segunda-feira, 6 de julho de 2015

09/07/2015
SER CRISTÃO DESPOJADO, SIMPLES, PACÍFICO, PRUDENTE E DESARMADO PARA SER MISSIONÁRIO MAIS PRODUTIVO

Quinta-Feira da XIV Semana Comum
 

Evangelho: Mt 10,7-15

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 7 “Em vosso caminho, anunciai: ‘O Reino dos Céus está próximo’. 8 Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios. De graça recebestes, de graça deveis dar! 9 Não leveis ouro nem prata nem dinheiro nos vossos cintos; 10 nem sacola para o caminho, nem duas túnicas nem sandálias nem bastão, porque o operário tem direito a seu sustento. 11 Em qualquer cidade ou povoado onde entrardes, informai-vos para saber quem ali seja digno. Hos­pedai-vos com ele até a vossa partida. 12 Ao entrardes numa casa, saudai-a. 13 Se a casa for digna, desça sobre ela a vossa paz; se ela não for digna, volte para vós a vossa paz. 14 Se alguém não vos receber, nem escutar vossa palavra, saí daquela casa ou daquela cidade, e sacudi a poeira dos vossos pés. 15 Em verdade vos digo, as cidades de Sodoma e Gomorra serão tratadas com menos dureza do que aquela cidade, no dia do juízo.
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Continuamos a estar ainda no discurso de Jesus sobre a missão (Mt 9,36-11,1).  Na passagem do evangelho de hoje Jesus dá algumas instruções para seus discípulos na tarefa de proclamar a Boa Nova.


Primeiramente, Jesus disse aos discípulos: “Em vosso caminho, anunciai: ‘O Reino dos céus está próximo’”. Jesus coloca em primeiro lugar o anúncio da Boa Nova. Onde quer que ande um seguidor de Jesus deve falar somente coisas boas. O evangelizador é aquele que sempre leva adiante o que é bom e o que é certo, o que é digno, o que é ético, o que é verdadeiro, o que é fraterno e o que edifica. Um seguidor não pode perder tempo em falar ou em discutir coisas que não edificam a humanidade. Qualquer cristão não pode desperdiçar o tempo com coisas fúteis, pois para ele cada minuto é o minuto da graça de Deus (Kairós). Qualquer cristão que não valoriza seu tempo, enterra muitas oportunidades para fazer o bem, para ajudar os necessitados etc.. A vida vivida apenas para satisfazer a própria vida nunca satisfaz a vida de ninguém. Não há melhor exercício para fortalecer o coração do que estender o braço para baixo e erguer pessoas esmagadas pelo peso da vida vivida. O propósito verdadeiro de nossa existência é fazer uma vida válida, bem feita e útil. Praticar e pregar o bem! Esta é a tarefa principal de qualquer cristão. Tudo o mais virá depois: “Buscai, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça, e todas outras coisas vos serão acrescentadas” (Mt 6,33).


Proclamai que o reino de Deus está próximo”. Muitas vezes se busca Deus demasiadamente longe. De fato ele está próximo de nós. O Deus que Jesus revela é um Deus próximo, um Deus amoroso. Por isso, jamais eu estou sozinho, inclusive quando me sinto abandonado ou solitário, nem na minha doença e morte, pois Deus está comigo. Para poder proclamar aos demais sobre a bondade, a proximidade da presença de Deus, o cristão-missionário há que ter feito a experiência do Deus próximo em si mesmo pessoalmente.


 Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios”.  Jesus já tinha feito tudo isso: Ele curou os enfermos (Mt 8,5-15); purificou os leprosos (Mt 8,2-4); ressuscitou os mortos (Mt 9,23-25); expulsou os demônios (Mt 8,28-34). O cristão-missionário é aquele que distribui benefícios, aquele que faz o irmão crescer e viver a vida dignamente, aquele que leva a paz. A exemplo de Cristo, o cristão é aquele que vive fazendo o bem para onde for, onde estiver e com quem estiver. O cristão é aquele que pratica o bem nos momentos oportunos e inoportunos.


Não leveis ouro nem prata nem dinheiro nos vossos cintos; nem sacola para o caminho, nem duas túnicas nem sandálias nem bastão, porque o operário tem direito a seu sustento”.  O ouro e a prata (os bens materiais) nunca vão ser nossos amigos. Eles são apenas meios para facilitar nosso trabalho, mas continuam sendo alheios a nós. O ser humano tem que gostar do ser humano. O cristão tem que gostar de gente. O cristão tem que usar o dinheiro/bens materiais para ajudar o próximo em vez de usar as pessoas para ganhar bens materiais injustamente.


Na sua instrução, Jesus pede aos discípulos para que vivam despojados: não levar nem ouro, nem prata, nem sandálias, nem bastão. Estas exigências parecem estar tomadas das normas estabelecidas para participar do culto a Deus no templo: “que ninguém entre no templo com bastão, sapatos nem com a bolsa de dinheiro”. Partindo desta norma judaica se diria simplesmente que os discípulos, na realização de sua tarefa evangelizadora devem fazer a mesma coisa diante de Deus e devem viver como estando na presença de Deus, sabendo que o êxito da missão depende de Deus.


A expressão “Estar desarmados e despojados” é usada para enfatizar que a obra é de Deus e não de um ser humano. Este estilo é chamado de “pobreza evangélica” que não se apóia unicamente nos meios materiais e nas técnicas, e sim na ajuda de Deus e na força de Sua palavra. Nós devemos confiar mais na força de Deus do que em nossas qualidades ou meios técnicos. O homem que se deixa conquistar pelo despojamento, deixa de estar alienado ou agarrado a qualquer coisa. O despojamento se torna um encontro libertador consigo próprio. ”Não andes averiguando quanto tens, mas o que tu és”, dizia Santo Agostinho (Serm. 23,3).


Recebestes de graça, de graça dai!”. Além de ter uma vida despojada, o cristão deve ser generoso e viver na gratuidade. O cristão-missionário deve atuar com desinteresse econômico, não buscando seu próprio proveito. Todos sabem que quanto mais se tem, mais se quer. A felicidade ficará cada vez mais distante quando o ser humano começar a criar mais necessidades. O espírito materialista é como beber a água salgada: quanto mais você beber, mais sede você terá. Aquele que sabe reduzir ao mínimo suas necessidades encontra uma alegria e uma liberdade maior. Possuído ou dominado pelas coisas o homem perde sua liberdade. “Onde só o amor serve e não a necessidade, a escravidão se torna liberdade” (Santo Agostinho. In ps. 99,8).


Entrando numa casa, saudai-a: Paz a esta casa. Se aquela casa for digna, descerá sobre ela vossa paz; se, porém, não o for, vosso voto de paz retornará a vós”.  O cristão jamais pode ser uma pessoa agressiva verbal e fisicamente. A serenidade produz outra serenidade. Cada sorriso gera outro sorriso. O cristão deve propor a Boa Nova e não se pode impor: os homens ficam livres. A tarefa do cristão-missionário é oferecer a paz e a alegria. Dar alento. O cristão deve saber que o trabalho não é forçar de qualquer maneira, nem Jesus fez isso. A tarefa do cristão-missionário é formular a proposta clara e convincente e logo deixa para a liberdade do homem.


A missão está marcada pela constante ameaça dos anti-valores da sociedade e pela oposição dos filhos das trevas. Estes são verdadeiros lobos que sacrificam seus irmãos para obter benefícios pessoais. Os evangelizadores não podem ser ingênuos diante deles. Os cristãos devem manter sua simplicidade, mas acompanhada pela prudência para agir sabiamente e eficazmente: “Eu vos envio como ovelhas no meio de lobos. Sede, pois, prudentes como as serpentes, mas simples como as pombas”.


Em resumo: o cristão deve ser despojado, simples, pacífico, prudente e desarmado. Só com estas qualidades ele convence qualquer um para ser parceiro do bem e para ganhar novos evangelizadores.                           

P. Vitus Gustama, SVD
08/07/2015
 
SER MISSIONÁRIO DO SENHOR

Quarta-Feira da XIV Semana Comum


Texto de Leitura: Mt 10,1-7    

Naquele tempo, 1 Jesus chamou os doze discípulos e deu-lhes poder de expulsar os espíritos maus e de curar todo tipo de doença e enfermidade. 2 Estes são os nomes dos doze apóstolos: primeiro, Simão chamado Pedro, e André, seu irmão; Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João; 3 Filipe e Bartolo­meu; Tomé e Mateus, o cobrador de impostos; Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu; 4 Simão, o Zelota, e Judas Iscariotes, que foi o traidor de Jesus. 5 Jesus enviou estes Doze, com as seguintes recomendações: “Não deveis ir aonde moram os pagãos, nem entrar nas cidades dos samaritanos! 6 Ide, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel! 7 Em vosso caminho, anunciai: ‘O Reino dos Céus está próximo’”.
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Terminada a serie de milagres narrados depois do Sermão da Montanha, entramos agora no segundo dos cinco grandes discursos de Jesus no evangelho de Mateus. Este segundo discurso é conhecido como o Discurso missionário que abrange Mt 9,36-11,1 (Os cinco grandes discursos: Mt 5,1-7,28: Sermão da Montanha; Mt 9,36-11,1: Discurso missionário; Mt 13,1-52: Discurso sobre o Reino em parábolas; Mt 18,1-35: Discurso sobre a vida comunitária/Igreja; Mt 23/24,1-25,46: Discurso sobre o Julgamento final/ a Vinda do Filho do Homem).


Notemos que a missão em Mt não se limita apenas aos doze, mas para todos aqueles que queriam seguir a Jesus. Por isso, neste discurso sobre a missão não se fala nem da partida dos doze (cf. Mc 6,12-13; Lc 9,6) nem do seu regresso (cf. Mc 6,30; Lc 9,10). O discurso sobre a missão não é endereçado para a multidão e sim para os discípulos que serão enviados. Podemos dizer que este discurso serve como um tipo de “manual” para os seguidores de Jesus na tarefa de exercer a missão como cristãos.
    

Os Doze são enviados com algumas instruções básicas. A primeira instrução de Jesus é “Não tomeis o caminho dos gentios, nem entreis em cidade de samaritanos” (v.5). Podemos ter duas interpretações deste versículo. Primeiro, ele reflete uma tensão viva na comunidade de Mt onde certos grupos de origem judia não compreendiam nem aceitavam a missão aos pagãos. Segundo, na cultura de Jesus, a palavra “estrada/caminho” significa caminho ou modo de viver. Jesus pode ter querido dizer que não sigam o modo de viver dos pagãos que são idólatras.
    

A segunda instrução, “Ide, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel” (v.6). Em Mt encontramos duas etapas da missão. Na primeira etapa (Mt 10), a missão de Jesus e de seus discípulos é limitada para as “ovelhas perdidas de Israel”. Aqui não se fala da seleção entre os melhores, mas trata-se de gente necessitada. Foi para as pessoas necessitadas de Israel que foram enviados os Doze. Na segunda etapa (Mt 28,19), o mandato missionário será para espalhar a Boa Nova a todos os povos.
     

Estas duas etapas da missão nos trazem uma lição muito importante para nossa comunidade: somos chamados a cuidar tanto dos de dentro da comunidade (missão ad intra), como dos de fora (missão ad extra). A Igreja ou comunidade sem caridade interna, não tem força para dar testemunho crível para os de fora da comunidade. O testemunho interno de comunhão é o primeiro passo para um anúncio mais eloqüente. Mas o cuidado com os de dentro não pode ser uma desculpa para ignorar os de fora. Ou, o cuidado com os de fora não justifica a falta de tempo ou atenção para com os de dentro. Temos, muitas vezes, mais facilidade de sorrir para os de fora do que para os de dentro. “É mais fácil simular virtudes que possuí-las. Por isso, o mundo está cheio de farsantes” (Santo Agostinho).


Pela profissão de cada escolhido no Evangelho de hoje percebemos que Jesus não buscou primeiro reunir pessoas ilustres, e sim pessoas disponíveis, capazes de segui-Lo até o fim. São aqueles que darão sua vida por Ele (pelo Reino de Deus e sua justiça). Ouvimos muitas vezes a seguinte frase: Deus não escolhe os capacitados, mas Ele capacita os escolhidos. A vocação divina é sempre um mistério no sentido de que não temos capacidade para entender tudo, pois está fora de nosso alcance humano.


Jesus é um grande organizador de comunidades de homens e mulheres.  Havia muitas pessoas inquietas, mas necessitavam de um fator de coesão, de um líder que os vinculava e os ajudava a crescerem como pessoas. Esta faceta de organizador e de promotor de organizações comunitárias está condensada nos relatos de eleição dos doze missionários ou apóstolos para continuar a missão. E aqui está condensado um dos seus ensinamentos fundamentais: a comunidade cristã (pastorais, movimentos, grupos eclesiais etc.) existe para evangelizar. Não há outro motivo maior do que este. A comunidade cristã existe porque há um “povo cansado e abatido” diante do qual cada membro da comunidade cristã é chamado a ser solidário capaz de aliviar a dor alheia e de dar resposta a partir de sua própria insignificância e debilidade. Cada um de nós, apesar das fraquezas, tem algo de bom para ser partilhado para os outros. Se cada um tirar um pouco de bom de dentro de seu coração o cristianismo vai fazer diferença na Igreja e na sociedade.


Segundo o texto do evangelho deste dia, o papel essencial dos escolhidos é expulsar os “espíritos imundos” e “curar os homens” de seus males. Em outras palavras são enviados para fazer o bem e destruir o mal. São chamados para ser parceiros do bem e enviados em busca de outros parceiros do bem.


Judas Iscariotes faz parte de seu grupo. É aquele que vai trair o próprio Mestre em nome de dinheiro (cf. Mt 26,14.47; Mc 3,19;14,10; Lc 22,47; Jo 13,21-30;18,2). Ele também foi enviado para a missão, uma grande missão. Jesus tomou esse risco ao confiar a responsabilidade de sua obra para pobres humanos. Por isso, há que rezar sempre por aqueles que têm responsabilidade na Igreja. Cada um de nós também tem uma missão, cada um é responsável, em uma parte da obra de salvação de Jesus.
  

Jesus é muito consciente da amplitude de sua obra. É necessário ter muito tempo. Sem pressa Jesus limita a missão no momento só dentro do território de Israel. Ele mesmo, durante sua vida terrena, se limitou ao que podia fazer: dirigir-se às ovelhas agarradas da casa de Israel. Mais tarde ele enviará os discípulos pelo mundo inteiro (Mt 28,18-20). Em outras palavras, é preciso arrumar primeiro a casa. É preciso evangelizar os que estão dentro de casa para depois evangelizar os que estão fora dela que nem sempre é fácil. É o desafio de cada missionário-evangelizador.
  

Ao enviá-los Jesus dá-lhes o poder. Mas este poder deve ser entendido como um dom de autoridade. A palavra autoridade provém do latim augere que significa crescer. Somente tem autoridade aquele que é capaz de fazer o outro crescer. A autoridade dada por Jesus tem as seguintes características: (1). Está orientado por inteiro ao ministério apostólico, ou para o serviço (do bem) e não para dominar ou mandar e desmandar: expulsar o mal, fazer o bem, pregar o Reino. É um dom completamente missionário. Por isso, não se trata de nenhum poder de direção ou de governo. (2). É uma autoridade conferida, mas não abandonada por Jesus a seus discípulos. (3). Jesus reconhece que haverá oposição por causa do jogo de interesses mesquinhos.
 

Nem todos são sucessores dos apóstolos, mas todos são seguidores de Jesus e por isso, devem continuar, cada um em seu ambiente, a missão que cada um recebeu no batismo. Todos nós formamos a Igreja “apostólica” e “missionária”. Por isso, não vamos à missa para ir à missa. Que a missa é, de uma parte, a expressão de nossa fé, de nossa esperança e de nossa caridade. Mas de outra parte, a missa é sempre um imperativo, uma exigência para fazer operativa nossa fé, nossa esperança e nossa caridade. Por isso, quando finaliza a missa, começa a realidade na vida; quando termina a celebração eucarística ou qualquer reunião eclesial, deve começar nosso compromisso cristão; quando termina a missa, deve começar a missão. Se não a missa careceria de sentido.
  

Somos chamados por Jesus Cristo para estar com ele a fim de aprendermos a ser parceiros do bem. Somos enviados depois do encontro com ele para fazer o bem e em busca dos novos parceiros do bem. A alma da missão é caridade. A única coisa que nos faz bem é fazer o bem. A vida não é uma luta para superar os outros, mas uma missão a ser exercida para dar o melhor de nós para a humanidade conforme os talentos recebidos de Deus. Estamos aqui neste mundo com um objetivo único, com um objetivo nobre que nos permitirá manifestar nosso mais alto potencial enquanto, ao mesmo tempo, acrescentamos valor às vidas das pessoas que estão a nossa volta. Descobrir a própria missão significa trazer mais de você mesmo para o trabalho, para a convivência e concentrar-se nas coisas que você sabe fazer melhor e dar sempre o melhor de você para os outros sem esperar nada em troca. 


O que você tem feito e pode ainda fazer pelo Senhor e pela sua Igreja? “Faze o que podes. Deus não te pede mais” (Santo Agostinho. Serm. 128,10,12). Deus não condena quem não pode fazer o que quer, e sim quem não quer fazer o que pode” (Santo Agostinho. Serm. 54,2).

P. Vitus Gustama, SVD

domingo, 5 de julho de 2015

07/07/2015
PALAVRA DE DEUS MEDITADA E VIVIDA NOS TORNA LÚCIDOS E COMPASSIVOS

Terça-Feira da XIV Semana Comum
 

Evangelho: Mt 9,32-38

Naquele tempo, 32 apresentaram a Jesus um homem mudo, que estava possuído pelo demônio. 33 Quando o demônio foi expulso, o mudo começou a falar. As multidões ficaram admiradas e diziam: “Nunca se viu coisa igual em Israel”. 34 Os fariseus, porém, diziam: “É pelo chefe dos demônios que ele expulsa os demônios”. 35 Jesus percorria todas as cidades e povoados, ensinando em suas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino, e curando todo o tipo de doença e enfermidade. 36 Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor. Então disse a seus discípulos: 37 “A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. 38 Pedi pois ao dono da messe que envie trabalhadores para a sua colheita!”
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Palavra Na Nossa Vida Cotidiana


A primeira parte do evangelho de hoje fala da cura de um mudo que logo em seguida ele começou a falar.


Deus criou o homem dotado de fala. A palavra é um dos grandes meios de comunicar-se com os irmãos (através da própria palavra pronunciada ou através de algum gesto para transmitir alguma mensagem). A palavra é que nos vincula aos outros. A palavra pontua nossa vida cotidiana. A palavra é também algo que nos liga a nós mesmos. Quantas vezes, ao acordar de manhã ou em determinadas situações na nossa vida cotidiana, nós falamos a nós mesmos. A palavra nos acompanha quase o tempo todo, até mesmo, paradoxalmente, o silêncio, que se tornou tão raro no mundo moderno, tem significado por causa dela. O silêncio dá conteúdo para nossas palavras. Sem o silêncio, nossas palavras se tornarão ocas. Há profissões que usam menos palavra. Mas há também profissões que trabalham com palavra e dependem da palavra para transmitir sua mensagem ou seu ponto de vista sobre algo na vida ou na sociedade. A palavra está no âmago de nossa vida pessoal, familiar, social e profissional. Já imaginou se você pudesse contar quantas palavras ditas diariamente por você? Creio que você mesmo ficaria assustado ou admirado por tantas palavras ditas em vão, ao mesmo tempo por tantas palavras que saíram de sua boca que ajudaram tantas pessoas por terem sido boas! Milhares e milhares de pessoas mudaram de qualidade de vida por causa da palavra ouvida de outras pessoas ou lida em um bom livro. Cada palavra representa uma realidade ou um mundo contido nela. Você já pensou quantos mundos contidos numa frase que pronunciamos ou escrevemos? Mas será que cada frase pronunciada ou escrita representa mesmo a realidade ou inventamos frases e frases para enganar os outros? Será que em cada frase contém a verdade? Será que levamos em conta a caridade e a fraternidade ao soltar/pronunciar ou ao escrever alguma frase?


Deus quer que o homem se comunique. Se alguém não se comunicar, se está sempre quieto ou mudo, é sinal de que alguma coisa está errada nele fisicamente, ou psiquicamente ou espiritualmente. A fala é dom de Deus, tanto que São João, no Prólogo de seu evangelho dá um titulo muito significativo a Jesus: Palavra ou Verbo (Jo 1,1-14). Jesus é a Palavra de Deus para nós; é a comunicação de Deus para nós. Através de Jesus é que Deus fala conosco: “O Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14).  O próprio Pedro, no seu discurso no livro dos Atos dos Apóstolos, nos disse: “Deus enviou a sua palavra aos filhos de Israel, anunciando-lhes a boa nova da paz, por meio de Jesus Cristo. Este é o Senhor de todos” (At 10,36). Como é que opera a Palavra de Deus na vida do homem? O autor da Carta aos Hebreus responde: “A palavra de Deus é viva, eficaz, mais penetrante do que uma espada de dois gumes e atinge até a divisão da alma e do corpo, das juntas e medulas, e discerne os pensamentos e intenções do coração. Nenhuma criatura lhe é invisível. Tudo é nu e descoberto aos olhos daquele a quem havemos de prestar contas” (Hb 4,12-13).  Mas nem a boca santa de Jesus que emite a Palavra de Deus terá qualquer efeito na nossa vida, se nós estivermos surdos a ela.


É bom notar que seremos também julgados pelas palavras que dizemos ou pronunciamos sobre os outros, além dos atos que praticamos. O livro de Provérbio nos alerta: “Nas muitas palavras não falta ofensas; quem retém os lábios é prudente” (Pr 10,19). “A boca dos justos é fonte de vida, mas a boca dos ímpios encobre violência” (Pr 10,11). Da mesma forma são Tiago nos diz: “Aquele que não peca no falar é realmente um homem perfeito, capaz de frear todo o seu corpo” (Tg 3,2b). Que nossas palavras não ultrapassem nossos atos para não sermos chamados de mentirosos ou falsos. Por isso, São Tiago nos alerta: “Tornai-vos praticantes da Palavra(de Deus) e não simples ouvintes, enganando-vos a vós mesmos” (Tg 1,22).


A cura do mudo no texto do evangelho de hoje se refere àquele que não quer escutar a voz de Deus, que não quer seguir Seu projeto porque há outras coisas que o ensurdecem. Biblicamente o surdo-mudo (o termo grego “kôphos” significa surdo, mudo e surdo-mudo) é aquele que perde o contato com sua própria realidade de filho de Deus. Aqui se enfatiza a mudez, isto é, o homem incapaz de comunicação. Ele vive paralisado porque está privado da comunicação com o único que o faz livre: Deus (através de Sua Palavra). Sua enfermidade não é física, mas causada por demônio. Aqui “estar endemoninhado” significa fechar-se à comunicação. O mudo, aqui, simboliza Israel que se fecha a si mesmo. A mudez se deve à mentalidade exclusivista, consequência do nacionalismo que a concepção do Messias nacionalista implica. Israel tem que abrir-se para a humanidade. Por isso, a cura do surdo-mudo (cf. Mt 11,5), assim como a cura dos cegos, alude a Is 35,5 onde se anuncia o êxodo definitivo, a volta dos resgatados pelo Senhor (Is 35,10).


Jesus veio ao mundo unicamente para fazer o bem, como pregou o Apóstolo Pedro: “Vós sabeis como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com o poder, como ele andou fazendo o bem e curando todos os oprimidos do demônio, porque Deus estava com ele” (At 10,38). Mas sabemos muito bem que até para fazer o bem encontramos dificuldades e críticas como aconteceu com Jesus no texto do evangelho de hoje. Jesus libertou um surdo de sua mudez e começou a falar. Jesus foi criticado por causa disso: “Os fariseus, porém, diziam: É pelo príncipe dos demônios que ele expulsa os demônios” (Mt 9,34). A reação dos fariseus é amarga. Eles são incapazes de sair de seus esquemas mentais. Como tradicionalistas e legalistas, eles não conseguem ver em Jesus a revelação da bondade e misericórdia de Deus. Para eles, Jesus não pode vir de Deus porque sua forma de atuar choca com as tradições “sãs” e com o conhecimento de Deus que é, para eles, o único verdadeiro. Mas “a acusação teológica (dos fariseus) não é mais que um pretexto que apenas dissimula sua sede de autoridade (poder) sobre o povo”, comentou P. Bonnard. Atrás de uma acusação ou crítica há interesse escondido. Mas a questão é esta: que tipo de interesse?


Os homens se dividem diante do anúncio do Reino. Os que, por meio da fé, o acolhem e se salvam. Os que o recusam, se excluem. Mas Deus continua esperando a volta de qualquer um dos seres humanos com misericórdia, como o pai que espera a volta do filho pródigo (cf. Lc 15,11-32). A leitura nos quer transmitir uma verdade de que todo crente ou leitor se encontra sempre diante da necessidade de decidir-se. A vida humana consiste num mecanismo de escolha, de preferência e de postergação. Toda escolha é exclusão. Toda determinação é negação. Vivemos  desta maneira todos os dias. Toda escolha tem suas consequências positivas como também suas consequências negativas. Temos que saber se as consequências positivas são maiores do que as consequências negativas. Sabemos que há situações sem escolha. Mas trata-se de uma coisa rara. A partir de Mt 10 em diante se falará muito desta escolha.


Ser Compassivo Como Cristo


A segunda parte do texto do evangelho de hoje (Mt 9,35-38), na verdade, é uma introdução para o discurso de Jesus sobre a missão  (Mt 9,35-10,16).


Esta segunda parte fala da compaixão de Jesus pela multidão: “Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas...”. Jesus sempre se compadece pelos que sofrem como o mudo no evangelho de hoje. A compaixão é uma das características de Deus.


Uma verdadeira compaixão não olha o necessitado de cima para baixo (sentimento de superioridade), mas é capaz de padecer-com, sentir-com para daí atuar. Cada compaixão sempre tem a ver com o deixar aproximar-se, prestar atenção, sentar-se à mesma mesa, chamar pelo nome, perceber a necessidade, oferecer a ajuda. A compaixão é comover-se até as entranhas, solidarizar-se profundamente, sentir-se a partir de outrem; é sofrer com (Latim: pati + cum, compaixão = sofrer com). A compaixão requer que estejamos com as pessoas que sofrem e dispostos a partilhar nosso tempo com elas. É estar no lugar do outro para sentirmos o que ele sente e ajudar no que puder dentro do limite da capacidade. Por isso, pode-se dizer que a verdadeira compaixão é muito humana e divina simultaneamente. Quando compartilhamos nosso coração e tempo com uma pessoa que sofre, uma parte do sofrimento dela será aliviada. Vamos deixar o resto com Deus desde que façamos nossa parte até o limite de nossa capacidade. Somos seguidores do Deus da Compaixão que se tornou carne em Jesus Cristo. A compaixão deve se tornar carne também em nós.

P. Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 3 de julho de 2015

06/07/2015
 
CONTATO PERMANENTE COM JESUS FAZ QUALQUER UM VIVER UMA VIDA DIGNA

Segunda-Feira da XIV Semana Comum


Evangelho: Mt 9, 18-26

18 Enquanto Jesus estava falando, um chefe aproximou-se, inclinou-se profundamente diante dele, e disse: “Minha filha acaba de morrer. Mas vem, impõe tua mão sobre ela e ela viverá”. 19 Jesus levantou-se e o seguiu, junto com os seus discípulos. 20 Nisto, uma mulher que sofria de hemorragia há doze anos veio por trás dele e tocou a barra do seu manto. 21 Ela pensava consigo: “Se eu conseguir ao menos tocar no manto dele, ficarei curada”. 22 Jesus voltou-se e, ao vê-la, disse: “Coragem, filha! A tua fé te salvou”. E a mulher ficou curada a partir daquele instante. 23 Chegando à casa do chefe, Jesus viu os tocadores de flauta e a multidão alvoroçada, 24 e disse: “Retirai-vos, porque a menina não morreu, mas está dormindo”. E começaram a caçoar dele. 25Quando a multidão foi afastada, Jesus entrou, tomou a menina pela mão, e ela se levantou. 26Essa notícia espalhou-se por toda aquela região.
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1. Um Chefe Que Suplica a Jesus Pela Filha Morta: Jesus É a Ressurreição e a Vida Para Quem Crê Nele


Os dois episódios no evangelho de hoje (uma menina morta que voltou a viver e uma mulher curada de sua hemorragia) se encontram também em Marcos (Mc 5,21-43) e em Lucas (Lc 8,40-56).


Em Mateus, no primeiro episódio, aquele que se aproxima de Jesus que suplica pela filha morta não tem nome. Simplesmente ele é “um chefe”. Não se diz que é um chefe da sinagoga como em Marcos e Lucas nos quais se fala de Jairo. Este chefe que manifesta sua fé em Jesus nos leva ao episódio do centurião que pediu a cura para seu empregado (Mt 8,5-13). Mas o caso do chefe é grave, pois trata-se da filha morta.


Neste primeiro episódio do evangelho deste dia Jesus se encontra, então, diante da morte de uma menina e o pai desta pede a Jesus para impor sua mão sobre ela a fim de ela voltar a viver: “Minha filha acaba de morrer. Mas vem, impõe tua mão sobre ela e ela viverá”. Trata-se de um pobre chefe esmagado pela dor: a morte de sua filha. Há situações diante das quais a força humana (chefe) fica impotente, como diante da morte. Nessas situações só a fé é que pode nos ajudar, como fez o pai da menina falecida.


É algo surpreendente a confiança posta por esse homem em Jesus. É uma verdadeira fé no impossível: fé no poder de Jesus de fazer sua filha morta voltar a viver. Lá onde a força humana terminar, a fé a continuará. Jesus não se resiste a este tipo de oração. “Jesus se levantou e o seguiu junto com seus discípulos”, assim relatou Mateus.


Quando chegou à casa da menina morta, Jesus disse à multidão: “Retirai-vos porque a menina não morreu e sim está dormindo”.  Jesus quer dizer que para ele e para o poder de Deus a morte não significa mais que um sono ligeiro. Morrer é descansar em paz nos braços do Pai celeste. Tanto que muitos colocam as três letras no túmulo dos seus entes queridos: RIP (Requiescat In Pace ou Rest In Peace = Descanse em paz). Para os primeiros cristãos, morrer significa descansar em Deus. Da mesma maneira Jesus também falou de Lázaro morto: “Nosso amigo Lázaro está dormindo e vou despertá-lo” (Jo 11,11). A morte para Deus não é um poder insuperável. As coisas têm um aspecto muito distinto diante do olhar de Deus e diante da experiência do homem. Mas se aprendermos a olhar tudo a partir de Deus, então a morte perderá seu caráter arrepiante. Para Jesus, a morte não tem o caráter temível e definitivo. Para ele, a morte é uma espécie de “sono” do qual Deus tem o poder de despertar. Se para Jesus a morte não tem nenhum caráter temível, pois é apenas uma passagem para uma vida eterna, deve ser também para quem quiser segui-lo. O cristão é chamado a proteger a vida no seu inicio, na sua duração e no seu término na história, pois Deus é a Vida por excelência e por isso, chama todos à vida, especialmente para aqueles que vivem no desespero e na falta de esperança. A menina morta voltou a viver por causa do poder de Jesus e a fé do pai dela no poder de Jesus.


Quem é este “chefe”? Ele não tem nome nem determinada função (se é chefe de sinagoga ou se é chefe dos judeus ou se é chefe do sinédrio). Ele é simplesmente um chefe.  Pode ser qualquer um de nós, pois, de alguma forma, cada um é chefe: seja dentro da família, seja fora dela (na sociedade). Uma pessoa pode ser muito importante (“chefe”) entre os homens ou muito poderosa do ponto de vista humano, mas ela precisa também de salvação. O poder mundano não salva, pois diante da morte tudo que é humano cai no chão. O brilho falso tem seu fim. Somente Deus salva e nos garante a vida eterna. Do ponto de vista humano, paradoxalmente, o aparente superpotente ou super-poderoso é, na verdade, impotente. Mas “quando me sinto fraco, então é que sou forte”, escreveu São Paulo à comunidade de Corinto (2Cor 12,10).


Um ser humano precisa de outro ser humano para possibilitar seu crescimento como ser humano. Podemos possuir tudo que o mundo tem a oferecer em termos de status, realizações e bens, no entanto, sem nos sentirmos integrados, tudo isso parece vazio e inútil. A integração (viver em comunidade como irmãos/família) sugere calor, compreensão e abraço. Quando ficamos isolados, estamos propensos a ser prejudicados. Sentir-se integrada mantém a pessoa em equilíbrio. Sempre que há distância, há também anseio e pode haver uma solidão, pois o ser humano existe para coexistir com os demais seres humanos.


E o ser humano, enquanto criatura, precisa do Salvador que dá sentido para tudo na sua vida. Por isso, Santo Agostinho dizia: “Ninguém está tão só do que aquele que vive sem Deus. E, o homem, para onde se dirija, sem se apoiar em Deus só encontrará a dor”. Nas suas Confissões, Santo Agostinho rezou: “Fizeste-nos para Ti, Senhor, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em Ti. Dá-me, Senhor, saber e compreender qual seja o primeiro: invocar-Te ou louvar-Te; conhecer-Te ou invocar-Te. Mas quem Te invocará sem Te conhecer? (...) Que eu Te busque, Senhor, invocando-Te; e que eu Te invoque, crendo em Ti: Tu nos foste anunciado” (Conf. 1,1). “Deus, de Quem separar-se é morrer, a Quem retornar é ressuscitar, com Quem habitar é viver” (Solil. 1,1,3)


2. Mulher Curada da hemorragia


Dentro do primeiro episódio Mateus insere outro episódio: uma mulher que sofria de hemorragia há doze anos. Em primeiro lugar, essa mulher não tem nome, nem se menciona sua família nem sua tradição. Menciona-se, além disso, seus doze anos de sofrimento! O número “doze” aplicado aos anos de sua enfermidade é clara alusão a Israel. A mulher enferma representa, então, o povo que para que seja salvo (cura) é preciso renunciar à Lei para entrar em contato direto com Jesus. Jesus seria “impuro”, isto é, não tem acesso a Deus (salvação) por seu contato com os “pecadores” (Mt 9,10-13). Mas Jesus é Emanuel, Deus-Conosco (Mt 1,23; 18,20; 28,20) que vem para salvar. Para encontrar a salvação nele é preciso se aderir a ele e fazer contato permanente com ele.


Segundo o texto do evangelho de hoje essa mulher não pede nada e não diz nada a Jesus. Mas ela mostra sua fé total em Jesus. A fé dessa mulher é comparável à do chefe do primeiro episódio; sua certeza de cura é total. Ela somente pensa e silenciosamente se aproxima de Jesus para tocar a barra do seu manto: “Se eu conseguir ao menos tocar no manto dele, ficarei curada”, pensou essa mulher. Jesus tinha curado o leproso com seu contato (Mt 8,15).


A mulher que sofre de hemorragia se aproxima e toca a orla do manto de Jesus. Este gesto era proibido na cultura judaica. Uma mulher não podia olhar para um homem em publico, muito menos tocá-lo. A situação fica pior ainda porque a mulher está com a hemorragia que pode causar a impureza legal para a pessoa tocada. Por ser mulher e pela sua enfermidade essa mulher estava duplamente excluída. Mas ela não quer saber das proibições. Ela quer viver e procurar todos meios para voltar a ser uma mulher saudável. Acima de tudo, ela quer encontrar-se com Jesus e tocar seu manto. Ela não quer ser escrava das regras e dos costumes desumanos. Pois de fato, as regras culturais e as de culto a afastam da convivência e da salvação.


Quantas pessoas são escravas das regras. A graça produz as regras, mas as regras não produzem a salvação, pois elas são apenas meios e não o fim. Os costumes que não salvam e não ajudam as pessoas a crescerem no bem e no amor fraterno, não podem ser mantidos.


Jesus reconhece nessa mulher a fé que transforma sua situação triste em alegria por encontrar o Salvador, Jesus: “Coragem, filha! A tua fé te salvou”. Jesus chama a mulher de “ filha”. É uma expressão de muita ternura. O termo “filha” coloca essa mulher em relação com “a filha” do chefe. Ambas são figuras de Israel. A partir de então, a mulher voltou a viver sua vida saudavelmente.


Os dois (chefe cuja filha estava morta e a mulher que sofria de hemorragia há doze anos) se aproximam de Jesus com muita fé e obtêm o que pedem. “Fé é crer no que não vemos. O prêmio da fé é ver o que cremos” (Santo Agostinho: Serm. 43,1,1). “Prepara teu pote para ir à fonte da graça. Que significa preparar? Aumentar a fé, fortalecer a fé, robustecer a fé” (Santo Agostinho: Serm. Frangipane 2,6). Eles confiam, se apóiam e se abandonam totalmente em Jesus.  E receberam uma resposta adequada da parte de Jesus: a volta da filha para a vida e a cura da mulher sofrida de hemorragia de longos anos. Por causa da fé eu preparo o espaço necessário para que Deus possa atuar. A fé é sempre e continua sendo a condição e o fundamento da ação salvadora de Deus no homem. A novidade do Reino trazido por Jesus não é somente a cura, mas principalmente a ressurreição ou a salvação.


A dor daquele pai e o sofrimento daquela mulher podem ser um bom símbolo de todos os nossos males, pessoais e comunitários.  Também agora, como em sua vida terrena, Jesus nos quer atender e nos encher de sua força e de sua esperança. É preciso manter nosso contato diário com Jesus para que sejamos vivos e salvos. Na Eucaristia ele mesmo se dá como alimento, para que, quando nos aproximamos dele e o recebemos com fé, possa curar também nossos males. Mas a cura-salvação não é um toque mágico e sim um encontro de pessoas com Jesus. É o encontro com Jesus na fé que cura e salva, e somente depois do encontro é que Jesus diz as seguintes palavras: “A tua fé te salvou!”. O verdadeiro encontro com Jesus muda totalmente a vida de quem se aproxima de Jesus. Mesmo que alguém se encontre numa situação muito difícil (morte e doença incurável no evangelho de hoje), mas ao se aproximar de Jesus e ao manter contato com Jesus tudo mudará para uma situação melhor.


Para Refletir:


1.   A fé nasce no encontro com o Deus vivo, que nos chama e revela o seu amor: um amor que nos precede e sobre o qual podemos apoiar-nos para construir solidamente a vida. Transformados por este amor, recebemos olhos novos e experimentamos que há nele uma grande promessa de plenitude e nos é aberta a visão do futuro. A fé, que recebemos de Deus como dom sobrenatural, aparece-nos como luz para a estrada orientando os nossos passos no tempo (Papa Francisco: Lumen Fidei, Carta Encíclica).

 
2.   A fé está ligada à escuta. Abraão não vê Deus, mas ouve a sua voz. Deste modo, a fé assume um caráter pessoal: o Senhor não é o Deus de um lugar, nem mesmo o Deus vinculado a um tempo sagrado específico, mas o Deus de uma pessoa, concretamente o Deus de Abraão, Isaac e Jacob, capaz de entrar em contato com o homem e estabelecer com ele uma aliança. A fé é a resposta a uma Palavra que interpela pessoalmente, a um Tu que nos chama por nome... A fé “vê” na medida em que caminha, em que entra no espaço aberto pela Palavra de Deus (idem).


3.   O contrário da fé é a idolatria. O ídolo é um pretexto para se colocar a si mesmo no centro da realidade, na adoração da obra das próprias mãos. A idolatria é sempre politeísmo, movimento sem meta de um senhor para outro. A idolatria não oferece um caminho, mas uma multiplicidade de veredas que não conduzem a uma meta certa, antes se configuram como um labirinto. A fé, enquanto ligada à conversão, é o contrário da idolatria: é separação dos ídolos para voltar ao Deus vivo, através de um encontro pessoal (idem).


4.   Acreditar significa confiar-se a um amor misericordioso que sempre acolhe e perdoa, que sustenta e guia a existência, que se mostra poderoso na sua capacidade de endireitar os desvios da nossa história. A fé consiste na disponibilidade a deixar-se incessantemente transformar pela chamada de Deus. Paradoxalmente, neste voltar-se continuamente para o Senhor, o homem encontra uma estrada segura que o liberta do movimento dispersivo a que o sujeitam os ídolos.

P. Vitus Gustama,svd
Domingo, 05/07/2015
DEUS ESTÁ NA SIMPLICIDADE E NA COTIDIANIDADE

XIV DOMINGO DO TEMPO COMUM


Evangelho: Mc 6,1-6

Naquele tempo, 1Jesus foi a Nazaré, sua terra, e seus discípulos o acompanharam. 2Quando chegou o sábado, começou a ensinar na sinagoga. Muitos que o escutavam ficavam admirados e diziam: “De onde recebeu ele tudo isto? Como conseguiu tanta sabedoria? E esses grandes milagres realizados por suas mãos? 3Este homem não é o carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, de Joset, de Judas e de Simão? Suas irmãs não moram aqui conosco?” E ficaram escandalizados por causa dele. 4Jesus lhes dizia: “Um profeta só não é estimado em sua pátria, entre seus parentes e familiares”. 5E ali não pôde fazer milagre algum. Apenas curou alguns doentes, impondo-lhes as mãos. 6E admirou-se com a falta de fé deles. Jesus percorria os povoados da redondeza, ensinando.
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Mc 6,1-6 é um texto de transição entre a seção dos milagres (Mc 4,35-5,43) e a incompreensão e ceticismo dos discípulos da seção seguinte (Mc 6,7-8,26). O ensinamento em parábolas e a atuação prodigiosa em torno do lago da Galileia culmina com o retorno de Jesus à sua pátria.
   

O episódio tem um significado profundo para o evangelista Mc. O evangelista  coloca este episódio cuidadosamente neste ponto do seu evangelho. Uma situação pungente no início da Igreja era, de fato, que os pagãos aceitavam a Boa Nova, enquanto os judeus a recusavam (cf. Rm 9-11). Logo no início deste evangelho Jesus enfrentou a dura oposição das autoridades (Mc 2,1-3,6). Além disso, Jesus foi mal-entendido pela própria família (Mc 3,20-35). Agora, perto do ministério da Galileia, seus próprios conterrâneos são desafiados para mudar sua mentalidade diante da reivindicação de Jesus. Mas eles o recusaram. A recusa de Jesus é uma antecipação de sua rejeição pela nação judaica (Mc 15,11-15). Essa rejeição é o fruto da cegueira do homem diante da revelação divina que já tem sido presente desde o início: “...o mundo foi feito por meio dele, mas o mundo não o conheceu. Veio para o que era seu e os seus não o receberam” (cf. Jo 1,10-11).
    

O episódio do Evangelho de hoje é narrado com matizes diversos pelos três Evangelhos (Mt 13,53-58;Lc 4,16-30). Em Marcos, o texto sobre o qual meditamos neste domingo, a narração é curta e concisa. Resume-se praticamente aos pontos essenciais do relato
    

O episódio acontece numa sinagoga na pátria de Jesus (não se menciona Nazaré). Em Mc Jesus aparece três vezes na sinagoga com suas próprias consequências de cada aparecimento. Primeiro, Mc 1,21-28 relatou o aparecimento de Jesus  na sinagoga e houve um grande sucesso. Neste episódio os ouvintes se maravilhavam, pois ele ensinava como quem tem autoridade. Além disso, ele libertou um possesso na sinagoga. Segundo, em Mc 3,1-6 houve uma grande tensão entre Jesus e os fariseus junto com os partidários de Herodes a ponto de eles quererem matar Jesus, só porque ele curou uma pessoa de mão seca no Sábado. Terceira, Mc 6,1-6 relatou a última vez que Jesus foi à sinagoga onde os seus conterrâneos tentaram desmoralizar totalmente as palavras e ações de Jesus.
      

Por que Jesus não entraria mais na sinagoga? Porque as sinagogas eram redutos dos doutores da Lei e dos fariseus. Embora todo judeu tivesse direito na sinagoga de tomar a palavra para instruir a assembleia, essa palavra acabava sendo monopólio dos doutores da Lei (Mc 12,39), que impunham suas ideias na cabeça do povo. Toda a reação negativa do povo perante Jesus era fruto da doutrinação dos doutores da Lei e fariseus. Por trás das perguntas feitas pelo povo a Jesus na última vez que Jesus estava na sinagoga estavam os doutores da Lei e fariseus.
    

Nos vv. 2-3 relata a ofensa contra Jesus. Como ele tinha feito em Cafarnaum (Mc 1,21-28;3,1), agora para sua pátria Jesus traz seu ensinamento novo e cheio de autoridade divina sobre a vinda do reino de Deus (Mc 1,14-15)  no serviço de Sábado na sinagoga. Como o povo na sinagoga em Cafarnaum ficava maravilhado com o ensinamento de Jesus (Mc 1,22), assim também o povo na sua pátria reage da mesma maneira diante do mesmo. Mas na sua admiração, eles levantam vários questionamentos retóricos em forma de uma ironia dramática. Da admiração pelo ensinamento de Jesus brota a pergunta sobre sua identidade. Os ouvintes ficam admirados por sua origem, seu ensinamento e sua sabedoria. Marcos não menciona o teor da mensagem de Jesus na sinagoga. Apenas as consequências. Os compatriotas se maravilham de sua sabedoria. Eles tinham ouvido sobre suas grandes obras, mas eles mesmos não conseguem chegar a acreditar na grandeza e na missão de Jesus que é um deles. Para seus compatriotas Jesus é simplesmente “esse homem”. Mas esse desprezo ignorante é contraditório o que os leitores sabem a respeito de Jesus como “Filho de Deus”(Mc 1,1.11.24;3,11) e que a sabedoria que ele ensina e os milagres que ele fez têm sua origem em Deus.
      

Quais são as razões pelas quais Jesus foi rejeitado pelos próprios compatriotas?
     

Primeiro, porque Jesus não frequentou nenhuma escola formadora de doutores da Lei. Por isso, eles perguntam: “De onde lhe vem tudo isso? E que sabedoria é esta que lhe foi dado?”(v.2bc). Eles tentam desmoralizar Jesus por não ter “título acadêmico”, como os doutores da Lei e os outros.
      

A formação acadêmica é importante. Mas o mais importante é como traduzir, na vida cotidiana, essa experiência acadêmica em atos concretos: como bondade, solidariedade, compreensão, compaixão. Como eu posso fazer do meu conhecimento acadêmico em amor ao próximo? É a pergunta que devemos fazer sempre. Não precisamos ser “superiores” desprezando o “inferior”. Uma lata vazia normalmente faz muito mais barulho do que outra que tem conteúdo. A grandeza do homem consiste em fazer os outros grandes, em levantar os caídos, em viver com sabedoria na convivência com os outros, e não em demonstrar o que não deveria ser demonstrado, ou em mostrar o que não é. Como diz René Juan Trossero, um escritor e psicólogo argentino: “Se te dizes filósofo, não me fales de filosofia: mostra-me teu amor à verdade. Se te dizes teólogo, não me fales de teologia: mostra-me o que significa Deus em tua vida. Se te dizes pensador, não me fales do que pensam os pensadores: mostra-me o que pensas tu. Se te dizes bom, não me fales da bondade: mostra-me como amas. Se te dizes crente, não me fales de teu credo ou de tua religião: mostra-me teu modo de viver. Convenhamos em não nos enganarmos fugindo, com o ruído de palavras ocas, da vertigem que nos causam os vazios de nossa vida”.
       

Segundo, eles questionam os milagres operados por Jesus: “E como se fazem tais milagres por suas mãos?” (v.2b). Esta pergunta tem objetivo de desmoralizar Jesus. Quem está por trás desta pergunta são os doutores da Lei. Para entender esta pergunta temos de voltar para Mc 3,22 onde os doutores da Lei diziam que Jesus era possuído de Belzebu, príncipe de demônios, e por isso, conseguiu expulsar os demônios. É uma calúnia em forma de pergunta retórica. A difamação ou calúnia, como já sabemos, presta-se somente a humilhar quem errou, a irritá-lo. A difamação pode destruir o homem, como diz o Eclesiástico: “Um golpe de chicote deixa marca, mas um golpe de língua quebra completamente os ossos” (Eclo 28,17). A difamação (língua) pode matar um irmão, pode arruinar uma família e pode destruir um casamento e qualquer convivência.


A difamação sempre anda com a inveja. A inveja é um sentimento destrutivo. A pessoa invejosa só olha o carro que o outro tem, mas não pensa o que o outro fez para alcançar tudo isso.  Se você for uma pessoa sucedida, sempre será perseguida. Uma sabedoria nos diz: “Se você quiser olhar para meu sucesso, olhe também para o meu sacrifício”. Precisamos manter o sentimento de admiração em vez do sentimento de inveja. Invejar é dizer “Eu olho para destruí-lo”. Admirar é dizer “Eu olho para aprender como você conseguiu”. Uma pessoa de sucesso nunca inveja, porque a sua mente está colocada nos seus propósitos e nos seus sonhos e sempre procura meios para realiza-los.
   

Terceiro, porque para eles, Jesus é apenas um deles (de origem humilde). Por isso, Jesus não merece nenhuma credibilidade: “Não é este o carpinteiro, filho de Maria...? E ficaram escandalizados por causa dele”. “Carpinteiro” em grego (tékton) não significa apenas a pessoa que trabalha com madeira, mas também com ferro (serralheiro) e pedra (pedreiro). Tudo isto é uma informação que Jesus trabalhava com estas coisas, pois Nazaré era uma aldeia insignificante com pouca oferta de trabalho. Para os seus compatriotas, Jesus é simplesmente “este homem”. Os compatriotas não conhecem a identidade profunda de Jesus a não ser somente sua família de Nazaré, e não são capazes de ingressar-se na verdadeira família de Jesus. Eles não conseguem ultrapassar o obstáculo à fé. Eles param no habitual e por isso, não chegam ao extraordinário. Os compatriotas não são capazes de abrir-se ao novo que se manifesta em sua prática sem precedentes. O extraordinário está no cotidiano. Jesus, na verdade, convida qualquer um a ir além do aspecto cotidiano para encontrar o sentido mais profundo do mesmo, da superficialidade à profundidade. “Avança mais para o fundo” “Duc in altum!” (Lc 5,4), diz Jesus a Simão.
 

Mas os leitores sabem muito bem que Jesus não é simplesmente um “carpinteiro” e “filho de Maria”, mas o Filho eleito de Deus (Mc 1,11;9,7) e que sua verdadeira família, sua mãe e seus irmãos e irmãs são os que “fazem a vontade de Deus” através do seguimento do “caminho” de Jesus (Mc 3,20-21;31-35). Os discípulos de Jesus fazem parte desta nova família, pois eles seguem a Jesus (cf. Mc 2,15;10,32;15,41).
   

Diante disso tudo, Jesus cita um provérbio conhecido por todos: “Um profeta só não é valorizado na sua própria terra, entre os parentes e na própria casa” (v.4). Em contraste com a designação dos compatriotas sobre ele como um simples “carpinteiro”, Jesus se revela como “profeta”, uma pessoa inspirada e enviada por Deus para falar a Palavra de Deus. Através do anúncio dessa rejeição, Jesus está preparando os seus seguidores para a mesma rejeição no futuro. Além disto, aprendem também que onde um esperaria encontrar alento, coragem, participação, pode também encontrar indiferença, incompreensão até hostilidade.
  

Na sua pátria Jesus não fez nenhum milagre por causa da incredulidade dos compatriotas. A origem dessa incredulidade é a incapacidade de acolher a manifestação de Deus no quotidiano em nome de um pretenso respeito pela dignidade e prestígio divinos, onde, porém, a dignidade de Deus é pretexto para o próprio prestígio. Esta pretensão hipócrita faz com que os dirigentes judaicos condenarão Jesus à morte. A incredulidade se constitui em obstáculo decisivo à atuação de Jesus. Para acontecer milagre deve ter uma relação íntima de correspondência entre milagres  e a fé de quem dele se aproxima.
    

Para os judeus, então, não é possível, não é aceitável que um igual a eles seja portador da mensagem do amor da suprema santidade. Por isso, Jesus se admira da incredulidade deles. Não é apenas uma incredulidade perante Jesus, mas é uma profunda desconfiança da vida normal de cada dia. O drama dos judeus que é sua falta de fé, tornou impossível o que Jesus queria fazer em benefício deles (Mc 6,5). Deus está no nosso dia a dia. Basta contemplarmos todos os acontecimentos para decifrar os recados de Deus contidas neles. Mesmo que andemos pelo mesmo caminho, os acontecimentos sempre diferentes. Nisto há surpresas de Deus sobre as quais devemos meditar. A pressa e a desconcentração são inimigos da contemplação. Consequentemente, elas nos tiram de uma vida significativa.


Marcos quer mostrar nesta recusa um exemplo de relação dos homens diante da maneira que Deus escolhe para se revelar. Os homens podem rejeitar a revelação de Deus e a maneira que ele escolhe para se revelar.
  

Os homens querem ver a Deus só nos sinais e prodígios muito maravilhosos ou nas coisas extraordinárias. Mas Deus escolhe revelar-se de maneira simples, nos gestos da vida  até nas nossas  fraquezas, como diz São Paulo: “Pois é na fraqueza que a força de Cristo se manifesta. Por isso, quando me sinto fraco, é então que eu sou forte” (2Cor 12,9-10). A nossa própria debilidade ajuda-nos a confiarmos mais, a procurarmos com maior presteza o refúgio divino, a pedirmos mais forças, a sermos mais humildes. Felizmente, Cristo Jesus é mais forte do que nossa fraqueza, maior que nossas limitações, mais audaz que nossos medos e mais luminoso que nossa obscuridade ou escuridão. A fé em Jesus é luz para perceber as cores das coisas e da vida. Cristo é a luz que se deixa ver por quantos sabem olhar seus semelhantes com sinceridade, pureza, amor no olhar, sem julgamento, e com fraternidade. Toda graça e salvação nos vêm dele, que faz filhos de Deus a quantos o aceitam pela fé. Pois, nenhum outro pode nos salvar (At 4,12). Deus se revela no Homem de Nazaré que é a palavra do Pai. É esta simplicidade da revelação que as pessoas não aceitam. Portanto, elas mesmas impedem que a Palavra poderosa de Deus se manifeste com toda a sua grandeza.
 

Jesus usa de seu poder para as pessoas que vêm até Ele com um ato de fé: o milagre nunca é um meio de forçar a fé: quando muito é um sinal indicativo. Sem a fé Jesus não pode fazer milagre (Mc 6,5). A fé é muito mais importante do que milagre. Ela é o maior milagre de todos os milagres. A base da incredulidade é a cegueira e o egoísmo do próprio homem que livremente não quer aceitar que Deus venha até ele na humanidade e simplicidade.


Muitas vezes o escândalo dos judeus se repete em nossos dias. Por termos uma mentalidade de megalomania é que acreditamos que só o extraordinário possa trazer uma mensagem. Muitas vezes não somos capazes de crer que Deus escolhe também o “pequeno” para se glorificar, o humilde para se manifestar. Marcos mostra exatamente que o inaudito está no cotidiano, o extraordinário na ordem simples de cada dia, o Deus transcendente está entre quatro paredes de uma casa de cada família. Lá pode acontecer qualquer milagre se nessa casa tem espaço para Jesus. Às vezes também falamos de Deus só oscilando entre os extremos, falando como se não soubéssemos do mistério divino que se revela no fundo de cada ser humano, de cada família, de cada coisa que tem o aspecto cotidiano. A revelação divina não precisa do super-homem, mas do homem mais humano. Será que sabemos parar para pensar e para refletir, assim que poderemos captar mensagem de Deus em cada acontecimento ou experiência, em cada homem etc.
   

Crer em Jesus Cristo significa confrontar-se com o Deus santo e ao mesmo tempo saber encontrar Deus nas coisas simples., nos acontecimentos humildes, nas amizades despretensiosas e humildes. O que é pequeno, cotidiano, despretensioso e fiel, tudo isto é portador do extraordinário e estupendo milagre da sua divina presença.


A ternura da graça de Deus pode nos dar o privilégio de termos em alguém da própria família ou da própria comunidade um verdadeiro amigo espiritual: um irmão, a mãe, o pai ou outro parente. Como é belo ver, de forma mais visível e mais patente a verdade da divina mensagem que encanta a nossa vida, na existência consagrada de um amigo ou amiga a Cristo. Também Jesus experimentava a mais plena beleza do Reino de Deus na sua própria mãe e nos seus amigos fiéis ao pé da cruz e na pecadora convertida.


Este Evangelho leva-nos a refletir sobre a qualidade de nossa fé em Jesus Cristo. A nossa adesão a Cristo só será possível quando se der uma ruptura com tudo aquilo que exerce domínio sobre nós. Por isso, na sua oração, quando se coloca diante do Senhor, mostra-lhe as suas mãos e seu coração se estão vazios de qualquer apego ou não. É a fé que produz em nós esse esvaziamento, esse lugar que Deus pode vir habitar. Este olhar da fé deve guiar também o nosso comportamento para com o próximo pois a graça de Deus nos basta(cf. 2Cor 12,9). Os olhos da carne talvez só percebam fraquezas, defeitos e misérias no próximo. Os olhos do Espírito ou da fé, porém, descobrirão em cada pessoa humana a imagem e semelhança de Deus. Então, também ele poderá fazer coisas admiráveis, verdadeiros milagres.
   

Você vê Deus no cotidiano ou sempre precisa de sinais extraordinários para percebê-lo ?  Como é que Jesus se manifesta hoje, na sua vida, no seu trabalho, na sua família, no seu casamento, no seus estudos até nos seus sofrimentos etc. ? Você sabe se abandonar em Jesus Cristo ?


P. Vitus Gustama,svd