quarta-feira, 26 de agosto de 2015

MARTÍRIO DE SÃO JOÃO BATISTA
SER MÁRTIR DA VERDADE
29 de Agosto

Evangelho: Mc 6,17-29


Naquele tempo, 17 Herodes tinha mandado prender João, e colocá-lo acorrentado na prisão. Fez isso por causa de Hero­díades, mulher de seu irmão Filipe, com quem se tinha casado. 18 João dizia a Herodes: “Não te é permitido ficar com a mulher do teu irmão”. 19 Por isso Herodíades o odiava e queria matá-lo, mas não podia. 20 Com efeito, Herodes tinha medo de João, pois sabia que ele era justo e santo, e por isso o protegia. Gostava de ouvi-lo, embora ficasse embaraçado quando o escutava. 21 Finalmente, chegou o dia oportuno. Era o aniversário de Herodes, e ele fez um grande banquete para os grandes da corte, os oficiais e os cidadãos importantes da Galileia. 22 A filha de Herodíades entrou e dançou, agradando a Herodes e seus convidados. Então o rei disse à moça: “Pede-me o que quiseres e eu to darei”. 23 E lhe jurou dizendo: “Eu te darei qualquer coisa que me pedires, ainda que seja a metade do meu reino”. 24 Ela saiu e perguntou à mãe: “O que vou pedir?” A mãe respondeu: “A cabeça de João Batista”. 25 E, voltando depressa para junto do rei, pediu: “Quero que me dês agora, num prato, a cabeça de João Batista”. 26 O rei ficou muito triste, mas não pôde recusar. Ele tinha feito o juramento diante dos convidados. 27 Imediatamente, o rei mandou que um soldado fosse buscar a cabeça de João. O soldado saiu, degolou-o na prisão, 28 trouxe a cabeça num prato e a deu à moça. Ela a entregou à sua mãe. 29 Ao saberem disso, os discípulos de João foram lá, levaram o cadáver e o sepultaram.
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São João Batista é o único santo de quem a Igreja comemora o nascimento e a morte, pois ele é o Precursor do Senhor. No dia 24 de Junho, a Igreja celebra o seu nascimento, e no dia 29 de agosto comera o dia de sua morte como mártir, decapitado por ordem de Herodes.


Como observação inicial vamos lançar a seguinte pergunta: Por que é introduzido o episodio sobre a morte de João Batista num evangelho cujo tema fundamental é dizer quem é Jesus? A resposta é simples: para continuar explicando quem é Jesus, na realidade que é o objetivo principal do evangelho de Marcos. Aqui o evangelista Marcos toma posição a respeito das opiniões do povo e diz que Jesus não é Elias, enquanto que João Batista o é, como profeta (cf. mc27-30). Já havia insinuado ao descrever João Batista com a vestimenta do profeta Elias (Mc 1,4). Agora, o faz apresentando João Batista que se enfrenta a um rei e sua cônjuge, Herodíades, que intenta eliminar o incômodo profeta, João Batista. Não aconteceu também com o temível profeta Elias contra o rei Acab e Jezabel, sua esposa? (cf. 1Rs 18-19).


No texto do evangelho lido na festa do martírio de João Batista se encontram três personagens principais: Herodes Antipas, Herodíades (e sua filha) e João Batista.


Herodes Antipas era o filho de Herodes chamado o Grande, aquele perseguidor de Jesus-menino que havia mandado degolar os inocentes (Mt 2,13-23). Herodes Antipas reinava, como tetrarca, na Galileia e em Perea desde a morte de seu pai. Ele é descrito como um homem rico e poderoso. Abusa da riqueza e do poder e é arrogante. Ele se entregou totalmente aos prazeres. Enganado por uma bailarina e por sua vingativa mãe, Herodíades, ele se converteu em um assassino de um inocente, João Batista. Desde que a moça dançarina entra na sala, tudo é um crescendo de horror e de pecado, até que o ódio da pecadora, Herodíades, se desafoga vendo numa bandeja a cabeça de João Batista, um homem justo e santo (Mc 6,20).


Herodíades é descrita como assassina sem compaixão. Injustamente se tornou esposa de Herodes Antipas. Herodíades era a mulher de Filipe, irmão de Herodes. Herodes tomou Herodíades por esposa que era proibido pela Lei (Ex 20,17; Lv 18,16;20,21). João Batista não era parcial com os poderosos e denunciou essa injustiça. A mais sensível a essa denúncia é Herodíades, a adúltera. Para Herodíades a denúncia de João Batista feriu seu orgulho e sua soberba. Ela não quer saber da verdade na denúncia de João Batista. Por isso, ela se propõe a acabar com a vida de João Batista. O ódio e a vingança levam essa mulher a procurar todos os meios, utilizando até a própria filha, para eliminar João Batista do seu mundo. Herodíades quer tirar a vida de João, mas há um obstáculo a seu intento: o temor que Herodes sente por João, por ele considerado um homem justo, de conduta agradável a Deus e santo ou consagrado por Deus, profeta.


Perguntamos para nós mesmos: Por que você vira meu inimigo só porque eu falo a verdade sobre você? Por que vergonha? Por que essa reação violenta? A verdade continua sendo verdade mesmo que as pessoas tentem manipulá-la.
 

O dia oportuno é a ocasião propícia para que Herodíades cumpra seu desígnio de matar João Batista. Celebra-se a vida de Herodes, o poder absoluto e com ele a celebram os representantes de todos os possuidores do poder.


Aparece outra personagem, a filha de Herodíades, sem nome, que se define por sua mãe. Sem nome significa não tem personalidade própria. Por isso, ela representa o povo sem vontade própria (o povo submisso) e a mãe representa a classe dirigente ou classe dominante. A moça não tem vontade própria; mostrando sua total dependência, vai perguntar à mãe o que quer que a filha faça. Herodes faz promessa à filha de Herodíades: “Pede-me o que quiseres e eu to darei. Eu te darei qualquer coisa que me pedires, ainda que seja a metade do meu reino”. Mas quem decide é a mãe, que busca só seu próprio interesse: eliminar João (quer a cabeça de João Batista). A maldade só pode produzir a maldade. Mas a maldade não é capaz de enterrar a bondade. O sangue de um mártir é a semente para a Igreja.
  

Marcos sublinha a imaturidade da jovem: entra logo, a toda pressa, sem criticar nem julgar a decisão da mãe nem considerar se era ou não favorável para ela: ela é a escrava de sua mãe, é uma pessoa sem personalidade e sem valores vividos e por isso, sem posição certa na vida. os valores vividos orientam nossa maneira de viver e nossas escolhas na vida. Sem os quais a vida se torna sem rumo e sem objetivos claros.
  

No poder civil há um resto da humanidade: Herodes estimava João Batista e sabe que o que pedem não é só uma injustiça, mas também um desprezo a Deus. Mas um rei sem valores vividos não quer ficar em má situação, pois ele acha que perderia seu prestígio. Herodes Antipas, o covarde, mandou tirar, então, a cabeça de João Batista em nome da vaidade. Um vaidoso é uma pessoa frívola, presunçosa e incoerente. Sem juízo e sem bom senso, ele vive só para aparecer e ser admirado. Na prática, o prazer de um vaidoso não consiste em possuir méritos, mas em saber que os outros o elogiam.


Além de ser vaidoso, Herodes é uma pessoa extremamente orgulhosa. O orgulhoso não se preocupa em conhecer a verdade, mas apenas em ocupar uma posição em que ele possa ser o centro e a norma. Ele pretende que tudo esteja sujeito a si próprio. Ele é prepotente, arrogante, insolente e violento. Seus atos não precisam respeitar moral alguma, mas impõe aos outros normas morais.


Os psicólogos dizem que soberbo, vaidoso, arrogante, presunçoso, endeusado, imodesto, pedante, petulante, narcisista, autossuficiente, envaidecido, presumido são todos sinônimos de uma mesma palavra: orgulhoso. Só de pensar que alguém reúne todos esses qualificativos, essa pessoa já tem ‘má reputação’. Numa pessoa que tem uma personalidade narcisista e desvio de caráter não entra mudança nenhuma. A palavra “autossuficiente” já diz tudo.


Da atitude de Herodes Antipas percebemos que no poder civil, muitas vezes, para não dizer sempre, os interesses do poder estão acima do humano. O evangelho nos relata que da parte dos convidados, não há nenhuma reação: tudo é permitido ao rei, dono da vida de seus súditos. Herodes mandou tirar a cabeça de João Batista. E a jovem dá a cabeça de João Batista à mãe, e ela mesma fica sem nada.
 

De Herodes podemos tirar muitas outras lições. Em primeiro lugar, nunca façamos promessas quando formos dominados por uma grande emoção. Sejamos cautelosos, prudentes, sóbrios em tudo. “Quem não se controla no lícito está em perigo de sucumbir diante do ilícito. Por isso, o sóbrio se abstém da saciedade para não cair na embriaguez”, dizia Santo Agostinho (De ut. Jej. 5,6).  Herodes Antipas tem medo ao mesmo tempo ama João Batista: odeia a mensagem de João Batista, mas incapaz de se livrar da admiração por ele. Mas em nome da vaidade e do poder, Herodes não quer saber da verdade. Herodes não entende que aquele que conhece a verdade e vive de acordo com a verdade é um homem mais livre do mundo (cf. Jo 8,32). Em segundo lugar, nunca podemos agir movidos pelo impulso. Herodes é também um homem que age por impulsos. Dele aprendemos que saibamos pensar antes de falar e de agir. Muitos acham que falar o que pensar seja uma virtude. Mas na verdade a verdadeira virtude é pensar bastante antes de falar. Se o mundo vive reagindo, o cristão deve viver refletindo.


O caso de Herodes e Herodíades é um caso típico de como um pecado leva a cometer outro pecado. Herodes e Herodíades começaram sendo adúlteros e terminaram sendo assassinos. O pecado de adultério levou os dois ao crime, ao assassinato de um santo, de um inocente, de um João Batista. Herodes e Herodíades calaram a santa boca que recordava o dever; calaram a boca do pregador da virtude. Mas a boca que recorda o dever pode ser tirada, mas não o próprio dever tatuado em cada coração. A boca que prega a virtude pode ser calada, mas não a virtude que habita em cada coração que sempre grita diante da desonestidade.


João Batista dizia a clara e franca verdade ao seu ouvinte real (Herodes Antipas), sem importar-se com as consequências: “Não te é permitido ficar com a mulher do teu irmão”. Os deveres de transmitir a verdade para todos são tarefa de cada cristão ainda que esta atitude possa acarretar tremenda impopularidade. Jamais podemos ficar surpresos ao ouvir ou saber que os fiéis ou verdadeiros cristãos sendo caluniados e odiados por causa da verdade e honestidade que eles vivem. Isso não é uma desgraça para os cristãos. Cada cristão foi consagrado no Batismo para testemunhar contra o pecado e tudo que gera a escravidão.  Os deveres de viver de acordo com a verdade e honestidade cabem aos cristãos. Os resultados cabem a Deus. É preciso estar bem unido a Deus para cada cristão ter coragem de fazer tudo isso.


Com o seu exemplo cheio de fortaleza, João Batista nos ensina a cumprir, apesar de todos os obstáculos, a missão de viver de acordo com a justiça, a verdade, a retidão. É viver a função profética de anunciar o bem e de denunciar o mal e a maldade na convivência. Cada um recebeu de Deus essa missão profética através do sacramento do Batismo. João Batista foi um verdadeiro mártir, pois foi morto por cumprir seu dever de viver de acordo com a retidão e a verdade.


Façamos uma pausa e consideremos quantas vezes na história, antes ou depois de João Batista, aconteceu o mesmo fato: que quem denuncia a mentira e defende a verdade, que quem condena o pecado e proclama a virtude, que quem fustiga a injustiça e prega a dignidade humana é a vítima ou o objeto de zombaria e é condenado diante do tribunal do ímpio, mas é glorificado e coroado diante do tribunal de Cristo (cf. Mt 7,21-23; 25,31-46).


Para Refletir:


·        O orgulho é o complemento da ignorância (Bernard de Fontenelle).

·        Se o homem orgulhoso soubesse como parece ridículo perante quem o conhece, por orgulho seria humilde (Mariano Aguiló).

·        A ciência é orgulhosa pelo muito que aprendeu; a sabedoria é humilde pelo que sabe (William Cowper).

·        O conhecimento aumenta nosso poder na mesma proporção em que diminui nosso orgulho (Paul Bernard, Tristão).

P. Vitus Gustama,svd
28/08/2015
 
PROCURAR E VIVER O ESSENCIAL

Sexta-Feira da XXI Semana Comum

FESTA DE SANTO AGOSTINHO

Evangelho: Mt 25,1-13

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos esta parábola: 1 ”O Reino dos Céus é como a história das dez jovens que pegaram suas lâmpadas de óleo e saíram ao encontro do noivo. 2 Cinco delas eram imprevidentes, e as outras cinco eram previdentes. 3 As imprevidentes pegaram as suas lâmpadas, mas não levaram óleo consigo. 4 As previdentes, porém, levaram vasilhas com óleo junto com as lâmpadas. 5 O noivo estava demorando e todas elas acabaram cochilando e dormindo. 6 No meio da noite, ouviu-se um grito: ‘O noivo está chegando. Ide ao seu encontro!’ 7 Então as dez jovens se levantaram e prepararam as lâmpadas. 8 As imprevidentes disseram às previdentes: ‘Dai-nos um pouco de óleo, porque nossas lâmpadas estão se apagando’. 9 As previ­dentes responderam: ‘De modo nenhum, porque o óleo pode ser insuficiente para nós e para vós. É melhor irdes comprar aos vendedores’. 10 Enquanto elas foram comprar óleo, o noivo chegou, e as que estavam preparadas entraram com ele para a festa de casamento. E a porta se fechou. 11 Por fim, chegaram também as outras jovens e disseram: ‘Senhor! Senhor! Abre-nos a porta!’ 12 Ele, porém, respondeu: ‘Em verdade eu vos digo: Não vos conheço!’ 13Portanto, ficai vigiando, pois não sabeis qual será o dia, nem a hora”.
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I.            SANTO AGOSTINHO (28/08)


Neste dia celebramos a festa de Santo Agostinho. Santo Agostinho nasceu em Tagaste (África) em 354. Depois de uma juventude conturbada, converteu-se aos 33 anos em Milão, onde foi batizado pelo bispo Ambrósio. Regressando à sua pátria e eleito bispo de Hipona, desenvolveu uma enorme atividade por meio da pregação e dos seus escritos doutrinais em defesa da fé. Ele é um dos grandes Doutores da Igreja. E é um mestre, teólogo, filósofo, moralista e apologista. Morreu em 430.


Não é fácil falar de nossos próprios defeitos e fraquezas para os outros, muito menos publicá-los. Mas acontece o contrário com o Santo Agostinho. Agostinho é um santo que não tem medo nem vergonha de falar com sinceridade e simplicidade de suas fraquezas e que os publicou como uma confissão num livro se chama “Confissões” de Santo Agostinho.  Neste livro Santo Agostinho mostra a realidade nua e crua de sua alma com sinceridade e simplicidade. Vale a pena ler as confissões de Santo Agostinho!


Santo Agostinho recebeu uma educação cristã de sua mãe, Santa Mônica. Mas essa educação materna e o amor à verdade, que sempre existiu na alma de Agostinho, não o livraram de cair em graves erros e de levar uma vida moral muito afastada de Deus. Mas ele confessou: “Ninguém está tão só do que aquele que vive sem Deus. O homem, para onde se dirija, sem se apoiar em Deus, só encontrará dor”. Por isso ele escreveu: “...fizeste-nos para Ti, Senhor, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em Ti. Dá-me, Senhor, saber e compreender qual seja o primeiro: invocar-te ou louvar-te; conhecer-te ou invocar-te. Mas, quem te invocará sem te conhecer? Por ignorá-lo, poderá invocar alguém em lugar de outro..... Quem o procura, o encontra, e tendo-o encontrado, o louvará. Que eu te busque, invocando-te; e que eu te invoque, crendo em ti: tu nos foste anunciado” (Confissões,I,1). “Quando estiver unido a ti com todo o meu ser, não mais sentirei dor ou cansaço. Minha vida será verdadeiramente vida, toda plena de ti” (X,39).


Depois de ter passado anos em busca da verdade sem encontrá-la, chegou à convicção, com a ajuda da graça que a sua mãe implorou constantemente, de que só em Cristo é que encontraria a verdade e a paz para a sua alma. Finalmente ele se converteu. Ele se lamentou porque tarde demais encontrou Deus: “Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu te amei! Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava do lado de fora... Tu me chamaste, e teu grito rompeu a minha surdez. Tua luz afugentou a minha cegueira. Tu me tocaste, e agora estou ardendo no desejo de tua paz” (Confissões, X,27). “O céu e a terra estão gritando: “Fomos feitos por Deus”.


Tudo isso quer nos ensinar que nada e ninguém é perdido nesta vida, enquanto a nossa fé em Deus continua forte e inabalável em qualquer situação. Santa Mônica e Santo Agostinho são grandes provas de tudo isso. O senhor nunca nos nega a sua ajuda. E se tivermos a desgraça de ofendê-lo gravemente, Ele nos esperará em cada instante, como esperou durante tantos anos pelo regresso de Santo Agostinho a exemplo do filho pródigo que voltou para sua casa.


Outros conselhos de Santo Agostinho:

·        Escuta primeiro ao que fala dentro e desde dentro, fala depois aos que estão fora” (In ps. 139).

·        A ignorância mais refinada é a ignorância da própria ignorância” (Conf. 5,7). “Com relativa freqüência a ignorância põe máscara e capa de simplicidade” (idem 2,9). “O reconhecimento da própria ignorância é a primeira prova de inteligência” (Serm.301,4,3).

·        Quanto mais curioso torna-se o homem por conhecer a vida alheia, tanto mais relaxado se torna para consertar a sua própria” (Conf.10,3). “Quanto menos atenção o homem presta aos seus próprios pecados, tanto mais curioso ele se torna em relação aos alheios. Não podendo desculpar-se a si mesmo, trata de salvar a pele acusando os outros” (Serm.19,2). “Amando ao próximo tu limpas os olho para ver a Deus” (In Joan.17,8). Quanto mais amas, mais alto tu sobes (In ps. 83,10)

·        Não Andes averiguando quanto tens, mas o que tu és (Serm. 23,3). Dentro do coração sou o que sou (Conf. 10,3). Conserve o que tens dentro e não terás de temer nada de fora (In ps. 35,17). O homem não se torna bom por possuir coisas boas. Ao contrário, o homem bom torna boas as coisas que possui, ao usá-las bem (Epist. 130,2,3).

·        O homem não se movimenta pelos pés, mas pelos afetos. Até os próprios pés ele move por afetos (In ps. 9,15). Quanto mais cresce teu amor, maior é tua perfeição. A perfeição da alma é o amor (In epist. Joan. 9,2). Amando o próximo limpas os olhos para ver Deus (In Joan. 17,8). Tempera tua ciência com amor e tua ciência será útil. Não por si mesma, mas pelo amor (In Joan. 18,6). O homem novo canta um cântico novo quando vive uma vida nova, a vida do amor. Cantar é sempre sinal de felicidade e coisa de amantes (Serm. 34,1,1).

 

II.      REFLEXÃO SOBRE O EVANGELHO


Os capítulos 24-25 de Mt constituem o quinto e o último discurso de Jesus neste Evangelho. Este quinto discurso é conhecido como o “Discurso escatológico” (discurso apocalíptico). Mt elabora notavelmente o discurso escatológico de Mc (Mc 13) e o amplia com uma série de parábolas e com uma impressionante descrição do julgamento final (Mt 25,31-46), cuja principal intenção é orientar os cristãos sobre como preparar a vinda do Senhor.
          

A linguagem destes capítulos pode provocar temor. Mas, na verdade, trata-se de uma linguagem apocalíptica que era relativamente freqüente entre alguns grupos judeus e cristãos. Chama-se de linguagem apocalíptica porque tem como objetivo manifestar uma revelação escondida (apocalypsis). Em muitas ocasiões esta revelação é dirigida a grupos ou comunidades que vivem uma situação de perseguição, com a intenção de animá-los e encorajá-los em suas lutas e tribulações. Por isso, não há motivo nenhum de alguém ver nestes textos uma ameaça, e sim, uma mensagem de esperança.


A parábola das dez virgens é uma das mais belas parábolas do evangelho, pois ela nos faz penetrar mais profundamente no coração de Jesus. Jesus é o Prometido. Jesus vem nos encontrar para salvar. Ele quer nos introduzir em sua família.


A vida cristã é uma marcha ao encontro com Alguém que nos ama. Deus ama a humanidade e a humanidade vai ao encontro de Deus. O homem foi criado para a intimidade com Deus, para o intercâmbio de amor com Ele. Mas a visita ou a vinda é imprevista, a hora é imprecisa; não se sabe quando a visita vai acontecer. Por isso, é importante estar vigilante.


Se olharmos do ponto de vista da prudência, pois a parábola trata das cinco virgens prudentes (phronimoi) e outras cinco insensatas (morai), esta parábola nos faz lembrar também da conclusão do Sermão da Montanha que compara um homem néscio a um homem prudente (Mt 7,24-27). Na literatura sapiencial o prudente é aquele que age de acordo com as exigências de Deus; o insensato, ao contrário, age conforme sua própria cabeça (cf. Ecl 2,12-17). Da conclusão do Sermão da Montanha sabemos que um que é néscio construiu a casa sobre a areia e o outro que é prudente sobre a rocha. A casa do néscio desmoronou, pois sem nenhuma base sólida, enquanto a do outro fica firme diante da tempestade, pois foi construída sobre a rocha.


Na parábola das dez virgens encontra-se novamente o contraste entre prudente e néscio. Sabemos que a prudência determina o que é necessário escolher e o que é necessário evitar.  Ela separa a ação do impulso, o essencial do secundário. “A prudência é um amor que escolhe com sagacidade”, dizia Santo Agostinho.


A palavra “prudência” provém do latim “prudens-entis” que, na acepção própria, significa precavido, competente. Prudência é virtude que faz prever, e procura evitar as inconveniências e os perigos; cautela, precaução. A prudência é a capacidade de ver, de compenetrar-se e de ajustar-se à realidade. A prudência oferece a possibilidade de discernir o correto do incorreto, o bom do mau, o verdadeiro do falso, o sensato do insensato a fim de guiar o bom rumo de nossas ações. O prudente jamais se precipita no falar nem no agir sem conhecimento da causa ou da realidade. Tendo conhecimento da causa ou da realidade ele fala com cautela. A prudência é a faculdade que nos permite vermos e aprendermos a realidade tal como é. A prudência é o modo de viver dos sábios, pois o homem sábio é sempre guiado pela prudência. Por isso, o sábio dificilmente machuca os outros.


As cinco virgens levam o azeite suficiente, pensando na chegada atrasada do noivo, enquanto que as outras cinco não pensam nisso. Como é importante estar preparado, tanto para as surpresas agradáveis como para as desagradáveis na vida. Mas muitas vezes somos pegos de surpresa. O azeite é a Palavra de Deus vivida no dia a dia que se resume no amor. Diz Santo Agostinho: “Coisa grande, verdadeiramente muito grande significa o azeite (óleo). Só pode ser amor”.


Nesta parábola lemos que as cinco virgens insensatas gritam: “Senhor! Senhor! Abre-nos a porta!” (v.11). Mas a porta continua fechada. Quem vive segundo a Palavra de Deus tem a chave na mão para abrir a porta (do céu). As palavras da profissão “Senhor, Senhor” só salvam quem as professa, se ele viver de acordo com essa profissão. Chamamos e professamos Deus de Senhor porque queremos que ele assenhore nossa vida, e guie nossos atos e decisões, que ele seja o centro de nossa vida, que a vontade dele prevaleça na nossa vida, pois tudo que Deus quer é só salvar. Quem de nós não quer ser salvo? 
             

As cinco virgens prudentes estão de prontidão e prestam atenção às coisas essenciais. Enquanto que as cinco insensatas pensam em tudo, menos naquilo que é essencial, ou, de fato, tem importância. Há pessoas que perdem o rumo por causa das coisas efêmeras e não se lembram dos valores autênticos como caridade, justiça, paz, verdade, retidão, honestidade, reconciliação etc. pelos quais vale a pena comprometer-se. O homem é tão ocupado com as mil coisas que não deixam mais do que efêmeras satisfações que se esgotam logo que se produzem. Um sábio diz que há esquecimento por falta de memória, mas há esquecimento por falta de amor. Esquecemos Deus não por falta de memória, mas por falta de amor para com ele. Quando lhe convém, o homem esquece que é cristão(Santo Agostinho. In ps. 21, 2,5)


O que nos chama a nossa atenção é o aparente egoísmo e aparente falta de solidariedade das cinco virgens prudentes que não dividiram seu azeite para as insensatas, e a aparente falta de amor do noivo que não abriu a porta para as cinco insensatas também chama a nossa atenção. A parábola quer destacar uma responsabilidade pessoal que não é substituível por ninguém diante de Deus no fim dos tempos. Ninguém pode prestar contas em nome de outra pessoa diante de Deus nesse momento. Cada um é único diante do Deus único. As qualidades interiores, as qualidades do espírito que temos ou não as temos, não podem ser emprestadas ou repartidas diante da seriedade do momento. É insubstituível o compromisso pessoal da vigilância.


O juízo particular é tema que desperta não só responsabilidade, mas também esperança e otimismo. Deus não empurra ninguém para o céu ou para o inferno. É a própria pessoa quem decide sobre isso durante sua vida. Não é uma sentença divina que vai declarar a pessoa culpada ou inocente, e sim é o modo de vida da pessoa que vai condicionando sua opção por Deus. “Nunca esqueças: a única razão para ser cristão é a vida eterna” (Santo Agostinho. De civ. Dei 5,25). “Põe na terra as coisas terrenas, mas teu coração, no céu” (Santo Agostinho. In Joan. 18,6).Buscas a Deus na Igreja, ou buscas a ti mesmo?” (Santo Agostinho. Serm. 137,9).
 
Pe. Vitus Gustama,svd

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

27/08/2015
ESTEJAMOS VIGILANTES

Quinta-Feira Da XXI Semana Comum
 
SFESTA DE ANTA MÔNICA
 

Evangelho: Mt 24,42-51


Naquele tempo disse Jesus aos seus discípulos: 42 “Ficai atentos! porque não sabeis em que dia virá o Senhor. 43 Compreendei bem isso: se o dono da casa soubesse a que horas viria o ladrão, certamente vigiaria e não deixaria que a sua casa fosse arrombada. 44 Por isso, também vós ficai preparados! Porque na hora em que menos pensais, o Filho do Homem virá. 45 Qual é o empregado fiel e prudente, que o senhor colocou como responsável pelos demais empregados, para lhes dar alimento na hora certa? 46 Feliz o empregado, cujo senhor o encontrar agindo assim, quando voltar. 47 Em verdade vos digo, ele lhe confiará a administração de todos os seus bens. 48 Mas, se o empregado mau pensar: ‘Meu senhor está demorando’, 49 e começar a bater nos companheiros, a comer e a beber com os bêbados; 50 então o senhor desse empregado virá no dia em que ele não espera, e na hora que ele não sabe. 51Ele o partirá ao meio e lhe imporá a sorte dos hipócritas. Ali haverá choro e ranger de dentes”.

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I. Santa Mônica
 
Também celebramos hoje a festa de Santa Mônica, mãe de Santo Agostinho (a festa de Santo Agostinho no dia 28 de agosto). Ela nasceu em Tagaste, África, em 331, de uma família cristã. Ainda muito jovem casou-se com Patrício, legionário pagão, com quem teve três filhos: Agostinho, Navígio e uma filha (que morreu como superiora do mosteiro de Hipona, em 424).
       
A vida de Mônica não foi muito tranqüila, mas terminou feliz. Em primeiro lugar, ela teve aflições pelo marido. Ela suportou infidelidades conjugais, sem jamais hostilizar, demonstrar ressentimento contra o marido por isso. Além disso, o marido era um homem de comportamento esquentado. Mônica se mostrava calma e paciente por causa de sua vida espiritual profunda. “Depois que ele se refazia e acalmava, ela procurava o momento oportuno para mostrar-lhe como se tinha irritado sem refletir”, escreveu Santo Agostinho sobre sua mãe, Mônica, diante do marido, Patrício (Confissões, IX,19). Era assim que ela conquistava o marido.  O que tem por trás disso é a fidelidade de Mônica a Deus dia a dia. Por isso, Mônica teve a consolação de levar o marido à fonte batismal em 371, um ano antes da morte dele.
       
Após a morte do marido, Patrício, Mônica se viu sozinha diante da conduta desordenada do filho Agostinho, que aos 16 anos abandonou a vida digna de um filho de Deus. Trata-se de outra aflição que Mônica tinha. Agostinho era um filho rebelde à graça de Deus, inteligente, mas indiferente. Por ele, Mônica rezou e chorou. Ela suplicou a Deus com insistência e não cansou de pedir a ajuda das pessoas sábias. Um dia ela pediu o conselho do bispo Ambrosio de Milão (festa 07/12). Dele ela recebeu esta resposta: “Vai em paz, mulher, e continua assim; não te preocupes, contenta-te com rezar por ele; é impossível que perca o filho de tantas lagrimas”. Esse pensamento se expressa na coleta da festa: “Ó Deus, consolação dos que choram, que acolhestes, as lagrimas de Santa Mônica pela conversão de seu filho, Agostinho....”. Mônica mais uma vez alcançou a graça de ter conseguido de Deus a conversão de Agostinho. Agostinho recebeu o batismo em 387.
       
Mônica e Agostinho passaram juntos o verão na Itália, aguardando a partida de Mônica para a África. As últimas palavras de Mônica para Agostinho eram estas: “Meu filho, quanto a mim, não existe nada que me atraia nesta vida. Nem sei mesmo o que estou fazendo aqui, e por que ainda existo. Uma única coisa que me fazia desejar viver ainda um pouco era ver-te católico antes de eu morrer. Deus me concedeu algo mais e melhor: ver-te desprezar as alegrias terrenas e só a Ele (Deus) servir. Por isso, o que é que estou fazendo aqui?” (cf. Confissões, 25). “Maravilhados diante da coragem dessa mulher (Mônica), dádiva tua, perguntaram-lhe se não tinha medo de deixar o corpo longe de sua cidade natal. E ela respondeu: ‘Para Deus nada é longe, nem devo temer que no fim dos séculos ele reconheça o lugar onde me ressuscitará’”, recordou Santo Agostinho (Confissões, 28).
 
E dentro de pouco tempo ela morreu (em Óstia) antes de embarcar de volta à pátria. Era o ano de 387 e tinha 56 anos de idade. “Pelo nono dia de doença, aos cinqüenta e seis anos de idade, quando eu tinha trinta e três, essa alma fiel e piedosa libertou-se do corpo. Fechei-lhe os olhos, e uma tristeza infinita invadiu-me a alma. Estava prestes a transbordar em torrentes de lágrimas”, assim escreveu Santo Agostinho sobre a morte de sua mãe, Mônica (Confissões, 28-29).
       
Agostinho ficou tão admirado pela virtude de sua mãe, Mônica, até chegou a escrever: “Não quero calar os sentimentos que me brotam na alma a respeito de tua serva, que me deu a vida temporal segundo a carne e que, pelo coração, fez-me nascer para a vida eterna”. (Confissões IX, 17). No seu livro “Confissões”, Agostinho dedicou o cap. IX para falar da virtude de sua mãe, Mônica.
       
Creio que muitas mães de hoje, que sofrem pela mesma causa ou outras causas, vêem-se em Santo Mônica e se identificam com ela. Mônica quer dar a mensagem de esperança para todas as mães sofredoras que continuem a acreditar em Deus e permaneçam na oração serena. Deus pode tardar, mas nunca falha. É preciso aprendermos a viver ao ritmo de Deus, pois com Sua sabedoria infinita Deus dá o que nos é digno no tempo certo. É importante mantermo-nos fieis até o fim. E o próprio Jesus afirma: “E Deus, não faria justiça a seus eleitos que clamam a Ele dia e noite, mesmo que os faça esperar?” (Lc 18,7).
 
II. Evangelho

 
 
Não enganes a ti mesmo. Gostes ou não, não és mais que um convidado, um transeunte, um peregrino neste mundo. Podes, pois, adoçar teu caminho; porém, por mais que queiras, não poderás converter-te em residente (Santo Agostinho. In ps. 120,14)


O conjunto de Mt 24,1-25,46 forma o quinto Discurso de Jesus no evangelho de Mateus: o Discurso sobre o fim do mundo. Trata-se de um discurso apocalíptico-escatológico.


O termo “apocalipse” é muito longe da linguagem moderna que suscita imediatamente idéias de catástrofe, de desastre total, de comoções cósmicas aterradoras. No entanto, a linguagem apocalíptica quer expressar a fé e a esperança numa orientação divina da história humana e da criação. Os autores de apocalipses, diante do desenvolvimento de fatos inevitáveis, de catástrofes, de ruínas e de mudanças históricas, cantam sua esperança no cumprimento das promessas movidos pela fé no triunfo de Deus, aparentemente impossível, porém seguro: Deus triunfará sobre o mal. Conseqüentemente eles querem transmitir a força, o ânimo e a perseverança em seguir os mandamentos do Senhor, pois no fim a última palavra será a Palavra de Deus e não a do homem.


Na primeira parte do quinto discurso de Jesus (Mt 24,4-41), ao revelar o futuro dos discípulos, um futuro “presente”, Jesus quer ajudá-los a entender como devem viver na história a missão que lhes é confiada para pregar o Evangelho do Reino a todas as nações (24,14; 28,18-20), confiando em Sua Palavra (Mt 24,25).


O quinto discurso é chamado também de “o discurso escatológico”. “Escatologia” é o discurso sobre o que ocorrerá no fim. Quando falamos de realidades futuras e finais (escatologia), o texto assinala duas expressões: “Vinda do Senhor” e “Fim do mundo”. Quando intentamos a viver à espera do encontro com o Senhor, que terá lugar para o final da história, então dizemos que estamos dando um “sentido escatológico”  para nossa existência. O mandato será: “Vigiai porque não conheceis nem o dia nem a hora”. O discurso termina falando do “encontro” com o Senhor glorioso (Mt 25,31-46).


O texto do evangelho de hoje começa com a seguinte ordem: “Ficai atentos! Porque não sabeis em que dia virá o Senhor”. Esta é a mensagem que a Palavra de Deus dirige a cada um de nós hoje. “Ficai atentos! Estejais vigilantes!”. Por um lado, é a certeza da vinda-regresso do Senhor. Por outro lado, a incerteza do “quando” desta vinda. Esse fato põe, de manifesto, a importância do tema sobre a vigilância. São João Crisóstomo dizia: “Se os homens conhecessem o momento de sua morte, eles se preparariam com grande empenho e cuidado para essa hora”. Jesus nos disse isto com parábolas que encontramos neste quinto discurso.


“Ficai atentos! Porque não sabeis em que dia virá o Senhor”. Ficai atentos! Estejam vigilantes! Velar ou vigiar, em sentido estrito, significa renunciar ao sono da noite para terminar um trabalho urgente e importante ou para não ser surpreendido pelo inimigo. Em um sentido mais simbólico significa lutar contra a negligência para estar sempre em estado de disponibilidade. É viver uma vida atenta à voz do Senhor e vigilante diante dos sinais da realidade.


Vigiar significa não distrair-se, não adormecer-se. Vigiar faz parte inseparável da própria atenção. O cristão não pode ser alienado. Ser vigilante faz parte do discipulado. Quem é vigilante nota com facilidade o que está acontecendo ao redor. A vigilância é a atitude própria do amor que vela. O amor mantém o coração alerta e a disponibilidade para ajudar. No meio de uma sociedade que parece muito contente com os valores que tem, o cristão é convidado a viver na esperança vigilante. Vigiar significa ter o olhar posto nos “bens de cima”. Vigiar é viver despertos, em tensão, mas não com angústia e sim com seriedade. O cristão precisa se esforçar por buscar sempre as “coisas do alto”, os valores que o edificam e salvam, como a fraternidade, o amor, a solidariedade, o projeto de Deus, entre “as coisas de baixo”, como egoísmo, ganância, exploração, arrogância, ódio e assim por diante. Em outras palavras, nós cristãos temos que ser protagonistas não somente da espera do Reino, mas também de sua construção desde agora neste mundo.


A vigilância perseverante nos leva a ser considerados bem-aventurados pelo Senhor quando vier: “Feliz o empregados cujo senhor o encontrar agindo assim quando voltar” (Mt 24,46). Será que o Senhor vai me considerar bem-aventurado quando ele chegar? É a pergunta que nos faz vigilantes e nos faz revermos nossas atitudes. Estou suficientemente atento e disponível para escutar os sinais, através dos quais Deus me apresenta as suas propostas?.


A vigilância, para um cristão, não é opcional. O futuro de cada homem é imprevisível. A imprevisibilidade do futuro reclama vigilância. O homem prudente, sensato não considera a atitude vigilante como algo simplesmente possível, uma entre outras muitas opções. A vigilância é a melhor opção. Vigiar para ser capazes de dominar os acontecimentos, no lugar de ser dominados por eles. Vigiar para não perder jamais a paz. Vigiar para descobrir a escritura de Deus nas páginas da história. Vigiar para saber descobrir a ação do Espírito no nosso interior. Vigiar para manter íntegras a fé, a esperança e a caridade. A vigilância não é um opcional e sim uma necessidade vital. Vigiar é viver como o lavrador que semeia e está sempre pensando em ter boa colheita, e como o desportista que, desde o primeiro esforço, sonha em chegar primeiro à meta.


Um cristão não pode ser nem estar alienado. Ele deve estar em alerta constante, sempre pronto para a ação, e preparado para servir dia e noite. Servir para o cristão não é opcional, é lei constitutiva da vida cristã. O Senhor voltará com toda segurança no nosso encontro derradeiro. O discípulo não pode ficar adormecido. Ele deve permanecer alerta, sempre em tensão e em atenção. Somente assim ele assegurará a comunhão com o Senhor no gozo e no amor.


É sábio quem vive na vigilância permanente e sabe olhar para o futuro. Não é porque não saiba gozar da vida presente e cumprir suas tarefas de hoje e sim porque sabe que é peregrino nesta vida e o importante é assegurar-se sua continuidade na vida eterna. É viver com uma meta e uma esperança. Por isso, o trabalho neste mundo para o cristão é um compromisso pessoal para transformar-se a si mesmo e para transformar o mundo em que vive.


A fé é sempre um êxodo, uma saída, o começo de um caminho até o futuro de Deus que nos traz a salvação. Quem crê está sempre de passo, vive como um estrangeiro, como um nômade. Assim viveu Abraão, inclusive na terra que Deus lhe havia prometido (Gn 17,8; 20,1; 21,23; 24,37). A “terra prometida” é o símbolo da cidade futura, da cidade que Deus constrói para os que a buscam e põem nela toda sua esperança. No campo aberto pela promessa de Deus, o homem de fé se arrisca investindo toda sua vida e gera nova vida sobre sua debilidade ou fraqueza.


O cristianismo não está preocupado pela futurologia que se sustenta nas possibilidades humanas, nas previsões e tendências atuais para prever o futuro, e sim radicalmente pelo futuro que provem da promessa de Deus. Para Deus promessa significa certeza: “As minhas Palavras não passarão”, disse Jesus (Mc 13,31). Para Jesus o depois se inicia como algo já presente no agora. Isto que dizer que já agora temos que viver como viveremos depois, como rezamos no Pai-Nosso: “assim na terra como no céu”.

P. Vitus Gustama,svd
26/08/2015
PUREZA NO CORAÇÃO, RETIDÃO NA AÇÃO

Quarta-Feira da XXI Semana Comum

Evangelho: Mt 23, 27-32

Naquele tempo, disse Jesus: 27 “Ai de vós, mestres da Lei e fariseus hipócritas! Vós sois como sepulcros caiados: por fora parecem belos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e de toda podridão! 28 Assim também vós: por fora, pareceis justos diante dos outros, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e injustiça. 29 Ai de vós, mestres da Lei e fariseus hipócritas! Vós construís sepulcros para os profetas e enfeitais os túmulos dos justos, 30 e dizeis: ‘Se tivéssemos vivido no tempo de nossos pais, não teríamos sido cúmplices da morte dos profetas’. 31 Com isso, confessais que sois filhos daqueles que mataram os profetas. 32 Completai, pois, a medida de vossos pais!”
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 Ai de vós, mestres da Lei e fariseus hipócritas! Vós sois como sepulcros caiados: por fora aparecem belos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e de toda podridão”.


Mais acusações de Jesus contra a hipocrisia dos fariseus e escribas: aparecer por fora o que não é por dentro. Este “ai” tem a mesma finalidade dos “ais” anteriores: desvendar o abismo entre realidade e aparência. A aparência de justiça encobre a realidade de malícia, e por isso, o que aparece por fora é apenas uma hipocrisia.


Antigamente, hipócrita era quem, simulando virtudes, nobres sentimentos e boas qualidades, enganava as outras pessoas no intuito de conquistar a estima delas. Um hipócrita sempre quer parecer bom. Ele refugia na simulação de possuir virtudes. Ele não se preocupa em ser bom, mas em parecer bom. “Onde não há virtude não há retidão”, dizia Santo Agostinho. “A simulação de uma virtude é sacrilégio duplo: une à malicia a falsidade”, acrescentou Santo Agostinho.


Jesus critica duramente a distância que há em nós entre o “parecer” e o “ser”; entre o que deixamos que apareça de nossa vida e o que ocultamos. Se alguém falar muito de si pode ser uma forma de se ocultar. “Quem não sabe julgar o que merece crédito e o que merece ser esquecido presta atenção ao que não tem importância e se esquece do essencial” (Buda). Jesus quer que tenhamos o mesmo cuidado tanto de nossa aparência como de nosso interior. A dignidade da pessoa humana não consiste em parecer bom, mas em ser bom. De uma pessoa de bondade só saem as coisas boas. Mas um coração não convertido nunca produz frutos bons para a convivência.


Para denunciar a hipocrisia dos mestres da Lei e dos fariseus, Jesus serve-se, no evangelho de hoje, de uma expressão forte. Ele chama os fariseus e escribas de “sepulcros caiados”: belos por fora, cheios de podridão por dentro.


Os sepulcros, na cultura judaica, eram cuidadosamente pintados de branco, de modo a serem bem visíveis. Desta forma, evitava-se o contato das pessoas com o túmulo e, por extensão, com o cadáver nele sepultado. Se os sepulcros fossem tocados por inadvertência, impedia a pessoa de participar das atividades religiosas, pois ficou impura. É assim o formalismo: pecar sem saber. O formalismo cobre a consciência de que a pessoa está cometendo o pecado.


Jesus compara a vida dos mestres da Lei e os fariseus a um sepulcro. Não adianta querer esconder cadáveres no porão, porque eles acabam cheirando mal. Como sepulcros caiados, eles parecem justos por fora, mas por dentro estão repletos de hipocrisia e de maldade. De que adiantam a beleza exterior e esplendor externo quando há miséria interior?


Mas Jesus não se deixa enganar porque ele conhece o coração de cada ser humano. O olhar de Jesus é o de Deus: não fica na superfície, mas penetra profundamente, atinge o coração e vê o que está no íntimo do homem, a parte mais recôndita da alma. É iníquo quem atua contra a Lei de Deus e tem seu coração longe d’Ele.


O cristão que lê o texto do evangelho de hoje precisa voltar a ler conjuntamente Mt 6,1-6.16-18 onde Jesus disse três vezes aos seus discípulos que não vivam como hipócritas, e precisa ler novamente Mt 7,1-5 onde Jesus chama “hipócrita” o discípulo que espera dos demais o que ele mesmo não quer fazer. Isto significa que o perigo de ser como os fariseus está sempre presente na comunidade.
   

Não estamos isentos do exibicionismo e da hipocrisia dos escribas e fariseus. Se cada um de nós empregar na busca do bem todo o tempo e todas as energias que desperdiça em mendigar os louvores dos outros, talvez tenha a consciência tranqüila e a satisfação de ser admirado. Mas, preferindo os louvores em vez do bem, ele está convulsionando a ordem das coisas e acabará ficando com o coração vazio.


A dignidade da pessoa humana não consiste em parecer bom/boa, mas em ser bom/boa. O verniz encobre o mal, mas não o suprime; um sepulcro pintado de branco parecerá menos lúgubre, mas continuará um sepulcro.


Nós andamos, muitas vezes, preocupados com o que os outros pensam de nós. Mas na verdade devemos trabalhar pela pureza de nosso interior para que nossos atos e ações também sejam puros e não simplesmente para agradar ninguém. E nós mesmos também queremos, muitas vezes, que os outros se comportem como desejamos. Na verdade precisamos estar em sintonia com o querer de Jesus Cristo. Jesus quer que estejamos preocupados com a justiça, a fidelidade e a misericórdia, como ele falou no evangelho do dia anterior.


“Ai de vós, mestres da Lei e fariseus hipócritas! Vós construís sepulcros para os profetas e enfeitais os túmulos dos justos, e dizeis: ‘Se tivéssemos vivido no tempo de nossos pais, não teríamos sido cúmplices da morte dos profetas’. Com isso, confessais que sois filhos daqueles que mataram os profetas. Completai, pois, a medida de vossos pais!”, assim terminou o texto do evangelho de hoje.


Os filhos se julgam melhores, mais inteligentes e mais justos que os pais. Mas na verdade eles são mais perversos e cegos do que seus pais ou antepassados. Por causa dessa perversidade matam os atuais profetas.


Esta última acusação é o ato de ruptura de Jesus com Israel e é um olhar panorâmico sobre toda sua história, uma história de sangue e de recusa contínua de todos os enviados de Deus como se manifestou na parábola dos vinhateiros assassinados (Mt 22,1-14). Mas os contemporâneos de Jesus não se sentem responsáveis: “Se tivéssemos vivido no tempo de nossos pais, não teríamos sido cúmplices da morte dos profetas”. No entanto, sua atuação é uma hipocrisia total, pois eles repetem o passado e enterram para sempre a voz dos profetas que se faz ouvir em Jesus e estão prontos para enterrar a voz de todos os enviados de Jesus, matando-os. Desta maneira, eles completam a obra de seus pais.Os contemporâneos de Jesus fingem ser bonzinhos, mas seu coração está cheio de maldade que se manifesta no assassinato dos enviados de Deus.


A pergunta que cada um de nós deve fazer, como mensagem do evangelho deste dia: “Será que nossa aparência de piedade é autêntica/verdadeira ou falsa?”. O nosso modo de viver é que vai dar a resposta exata para esta pergunta. Porque é que você vira inimigo de alguém quando ele fala a verdade? A mentira dói, mas a verdade liberta. É tão prazeroso viver com o coração limpo, pois podemos ter um sono sadio, a leveza para viver e lutar diariamente. Devemos estar conscientes de que qualquer manipulador ou hipócrita trabalha para adormecer sua vítima. A vítima somente perceberá mais tarde que ele estava sendo manipulado. O manipulador ou hipócrita sempre usa palavras sedutoras. O manipulador ou hipócrita  sempre quer controlar a vida de suas vítimas. Para isso ele usa toadas as armas para convencer. Aprender a nos cuidar é um trabalho difícil, mas não impossível e devemos fazê-lo. Devemos aprender a distinguir o que nos faz bem do que nos faz mal para podermos escolher corretamente. Saber escolher bem é não sacrificar nossa dignidade.

P. Vitus Gustama,svd