se perturbe nem se intimide o vosso coração. 28 Ouvistes que eu vos disse: ‘Vou, mas voltarei a vós’. Se me amásseis, ficaríeis alegres porque vou para o Pai, pois o Pai é maior do que eu. 29Disse-vos isto, agora, antes que aconteça, para que, quando acontecer, vós acrediteis. 30Já não falarei muito convosco, pois o chefe deste mundo vem. Ele não tem poder sobre mim, 31amas, para que o mundo reconheça que eu amo o Pai, eu procedo conforme o Pai me ordenou”.

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Continuamos a acompanhar o “discurso” de despedida de Jesus de seus discípulos (Jo 13-17). Ao se despedir de seus discípulos, Jesus lhes dá a sua paz: “Eu vos deixo a paz, eu vos dou a minha paz; não vo-la dou como o faz o mundo. Que o vosso coração não se perturbe nem se intimide” (v.27).


Paz (shalom, em hebraico, ou eirene, em grego) é uma fórmula ancestral e tradicional de saudação e de despedida entre os orientais até o dia de hoje. Os judeus na atualidade se saúdam com “shalom” (paz), ou se perguntam: “mi shelomkha?” (Como está?) que literalmente pode ser traduzido “como está tua paz?”. Ao se despedir se desejam shalom u-berakhah (paz e bênção).


Paz (shalom) que é a saudação habitual entre os judeus tem uma grande densidade de significado, pois este termo não significa apenas a ausência de conflitos ou a tranqüilidade da alma, mas também a saúde, a prosperidade, a felicidade em plenitude. A palavra “Shalom” talvez possa ser traduzida com uma expressão que todos nós desejamos aos outros: “Tudo de bom”. “All the best” para os da língua inglesa. Desejar a paz significa desejar tudo de bom para o próximo. Desejar “shalom” é desejar a alguém uma harmonia com tudo, com todos e com o Todo por excelência que é o próprio Deus.


Ao se despedir dos discípulos, Jesus não lhes deseja a paz, mas ele lhes a paz: “Eu vos deixo a paz”, e insiste: “Eu vos dou a minha paz”.


Que tipo de paz que Jesus quer oferecer aos discípulos e a todos nós? Não se trata de um simples augúrio de paz, mas de um verdadeiro dom. A paz é um dom, vem do alto: não surge da decisão do homem. Por isso, não pode reduzir-se ao nível de sentimento. Trata-se de uma palavra que salva, que vai à raiz, lá onde está a origem da verdadeira paz (a origem do mal). A paz de Jesus tem como efeito banir/expulsar do coração dos discípulos todo e qualquer resquício/resíduo de perturbação ou de temor que leva ao imobilismo. Possuindo o dom da paz de Jesus, todos os seguidores de Cristo devem manter-se imperturbáveis, sem se deixar intimidar diante das dificuldades. Assim pensada, a paz de Jesus consiste numa força divina que não deixa os discípulos rompam a comunhão com Jesus. É Jesus mesmo, presente na vida dos discípulos, sustentando-lhe a caminhada, sempre disposto a seguir adiante com alegria, rumo à casa do Pai, apesar das adversidades que deverão enfrentar. Dizendo “vai em paz”, Jesus cura a hemorroíssa (Lc 8,48) e perdoa os pecados à pecadora (Lc 7,50). A paz de Jesus nasce da vitória sobre o pecado e suas conseqüências. A paz de Jesus funda-se no amor fraterno e na justiça. A paz de Jesus, por isso, rejeita toda espécie de idolatria que coloca criatura no lugar de Deus e submete o ser humano a um regime de opressão. João enfatiza que Jesus é o mediador da paz; é neste sentido que Jesus a qualifica de “minha”. Os verbos estão no presente, sublinhando, assim, a realidade atual e a duração indefinida do dom. O Filho dispõe a paz que, segundo a Bíblia, só Deus pode conceder. A paz caracteriza os tempos messiânicos (Sl 72,7). O Messias tem por nome “o Príncipe da Paz” (Is 9,5s). A aliança escatológica é uma “aliança de paz” (Is 66,12). Todo o NT se mostra herdeiro dessa tradição para acentuar a reconciliação com Deus (At 10,36; Rm 5,1;Ef 2,14-17;Cl 1,20 etc.).
    

“Mas não dou a paz como o mundo a dá”, disse Jesus. E m que consiste a paz do mundo?


A paz que o mundo oferece prescinde de Deus e se funda num projeto contrário ao dele. Aí, se encontram a injustiça, a concentração de bens à custa da exploração alheia, o desrespeito pelo ser humano. É o império do egoísmo que idolatra pessoas e coisas, e transforma os indivíduos em seus escravos. Por isso, é uma paz que conduz à morte eterna. Segundo o mundo, para ter paz todos tem que se preparar para a guerra. “Si vis pacem, para bellum!” (expressão latina). “Se desejas a paz, prepara-te para a guerra”. “Devemos amar a paz sem odiar os que fazem a guerra”, dizia Santo Agostinho (Serm. 357,1).


Quando o homem esquece o seu destino eterno, e o horizonte de sua vida se limita à existência terrena, contenta-se com uma paz fictícia, com uma tranqüilidade exterior. Jesus qualifica este tipo de paz como a paz que o mundo dá. Recuperar a paz perdida é uma das melhores manifestações de nossa caridade para com os que estão à nossa volta. Onde houver amor também haverá a paz. Com efeito, a verdadeira paz é o fruto do amor a Deus e ao próximo.


Deus em quem acreditamos é um Deus da paz; não quer a desordem, a rebelião ou tumulto. Deus está pela ordem como estada normal das coisas, e esta ordem equivale à paz. É o mesmo Deus que na cena da criação põe ordem no caos inicial (Gn 1,1ss), dando a entender que “criar” é em primeiro término ordenar o caos inicial, separando o céu da terra etc. para evitar a confusão. A paz, entendido neste sentido, se apresenta como estado normal das coisas onde cada uma ocupa seu devido lugar. Quando cada elemento ocupar seu próprio lugar haverá a ordem e conseqüentemente haverá a paz. “A paz é a tranqüilidade da ordem”, dizia Santo Agostinho.


Para refletir:


·        “A fraternidade é uma dimensão essencial do homem, sendo ele um ser relacional. A consciência viva desta dimensão relacional leva-nos a ver e tratar cada pessoa como uma verdadeira irmã e um verdadeiro irmão; sem tal consciência, torna-se impossível a construção duma sociedade justa, duma paz firme e duradoura. E convém desde já lembrar que a fraternidade se começa a aprender habitualmente no seio da família, graças, sobretudo, às funções responsáveis e complementares de todos os seus membros, mormente do pai e da mãe. A família é a fonte de toda a fraternidade, sendo por isso mesmo também o fundamento e o caminho primário para a paz, já que, por vocação, deveria contagiar o mundo com o seu amor” (Papa Francisco: Mensagem Para a Celebração Do XLVII Dia Mundial Da Paz De 2014).


·        Depois do Pai-Nosso se dá a paz. Que grande sacramento se esconde nesse rito. Deixa que teu beijo seja a expressão de teu amor. Não sejas Judas, que beijou Cristo com os lábios, mas já o havia traído em seu coração (Santo Agostinho: Serm. Dennis 6,3).

P. Vitus Gustama,svd
04/05/2015
 
CORAÇÃO QUE AMA É A MORADA DIVINA

Segunda-Feira da V Semana da Páscoa


Evangelho: Jo 14,21-26

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 21“Quem acolheu os meus mandamentos e os observa, esse me ama. Ora, quem me ama será amado por meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele”. 22Judas – não o Iscariotes – disse-lhe: “Senhor, como se explica que te manifestarás a nós e não ao mundo?” 23Jesus respondeu-lhe: “Se alguém me ama, guardará minha palavra, e o meu Pai o amará, e nós viremos e faremos nele a nossa morada. 24Quem não me ama não guarda a minha palavra. E a palavra que escutais não é minha, mas do Pai que me enviou. 25Isso é o que vos disse enquanto estava convosco. 26Mas o Defensor, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, ele vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que eu vos tenho dito”.
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O texto do evangelho de hoje faz parte da conversa de Jesus com os seus discípulos na véspera de sua morte ou faz parte do longo discurso de despedida de Jesus de seus discípulos (Jo 13-17).


A morte de Jesus vai ser um ir ao encontro do Pai celeste. Esse modo novo de ver situação, especialmente da morte, deve constituir para os discípulos motivos de alegria e não de medo, pois Jesus Cristo não vai abandoná-los. O Santo Espírito vai acompanhá-los no mundo, uma nova forma da presença de Jesus no meio deles. E este Espírito Santo vai facilitar os discípulos na compreensão das palavras de Jesus, que até então sem condições para encontrar seu sentido. Jesus é o próprio Evangelho e o Mensageiro de Deus, o Profeta e a Palavra de Deus e é Deus (cf. Jo 1,13). Em Jesus e por Ele tudo ficou dito, tudo o que Deus tinha que nos dizer. Mas nem tudo ficou compreendido. Por isso, a nova presença de Jesus no Santo Espírito vai ajudar os discípulos a compreenderem tudo que foi dito por Jesus e sobre Jesus.


Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e o meu Pai o amará, e nós viremos e faremos nele a nossa morada”, Jesus disse no evangelho de hoje.


Jesus nos convida a uma comunhão vital: nossa fé e nosso amor a Jesus nos introduzem num admirável intercâmbio. Se tivermos fé e amor, o próprio Deus fará Sua morada em nós e nos converteremos em templos de Deus e de Seu Espírito. O amor nos une com Deus e com os irmãos. A fé no Deus que nos ama nos leva a lutarmos até o fim a exemplo de Jesus. A evidencia que nos comprova de que amamos Jesus é viver seus ensinamentos que se resumem no amor fraterno (cf. Jo 15,12).


Deus faz sua morada em nós em virtude de uma dupla exigência: guardar sua palavra e amá-lo de verdade no próximo (amor fraterno). Deus está presente em cada um de nós na medida em que ama o próximo. A morada de Deus, a casa de Deus, sua residência já não é um templo, Deus não mora na parede das igrejas, e sim que sou eu mesmo morada de Deus na medida em que vivencio o amor fraterno, na medida em que sou fiel à palavra de Jesus. Em outras palavras, o amor cria comunhão e comunidade tanto no nível humano como no nível divino. Com efeito, sem o amor não haveria nenhuma comunhão com os outros e conseqüentemente com Deus, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16).


Mas esta presença de Deus no homem não é estática; é a presença de seu Espírito, seu dinamismo de amor e vida que faz o homem participar de Seu próprio amor. Se Deus faz sua morada no coração de quem ama, isto significa que Deus se afasta de mim quando houver em mim o desamor, a injustiça, o ódio, a exploração dos irmãos, a falta de perdão e assim por diante.


Por isso, não basta ficar-me no nível de idéias, de sentimentalismo, de pensamentos e sim que esse novo pensamento, essas novas idéias tenham que provocar em mim uma mudança de vida. Não basta abrir a mente, tenho que abrir também a porta de meu coração, de minha vida vivendo o amor fraterno para tornar-me morada de Deus. O homem que ama é um homem divinizado. “Sem amor o rico se torna pobre; com amor o pobre se torna rico” (Santo Agostinho). A prática cristã do amor é o sinal mais claro e evidente de nossa pertença à Igreja de Jesus. Quem ama como Jesus amou, entra no recinto do amor de Deus Pai e mergulha no mistério salvador de Deus: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e o meu Pai o amará, e nós viremos e faremos nele a nossa morada”. Amar a Jesus é deixar-se guiar por suas palavras e inspirar-se em seu modo de viver. Ele vive por amor e para o amor. É um amor universal que não exclui ninguém. Quem se entrega a este projeto de amor será transformado em morada de Deus.


A afirmação de Jesus é, na verdade, um convite ao progresso interior que nos torna semelhantes a Deus pela fidelidade à palavra, e faz reconhecer, nesta fidelidade, a morada das pessoas divinas. O amor fraterno nos aproxima de Deus. A partir do momento em que alguém amar, ele será a nova morada de Deus.


Se em Jo 14,3 Jesus disse que iria preparar para os fiéis uma morada no céu, agora neste texto (vv.22-23) fica claro que a morada do Pai e de Jesus no meio de nós começa aqui e agora, na medida em que observamos o mandamento de Jesus: mandamento do amor fraterno. Se no passado Deus se manifestava em lugares e fenômenos naturais, agora fica muito claro que as pessoas que amam como Jesus são manifestação da presença de Deus. Assim, a separação entre o homem e Deus é superada, e a busca do Pai, tema essencial do Discurso é satisfeita pelo próprio Pai. O nosso Deus não é o Deus distante, mas aquele que se aproxima do homem e vive com ele, formando uma comunidade com os homens, objeto do seu amor.


Por isso, buscar a Deus não exige ir encontrá-lo fora de próprio homem, mas deixar-se encontrar e amar por Ele. A “morada” de Deus está em nós mesmos e entre nós, se estivermos unidos a Jesus e ao Pai na fidelidade e na prática do mandamento do amor. A resposta ao amor a Jesus se expressa no amor aos outros homens (guardar minha palavra). E o Pai e Jesus respondem à fidelidade do discípulo dando-lhe a experiência de sua companhia e seu contato pessoal.


Toda vez que alguém, ao escutar a mensagem do amor, a repete para si mesmo e a põe em prática, insere-se na família de Deus e passa a ser, com Jesus, uma manifestação de Deus ao mundo. A comunidade cristã e o “mundo”, então, distinguem-se entre si pela presença ou ausência do amor. O amor torna-se a razão de diferença entre os discípulos e o mundo. Sem amor, o homem continua carnal, incapaz da autêntica experiência de Deus. Deus escolhe para sempre viver no coração que ama.


Jesus também nos convida a permanecermos atentos ao Espírito, nosso verdadeiro Mestre, a memória de Cristo, a memória para os cristãos. Como memória de Cristo o Espírito vai nos revelando a profundidade de Deus que nos conecta com Cristo: “O Defensor, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, ele vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que eu vos tenho dito”. Esse Espírito tem uma função de “pedagogo” de nossa fé porque ele é quem nos prepara para o encontro com Cristo e com o Pai e ele é quem suscita nossa fé e nosso amor. Ele desperta a memória da Igreja.

P. Vitus Gustama,svd