sábado, 23 de maio de 2015

27/05/2015

FAZER-SE SERVO AO ESTILO DE JESUS PARA RESGATAR O PRÓXIMO

Quarta-Feira da VIII Semana Comum

 
Evangelho: Mc 10, 32-45

Naquele tempo, 32discípulos estavam a caminho, subindo para Jerusalém. Jesus ia na frente. Os discípulos estavam espantados, e aqueles que iam atrás estavam com medo. Jesus chamou de novo os Doze à parte e começou a dizer-lhes o que estava para acontecer com ele: 33“Eis que estamos subindo para Jerusalém, e o Filho do Homem vai ser entregue aos sumos sacerdotes e aos doutores da Lei. Eles o condenarão à morte e o entregarão aos pagãos. 34Vão zombar dele, cuspir nele, vão torturá-lo e matá-lo. E depois de três dias ele ressuscitará”. 35Tiago e João, filhos de Zebedeu, foram a Jesus e lhe disseram: “Mestre, queremos que faças por nós o que vamos pedir”. 36Ele perguntou: “Que quereis que eu vos faça?” 37Eles responderam: “Deixa-nos sentar um à tua direita e outro à tua esquerda quando estiveres na tua glória!” 38Jesus então lhes disse: “Vós não sabeis o que pedis. Por acaso podeis beber o cálice que eu vou beber? Podeis ser batizados com o batismo com que vou ser batizado?” 39Eles responderam: “Podemos”. E ele lhes disse: “Vós bebereis o cálice que eu devo beber, e sereis batizados com batismo com que eu devo ser batizado. 40Mas não depende de mim conceder o lugar à minha direita ou à minha esquerda. É para aqueles a quem foi reservado”.  41Quando os outros dez discípulos ouviram isso, indignaram-se com Tiago e João. 42Jesus os chamou e disse: “Vós sabeis que os chefes das nações as oprimem e os grandes as tiranizam. 43Mas entre vós, não deve ser assim: quem quiser ser grande, seja vosso servo; 44e quem quiser ser o primeiro, seja o escravo de todos. 45Porque o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate para muitos”.
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1. Jesus, Que Está Na Frente de Nossa Caminhada, Nos Chama Continuamente a Segui-Lo (Mc 10,32-34)


O texto do evangelho de hoje nos diz que Jesus e os seus discípulos “estavam a caminho”.  Seguir a Jesus é estar caminhando. Somente caminhando é que nossa visão fica mais ampla e vemos tanta coisa no caminho que renova nossa reflexão. Somente caminhando é que percebemos as surpresas de Deus e as respostas de Deus para nossas interrogações ou perguntas. Somente caminhando é que criamos o caminho. O próprio Jesus é o Caminho (cf. Jo 14,6). E nós devemos ser caminhantes. Somente caminhando no Caminho por excelência é que chegaremos ao Pai (cf. Jo 14,1-6). É preciso caminhar! Se ficar parado é porque há algo que desvia a atenção do cristão.


No evangelho de Marcos a meta da caminhada de Jesus é explicitamente mencionada: Jerusalém (11,11). Sem dúvida, Jesus já visitou Jerusalém várias vezes, mas somente desta vez ele a visitou como Messias. E Jesus é descrito como uma pessoa que está marchando determinadamente para seu destino: “Estavam a caminho para subir a Jerusalém” (v.32). Com a descrição de “estar a caminho”, Marcos quer nos dizer que seguir a Jesus significa colocar-se em marcha e andar atrás de Jesus, pois quem anda na frente de Jesus, se perde ou fica desorientado. Trata-se de um caminhar no qual há avanços e retrocessos, clarezas e obscuridades.


O texto também nos relata que Jesus vai à frente dos discípulos (v.32b). O verbo usado aqui por Marcos é  “ir à frente”. Este “ir à frente” servirá para expressar a promessa da ressurreição: Jesus Ressuscitado irá novamente à frente dos discípulos, como guia e pastor, na Galiléia (14,28; 16,7). A imagem de Jesus que “vai à frente” é a imagem do Servo que se entrega. É o cumprimento daquilo que lemos no quarto canto do Servo de Deus: “Se ele oferece a sua vida como sacrifício pelo pecado, certamente verá uma descendência, prolongará os seus dias” (Is 53,10). Trata-se de um anúncio de morte, mas cheio de esperança, pois fala-se da ressurreição.  


Podemos ver também neste “ir à frente” de Jesus uma mensagem de esperança e de certeza para quem acredita em Jesus. Para tudo de bom que fazemos e queremos fazer Jesus abre o caminho apesar das “subidas” que nos fazem perdermos fôlego. Mas tendo consciência de que Jesus está andando na nossa frente, ganharemos novas forças ou renovaremos nossas forças para continuar a acompanhar Jesus no seu caminho de salvação. fixemos o olhar em Jesus que está na frente. Não percamos visão sobre Jesus. Não olhemos para outras direções! O Jesus na frente nos chama continuamente para caminhar sem desistência nem desânimo apesar de nossos medos e fraquezas: “Os discípulos estavam espantados, e aqueles que iam atrás estavam com medo” (Mc 10,32b).


2. Ambição Pelo Poder Obscurece o Seguimento e Mata o Espírito de Serviço (Mc 10,35-45)


Apesar de Jesus estar na nossa frente não faltam tentações que nos desviam do caminho de Jesus. Uma dessas tentações é a ambição pelo poder mundano. Uma pessoa com a ambição viciada pelo poder é capaz de recorrer à violência para alcançar seu objetivo. Este tipo de pessoa não se preocupa em ser justo. Ele não suporta competidores nem rivais e tenta eliminá-los de qualquer maneira. Poder é uma palavra mágica que encanta, arruína e corrompe a tantos mortais. Os que são viciados pelo poder manipulam e oprimem, especialmente, os débeis: “Vós sabeis que os chefes das nações as oprimem e os grandes as tiranizam”. Quanta atualidade nesta imagem! Quanta tristeza se muitos deles presumem de ser cristãos.


Depois que os discípulos ouviram o terceiro anúncio da Paixão, novamente, como depois do segundo, surge uma discussão entre os discípulos sobre o primeiro posto, sobre a preeminência na comunidade. Para os discípulos esta discussão lhes importava. Eles estão como que cegos para enxergar o caminho trilhado por Jesus e que eles devem trilhar também como discípulos do Senhor: “Mestre, deixa-nos sentar um à tua direita e outro à tua esquerda quando estiveres na tua glória!”.


Seguir a Jesus, fazer-se servo, como Jesus, torna-se difícil quando entra na vida de qualquer cristão a sede pelo primeiro posto, pelo poder como poder, não como serviço entendido como doação de si mesmo aos demais até o sacrifício total da própria vida a exemplo de Jesus.


 “Na sua glória”, glória (doxa) como em 8,38 e 13,26. Os dois irmãos são motivados mais pela ambição egoísta do que pela idéia clara sobre o que eles querem: “Vós não sabeis o que estais pedindo” (38b). Eles não sabem “o que estão pedindo” (v.38), mas “sabem” de que modo a classe dirigente age (v.42). Os dois pensam no prêmio e não no caminho. Além disso, seu pedido egoísta por uma alta posição mostra que eles continuam concentrados mais em sua grandeza pessoal do que no serviço humilde para qual Jesus chamou os Doze (9,33-50).


É uma ocasião apropriada para Jesus transmitir lição sobre discipulado (42-45): “Entre vocês não deverá ser assim...”. Em seguida ele propõe um outro tipo de autoridade, que é o anti-poder, mediante imagens e modelos sociais inequívocos para seu tempo e o ambiente antigo: o servo (diakonos: pessoa que serve à mesa) e o escravo (doulos: pessoa na situação mais baixa do que um servidor). Quem “serve à mesa” e, mais ainda, quem é “escravo de todos” tem como preocupação principal o atender às necessidades dos outros. 


Quando a Igreja é fiel a este modelo, a sua vida comunitária reflete a própria vida de Jesus (cf. Fl 2,5-11). Assim, a Igreja se torna uma presença profética no mundo, e tem força para denunciar estruturas injustas e o uso do poder para dominar e tiranizar, da mesma forma que Jesus o fazia naquela sociedade na qual vivia. Por isso, como é triste quando cristãos se esquecerem desta exigência de Jesus na vida familiar ou na comunidade; ou silenciam diante de injustiças na sociedade e compactuam com um poder dominador. A grandeza dos cristãos-discípulos está na capacidade de servir e na dedicação ao serviço. O essencial para qualquer autoridade ou responsável na comunidade cristã é que ele seja mais servo do que chefe: um servidor de Deus e das pessoas para que todos cresçam no amor e na verdade.


Em nosso íntimo, infelizmente, existe um pequeno tirano que quer o poder e prestígio e que se agarra a isso; quer dominar, ser superior, controlar. Teme qualquer crítica, qualquer controle: é o único a ter razão, mandando tudo e em tudo, conservando ciosamente seu poder de quere dominar. “Quem quiser ser grande, seja vosso servo; e quem quiser ser o primeiro, seja o escravo de todos” é o recado permanente de Jesus para todos nós.


O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate para muitos”, concluiu Jesus no evangelho de hoje. São palavras bem pensadas que manifestam com que consciência Jesus vai ao encontro de seu destino. Este estilo de vida é que dá a Jesus o sentido de sua morte. O texto diz: “Como resgate para muitos”. Jesus se vê como o “Justo Sofredor” cuja morte-martírio se converte em sacrifício de salvação para todos. Jesus me resgatou sacrificando-se. Jesus me salvou oferecendo sua vida como resgate. De que maneira eu posso “resgatar” meu próximo? Sou capaz de me sacrificar para que o próximo possa viver?

P. Vitus Gustama,svd
26/05/2015
SERVIR E TRABALHAR PARA FORMAR UMA COMUNIDADE DE IRMÃOS

Terça-Feira Da VIII Semana Comum

 

Evangelho: Mc 10,28-31

Naquele tempo, 28começou Pedro a dizer a Jesus: “Eis que nós deixamos tudo e te seguimos”. 29Respondeu Jesus: “Em verdade vos digo, quem tiver deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos, campos, por causa de mim e do Evangelho, 30receberá cem vezes mais agora, durante esta vidacasa, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, com perseguições — e, no mundo futuro, a vida eterna. 31Muitos que agora são os primeiros serão os últimos. E muitos que agora são os últimos serão os primeiros”.
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O texto do evangelho de hoje, como também o do dia anterior, se encontra na parte central do evangelho de Marcos (Mc 8,22-10,52). Este conjunto começa com a cura do cego (8,22-26) e termina com a mesma (10,46-52). Com isso Marcos quer nos mostrar que os discípulos continuam com sua incompreensão diante da missão de Jesus. Este estado é comparado ao do cego.


No início e no fim desta seção, Marcos coloca o tema de como dom de Deus. A faz ver quem é Jesus. A faz perceber a presença de Deus no mundo, nas criaturas, nas pessoas de bondade e assim por diante. A profunda faz acreditar em Deus apesar das dificuldades (cf. Hb 11,1). Desde o começo da atividade pública de Jesus, Marcos mostrou-nos a cegueira dos discípulos. Mas Jesus fará tudo para, pouco a pouco, tirar a cegueira dos discípulos. A visão clara que se tem de Jesus não vem de uma vez. Mas com a ajuda de Jesus, veremos mais claro e com maior nitidez. A também faz ver o caminho que Jesus trilhou e que devemos trilhar. Assim a seção começa e termina com a cura de um cego (8,22-26; 10,46-52). E essas duas curas têm uma função simbólica: para mostrar a cegueira dos discípulos. Elas também lembram o leitor que é Jesus quem faz possível a daqueles que acreditam nele e O seguem no caminho. Acreditar em Jesus nos capacita a vermos com nitidez a vontade de Deus em tudo na nossa vida.


No evangelho do dia anterior (Mc 10,17-27) o jovem rico recusou o convite de Jesus para que ele vendesse tudo que tinha para depois dar tudo aos pobres e seguir a Jesus. Em vez de seguir a Jesus, Àquele que tem “as palavras de vida eterna” (Jo 6,68b), o jovem rico foi embora triste porque tinha muitos bens e não quis partilhá-los nem com os necessitados (pobres). Depois que ele foi embora, Jesus pronunciou esta frase para os discípulos: “Meus filhos, como é difícil entrar no Reino de Deus! É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus!”.


Ao ouvir essa frase, Pedro perguntou, então, a Jesus: Eis que nós deixamos tudo e te seguimos”. E o evangelista Mateus explicita ou acrescenta a seguinte frase: “O que é que vamos receber?” (Mt 19,27). O que tem no fundo da frase de Pedro? Está seu conceito político e interesseiro do Messianismo. Os discípulos buscam postos de honra, recompensas humanas, soluções econômicas de maneira mágica e soluções políticas (Messias político). Eles querem transformar Jesus em empresário para resolver sua carência econômica. Eles se esquecem de que os bens materiais sempre são alheios a nós. Eles nunca serão nossos amigos, pois são coisas. A vida feliz está na partilha. A partilha é a alma do projeto de Jesus Cristo. Ele nos chama para segui-lo nessa direção. No evangelho de Marcos Jesus e seu Espírito vão ajudando os discípulos para que cheguem à maturidade de sua . Somente depois da ressurreição (Páscoa) eles vão se entregar também gratuito e generosamente ao serviço de Jesus Cristo e da comunidade até sua morte, pois eles captaram o sentido da mensagem de Jesus.


A resposta de Jesus diante da pergunta de Pedro é esperançosa e misteriosa, ao mesmo tempo: “Em verdade vos digo, quem tiver deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos, campos, por causa de mim e do Evangelho, receberá cem vezes mais agora, durante esta vida e, no mundo futuro, a vida eterna”. Não se trata de quantidades aritméticas (cem vezes). A resposta se refere à nova família que se cria em torno de Jesus: deixamos um irmão e encontramos cem irmãos (irmãs). O laço desta nova família está na prática da vontade de Deus que consiste na prática do bem e na vivência do amor fraterno: “Quem fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, irmã e mãe” (Mc 3,35).


Quantos irmãos e irmãs leigos, quantos pastores, quantos médicos e enfermeiros sem fronteiras e as demais pessoas de boa vontade que entregam sua melhor força e tempo para trabalhar pelo bem dos irmãos da comunidade e fora da comunidade e para ajudar os sofredores em todos os sentidos! Quantos sacerdotes, quantos religiosos e religiosas, quantas pessoas consagradas que não formaram a própria família, mas não por isso que deixaram de amar. Ao contrário, eles estão plenamente disponíveis para todos, movidos de um amor universal. Todos esses irmãos e irmãs são reflexos da generosidade de Jesus Cristo neste mundo. Jesus está presente nesses irmãos e irmãs, se quisermos perguntar onde está Jesus Cristo (cf. Mt 25,31-46). Jesus promete desde agora uma grande satisfação e promete a vida eterna: “receberá cem vezes mais agora, durante esta vida e, no mundo futuro, a vida eterna”. Mas o verdadeiro amor supõe sacrifício, cruz e perseguição, porém, vale a pena! A Páscoa salvadora passa pelo caminho da Cruz da Sexta-feira Santa. É a cruz com Cristo que termina na ressurreição!
 
P. Vitus Gustama,svd
25/05/2015
 
APRENDER A SER LIVRE DOS BENS MATERIAIS PARA AMAR MELHOR

Segunda-Feira da VIII Semana Comum

 

Evangelho: Mc 10,17-27

Naquele tempo, 17Ao retomar seu caminho, alguém correu e ajoelhou-se diante de Jesus, perguntando: “Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna?” 18Jesus respondeu: “Por que me chamas bom? Ninguém é bom senão Deus.19Tu conheces os mandamentos: não mates; não cometas adultério; não roubes; não levantes falso testemunho; não defraudes ninguém; honra teu pai e tua mãe!” 20Entao, ele replicou: “Mestre, tudo isso eu tenho guardado desde minha juventude”. 21Fitando-o, Jesus o amou e disse: “Uma coisa te falta: vai, vende o que tens, dá aos pobres, e terás um tesouro no céu. Depois vem e segue-me!” 22Ele, porém, contristado com essa palavra, saiu pesaroso, pois era possuidor de muitos bens.. 23Entao Jesus, olhando em torno, disse a seus discípulos: “Como é difícil a quem tem riquezas entrar no Reino de Deus!” 24Os discípulos ficaram admirados com essas palavras. Jesus, porém, continuou a dizer: “Filhos, como é difícil entrar no Reino de Deus! 25É mais fácil um camelo passar pelo fundo da agulha do que um rico entrar no Reino de Deus!” 26Eles ficaram muito espantados e disseram uns aos outros: “Então, quem pode ser salvo?” 27Jesus, fitando-os, disse: “Aos homens é impossível, mas não a Deus, pois para Deus tudo é possível”.
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Lemos no evangelho deste dia quealguém” (sem nome, que pode ser qualquer um de nós) correu ao encontro de Jesus para fazer a seguinte pergunta: Bom mestre, que farei para herdar a vida eterna?” É uma pergunta que jovens faziam aos rabis, quando se apresentavam para iniciarem a formação acadêmica nas escolas hebraicas: que devo fazer? No evangelho de Mateus o jovem rico diz: “Mestre, que farei de bom para ter a vida eterna?” (Mt 19,16).


Antes de responder à pergunta desse rico, Jesus se cautela diante do apelativobom”: “Por que me chamas bom? Ninguém é bom senão Deus”. Essa precisão servirá para se compreender a resposta que Jesus fará a esse rico. Esta observação de Jesus corresponde perfeitamente à concepção bíblica e judaica segundo a qual Deus é chamado bom, porque ele usa de misericórdia, socorre os pobres e defende os fracos (cf. Dt 10,18). Por isso, a única condição para entrar na vida eterna é imitar o único bom, Deus. A fidelidade a Deus é exercida no amor ao próximo, síntese dos mandamentos.


Jesus prossegue, indicando ao seu interlocutor o caminho paraherdar” a vida definitiva junto a Deus, e citou os mandamentos que se referem aos deveres para com o próximo (v.19). O rico responde: “Mestre, tudo isso eu tenho guardado desde a minha juventude” (v.20).


O texto prossegue: “Fitando-o, Jesus o amou e disse: ’uma coisa te falta: vai, vende o que tens, dá aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me’” (v.21). “Fitar” é o mesmo que cravar, admirar, fixar a atenção e o pensamento, ficar imóvel. O sinal distintivo da identidade do discípulo é seguir a Jesus, isto é, ficar envolvido em seu destino, seu modo de amar e de ser fiel ao outro homem até o testemunho supremo da cruz. A diferença entre a renúncia aos bens como estilo de vida e o seguimento evangélico está nessas duas palavras de Jesus: “dá-os aos pobres”. Se nos detivermos na primeira: “vai e vende tudo o que tens”, ainda estamos no limiar do evangelho que para termos liberdade interior, nos afastamos de todas as coisas e preocupações materiais. A novidade evangélica é o convite: “dá aos pobres, porque assim tu imitas o único bom, Deus; depois vem e segue-me”. Trata-se de seguir aquele que, pelos pobres, deixou não sua atividade, a segurança social e os laços de parentesco, mas também entrega sua própria existência como dom de amor pelos muitos, pela libertação deles (cf. Mc 10,45).


Nesta perspectiva, a observância dos mandamentos não é mais um meio para se garantir um privilégio espiritual ou uma dignidade moral, mas é a expressão de amor fraterno e fidelidade ao próximo. O próximo é a passagem obrigatória para chegar até Deus. Isto agora é possível no seguimento de Jesus, onde o rosto do único bom, Deus, se tornou um rosto humano. Aquele que se põe a seguir Jesus não sabe, mas tem também a real possibilidade de imitar o único bom, que socorre os fracos e se solidariza com os pobres. Quem entra na vida eterna, então, não é aquele que não pratica o mal, e sim aquele que pratica o bem, embora quem pratica o bem signifique também não pratica o mal, pois os dois não podem coexistir. É aquele que transforma o rosto de Deus bom em rosto humano. Você pode dizer: “Graças a Deus! Nunca matei, nunca roubei, nunca fiz mal a ninguém etc.,”. Mas pergunte-se se você pratica o bem ou não; se você faz a caridade ou não. O cristão é aquele que pratica o bem e não somente aquele que deixa de fazer o mal.


Por isso, dar os bens para os pobres e seguir a Jesus não é um passatempo ou um luxo religioso proposto a um elite; não é um conselho para os mais generosos. Dar os bens aos pobres é a condição básica para ter um tesouro no céu, para herdar a vida plena e definitiva. É preciso nós amarmos as pessoas e usarmos as coisas, em vez de amarmos as coisas e usarmos as pessoas.
      

O homem rico, pelo seu apego à riqueza, não aceita o convite de Jesus. Seu amor aos outros é relativo, não chega ao nível necessário para um cristão. Não está disposto a trabalhar por uma mudança social, por uma sociedade justa; a antiga lhe basta. Prefere o dinheiro ao bem do homem.
  

Jesus pede a todos os seus seguidores que tenham o desprendimento que sabe se conformar com o necessário e compartilhar com os outros o que se tem, sem entesourar nem incorrer na idolatria do dinheiro como bem supremo, pois tudo será deixado neste mundo. Um dia seremos obrigados a largar tudo quando chegar nosso momento para partir deste mundo. De fato, temos apenas o usufruto das coisas criadas por Deus para nossa felicidade neste mundo e não para possuí-las.


Hoje, Jesus também fitando cada um de nós, e diz: “Meu filho, minha filha, meu irmão e minha irmã, uma coisa te falta ainda...”. Que cada um se verifique e se olhe com carinho: será que uma coisa me falta ou mais coisas para que eu possa crescer na direção do bem e do amor fraterno?

P. Vitus Gustama,svd

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Domingo,24/05/2015
PENTECOSTES

PAPEL DO ESPÍRITO SANTO E SEUS FRUTOS NA VIDA DO CRISTÃO

 

Textos de Leitura: At 2,1-11; 1Cor 12,3-7. 12-13; Jo 20,19-23
 

Hoje celebramos o Pentecostes: a festa do Espírito Santo. Ele fundamenta a missão de Jesus e fundamenta a missão da Igreja. Só no livro de Atos dos Apóstolos, de onde tiramos o relato de Pentecostes, o Espírito Santo é mencionado 45 vezes. Em conseqüência disto, com razão, a dupla obra de Lucas (o Evangelho de Lucas e Atos dos Apóstolos) é designada como “o Evangelho do Espírito Santo”. O Espírito Santo é a plenitude de tudo quanto Deus tem que nos dar. Na liturgia há uma exuberância de imagens e comparações para exprimir o que o Espírito Santo é e faz. Ele santifica, fortifica e consola. Ele aquece quando estamos frios; ele nos ajuda e nos cura. Ele torna flexível o que é rígido, purifica, ilumina na escuridão. Ele é como uma língua, como descreve os Atos e como uma pomba na descrição dos Evangelhos. Ele é sopro, o dedo de Deus com que foi criado o universo. Renova continuamente a face da terra.


Como nós sabemos que o Espírito Santo é a terceira Pessoa da Santíssima Trindade. É simples esta frase, mas rico é o seu conteúdo. Ela significa que Deus é uma “família”. Deus não é um Deus solitário. Deus é uma comunidade; uma convivência. Há em Deus uma comunicação perfeita. Há em Deus uma convivência que é completa e desconhece qualquer sombra.  É conhecimento do outro numa unidade indivisa. O Espírito Santo é o vínculo de união perfeita entre Pai e Filho. O Espírito Santo é aquele que supera a relação Eu-Tu e introduz o Nós. Por isso, ele é por excelência a união entre Pessoas divinas.


No evangelho de São João (cf. Jo 14,26; 15,26-27; 16,13-15; 14,16-18) o Espírito Santo é chamado de Paráclito, termo de origem grega do mundo jurídico que é traduzido por advogado, auxiliar, defensor. Em que sentido? Em situação de sofrimento e dor, o Espírito santo desempenha seu papel como consolador. Nas decisões importantes em que ele é invocado o Espírito Santo se faz conselheiro. Ele nos interpela, acusa e questiona na nossa mediocridade, apatia e no nosso desânimo (cf. Jo 16,8). Como o verdadeiro advogado o Espírito Santo nos conduz para a plena verdade (Jo 16,13-15) que é o próprio Jesus Cristo, o Caminho, a Verdade e a Vida (Jo 14,6). O Espírito Santo nos conduz a Jesus pela dupla via: pela via do conhecimento e do amor e nos leva ao seguimento de Jesus até o fim, ao anúncio do Reino, à opção pelos pobres. Aqui consiste a trilogia fundamental: conhecer intimamente, amar profundamente e seguir a Jesus fielmente. Quem nos possibilita tudo isso é o Espírito Santo.


O mesmo evangelho de João nos afirma que pelo batismo recebemos o Espírito Santo que nos habita o coração (cf. Jo 3,5-8.34). E o Espírito Santo prometido por Jesus tem uma função de ensinar, recordar, comunicar e conduzir à verdade de Jesus diante do risco de a Igreja perder o rumo em relação à memória e a compreensão de Jesus (cf. Jo 15,26; 16,14s).


Na história, o Espírito Santo se mostra como uma força vulcânica que ninguém pode segurar, como um vendaval (vento tempestuoso) que toma as pessoas e as leva a fazer obras grandiosas. Cabe ainda ressaltar mais algumas características do Espírito Santo.


Ele é a força do novo e da renovação de todas as coisas: cria ordem na criação, faz surgir o novo Adão no seio de Maria, impulsiona Jesus para a evangelização, ressuscita o crucificado dos mortos, antecipa a humanidade nova na Igreja e nos traz, no final, o novo céu e a nova terra. Que seria da sociedade e das Igrejas se não surgissem os inovadores, as pessoas criativas, que têm idéias novas, que descobrem novos caminhos para a educação, a política, a religião etc.? O Espírito Santo certamente está ligado ao novo e ao alternativo.


Ele é o atualizador da memória de Jesus. Ele atualiza a mensagem de Jesus. Ele nunca deixa que as palavras de Jesus permaneçam mortas, mas que sempre sejam relidas, ganhem novas significações e implementem novas práticas. Ele continua a obra de Jesus nas comunidades.


Ele é o princípio libertador das opressões de nossa situação de pecado, chamada pela Bíblia de carne. Carne expressa o projeto da pessoa voltada sobre si mesma, esquecida dos outros e de Deus. Ele sempre é gerador de liberdade (1Cor 3,17), de entrega aos demais e de amor.


Ele produz unidade, e ao mesmo tempo, promove diferentes maneiras de servir, como descreve a Carta de São Paulo aos coríntios (1Cor 12,3-7.12-13). Ele é a força criadora de diferenças e de comunhão entre as diferenças. É ele que suscita entre as pessoas os mais diversos dons e nas comunidades os mais diferentes serviços e ministérios, como se ensina nas cartas aos Romanos (Rm 12) e aos Coríntios (12). Mas esta diversidade não decai em desigualdades e discriminações porque bebemos da mesma fonte que é o Espírito Santo (1Cor 12,13). Os dons ou os carismas não são dados para a autopromoção, mas para o bem da comunidade (1Cor 12,7). A base da palavra “carisma” é “charis” (grego) que significa “graça”. Por isso, carisma é resultado de uma ação da graça (charis). O carisma articula o dom pessoal com o bem da comunidade.  o carisma existe em vista da construção social ou do bem comum.  Ou na linguagem de São Paul podemos dizer por carisma, uma manifestação gratuita do Espírito Santo que atua para o bem comum do povo de Deus. o carisma não é para o gozo individual, mas a serviço da comunidade no sentido da comunidade eclesial, o Corpo de Cristo.


No Pentecostes o sinal importante do Espírito Santo não foi uma confusão de línguas que ninguém entende, mas foi a capacidade de falar de tal modo que todo mundo se sentiu à vontade com a mensagem. A linguagem que todos entendem é o amor. O Espírito Santo interfere para melhorar e não para atrapalhar a comunicação da Igreja de Jesus Cristo. A comunidade fundada em Pentecostes (no Espírito Santo) é um lugar de diálogo, de encontro, de comunicação, de unidade (não necessariamente uniformidade), de acolhimento. O erro não está em sermos diferentes. O erro está em sermos divididos. A comunidade nascida em Pentecostes não é o lugar da lei que mata, mas é o lugar do Espírito Santo, isto é, o lugar da abertura e da vida, do reconhecimento e do despertar, o lugar de uma libertação fundada no amor. O amor é o caminho para Deus, o único carisma realmente imprescindível na vida cristã, o carisma que jamais cessará.
 

No começo da Bíblia, na construção da torre de Babel todo mundo que falava a mesma língua começou a se desentender, um não compreendia mais o outro porque estavam fazendo uma obra do orgulho, um monumento para celebrar a própria importância dos construtores e não para servir Deus (Gên 11,1-9).
  

Quando, na Igreja, cada um fica mais preocupado com o próprio prestígio ou com o prestígio de seu grupo do que com o serviço para o bem de todos (da comunidade), acontece de novo o que está representado na torre de Babel: a comunidade não se entende, fica desunida. Comunidade desunida não constrói como Jesus deseja. A obra fica paralisada no meio. Se cada cristão esquecer sua missão de serviço a Deus e começar a cuidar do seu próprio prestígio e poder, ele também terá dificuldades em se fazer entender.


O Espírito Santo foi derramado sobre todos no batismo. Ele habita os corações das pessoas (1Cor 3,16), dando-lhes entusiasmo, coragem e determinação. Ele consola os aflitos e mantém viva a esperança. Ele nos consola, exorta e ensina como as mães fazem junto a seus filhinhos (Jo 14,26;16,13) Um grande teólogo cristão, Mário (+ 334) dizia: “ O Espírito  Santo é a nossa Mãe porque o Paráclito,  o Consolador está pronto a nos consolar como uma mãe consola o seu filho e porque os fiéis são renascidos dele e são assim os filhos desta Mãe misteriosa que é o Espírito Santo”. Ele não nos deixa órfãos (Jo 14,18). Ele nos educa na oração e na forma de pedir as coisas verdadeiras: “O Espírito vem em auxílio à nossa fraqueza; porque não sabemos o que devemos pedir, nem orar como convém, mas o Espírito mesmo intercede por nós com gemidos inefáveis” (Rm 8,26).


Na liturgia a presença do Espírito Santo é também destacada.  Começamos a celebração em nome da Trindade. As orações são dirigidas ao Pai pelo Filho no Espírito Santo. A presença do Espírito Santo na liturgia é destacada no momento de duas epicleses (as duas invocações do Espírito Santo). A primeira epiclese acontece na consagração em que o pão e o vinho se tornam sacramento do Corpo e do Sangue de Jesus pela invocação do Espírito Santo. Ao Espírito Santo se atribui a consagração: “Na verdade, ó Pai, Vós sois santo e fonte de toda santidade, santificai, pois, estas oferendas, derramando sobre elas o Vosso Espírito, a fim de que se tornem para nós o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo, Vosso Filho e Senhor nosso” (cf. Oração eucarística II). A segunda epiclese (a 2ª invocação do Espírito Santo) acontece depois da consagração em que se suplica ao Pai para que todos os que vão participar do Corpo e do Sangue de Cristo sejam reunidos num só corpo pelo Espírito Santo para formar uma verdadeira comunhão de irmãos. A Eucaristia deve construir, como resultado, uma verdadeira comunidade pela força do Espírito Santo. Comungar não é mais uma coisa privada e sim um momento para criar e fortalecer a comunidade. As duas epicleses têm a mesma importância.


Outros frutos do Espírito Santo são o amor, a bondade, moderação e autocontrole, cortesia, mansidão e longanimidade, jovialidade e paz (veja Gl 5,22-24).


Segundo Gálatas, o amor que é o fruto do ES se expressa através de cordialidade, simpatia, coração bom. Trata-se de uma atitude típica da interioridade; é a disposição interior para o pensar bem, para o falar bem, para o agir bem. O amor traduzido com cordialidade, simpatia(simpatia vem do grego sumpáscho que significa igualar-se ao outro, ter uma atitude de profunda sintonia com o outro), coração aberto é a capacidade imediata de entender os sofrimentos e as alegrias de quem está perto de nós; é um coração espaçoso, raiz de toda a moral do NT. O amor é a virtude pela qual resplandecem até mesmo as coisas mais pequenas, e os gestos mais simples se tornam belos e construtivos. Tudo que se faz com amor, por pequeno que seja, se torna uma obra prima. E nada vale aquilo que se faz sem amor, por maior que ele seja.


A bondade é fruto do ES. A bondade é um reflexo da atitude divina. Ela é a prerrogativa daquele que se compraz em fazer por primeiro o bem, em suscitar sempre e somente o bem ao seu redor. Ela é uma qualidade criativa(tudo que Deus criou era bom. cf. Gn 1). Nossa bondade é nada mais que uma participação, no ES, da característica divina, e por isso, é bela, criativa, fascinante, capaz de suscitar uma sociedade nova. Nenhum coração resiste diante da bondade. Se a bondade é fruto do ES, então, ela é um dom a ser invocado, a ser implorado, dispondo-nos a acolhê-lo com humildade e reconhecimento.
 

Outro fruto do ES é a moderação. A palavra que se usa em grego é epieíkeia (ocorre 7 vezes no NT) que significa respeito, afabilidade, acessibilidade, moderação, flexibilidade e equilíbrio ao aplicar as leis, as regras; é capacidade de saber prever também as oportunas exceções às regras. Trata-se de uma atitude fundamental na vida social. O contrário da moderação é a arrogância, a petulância, a rudez, a presunção, a falta de educação etc.


O domínio de si ou autocontrole, que é outro fruto do ES, está muito ligado à moderação. É uma atitude que exige de si o respeito pelo outro, mantendo sob controle os próprios sentimentos ou instintos de poder e de prevaricação, de ser oportunista diante da fragilidade do outro. O autocontrole evita todo senso de superioridade e toda violência física,  verbal e moral nos relacionamentos; evita a exploração da dignidade alheia; evita a busca da própria vantagem, do próprio prazer em prejuízo da dignidade ou do interesse de alguém. É uma virtude social fundamental.
 

A cortesia é outro fruto do ES. Ela é a atitude de Deus em relação ao homem, o modo com o qual o Senhor se comporta conosco, segundo o que Jesus diz: “Ele é benévolo (chrestós) para os ingratos e para os maus” (cf. Lc 6,35). A cortesia é a arte de acolher, de ir ao encontro do outro fazendo-o sentir que é bem-vindo, esperado, amado. Quando uma pessoa se sente acolhida, estimada e compreendida, ela se solta, fala, dá corda ao discurso.


Outro fruto do ES é a mansidão. Ela é uma atitude que facilmente pode ser mal interpretada, pois é confundida com a fraqueza ou com a ingenuidade. Mas, na verdade, ela é a atitude típica de Jesus que se autodefine manso (cf. Mt 11,29). E ela é uma das bem-aventuranças por ele proclamada (cf. Mt 5,5). Mansidão é a atitude que acalma a ira ou cólera. A mansidão é a atitude de quem elimina ou modera a própria cólera e a dos outros; é responder à ira com a ponderação.


A longanimidade é outro fruto do ES. É uma virtude que está ligada estreitamente à cortesia e à mansidão. Ela permite sustentar no tempo a esperança (Cf. Lc 13,6-9; 2Cor 2,1-4). Ela é a capacidade de saber investir, sem pretender a obtenção de resultados imediatos ( o contrário da precipitação). Ela é a atitude que permite superar frustrações, que permite superar a irritação e o desencorajamento diante da aparente esterilidade da ação apostólica, educativa, formativa. Ela nos permite semear, eventualmente com sofrimento, olhando para a colheita que nos será dada pelas mãos de Deus. Ela nos convida a ter coragem e a resistir, na certeza de que da resistência virá a alegria.
   

Outro fruto do ES é a alegria/jovialidade (cf. Fl 4,4-7). O termo grego “chará” que se traduz por “alegria”, ocorre 59 vezes no NT, sem contar os sinônimos e os verbos a ele ligados. É muito mais fácil experimentar a alegria do que defini-la. Ela é a atitude que torna tudo mais fácil. “Deus ama a quem doa com alegria” (2Cor 9,7), pois quem doa com alegria, doa bem. Ela é a capacidade que torna outros felizes e contentes. Ela é um sinal claríssimo da presença do ES. Se quisermos entender onde o ES está agindo, precisamos verificar a presença ou a ausência da alegria. Onde há a alegria, está aí o ES. O objetivo da obra de Jesus é o tornar-nos plenos de alegria: “Eu vos disse isso para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja plena” (cf. Jo 16,22-24). Por isso, ela é a característica típica do Reino de Deus.
   

O oposto da alegria é a tristeza, aquele sentimento pelo qual tudo parece mais pesado. E uma variante da tristeza é a depressão ou mau humor, a melancolia, o descontentamento. Como resistir à atitude da tristeza? Como superar a depressão? É invocar o ES, pois a alegria é o dom do ES. É preciso invocar o ES, na certeza de que a alegria existe, de que ela está no fundo de nós mesmos, porque ela é a presença de Jesus ressuscitado ainda que esteja escondida. A alegria vem e virá, e tal certeza, cultivada no coração, ajuda a superar depressões, maus humores, escuridão etc..
   

Outro fruto conjuntural e central do ES é a paz (shalom), que representa também uma espécie de síntese de todo bem na Bíblia. Biblicamente a paz é entendida como todo e qualquer bem, humano e divino. Por isso, São Paulo até diz: “E a paz de Deus, que ultrapassa toda a compreensão, guardará vossos corações e vossos pensamentos em Jesus Cristo (Fl 4,7). A paz podemos definir como a atitude que nos defende da ânsia, que reina sobre a ânsia, que a domina. Ela é, obviamente, dom de Deus, do Espírito; é a riqueza que o Espírito derrama sobre os que a acolhem. A paz é a sensação de sentir-se em casa, de ter familiaridade com o ambiente em que vivemos. E sentir-se em casa com Deus, em Deus; o repouso em Deus é a paz que bloqueia a inquietude do coração. Como dizia Sto. Agostinho: “Nosso coração está inquieto enquanto não repousa em ti”. A paz é sentir-se em casa com os outros, quando os relacionamentos são construtivos. A paz leva a pessoa a superar os medos e as desconfianças recíprocas.
   

Os Atos dos Apóstolos relatam um curioso episódio: Chegando a Éfeso, Paulo encontrou alguns discípulos e lhes perguntou: “‘Recebestes o Espírito Santo, quando abraçastes a fé?’ responderam-lhe: ‘Não, nem sequer ouvimos dizer que há um Espírito Santo’”(At 19,1).


Se dirigíssemos hoje a mesma pergunta a muitos cristãos, receberíamos talvez uma resposta desse mesmo tipo: sabem, sim, que existe um Espírito Santo, mas é tudo o que sabem a respeito d’Ele; de resto, ignoram quem é, na realidade, o Espírito Santo e o que representa para a vida deles.


Portanto, mais do que nunca, reunamo-nos hoje em torno da Igreja para invocar, em uníssono, sobre nós, sobre nossa família e sobre o mundo inteiro, o Espírito Santo que é Espírito de reconciliação, de unidade, de renovação, de harmonia, de amor, de alegria, de mansidão, de cortesia, de longanimidade, de moderação, de autocontrole e de paz. E que estejamos abertos permanente diante do Espírito Santo que quer nos renovar e transformar em criaturas novas e renovadas de Deus.

P. Vitus Gustama,svd
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