terça-feira, 2 de junho de 2015

05/06/2015
AMOR É O PODER QUE JESUS USA COMO MESSIAS

Sexta-Feira Da IX Semana Comum


Evangelho: Mc 12,35-37


35Naquele tempo, Jesus ensinava no Templo, dizendo: “Como é que os mestres da Lei dizem que o Messias é Filho de Davi? 36O próprio Davi, movido pelo Espírito Santo, falou: ‘Disse o Senhor ao meu Senhor: senta-te à minha direita, até que eu ponha teus inimigos debaixo dos teus pés’. 37Portanto, o próprio Davi chama o Messias de Senhor. Como é que ele pode então ser seu filho?” E uma grande multidão o escutava com prazer.
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O texto do evangelho deste dia pertence ao conjunto de relatos polêmicos entre Jesus e os dirigentes do povo de sua época. Finalmente Jesus se encontrou em Jerusalém e se enfrenta com os representantes do judaísmo oficial em uma série de controvérsias religiosas sobre temas fundamentais da .


Neste texto Jesus disse: Como é que os mestres da Lei dizem que o Messias é Filho de Davi?... o próprio Davi chama o Messias de Senhor. Como é que ele pode então ser seu filho?”.


O títulofilho de Davi”, aplicado a Jesus Cristo faz parte da medula do evangelho. Na Anunciação, a Virgem Maria recebeu esta mensagem: “O Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai, e reinará sobre a descendência de Jacó para sempre” (Lc 1,32-33). Os pobres, que pediam a cura a Jesus, clamavam: “Jesus, Filho de Davi, tem compaixão de mim” (Mc 10,48). Em sua entrada solene em Jerusalém, Jesus foi aclamado com o mesmo título (cf. Mc 11,10).


Mas Jesus não é somente filho de Davi. Ele é o Senhor. Jesus afirma isso solenemente ao citar o Salmo 110,1: “Disse o Senhor ao meu Senhor: senta-te à minha direita, até que eu ponha teus inimigos debaixo dos teus pés”. Em outras palavras, o texto quer esclarecer sobre a verdadeira identidade de Jesus.
 

Quem é Jesus? Esta é a pergunta que o evangelista Marcos quer responder no seu evangelho. Jesus é Cristo/Messias, o Filho de Deus! É a resposta dada pelo evangelista Marcos logo no inicio do seu evangelho. No contexto do evangelho de Mc, o Messias é o Filho do Homem e o Filho de Deus.


Jesus é o Filho do Homem e Filho de Deus, o Messias, mas não ostenta o poder. Jesus se afasta de todo poder para instaurar uma realidade nova, onde os que não exercem o poder se sentem importantes e são chamados para a plenitude. Por isso é que Jesus está sempre próximo dos marginalizados, dos empobrecidos, dos excluídos, dos abandonados e faz refeição com eles.


Jesus está consciente de sua Messianidade e de seu ser Senhor e Rei. No entanto, toda sua vida se desenvolve no serviço e na entrega em amor por nós; amor que chega ao extremo de sacrificar sua própria vida por nós, como se nós fôssemos os Senhores. Trata-se de uma maneira de viver que contém uma crítica dura para os escribas e fariseus que vivem a ostentação na maneira de vestir, que adoram as honrarias e o louvor dos homens, mais do que a honra e o louvor a Deus, que amam o dinheiro impulsivamente, e assim por diante. A falsa profissão religiosa e a hipocrisia são uns dos maiores pecados dos homens. É fingir religiosidade, mas na realidade estão servindo ao mundo. em tudo que o que fizermos no campo religioso, jamais usemos disfarce como os escribas e fariseus. Sejamos sinceros, reais, honestos, humildes e francos no nosso cristianismo. Jamais poderíamos enganar Deus que nos . Por isso, Deus não se deixa enganar. O dia do julgamento logo chegará.  


Em que consiste, então, o poder de Deus? Ele é poderoso, mas no amor. Ele está acima de tudo, mas sempre no amor. Ele é onipotente, mas no amor. Ele é onipresente, mas está sempre presente por amor. Ele é onisciente, mas nos conhece no amor e por amor.  Por causa do seu amor por s, Jesus foi capaz de aceitar ser crucificado na cruz, em vez de derrubar e matar seus adversários. Jesus nos amou, e nos amou até o fim (cf. Jo 13,1). Jesus é amado pelo Pai por causa disso tudo. E para nós Jesus é o amor encarnado do Pai (cf. Jo 3,16).


Cada dia nós somos chamados a entender este Jesus, o Deus próximo do homem. Não podemos continuar sustentando uma teologia nem uma Igreja que apresente um Jesus cheio de poder, que esta imagem contradiz a experiência que os evangelhos e todo o Novo Testamento nos apresentam de Jesus.


Quanto mais amor dá, tanto mais você se enche de amor: o amor não se gasta ao ser dado; pelo contrario, você se enche cada vez mais de amor. Quando se ama, as diferença se aproximam e se enriquecem mutuamente e as forças se somam. Qualquer um será um bom líder, bom diretor, se for amado mais do que obedecido ou temido. Uma pessoa terá autoridade, se conseguir fazer o outro crescer.
 
P. Vitus Gustama,svd

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Quinta-Feira, 4/06/2015
 
CORPUS CHRISTI E NOSSA VIDA
Fazei isto em minha memória!”
 
Nós nos reunimos freqüentemente para celebrar a Eucaristia em nome de Jesus, em Sua memória. Nós o fazemos sempre por seu encargo para recordar o que Jesus fez e disse a fim de que possamos também fazer a mesma coisa. Jesus entregou sua vida por amor para que todos fossem salvos. Em cada Eucaristia celebramos o amor de Deus, que nos amou até a morte. Por isso, precisamos fazer do amor de Deus um modelo para nosso amor ao próximo.
 
Ao celebrar a Eucaristia não podemos perder a memória de Jesus, sua lição e seu exemplo de vida para não ficarmos presos apenas nos ritos.  Temos que recuperar a memória de Jesus para que nossa missa deixe de ser um rito vazio, mas volte a ser um sacramento de salvação. Temos que recuperar a memória de Jesus para recordar tudo o que ele fez e disse, para não mutilar o evangelho nem desfigurar imagem cristã, nem converter a missa em uma bagatela, como convertemos a caridade em esmola. Temos que recuperar a memória de Jesus para compreender que a Quinta-Feira Santa e a Sexta-Feira Santa são inseparáveis, como são unidas a missa e a missão, o amor de Deus e o amor ao próximo.
 
Por isso, devemos compreender que a missa não se termina com a missa, e sim com a missão. Isto quer dizer que não vamos à missa para ir à missa. Mas que a missa, é de uma parte, a expressão de nossa fé, de nossa esperança e de nossa caridade. Mas de outra parte, a missa é sempre um imperativo, uma exigência para fazer operativa nossa fé, nossa esperança e nossa caridade. Por isso, quando finaliza o rito, começa a realidade na vida; quando termina a reunião eclesial, deve começar nosso compromisso cristão; quando termina a missa, deve começar a missão. Se não a missa careceria de sentido. “Fazei isto em minha memória!”, Jesus nos relembra.
 
Jesus derramou até a ultima gota de seu sangue na cruz por amor a nós todos. Pela comunhão do pão e do vinho, do Corpo e do Sangue do Senhor, nós nos incorporamos a Cristo e a sua Igreja e nos convertemos em filhos de Deus. A Eucaristia é como uma transformação, porque é uma transfusão do sangue, da vida, do espírito de Cristo em nós. Entramos assim em sua missão e em sua causa.
 
Os primeiros cristãos tomavam muito a sério o que celebravam na Eucaristia, por isso, viviam como irmãos e não havia entre eles pobres, nem marginalizados porque tudo o punham em comum. A celebração da Ceia do Senhor era para eles um memorial indelével do amor de Deus e um estímulo irresistível da solidariedade com os irmãos.  Por isso, celebrar e participar da Eucaristia, da missa é para aumentar nosso amor, nossa solidariedade, nossa unidade e nossos esforços pela justiça. Trabalhar pela justiça é o modo de amar aos irmãos, porque a justiça é o passo prévio para o amor, ou o primeiro passo do amor.
 
“Enquanto estavam comendo, Jesus tomou o pão, pronunciou a bênção, partiu-o e lhes deu, dizendo: “Tomai, isto é o meu corpo” (Mc 15,22). 
Jesus Cristo sabe o que é o pão para o homem. É fundamental.  Ao mesmo tempo, ele adverte que “não somente do pão o homem vive”. Mas muitos se empenham em viver somente do pão. Nesta busca exclusiva do pão, o homem se fecha em seu próprio egoísmo e começou a desconhecer os demais homens, que aparecem em seu horizonte apenas como competidores. Conseqüentemente, instalam-se no mundo a fome e a morte. Milhares são vitimas desse fenômeno chamado de egoísmo.
 
 
Hoje é o Dia do Pão por excelência em que poderíamos muito bem nos perguntar seriamente qual é o pão que perseguimos e que efeito produz em nós disso tudo, e o que significa para nós comungar o Corpo do Senhor, o Pão da Vida?
 
 
Hoje é um dia especialmente apto para revisarmos nossas comunhões, para ver até que ponto essas comunhões são um rito, carente de virtualidade, que nos deixa estáticos e sem nenhuma classe de compromisso pessoal com Deus e com os irmãos.
 
 
O que distingue a festa de hoje é a procissão. É o mais exterior nesta festa e é também mais distintivo. Mas quando o exterior nasce de dentro é também a manifestação de seu núcleo interior. Por isso, podemos meditar o mistério desta festa a partir da procissão. Procissão na sua etimologia latina significa “ir adiante”, “adiantar-se”.
 
 
É importante enfatizar a íntima conexão que existe entre a missa e a procissão. A procissão é o prolongamento da missa e por isso não deve ser considerada separada. A procissão é uma ação de graças mais ampla. Toda devoção eucarística deve partir da missa e conduzir novamente a ela.
 
 
A Hóstia consagrada levada em procissão é o Pão vivo e Doador da vida: “Eu sou o Pão da Vida”, disse Jesus. Com razão recebe culto público e sua finalidade principal é ser recebida como alimento espiritual para nos unir com Cristo e nos associar a seu sacrifício, isto é, ao receber o Pão da Vida devemos ser vida para os outros. Somos alimentados com o Pão da Vida para que sejamos vida para os outros.
 
 
A procissão do Corpus Christi teve sua origem no último terço do século XIII. A partir do século XV se tornou geral.
 
 
A procissão brotou do costume mais geral das procissões do campo. Nessas procissões o homem recorre a terra onde se desenvolve sua existência, santificando-a e introduz o “santoem seu mundo (desde as relíquias da Igreja até o “santíssimo”).
 
 
O homem na procissão delimita o espaço onde se realiza sua existência; e o espaço aberto se converte em igreja, o sol em luz do altar, o ar fresco forma um coro com os cantos dos pássaros e os homens se convertem em caminhantes alegres. Assim a procissão representa visivelmente o movimento dos homens até seu fim através dos lugares de sua existência. E a presença do Santo sustenta este movimento.
 
 
Com isso chegamos ao sentido da festa de Corpus Christi, ao sentido da Eucaristia. Certamente, este sacramento alcança seu sentido pleno quando é recebido. Quando o conservamos em nossos altares e o levamos através da terra onde se desenvolve nossa vida, é para mostrar que este sacramento continua sendo o alimento que somente nos apropriamos totalmente quando o degustamos: “Tomai todos e comei. Isto é o meu Corpo que é vos entregue!”.
 
 
Que sentido tem a procissão de Corpus Christi? Ela nos faz descobrir que somos peregrinos sobre a terra; não temos aqui pátria permanente. Andamos pelo espaço e o tempo, estamos sempre em caminho e buscamos nossa pátria própria e eterna. Santo Agostinho dizia: “Gostes ou não, não és mais que um peregrino neste mundo. Podes, pois, adoçar teu caminho; porém, por mais que queiras, não poderás converter-te em residente” (In ps. 120,14). Nessa peregrinação somos aqueles que devem deixar-se transformar porque ser homem significa deixar-se transformar. A perfeição se alcança transformando-se e formando-se permanentemente.
 
 
Nossa temporalidade e os distintos lugares onde se desenvolve nossa existência se manifestam através de uma procissão, de uma marcha. Mas esta marcha não é a marcha de uma manada. Uma procissão é um movimento dos que se sentem verdadeiramente unidos; é uma peregrinação durante a qual os peregrinos se dão as mãos para que o outro continue em nessa peregrinação. É ser irmão e irmã da jornada. É um movimento que leva consigo o Santo, o Eterno, que tem consigo a tranqüilidade do movimento e a unidade dos que se movem. Através da Procissão de Corpus Christi queremos manifestar publicamente que o Senhor da história e deste êxodo santo do desterro para a pátria eterna, vai conosco; é uma marcha eterna, uma procissão que tem verdadeiramente uma meta diante de si e consigo. Nesta marcha levamos o Corpo santo que foi entregue por nós para a remissão de nossos pecados. A cruz do calvário vem conosco. Temos sempre conosco o Crucificado ressuscitado na marcha através de nosso tempo. Por meio desta procissão, que tem consigo o Crucificado, confessamos que somos pecadores, mas andando com o Doador da vida, viveremos na graça santificante. Por isso, a procissão nos fala da presença permanente da reconciliação nos caminhos de nossa vida. A procissão nos diz que Deus vai conosco; Ele, a reconciliação, Ele, o amor e a misericórdia. Ele que nos acompanha, Ele que nos persegue ainda que caminhemos por caminhos tortuosos e percamos a direção. Ele, que busca no deserto a ovelha perdida e corre ao encontro do filho pródigo. Ele vai conosco na peregrinação de nossa vida, Ele que recorreu por si mesmo todas as ruas e estradas desde o nascimento até a morte. Ele, com misericórdia de seu coração, com a experiência de uma vida completa de homem, paciente e misericordioso. Ele, a salvação e a reconciliação de nossos pecados, levamos o sacramento através das ruas ou campos ou desertos de nossa vida e confessamos e cremos: estamos bem acompanhados na nossa peregrinação, pois o Senhor caminha conosco. Estamos bem acompanhados por Aquele que com sua companhia pode fazer todos os caminhos retos. Através da Procissão queremos confessar que nós, peregrinos nesta terra levamos nas mãos Aquele que é o Começo e o Fim, o Alfa e o Ômega de nossa vida. Através da Procissão queremos professar que a divindade e a humanidade estão unidas indissoluvelmente. Levamos conosco o Corpo glorioso em que o mundo começou a ser glorificado. O Eterno, o Definitivo, o próprio Deus está conosco. Neste momento misterioso tempo e eternidade, terra e céu, Deus e homem começa a penetrar-se. Se você tiver consciência de tudo isso, sua vida vai começar a mudar e a se transformar e você ganhará cada vez mais força mais do que suficiente para começar sua vida com Deus.
 
 
Levamos o Corpo do Senhor em procissão e com isso expressamos que todos somos um, que todos vamos pelo mesmo caminho, o único caminho de Deus e de sua eternidade. As mesmas forças da vida eterna operam em todos nós, o único amor divino é nossa participação, participação que nos vincula mais profunda e interiormente.
 
 
Se o Senhor anda conosco, simbolizado pela procissão, então, não podemos ter mais medo de nada para avançar no bem; não podemos perder mais tempo para começar de novo, para formar-se. Se a vida é uma peregrinação com o Senhor não é permitido ficar parado e paralisado. Caminhar com o Senhor tudo será aberto apesar dos aparentes muros de desafio.

 
P.Vitus Gustama,SVD
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MISSA
René Juan Trossero


A Missa é uma REUNIÃO fraternal.
Pena que nos juntemos tantas vezes
Sem nos encontrar realmente.
 
A Missa é um MEMORIAL.
Pena que, com tanta facilidade,
Esqueçamos o que nele lembramos.
 
A Missa é uma FESTA.
Pena que nós vivamos tão pouco festivamente.
 
A Missa é uma OFERTA.
Pena que nós vamos mais
Para buscar algo do que para nos entregar
 
A Missa é um SACRIFÍCIO.
Pena que nos ajoelhemos diante do Pão consagrado
E não façamos a mesma coisa diante do irmão que o come.
 
A Missa é uma COMIDA.
Pena que nem sempre sintamos “fome de justiça”!
 
A Missa é uma PÁSCOA.
Pena que nos custe tanto nos convertermos e “passarmos” do ódio e da indiferença para o amor fraterno.
 
Se alguma vez forem nos cobrar satisfações,
Não será tanto por termos faltado à missa,
Mas por termos estado tantas vezes na missa,
Sem que nada tivesse mudado em nossa vida.


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HOMILIA DO PAPA BENTO XVI NA SOLENIDADE DO SANTÍSSIMO CORPO E SANGUE DE CRISTO

Missa celebrada na Basílica de São João de Latrão


ROMA, quinta-feira, 11 de junho de 2009 Às 19h (horário de Roma).

Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo, o Santo Padre Bento XVI celebrou Missa na Basílica de São João de Latrão. Presidiu ainda a procissão até a Basílica de Santa Maria Maior e concedeu a bênção eucarística. Publicamos a homilia do Papa.

 
"ESTE É O MEU CORPO, ESTE É O MEU SANGUE"

 

Queridos irmãos e irmãs,


Estas palavras que Jesus falou durante a Última Ceia repetem-se cada vez que se renova o Sacrifício eucarístico. Nós as escutamos há pouco no Evangelho de Marcos e elas ressoam com notável poder evocativo hoje, Solenidade de Corpus Christi. Conduzem-nos ao Cenáculo e trazem a atmosfera espiritual daquela noite, quando, celebrando a Páscoa com os seus, o Senhor antecipou no mistério o sacrifício que seria consumado no dia seguinte sobre a cruz. A instituição da Eucaristia surge como antecipação e aceitação de Jesus pela sua morte. Escreve a esse propósito Santo Efrem, o sírio: durante a ceia, Jesus sacrificou-se, na cruz Ele foi morto por outros (cf. Hino sobre a crucificação de 3, 1).


"Este é o meu sangue". Clara é aqui a referência à linguagem sacrifical de Israel. Jesus se apresenta como o verdadeiro e definitivo sacrifício, no qual se realiza a expiação dos pecados, o que, nos ritos do Antigo Testamento, não fora ainda plenamente realizado. A essa expressão se seguirão outras duas muito significativas. Em primeiro lugar, Jesus Cristo disse que seu sangue era “derramado em favor de muitos", com uma compreensível referência aos cantos do Servo, encontrados no livro de Isaías (cf. capítulo 53). Com o acréscimo de "o sangue da aliança", Jesus deixa claro que, graças a sua morte, finalmente se torna efetiva a aliança feita por Deus com "seu" povo. A antiga aliança fora estabelecida no Monte Sinai com o rito sacrifical de animais, como ouvimos na primeira leitura, e o povo eleito, libertado da escravidão no Egito, havia prometido seguir as orientações do Senhor (cf. Ex. 24, 3).


Na verdade, Israel, com a construção do bezerro de ouro, mostrou-se incapaz de se manter fiel à aliança divina, que foi transgredida freqüentemente, adaptando ao coração de pedra a Lei que era para ensinar o caminho da vida. Mas o Senhor não abdicou de sua promessa e, através dos profetas, chamou a atenção para a dimensão interior da aliança, e anunciou que gravaria esta nova lei nos corações dos fiéis (cf. Jr. 31, 33), transformando-os com o dom do Espírito (cf. Ez 36, 25-27). E foi durante a Última Ceia que fez com os discípulos esta nova aliança, não a confirmando com sacrifícios de animais, como no passado, mas com o seu sangue, tornado "sangue da nova aliança”.


Isto vem bem evidenciado na segunda leitura, retirada da Carta aos Hebreus, onde o autor sagrado declara que Jesus é o “mediador de uma nova aliança" (9, 15). Tornou-se isto graças ao seu sangue ou, mais precisamente, graças ao dom de si, dando pleno valor ao seu sangue. Na Cruz, Jesus é ao mesmo tempo vítima e sacerdote: vítima digna de Deus porque sem mancha, e sumo sacerdote que oferece a si mesmo, sob o impulso do Espírito Santo, e intercede por toda a humanidade. A Cruz é, portanto, mistério de amor e de salvação, que purifica a consciência da "opere morte", isto é, do pecado, e santifica-nos, esculpindo a nova aliança em nossos corações; a Eucaristia, renovando o sacrifício da Cruz, nos faz capazes de viver fielmente a comunhão com Deus.


Queridos irmãos e irmãs –a quem saúdo a todos com afeto, começando pelo cardeal vigário e os outros cardeais e bispos presentes– como o povo eleito reunido na assembléia do Sinai, ainda hoje queremos reafirmar nossa fidelidade ao Senhor. Há poucos dias, na abertura da convenção anual diocesana, mencionei a importância de permanecer, como a Igreja, na escuta da Palavra de Deus, por meio da oração e do estudo das Escrituras, e em especial da prática da lectio divina. Sei que muitas iniciativas se fazem nas paróquias, seminários, comunidades religiosas, no âmbito das irmandades, associações e movimentos apostólicos, que enriquecem a nossa comunidade diocesana. Aos membros destes diferentes organismos eclesiais envio minha fraterna saudação. A sua numerosa presença nesta grande festa, queridos amigos, põe em destaque nossa comunidade, caracterizada por uma pluralidade de culturas e experiências diferentes; Deus a molda como "seu" povo, como o Corpo de Cristo, graças a nossa sincera participação na dupla mesa da Palavra e da Eucaristia. Nutridos de Cristo, nós, seus discípulos, recebemos a missão de ser a "alma" da nossa cidade (cf. Lettera a Diogneto [Carta a Diogneto], 6: ed. Funk, I, p. 400; ver também LG, 38), fermento de renovação, pão repartido para todos, especialmente para aqueles que estão em situações de sofrimento, pobreza e dor física e espiritual. Tornamo-nos testemunhas do seu amor.


Faço um apelo especial a vós, queridos sacerdotes, a quem Cristo escolheu, para que junto dele possam viver a vossa vida como sacrifício de louvor para a salvação do mundo. Só a partir da união com Jesus pode-se ter aquela fecundidade espiritual que é fonte de esperança em seu ministério pastoral. Recorda São Leão Magno que "a nossa participação no corpo e sangue de Cristo não tende a nada mais que nos transformar naquilo que recebemos" (Sermão 12, De Passione 3/7, PL 54). Se isto é verdade para cada cristão, é ainda mais para nós sacerdotes. Ser Eucaristia! Seja este o nosso desejo e esforço constante, para que a oferta do corpo e sangue do Senhor que fazemos sobre o altar esteja acompanhada do sacrifício das nossas vidas. Todos os dias, cultivemos pelo Corpo e Sangue do Senhor aquele amor livre e puro que nos faz dignos ministros de Cristo e testemunhas da sua alegria. É aquilo que os fiéis esperam de um padre: o exemplo de que é uma verdadeira devoção à Eucaristia; o amor que se vê ao passar longos momentos de silêncio e de adoração diante de Jesus, como fazia o Santo Cura d'Ars, que será lembrado de modo especial durante o Ano Sacerdotal.


São João Maria Vianney gostava de dizer aos seus paroquianos: "Venham para a comunhão... É verdade que não somos dignos, mas precisamos" (Bernard Nodet, Le Curé d'Ars. Sa pensée - Filho coeur, éd. Mappus Xavier, Paris 1995, p. 119). Com a consciência da inadequação por causa dos pecados, mas com a necessidade de nutrir-nos do amor que o Senhor oferece no sacramento eucarístico, renovamos esta noite nossa fé na presença real de Cristo na Eucaristia. Não se deve ter como um dado adquirido esta fé! Há hoje o risco de uma secularização intrínseca na Igreja, que se pode traduzir em um culto eucarístico formal e vazio, em celebrações destituídas daquela participação do coração que se exprime na veneração e no respeito pela liturgia. É sempre forte a tentação de reduzir a oração a momentos superficiais e apressados, deixando-se submergir pelas atividades e preocupações terrenas. Quando em breve recitarmos o Pai Nosso, a oração por excelência, vamos dizer: "O pão nosso de cada dia nos dai hoje", a pensar, naturalmente, no pão de cada dia. Esta questão contém, no entanto, algo mais profundo. O termo grego epioúsios, que traduzimos como "quotidiano", poderia também aludir ao pão "supra-substancial", o pão "do mundo a advir". Alguns Padres da Igreja viram aqui uma referência à Eucaristia, o pão da vida eterna que é dado na Santa Missa, a fim de que desde agora o mundo futuro comece em nós. Com a Eucaristia, portanto, o céu vem sobre a terra, o advir de Deus ergue-se no presente e o tempo é abraçado pela eternidade divina.

Queridos irmãos e irmãs, como todos os anos, no final da Santa Missa, teremos a tradicional procissão eucarística e elevaremos, com orações e cantos, um coro de imploração ao Senhor presente na hóstia consagrada. Diremos a Ele em nome de toda cidade: permanece conosco, Jesus, concede a nós o dom de ti e nos dê o pão que nos alimenta para a vida eterna! Liberte este mundo do veneno do mal, da violência e do ódio que polui as mentes, purifica-o com a força do seu amor misericordioso. E a ti, Maria, que se fez mulher "eucarística" em sua vida, ajuda-nos a caminhar juntos rumo à meta do céu, alimentados pelo Corpo e Sangue de Cristo, pão da vida eterna e remédio da imortalidade divina. Amém!

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03/06/2015
 
CREMOS NA RESSURREIÇÃO

Quarta-Feira da IX Semana Comum


Evangelho: Mc 12,18-27

Naquele tempo, 18vieram ter com Jesus alguns saduceus, os quais afirmam que não existe ressurreição e lhe propuseram este caso: 19“Mestre, Moisés deu-nos esta prescrição: Se morrer o irmão de alguém, e deixar a esposa sem filhos, o irmão desse homem deve casar-se com a viúva, a fim de garantir a descendência de seu irmão”. 20Ora, havia sete irmãos: o mais velho casou-se, e morreu sem deixar descendência. 21O segundo casou-se com a viúva, e morreu sem deixar descendência. E a mesma coisa aconteceu com o terceiro. 22E nenhum dos sete deixou descendência. Por último, morreu também a mulher. 23Na ressurreição, quando eles ressuscitarem, de quem será ela mulher? Porque os sete se casaram com ela!” 24Jesus respondeu: “Acaso, vós não estais enganados, por não conhecerdes as Escrituras, nem o poder de Deus? 25Com efeito, quando os mortos ressuscitarem, os homens e as mulheres não se casarão, pois serão como os anjos do céu. 26Quanto ao fato da ressurreição dos mortos, não lestes, no livro de Moisés, na passagem da sarça ardente, como Deus lhe falou: ‘Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó’? 27Ora, ele não é Deus de mortos, mas de vivos! Vós estais muito enganados”.
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A discussão entre Jesus e autoridades passa agora do campo político-religioso para o campo puramente dogmático. Entram em cena os saduceus que Marcos cita somente na passagem do evangelho de hoje (única vez em que os saduceus aparecem no evangelho de Marcos). O assunto é sobre a ressurreição.


Os saduceus são um grupo formado por pessoas ricas e aristocráticos. Por isso, são uma “classe separada”: fazendeiros que dominam os comércios da cidade. Eles pertencem às famílias sacerdotais dirigentes. Eles têm uma grande influencia na política e na administração da justiça na Palestina. Eles são conservadores em termos da religião. Eles aceitam apenas a Tora (Pentateuco ou cinco primeiros Livros da Bíblia: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio). Eles não acreditam na vida depois da morte (ressurreição), pois não está escrita (explicitamente) no Pentateuco. Por isso, eles aplicam o ditado “Carpe diem” (aproveite o dia ou ser hedonista) ou salve-se quem puder. O divorcio entre eles é comum. Por não acreditar na vida após a morte, eles perguntam a Jesus a partir de um caso especial como conta o evangelho deste dia.


Jesus se baseia nas Escrituras (Mc 12,24) ainda que, depois, se limite a citar uma passagem do Pentateuco para se adaptar a seus interlocutores. A resposta de Jesus está contida nas duas frases praticamente idênticas: ”Vós estais enganados (Mc 12,24) e “Vós estais muito enganados” (Mc 12,27). Por dois motivos: Não conheceis as Escrituras nem o poder de Deus (Mc 12,24). A passagem que Jesus cita é Ex 3,1-12 onde se narra sobre Deus que apareceu a Moisés na sarça. Nessa cena Deus se define como o Deus de Abraão, o Deus de Isaac, o Deus de Jacó, isto é, o Deus que atua na história e que quer continuar sendo, com o homem, protagonista da história. O Deus de Abraão é o Deus dos vivos, o Deus fonte de vida. O homem que atua com Deus não pode ter como meta o fracasso da morte. A comunidade ou cada pessoa que tem a experiência com Jesus ressuscitado é um povo que vai além da história e é destinado para uma vida sem fim com Deus.


Além disso, Jesus olha para toda a revelação divina, inclusive a que teve lugar depois de Moisés na qual o conceito de ressurreição é evidente. Por exemplo, no Livro de Sabedoria onde se diz: “Deus criou o homem para a imortalidade” (cf. Sb 1,12-3,9; etc.). Para Jesus a vida dos ressuscitados é eterna, é imortal, como a dos anjos e por isso, não necessita perpetuar-se por geração.


Uma das coisas que sempre preocupam o homem é o seu destino final. O que passa depois da morte? Nós nos encontramos hoje diante da Palavra de Deus que toca um dos pontos mais difíceis de entender em nossa vida: a realidade da morte e a proposta cristã da Ressurreição. Ainda não entendemos as propostas cristãs da Ressurreição porque constantemente vivemos aferrados a uma falsa corporalidade pelo medo que nos inculcaram diante da realidade da morte. Cada dia os homens e as mulheres de nosso tempo vivem em um pânico constante diante da morte. Pânico que nos faz viver a vida de forma escrupulosa e de falsos moralismos.


Para o cristão, a resposta de Jesus ilumina este mistério e o faz viver em paz, pois agora sabe que não existe a morte e sim simplesmente uma transformação para quem vive no Senhor e com o Senhor e que se traduz na convivência fraterna com os demais.


A esperança na ressurreição é a força capaz de ordenar as realidades humanas numa escala de valores posta na vida eterna. Por isso, Jesus ensina que a vida eterna será dada na gratuidade e a universalidade na relação entre os homens; não haverá domínio de uns sobre outros; a existência será uma grande festa de vida eterna e plena. A ressurreição não pode ser entendida na perspectiva dos valores temporais. Isso é o que no texto significam os anjos.


Por outro lado, devemos entender no texto que Deus é um Deus dos vivos e não dos mortos. Devemos aprofundar sobre o mistério de um Deus que dá a vida, que transforma nosso ser, que nos ressuscita. Desta forma, o evangelista Marcos antecipa o conteúdo da ressurreição de Jesus como vida depois da morte e nos convida a descobrirmos o verdadeiro poder de Deus que transforma as forças da morte em forças de vida. O Deus que Jesus dá a conhecer é um Deus doador de vida e que deseja que as pessoas voltem a nascer de dentro com novos valores de vida e de justiça.


Diante da morte temos que ter uma atitude de acolhida e uma grande capacidade de tratá-la como fez São Francisco de Assis que chamava a morte de “a irmã Morte”, e diante da Ressurreição nós temos que entender o conteúdo de justiça que ela esconde.


A morte é um mistério, também para nós. Mas fica iluminada pela afirmação de Jesus: “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto viverá” (Jo 11,25). Não sabemos como, mas estamos destinados a viver, a viver com Deus, participando da vida pascal de Cristo, nosso irmão. A ressurreição é a morte de nossa morte para vivermos eternamente com Deus. Santo Agostinho nos dá o seguinte conselho: “Confia em Deus; Ele sempre dá o que promete. Sabe o que promete, porque é a verdade. Pode prometer porque é onipotente. Dispõe de tudo porque é a própria vida. Oferece todas as garantias porque é eterno” (In ps. 35,13). “Deus, de quem separar-se é morrer, a quem retornar é ressuscitar, com quem habitar é viver. Deus de quem fugir é cair, a quem voltar é levantar-se, em quem apoiar-se é estar seguro. Deus, a quem esquecer é morrer, a quem buscar é viver, a quem ver é possuir” (Solil. 1,1,3). “A perda (de nossos entes queridos) que sofremos oprime-nos o coração, mas a esperança nos consola; nossa fraqueza natural nos acabrunha, mas a fé nos ergue outra vez; nossa condição mortal nos faz derramarmos copiosas lagrimas, mas as promessas de Deus as enxugam, acrescentou Santo Agostinho.


A paixão pela vida, própria de quem crê na ressurreição, deve nos impulsionar a fazermos presentes ali onde “se produz morte”, para lutar com todas as nossas forças diante de qualquer ataque à vida, especialmente ataque à vida dos inocentes e indefesos. Esta atitude de defesa da vida nasce da fé num Deus ressuscitador e amigo da vida e deve ser firme e coerente em todas as frentes. Crer na ressurreição é crer no Deus da vida. E não somente isso; é crer em nós mesmos como a verdadeira possibilidade que temos de ser algo de Deus. Quem pensa e vive unicamente a partir da perspectiva do homem e da matéria, não pode entender o anúncio da ressurreição. A fé na vida eterna nos compromete na luta pela defesa da vida no seu início, na sua duração e no seu fim nesta terra; nos compromete na luta pela justiça, pela honestidade, pela retidão, pela ética e moral, pelo bem e pela caridade. A fé na vida eterna é a única que pode dar sentido humano à história e ao progresso. Os próprios discípulos de Jesus eram principalmente testemunhas da ressurreição. Nós cristãos devemos ser assim também: testemunhas da vida que aponta para a vida eterna.

P. Vitus Gustama,svd