quarta-feira, 24 de junho de 2015

27/06/2015
CRER NO PODER DA PALAVRA DE DEUS A EXEMPLO DO OFICIAL ROMANO “PAGÃO”

Sábado da XII Semana Comum


Evangelho: Mt 8,5-17

Naquele tempo, 5 quando Jesus entrou em Cafarnaum, um oficial romano aproximou-se dele, suplicando: 6 “Senhor, o meu empregado está de cama, lá em casa, sofrendo terrivelmente com uma paralisia”. 7 Jesus respondeu: “Vou curá-lo”. 8 O oficial disse: “Senhor, eu não sou digno de que entres em minha casa. Dize uma só palavra e o meu empregado ficará curado. 9 Pois eu também sou subordinado e tenho soldados sob minhas ordens. E digo a um: ‘Vai!’, e ele vai; e a outro: ‘Vem!’, e ele vem; e digo a meu escravo: ‘Faze isto!’, e ele faz”. 10 Quando ouviu isso, Jesus ficou admirado, e disse aos que o seguiam: “Em verdade, vos digo: nunca encontrei em Israel alguém que tivesse tanta fé. 11 Eu vos digo: muitos virão do Oriente e do Ocidente, se sentarão à mesa no Reino dos Céus, junto com Abraão, Isaac e Jacó, 12 enquanto os herdeiros do Reino serão jogados para fora, nas trevas, onde haverá choro e ranger de dentes”. 13 Então, Jesus disse ao oficial: “Vai! E seja feito como tu creste”. E, naquela mesma hora, o empregado ficou curado. 14 Entrando Jesus na casa de Pedro, viu a sogra dele deitada e com febre. 15 Tocou-lhe a mão, e a febre a deixou. Ela se levantou, e pôs-se a servi-lo. 16 Quando caiu a tarde, levaram a Jesus muitas pessoas possuídas pelo demônio. Ele expulsou os espíritos, com sua palavra, e curou todos os doentes, 17 para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta Isaías: “Ele tomou as nossas dores e carregou as nossas enfermidades”.
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Segundo Mateus, o primeiro milagre operado por Jesus, que é a cura do leproso, foi para um membro do povo de Deus. O segundo milagre foi em favor de um pagão. A salvação de Deus deverá vir para Israel, mas também deve atingir os pagãos. A salvação de Deus é para todos. Tudo é um programa. O movimento missionário da Igreja já está presente nesse segundo milagre. A salvação de Deus não está reservada para uns poucos. Deus ama a todos os homens; seu amor rompe as barreiras que levantamos entre nós. No texto de hoje, Jesus fez o segundo milagre em favor de um oficial romano, em favor de um pagão. E os romanos eram mal vistos pelo Povo eleito.
 

Senhor, meu empregado está de cama, paralitico”. O oficial romano não pertence a uma Igreja ou a uma religião, ou ao Povo eleito, porém se comporta como um verdadeiro homem de Deus. Ele se comporta muito humano com os outros, especialmente com aquele que no olhar da sociedade não tem importância para se tratar daquela maneira. Por isso, esse oficial romano é um verdadeiro e autêntico homem de Deus. O homem de Deus trata o outro de maneira humana, pois o outro é o filho de Deus, templo do Espírito Santo (cf. 1Cor 3,16-17). Por essa razão, podemos encontrar os cristãos em qualquer religião, crença ou grupo, pois “Vós os reconhecereis pelos seus frutos” (Mt 7,16.20). Com efeito, o paganismo não depende da pertença ou não a uma religião. O paganismo depende do modo de viver e de se comportar com os demais homens. Por isso, um cristão pode ser um pagão por causa do seu modo de viver não-cristão. E aquele que se diz pagão pode ser um verdadeiro cristão se ele comportar-se como o oficial romano que se preocupa com o bem do outro e acredita no poder de Deus. Em outras palavras, existem os cristãos pagãos como existem também os pagãos cristãos a partir do modo de viver e de conviver.


Ao atender esse oficial “pagão” Jesus quer nos mostrar que ele não aceita nossas divisões, nem nossos racismos nem nossas discriminações. O coração de cada seguidor de Jesus deve ser universal e missionário, como o próprio coração de seu Mestre, Jesus Cristo. E cada cristão deve reconhecer e aceitar com facilidade qualquer pessoa do bem, independentemente de sua crença.
  

Senhor, meu empregado está de cama, paralitico”. A oração desse homem serve de exemplo para nós. Ele expõe simplesmente a situação; descreve a doença. E o mais notável é que ele pede em favor do outro, de seu empregado. É uma oração de intercessão. Será que eu rezo somente por mim mesmo e somente pela minha família? Será que tem lugar na minha vida uma oração de intercessão? Será que eu rezo pelos outros, especialmente pelos necessitados e por aqueles dos quais não gosta de mim ou por aqueles das quais eu não gosto? (cf. Mt 5,43-47).


O Senhor sente em todo caso o grito de sofrimento, apesar de o doente não estar presente. O Senhor não é insensível. Sua reação é imediata: "Vou curá-lo".
 

Mas é impressionante a profunda humildade desse oficial ao dizer a Jesus: “Senhor, eu não sou digno de que entres em minha casa. Dize uma só palavra e o meu empregado ficará curado”. Este pagão é muito consciente de que a lei judaica o recusa por ser pagão. Ele não quer pôr Jesus em uma situação de “impureza legal”. Por isso, ele quer evitar que Jesus entre em sua casa. “Dize uma só palavra e o meu empregado ficará curado“, diz o oficial a Jesus. Este homem valoriza a Palavra de Jesus, porque a Palavra de Deus está cheia de autoridade e de poder. O que interessa ao evangelista Mateus é algo muito distinto: a força da Palavra de Jesus que atua ou opera em quem crê.
 

O oficial romano estava muito seguro do poder de Jesus, e por isso, ele disse: “Senhor, eu não sou digno de que entres em minha casa. Dize uma só palavra e o meu empregado ficará curado”. Ele olha para Jesus como quem tem autoridade em Sua palavra, pois entende que a enfermidade e o mal têm que obedecer a Ele assim como os soldados obedecem ao seu general: “Pois eu também sou subordinado e tenho soldados sob minhas ordens. E digo a um: ‘Vai!’, e ele vai; e a outro: ‘Vem!’, e ele vem; e digo a meu escravo: ‘Faze isto!’, e ele faz”. O oficial romano sabe muito bem que a disciplina e a eficiência da tropa consiste na obediência cega dos comandados. Para o oficial romano, Jesus Cristo é um grande “general” de todas as forças do universo. Por isso, o oficial acredita que Jesus pode eliminar o poder da doença com uma única palavra, mesmo à distância. É uma maravilhosa comparação. O mais maravilhoso ainda é o tamanho da fé desse oficial romano. A palavra é poderosa. Não podemos pronunciá-la de qualquer jeito. Cada palavra pronunciada sempre deixa marca naquele que a ouve. As quatro coisas que não voltam para trás: a pedra atirada, a palavra dita, a ocasião perdida e o tempo passado. Saibamos usar cada palavra com responsabilidade.


Antes de atender ao pedido do oficial romano, Jesus chama a atenção dos irmãos do Povo eleito com palavras duras: “Em verdade, vos digo: em ninguém em Israel encontrei tanta fé”. Fora do Povo eleito, Jesus encontra uma pessoa que acredita no poder ilimitado de Jesus. A confiança ilimitada no poder ilimitado de Jesus é chamada fé por Jesus: “em ninguém em Israel encontrei tanta ”. Aqui trata-se da fé de quem se considera pagão. O oficial não pertence ao Povo eleito, mas pertence a Deus pela sua fé e pelo seu tratamento com o necessitado (empregado doente). Ele se comporta como um verdadeiro cristão. Pela sua fé, ele recebeu o elogio do Senhor Jesus.


Jesus põe em contraste a incredulidade dos seus contemporâneos judeus com a fé do pagão: “Em verdade, vos digo: em ninguém de Israel encontrei tanta fé”. O tamanho da fé do “pagão” não se encontra no meio do Povo eleito. A fé que se encontra no “pagão” não se encontra naqueles que se dizem fieis ou crentes.  O “pagão” ensina o crente a acreditar na Palavra de Deus, pois ela é eficaz. É uma grande ironia! A fé que Jesus exige é um impulso de confiança e de abandono pelo qual o homem renuncia a apoiar-se em seus pensamentos e em suas forças para abandonar-se à Palavra e ao poder de Aquele em quem acredita.


Antes de receber o Corpo do Senhor na comunhão, repetimos a frase desse oficial romano: “Senhor, eu não sou digno de que entres em minha morada. Dize uma só palavra, serei salvo”. A Eucaristia quer curar nossas debilidades. O próprio Senhor Jesus se faz nosso alimento e nos comunica sua vida: “O Pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo. Quem come minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna” (Jo 6,51.54). A vida de Cristo que recebemos na comunhão deve transformar nossa vida em vida para os demais homens. O oficial romano nos ensina a nos preocuparmos com o bem do outro e a crermos no poder eficaz da Palavra de Deus.

P.Vitus Gustama, SVD

terça-feira, 23 de junho de 2015

26/06/2015
 
FORMAR UMA COMUNIDADE DE IRMÃOS SEM EXCLUSÃO

Sexta-Feira da XII Semana Comum
 

Evangelho: Mt 8,1-4

1 Tendo Jesus descido do monte, numerosas multidões o seguiam. 2 Eis que um leproso se aproximou e se ajoelhou diante dele, dizendo: “Senhor, se queres, tu tens o poder de me purificar”. 3 Jesus estendeu a mão, tocou nele e disse: “Eu quero, fica limpo”. No mesmo instante, o homem ficou curado da lepra. 4 Então Jesus lhe disse: “Olha, não digas nada a ninguém, mas vai mostrar-te ao sacerdote, e faze a oferta que Moisés ordenou, para servir de testemunho para eles”.
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Tendo Jesus descido do monte, numerosas multidões o seguiam”. Esta frase é antitética com Mt 5,1: “Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte...” (Sermão da Montanha). Agora Jesus desceu da Montanha (viver na prática os ensinamentos do Sermão da Montanha) e “numerosas multidões o seguiam”. A descida de Jesus da Montanha marca, então, o passo do ensinamento para a ação.


Para entender o texto de hoje precisamos ter na nossa mente de que a comunidade para quem o evangelista Mateus escreveu seu evangelho é uma comunidade mista: um bom número de judeu-cristãos (alguns de tendência até rigorista) e um certo número de gentio-cristãos, e cristãos de uma mentalidade mais aberta. Como verdadeiro pastor da comunidade, o autor procura atenuar as tensões entre os vários grupos. Ele tenta evitar uma ruptura entre judeu-cristãos e gentio-cristãos e daí a sua preocupação com a edificação de uma comunidade igualitária, fraterna (sem exclusão), misericordiosa, colhedora, capaz de perdoar, compassiva para com os fracos e pecadores.


O evangelista Mateus nos relatou que “um leproso se aproximou de Jesus”.  Mateus usa o verbo “aproximar-se” 54 vezes no seu evangelho. Este verbo está carregado de sentido. A comunidade de Mateus, de origem judia, ao escutar este verbo, sentia que caiam muitas barreiras “do puro e do impuro”. Por isso, Mateus relatou que “Jesus estendeu a mão, tocou no leproso”. O leproso estava verdadeiramente excomungado da comunidade social e cultural de Israel (um excluído) e era declarado “impuro” e marginalizado de toda participação no culto e acreditava-se que era incapaz de aproximar-se de Deus e da sociedade humana (cf. Lv 13,45-46). Deus é capaz de se aproximar de qualquer ser humano, mesmo que na mente humana há excluídos. Todos são filhos e filhas de Deus. Jesus, o Deus-Conosco veio para unir e reunir todos numa comunidade de irmãos cujo Pai comum é o próprio Deus (cf. Mt 23,8-10). E os cristãos são enviados para unir e reunir todos como irmãos e irmãs, filhos e filhas do Pai do céu. Desunir ou dividir para um grupo estar contra o outro descaracteriza qualquer comunidade cristã.


O leproso do Evangelho de hoje sabe que, com Jesus, caíram as barreiras e sabe que para Jesus, mesmo sendo leproso, ele é parte da comunidade. Por isso, o leproso toma coragem de aproximar-se de Jesus. A coragem do leproso é uma grande lição para nós. Diante de Deus não há nada que não tenha solução. Basta nos aproximarmos de Deus com coragem e humildade. Deus está sempre pronto para estender a mão para nós. Ficar desesperado pode ser um sinal de que não queremos nos aproximar de Deus. Ficar desesperado é ficar apenas no nosso lado. Estar do lado de Deus nos tranqüiliza.


Aproximou-se de Jesus um leproso e lhe suplicou: “Senhor, se queres, podes purificar-me”. A oração desse leproso é breve e confiante.  “Se queres”, disse o leproso. Ele não pede nem exige nada. O leproso sabe que Jesus pode tudo, até o impossível (cf. Lc 1,37). Basta o querer d’Ele. Por isso, o leproso acrescenta: “podes purificar-me”. Para o leproso, Jesus é aquele que pode curá-lo e ao mesmo tempo pode reabilitá-lo totalmente, isto é, purificá-lo, eliminar dele todo sinal de impureza, fazendo-o capaz de se aproximar de Deus e de integrar-se na comunidade.


Como resposta ao pedido do leproso, Jesus atendeu-lhe a mão e disse: “Eu quero, fica limpo”.No mesmo instante, o homem ficou curado da lepra”, assim Mateus nos relatou. A cura é imediata. O leproso precisa voltar a ser membro da comunidade de irmãos. Formar uma comunidade de irmãos, unir todos para formar a fraternidade é urgente, sem o qual ninguém poderia chamar Deus de Pai-Nosso (cf. Mt 6,9-13).


É o primeiro milagre relatado por Mateus logo depois do Sermão da Montanha. A escolha de um leproso para este primeiro milagre para Mateus tem seu significado. Mateus escreveu seu evangelho para os judeus. Em seu contexto cultural e religioso, a lepra era o mal por excelência, uma enfermidade contagiosa que destruía lentamente a pessoa afetada e que era considerada pelos antigos como um castigo de Deus, sinal de pecado que excluía a pessoa afetada da comunidade (Dt 28,27-35; Lv 13,14). O leproso era considerado impuro e fazia impuro tudo que tocava. Por isso, ele era afastado da comunidade. O leproso sofria, então, não somente fisicamente, mas também psicológico e social e religiosamente. E para a lepra não tinha nenhum remédio. O leproso estava condenado à morte. Restava esperar um milagre para sobreviver.


 Mas no meio da falta de solução e de saída Jesus apareceu para superar o problema. Jesus estendeu a mão e tocou nele e disse: “Eu quero. Fica limpo”. A palavra de Deus se torna fato, se for obedecida e praticada. A força salvadora de Deus está na ação de Jesus. De fato, o leproso ficou curado. Podemos imaginar alegria deste homem que era solitário, abandonado, excluído e maldito pela sociedade, e agora feliz, pois volta a olhar para o futuro com muita esperança. Deus em Jesus devolveu ao homem que era leproso um novo começo com o olhar brilhante para o futuro.


A mão estendida, o contato é um sinal de amizade. Jesus se apresenta como amigo do sofredor, do abandonado e se aproxima dele para dizer que o sofredor não está sozinho. Jesus compartilha os dramas da humanidade. Por este humilde gesto Jesus reintegra o leproso curado na sociedade dos que o excluíam. Esta mão estendida é também um gesto de vitoria. Esta mão estendida é o gesto de amor. É uma mão pronta para ajudar como ajudou Pedro que estava para afogar. É uma mão que está pronta para ajudar quem se encontra na dificuldade. Todos os cristãos devem ser a mão estendida de Jesus neste mundo.


Todos nós somos débeis de alguma forma e necessitamos da ajuda permanente de Jesus. Nossa oração, confiada e simples, como a do leproso, se encontra sempre com o olhar de Jesus, com sua vontade de nos salvar. Jesus nos toca com sua mão diariamente. Mas muitas vezes estamos bem anestesiados pelas preocupações e agitações que acabamos não sentindo a mão de Jesus tocando nossa mão. Jesus nos alimenta com o Pão e o Vinho da Eucaristia, tocando nossa vida. Ele nos perdoa através da mão de seus ministros estendida sobre nossa cabeça, tocando e ungindo nossa testa e nossa mão com o óleo santo de batismo, de crisma, dos enfermos.


Olhando para o leproso antes e depois de sua cura, cada um precisa se perguntar: “O que é que faz você perder a esperança lentamente?”. E nesta situaçao, você tem coragem de se aproximar de Jesus e deixar-se tocar por ele para você voltar a ter mais esperança e força para continuar sua luta? Quais sao atitudes suas que excluem os outros da comunidade? Vamos lançar os braços em abraços para os outros a fim de formarmos uma comunidade de irmaos. É uma maneira de agradar o Pai-Nosso que está no céu. Que assim seja!

P. Vitus Gustama,svd
25/06/2015
FALAR E FAZER NA VIDA DO CRISTÃO

Quinta-Feira da XII Semana Comum

Evangelho: Mt 7,21-29

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 21 “Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos Céus, mas o que põe em prática a vontade de meu Pai que está nos céus. 22 Naquele dia, muitos vão me dizer: ‘Senhor, Senhor, não foi em teu nome que profetizamos? Não foi em teu nome que expulsamos demônios? E não foi em teu nome que fizemos muitos milagres? 23 Então eu lhes direi publicamente: Jamais vos conheci. Afastai-vos de mim, vós que praticais o mal. 24 Portanto, quem ouve estas minhas palavras e as põe em prática, é como um homem prudente, que construiu sua casa sobre a rocha. 25 Caiu a chuva, vieram as enchentes, os ventos deram contra a casa, mas a casa não caiu, porque estava construída sobre a rocha. 26 Por outro lado, quem ouve estas minhas palavras e não as põe em prática, é como um homem sem juízo, que construiu sua casa sobre a areia. 27 Caiu a chuva, vieram as enchentes, os ventos sopraram e deram contra a casa, e a casa caiu, e sua ruína foi completa!” 28 Quando Jesus acabou de dizer estas palavras, as multidões ficaram admiradas com seu en­sina­mento. 29 De fato, ele as ensinava como quem tem autoridade e não como os mestres da lei.
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Estamos ainda no Sermão da Montanha (Mt 5-7).  O texto do evangelho de hoje é a ultima parte da conclusão do Sermão da Montanha (Mt 7).


Uma das características da comunidade para quem o evangelista Mateus escreveu seu evangelho é que existiam grupos com determinados carismas, mas que se vangloriavam em manifestações extraordinárias como milagres, profecias, libertação de possessos, porém pouco cuidavam da fidelidade prática e operativa (cf. Mt 7,21-23). Confrontado com esta situação Mt exige de seus leitores ação, compromisso, engajamento. Mt repete a expressão “FAZER A PALAVRA” 15 vezes (Mt 7,24.26) ou “fazer a vontade” (Mt 7,21). Para Mt o critério definitivo do cristão é AGIR. A pertença ao reino pertence ao AGIR. Não basta a audição. Exige-se o FAZER. Para Mt a Igreja não pode se tornar uma mera comunidade de contemplativos ou simples professores da fé (cf. Mt 7,24-27: construtores de casa). Da mesma maneira, o verdadeiro profeta é reconhecido por seu frutos. Se não “faz frutos” é falso (veja Mt 21,28-31: dois filhos; 25,1-30: talentos e 10 virgens; e Mt 25,31-46: são salvos os que AGIRAM).


Como podemos saber, então, se alguém é um verdadeiro cristão ou somente tem nome de cristão, mas que não tem nada a ver com a maneira de viver?  De que vale ter o nome cristão se tua vida não é cristã? Há muitos que se denominam médicos e não sabem curar. Muitos que se dizem vigilantes noturnos não fazem mais que dormir a noite inteira. Assim também muitos se chamam cristãos, mas não o são em seus atos. Em sua vida, moral, fé, esperança e caridade são muito diferentes do que declara seu nome”, dizia Santo Agostinho (In epist. Joan. 4,4). O Nome de cristão traz em si a conotação de justiça, bondade, integridade, paciência, castidade, prudência, amabilidade, inocência, e piedade. Como podes explicar a apropriação de tal nome se tua conduta mostra tão poucas dessas muitas virtudes? Não nos deixemos enganar pelo fato de nos chamarem de cristãos. Antes, admitimos ser merecedores de reprovação se usamos um nome ao qual não temos direito... Não existe uma só profissão que não carregue consigo a função correspondente. Como, pois, te atreves a chamar-te cristão, se não te comportas como tal? (Santo Agostinho: De vit. Christ. 6). O que conta para Deus é o bem que praticamos (AGIR cristão). Esta questão é que o texto do Evangelho deste dia quer nos transmitir.


Fazer e Dizer Devem Estar Em Sintonia Perfeita


“Nem todo aquele que diz ‘Senhor, Senhor’”. Mais uma vez aparece no evangelho a dialética entre o dizer e o fazer. Há quem fale continuamente de Deus (“Senhor, Senhor”) e logo se esquece de fazer sua vontade. Há quem se faça a ilusão de trabalhar pelo Senhor (“profetizamos em teu nome, expulsamos os demônios, fizemos milagres”), mas logo, no dia das contas, no dia da verdade, acontece que o Senhor não o conhecerá: “Jamais vos conheci. Afastai-vos de mim”.


Por isso, existe o perigo de uma oração (“Senhor, Senhor”) que não é traduzida em vida e em compromisso. Por essa razão um sábio chegou a dizer: “Não há nada que seja mais perigoso do que a oração”, porque obriga ou leva quem reza a assumir os compromissos de Deus com seriedade e perseverança na convivência com os demais homens. Existe o perigo de uma escuta da Palavra que não se converte em nada prático e operante. Jesus fala bem claro neste evangelho: os que falam bem, os que “rezam bem”, os que “oram”, mas não “fazem” não entrarão no Reino. Em outras palavras, a oração precisa ser transformada em compromisso. Rezemos diante de Deus como uma criança, mas logo voltemos à nossa vida com nossa responsabilidade de adultos. O final de toda oração adulta é um só: “Amém”, isto é, aceito a realidade e minha responsabilidade diante dela.


Por que às vezes ou muitas vezes, a oração se encerra em si, a escuta da Palavra de Deus não se traduz em vida e o encontro com os irmãos não se abre ao mundo? A resposta implicitamente se encontra na própria Palavra de Deus: “Ninguém pode servir a dois senhores” (Mt 6,24). Por servir a dois senhores, a pessoa, depois de “servir” a Deus com oração, com a escuta da Palavra e com a reunião eclesial logo serve ao mundo e a si própria com as opções concretas e cotidianas da vida longes dos valores cristãos.


Precisamos estar conscientes de que não existe verdadeira fé sem empenho moral. A oração e a ação, a escuta e a prática, são igualmente importantes. Há três coisas indispensáveis para a vida de um cristão: escuta atenta da Palavra de Deus com oração, prática da vontade de Deus e perseverança até o fim apesar das tempestades da vida.


Jesus não quer que os cristãos cultivem somente a relação com ele, e sim que sejam seguidores que, unidos a ele, trabalhem para mudar a situação da humanidade. É viver de acordo com a justiça e a caridade. Onde há justiça não há pobreza nem exclusão social.


Construir a Vida Sobre a Rocha da Palavra de Deus


Jesus nos convida hoje a sermos seguidores “rocha” e não seguidores “areia”. Seguidor “areia” é aquele que vive de uma fé de simples aparência, sem fundamento. Um dia acredita em Deus, em outra ocasião perde a fé. É viver a fé sem firmeza.  Crê quando as coisas vão ao seu gosto e se desanima quando tudo não corresponde àquilo que imaginava. Os seguidores “rocha” são os que fundamentam sua vida na rocha que é Cristo e sua Palavra. Os seguidores “rocha” se mantêm firmes em qualquer situação, porque seguram na mão de Deus e sabem em quem acreditam (cf. 2Tm 1,12c).  Para sermos verdadeiros seguidores “rocha” devemos fazer próprias as palavras do Salmo 78: “Senhor, não lembreis as nossas culpas do passado, mas venha logo sobre nós vossa bondade.... Por vosso nome e vossa glória, libertai-nos! Por vosso nome, perdoai nossos pecados!”. Não corrigir nossas faltas é o mesmo que cometer novos erros. Muito sabe quem conhece a própria ignorância e procura a viver mais com sabedoria e prudência.


O evangelho deste dia quer nos dizer que não importa “dizer Senhor, Senhor, nem falar em seu nome, nem sequer fazer milagres”. O que importa é a prática. O fazer. As obras. Não o dizer, nem o pensar, nem o rezar, nem o pregar, nem fazer milagres. A prática é a rocha, por isso, é firme até diante de Deus. Jesus nos convida a construir nossa vida sobre a prática. As obras boas praticadas são verdadeiros sinais da abertura diante da graça de Deus.
 
P. Vitus Gustama,SVD

sábado, 20 de junho de 2015

24/06/2015
NASCIMENTO DE SÃO JOÃO BATISTA
24 de Junho
                                                       

Evangelho: Lc 1,5-17.57-66.80

 56 Maria ficou com Isabel cerca de três meses. Depois voltou para casa.57 Completando-se para Isabel o tempo de dar à luz, teve um filho.58 Os seus vizinhos e parentes souberam que o Senhor lhe manifestara a sua misericórdia, e congratulavam-se com ela.59 No oitavo dia, foram circuncidar o menino e o queriam chamar pelo nome de seu pai, Zacarias.60 Mas sua mãe interveio: "Não", disse ela, "ele se chamará João".61 Replicaram-lhe: "Não há ninguém na tua família que se chame por este nome".62 E perguntavam por acenos ao seu pai como queria que se chamasse.63 Ele, pedindo uma tabuinha, escreveu nela as palavras: "João é o seu nome". Todos ficaram pasmados.64 E logo se lhe abriu a boca e soltou-se-lhe a língua e ele falou, bendizendo a Deus. 65 O temor apoderou-se de todos os seus vizinhos; o fato divulgou-se por todas as montanhas da Judéia.66 Todos os que o ouviam conservavam-no no coração, dizendo: "Que será este menino? Porque a mão do Senhor estava com ele. 80 O menino foi crescendo e fortificava-se em espírito, e viveu nos desertos até o dia em que se apresentou diante de Israel.
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João significa o Senhor manifestou sua benevolência;
Zacarias= Deus se recordou;
Isabel (elíseba, Hbr)= Deus é plenitude, perfeição.


A Igreja celebra normalmente a festa dos santos no dia de seu nascimento para a vida eterna, que é o dia de sua morte. No caso de São João Batista se faz uma exceção e se celebra o dia de seu nascimento terreno, porque ele é o Precursor que prepara a próxima chegada do Messias, Jesus Cristo.


O nascimento de João Batista é visto como um ato de “misericórdia” do Senhor na vida de Isabel. O que se enfatiza na misericórdia são a generosidade e a fidelidade de Deus aos justos. “Justo” é aquele que acolhe o amor de Deus com gratidão. E este amor leva a pessoa a viver de acordo com a justiça divina e não faz nenhuma injustiça contra os outros, seja na palavra, seja no ato. Praticamos a justiça não para sermos santos ou perfeitos e sim para não tratar o irmão injustamente. Através do nascimento de João Batista de um casal idoso e estéril, mas justo, Deus quer mostrar como é grande o seu poder pelos justos e como é gratuito o seu amor que torna fecunda uma mulher estéril como Isabel.


O ventre estéril de Isabel representa a condição da humanidade: sem vida, sem esperança, e sem futuro. É uma situação insustentável, triste e sem saída. Mas para os justos Deus sempre intervém do alto para dar-lhes vida, movido unicamente por seu amor. Neste ponto explode a alegria que envolve a todos e que provoca o homem a fazer louvores. A presença de Deus na vida de qualquer pessoa sempre traz a alegria. As pessoas que acreditam em Deus são pessoas alegres, porque Deus é amor.


Por outro lado, o texto quer nos apresentar o lado escuro da fé. Zacarias serve a Deus no Templo. Mesmo assim tem dúvidas diante do anúncio de Deus sobre a gravidez de Isabel, sua esposa apesar de sua idade avançada. Vem a pergunta que serve de reflexão para cada um de nós diante da incredulidade de Zacarias: “Que sentido tinha, então, o rito que com tanta solenidade ele celebrava no Templo? Que sentido tem das missas das quais participamos quase todos os dias se continuamos a duvidar da misericórdia e do poder de Deus na nossa vida?”


Através do nascimento milagroso de João Batista Deus quer dizer a cada um de nós: “Confie em mim!”. Deus nos pede que em cada dúvida, perplexidade e escuridão de nossa vida que saibamos nos entregar nas mãos misericordiosas de Deus e que sejamos fiéis aos seus mandamentos não por medo, mas por amor. Diante do amor de Deus devemos responder com o mesmo amor.  Através do anjo Deus diz a Zacarias: “Não tenhais medo, Zacarias!”. As mensagens e a Palavra de Deus são motivo de paz e de serenidade para quem as escuta com coração e as vive no cotidiano. É verdade que em determinados casos e momentos pode custar aceitar a vontade de Deus, porém, no final da história sempre nos deixa a paz. Por isso, quando há medo e desconfiança temos que recorrer à voz e à Palavra de Deus que nos acalma. Para Deus não há nada, absolutamente nada impossível (cf. Lc 1,37).


Outras Mensagens Da Festa Do Nascimento De João Batista


a). Zacarias tinha ficado mudo, logo depois da anunciação do anjo, porque não tinha acreditado (Lc 1,20); agora sua obediência em querer que a criança se chamasse João, como o anjo recomendara, mostra que, de fato, ele tinha acreditado; em conseqüência, sua mudez é revelada. Em outras palavras, quando Zacarias, finalmente, consente ou concorda com a instrução de Deus, seu castigo/punição é tirado e ele fica livre para falar. Suas primeiras palavras são em louvor a Deus. A soltura de Zacarias de mudez é expressa em louvor. Quando não acreditarmos na força de Deus, somos impedidos de falar dele e de louvar seu nome (ficamos mudos). A partir do momento em que acreditarmos, experimentarmos e vivermos a força de Deus, ninguém e nada nos impedirão de louvarmos Deus, fonte de nossa força.


b). O nascimento de João Batista é visto como um ato de “misericórdia” do Senhor na vida de Isabel. Na bíblia “misericórdia” não indica a compaixão para com uma pessoa indigna e desprezível (de fato, Zacarias e Isabel eram as pessoas justas e retas), mas se refere à generosidade e fidelidade de Deus. Deus quer mostrar como é grande o seu poder e gratuito o seu amor. O seio estéril de Isabel representa a condição humana sem vida, sem esperança e sem futuro, insustentável, triste e sem vida. E Deus intervém para dar-lhe vida, movido pela misericórdia. Tudo que se fala aqui é uma mensagem de esperança. Com Deus nem tudo é perdido e nada é pequeno; com Deus tudo se torna possível. Será que somos pessoas de esperança? Aquele que tem fé, também tem esperança; aquele que tem esperança tem perseverança e aquele que tem perseverança tem paciência por que ele sabe em quem acredita (cf. 2Tm 1,12).


c). Sobre a circuncisão.


No oitavo dia João foi apresentado ao templo para o rito da circuncisão. A circuncisão é o sinal da pertença ao povo da aliança. O circuncidado passa a fazer parte de Israel e se torna herdeiro das promessas feitas por Deus a Abraão e à sua descendência.  Este rito era determinado, para todos os judeus, no oitavo dia (Gn 17,12;Lv 12,3). Mas São Paulo afirma que a circuncisão não tem valor diante da promessa de salvação, pois o que é marca da carne fica na carne (cf. Rm 2,25-29; veja também At 15). Ela só tem sentido quando marca o coração, quando transforma a vida. Num caminho de evolução teológica, os cristãos substituíram este rito pelo batismo. Com o batismo, o batizado recebe a qualidade de discípulo de Jesus Cristo. O batismo torna a pessoa membro da comunidade cristã, independentemente de sua etnia, cor ou posição social. Para ser cristão não precisa ser judeu (circuncisão).


d). Sobre o nome “João”
   

Como era costume, os vizinhos e parentes dão por ato que o menino se chamaria como o pai (Tb 1,9). Mas João não poderia se chamar “Zacarias”. Com isso, João não dá simplesmente continuidade à estirpe (tronco de família), mas assinala o início da nova época. Terminou o tempo em que se recordam as promessas (“Zacarias” significa “Deus se recorda” ou “Deus recorda” as suas promessas). Terminou o tempo em que se recordam as promessas, chegou o tempo de ver em ação a bondade de Deus (João significa “o Senhor fez graça, manifestou sua bondade, a sua benevolência). A questão decisiva é, a partir dessa mudança de nome em não seguir o nome do pai: Qual é a vontade de Deus? Deus nem sempre escolhe o caminho da tradição, o velho costume, a trilha usada. Isabel escolhe o nome de João, pois conhecia, por espírito profético (Jo 1,41), a vontade de Deus. Os parentes julgavam tudo pelos usos e costumes. Isabel percebe o sopro de algo novo. Ela julga de maneira nova. E isto causa estranheza para os que estão totalmente enraizados nas coisas velhas. O Espírito interrompe por caminhos novos pois ele é aquele que renova a face da terra(cf. Ap 21,5), que nem sempre fáceis de compreensão. O Espírito nem sempre sopra segundo os planos dos homens, mas também até contra eles. A vontade e a Palavra de Deus colocam os homens escolhidos perante a necessidade de terem de abandonar a senda rotineira ou o curso normal de uma tradição(cf. Lc 5,39).  Essa atitude radical que destrói as linhas tradicionais de autoridade e continuidade, por certo está bem de acordo com a ação e mensagem de João. Mais tarde ele verá seus correligionários judeus como “raça de víboras”(Lc 3,7;Mt 3,7) que totalmente confiam em sua descendência de Abraão para protegê-los do próximo julgamento, quando na verdade nem a descendência de Abraão, nem a usual rotina do culto, mas apenas o arrependimento individual e boas ações podem salvar alguém da destruição(Lc 3,7-9 par.; Mc 1,4-5;12).


e). João não é o Messias, pois a interdição de beber vinho é antimessiânico. Os tempos messiânicos seriam caracterizados pela festa, pela alegria e pela ausência de jejuns. Assim João Batista expressa uma realidade mais vinculada ao AT, uma vez que insiste na penitência e nos jejuns, sendo um período de preparação. Quando Jesus inaugura o reinado messiânico, aproveita uma festa (Jo 2,1-12) e manifesta-se livre em relação à tradição, sendo acusado de comilão e beberão (Lc 15,33ss;7,34). Por isso, a missão do arauto é desaparecer, ficar em segundo plano quando chega aquele que foi anunciado. Por isso também, um erro grave de qualquer precursor ou evangelizador ou pregador seria deixar que o confundissem com aquele que esperam, ainda que fosse por alguns minutos ou por pouco tempo.


f). O nascimento dos santos/consagrados constitui alegria para muitos, porque o santo é um dom de Deus à humanidade, é um bem para todos. Todo ato de misericórdia traz a alegria não só a quem o recebe, mas também aos que sabem reconhecê-lo e estão prontos a exaltá-lo. A misericórdia e a alegria são alguns dos temas preferidos e fortes de Lucas. A mensagem da salvação percorre espaços sempre mais vastos. Não basta, por isso, participar nos acontecimentos salvíficos e ouvir falar deles. Os acontecimentos devem ser acolhidos no coração e quem os acolhe deve sintonizar-se interiormente com eles e espalha para os outros.

P. Vitus Gustama,svd
23/06/2015
PRUDÊNCIA NA AÇÃO E AMOR NO TRATAMENTO AOS OUTROS

Terça-Feira da XII Semana Comum

Evangelho: Mt 7,6.12-14

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 6 "Não lanceis aos cães as coisas santas, não atireis aos porcos as vossas pérolas, para que não as calquem com os seus pés, e, voltando-se contra vós, vos despedacem. 12 Tudo o que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles. Esta é a lei e os profetas. 13 Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduzem à perdição e numerosos são os que por aí entram. 14 Estreita, porém, é a porta e apertado o caminho da vida e raros são os que o encontram”.
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Estamos no fim do Sermão da Montanha (Mt 5-7). A passagem do evangelho que serve para nossa meditação de hoje é outra parte da conclusão do Sermão da Montanha (Mt 7). No texto de hoje Jesus nos dá três lições importantes para nossa vida: viver na prudência; em cada ato praticado o outro deve ser levado em consideração (regra de outro); e o esforço na luta pela salvação (porta estreita).


No texto de hoje Jesus começa sua lição com as seguintes palavras: “Não deis aos cães as coisas santas, nem atireis vossas pérolas aos porcos; para que eles não as pisem e, voltando-se contra vós, vos estraçalhem” (Mt 7,6). Esta sentença enigmática, própria de Mateus, não tem nenhuma relação, ao parecer, com o que precede nem com o que segue (alguns especialistas colocariam o v.6 dentro do conjunto de Mt 7,1-4). Mas o que mais importante para nós é a lição escondida nessa sentença.


Cães e porcos eram animais impuros para os judeus. A quem, então, Jesus se refere quando fala de cães e de porcos? Muitos interpretam que cães e porcos representam os pagãos. Na verdade, os cães e os porcos não designam aqui categorias particulares de homens: pagãos, fariseus, certas pessoas desviadas, hereges e assim por diante. Cães e porcos ilustram bem, aqui, duas recusas características do Evangelho: primeiro, a inconsciência dos que em nenhum momento pressentem (não percebem) o valor do Evangelho, e segundo, a violência perigosa dos que, decepcionados por não encontrar nele (no Evangelho) um alimento de seu gosto, se voltam contra os que propõem a vida de acordo com o Evangelho. Ou “cães e porcos” se referem àqueles que, em nome de seus interesses e prazeres pessoais, não aceitam o conteúdo da Palavra de Deus. Eles preferem o prazer que não os faz crescerem, à Palavra de Deus que os salva. Santo Agostinho dizia: “As trevas obscurecem a vista. Os pecados obnubilam a mente. E não permitem ver a luz nem a si mesmo (In ps. 18,13). A Palavra de Deus converte-se em teu inimigo quando tu és amigo da perversidade” (In ps. 35,1).    Ainda que os discípulos não excluam ninguém de seu amor (Mt 5,38.43-48), mas eles têm que tomar cuidado com aqueles que buscam somente seu próprio interesse e cometem a injustiça contra o próximo. O conselho de Jesus no v.6 se encontra paralelamente no Livro dos Provérbios (Antigo Testamento): “Quem censura um mofador, atrai sobre si a zombaria; o que repreende o ímpio, arrisca-se a uma afronta. Não repreendas o mofador, pois ele te odiará. Repreende o sábio e ele te amará” (Pr 9,7-8).


A expressão “as coisas santas” designa com freqüência no Antigo Testamento as viandas (alimento) oferecidas em sacrifício e que somente os fieis podiam consumir “... para a expiação quando de sua tomada de posse e sua consagração. Estrangeiro algum comerá deles, porque são coisas santas” (Ex 29,33-34; cf. Lv 2,3;22,10.16; Nm 18,8.19).


O paralelismo “coisas santas - pérolas” demonstra que a primeira dessas expressões deve ser entendida como uma imagem que designa o que é infinitamente precioso e pertence exclusivamente a Deus. “As pérolas” são imagem daquilo que tem um grande valor ou precioso (cf. Mt 13,46).


Não deis aos cães as coisas santas, nem atireis vossas pérolas aos porcos; para que eles não as pisem e, voltando-se contra vós, vos estraçalhem!”. Através deste conselho Jesus nos ensina a vivermos na prudência.     “A prudência é o olho de todas as virtudes”, dizia Pitágoras. Ser prudente é a primeira lição do evangelho de hoje.


A palavra “prudência” provém do latim “prudens-entis” que, na acepção própria, significa precavido, competente. Prudência é virtude que faz prever, e procura evitar as inconveniências e os perigos; cautela, precaução. A prudência é a capacidade de ver, de compenetrar-se e de ajustar-se à realidade. A prudência oferece a possibilidade de discernir o correto do incorreto, o bom do mau, o verdadeiro do falso, o sensato do insensato a fim de guiar o bom rumo de nossas ações. O prudente jamais se precipita no falar nem no agir sem conhecimento da causa ou da realidade. Tendo conhecimento da causa ou da realidade ele fala com cautela. A prudência é a faculdade que nos permite vermos e aprendermos a realidade tal como é. A prudência é o modo de viver dos sábios, pois o homem sábio é sempre guiado pela prudência. Por isso, o sábio dificilmente machuca os outros.


A segunda lição que Jesus nos dá hoje é esta: “Tudo quanto quereis que os outros vos façam, fazei também a eles. Nisto consiste a Lei e os Profetas” (Mt 7,12). Trata-se de uma regra de conduta e é considerada como a regra de ouro. A regra de ouro já era conhecida na antiguidade. Em Heródoto lemos: “Não quero fazer aquilo que censuro no próximo” (Heródoto, 3,142,3). Na sabedoria de Confúcio (551 antes de Cristo) lemos: “Não faça aos outros o que você não gostaria que fizessem a você”. Encontramos também esta regra nos ditos do famoso rabi Hillel: “Não faças a ninguém aquilo que te é desagradável; isso é toda a Torá, ao passo que o mais é explicação; vai e aprende!”.


Esta regra de ouro nos ensina que em tudo que falarmos (comentarmos) ou fizermos a vida e a dignidade do outro devem ser levadas em consideração. Às vezes acontece que machucamos muito os outros porque ainda temos muitas feridas dentro de nós que ainda não são curadas. E muitas vezes avaliamos o outro a partir de nossas feridas e não a partir da própria realidade das coisas. Por trás de uma pessoa brava e grosseira, há uma pessoa frustrada.


O verdadeiro cristão faz muito mais além da regra de ouro. Ele é chamado e é enviado a fazer o bem ao próximo independentemente da retribuição ou do reconhecimento. Ele sempre age com um amor gratuito e de qualidade sem medir esforços, porque ele tem consciência clara de que ele é amado por Deus deste modo. Ele é sempre solicito e serviçal. Trata-se de a opção ou do estilo de vida com Deus traduzido na convivência fraterna com os demais. Todo trato cordial e fraterno jamais se baseia na lei de retribuição muito menos acontece por mera formalidade. O cristão existe para fazer o bem, e se não o fizer deixará de existir em Jesus Cristo que “passou a vida fazendo o bem” (At 10,38).


A terceira lição dada por Jesus no evangelho deste dia é esta: “Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso é o caminho que leva à perdição, e muitos são os que entram por ele! Como é estreita a porta e apertado o caminho que leva à vida! E são poucos os que o encontram”! (Mt 7,13-14). Estas palavras de Jesus recordam aquilo que Moisés falou, no Livro de Deuteronômio, para o povo eleito quando acabou de expor a Lei: “Olha que hoje ponho diante de ti a vida com o bem, e a morte com o mal. Mando-te hoje que ames o Senhor, teu Deus, que andes em seus caminhos, observes seus mandamentos, suas leis e seus preceitos, para que vivas e te multipliques, e que o Senhor, teu Deus, te abençoe na terra em que vais entrar para possuí-la.  Se, porém, o teu coração se afastar, se não obedeceres e se te deixares seduzir para te prostrares diante de outros deuses e adorá-los, eu te declaro neste dia: perecereis seguramente e não prolongareis os vossos dias na terra em que ides entrar para possuí-la, ao passar o Jordão.  Tomo hoje por testemunhas o céu e a terra contra vós: ponho diante de ti a vida e a morte, a bênção e a maldição. Escolhe, pois, a vida, para que vivas com a I tua posteridade, amando o Senhor, teu Deus, obedecendo à sua voz e permanecendo unido a ele. Porque é esta a tua vida e a longevidade dos teus dias na terra que o Senhor jurou dar a Abraão, Isaac e Jacó, teus pais (Dt 30,15-20). 


Moisés falou de vida e de morte; Jesus, que já olha mais para além da vida neste mundo, fala de “vida e perdição”. Moisés mandou para “escolher o caminho”; Jesus manda “entrar pela porta estreita”, tomar o caminho que leva à vida. Moisés fala desta vida; Jesus fala da vida eterna da qual alcançarão os que seguem a senda estreita.


“Como é estreita a porta e apertado o caminho que leva à vida!”.  O verbo grego para “apertado” usado em particípio se usa também para indicar aflição, tribulação e perseguição. São os obstáculos  que tem que ser superados quando se recorre “a senda estreita”.


Não percamos a ideia de “caminho”. A vida do cristão se concebe como um “caminho” (cf. At 9,2;13,10;18,25 etc.). Não se improvisa, recorre-se pouco a pouco com uma tensão contínua até o Pai. O amor nos faz encontrarmos Deus face a face um dia. Não precisaremos mais da fé e da esperança no momento em que estivermos face a face com Deus na eternidade. Como disse um pregador: “A fé e a esperança nos levam até a porta do céu. Mas o que nos faz entrar nele é o amor, pois ‘Deus é amor’ (1Jo 4,8.16)”. 


“Como é estreita a porta e apertado o caminho que leva à vida!”.  No Evangelho de João Jesus se apresenta como porta: “Eu sou a porta; quem entrar por mim será salvo” (Jo 10,9). O cristão se esforça por ser fiel a Deus e aos princípios evangélicos como solidariedade, fraternidade, igualdade, justiça, amor, bondade, solidariedade em vez de egoísmo, agressividade, violência. A santidade é a forma normal de viver os ensinamentos de Cristo no cotidiano. Mas para tudo isto se exige muito esforço. “Deus não condena quem não pode fazer o que quer, mas quem não quer fazer o que pode”, dizia Santo Agostinho (Serm. 54,2).

P. Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 19 de junho de 2015

22/06/2015
 
VIVER CONFORME O AMOR FRATERNO


Segunda-Feira Da XII Semana Comum

Evangelho: Mt 7,1-5

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 1 “Não julgueis para não serdes julgados. 2 Pois com o julgamento com que julgais, sereis julgados, e com a medida com que medirdes, sereis medidos. 3 Por que reparas o cisco que está no olho do teu irmão, quando não percebes a trave que está no teu? 4 Ou como poderás dizer ao teu irmão: ‘Deixa-me tirar o cisco do teu olho’, quando tu mesmo tens uma trave no teu? 5 Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então verás bem para tirar o cisco do olho do teu irmão”.
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O texto do evangelho de hoje pertence ao Sermão da Montanha (Mt 5-7). O Sermão está já na sua conclusão (Mt 7). Nesta conclusão Jesus nos alerta para não julgarmos os outros. Não somos autorizados para julgar e sim somos ordenados para amar (cf. Jo 15,12). Não temos condições para julgar. Somente Deus tem a competência para nos julgar.


“Não julgueis para não serdes julgados. Pois com o julgamento com que julgais, sereis julgados, e com a medida com que medirdes, sereis medidos”.


Dizia o famoso Rabino Hillel: “Não julgue ninguém até que você mesmo entre nas circunstâncias ou da situação da pessoa julgada”. Nunca podemos saber dos fatos em si e da própria pessoa que é julgada.


O verbo julgar (em grego, krinein) se utiliza aqui em sentido jurídico e equivale a emitir um juízo condenatório sobre uma pessoa, baseando-se nos defeitos que tem. Quem emite este tipo de juízo rompe a relação com a pessoa ajuizada.


“Não julgueis para não serdes julgados”. Esta expressão é conhecida como “passivum divinum” cujo sujeito é o próprio Deus. Por isso, podemos ler a sentença da seguinte maneira: “Não julgueis (os outros), para não serdes julgados por Deus”. Por ser perfeito e santo Deus tem competência para separar (julgar). Homem nenhum tem condição para julgar. Os cristãos não devem julgar os outros, pois se o fizerem eles mesmo vão cair no juízo ou no julgamento de Deus. A mesma sentença que emitimos contra os outros irmãos será usado pelo próprio Deus. “O julgamento será sem misericórdia para aquele que não pratica a misericórdia. A misericórdia, porém, desdenha o julgamento” (Tg 2,13). Somente pode esperar a indulgencia e a misericórdia de Deus aquele que pratica a misericórdia.  Quem perdoa o próximo pode contar com o perdão de Deus (cf. Mt 6,12.14). Quem é injusto ou calunioso, não pode esperar a misericórdia de Deus (cf. Mt 5,22).


Deus não quer que julguemos os outros. Por isso, Jesus coloca um critério que deve ser usado na comunidade cristã (cf. Mt 18,15-18). Quando um cristão perceber algum defeito no outro, ele precisa fixar o olhar para os próprios defeitos porque talvez seus próprios defeitos sejam maiores do que os defeitos do outro: “Por que reparas o cisco que está no olho do teu irmão, quando não percebes a trave que está no teu? Ou como poderás dizer ao teu irmão: ‘Deixa-me tirar o cisco do teu olho’, quando tu mesmo tens uma trave no teu?”.  


A análise crítica da própria realidade ajuda o cristão a compreender as fraquezas dos outros em vez de emitir um juízo.  Com a consciência da própria fragilidade, o cristão será movido a compreender e curar a fragilidade do outro. Se não fizer isto é porque este tipo de cristão é hipócrita, isto é, aquele que se acha santo ou perfeito, mas pela emissão do julgamento sobre os outros já revela que é um grande pecador: “Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então verás bem para tirar o cisco do olho do teu irmão”.A ignorância mais refinada é a ignorância da própria ignorância”, dizia Santo Agostinho (Confissões, 5,7).  Quanto mais curioso torna-se o homem por conhecer a vida alheia, tanto mais relaxado se torna para consertar a sua própria”, acrescentou Santo Agostinho (Confissões, 10,3).


De qualquer modo, a rigidez e a hipocrisia em julgar são defeitos que podem ser evitadas se um cristão souber fazer a crítica sobre si mesmo. Olhar para a própria consciência e para o próprio modo de viver é algo indispensável para um cristão conviver fraternalmente com os demais. Olhar para a própria casa é a primeira coisa que deve ser feita. Quem fica olhando para a vida alheia é porque não está cuidando da própria vida. A consciência dos próprios limites e debilidades é a medida para uma crítica evangélica. Um verdadeiro cristão jamais adota uma atitude de orgulho, de menosprezo e de superioridade diante dos demais que o leva a uma postura farisaica de condenação e de recriminação dos defeitos dos outros. Precisamos estar conscientes de que o juízo pertence a Deus e não a nós, pobres pecadores.


Resumindo! Há três razões pelas quais não devemos julgar os outros.

·        Primeiramente, o julgamento pertence a Deus e não a nós, pobres pecadores, porque só Deus conhece profundamente o coração de cada ser humano. Constituir-se em juiz dos outros é uma ousadia irresponsável. É uma ousadia de se colocar no lugar de Deus, de se considerar como Deus, de roubar o lugar de Deus. Ao julgar, você esta querendo dizer: “Eu sou Deus e você é pecador”.

·         Em segundo lugar, a medida que usarmos com os outros será usada por Deus contra nós no julgamento final, pois a vida tem seu fim.

·        Em terceiro lugar, todos nós somos imperfeitos. Não somos seres humanos; estamos seres humanos. Julgar provém da nossa própria cegueira que nos impede de ver os nossos próprios defeitos. Ao julgarmos os outros estamos querendo dizer que somos melhores do que os outros. Mas na verdade, ao fazer isto, estamos revelando aos outros que somos piores do que imaginamos. O Senhor nos ordena para nos amarmos mutuamente e não nos autoriza para julgar os demais homens.


Todos nós temos necessidade do perdão e do juízo indulgente de Deus. Ao falar do perdão Jesus compara sempre nosso próprio comportamento com o comportamento que Deus usa sobre nós. Se desejarmos um juízo misericordioso sobre nós, teremos que tratar os outros com a mesma misericórdia. Se eu sou severo para com os outros, como posso pedir a Deus que seja bom e misericordioso para comigo?


Deus não quer qualquer rompimento. Por isso, Jesus mostra o caminho que temos que seguir: o caminho do amor e da compreensão. Somente o amor compreensivo cura as feridas da alma. Mas não significa que sejamos omissos diante dos defeitos dos outros. Somos chamados a dirigir palavras amigas ao outro e convidá-lo a mudar ou a se corrigir pelo seu próprio bem. Com a consciência de nossa fragilidade teremos condições para curar ou remediar a fragilidade de nosso próximo. Precisamos aprender a transformar nossas críticas em sugestões para que a convivência fraterna se torne uma ajuda para o mútuo crescimento. 


“Não julgueis para não serdes julgados (por Deus)” deve servir de alerta e de freio para que nossa palavra não ultrapasse nossas obras, pois “com a medida com que tiverdes medido, também vós sereis medidos”, diz o Senhor para cada um de nós hoje.  Jesus nos ensina a sermos tolerantes, a não vivermos criticando os demais, a sabermos fechar os olhos diante dos defeitos de nossos familiares e de nossos vizinhos. Somos convidados a rezar por todos até pelos nossos inimigos (cf. Mt 5, 44-48).

P. Vitus Gustama,svd

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Domingo, 21/06/2015
SÓ JESUS ACALMA AS “TEMPESTADES” DE NOSSA VIDA


XII DOMINGO DO TEMPO COMUM “B”


Evangelho: Mc 4,35-41

35 Naquele dia, ao cair da tarde, Jesus disse a seus discípulos: “Vamos para a outra margem!” 36 Eles despediram a multidão e levaram Jesus consigo, assim como estava, na barca. Havia ainda outras barcas com ele. 37 Começou a soprar uma ventania muito forte e as ondas se lançavam dentro da barca, de modo que a barca já começava a se encher. 38 Jesus estava na parte de trás, dormindo sobre um travesseiro. Os discípulos o acordaram e disseram: “Mestre, estamos perecendo e tu não te importas?” 39 Ele se levantou e ordenou ao vento e ao mar: “Silêncio! Cala-te!” O vento cessou e houve uma grande calmaria. 40 Então Jesus perguntou aos discípulos: “Por que sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?” 41 Eles sentiram um grande medo e diziam uns aos outros: “Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?”

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Mc 4,35-41 faz parte do complexo literário de Mc 4,35-5,43, onde se encontra uma coleção de milagres logo depois que Jesus falou para seus discípulos em parábolas (Mc 4,1-34). Na verdade, logo no início deste evangelho, no primeiro dia do ministério de Jesus em Cafarnaum (Mc 1,21-23), o evangelista Marcos já enfatizou a ligação entre a autoridade dos ensinamentos de Jesus e a autoridade de sua palavra milagrosa (Mc 1,27). Agora ele dá um longo exemplo da mesma ligação com os milagres realizados no mar da Galiléia e em suas proximidades (Mc 4,35-5,43).


Os discípulos, que já têm começado a compreender o mistério do Reino de Deus, mas que necessitam ainda de inteligência, recebem agora uma instrução mais eficaz que a da palavra. Os milagres são lhes oferecidos pelos quais se transmitem a soberania e o poder salvífico de Deus entre os homens, mas também da identidade de Jesus como realizador dos mesmos. O evangelista Mc ordena esses milagres de maneira significativa. O poder de Deus se manifesta em Jesus através da dominação dos elementos naturais ou do poder caótico que causa medo tremendo (4,35-40), através da libertação do homem endemoninhado ou do adversário (5,1-20), da cura de uma doença mortal (5,25-34) e da ressurreição ou dominação sobre a morte (5,21-24.35-43). E as testemunhas de tais milagres são especialmente os próprios discípulos. Como em parábolas, também aqui temos uma revelação “especificamente” para os discípulos. Eles são os primeiros destinatários desses prodígios. Em outras palavras têm uma função catequética para transmitir quem é Jesus? (O evangelho de Mc foi escrito precisamente para responder a esta pergunta: “Quem é Jesus”?). E esses milagres servem como uma preparação para os discípulos para seu apostolado missionário (Mc 6,7-13). Jesus mostra-lhes que a missão se enraíza no seu poder sobre os elementos, sobre o mal e sobre a morte.


Quem é Jesus Para nós Para Podermos Saber O Que Devemos Fazer: “Quem é Este?”


O relato da tempestade acalmada por Jesus podemos encontrar em todos os três sinóticos, embora cada um narre com algumas diferenças(cf. Mt 8,23-27;Lc 8,22-25). Não vamos analisar a diferença e convergência destes textos. Refletiremos apenas sobre o relato de Mc.
    

Para entender este relato com seus detalhes precisamos ter na mente alguns textos do AT que servem como o pano de fundo do mesmo. Controle sobre o mar e o ato de acalmar  tempestade são sinais característicos do poder divino (Jó 7,12;Sl 73,13(Sl 74,13 na versão hebraica);88(89),8-10;92(93),3-4;Is 51,9-10). Acalmar uma tempestade no mar é a maior prova da atenção ou do cuidado amoroso de Deus (Sl 106(107),23-32). É digno de notar também que dormir em paz e sem preocupar-se com nenhum problema é um sinal da perfeita confiança em Deus (cf. Pr 3,23-24;Sl 3,6;4,9;Jó 11,18-19). Em particular Jn 1,4-15 parece ter uma influência particular para formar o relato de Mc 4,35-41.
   

O texto pode ser dividido em algumas partes de acordo com seu gênero literário: vv.35-36 servem como introdução; v.37 relata a situação dos discípulos; v.38bc fala da invocação do socorro; v.39ab sobre salvamento em que se manifesta o poder divino de Jesus;v.39cd fala da constatação do milagre; v.41a fala da admiração dos discípulos que se segue com aclamação no v.41bc.
   

No v.35, ao cair da tarde, Jesus toma a iniciativa e marca o final do discurso das parábolas, ordenando aos discípulos para cruzarem o mar da Galiléia com ele: “Vamos para outro lado do mar”. No v. 36, os discípulos levam Jesus no barco. São mencionados também outros barcos e logo somem da história. Na literatura antiga a barca é imagem da comunidade.


Jesus convida os discípulos a ir a “outro lado do mar”. “Do outro lado” estão os pagãos, ou o território não- judeu. Jesus convida os discípulos para esse território para que lá possam semear também entre os pagãos a Boa Notícia do Reino. Atravessar, ou “ir para outro lado”, então, significa sair de si mesmo, pensar nos outros e não ficar apenas no nosso lado. Precisamos ir a “outro lado”. Quem sabe no “outro lado” em vez de evangelizarmos os outros, seremos evangelizados. A travessia é muitas vezes sinônimo de abertura ao novo e diferente. Mas para que possamos atravessar para “outro lado”, precisamos vencer o” mar” de nossa vida. Andar seria impossível. Afundaríamos. Precisamos de algum meio. E o meio para chegar no “outro lado” para superar o “mar” é “barco”. Quem sabe um dos barcos mencionados neste texto que sumiram do relato é o nosso barco que ainda não foi usado para levar Jesus.
  

No v. 37 fala-se do problema que suscita o milagre de Jesus: uma violenta tempestade agita o mar, a ponto de as ondas caírem dentro do barco.


Para o povo da Bíblia, o mar agitado é a imagem da revolta dos povos inimigos que gera caos primitivo (cf. Sl 46,3-4.7;65,8;93,3-4). Além disto, tempestade é imagem da incerteza e do sentimento de derrota, daí se eleva a Deus o grito do povo (cf. Sl 18,16-20;69,2-5.15-16). E somente Deus pode dominar o mar e seu tumulto (Jó 38,7.11). Enquanto isso, Jesus parece ausente, dorme e parece estar completamente alheio à tragédia (v.38a). O sono tranqüilo de Jesus simboliza uma confiança total em Deus como foi explicado nos textos do AT acima mencionados.
    

Assustados, os discípulos acordam Jesus com uma ríspida pergunta que tem um tom de queixa e de censura: “Mestre, não te importa que pereçamos?” (v.38b). O tom de queixa e de censura pressupõe uma resposta afirmativa (Sim, Jesus se importa).
     

No v. 39, Jesus, já desperto, “conjurou o vento e disse ao mar: ’Silêncio. Cala-te!’’. “E houve grande bonança”.  Jesus “conjurou” (grego, epitimesen) o vento. O verbo “conjurar” (epitmao) ou “ameaçar” é usado nos Salmos para falar da ameaça de Deus contra os poderosos impérios deste mundo (cf. Sl 9,6;68,31;106,9;119,21). E em Mc o verbo “conjurar” é usado muitas vezes para descrever os exorcismos de Jesus (Mc 1,25;3,12;9,25). E o verbo “Calar-te” é usado no primeiro exorcismo por Jesus no qual ele ordena ao demônio: “Cala-te e sai dele!” (Mc 1,25). Por implicação, pelo menos no contexto de Mc, Jesus “exorciza” as forças demoníacas causadoras da turbulência no mar, da mesma forma que as exorciza quando provocam turbulência em pessoas possuídas. A ação de Jesus é descrita com expressões que, no AT, são típicas para falar da ação de Javé (cf. Sl 107,25.29; 65,8;77,17-21;89,10-11;74,13-14;93,3-4;104,6-7.25-26;Is 27,1;51,9-10;Jó 7,12;9,13;26,12). Jesus aqui age como Deus, pois ele não ora a Deus, mas atende à prece dos discípulos. 


No v.40, Jesus faz uma censura aos discípulos sob a forma de dupla pergunta retórica, assim correspondendo e contestando a censura deles que foi também em forma de pergunta retórica (cf. v.38). Em sua censura Jesus pergunta retoricamente: “Por que tendes medo? Ainda não tendes fé?”. Na verdade, a pergunta de Jesus é uma resposta à pergunta dos discípulos. O apavoramento dos discípulos, seu medo, é atribuído por Jesus à falta de fé. O “ainda não” da pergunta de Jesus faz  referência tanto para trás(passado) como para frente (futuro). Para trás (passado), refere-se à experiência prévia que os discípulos tiveram da poderosa palavra de Jesus demonstrada em ensinamentos e em milagres, uma experiência que deveria ter despertado a fé deles em Jesus, mas não aconteceu. Mas o “ainda não” também antecipa com expectativa algum momento futuro, quando os discípulos terão a fé. A história de milagre transforma-se, então, em uma lição catequética. Jesus exorta aos discípulos que confiem nele em todo momento e circunstância. Somente com a fé é possível manter-se firme com a aparente ausência de Jesus. A falta de fé impede reconhecer a presença atuante de Deus no cotidiano.


A manifestação do poder miraculoso de Jesus provoca “grande temor” nos discípulos (v.41). Eles fazem para si mesmos uma pergunta final: “Quem é este a quem até o vento e o mar obedecem?” Os discípulos não conseguiram identificar Jesus com um título ou rótulo claro: “Quem é este?” e no entanto, eles  descrevem Jesus corretamente como o poderoso realizador de milagres que domina os ventos e o mar. Nesse milagre, os discípulos deveriam ver a revelação do Messias (Mc 8,29) e Filho de Deus (Mc 15,39), a única descrição adequada e completa de Jesus (Mc 1,1). No entanto, o milagre gera apenas mais uma pergunta retórica. “Quem é este?” É a pergunta que surge diante da prática de Jesus. Todo o evangelho de Mc caminha nessa direção. Os de dentro (os discípulos) ainda não conseguiram identificar Jesus e os de fora também ainda não perceberam quem é Jesus.


 “Quem é este?” pode ser também nossa pergunta dirigida a nós mesmos.


Do Medo Para O Temor De Deus


No início os discípulos se encontraram num medo tremendo diante da tempestade sem piedade: “Senhor, não te importas que nos afundemos?” Foi um grito de desespero. A falta de confiança na ação misteriosa de Deus, que pode vencer os poderes do caos e da morte, provoca o medo que paralisa a prática compromissada com o projeto de vida, deixando assim campo aberto para a ação alienadora e opressora. Até aqui podemos nos perguntar: Quais são poderes que nos causam medo e nos escravizam? O medo dos discípulos e o nosso medo se contrapõe à tranqüilidade de Jesus. Ele não tem medo de estar no meio das forças que aprisionam e alienam as pessoas. Ele confia na presença vitoriosa do Pai, do qual ele é o enviado. Com palavras de ordem que acalmam a tempestade, Jesus mostra que os poderes que causam medo e por isso escravizam, estão sob seu domínio. Agora é Jesus que repreende os discípulos: “Por que vocês são tão medrosos ? Vocês ainda não têm fé?”


Depois destas palavras os discípulos ficam “muito cheios de medo”. É um medo diferente do anterior. Antes eles temiam que as forças ameaçadoras, as forças da morte não pudessem ser vencidas, por isso ficavam paralisadas e impotentes diante delas. Agora o medo os atinge ao perceberem tais forças vencidas. Esse medo é o temor reverencial diante do mistério da força e do poder de Deus. Esse temor de Deus indica a aceitação da impossibilidade humana de vencer forças poderosas de morte e ao mesmo tempo o reconhecimento de que só Deus pode superá-las.


Essa experiência leva os discípulos a perguntarem: “Quem é esse homem, a quem até o vento e o mar obedecem?” Esta pergunta abre caminho para descobrir Jesus como alguém que traz consigo o poder de Deus para preservar a vida diante das forças que ameaçam a vida. O medo dos discípulos cede lugar à fé; o milagre faz progredir os discípulos na descoberta da pessoa de Jesus. A fé dos discípulos começa a crescer embora de maneira ainda vaga e insuficiente.


Com Jesus Tudo É Possível


Há momentos durante os quais nos sentimos sós e incapazes de reagir diante da maldade e dos dramas da vida. Isto acontece, por exemplo, quando surgem graves problemas na família(infidelidade do marido ou da mulher, mau comportamento dos filhos, doenças, dificuldades econômicas etc.) ou então, quando nos desentendemos com os irmãos da comunidade, quando se espalham maledicências, calúnias, quando surgem incompreensões. Nessas horas nos perguntamos: Onde está Deus ? Por que não intervém ? Por que não mostra o seu poder? Por que não faz justiça ? O seu silêncio nos desconcerta e nos incute medo.


No Evangelho de hoje Jesus nos convida a um ato de fé nele. Talvez seja necessário que estejamos numa barquinha agitada pelo vento para que percebamos a presença de Deus. Há cristãos que só pensam em Deus quando ficam doentes, quando atingidos por alguma desdita (falta de sorte). Só então rezam com toda a devoção e pedem a Deus para que ele venha socorrê-los. Quando tudo corre bem o ser humano corre o risco de se tornar auto-suficiente. É a pedagogia da provação.


A partir do momento em que os discípulos souberam que Jesus estava com eles na mesma barca, a paz entrou novamente no coração deles. Isto quer nos dizer que viajar com Jesus nesta vida é viajar em paz embora estejamos no meio de tempestade de vida. Esta verdade não só aconteceu na época dos discípulos mas pode acontecer também no nosso tempo. No mundo qualquer um de nós pode encontrar o poder de Deus em Jesus Cristo. Esta fé faz a descoberta do novo rosto de Deus que intervém para libertar. Na presença de Jesus nós podemos ter paz embora estejamos diante ou no meio da tempestade.


=Ele nos dá paz na tempestade de tristeza. Quando tristeza vem, Jesus nos fala da glória da vida que vem com ele. Ele transforma a escuridão de morte em vida sem fim. Na tristeza ele fala da glória do amor de Deus.


=Ele nos dá paz quando problema de vida nos envolve numa tempestade de dúvida, de tensão e de incerteza e não sabemos o que fazer; quando estivermos numa encruzilhada na vida e não sabemos qual caminho devemos tomar. Quando voltarmos para Jesus e dissermos a ele: “Senhor, a sua vontade que tenho que seguir” o nosso caminho voltará a ser claro. O caminho para chegar a paz é perguntar a vontade dele e se submeter a essa vontade. Por maiores que sejam as forças caóticas, Jesus terá poder de subjugá-las. Por isso, podemos contar sempre com a presença do Senhor Jesus Cristo. Nada é suficientemente forte que não possa ser dominado por ele.


=Ele nos dá paz na tempestade de preocupação. O maior inimigo de paz é preocupação: preocupação sobre nós mesmos, sobre o futuro incerto, sobre aqueles a quem amamos. Mas Jesus nos fala de um Pai cuja mão nunca vai causar as lágrimas desnecessárias. No meio de preocupação ele nos traz a paz do amor de Deus.


Tudo isso quer nos dizer que a fé e a esperança cristãs não decepcionam, porque se Deus está conosco, quem poderá estar contra nós ? Em tudo sairemos vitoriosos por Aquele que nos amou e nada poderá nos separar do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus(cf. Rm 8,31-39). O amor de Deus manifestado em Cristo traz consigo a urgência cristã do novo, a base mais sólida de uma resposta de fé e de amor a outro amor que nos precedeu e nos acompanha em todo momento e situação por delicada e inclusive desesperada que nos possa parecer.


Portanto, diremos, então, com toda confiança: Creio em Ti, Senhor, mas aumentai a minha fé. Contigo na barca poderei atravessar o mar desta vida e chegar convosco junto ao Pai. Assim seja !

P. Vitus Gustama,svd