domingo, 2 de agosto de 2015

11/08/2015
RECONHECIMENTO E VIVÊNCIA DA FILIAÇÃO DIVINA NOS TORNA TODOS IRMÃOS


Terça-Feira da XIX Semana Comum


Evangelho: Mt 18,1-5.10.12-14

Naquele tempo, 1 os discípulos aproximaram-se de Jesus e perguntaram: “Quem é o maior no Reino dos Céus?” 2 Jesus chamou uma criança, colocou-a no meio deles 3 e disse: “Em verdade vos digo, se não vos con­ver­terdes, e não vos tornardes como crianças, não entrareis no Reino dos Céus. 4 Quem se faz pequeno como esta criança, este é o maior no Reino dos Céus. 5 E quem recebe em meu nome uma criança como esta é a mim que recebe. 10 Não desprezeis nenhum desses pequeninos, pois eu vos digo que os seus anjos nos céus veem sem cessar a face do meu Pai que está nos céus. 12 Que vos parece? Se um homem tem cem ovelhas, e uma delas se perde, não deixa ele as noventa e nove nas montanhas, para procurar aquela que se perdeu? 13 Em verdade vos digo, se ele a encontrar, ficará mais feliz com ela, do que com as noventa e nove que não se perderam. 14 Do mesmo modo, o Pai que está nos céus não deseja que se perca nenhum desses pequeninos”.
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Um Discurso Sobre Vida Comunitária


Estamos no quarto grande discurso de Jesus nos evangelho de Mateus (Mt 18). E este quarto discurso é conhecido como “discurso eclesiológico” (discurso sobre a Igreja) ou “discurso comunitário” onde se acentua a vida na fraternidade, isto é, cada membro da comunidade é considerado como irmão, pois tem Deus como o Pai comum. Este capítulo (Mt 18,1-35) foi escrito para responder aos problemas internos das comunidades cristãs: Quem é o primeiro na comunidade? O que fazer se acontecem escândalos? E se um cristão se perde ou se afasta da comunidade, o que fazer? Como corrigir um irmão que erra? Quando é que uma oração pode ser chamada de comunitária e partilhada? E quantas vezes se deve perdoar?


Na comunidade de Mt (como também em qualquer comunidade cristã) cresce a ambição e se cultivam sonhos de grandeza dos membros que se acham mais importantes dos demais membros. Há pouca consideração para com os pequenos, até são desconsiderados ou desprezados. Estes pequenos correm risco de se tornarem incrédulos e de se afastarem da atividade comunitária. Na comunidade de Mt suscitam também pecadores notórios, inclusive as ofensas  e os ressentimentos que abalam a convivência fraterna.
 

Nesse capítulo, são dadas diversas orientações e algumas normas que têm por objetivo desenvolver o amor fraterno e favorecer a harmonia entre os membros da comunidade. A harmonia torna grandes pequenas coisas. Sem a harmonia, as grandes coisas ficam destruídas. Contra os sonhos de grandeza e de orgulho, Mt coloca a atitude de humildade que agrada a Deus e aos outros (18,1-4). Para os pequenos, os fracos na fé, é necessário ter uma acolhida cheia de caridade e de desvelo (18,6-7). O desprezo é inadmissível para uma boa convivência. Para enfatizar mais este tema, Mt fala dos anjos que sempre estão do lado dos pequenos (18,10). Se um dos membros da comunidade afastar-se ou desviar-se do caminho reto, em vez de condená-lo, a comunidade toda deve esforçar-se para que esse irmão volte para a comunidade, pois Deus não quer que nenhum deles se perca (18,12-14). E para o irmão pecador, a comunidade inteira deve usar todos os meios para recuperá-lo (18,15-20). E para as ofensas, deve haver perdão, pois uma comunidade só pode sobreviver se existe o perdão mútuo (18,21-35).


Ser Irmão e Fazer-se Pequeno


Quem é o maior no Reino dos céus?”. “Quem é o maior diante de Deus?”. “Quem vale mais diante de Deus?”. Assim inicia o quarto discurso de Jesus sobre a vida comunitária baseada na fraternidade. A pergunta é feita pelos discípulos para Jesus. “Maior” aqui significa proeminente, superior aos outros por força de uma qualidade ou de um poder ou de um cargo.


Atrás desta pergunta se esconde a ambição ou a mania de grandeza dos discípulos. É “a psicologia do príncipe”, segundo o Papa Francisco. É a ambição de grandeza que pode ser encontrada em qualquer comunidade cristã. É admirável a ambição de alguém que deseja redimir sua humilde condição, valorizando todas as suas capacidades de inteligência e de luta, pois um dos sentidos lexicais da palavra ambição é anseio veemente de alcançar determinado objetivo, de obter sucesso; aspiração, pretensão. A ambição só se transformará em vício quando a afirmação de si mesmo for exagerada e os meios adotados para atingir a glória forem desonestos. Uma pessoa de alma nobre não sai à procura das honras, e sim do bem, da fraternidade, da verdade, da caridade e assim por diante. Ao contrário, o ambicioso se sente totalmente envolto pela espiral da glória que o transforma em vítima da própria tirania. O ambicioso, quando dominado pelo vício, não suporta competidores, nem admite rivais. Quem desejar ser a todo o custo o primeiro, dificilmente se preocupar com ser justo. “A soberba gera a divisão. A caridade, a comunhão” (Santo Agostinho. Serm. 46,18).


Como resposta para a pergunta dos seus discípulos Jesus faz um gesto muito simbólico: Ele chamou uma criança e a colocou no meio dos discípulos. Ao ser colocada no meio de todos, a criança chamada se torna um centro de atenção de todos. Podemos imaginar que todos os olhares são dirigidos a essa criança e os ouvidos prontos para ouvir a palavra sábia do Mestre Jesus. “Em verdade vos digo, se não vos con­ver­terdes, e não vos tornardes como crianças, não entrareis no Reino dos Céus. Quem se faz pequeno como esta criança, este é o maior no Reino dos Céus. E quem recebe em meu nome uma criança como esta é a mim que recebe”, disse Jesus aos discípulos (Mt 18,3-5). Ser criança: frescor, beleza, inocência, não se basta a si mesma!


Esta é a primeira regra da vida comunitária: cuidar dos pequenos e tratá-los como irmãos, e fazer-se pequeno. Fazer-se pequeno, como exigência para viver a vida comunitária, significa renunciar a toda ambição pessoal e a todo desejo de colocar-se acima dos demais para estar em destaque e para oprimir os demais. Fazer-se pequeno é uma forma de “renegar-se a si mesmo” para colocar a vontade de Deus acima de tudo. A grandeza do Reino consiste no serviço humilde e gratuito ao próximo, na solidariedade para com os necessitados, na partilha do que se tem para com os carentes do básico para viver dignamente como ser humano, e no esforço para construir uma convivência mais fraterna. Trata-se de viver a espiritualidade familiar onde cada membro se preocupa com o outro membro e sua salvação. Vivendo desta maneira estaremos testemunhando para o mundo que temos fé em Deus e que estamos no Reino de Deus já neste mundo, pois vivemos como irmãos, filhos e filhas do mesmo Pai celeste.


Ser Ocasião de Salvação Para o Outro


Se um homem tem cem ovelhas, e uma delas se perde, não deixa ele as noventa e nove nas montanhas, para procurar aquela que se perdeu? Em verdade vos digo, se ele a encontrar, ficará mais feliz com ela, do que com as noventa e nove que não se perderam. Do mesmo modo, o Pai que está nos céus não deseja que se perca nenhum desses pequeninos”, acrescentou Jesus (Mt 18, 12-14). Esta é outra regra essencial da vida comunitária!


Os fariseus eram uns “separados”, e julgavam severamente os pecadores e os que erravam, os quais eram excluídos dos banquetes sagrados ou de um simples banquete comunitário, pois comer juntos significava igualar ou nivelar as relações. Deus atua completamente diferente. Deus nem sequer espera o arrependimento do pecador para amá-lo. Antes, abandonando o resto do rebanho, ele vai à busca de uma ovelha perdida. Através de uma conversa fraterna e através de sua participação na refeição com os excluídos pela sociedade em questão Jesus consegue trazer de volta para Deus muitos pecadores, como Zaqueu (Lc 19,2-10), como Mateus (Mt 9,9) e assim por diante.


O saudoso Cardeal François X. Van Thuan escreveu dois dos cinco “defeitos” de Jesus (Testemunhas Da Esperança. Edit. Cidade Nova). O primeiro defeito é que Jesus não tem boa memória. Ele esquece todos os pecados dos que se arrependeram, como o “bom ladrão”: “Hoje mesmo tu estarás comigo no Paraíso” (Lc 23,43) e a mulher pecadora: “... seus numerosos pecados lhe estão perdoados, porque ela demonstrou muito amor” (Lc 7,47). Deus não lhes pergunta nada a respeito de seu passado escandaloso. Deus esquece até mesmo que perdoou. E o segundo “defeito” de Jesus é que ele não “sabe” matemática. Ele abandona 99 ovelhas para procurar uma que está perdida. Na nossa matemática uma ovelha não é igual a 99 ovelhas. Para Jesus uma ovelha é igual a 99 ovelhas. Todos têm o mesmo valor diante de Deus.


Cada um de nós, por menor que seja no olhar de um ser humano ou de uma sociedade, é objeto de um carinho especial de Deus. Deus não despreza nenhum ser humano. Cada um é considerado na sua individualidade. A graça de Deus nos faz nós mesmos: “Eu sou o que sou pela graça de Deus” (1Cor 15,10). Jesus quer que cada membro da comunidade cristã precise ser uma ocasião de salvação para o outro e o outro é uma ocasião de salvação para mim. Somente é assim que uma comunidade cristã pode ser chamada e considerada como uma comunidade de irmãos.


Na Bíblia a misericórdia pertence rigorosamente à linguagem mais elevada da fé, designa uma atitude de todo o ser. A misericórdia evoca tanto o aspecto de fidelidade ao compromisso como o aspecto de ternura do coração. A experiência da condição miserável e pecadora do homem deu corpo à noção da misericórdia de Deus, que se apresenta a nós como a atitude de Deus diante do pecado do homem. A misericórdia de Deus não é ingenuidade e sim convite à conversão e convite para cada homem a praticar, por sua vez, a misericórdia para os demais homens.


Os escribas e os fariseus não são capazes de ver no pecados mais que a um inimigo de Deus. se um pecador é inimigo de Deus, logo é inimigos dos que se consideram “religiosos”. Não é esta a atitude daqueles que julgam com excessiva severidade das falhas dos outros? Deus, ao contrário, não espera o arrependimento para amar o pecador. Quem é responsável pela comunidade, pela pastoral, pelo grupo na Igreja do Senhor é encarregado de revelar ao irmão que pecou que Deus o ama primeiro (1Jo 4,10.19; 2Cor 5,20) e que esse Deus se preocupa com a salvação de todos. Será que todos os responsáveis na comunidade está consciente dessa responsabilidade?

P.Vitus Gustama,svd
SÃO LOURENÇO, Segunda-feira,10/08/2015
VIVER NO PARADOXO PARA VIVER UMA VIDA FECUNDA


Festa de São Lourenço, mártir

10 de Agosto 

Neste dia 10 de agosto celebramos a festa de São Lourenço, diácono e mártir. Uma das funções do diácono na época era distribuir as ajudas aos pobres. Lourenço foi feito diácono pelo Papa Sisto II (30/8/257-6/8/258). O Papa Sisto II, conhecido como Xisto, foi eleito exatamente na época em que o imperador Valeriano abandonou a política de tolerância para com todos os cristãos. O imperador Valeriano publicou um segundo edito mais severo, ordenando a execução de bispos, sacerdotes e diáconos e impondo várias penalidades aos leigos.


Lourenço era um dos sete diáconos de Roma, ou seja, um dos sete homens de confiança do Sumo Pontífice Sisto II. Seu trabalho era de grande responsabilidade, pois era encarregado de distribuir as ajudas aos pobres.


No dia 06 de agosto de 258 enquanto o Papa Sisto II estava sentado na cátedra episcopal pregando à congregação numa cerimônia litúrgica no cemitério particular de Praetextatus, forças imperiais entraram de tropel, agarraram e decapitaram o Papa Sisto II e quatro diáconos. A cátedra manchada de sangue onde o Papa Sisto II estava sentado ao ser morto foi posta atrás do altar na capela da cripta, na cripta papal. O nome do Papa Sisto II foi incluído na oração eucarística I (cânon da missa) entre os dos papas Clemente e Cornélio.


Dois outros diáconos foram executados mais tarde no mesmo dia. São Lourenço, o sétimo diácono, foi executado quatro dias depois, no dia 10 de agosto de 258.


A antiga tradição disse que quando Lourenço viu que o Sumo Pontífice estava para ser assassinado, disse: “Pai meu, tu te vais sem levar teu diácono?”. E o Papa Sisto II lhe respondeu: “Filho meu, dentro de poucos dias tu me seguirás”. Lourenço ficou muito feliz quando ouviu a palavra do Papa Sisto II.


 Quando foi preso e conduzido ao martírio pelo imperador Valeriano, o Papa Sisto II deu ao diácono Lourenço o encargo de distribuir tudo o que tinha aos pobres. Quando o imperador Valeriano impôs a Lourenço de entregar-lhe os tesouros da Igreja dos quais tinha ouvido falar, Lourenço reuniu os pobres, as virgens consagradas, e as viúvas diante do imperador e disse com coragem: “Eis aqui os nossos tesouros, que nunca diminuem, e podem ser encontrados em toda parte”. Por essas palavras ele foi colocado vivo sobre um braseiro ardente até a morte. Ele foi o mártir romano mais celebrado depois dos apóstolos Pedro e Paulo. Até seu nome consta na primeira oração eucarística.


Nessa festa nos é proposto um evangelho luminoso. Jesus nos recorda que “Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas se morre, então, produz muito fruto”. Estas palavras retratam a perfeição do diácono Lourenço. Ele soube entregar a vida e por isso é fonte de vida. Ele viveu servindo os pobres e foi martirizado pelos pobres. Ali há uma vida gastada no serviço. Ali há um diácono, ou seja, um servidor. Daí São Lourenço nos está convidando a servimos, a estarmos abertos às necessidades dos homens e mulheres de hoje, dos pobres, dos marginalizados e excluídos. Nos dias de sua vida Lourenço semeou com generosidade a semente do amor, da fé, da esperança no coração de seus irmãos. São Lourenço, rogai por nós!
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Evangelho: Jo 12, 24-26

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 24 Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas se morre, então produz muito fruto. 25 Quem se apega à sua vida, perde-a; mas quem faz pouca conta de sua vida neste mundo conservá-la-á para a vida eterna. 26 Se alguém me quer servir, siga-me, e onde eu estou estará também o meu servo. Se alguém me serve, meu Pai o honrará".
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Viver como cristão, a partir do texto do evangelho lido neste dia, é viver no paradoxo. Paradoxo significa pensamento ou argumento que contraria os princípios básicos e gerais que costumam orientar o pensamento humano, porém, nele, contém verdade e sabedoria de viver. Trata-se de um raciocínio aparentemente contraditório, porém contém nele uma sabedoria que nos faz crescermos em todos os sentidos. Viver no paradoxo é a lei da vida.


Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas se morre, então produz muito fruto. Quem se apega à sua vida, perde-a; mas quem faz pouca conta de sua vida neste mundo conservá-la-á para a vida eterna”. É o verdadeiro paradoxo.


Segundo Jesus, não se produz vida sem dar a própria. Um grão de trigo que morre e cai não terra produz muitos outros grãos de trigo. Este é o paradoxo. Não se pode viver sem aprender a morrer. Esta morte é a culminação de um processo de doação de si mesmo: “Quem se apega à sua vida vai perdê-la”. É o paradoxo! Não se pode receber vida sem doá-la para o bem do próximo. Não se pode receber o perdão divino sem dar nosso perdão ao próximo: “Perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”, assim rezamos no Pai-Nosso. É o paradoxo! Para ser divino tem que ser muito humano. Para o cristão, o caminho da subido passa pelo caminho da descida. Para aprender a viver profundamente, tem que aprender a morrer todos os dias de tantas coisas. Para ser feliz é preciso fazer o outro feliz. Para ser amado e ser amoroso é preciso amar e ser amoroso para com o outro. Amar é dar-se em abundância até desaparecer, se for necessário. A fecundidade não depende da transmissão de uma doutrina e sim da transmissão e da vivencia do amor fraterno. “Quem não ama permanece na morte. (...) Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor”, diz-nos São João (1Jo 3,14b; 4,8).


Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas se morre, então produz muito fruto. Este é o primeiro paradoxo apresentado por Jesus no evangelho de hoje.


Na metáfora do grão de trigo que morre na terra, a morte é a condição para que se libere toda a energia vital que a semente contém, e a vida ali encerrada se manifeste plenamente. Com esta metáfora Jesus afirma que o homem tem muitas potencialidades e que somente o dom total de si libera essas potencialidades para que exerçam toda sua eficácia. O fruto começa paradoxalmente no mesmo grão que morre porque se não cair na terra não dá vida, não frutifica, é infecundo. A morte da qual fala Jesus não é um acontecimento isolado e sim é a culminação de um processo de doação da própria vida.


Por isso, dar a própria vida é condição para a fecundidade, é a suprema medida do amor. Para Jesus essa entrega da própria vida para o bem de todos não é uma perda para o homem; não significa frustrar a própria vida e sim uma vida fecunda. Aquele que sabe fazer o outro viver bem tem uma vida cheia de alegria. É uma vida feliz e fecunda. Quando deixarmos de crescer, ficaremos envelhecidos antes do tempo. Enquanto estivermos abertos para o crescimento, permaneceremos jovens, e jovens fecundos. O medo de crescer é o medo de tomar conta de si próprio.


“Quem se apega à sua vida, perde-a; mas quem faz pouca conta de sua vida neste mundo conservá-la-á para a vida eterna”. É a segunda afirmação paradoxal de Jesus no evangelho de hoje.


Não se pode produzir vida (dar frutos) sem dar a própria vida (morrer). A vida é fruto do amor e não brotará vida, se o amor não for pleno, se não chegar a ser um dom total. Amar é dar tudo, entregar tudo sem guardar nada para si, até desaparecer, se for necessário, como individuo ou como comunidade. Jesus vai se entregar pelos demais. Ele é solidário com os necessitados e por eles aceita a morte, mas logo prevê já o fruto: “Dou minha vida para retomá-la” (Jo 10,17).


“Quem se apega à sua vida, perde-a”


O temor de perder a vida e o tempo é o grande obstáculo para o compromisso pelos demais, porque o amor à própria vida pode levar alguém a praticar as injustiças e a ficar silêncio diante de uma realidade que necessite de sua colaboração. O silêncio dos bons diante da maldade faz com que a maldade avance. Mas aquele que oferece sua vida pelos demais, ama verdadeiramente, se esquece do próprio interesse e segurança, luta pela vida, pela dignidade em meio de uma sociedade onde reina a morte.


Como Jesus, muitos homens e mulheres de ontem e de hoje para dar vida deram sua própria vida porque estavam convencidos de que o fruto supõe uma morte, e a entrega exige uma fé na fecundidade do amor.


Um desses homens é São Lourenço cuja festa é celebrada neste dia (10 de agosto). Lourenço era o primeiro dos sete diáconos da Igreja de Roma em 258. Valeriano perseguia os membros da hierarquia eclesiástica: bispos, presbítero, diáconos. Lourenço era o principal dos sete diáconos encarregados de socorrer os pobres e de administrar os bens temporais da Igreja. Lourenço era chamado até “diácono do Papa”. O Estado, na pessoa de Valeriano, cobiçava os bens temporais da Igreja. “É rica, sim, a Igreja, não o nego. Ninguém no mundo é mais rico que ela. O próprio imperador não tem tanta riqueza como a Igreja tem. Não recuso a entregar-lhe esses bens. deixe-me um prazo para unir e inventariar esses bens tão copiosos e preciosos”. Lourenço chamou e reunir todos os pobres e os doentes e os levou para o imperador e disse: “Eis os tesouros da Igreja que nunca diminuem e podem ser encontrados em toda parte!”. Por essa razão, o diácono Lourenço foi martirizado em 10 de agosto de 258.


Que tenhamos a caridade de são Lourenço para com tantos pobres e doentes que necessitam de nossa ajuda, seja nosso tempo para dar um pouco de nossa atenção, seja nossa ajuda material. “Não é louvável no pobre sua pobreza, mas sua humildade; nem condenável no rico sua riqueza, mas seu orgulho. Sejam ricos ou pobres, Deus dá sua graça aos humildes. Desapropria-te de ti mesmo e lança-te nos braços de Deus” (Santo Agostinho).

P.Vitus Gustama, SVD

sábado, 1 de agosto de 2015

Domingo, 09/08/2015
CRER EM JESUS, O PÃO DA VIDA

XIX DOMINGO DO TEMPO COMUM ANO “B”


I Leitura: 1Reis 19,4-8

Naqueles dias, 19 4 Elias andou pelo deserto um dia de caminho. Sentou-se debaixo de um junípero e desejou a morte: “Basta, Senhor”, disse ele; “tirai-me a vida, porque não sou melhor do que meus pais”. 5 Deitou-se por terra, e adormeceu debaixo do junípero. Mas eis que um anjo tocou-o, e disse: “Levanta-te e come”.6 Elias olhou e viu junto à sua cabeça um pão cozido debaixo da cinza, e um vaso de água. Comeu, bebeu e tornou a dormir. 7 Veio o anjo do Senhor uma segunda. vez, tocou-o e disse: “Levanta-te e come, porque tens um longo caminho a percorrer”. 8 Elias levantou-se, comeu e bebeu e, com o vigor daquela comida, andou quarenta dias e quarenta noites, até Horeb, a montanha de Deus.


II Leitura: Efésios 4,30,5,1-2

30 Não contristeis o Espírito Santo de Deus, com o qual estais selados para o dia da Redenção. 31 Toda amargura, ira, indignação, gritaria e calúnia sejam desterradas do meio de vós, bem como toda malícia. 32 Antes, sede uns com os outros bondosos e compassivos. Perdoai-vos uns aos outros, como também Deus vos perdoou, em Cristo. 1 Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos muito amados. 2 Progredi na caridade, segundo o exemplo de Cristo, que nos amou e por nós se entregou a Deus como oferenda e sacrifício de agradável odor.


Evangelho: Jo 6, 41-51

Naquele tempo, 41 murmuravam então dele os judeus, porque dissera: “Eu sou o pão que desceu do céu”. 42 E perguntavam: “Porventura não é ele Jesus, o filho de José, cujo pai e mãe conhecemos? Como, pois, diz ele: ‘Desci do céu?’” 43 Respondeu-lhes Jesus: “Não murmureis entre vós. 44 Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o atrair; e eu hei de ressuscitá-lo no último dia. 45 Está escrito nos profetas: ‘Todos serão ensinados por Deus’. Assim, todo aquele que ouviu o Pai e foi por ele instruído vem a mim. 46 Não que alguém tenha visto o Pai, pois só aquele que vem de Deus, esse é que viu o Pai. 47 Em verdade, em verdade vos digo: quem crê em mim tem a vida eterna. 48 Eu sou o pão da vida. 49 Vossos pais, no deserto, comeram o maná e morreram. 50 Este é o pão que desceu do céu, para que não morra todo aquele que dele comer. 51 Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão, que eu hei de dar, é a minha carne para a salvação do mundo”.
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A primeira leitura (1Rs 19,4-8) narra sobre o drama de vida do profeta Elias  mais ou menos 850 anos antes de Cristo. Ele é o profeta da fé monoteísta, lutando solitário contra a correnteza da idolatria do povo e a corrupção generalizada dos poderosos e a injustiça social. A rainha Jezabel e o  fraco rei Acab, ambos adoradores dos ídolos, exigem que os súditos abandonem o culto de Deus e adorem Baal, o deus do furacão que comanda o ciclo das chuvas e dá fecundidade aos campos e aos animais. Elias faz denúncias e opera milagres. Mas até certo ponto o profeta não aguenta mais porque a rainha Jezabel procura todos os meios para matá-lo. Por isso, ele decide fugir atravessando o deserto rumo ao monte Horeb.


Mas a travessia do deserto não é fácil, as dificuldades são muitas. A uma certa altura sente uma fraqueza e um desalento tão profundos, a ponto de não poder mais caminhar. Ele pede a Deus a morte: “Senhor para mim é melhor morrer porque não sou melhor do que meus pais”. Mas Deus não abandona o seu profeta; ele está ao seu lado, proporciona-lhe o alimento que lhe dá vigor. Mas Deus não faz com que os seus anjos o transportem milagrosamente. Deus não dispensa Elias da dura caminhada. Com o vigor daquele pão oferecido por Deus através dos seus anjos, Elias conseguiu andar durante 40 dias e 40 noites até a montanha de Deus, Horeb.
  

A experiência de Elias é semelhante à nossa. Os 40 dias da sua viagem (o símbolo de uma vida inteira) representam também a nossa vida. Enquanto estivermos vivos as dificuldades, os problemas, os obstáculos, as dores da vida nunca ficam ausentes. Dizia Khalil Gibran, escritor libanês: “Quando estiverdes alegres, olhai no fundo de vosso coração, e achareis que o que vos deu tristeza é aquilo mesmo que vos está dando alegria. E quando estiverdes tristes, olhai novamente no vosso coração e vereis que, na verdade, estais chorando por aquilo mesmo que constituiu vosso deleite. A alegria e a tristeza vêm juntas. Quando uma está sentada à vossa mesa, lembrai-vos de que a outra dorme em vossa cama” (do livro: O Profeta).


Mesmo sabendo de tudo isso, nós, muitas vezes, temos a “síndrome de Elias”: nos deparamos com situações difíceis e complicadas; há momentos nos quais nos sentimos profundamente desencantados com casamento, com a profissão, com a vocação religiosa e sacerdotal, com a associação a qual fazemos parte, até com a religião e com a vida das nossas comunidades. E quando Deus se perde no horizonte, então surge facilmente o cansaço da fé. Essas situações nos fazem perdermos o ânimo e a força para continuar nossa luta. Muitas vezes, sentimos a fome não só do pão mas de justiça, da convivência fraterna. Temos a sede não só de água, mas também de amor, de compreensão, de carinho, de amparo e não sabemos que atitudes tomar, sentimos o desânimo, a inquietação e em certas horas até o desespero. Às vezes o nosso desânimo é tão grande que decidimos largar tudo, e dos nossos lábios saem palavras semelhantes às do profeta: ”Senhor, basta. Para mim é melhor morrer”. Mas um sábio deu o seguinte conselho: “Não prometa quando você estiver feliz. Não responda quando você estiver com raiva. E não decida quando você estiver triste”. É preciso seguir ou fazer aquilo que a Mãe do Senhor fazia: “Maria conservava todas estas palavras, meditando-as no seu coração... Sua mãe guardava todas estas coisas no seu coração” (Lc 2,19.51b). Somente quando criarmos o silêncio, Deus vem ao nosso coração para inspirar algo importante para aquela situação que estamos vivendo, como o anjo que se aproximou do profeta Elias. O silêncio possibilita a presença da eternidade. O silêncio dá espaço e tempo para o encontro da divindade e da humanidade. No silêncio é que vamos ouvir palavras precisas para nossa situação. São Paulo nos dá o seguinte conselho: Não contristeis o Espírito Santo de Deus, com o qual estais selados para o dia da Redenção. Toda amargura, ira, indignação, gritaria e calúnia sejam desterradas do meio de vós, bem como toda malícia” (Ef 4,30-31).
 

Deus não se esquece de cada um de nós: “Pode uma mulher esquecer-se daquele que amamenta? Não ter ternura pelo fruto de suas entranhas? E mesmo que ela o esquecesse, eu não te esquecerei nunca. Eis que estás gravado na palma de minhas mãos, tenho sempre sob os olhos tuas muralhas” (Is 49,15-16). Deus está ao nosso lado, nos acompanha diariamente (cf. Mt 28,20), como fez com o seu profeta Elias. Mas como aconteceu com Elias, Deus não nos dispensa de nossas tarefas, não toma o nosso lugar; ele não nos carrega nas costas quando cansados. Com a Sua Palavra ele nos aponta o caminho a ser percorrido e não nos deixa faltar o pão que renova as nossas forças. Quando parece que nada mais tem interesse ou que tudo está perdido, permanece a secreta energia de um alimento que pode revigorar: a escuta de Deus e da Sua Palavra e a fé em Cristo, palavra do pai e pão da vida. Ambas as realidades, a fé e o pão eucarístico, dão vida eterna, isto é, presente e futura. É o ensinamento de Jesus no Evangelho de hoje.
   

O evangelho deste dia nos relata que depois de compartilhar o pão, Jesus se revela como “Pão da vida”. Alguns não aceitam Jesus como pão descido do céu e murmuram como o tinham feito no deserto aqueles que se queixavam de falta de alimento (cf. Ex 15-17). O termo “murmurar” aqui tem uma nota de incredulidade. Jesus rejeita a murmuração, não entra em discussões sobre a sua própria origem.


Mediante a fórmula de revelação “EU SOU” (como Deus se revelou no AT, Ex 3,14), Jesus se auto define. No Evangelho de João encontramos sete autoproclamações de Jesus em linguagem simbólica (6,35: pão;8,12:luz;10,7:porta;10,10:bom pastor;11,25:ressurreição e vida;14,6:caminho,verdade e vida;15,1:videira verdadeira). Neste texto Jesus se define como o pão que dá a vida eterna a quem o come. Seguir Jesus é ter a vida eterna desde agora. E dessa vida, Jesus é o pão. O pão da vida nos liberta da morte eterna. Este pão tem em si mesmo a vida, porque este pão é o próprio Cristo vivo e ressuscitado. Seguindo os passos de Jesus e vivendo seus ensinamentos apesar das dificuldades encontrados no caminho chegaremos na comunhão com Deus na eternidade. Jesus nos precedeu para lá.


A Bíblia emprega frequentemente as imagens da fome e da sede para indicar a necessidade de Deus. Toda a aptidão que Deus requer de nós é sentir a necessidade de Deus. Quando perdermos a necessidade de Deus, quando não tivermos mais a vontade de rezar e de meditar a Palavra de Deus é porque o espirito mundano está nos dominando. Muitas vezes o homem busca a felicidade só nas coisas materiais (dinheiro, prazeres, festas, bebida, viagem, etc.), mas no fim sempre é obrigado a admitir que continua insatisfeito porque ele se alimenta daquilo que não sacia. O único pão que sacia a sua necessidade de felicidade e de paz é a palavra de Cristo, o pão da vida. O seu Evangelho é o pão descido do céu.
 

Para que sua palavra possa comunicar salvação é necessário que ela não fique reduzida a um texto para ser lido ou analisado. A lógica de Cristo deve ser assimilada como pão que se torna parte do organismo da pessoa que o ingeriu.
   

Ele não apenas dá a vida, ele é o “pão vivo”, ele tem a vida em si mesmo: “Eu sou o pão vivo que desce do céu” (v.51). Quem recebe o corpo do Senhor, ele recebe a vida. Esse dom da própria vida é o que se comemora/se celebra na refeição eucarística da comunidade; e isso é lembrado sobretudo pelo termo “minha carne para a vida do mundo”.
  

Eu sou o Pão vivo descido do céu. Quem comer deste Pão viverá eternamente” (v.51), diz Jesus a qualquer um de nós. Ele se identifica como alimento, como refeição. E sabemos que a refeição é sempre muito mais do que uma necessidade biológica. A mesa é o lugar de reunião de amigos ou da família. Fazendo refeição juntos, os membros da família criam intimidade. A falta de alguém querido na mesa (seja porque já faleceu ou  se encontra distante da família fisicamente) machuca o coração e isso não tem nada a ver com o valor nutritivo da comida.
   

Certamente Jesus quer ficar presente na comunidade mediante refeição. Por isso, celebrar a eucaristia significa celebrar toda a nossa vida na vida de Cristo. O Corpo e o Sangue do Senhor, se os recebermos com uma fé profunda, são alimento que matam todo tipo de fome e sede da existência. Mas para que a eucaristia possa produzir seus efeitos benéficos não basta que ela seja celebrada de modo correto, mas é preciso a adesão àquilo que o gesto indica. A eucaristia é a oferta de Cristo, que é ele mesmo, em sacrifício ao Pai. Por isso, a eucaristia é a celebração de partilha, de doação onde as relações de poder são substituídas por relações de fraternidade e as relações econômicas são norteadas pelo espírito de partilha igualitária. Por isso, quem participa da comunhão se compromete diante da comunidade a transformar a própria vida como a de Cristo e promete uma disponibilidade total em favor dos irmãos, especialmente dos irmãos mais necessitados, pois o Pão eucarístico é comunicação permanente de vida e manifestação de amor permanente. Comungá-lo significa assimilar Jesus Cristo que se entregou para salvar o mundo. Se não houver esta adesão interior nem mesmo o Sangue de Cristo pode produzir os frutos benéficos para quem o comunga.
  

Comungar na carne de Jesus nos faz irmãos todos; é necessário criar entre nós uma comunidade de iguais, de pessoas que se perdoando mutuamente se dão vida (Ef 4,30-32). Somente se damos vida, em todas as suas formas e expressão, como Jesus fez e continua fazendo na eucaristia, seremos “imitadores de Deus”.
      

Portanto, hoje é o momento oportuno para verificarmos nossos motivos de comungar o Corpo e o Sangue de Senhor. Quais são os nossos motivos de comungar o Corpo e o Sangue do Senhor?  Não podemos entregar a nossa vida ao Senhor sem entregá-la, ao mesmo tempo, aos irmãos.

P. Vitus Gustama,svd
08/08/2015
 
FÉ SÓLIDA SUPERA ATÉ O IMPOSSÍVEL

Sábado Da XVIII Semana Comum


Evangelho: Mt 17,14-20

Naquele tempo, 14 chegando Jesus e seus discípulos junto da multidão, um homem aproximou-se de Jesus, ajoelhou-se e disse: 15 “Senhor, tem piedade do meu filho. Ele é epiléptico, e sofre ataques tão fortes que muitas vezes cai no fogo ou na água. 16 Levei-o aos teus discípulos, mas eles não conseguiram curá-lo!” 17 Jesus respondeu: “Ó gente sem fé e perversa! Até quando deverei ficar convosco? Até quando vos suportarei? Trazei aqui o menino”. 18 Então Jesus o ameaçou e o demônio saiu dele. Na mesma hora, o menino ficou curado. 19 Então, os discípulos aproximaram-se de Jesus e lhe perguntaram em particular: “Por que nós não conseguimos expulsar o demônio?” 20 Jesus respondeu: “Porque a vossa fé é demasiado pequena. Em verdade vos digo, se vós tiverdes fé do tamanho de uma semente de mostarda, direis a esta montanha: ‘Vai daqui para lá’ e ela irá. E nada vos será impossível”.
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O episódio de um pai que se dirigiu a Jesus para pedir socorro, narrado no texto do evangelho de hoje, se encontra nos evangelhos sinóticos (Mt, Mc e Lc); é um episódio  que aconteceu logo depois da transfiguração.


É curioso que o homem em questão, em vez de se dirigir diretamente a Jesus, dirigiu-se primeiro aos discípulos para pedir ajuda pela cura de seu filho. Não tendo conseguido nada deles, ele se dirigiu logo ao seu Mestre. O que se segue é o diálogo de Jesus com seus discípulos.


O sofrimento do filho desse pai é atribuído ao demônio: “Jesus o ameaçou e o demônio saiu dele”. A enfermidade se identifica com um demônio. Esse “demônio” em Mateus representa qualquer ideologia ou projeto contrário ao plano de Deus (cf. Mt 16,23) que cega o homem e o faz paralisado ou sem ação. “O filho doente” representa o povo oprimido por essa ideologia que procura periodicamente (epiléptico) todos os meios, até os meios violentos (fogo, água) para sair de sua situação. No entanto todos são ineficazes. Os discípulos, que continuam com a ideia dos homens (Mt 16,23), que ainda professam o messianismo dos letrados, não são capazes de libertar o povo.


O pai, que representa o povo da fé, se dirige a Jesus com fé. Sua fé se expressa através do gesto: de joelho (atitude diante da divindade), e através da profissão: ele chama Jesus de “Senhor”, um título pós-pascal. Ele quer sair de sua situação (cura de seu filho). E quem pode salvá-lo de sua situação é Jesus que é o Senhor: Um homem aproximou-se de Jesus, ajoelhou-se e disse: ‘Senhor, tem piedade do meu filho. Ele é epiléptico, e sofre ataques tão fortes que muitas vezes cai no fogo ou na água. Levei-o aos teus discípulos, mas eles não conseguiram curá-lo!’”.


Diante do relatório e do pedido do pai, a resposta de Jesus é bastante dura: Ó gente sem fé e perversa! Até quando deverei ficar convosco? Até quando vos suportarei?”.


A paixão do Messias já se inicia não tanto pelas dores corporais, mas pelas dores provocadas pelo profundo sofrimento espiritual. Trata-se do impacto da descrença e da falta de fé da parte dos discípulos apesar das lições dadas a eles e das obras operadas por Jesus em função da libertação das pessoas.  Os discípulos ainda fazem parte da “geração incrédula e perversa”, pois eles continuam com a ideia dos homens (Mt 16,23), ou seja, ainda professam o messianismo dos letrados, sem depositar sua fé em Jesus, o Deus-Conosco (Mt 1,23; 18,20; 28,20), e por isso são incapazes de libertar o povo. Diante deles, Jesus libertou o menino de seu mal: ’Trazei aqui o menino’. Então Jesus o ameaçou e o demônio saiu dele. Na mesma hora, o menino ficou curado”.


Por que nós não conseguimos expulsar o demônio?”, é a pergunta dos discípulos a Jesus. Na verdade, Jesus lhes tinha dado a autoridade de expulsar o demônio (cf. Mt 10,1). É a primeira vez que fracassaram. A razão é sua falta de fé. Isso é que faz fracassar a missão. A missão sem fé termina no fracasso.


Por isso, diante da pergunta sobre o porquê da incapacidade dos discípulos em curar o menino, Jesus deu-lhes uma grande lição sobre a importância da fé: “Em verdade vos digo, se vós tiverdes fé do tamanho de uma semente de mostarda, direis a esta montanha: ‘Vai daqui para lá’ e ela irá. E nada vos será impossível”. Com suas palavras, Jesus sublinha, sobretudo, a necessidade da fé para poder vencer o mal ou para ter sucesso na missão. Um mínimo de fé seria suficiente para pôr à disposição  do discípulo ou de qualquer cristão o poder de Deus. Com a verdadeira fé ou adesão a Jesus e à sua mensagem (Mt 16,24), os discípulos seriam capazes de tudo.


A fé é onipotente porque nos une ao Onipotente. A fé é o ponto de apoio em Deus. A fé nos dá um poder incrível, mesmo nas circunstâncias mais difíceis, como podemos verificar na vida de tantos homens e mulheres ao longo da história da Igreja. A fé nos permite rezar de modo eficaz. Segundo Jesus, a verdadeira fé faz desaparecer qualquer impossibilidade, faz qualquer um caminhar na vida com serenidade e paz, com alegria profunda como uma criança nas mãos de sua mãe. A verdadeira fé liberta qualquer um do desapego de todas as coisas. Além disso, é importante para nossa vida comunitária ter em conta que a fé em Deus nos abre muitas possibilidades e qualidades que estão escondidas e adormecidas. Ao assumir pessoalmente a fé, começaremos a ser conscientes de nossas grandes reservas humanas, as quais devem ser postas para o serviço aos demais.


Em verdade vos digo, se vós tiverdes fé do tamanho de uma semente de mostarda, direis a esta montanha: ‘Vai daqui para lá’ e ela irá. E nada vos será impossível”. Há que tomar a sério essas palavras do Senhor. Efetivamente não se trata de remover as montanhas materiais. Mas pela fé podemos realizar outras tarefas que não são menos difíceis: remover montanhas de orgulho e de prepotência, de egoísmo, de covardia, de comentários maldosos, de comodismos, de falta de solidariedade e de partilha, etc., mudar de coração, de hábitos negativos instalados no nosso coração para podermos entrar em relação com Deus e com os irmãos, nossos próximos. A fé, tal como é considerada aqui por Jesus, é uma fonte de audácia, de iniciativa. A fé, tal como Jesus a vê, é uma força: triunfa sobre o impossível, duplica as forças do homem para superar o impossível do ponto de vista humano, é um “poder de Deus” para a salvação de qualquer pessoa que crê.


Jesus tirou o mal do menino no texto do evangelho de hoje. Nossa luta contra o mal, o mal que há dentro de nós e o mal dos demais, somente pode ser eficaz quando se baseia na força de Deus. Somente em união com Cristo é que se pode libertar o mundo de todo mal. Não se trata de fazer gestos mágicos ou de pronunciar palavras que tem eficácia por si só. Quem salva e quem liberta é Deus e nós, somente se permanecermos unidos e Deus pela oração. Esta é uma das lições que Jesus nos dá hoje.


O que acontece é que muitas vezes nossa fé é débil, como a fé dos discípulos. Os discípulos encontraram dificuldade em libertar os outros de seus males porque confiaram apenas em suas próprias forças. Muitas vezes nos fracassamos, como os discípulos de Jesus, porque confiamos somente nas nossas próprias forças e nos esquecemos de nos apoiar em Deus.


Para que nossa fé permaneça fé é preciso nutri-la com a oração. A oração, por sua vez, consiste em pensar em Deus amando-o, eleva-nos para o mesmo Deus, a partir de qualquer circunstância. É a oração que nos permite abrir o cofre dos favores divinos, pois nos põe em contato com o Deus vivo a quem, segundo o ensinamento de Jesus, dizemos: «Faça-se a tua vontade». Este abandono a Deus é importante para nós, pois Ele sabe o que mais nos convém ou não convém. Rezamos não para mudar Deus e sim para mudar quem reza de acordo com a vontade ou o plano de Deus sobre o ser humano. quem não reza erra muito o caminho.
 
P. Vitus Gustama,svd
07/08/2015
SEGUIMENTO E SUAS CONSEQUÊNCIAS
SER CRISTÃO CONVICTO E CONSCIENTE


Sexta-Feira da XVIII Semana Comum

 
Evangelho: Mt 16,24-28

Naquele tempo, 24 Jesus disse aos discípulos: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e me siga. 25 Pois quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la. 26 De fato, de que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro mas perder a sua vida? Que poderá alguém dar em troca de sua vida? 27 Porque o Filho do Homem virá na glória do seu Pai, com os seus anjos, e então retribuirá a cada um de acordo com a sua conduta. 28 Em verdade vos digo: Alguns daqueles que estão aqui não morrerão antes de verem o Filho do Homem vindo com seu Reino”.
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As exigências do seguimento de Jesus das quais fala o evangelho deste dia são repetidas seis vezes com variantes maiores e menores nos quatro evangelhos (Mt 16,24ss; Mc 8,34ss; Lc 9,23s; Jo 12,24ss; Lc 14,27; Mt 10,38s). Essa repetição nos indica a importância dada pela Igreja dos apóstolos a essas exigências.


Os discípulos já fizeram uma opção inicial por Jesus. Agora, diante das implicações do seguimento se encontram diante de uma situação da escolha definitiva. Para ser discípulo de Jesus não é suficiente a chamada; é necessária uma resposta clara depois de ter consciência das condições que a chamada impõe. 


Ao apresentar para os discípulos as condições do seguimento, Jesus não impõe, mas propõe: “Se alguém quer...”. São João Crisóstomo comentou: “Ele disse: Eu não forço nem obrigo ninguém a me seguir, deixo a cada um dono de sua própria escolha; por isso, digo: Se alguém quer...”. O seguimento não é uma imposição. Todos têm a liberdade de aceitar ou de recusar. Mas quem quer seguir verdadeiramente a Jesus, tem que assumir as exigências propostas por ele. Tudo tem que ser tomado na base da liberdade, da obediência da fé e por amor.
 

A primeira condição é a renúncia a si mesmo: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo...” (v.24).


Pela renúncia e pela cruz, Jesus não propõe uma destruição e sim um desenvolvimento, uma expansão total e eterna. Por isso, renunciar a si mesmo ou negar-se a si mesmo significa que a pessoa deixa de encontrar em si mesma “seu centro” (egoísmo), mas aberta diante de Deus e do próximo. A renúncia não tem seu fim em si mesma. A renúncia é a condição de uma vida em plenitude. A própria vida se converte em uma vida de entrega com a possibilidade de sofrimento (cruz) sem nenhum tipo de gratificação humana, pois a vida se entrega unicamente Àquele que é capaz de dar sentido. Somente a pessoa que não se fecha ou não se encerra em si mesma pode verdadeiramente realizar em plenitude sua própria vida em Deus.


Por isso, renunciar a si mesmo não significa uma resignação cansada diante da vida nem uma “entrega dos pontos” nem por falta de opções. Antes de tudo significa a libertação da própria liberdade do egoísmo a que estava atada e que agora se entrega inteiramente a Deus. O seguidor é chamado a colocar o próprio eu no centro do interesse do Reino de Deus. O centro de sua vida está doravante na vontade de Deus, manifestada para ele na pessoa e na missão de Jesus Cristo. E esta entrega tem de ser livre para poder ser feita na alegria, no entusiasmo e na generosidade. O seguidor é chamado à renúncia, a arriscar a própria vida, porque só assim poderá, como Cristo, chegar à glória que é a meta de todo caminho da cruz. Mas toda renúncia deve ter como base o amor. O sacrifício, a renúncia de si mesmo que não seja animado pelo amor, que não seja uma manifestação de amor, que não seja uma expressão de doação de si mesmo, que não leve à comunhão com os outros é apenas uma tortura auto-infligida. A renúncia que Jesus pede não é uma ação negativa. Ele pede amor, doação de si mesmo. Tudo tem que ser feito por amor. Sem o amor, viveremos uma vida dupla. E este tipo de vida, não traz a alegria verdadeira nem para si nem para os outros. Renunciar a si mesmo é que faz qualquer um discípulo ou seguidor de Jesus. Renunciar é saber abrir mão de tantos interesses pessoais em função do bem comum ou do bem de todos. Por isso, a renúncia é enriquecedora. Em cada renúncia crescemos na direção do bem. Quem não aprender a renunciar, infantiliza-se.
  

A segunda condição é o “carregar a sua cruz”: “Se alguém quer me seguir, tome a sua cruz e me siga” (v.24b). Ser cristão não significa curtir a dor. “Carregar a cruz” é uma expressão que os primeiros cristãos utilizaram muito para expressar sua união com Jesus na sua morte e ressurreição. É uma expressão relacionada ao mistério pascal de Jesus Cristo. A cruz de Jesus é o maior sinal de seu amor por nós.


Viver  fielmente os ensinamento de Jesus pode ter consequências de sofrimento. Quem vive de acordo com a justiça e a honestidade, será perseguido por quem vive na corrupção, na desonestidade e na injustiça. Ser verdadeiro seguidor de Jesus jamais será isento de sofrimento ou cruz. Não dá para parar de sofrer. A Igreja de Jesus é a Igreja dos mártires. A cruz é a consequência de colocar o bem acima de qualquer interesse pessoal. É uma morte do eu para que o outro possa viver. Jesus pede ao seguidor o esvaziamento total de si mesmo, até a morte física, se for preciso. Quem não tiver esta disponibilidade, ainda não é verdadeiramente seguidor de Cristo. Todo aquele que quer seguir a Jesus incondicionalmente deve estar pronto para percorrer todos os passos da Paixão, pois o “mundo” tenta crucificar e eliminar os seguidores de Cristo por todos os meios, como aconteceu com Jesus.
    

Depois dessas condições, Jesus mostra os motivos em forma de ditos paradoxais.
   

Em primeiro lugar Jesus afirma que quem busca egoisticamente, a todo custo, usando quaisquer meios, aproveitar, gozar e conservar a própria vida acaba desperdiçando-a e perdendo-a: “Pois quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la”.  (Mt 16,25; cf. Mt 10,39; Mc 8,35; Lc 9,25;17,33; Jo 12,25).


Nossa vida não é feita para ser guardada e sim para ser entregue e doada. Amar não é “sentir emoção”, não é desejar possuir o outro. Amar é esquecer-se de si mesmo para dar-se ao outro. Isso supõe muita renúncia. Toda vez que alguém tomar para si o outro, ele deixa de amá-lo. Não podemos dizer que amamos o outro quando queremos dizer somente para desfrutar do outro. Isso seria apenas amar a nós mesmos. Amaremos de verdade quando formos capazes de nos renunciar, de nos esquecer, de morrer a nós mesmo em beneficio daqueles aos quais amamos. Quem amou muito e até o fim foi Jesus (cf. Jo 13,1; 15,13). E somos chamados de seguidores de Jesus. Somos cristãos, isto é, somos de Cristo.


Querer guardar para si a própria vida é o caminho mais seguro para perdê-la. Pelo contrário, quem vive em função do serviço desinteressado aos outros na bondade e no amor, ele acaba encontrando a vida na sua plenitude, acaba ganhando a vida eterna. A vida só se encontra, doando-a. O próprio Jesus é o exemplo desta doação. Ele se doou até o fim a Deus e aos homens. O homem muitas vezes somente dá um pouco de sua vida. O verdadeiro cristão se doa tudo por amor.


No v. 26 Jesus repete o paradoxo anterior: “De fato, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, mas perder a sua vida? O que poderá alguém dar em troca de sua vida?” Possuir os bens deste mundo não seria um mal em si mesmo, mas torna-se o maior dos males quando, por causa de tais posses, o cristão é impedido de seguir a Cristo ou de viver os valores do Reino de Deus. Jesus, certamente, rejeitou o “mundo inteiro” que o Tentador lhe oferecera, pois o preço da oferta era a idolatria (Mt 4,8s). “Desapeguemos o coração de todas as criaturas. Quem está agarrado a alguma coisa da terra, ainda que mínima, nunca poderá voar e unir-se todo a Deus” (S. Afonso de Ligório). Ainda que alguém ganhasse o mundo inteiro (riqueza, glória, poder), a vida é efêmera. Em qualquer momento o homem pode encerrar sua existência neste mundo e cessará seu direito de usufruir o que ele ganhou. Podemos possuir as coisas, mas as coisas não podem nos possuir para que seja mantida nossa liberdade interior.  Podemos usar as coisas, mas as coisas não podem nos usar. Na ótica da fé, todas as riquezas do mundo são insignificantes quando o que está em jogo é a vida em plenitude (eterna) que Jesus oferece aos que o seguem.


Jesus nos ensina o caminho do amor. Não há amor verdadeiro sem renúncia. Para amar tem que aprender a sacrificar-se. Quem busca a si mesmo e seus próprios interesses, nunca experimentará o verdadeiro amor que faz feliz a alma. Somente poderemos ser cristãos se nos amarmos uns aos outros (cf. Jo 15,12). Amar de verdade supõe o sofrimento, supõe cruz. uma boa maneira de fazê-lo é servir aos outros ao meu redor com pequenos detalhes e não queixando-me diante dos inconvenientes típicos de cada jornada.
   

O fundamento último da nossa opção pelo seguimento incondicional de Cristo é a certeza, dada pela fé, de que o Filho do Homem virá um dia na sua glória (v.27). Ele terá a última palavra sobre o homem. Essa palavra será uma palavra da graça divina para quem segue a Jesus incondicionalmente por amor. O juízo final torna-se, então, a medida para avaliar a existência histórica e ao mesmo tempo a bússola que orienta a vida do cristão nas escolhas justas e sensatas na vida diária neste mundo.

P. Vitus Gustama,svd