quinta-feira, 3 de setembro de 2015


NATIVIDADE DE MARIA, NOSSA SENHORA
08 De Setembro

Dia Da Fundação Da Congregação Do Verbo Divino


Evangelho: Mt 1,18-23

18 A origem de Jesus Cristo foi assim: Maria, sua mãe, estava prometida em casamento a José, e, antes de viverem juntos, ela ficou grávida pela ação do Espírito Santo. 19 José, seu marido, era justo e, não querendo denunciá-la, resolveu abandonar Maria em segredo. 20 Enquanto José pensava nisso, eis que o anjo do Senhor apareceu-lhe, em sonho, e lhe disse: “José, Filho de Davi, não tenhas medo de receber Maria como tua esposa, porque ela concebeu pela ação do Espírito Santo. 21 Ela dará à luz um filho, e tu lhe darás o nome de Jesus, pois ele vai salvar o seu povo dos seus pecados”.  22Tudo isso aconteceu para se cumprir o que o Senhor havia dito pelo profeta: 23 “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho. Ele será chamado pelo nome de Emanuel, que significa: Deus está conosco”.


No dia 08 de setembro celebramos a festa da Natividade de Nossa Senhora. Nada nos diz o Novo testamento sobre o nascimento de Maria. Nem sequer nos dá a data ou o nome de seus pais, ainda que segundo a lenda eles se chamavam Joaquim e Ana. Segundo a Tradição, a Virgem, Mãe do Senhor, nasceu em Jerusalém. A Liturgia oriental celebra o nascimento de Maria cantando poeticamente que este dia é o prelúdio da alegria universal em que começaram a soprar os ventos que anuncia a salvação. por isso, nossa liturgia nos convida a celebrarmos com alegria o nascimento de Maria, pois dela nasceu o Sol de justiça, Cristo Nosso Senhor.


Tudo o que sabemos a respeito do nascimento de Maria se encontra no evangelho apócrifo de Tiago segundo o qual Ana, sua mãe, se casou com um proprietário rural chamado Joaquim, Galileu de Nazaré. Joaquim significa “o homem a quem Deus levanta”. Descendência da família real de Davi. Levavam já vinte anos de matrimonio e o filho tão sonhado não chegava. Os hebreus consideravam a esterilidade como uma prova do castigo do céu. Eram, por isso, menosprezados. No Templo, Joaquim ouvia as murmurações sobre os dois (Joaquim e Ana) como indignos de entrar na casa de Deus. Ana intensificou suas orações, implorando a graça de ter um filho. Joaquim e Ana foram premiados com o nascimento de uma filha única, Maria. Nasceu uma santa, fruto do presente de Deus pelas orações assíduas de Joaquim e Ana.


Maria, cheia de graça (Lc 1,28), vivia com perfeita filha de Deus, entre homens que havia perdido a filiação divina por causa pecado. Maria como cheia de graça não pecou jamais.


Esforcemo-nos a viver como Maria, criança, adolescente, jovem, mãe carinhosa e solícita, trabalhadora, paciente na pobreza, nas perseguições e humilhações e nas adversidades. Educadora com a palavra e a vida de seu Filho, de seus filhos e filhas que somos nós todos. Assim seremos motivo de consolo, de força e de gozo para todos ao nosso redor.


A festa da natividade de Maria é uma das festas mais arraigadas na tradição popular cristã, pois o que se contempla biblicamente é o esplendor da aura, do nascimento, do auge da maternidade do Redentor que nos salva. Maria é, hoje, com efeito, como a aurora que anuncia a aparição do Sol da justiça, da vida, do amor. No plano de Deus, Maria faz parte dos segredos de Deus, e será a mulher que acompanha o Messias em seu caminho de salvação de toda a humanidade.


Esta festividade nos situa no marco de uma história na qual surge a ação divina a partir de baixo e proclama a fé num Deus que não tarda em cumprir Suas promessas. A partir deste acontecimento o cristão descobre em cada momento um momento de salvação. O krónos (tempo medido pelos segundos) se transforma em kairós (tempo da graça divina). O tempo é carregado da ação salvífica de Deus. A história carrega consigo os sinais de Deus que o ser humano precisa decifrar seu sentido. Deus atua em cada passo do campo humano de cada dia suscitando homens e mulheres, como Maria, Mãe do Senhor, que fazem possível e sacramental o atuar de Deus em função da salvação da humanidade. Assim foi Maria, com seu nascimento, fez possível a ação de Deus no mundo. De fato, percebemos que Deus não abandona a humanidade.


Nos textos litúrgicos escolhidos para honrar hoje a Maria não se fala na natividade de Maria: um fato que ficou no anonimato. Nos desígnios de Deus, a humildade, o silêncio, o passar desapercebido, é uma atitude habitual. Somente os acontecimentos posteriores vão iluminando em cada passo o mistério escondido no nascimento.


A liturgia se fixa no grande acontecimento da natividade de um Menino, de um Eleito, Predestinado: Jesus que, provindo da casa e da família de Davi, dá cumprimento a quanto na Bíblia se disse sobre o Messias, o Salvador.


Mesmo assim, pelos mesmos textos que nos propõe a liturgia desta festa não cabe dúvida de que existe uma estreita relação entre nascimento de Jesus e o de Maria. A importância desta festa é assinalada pela figura e pelo papel desta Mulher. Por seu “Sim” ao projeto de Deus, por seu amor e seus cuidados, por sua fé no Deus libertador é que Deus põe nela Sua morada. E por sua esperança é que Maria encarna as esperanças de seu povo.


Para explicar a origem de Jesus, no evangelho lido neste dia, o evangelista Mateus emprega um recurso literário utilizado na antiguidade que é a genealogia. As genealogias serviam para conhecer os antepassados de uma pessoa, e isto era de suma importância na cultura dos povos do oriente antigo, na qual o indivíduo se entendia a si mesmo e era visto pelos demais como parte de um grupo com que estabelecia uma relação de parentela pelos laços de sangue e da carne. A família era o depósito de honra acumulado por todos os antepassados, e cada um de seus membros participava da dita honra e era obrigado a defendê-la.


A intenção de Mateus ao começar seu evangelho com a genealogia é dar a conhecer a ilustre ascendência de Jesus, que se remonta nada menos que a Davi e a Abraão, apresentando-o assim como um personagem muito importante e honrável para os olhos de seus contemporâneos.


Através da genealogia Mateus quer nos dizer que Jesus é da descendência de Davi. Em outras palavras, Jesus é o Filho de Davi. Mais tarde este título sairá da boca dos dois cegos: “Filho de Davi, tem piedade de nós!” (Mt 9,27). E na sua entrada em Jerusalém Jesus será clamado de “Filho de Davi”: “Hosana ao Filho de Davi! Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor. Hosana no mais alto do céu!” (Mt 21,9).   Hosana (hebraico) = Salva, eu te peço! (cf. Sl 118,25).


Mas Mt não pára na identidade de Jesus como “Filho de Davi”. Através deste capítulo primeiro do seu evangelho Mt quer realmente nos mostrar que Jesus é o Filho de Deus, o Emanuel, que ele explicará nos vv. 18-24. Para explicar que Jesus é o Filho de Deus, Mt usa na genealogia a palavra “GERAR”: “Abraão gerou... Jacó gerou... Judá gerou... e assim por diante”.


 A palavra “gerar” na linguagem bíblica significa transmitir não apenas o próprio ser, mas também a própria maneira de ser e de comportar-se. O filho é a imagem do pai. Por esta razão, a genealogia se interrompe bruscamente no versículo 16 para dizer que José não é o pai natural de Jesus, mas apenas é o pai legal: “Jacó gerou José, o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que é chamado o Cristo”. (Nos vv 18-24 Mateus vai explicar detalhadamente esta questão). Isto quer nos dizer que a Jesus pertence toda a tradição anterior, mas ele não é imagem de José. Seu único pai será Deus; seu ser e sua ação vão refletir os do próprio Deus.


A lista de pessoas nesta genealogia contém alguns dos mais significativos nomes como também alguns nomes que têm má fama; contém tanto pecadores como santos.


Dos 14 reis judeus que Mateus elenca entre Davi e a deportação somente dois (Ezequias e Josias) poderiam ser considerados fiéis aos padrões de Deus. O resto não passou de um estranho bando de idólatras, assassinos, incompetentes e adoradores de poder e prodígios. O próprio Davi foi uma surpreendente combinação de santo e pecador. Houve naturalmente o assassínio premeditado do marido de Betsabé (Urias) de modo que Davi pudesse possuir legalmente a viúva.


Mas Deus é aquele que cumpre seus propósitos através daqueles que outros considerariam como não importantes e facilmente esquecíveis. Deus se serve tanto de instrumentos fracos como de instrumentos saudáveis, pois o agente principal da salvação é o próprio Deus.


Além dos reis fracos e pecadores, a escolha de mulheres mencionadas na genealogia é surpreendente. Nada ouvimos ou lemos a respeito das santas esposas patriarcais como Sara, Rebeca ou Raquel. Mt coloca na genealogia quatro mulheres de má fama:

·        Tamar: Uma cananéia, estrangeira que teve caso com o sogro, Judá.

·        Raab: Era uma verdadeira prostituta, mas que protegeu os espiões israelitas que tornou possível a conquista de Jericó (Josué 2).

·        Rute: Foi outra estrangeira, uma moabita que se relacionou com Booz cujo resultado foi o nascimento de uma criança que seria o avô do Rei Davi.

·        Betsabé: É uma vítima da luxúria de Davi, de quem nasceu Salomão, sucederia Davi na monarquia.


Todas estas mulheres tinham, então, uma história conjugal com elementos de escândalo e desespero humano. No entanto, eram instrumentos ativos do Espírito de Deus na continuação da sagrada linha do Messias.


Mateus quer nos relembrar e transmitir um Deus que não hesitou em usar a torpeza tanto quanto a nobreza, a impureza tanto quanto a pureza, homens a quem o mundo ouviu atentamente e mulheres que o mundo censurou. Este Deus continua a trabalhar com a mesma mistura e continua a nos surpreender. Tudo isso mostra que Deus está no comando da história. Ele é o agente principal e o homem é apenas um colaborador.


Deus pode nos usar como Seus instrumentos apesar de sermos pecadores, fracos, incapacitados e assim por diante. Mas que tenhamos uma disponibilidade de Maria para servir esse Deus que nos compreende profundamente nossos defeitos. Servir é uma adoração em ação, é uma continuação da minha adoração. Servir é prestar ajuda sem esperar recompensa e reconhecimento, pois servir significa ser servo e o servo está sempre à disposição de seu senhor. Quem serve com o Espírito de Deus jamais murmura, pois o tempo é precioso para ele. Quem não vive para servir não serve para viver tanto para si próprio como para os demais.


Nesta festa e na Eucaristia o Senhor se dirige a nós através de Sua Palavra pela qual nos convida a nos convertermos em fieis discípulos Seus, conhecendo, escutando Sua Palavra e pondo-a em prática. Ele nos mostrou que a vida da fé não pode limitar-se à oração. Cristo, o Senhor, entrega sua vida por toda a humanidade sem ter em conta classes sociais, etnias nem culturas. Se, nesta celebração do Mistério Pascal de Cristo, nós entramos em comunhão de vida com o Senhor, deixemos que Seu Espírito transforme nossa vida e faça de nós um sinal do amor de Deus nos diversos ambientes em que se desenvolve nossa existência. Deus nos chama a dar a vida para que todos tenham vida e a tenham em abundância a exemplo de Jesus (cf. Jo 10,10). Deus quer que em nosso coração tenha espaço para todos como o coração de Maria que cabe para toda a humanidade que Deus quer salvar.


Desejamos, neste dia 08 de setembro, muitas felicidades e muitas bênçãos para todos os verbitas no mundo inteiro. Hoje a Congregação do Verbo Divino, SVD (Atualmente há 6067 membros no mundo inteiro) faz o aniversário de sua fundação (08/09/1875).


Hoje também celebramos o dia da fundação da SVD (Congregação Do Verbo Divino). Sobre Maria, Mãe de Jesus, a quem tinha muito amor e devoção, Santo Arnaldo Janssen, fundador da SVD no dia 8/9/1875 em Steyl-Holanda (e mais duas congregações femininas: SSpS e SSpS da Adoração Perpétua) dizia: “A relação de Maria com a Santíssima Trindade é a de filha, mãe e esposa. De todas as filhas da terra ela foi a escolhida do Pai celeste. O Filho Eterno a elegeu como mãe para que pudesse assumir a carne humana. O Espírito Santo a amou como esposa e fez dela um vaso santo e eleito das divinas graças. A humildade da Rainha dos Anjos foi uma virtude marcante. Ela que disse: "Eis aqui a escrava do Senhor”. Temos de aprender de Maria, de quem a escritura fala:”Ela guardava todas estas palavras em seu coração”(Lc 2,19)”.


Santo Arnaldo Janssen levava a sério a vontade de Deus, como Maria que se entregou totalmente à vontade de Deus através do seu Fiat, “Faça-se!”: “Que a santa vontade de Deus seja bendita para sempre! Temos que adorar esta vontade e abraçá-la com amor, se queremos agradar a Deus. Peço ao bom Deus que nos permita reconhecer sua santa vontade e nos conceda uma alegre serenidade em cumpri-la”.


”Não são as longas orações e sim as ações generosas que comovem o coração de Deus” (Santo Arnaldo Janssen).


“A confiança é a chave do incomensurável tesouro de Deus. A confiança em Deus é a virtude da qual o missionário deve haurir toda força e todo auxílio. O missionário deve ser um autêntico herói da confiança em Deus” (Idem).


“Quem vive sempre unido a Deus, o mundo lhe pertence e cada dia é um milagre. Quem reza, prende a Terra ao Céu”. (Idem)


”A vontade de Deus é sempre salutar, mesmo quando não corresponde aos nossos desejos”. (Idem)


”O anúncio do Evangelho é a primeira e a mais sublime das obras de caridade”. (Idem)


”Quem reza, prende a Terra ao Céu”. (Idem)


”Sempre é necessário rezar muito. A vida sem oração é o caminho certo para o inferno. E A língua que todos entendem é a linguagem do amor” (São José Freinademetz, um dos dois primeiros missionários da SVD enviados para a China aos 02 de março de 1879). Toda a humanidade que Deus quer salvar.
 
P. Vitus Gustama,svd
07/09/2015
DIGNIDADE DE UM SER HUMANO ESTÁ ACIMA DA LEI NO CRITÉRIO JESUS
SOMOS CHAMADOS A FAZER O BEM

Segunda-Feira da XXIII Semana Comum
 

Evangelho: Lc 6,6-11

Aconteceu num dia de sábado que, 6 Jesus entrou na sinagoga, e começou a ensinar. Aí havia um homem cuja mão direita era seca. 7 Os mestres da Lei e os fariseus o observavam, para ver se Jesus iria curá-lo em dia de sábado, e assim encontrarem motivo para acusá-lo. 8 Jesus, porém, conhecendo seus pensamentos, disse ao homem da mão seca: “Levanta-te, e fica aqui no meio”. Ele se levantou, e ficou de pé. 9 Disse-lhes Jesus: “Eu vos pergunto: O que é permitido fazer no sábado: o bem ou o mal, salvar uma vida ou deixar que se perca?” 10 Então Jesus olhou para todos os que estavam ao seu redor, e disse ao homem: “Estende a tua mão”. O homem assim o fez e sua mão ficou curada. 11 Eles ficaram com muita raiva, e começaram a discutir entre si sobre o que poderiam fazer contra Jesus.
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“Multiplicamos os lugares e coisas sagradas para nos eximirmos de reverenciar o homem, que é o mais sagrado sobre a terra. Rasgamos nossas roupas quando alguém profana um templo, e nos tornamos insensíveis diante da profanação diária do homem. Não endeuse as pessoas notáveis, esquecendo que toda pessoa é sagrada”
(René Juan Trossero, escritor e psicólogo argentino).
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Estamos na parte do evangelho de Lucas onde se encontram cinco discussões ou controvérsias entre Jesus, de um lado, e os fariseus e escribas, do outro lado (Lc 5,17-6,11). Jesus é Aquele que vem para dar o perdão àqueles que O acolhem com fé e simplicidade (Lc 5,17-26). Para os fariseus e escribas quem pode perdoar é somente Deus. Ao perdoar o paralítico, segundo eles, Jesus está blasfemando (Lc 5,21). Jesus é Aquele que vem como “médico” que cura os males e acolhe os pecadores para mostrar-lhes o caminho de Deus, possibilitando-lhes, assim, a conversão (Lc 5,27-32). Os fariseus e escribas não aceitam o comportamento de Jesus ao comer e beber com os cobradores de impostos e os pecadores (Lc 5,30), pois isso mostraria o nivelamento das relações. Para eles os publicanos e os pecadores têm que ser excluídos da convivência, pois são perdidos da Lei de Deus. Jesus é aquele que vai ao encontro dos excluídos. Mas os fariseus e escribas querem manter a os excluídos fora da comunidade. Nas outras três controvérsias Jesus mostra o caminho da liberdade em oposição ao legalismo dos fariseus e escribas: Jesus mostra qual é o significado do verdadeiro jejum (Lc 5,33-39), como deve se comportar diante da vida em jogo (fome e doente) mesmo que esse comportamento esteja contrário à lei sabático (Lc 6,1-11), mostrando que o sábado foi feito para o homem e não o contrário (cf. Lc 6,5). Em nome do homem que necessita da salvação Jesus é capaz de “transgredir” a lei por sagrada que ela pareça ser.


Outra vez Jesus vai à sinagoga com uma finalidade bem precisa: para ensinar (cf. Lc 4,15.16-38; 6,6). Desta vez Jesus encontra na sinagoga um homem com a mão direita seca. A “mão direita seca” é um detalhe importante para o evangelista Lucas. Como em outras ocasiões também desta vez Jesus toma a iniciativa para entrar em contato com o homem enfermo (com a mão direita seca). Os fariseus ficam de olho em Jesus para ver se Jesus ai curar o enfermo no dia de Sábado, dia sagrado para os judeus. Diante do seu olhar incriminador e clínico Jesus lança a seguinte pergunta: “O que é permitido fazer no Sábado: o bem ou o mal, salvar uma vida ou deixar que se perca?”. Os fariseus sabiam das exceções nas quais a Lei pode ser violada quando a vida está em perigo. Todos sabem que a omissão do bem é um mal. Não praticar o mal não significa que alguém pratique o bem. Mas quem pratica o bem se afasta do mal. É fácil odiar o mau por ser mau. O difícil é amá-lo por ser homem” (Santo Agostinho. Epist. 153,3).


Não é fácil suportar na terra Aquele que declara o fim da falsidade, da opressão, do legalismo, da exclusão, da religião fácil e cômoda, da religião que se preocupa apenas com as regras ou com os preceitos e não com a necessidade vital de um ser humano. É muito difícil aceitar alguém como Jesus que coloca a pessoa humana acima de qualquer lei religiosa e de qualquer atividade quando sua vida, principalmente está em perigo ou está sendo ameaçada. O “defeito” de Jesus é fazer o bem para qualquer pessoa e em qualquer situação e lugar sem se preocupar com a lei religiosa ou comentários dos outros. Jesus passou a vida fazendo o bem, pois “Deus estava com Ele”, assim disse Pedro na sua pregação (At 10,38). Em nome do bem que deve ser realizado Jesus não quer saber das leis por sagradas que elas pareçam ser nem quer saber se o dia é o de preceito ou não. Em nome de um ser humano necessitado de libertação, Jesus não quer saber das conseqüências por graves que elas sejam como a morte na cruz. Em nome de um ser humano necessitado de libertação Jesus é capaz de “transgredir” uma lei que para o ser humano é sagrada. Para Jesus o que é sagrado é o ser humano, pois ele é o filho de Deus e é o templo do Espírito Santo (1Cor 3,16-17).


Por isso, aquele que é marginalizado e excluído é colocado no meio (Lc 6,8). Ao ser colocado no meio, o homem necessitado se torna centro para todos. Como se Jesus quisesse dizer aos presentes: “Em tudo o ser humano deve ser levado em consideração e deve ser o foco de qualquer atividade. O ser humano está acima da lei. A leu existe para o ser humano”.  Aquele que estava à margem segundo os critérios da sociedade, está no meio pelos critérios de Jesus. E Jesus o curou mesmo sendo num sábado, o dia sagrado para os seus contemporâneos. Para Jesus a libertação dos necessitados é mais importante do que todas as regras sabáticas por mais sagradas que elas pareçam ser. O amor pelo ser humano para Jesus é a exigência absoluta de sua vida (cf. Rm 13,10). “A falta de amor é a maior de todas as pobrezas... Quem julga as pessoas, não tem tempo para amá-las” (Madre Teresa de Calcutá). O amor é que norteia toda a atividade de Jesus mesmo que ele seja odiado por isso. Podemos entender a pergunta feita por Jesus para todos os presentes para que seja refletida: “O que é permitido fazer no Sábado: o bem ou o mal, salvar uma vida ou deixar que se perca?” (Lc 6,9). O livro de Provérbio diz: “Não negues um favor a quem necessita, se tu podes fazê-lo” (3,27). ... “O desejo dos justos é somente o bem, a esperança dos ímpios é a cólera”  (11,23).


Dentro desse pensamento não é por acaso que o evangelista Lucas coloca o seguinte detalhe: “Aí havia um homem cuja mão direita era seca” (Lc 6,6b). Nas culturas antigas, a mão direita simbolizava o poder de fazer o bem. E a mão esquerda simbolizava o poder de fazer o mal. No julgamento final, segundo o evangelho de Mateus, os que praticarem o bem (as ovelhas), ficarão do lado direito (cf. Mt 25,33-40) e os cabritos (os que deixam de praticar o bem) ficarão do lado esquerdo (cf. Mt 25,41-45). No Credo rezamos: “Jesus subiu aos céus e está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso”. Até para cumprimentar alguém normalmente apertamos a mão direita.


Ao dizer que aquele homem estava com a mão direita seca, Lucas quer nos dizer que esse homem estava impossibilitado de praticar o bem. Somente a mão esquerda é que estava funcionando, isto é, as suas obras não eram boas do ponto de vista moral e ético. É provável que as pessoas o evitassem. Ninguém quer se relacionar com as pessoas más a não ser que tenha algum interesse mau também.


Mas em vez de afastar esse homem da convivência, Jesus o chamou para ficar no meio de todos, não para envergonhá-lo e sim para salvá-lo ou para libertá-lo de todas as obras de maldade e que todos são chamados a ser parceiros do bem. Para isso, o ser humano tem que ocupar o lugar central nas atividades e não os interesses mesquinhos muito menos usar a religião para marginalizar os outros.


A partir do evangelho de hoje cada um de nós precisa se perguntar: que lugar ocupa o ser humano nas minhas atividades diárias, tanto pessoal como profissionalmente? Será que sou capaz de “transgredir” uma norma religiosa em função da libertação de um ser humano, de uma vida sem sentido?  Se a mão direita simbolizava o poder de fazer o bem e a mão esquerda, o poder de fazer o mal, qual “mão” que está funcionando mais na minha vida: a mão direita ou a mão esquerda? Você tem certeza de que você estará sentado à direita do Pai quando chegar sua hora de partir deste mundo? “A caridade cristã é tridimensional. Pratica-se na terra pelas boas obras e busca ajudar a quem necessita: eis a sua profundidade. Sofre as adversidades pacientemente e persevera na verdade: eis sua extensão. Tudo faz com vistas a obter a vida eterna: esta é sua magnitude” (Santo Agostinho. Epist. 140,25).


Para Rezar e Refletir:


“Senhor, meu Deus! Quando contemplo o firmamento, obra de vossos dedos, a lua e as estrelas que lá fixastes: Que é o homem, digo-me então, para pensardes nele? Que são os filhos de Adão, para que vos ocupeis com eles? Entretanto, vós o fizestes quase igual aos anjos, de glória e honra o coroastes. Destes-lhe poder sobre as obras de vossas mãos, vós lhe submetestes todo o universo. Rebanhos e gados, e até os animais bravios, pássaros do céu e peixes do mar, tudo o que se move nas águas do oceano. Ó Senhor, nosso Deus, como é glorioso vosso nome em toda a terra!” (Salmo 8, 4-10).

P. Vitus Gustama,svd

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Domingo,06/09/2015
O CRISTÃO É AQUELE QUE FAZ O BEM SEM FRONTEIRAS

XXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM ANO “B”


Evangelho: Mc 7,31-37

Naquele tempo, 31 Jesus saiu de novo da região de Tiro, passou por Sidônia e continuou até o mar da Galileia, atravessando a região da Decápole. 32 Trouxeram então um homem surdo, que falava com dificuldade, e pediram que Jesus lhe impusesse a mão. 33 Jesus afastou-se com o homem, para fora da multidão; em seguida, colocou os dedos nos seus ouvidos, cuspiu e com a saliva tocou a língua dele. 34 Olhando para o céu, suspirou e disse: “Efatá!”, que quer dizer: “Abre-te!” 35 Imediatamente seus ouvidos se abriram, sua língua se soltou e ele começou a falar sem dificuldade. 36 Jesus recomendou com insistência que não contassem a ninguém. Mas, quanto mais ele recomendava, mais eles divulgavam. 37 Muito impressionados, diziam: “Ele tem feito bem todas as coisas: Aos surdos faz ouvir e aos mudos falar”.
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O milagre de cura do surdo- gago é exclusivo de Mc, sem paralelo exato em outro ponto dos outros evangelhos. Marcos coloca este milagre perto do final de um itinerário que geograficamente é pouco confuso. Mas é provável que o itinerário seja mais teológico do que geográfico. Podemos entender disto tudo dentro do quadro da declaração de Jesus  onde ele afirma que todos os alimentos são puros e que com isto Jesus derruba barreira entre judeus e gentios(cf. Mc 7,19). O Jesus de Mc atravessa várias regiões pagãs para levar-lhes cura e alimento que simbolicamente significa levar a salvação, antecipando a missão dos cristãos futuramente de levar a Boa Nova para todos os povos, sem exceção.


Além disso, Mc quer transmitir claramente o tema sobre o messianismo onde Jesus é apresentado como quem realiza a nova criação que cumpre as profecias do profeta Isaías  sobre os últimos dias: “Ele tem feito tudo bem (cf. Gn 1,31); faz tanto os surdos ouvirem como os mudos falarem (cf. Is 35,5-6). A expressão “Jesus faz bem todas as coisas” tem uma grande importância para o evangelho de Mc. Com esta expressão Mc faz uma ligação com o começo do Gênesis. No primeiro relato da criação repete-se por sete vezes a expressão: “Deus viu que era bom” (Gn 1,4.10.12.18.21.25.31). Ao usar a expressão “Jesus faz bem todas as coisas”, Mc quer nos transmitir esta mensagem: Jesus inicia nova criação em que todas as coisas são boas e bem-feitas. Jesus traz de volta a beleza de Deus que o próprio homem estragou por seu pecado. A palavra de Jesus é eficaz: cria uma nova criação. Precisamos estar sempre com Jesus para que possamos também fazer bem todas as coisas e praticar o bem em todos os momentos de nossa vida.


O outro tema que Mc quer apresentar é o do segredo: Jesus leva o surdo-gago para longe da multidão, tomando-o à parte. A expressão “à parte”, que sempre se refere aos discípulos (Mc 4,34; 6,31s; cf. 9,2.28; 13,2), indica que por falta da compreensão da parte dos discípulos  torna-se necessária a explicação de Jesus. E Jesus ordena silêncio a todos, embora seja em vão, pois “...quanto mais ele recomendava, mais eles divulgavam” (v.36b).


Numa escala mais ampla, o milagre de cura do surdo-gago se encontra na grande seção chamada “seção do pão” (Mc 6,30-8,21) na qual Jesus luta para recuperar a visão espiritual dos seus discípulos que ainda estão “cegos” e “surdos” diante da mensagem de Jesus. Na tradição profética, a surdez e a cegueira são figura da resistência à mensagem de Deus (cf. Is 6,9;42,18;Jr 20-23;Ez 12,2). Neste sentido a cura do surdo-gago que se alinha com a cura do cego em Betsaida (Mc 8,22-26) simboliza a cura da surdez e da cegueira interiores dos discípulos, embora seja  parcial ainda. Chama a nossa atenção sobre a prioridade em Jesus curar esse homem: antes de curar a língua (fala), Jesus cura primeiro os ouvidos. Para um seguidor de Cristo isto quer sublinhar a precedência da escuta sobre a fala. A boa fala depende da boa escuta. "Deus é isto: A beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também." (Rubem Alves). Há cinco degraus para se alcançar a sabedoria: Calar, ouvir, lembrar, sair, estudar” (Provérbio Árabe). Para escutar bem precisamos criar o silêncio dentro de nós e ao nosso redor. O silêncio cria ressonância à Palavra. Para escutar bem é necessário que estejamos vazios de nós mesmos: “Estar vazio de toda criatura é estar cheio de Deus. E estar cheio de toda criatura é estar vazio de Deus” (Meister Eckhart).


Nenhum outro relato de milagre nos evangelhos que contém tantos elementos do simbólico, do ritual e do mágico do que em Mc 7,31-17 (cf. Mc 8,22-26) como: a colocação dos dedos nas orelhas do homem (simbolizando sua abertura para ele poder escutar); a aplicação de saliva sobre a língua (simbolizando a liberação do “freio” da língua para que possa falar. No mundo antigo usava-se a saliva como “remédio” em contextos médicos, milagrosos ou mágicos. No texto este gesto é colocado mais no sentido “milagroso” do que “mágico”); levantar os olhos para o céu e suspirar/gemer profundamente (No contexto do texto, estes gestos foram considerados como expressões de prece e súplica de Jesus a Deus. Na multiplicação dos pães Jesus também eleva os olhos para o céu quando ele dá graças pelos pães e peixes: Mc 6,41//Mt 14,19//Lc 9,16, e quando Jesus “ressuscita” Lázaro: Jo 11,41); e a ordem “abre-te” (“ephphatha” em aramaico). A abertura que Jesus exige não é apenas dos ouvidos, mas do homem inteiro, entregando-se aos valores cristãos que são capazes de orientar toda a existência e garantir a própria eternidade.


Vamos refletir Sobre Outras Mensagens Do Texto.


1. A salvação é universal


Em primeiro lugar, devemos lembrar que a cura do surdo-mudo acontece num território pagão. Isto quer nos dizer que a salvação é para todos, sem distinção. E Jesus veio trazer a salvação messiânica definitiva universalmente.


Com isso, a cena quer ainda nos mostrar que o Reino de Deus é maior do que a Igreja. A Igreja existe para servir ao Reino de Deus. Por isso, ninguém pode limitar as  fronteiras do Reino de Deus. O Deus-Pai ama a todos os homens, sem distinção, e quer salvar a todos por meio do Filho, Jesus Cristo, que enviou(cf. Lc 4,16-22).


Por isso, devemos compreender que uma comunidade cristã, como a nossa, não pode ficar fechada sobre si mesma. Não pode fazer acepção de pessoas, nem querer limitar a salvação, que o Pai oferece a todos. A comunidade cristã deve ser missionária em todos os sentidos: saber acolher a todos, e procurar levar o Evangelho a todos. Pois a Igreja é a comunhão de irmãos que o Pai ama.


Até aqui podemos nos perguntar: será que na nossa comunidade ainda existem preconceitos contra as pessoas ? Não podemos constituir uma Igreja ou uma comunidade de Cristo, se fizermos distinção de pessoas. Por isso, a carta de Tiago na segunda leitura de hoje continua nos interpelando.


2.    Ser cristão é ser pessoa solidária a exemplo de Cristo
   

Para a mentalidade da época a surdez e a mudez pertencem a o tipo de doenças que são consideradas castigos. Quem as sofre é visto como um pecador ou é talvez filho de pecadores(cf. Jo 9,1-41). A surdez era até mesmo uma maldição, porque não permitia escutar a Palavra de Deus proclamada nas sinagogas. Jesus, ao libertar os outros e soltar a língua do homem que lhe tinha apresentado, devolve-lhe a saúde, deixa de ser doente. Mas, ao mesmo tempo, o reintegra à vida social e aos direitos religiosos, deixa de ser um marginalizado.


Uma comunidade de pessoas abertas à Palavra de Deus deve ser solidária com aqueles que sofrem no seu corpo e na sociedade. Fome e doença, assim como marginalização e exploração social, são incompatíveis com a vontade de vida de Deus. Quem quer provar seu amor verdadeiro por todos os homens, deve começar pelos últimos. É claro que isto não se deve fazer “para ser visto”, transformando o pobre em ocasião de ostentação caritativa. Mas deve ser uma expansão espontânea do amor como uma mãe que espontaneamente consagra atenção maior à criança que mais precisa de  ajuda.


Quem é discípulo de Jesus tem que ajudar os irmãos a recuperarem direitos, espaço, voz, para que cada um volte a se expressar por sua conta, como convém a um digno filho de Deus. É missão de cada cristão proclamar “Éffatha”(abre-te) aos que se deixam ensurdecer, acomodados.


É grave denunciar a surdez alheia e ter tantos surdos-mudos em casa. E muitos só gostam de ouvir o eco das suas palavras ou opiniões, as palestras do seu movimento, a espiritualidade a que já se acostumaram. Precisamos construir uma comunidade da qual se possa dizer como disseram de Jesus: ela faz bem todas as coisas. Faz os surdos ouvirem e os mudos falarem.


3. Ser cristão é ser pessoa que sabe escutar a Palavra de Deus
  

O surdo-mudo não se aproxima de Jesus por iniciativa própria nem pede cura; como em outras ocasiões(Mc 1,30.32;6,54s); são umas pessoas anônimas que o levam a Jesus. São os outros que lamentam o defeito e recorrem a Jesus. Marcos dá destaque a este pormenor para transmitir um ensinamento: para conseguir perceber a Palavra que cura, é preciso ser acompanhado por alguém que já conheceu Jesus e  que já fez a experiência do seu poder salvífico.


Na tradição profética, a surdez e a cegueira são figuras da resistência à mensagem de Deus(Is 6,9;42,18; Jr 20-23; Ez 12,2). Paralelamente, no Evangelho de Marcos o homem surdo-mudo assume um significado simbólico: representa todos os homens que têm ouvidos fechados à Palavra de Deus. São Paulo diz aos romanos: “A fé vem da pregação e a pregação é pela palavra de Cristo”(Rm 10,17).


A ação de Jesus sobre o surdo-mudo é dupla: primeiro parece perfurar-lhe os ouvidos (colocou os dedos na orelha), indicando que, apesar das resistências que os seguidores/discípulos apresentam, é capaz de fazer-lhes chegar a mensagem do universalismo de Jesus. Depois Jesus toca-lhe a língua com a sua saliva. Na cultura judaica na época, a aplicação da saliva significa a transmissão do Espírito.
 

Nós também hoje nos comportamos como “surdos” quando tapamos nossos ouvidos aos convites que Cristo nos dirige através de Sua Palavra ou através de alerta que alguém nos faz para abandonarmos certos hábitos, para modificar certas atitudes erradas, para seguir os caminhos da lealdade, da bondade, da generosidade, de partilha assim por diante. Somos mudos quando não cumprimos o nosso dever de anunciar a todos o Evangelho de Cristo, quando nos sentimos envergonhados de declarar que não concordamos com certas escolhas pouco evangélicas feitas por colegas, por amigos e até pelos próprios irmãos da nossa comunidade. São surdos-mudos certos maridos que nunca dialogam com suas esposas e vice-versa ou certos filhos que não prestam a mínima atenção às orientações dos pais. É surdo-mudo aquele que não se relaciona com os outros por se achar dono da verdade e que já não tem mais nada para aprender.
   

O Evangelho de hoje nos dá a garantia de que a Palavra de Deus tem o poder de curar qualquer forma de surdez e de mudez. As nossas comunidades, as nossas famílias estão convocadas para repetir, em nome de Cristo, o milagre de abrir os ouvidos, a boca e o coração de todos para viver e proclamar a Palavra de Deus.


 4. Ser cristão é ser pessoa inspirada pelo Espírito de Deus
 

Outro pormenor do Evangelho de hoje é o modo de Jesus realizar o milagre. Antes de realizá-lo, Jesus ergue os olhos para o céu e solta um suspiro. Os curandeiros da Antiguidade praticavam frequentemente semelhantes gestos. Eles o faziam para concentrar-se, para compenetrar-se na energia da divindade. Para Jesus  este gesto se transforma em sinais de oração(Mc 6,41) e de união com Deus-Pai. Para nós estes gestos se constituem em convite para estabelecermos continuamente uma profunda relação com Deus antes de intervir para ajudar os irmãos. Só depois de termos “inspirados” dentro de nós o Espírito Santo, o sopro de Deus, estamos em condições de comunicar esta força vivificadora para quem experimenta dentro de si os sinais de morte.


Se é verdade que para orar é preciso crer, também para crer é necessário orar. A fé é a nossa resposta à oferta de amor e salvação de Deus. A oração, por sua vez, evidencia a presença e a vitalidade da fé no diálogo do homem com Deus e projeta essa oração para a vida no compromisso e na conduta social do cristão.


P. Vitus Gustama,svd
05/09/2015
VIVER NESTE MUNDO É VIVER EM FUNÇÃO DO BEM DO HOMEM

Sábado da XXII Semana Comum


Evangelho: Lc 6,1-5

1 Num sábado, Jesus estava passando através de plantações de trigo. Seus discípulos arrancavam e comiam as espigas, debulhando-as com as mãos. 2 Então alguns fariseus disseram: 'Por que fazeis o que não é permitido em dia de sábado?' 3 Jesus respondeu-lhes: 'Acaso vós não lestes o que Davi e seus companheiros fizeram, quando estavam sentindo fome? 4 Davi entrou na casa de Deus, pegou dos pães oferecidos a Deus e os comeu, e ainda por cima os deu a seus companheiros. No entanto, só os sacerdotes podem comer desses pães.' 5 E Jesus acrescentou: 'O Filho do Homem é senhor também do sábado.'
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A controvérsia entre Jesus e os fariseus continua. No evangelho anterior era sobre o jejum. Hoje é sobre o Sábado. Guardar o sábado para um judeu era algo importantíssimo; estava entre os principais mandamentos. Transgredir o sábado podia levar o acusado à condenação de acordo com a gravidade do ato. A punição prevista chegava à pena de morte (cf. Ex 31,12-17; 35,1-3).


E tirar espigas (com foice) era uma das trinta e nove formas de violar o sábado, segundo as interpretações exageradas que algumas escolas dos fariseus faziam da lei na época. Por isso, se escandalizam quando percebem que os discípulos de Jesus arrancam as espigas para matar a fome no dia de sábado. Na verdade Dt 23,25 determina: “Quando entrares na seara de trigo do teu próximo, poderás colher espigas com a mão, mas não usarás a foice”. Era permitido, então, colher espigas com a mão. Só não era permitido passar a foice.


Os fariseus ficam presos com suas próprias idéias e usam os textos da Sagrada Escritura em função de suas idéias. Ler e meditar a Palavra de Deus é para descobrir a vontade de Deus. Precisamos rezar, a o exemplo de Samuel, quando lemos e meditamos a Palavra de Deus: “Fale, Senhor; vosso servo escuta!” (1Sm 3,10). A Bíblia é inspirada por Deus e por isso, precisamos pedir ao Espírito Santo que nos inspire na hora de ler e de meditá-la. Em outras palavras, quando lermos e meditarmos a Palavra de Deus temos que ter uma mente aberta e um coração necessitado da graça de Deus.


Jesus veio ao mundo para salvar a humanidade por amor (cf. Jo 3,16). Por isso, Jesus aplica um princípio fundamental para todas as leis, em função dos homens: “O Sábado foi feito para o homem e não o homem para o Sábado”. O homem está sempre no centro da doutrina de Jesus. Sua preocupação é fazer o bem para o homem; é salvá-lo mesmo no dia de Sábado, mesmo “transgredindo” a lei religiosa. A lei do Sábado foi dada precisamente a favor da liberdade, do bem e da alegria do homem (Dt 5,12-15). Mas os fariseus querem controlar tudo. O Papa Francisco na sua Exortação Apostólica, Evangelii Gaudium (Alegria do Evangelho) disse: Muitas vezes agimos como controladores da graça e não como facilitadores. Mas a Igreja não é uma alfândega; é a casa paterna, onde há lugares para todos com a sua vida fatigante” (n. 47). Como os fariseus, muitas vezes, somos fiscais do comportamento alheio, gente sempre pronta a julgar, a criticar, a condenar o próximo a partir de detalhes, muitas vezes, mínimos. Muitas vezes também nós andamos a toda hora medindo a piedade alheia pelos padrões das nossas próprias normas, sem perceber que, ao fazermos isso, estamos bloqueando o acolhimento, o testemunho de comunhão e de fraternidade que são alguns dos valores importantes na Igreja e na vida cotidiana.


Para Jesus, o espírito da lei deve estar sempre ao serviço de Deus para glorificá-Lo, e ao serviço do ser humano para dignificá-lo. A glória de Deus é a vida e a felicidade de seus filhos, os seres humanos. Para Jesus, as leis, ainda que sejam sagradas, não podem estar por cima da vida, das necessidades vitais, da felicidade, da plena realização dos seres humanos. Por isso Jesus tem coragem de afirmar: “O Sábado foi feito para o homem e não o homem para o Sábado”. A lei civil é uma afirmação dupla: a existência dos maus e a dos bons. Para que os bons sejam protegidos é necessário ter lei. Se todos fossem bom, se todos tivessem capacidade de amar, a existência da lei não teria sentido. “Ama e faze o que quiseres. Por esse caminho não existe outro”, dizia Santo Agostinho.


A lei é boa e necessária. A lei é, na verdade, o caminho para levar à prática o amor fraterno. Somente o mandamento do amor rompe fronteiras, divisões, prejuízos e escravidões (Jo 13,34-35; 15,12). Por isso mesmo a lei não pode ser absolutizada. O Sábado, (para nós o domingo), está pensado para o bem do homem. É um dia em que nos encontramos com Deus, com a comunidade, com os irmãos, com a natureza e com nós mesmos. O descanso é um gesto profético que nos faz bem a todos para fugir ou escapar da escravidão do trabalho ou da carreira consumista. O dia do Senhor é também dia do homem, com a Eucaristia como momento privilegiado.


“O sagrado do sábado”, comenta o rabino Nilton Bonder, “não é o descanso em si, mas o ritmo mágico do trabalho ao descanso e ao trabalho novamente. É essa entrada e saída que é sagrada. (...) Sem as pausas há apenas ilusão; sem os silêncios há apenas ilusão da música; sem a luz-transparência há apenas ilusão da cor” (Código Penal Celeste).


“Por que fazeis o que não é permitido em dia de sábado?”, perguntaram alguns fariseus a Jesus. O homem sempre tem uma tendência fastidiosa em dar uma importância aos meios, esquecendo-se muitas vezes do fim. Na minha fé, nos costumes religiosos, nos ritos há de ver primeiro sua finalidade, seu objetivo profundo, e os modos de expressão podem mudar. O legalismo religioso pode matar o espírito cristão. Toda comunidade em que os interesses particulares, as desigualdades, o monopólio têm espaço, deixa de ser campo para o triunfo do Espírito Santo. Jesus nos pede que acima de tudo deve ficar a misericórdia, o amor: “A caridade é a plenitude da Lei” (Rm 13,10b). Nascemos do Amor criador e devemos levar essa marca divina para toda a nossa vida. Não nascemos para odiar. Nascemos por amor. O amor é nossa natureza. Quando crescermos é que aprendemos a odiar. Por que não queremos manter nossa natureza que é o amor? Deus envia Jesus para nos salvar por amor (cf. Jo 3,16). Somos filhos de Deus em Jesus Cristo e não estranhos, e, portanto, devemos atuar e viver como tais. Somos membros do Corpo de Cristo unidos pela fé, amor e esperança. Somos chamados a viver em comunhão da fé, amor, esperança, vida e solidariedade. Temos que nos salvar juntos. Todos nós temos que chegar juntos à casa do Pai (cf. Jo 14,1-6). Mas diante da responsabilidade não podemos pretender que os outros realizem a parte que a cada um corresponde. Cada um é insubstituível na sua responsabilidade.


Jesus nos convida, então, a fazer da Palavra de Deus um instrumento de libertação. Sua Palavra é a constituição para os cristãos, o novo povo de pessoas livres.


Precisamos nos perguntar: “Não somos, às vezes, demasiados legalistas? Não julgamos nossos irmãos quando cremos que eles não cumprem as leis ou as regras, sejam as leis humanas, as leis da Igreja ou as leis consideradas como divinas? Se para Jesus o homem está sempre no centro de seu ensinamento, será que colocamos o ser humano como centro de nossas atividades?”. A denúncia da escravidão ao sábado nos convida a nos libertarmos da religião da observância formal e segui-la pelos caminhos do amor libertador. Quando as coisas materiais ou rituais mandam, e não a lei do amor, o homem se faz escravo. Se quisermos cumprir a lei de Deus, devemos ter sempre em vista, em primeiríssimo lugar, os objetivos do projeto de Deus. Ele quer mais vida, mais amor, mais compaixão e misericórdia, mais partilha, mais igualdade e mais justiça.
 
P. Vitus Gustama,svd