quinta-feira, 24 de setembro de 2015

28/09/2015
SERVIR  NO ESPÍRITO DE JESUS E SER PARCEIRO DO BEM

Segunda-feira da XXVI Semana Comum


Evangelho: Lc 9,46-50

Naquele tempo, 46 houve entre os discípulos uma discussão, para saber qual deles seria o maior. 47 Jesus sabia o que estavam pensando, pegou então uma criança, colocou-a junto de si 48 e disse-lhes: “Quem receber esta criança em meu nome, estará recebendo a mim. E quem me receber, estará recebendo aquele que me enviou. Pois aquele que entre todos vós for o menor, esse é o maior”. 49 João disse a Jesus: “Mestre, vimos um homem que expulsa demônios em teu nome. Mas nós lho proibimos, porque não anda conosco”. 50 Jesus disse-lhe: “Não o proibais, pois quem não está contra vós, está a vosso favor”.
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Estamos na parte final da atividade de Jesus na Galileia. A partir de Lc 9,51-19,28 Jesus sairá da Galileia rumo a Jerusalém onde será crucificado, morto e glorificado.


É Preciso Ter a Autoridade e Não o Poder


Na primeira parte do evangelho lido neste dia o evangelista Lucas nos relatou que entre os discípulos houve uma discussão sobre quem era maior ou quem tinha mais poder. Em outras palavras, eles tinham ambição de ter o poder na mão. Isso significa que até então eles ainda não captaram o essencial da mensagem de Jesus que é preciso pensar no outro e fazer tudo pela sua salvação.


Quem tem o poder geralmente impõe aos outros suas decisões, muitas vezes através dos meios injustos como opressão, repreensão, tortura, ameaça, execução etc.. O poder não respeita a liberdade humana, por isso ele não faz que os homens se tornem bons.  O poder obriga e impõe o silêncio. Quem tem poder geralmente não se preocupa com a ética e com a humanidade. Aquele que tem poder sempre tem tendência de manipular as pessoas e dirigi-las para seus próprios objetivos e sua necessidade de poder. O ambicioso pelo poder, quando dominado pelo vício, não suporta competidores, nem admite rivais e por isso, ele procura todos os meios para humilhá-los e eliminá-los. Ele considera “justo” e “honesto” o uso da violência para atingir seus objetivos. Ele não tem consciência de que o poder é passageiro. Quem desejar ser o primeiro a todo custo não pensa na justiça e na honestidade nem na necessidade dos outros. O respeito aos outros está ausente na vida de um ambicioso.


O contrário do poder é a autoridade. A autoridade está ligada ao crescimento. A palavra “autoridade” vem do latim “augere”, que quer dizer “crescer”. Exercer a autoridade significa sentir-se realmente responsável pelos outros e por seu crescimento sabendo que eles são pessoas que tem um coração, nas quais existe o Espírito de Deus (cf. 1Cor 3,16-17) e que são chamadas a crescer na liberdade da verdade e do amor. Na linguagem bíblica, a autoridade é uma rocha que dá apoio. É o pastor que conduz o gado para o bom pasto (cf. Sl 23 sobre o bom pastor; cf. Jo 10). Os membros da comunidade são essencialmente o rebanho de Jesus: “Apascenta as minhas ovelhas” (cf. Jo 21,15-17). Os membros de uma comunidade logo sentem quando os responsáveis (autoridade) os amam e querem ajudá-los a crescer e não quando estão presentes apenas para administrar, impor sua lei e sua própria visão. A autoridade é o autêntico serviço para a comunidade. A crise de liderança geralmente surge da crise da autoridade.


A Grandeza Consiste No Cuidado Dos Pequenos


Jesus pegou, então, uma criança, colocou-a junto de si e disse-lhes: ´Quem receber esta criança em meu nome, estará recebendo a mim. E quem me receber, estará recebendo aquele que me enviou. Pois aquele que entre todos vós for o menor, esse é o maior´”.


Como se sabe que na época de Jesus criança (até 12 anos) não ocupava nenhuma posição naquela sociedade, não contava, era insignificante, se podia prescindir dela, não tinha direito a ser escutado, e diante da Lei não tinha méritos. Desde o Antigo Testamento a criança, por sua fraqueza e fragilidade, aparece como um ser privilegiado de Deus. O próprio Deus é protetor do órfão. Deus manifesta sua ternura paternal para com os pequenos.


Jesus colocou uma criança no centro ou seja, no lugar de honra. Por estar no centro todos os olhos são dirigidos a ela. Segundo Jesus a grandeza de qualquer cristão consiste no serviço aos pequenos, aos marginalizados, aos pobres, para aqueles cujos direitos não são respeitados. Quer ser grande? Dedique-se, então, ao cuidado dos pequeninos. Servir aos pequeninos e aos desprezados engrandece qualquer cristão diante de Deus. O grande não é, entoa, reinar e sim servir no espírito de Jesus. Servir no espirito de Jesus faz diferença. Trata-se não apenas de ato de humildade e sim um ato peculiar de um seguidor de Jesus Cristo. Servir a um pequenino ou a um desprezado equivale a servir Jesus. E servir a Jesus é servir a Deus. Para Jesus servir é coisa grande e faz quem serve grande diante de Deus, pois servir o mais desprezado dos homens é servir a Deus (cf. Mt 25,40.45). É imitar o próprio Jesus. Nos pequenos e desprezados encontra-se o próprio Jesus, o Deus-Conosco.


Os discípulos de Jesus, mesmo estando com Ele, nunca abandonaram suas pretensões de poder. E nós, será que também nós não abandonamos nossas pretensões de poder ao estar na Igreja? Ou usamos a Igreja para facilitar o alcance de nosso poder?


Hoje necessitamos criar uma catequese que realmente cultive o conhecimento de Jesus e a prática de suas atitudes, pois o que Jesus queria era criar um grupo de pessoas que, ao atender a chamada de Deus, proporcionam novas alternativas de vida.


É Preciso Ser Parceiro do Bem


A segunda parte do Evangelho de hoje nos relata que o discípulo João se queixa por ter visto alguém “expulsando demônios” em nome de Jesus, mas esse alguém não pertence ao grupo dos discípulos. A reação de João é imediata: proibir que se faça o bem, pois não é membro da comunidade dos seguidores de Cristo. Com essa proibição os discípulos mostram seu comportamento incompatível com o Reino de Deus: arrogância, sectarismo, intransigência, intolerância, ciúmes, mesquinhez, pretensão de monopolizar Jesus e a sua proposta.
   

Diante desse comportamento dos discípulos Jesus disse-lhes: “Não o proibais, pois quem não está contra vós está a vosso favor”. Com esta exortação Jesus quer que os discípulos superem o sectarismo na prática do bem.  A comunidade cristã deve ser colaboradora na prática do bem e acolher todas as pessoas que praticam o bem independentemente de pertencer ou não à Igreja. Cada cristão deve ser parceiro do bem e por isso, deve reconhecer o bem praticado por qualquer pessoa. Se realmente alguém pratica o bem é porque tem algo de Deus dentro dele, pois Deus é o Bem supremo. E tudo que Ele criou era bom (cf. Gn 1,1ss).


O Espírito de Deus é livre e atua onde quer e como quer. Ele não está limitado por fronteiras, nem por regras, nem por interesses pessoais, nem por privilégios de grupo. Nenhuma Igreja ou religião ou grupo tem o monopólio do Espírito Santo, nenhuma instituição consegue controlá-lo nem prendê-lo. O Espírito não é privilégio dos membros da hierarquia; mas está bem vivo e bem presente em todos aqueles que abrem o coração aos dons de Deus e que aceitam comprometer-se com Jesus e o seu projeto de vida.


Somos convidados a abandonar atitudes como o fanatismo, a intolerância, a intransigência, preconceitos, etc. , pois elas fazem fechar os olhos e o coração diante da manifestação do amor de Deus em tantas pessoas de boa vontade mesmo que se digam não acreditar em Deus, mas Deus acredita nelas por causa do bem que elas praticam. Não temos que sentir-nos ciumentos se Deus quer agir no mundo através de pessoas que não pertencem à nossa Igreja. É preciso ser parceiro deste tipo de pessoa.


Os cristãos são chamados a constituir uma comunidade sem arrogância, sem ciúmes, sem presunção de posse exclusiva do bem e da verdade, pois estes sentimentos e atitudes são incompatíveis com a opção pelo Reino: “Deus resiste aos soberbos, mas dá a sua graça aos humildes” (1Pd 5,5b;Pr 3,34).

P. Vitus Gustama,svd
Domingo, 27/09/2015

SER PARCEIRO DO BEM

XXVI DOMINGO DO TEMPO COMUM ANO “B”


I Primeira Leitura: Nm 11,25-29

Naqueles dias, 25o Senhor desceu na nuvem e falou a Moisés. Retirou um pouco do espírito que Moisés possuía e deu aos setenta anciãos. Assim que repousou sobre eles o espírito, puseram-se a profetizar, mas não continuaram. 26Dois homens, porém, tinham ficado no acampamento. Um chamava-se Eldad e o outro Medad. O espírito repousou igualmente sobre os dois, que estavam na lista mas não tinham ido à Tenda, e eles profetizavam no acampamento. 27Um jovem correu a avisar Moisés que Eldad e Medad estavam profetizando no acampamento. 28Josué, filho de Num, ajudante de Moisés desde a juventude, disse: “Moisés, meu Senhor, manda que eles se calem!” 29Moisés respondeu: “Tens ciúmes de mim? Quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta e que o Senhor lhe concedesse o seu espírito!”


II Segunda Leitura: Tg 5,1-6

1E agora, ricos, chorai e gemei, por causa das desgraças que estão para cair sobre vós. 2Vossa riqueza está apodrecendo, e vossas roupas estão carcomidas pelas traças. 3Vosso ouro e vossa prata estão enferrujados, e a ferrugem deles vai servir de testemunho contra vós e devorar vossas carnes, como fogo! Amontoastes tesouros nos últimos dias. 4Vede: o salário dos trabalhadores que ceifaram os vossos campos, que vós deixastes de pagar, está gritando, e o clamor dos trabalhadores chegou aos ouvidos do Senhor todo-poderoso. 5Vós vivestes luxuosamente na terra, entregues à boa vida, cevando os vossos corações para o dia da matança. 6Condenastes o justo e o assassinastes; ele não resiste a vós.


Evangelho: Mc 9,38-43.47-48

Naquele tempo, 38João disse a Jesus: “Mestre, vimos um homem expulsar demônios em teu nome. Mas nós o proibimos, porque ele não nos segue”. 39Jesus disse: “Não o proibais, pois ninguém faz milagres em meu nome para depois falar mal de mim. 40Quem não é contra nós é a nosso favor. 41Em verdade eu vos digo: quem vos der a beber um copo de água, porque sois de Cristo, não ficará sem receber a sua recompensa. 42E, se alguém escandalizar um destes pequeninos que creem, melhor seria que fosse jogado no mar com uma pedra de moinho amarrada ao pescoço. 43Se tua mão te leva a pecar, corta-a! É melhor entrar na Vida sem uma das mãos, do que, tendo as duas, ir para o inferno, para o fogo que nunca se apaga. 45Se teu pé te leva a pecar, corta-o! É melhor entrar na Vida sem um dos pés, do que, tendo os dois, ser jogado no inferno. 47Se teu olho te leva a pecar, arranca-o! É melhor entrar no Reino de Deus com um olho só, do que, tendo os dois, ser jogado no inferno, 48‘onde o verme deles não morre, e o fogo não se apaga’”.
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I.            Ser Parceiro Do Bem E Contra Intolerância (vv. 38-41)        


A prática de exorcismo era comum no período helenístico entre judeus(Mt 12,7) e pagãos. O admirável poder de exorcismo dos cristãos foi um argumento usado pelos autores patrísticos contra o paganismo. E esse poder se tornou tão importante na igreja, que ao final do século III d.C. havia em Roma um ofício especial de exorcista, que se manteve na igreja romana como uma “ordem menor” até o final do século XX. A Igreja apostólica (comunidade dos apóstolos) encontrou-se diante do problema de sua atitude perante exorcista não-cristão que invocou o nome de Jesus (At 19,13-16). Na época os exorcismos, como também outros tipos de cura, foram feitos através de invocar nome de várias pessoas poderosas ou deuses. Desde que Jesus tem tido grande sucesso no mesmo, sem apelar nome de ninguém, outros curandeiros usam o nome de Jesus no seu próprio ato de curar pessoas sem conhecer muito bem Jesus nem pretendem se comprometer como seguidores dele (se quiser aprofundar o tema de exorcismo, leia John P. Meier, Um Judeu Marginal,  vol. II Livro II, e Vol. II Livro III, Ed. Imago, e Oscar G. Quevedo, SJ, Antes que os demônios voltem, Ed. Loyola).
  

Este episódio é o único atribuído pelos evangelhos sinóticos a João e este é a única ocasião em que João aparece sozinho, embora fale também em nome do grupo pelo uso da primeira pessoa no plural. Na tradição de Lucas, ele e seu irmão Tiago manifestam o espírito de intolerância, querendo que fogo do céu desça sobre Samaria que não acolheu Jesus e seus discípulos (Lc 9,54-55).


O que tem por trás do protesto de João de ter encontrado a um exorcista que sem pertencer ao grupo dos discípulos, atuava com êxito “em nome do Mestre” (v.38), são as preocupações precedentes de grandeza e de prestígio e de arrogância dos discípulos. João equipara o exorcismo ao acréscimo de status e de poder, e deseja manter o monopólio sobre ele, o que é especialmente ridículo à luz da falta de poder de exorcismo dos discípulos (9,14-29). Com isso, ele contraria diretamente ao conselho de “receber” em 9,37, exortação à inclusão, não à exclusividade. O pior de tudo é que a censura de João se baseia no fato de o estranho “não nos estar seguindo”. Os discípulos querem ser seguidos, em vez de quererem ser seguidores do bem. A reação de João e dos outros é uma reação de dominadores, uma afirmação de poder e de monopólio. Nota-se a tendência de tornarem-se  um grupo fechado, e de sentirem-se os donos deste Cristo que os chamou primeiro.


A atitude de João em excluir aquele que faz o bem em nome de Jesus mesmo não sendo do grupo dos apóstolos, demonstra sua forte inveja.  O invejoso tem uma grande dificuldade para aceitar e celebrar o sucesso dos outros, pois ele sempre se acha perdedor toda vez que alguém tiver sucesso maior. Invejar é querer o que o outro tem, é sentir dor e raiva quando alguém alcançar o que você ainda não conseguiu. A inveja é algo tão destrutivo que uma pessoa pode sofrer muito por causa dela e ninguém percebe o que acontece dentro dela. O invejoso prefere sofrer para que o outro sofra mais, em vez de aprender a viver bem e deixar o outro viver bem. Todo invejoso tem uma língua bem afiada, tem sorrisos sarcásticos, gosta de humilhar e aniquilar o outro com as palavras. Ele vive fofocando e se metendo na vida de todo mundo. Quanto mais uma pessoa quer falar dos outros (falar mal), mais quer falar de si mesmo. Trata-se de uma pessoa insegura. Eu preciso ter confiança em mim e reconhecer minhas aptidões para sair de qualquer situação. Tenho que descobrir e explorar minha singularidade, pois eu nasci com meu próprios talentos ou minha aptidões .
   

Novamente Jesus ensina algo que vai contra a lógica dos discípulos. Jesus pede aos discípulos que sejam servos. O fato de expulsar demônios “em nome de Jesus” mostra que o exorcista reconheceu o poder de Jesus (cristão anônimo ou melhor dizer, cristão na prática); ele, então, não é contra Jesus e seus discípulos apesar de ele não pertencer ao grupo dos discípulos. Neste contexto, esta é a questão de exorcismo bem sucedido: o homem estava “expulsando demônios” (v.38), e Jesus fala de “milagres” feitos através de invocação de seu nome: “Não proibais, pois ninguém faz milagres em meu nome para depois falar mal de mim” (v.39). Aqui em vez de “expulsar demônio” Jesus fala de milagres (dynameis, grego: feitos poderosos). Ao contrário desse homem, os filhos de Sceva invocou  o nome de Jesus sem sucesso. Por que? (leia At 19,11-20).
  

Jesus, então, opõe-se ao exclusivismo. Para Ele o bem não tem fronteiras, nem religiosas, nem sagradas, nem denominacionais, nem ideológicas, nem partido. O espírito do Reino é de solidariedade com todos que trabalham para a verdadeira libertação daqueles que estão em qualquer tipo de prisão. O Reino de Deus vai além das demarcações visíveis das nossas comunidades. Ele é grande. Sua presença enche o mundo. Ninguém se escandalize da presença ativa do Espírito de Deus e do Senhor Jesus fora da Igreja. O homem não tem o direito de encurtar a mão de Deus e de se projetar como instrumento exclusivo dela. Temos que ser parceiros do bem e estar com aqueles que praticam o bem pela humanidade.
     

Com esse episódio, Marcos quer sublinhar, em primeiro lugar, um dos temas do seu evangelho: o universalismo. O caminho do seguimento está aberto para todo mundo; ninguém fica excluído dele, contudo que cumpra as normas da caminhada. E há muitos caminhos pelos quais Deus conduz os seus até o céu. O mundo é redondo, mas os dois podem  encontrar-se no mesmo lugar, embora eles comecem a caminhar numa direção opostos. É muito perigoso para todos quando uma pessoa ou uma Igreja pensa que ela tem monopólio de salvação. Ninguém pode alcançar toda a verdade. O universalismo da comunidade admite nele os casados (10,1-12), as crianças (10,13-16) e os ricos(10,17-31); todos podem entrar e participar do Reino, da salvação. O cristão não se define por estar contra alguém, não se caracteriza por repelir o outro, e sim por agir em nome de Jesus. Pode-se inclusive, seguir a Jesus sem pertencer ao grupo dos Doze, sem seguir a seus discípulos(9,38-41), porque “não há ninguém que faça prodígios em meu nome e logo depois possa falar mal de mim”(9,39). A realidade que chega até o pequeno detalhe do caso da água: o menor bem que façam aos discípulos, aos cristãos, como dar-lhes um copo de água porque são de Cristo, redunda em favor de quem o dá. O cristão está a favor de todos os homens, tem de continuar o trabalho que Jesus começou; não podem condenar, separar, ninguém que não esteja contra eles, que andam atrás de Jesus(cf. Jo 3,17).
     

Com este episódio Jesus abre os nossos olhos à realidade do Reino de Deus se manifestando na atuação de tantos homens e mulheres que não participam formalmente na Igreja, mas que testemunham por suas vidas que o Espírito de Cristo atua nos seus corações. Qualquer que seja a sua profissão religiosa, e talvez sem o saberem, estão orientados conosco à obediência daquele que Jesus ensinou a chamar de Abba, Papaizinho.
  

Em segundo lugar, Jesus nos ensina a usar um critério para conhecer pessoas: olhar para suas obras (cf. Mt 7,16-20). É assim também que Deus vai reconhecer os seus no fim do mundo. Não será pelo seu dizer: se são ou não cristãos (cf. Mt 25,31-46). Será pelo seu fazer. Quem é cristão ? Não é o que se diz cristão. É aquele que faz o que Jesus fez. Por isso, Santo Agostinho dizia: “Muitas pessoas que parecem estar dentro da Igreja, na verdade, estão fora dela. E muitas pessoas que parecem estar fora da Igreja, na verdade, estão dentro da Igreja por causa do amor fraterno”. Jesus procura mostrar que, assim como o bem pode vir “de fora”, a traição pode vir “de dentro”. Por isso, S. Justino diz: “Aqueles que viveram segundo o Verbo são cristãos, mesmo se passaram como ateus. Assim, por exemplo, entre os gregos, Sócrates, Heráclito e seus semelhantes”. Quem pratica o bem, o faz sob o impulso da graça, e deve ser acolhido com alegria.  A Igreja pertence a Jesus, mas Jesus não é propriedade da Igreja.
   

Em terceiro lugar, Jesus quer nos alertar que aquele que quer ser servido coloca-se na posição de poder julgar e condenar os outros, de rejeitá-los e de criar divisões na comunidade/no grupo. Somente o fariseu, e não o discípulo de Jesus, é intransigente, acusador, intolerante. Essa atitude é o resultado da incapacidade de compreender o verdadeiro sentido da cruz. Os cristãos, enquanto grupo, sempre têm a tentação de dominar, ao passo que a lei que Cristo dá à existência de seu grupo é a de servir. Esse texto é sempre atual.
   

Em quarto lugar, cada pessoa tem direito ao seu próprio pensamento (direito de pensar). Ela tem direito de pensar e de pensar diferente até chegar às suas próprias conclusões e à sua própria crença (fé). Esse direito temos que respeitar. Muitas vezes logo condenamos aquilo que não entendemos ou não compreendemos. Não podemos desprezar nem nos opor àquilo que não entendemos ou não compreendemos. Quando falamos abusadamente das coisas, porque não entendemos bem as coisas.


II. Não Pratiquemos Escândalo (vv.42-48)
    

A palavra “escândalo” (em grego “skándalon”: pedra de tropeça), na linguagem bíblica, tem dois significados fundamentais: o de “tropeço” e o de “obstáculo”. Na primeira acepção, indica alguma coisa que é causa de queda, que leva para fora do caminho(na teologia moral chama-se “Escândalo ativo direto”); na linguagem de Jesus, que conduz ao pecado e à Geena (a Geena é o vale do Hinon, em hebraico Gê-Hinon, de onde Gê-ena, onde, no tempo do rei Acaz, eram sacrificadas as crianças ao Deus Moloc, fazendo-as passar através do fogo (cf. 2Rs 16,3). O rei Josias, para “desconsagrar” aquele lugar infame, mandou jogar nele o lixo de Jerusalém, e o fogo ardia permanentemente para consumi-lo (2Rs 23,10). Segundo os profetas, naquele vale os inimigos do povo de Deus serão destruídos e devorados pelo fogo (Is 30,27-33;66,24 cf. Jr 7,30-8,3;19,3-13). À época do Novo Testamento nos textos judaicos a Geena se torna sinônimo de lugar de punição para os maus). No segundo sentido, indica algo que barra e impede o acesso, mais um muro que uma pedra; na linguagem de Jesus, aquilo que se opõe à fé e à entrada no Reino de Deus.
   

Nestes versículos (42-48) Jesus quer afirmar a possibilidade de alguém usar sua liberdade para dar um rumo à sua vida que o exclui definitivamente do Reino de Deus. Apesar do Reino ser dom gratuito, ele poderá exigir enorme sacrifício da nossa parte, para que entremos na Vida.
      

Por isso, estes versículos servem como o convite à conversão pessoal e interior que o Reino exige. Todos que seguem Jesus têm que “renunciar a si”(8,34), isto é, esforçar-se para alcançar a libertação daquilo “de dentro” que é raiz de pecado(cf.7,21-23). Esta exigência é repetida em linguagem figurativa: o aviso de “cortar e atirar fora” o membro do corpo que é causa de pecado é uma lembrança de que o Reino de Deus vale qualquer sacrifício. Em segundo lugar, o mundo espera de nós, cristãos, uma ação decisiva, visível, na luta contra o mal que fere nossos irmãos, especialmente os mais fracos e desamparados. Nessa luta são benvindos parceiros bem intencionados que promovam os valores do Reino, junto conosco ou por sua própria conta.

P. Vitus Gustama,svd

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

26/09/2015
SACRIFICAR-SE PELO BEM E SALVAÇÃO DE TODOS

Sábado da XXV Semana Comum

 
Evangelho: Lc 9, 43b-45

Naquele tempo, 43bTodos estavam admirados com todas as coisas que Jesus fazia. Então Jesus disse a seus discípulos: 44“Prestai bem atenção às palavras que vou dizer: O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens”. 45Mas os discípulos não compreendiam o que Jesus dizia. O sentido lhes ficava escondido, de modo que não podiam entender; e eles tinham medo de fazer perguntas sobre o assunto.
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Nós nos encontramos no quadro de instruções finais de Jesus na Galileia. Jesus mostra claramente aqui o sentido da própria missão e a daqueles que querem segui-Lo. Segundo o plano do seu evangelho, o evangelista Lucas termina assim as atividades de Jesus na Galiléia (Lc 4,14-9,50). Daqui em diante Jesus vai começar seu caminho ou seu êxodo para Jerusalém onde ele será crucificado, morto e glorificado.


O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens”. O título “Filho do Homem” se encontra seu sentido em Dn 7,13-14 e “vai ser entregue” em Is 53,2-12. O sofrimento de Jesus é causado pelos homens do templo e do poder.


Para o evangelista Lucas, este é o segundo anúncio da Paixão de Jesus e o situa no momento em que “Todos estavam admirados com todas as coisas que Jesus fazia”. Esta admiração surge no momento em que Jesus curou um menino da epilepsia (Lc 9,37-43) e fez outros sinais. E Lucas registrou que esse menino era filho único. Esse filho único se refere a Jesus, Filho único do Pai (cf. Mt 21,33-46). Através desse menino Jesus está falando de Si próprio. A cura do menino antecede o segundo anúncio da Paixão do Filho único do Pai.


Neste anúncio Jesus quer nos revelar que sua vida é um sacrifício para o bem de todos. A palavra “sacrifício” provem do latim “sacrum” (=sagrado) e “facere” (=fazer). “Sacrifício” literalmente significa fazer algo sagrado. Lexicalmente “sacrificar” significa oferecer-se em sacrifício à divindade; dedicar-se totalmente. Jesus é admirado porque ele só faz algo sagrado, isto é, cuidar da vida do ser humano onde ela é ameaçada, mesmo que para isso ele tenha que “transgredir” as leis por “sagradas” que elas pareçam ser. A vida é sagrada, pois é dada por Deus. Ninguém dá vida a ninguém. Ele se sacrifica como uma vela que se consome aos poucos iluminando seu redor. Qualquer pessoa que fizer o que Jesus fazia, sempre causa a admiração de outras pessoas sem perguntar sua ideologia, religião, crença. O bem não tem religião, e por isso, pode ser feito por qualquer um. E os que são chamados religiosos ou fieis devem ter mais consciência disso.


Lucas nos relatou que os discípulos não entenderam o sentido desse anúncio. Em outras ocasiões os evangelistas descrevem os motivos dessa incompreensão: os seguidores de Jesus tinham em sua cabeça um messianismo político, com vantagens materiais para eles mesmos, e discutiam sobre quem ia ocupar os postos de honra e quem ficaria do lado direito ou do lado esquerdo de Jesus. A cruz não entrava em seus planos. Eles queriam seguir a Jesus pelas próprias vantagens e não pela vida dedicada em prol da salvação de todos.


A vida vivida pelo bem de todos vale a pena a ser vivida. Ao contrário, a vida vivida pelo egoísmo é uma vida deteriorada lentamente e deteriora também a vida alheia, pois um egoísta suga tudo que o outro tem. O objetivo de todos os atos de um egoísta é seu próprio interesse. O egoísta se esquece de que o seu desenvolvimento só será possível quando for fruto do equilíbrio entre vida individual e a vida em comum. Para um egoísta, amigo não é alguém a quem se dá, e sim, alguém a ser utilizado em proveito próprio. Entre os apóstolos podemos perceber tudo isso na vida de Judas Iscariotes. O egoísta nunca entende que a essência do amor é gratuidade. E que o verdadeiro amor é feito de doação, sem cálculos e sem interesses a exemplo de Jesus Cristo.


Os discípulos não entendem que a vida vivida pelo bem e pela salvação de todos é o maior ato de amor e o maior sentido da vida. O resultado dessa incompreensão será contado no seguinte episódio em que haverá a disputa sobre a primazia no grupo (Lc 9,46-48).


Por isso, podemos fazer outra leitura da seguinte afirmação: “Todos estavam admirados com todas as coisas que Jesus fazia”. Jesus desperta realmente admiração por seus gestos milagreiros e pela profundidade de suas palavras. Deste tipo de Jesus gostamos também e não somente os primeiros discípulos de Jesus. Mas não entendemos, como os primeiros discípulos, o Jesus Servidor, o Jesus que lava os pés dos discípulos, o Jesus que se entregou à morte para salvar a humanidade, o Jesus que se aproxima do pecador para dialogar, o Jesus que faz refeição com os pobres e pecadores, o Jesus que vai atrás das pessoas excluídas e abandonadas. Queremos apenas o consolo e o prêmio e não o sacrifício e a renúncia. Preferiríamos que Jesus não nos dissesse: “Quem quer me seguir renuncie a si mesmo, tome sua cruz de cada dia e me siga”.


Mas ser seguidor de Jesus pede a radicalidade e não podemos crer num Jesus que O fazemos a nossa medida. Ser colaborador de Jesus na salvação do mundo exige seguir Seu mesmo caminho que passa através da cruz e da entrega e da doação pelo bem e salvação de todos. É sofrer com Jesus para salvar o mundo.


Vale a pena cada um fazer um exame sério de consciência sobre o texto do evangelho de hoje a partir da vocação e da função que cada um tem na Igreja ou em uma comunidade. Como sacerdote ou religioso/ religiosa, qual meu motivo para ser sacerdote ou para ser religioso/religiosa? Será que eu procuro a vocação religiosa e sacerdotal em função da segurança institucional e não como paixão pela vida de Cristo dedicada pela salvação de todos? Será que o pensamento de querer ser sacerdote ou religioso (a) carreirista serve como motor da minha ambição? Como leigo ou leiga, qual meu motivo verdadeiro para trabalhar na minha comunidade? Há alguma vantagem pessoal escondida atrás dessa atividade, ou por que eu quero ser outro Cristo na minha comunidade? Mas será que eu levo a sério o motivo de ser outro Cristo com todas as suas conseqüências na minha comunidade?


É preciso que não tenhamos medo de nos gastar pelas causas e pelos grandes ideais de Jesus, pois por este caminho haverá a vida glorificada, a vida ressuscitada. Como cristãos, não podemos viver e conviver inutilmente nem podemos, consequentemente, morrer inutilmente. A vida dedicada pelo bem de todos jamais morre. É estar com Cristo. E estar com Cristo significa não parar de existir. Este é o ideal do ser do cristão.


Para Refletir


Há ideais que nos ajudam a viver e a crescer,
Porque nos aproximam do melhor de nós mesmos,
E há ideais que nos paralisam
Porque nos fazem correr atrás de miragens inalcançáveis.


Um verdadeiro ideal nunca é plenamente alcançado,
Mas ajuda a caminhar toda a vida.


Viver sem um ideal é como viver sem sentido
E caminhar sem objetivos.


Muito homens correm toda a vida para ter coisas,
Porque não sabem o que querem ser.
E você, sabe?”

 

(Autor: René Juan Trossero)

 
P. Vitus Gustama,svd

terça-feira, 22 de setembro de 2015

25/09/2015
JESUS NOS INTERROGA E NOS ENSINA A ORAR

Sexta-feira da XXV Semana


Evangelho: Lc 9,18-22

Aconteceu que Jesus 18 estava rezando num lugar retirado, e os discípulos estavam com ele. Então Jesus perguntou-lhes: “Quem diz o povo que eu sou?” 19 Eles responderam: “Uns dizem que és João Batista; outros, que és Elias; mas outros acham que és algum dos antigos profetas que ressuscitou”. 20 Mas Jesus perguntou: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Pedro respondeu: “O Cristo de Deus”. 21 Mas Jesus proibiu-lhes severamente que contassem isso a alguém. 22 E acrescentou: “O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e doutores da Lei, deve ser morto e ressuscitar no terceiro dia”
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O evangelista Lucas volta ao tema do evangelho do dia anterior sobre a identidade de Jesus (cf. Lc 9,7-9). No texto do evangelho do dia anterior o interessado por saber quem era Jesus foi Herodes Antipas, filho do rei Herodes, o Grande. No texto do evangelho de hoje é o próprio Jesus quem dirige a pergunta a seus discípulos. Quem é Jesus para as pessoas em geral e quem é Jesus para os próprios discípulos?


A Oração Na Vida De Jesus e Na Vida do Cristão


Aconteceu que Jesus estava rezando num lugar retirado, e os discípulos estavam com ele”.


O primeiro ponto que Lucas quer nos transmitir através do texto do evangelho de hoje é a importância da oração. Lucas nos mostra Cristo em oração toda vez que ele toma uma decisão importante ou quando se compromete em uma etapa de sua missão (Lc 3,21; 6,12; 9,29; 11,1; 22,31-39). Lucas é o único evangelista que menciona a oração de Cristo antes de obter a profissão de fé nos seus e de anunciar-lhes sua Paixão. Assim cabe pensar, como em cada uma das demais circunstâncias mencionadas por Lucas, que Jesus reza pelo cumprimento de sua missão cujos contornos ele não vê mais que na obscuridade. Através da oração vemos a realidade da humanidade de Jesus.


Oração é um dos temas preferidos do evangelista Lucas. Lucas é o evangelista da oração. Ele é o único evangelista que inicia e termina seu evangelho com o tema da oração: no início encontramos o sacerdote Zacarias “diante de Deus”, no “Santuário do Senhor” (Lc 1,8-10); e no final encontramos os discípulos “continuamente no Templo louvando a Deus” (Lc 24,53).


Por que a oração é tão importante? Porque a oração é a expressão mais viva da fé. Quem tem fé precisa orar e quem ora precisa ter fé. Através da oração Deus se revela a quem reza ou a quem medita sua palavra. Por isso, a oração é também o momento ou lugar da revelação de Deus. Somente no diálogo é que conhecemos melhor nosso parceiro de diálogo. No seguimento de Jesus a oração sustenta a caminhada cristã. Por isso, empobrecer a oração significa empobrecer toda a teologia. Na medida em que o cristão reza, sua vida se transforma de acordo com a vontade de Deus, pois rezar significa estar em sintonia com Deus e Sua vontade. Podemos dizer que a oração nos faz familiares de Deus. Dentro de uma família um conhece bem o outro membro por causa de uma convivência permanente.


Se a oração de Jesus demonstra a realidade de sua humanidade, não deixa de ser um sinal de sua divindade. Que Jesus pode reunir em sua oração a profundidade de sua pessoa, onde se estabelece sua vocação como o Ungido de Deus, é o indício de que dispõe do Espírito do Pai. Com feito, a oração não é um discurso que se dirige a Deus como um objeto e sim ter Deus por sujeito que conhece a profundidade de nosso ser. Não podemos alcançar esta profundidade sem a ajuda do Santo Espírito (cf. Rm 8,26-27). Do ponto de vista humano podemos dizer que somente aquele que reza profundamente é que reconhece os próprios limites e fraquezas, pois diante de Deus tudo fica iluminado.


Rezar é deixar Deus iluminar nossa vida e nossas decisões de cada dia. Com efeito, sem oração a vida se torna escura. Quem não reza, obscurece a própria vida. A história de nossa oração é a história de nossa vida, pois na oração contamos para Deus tudo o que acontece na nossa vida embora Ele saiba de tudo. Erraremos o caminho se pararmos de orar, pois Deus é a Luz de nossa vida (Jo 8,12).


Perguntar Sobre Jesus É Perguntar Nosso Modo de Viver


Quem diz o povo que eu sou?”  A pergunta de Jesus tem como objetivo avaliar o resultado de sua atuação na Galileia. A resposta do povo é múltipla: Elias, João Batista, um profeta que ressuscitou. Segundo o povo Jesus está entre os profetas, especialmente como o profeta dos tempos finais.


“E vós, quem dizeis que eu sou?” . Segundo os discípulos Jesus é o Messias. “Messias” é palavra hebraica que é em grego “Christos” que significa “Ungido”. Jesus é o Ungido de Deus, ou seja, Aquele sobre quem Deus derramou seu Espírito, ungindo-o com Sua força para que leve a cabo uma missão. Jesus está totalmente aberto à vontade de Deus a ponto de o Espírito divino repousar sobre Ele (cf. Lc 3,21-22; Mt 3,16-17) e se deixa guiar completamente pelo mesmo Espírito (cf. Mc 1,12).


Mas que tipo de Messias Jesus é? Estamos aqui no centro da fé: crer em um Messias que será crucificado. A cruz de Jesus não é um incidente e sim uma conseqüência. A presença de Deus se manifesta no caminho da cruz, isto é, na entrega de si mesmo, na recusa de toda imposição, no amor que aceita ser contradito e aparentemente derrotado: “É necessário o Filho do Homem sofrer muito e ser rejeitado pelos anciãos, sumos sacerdotes e escribas, ser morto e, no terceiro dia, ressuscitar”.


Mas a cruz de Jesus é saborosa, pois trata-se de uma vida vivida até o fim por amor aos homens como manifestação do amor a Deus (cf. Jo 3,16). Por isso, na sua cruz vemos com clareza o amor de Deus por cada um de nós. Deus encarnado é capaz de tudo, até o impossível, pois cada um tem um valor incalculável diante de Deus. Por você e por mim Deus se encarnou em Jesus e por amor a nós todos Jesus aceitou ser crucificado (cf. Mt 8,17; Jo 3,16). O caminho do amor é o caminho que nos leva à salvação. Fora do amor não há a salvação independentemente de nossas práticas religiosas. Por este caminho (amor) não há outro caminho para chegar até Deus que é Amor por excelência (1Jo 4,8.16).


O amor transforma tudo. Com amor levamos a carga sem carga, pois o amor torna tudo leve. O amor faz doce e saboroso o que é amargo. O amor nobre de Jesus nos impulsiona a desejar sempre o mais perfeito e a fazer o bem para todos. O amor não é detido por qualquer coisa deste mundo. O amor quer ser livre. Não há nada que seja mais doce, mais forte, mais alto, mais alegre, mais humano e mais divino do que o amor, pois o amor nasce de Deus, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). O amor sempre vela, e dormindo não se dorme; fatigado, não se cansa; angustiado, não se angustia; espantado, não se espanta; é forte na sua fraqueza.


A pergunta de Jesus é repetida para nós em todos os momentos: “Quem é Jesus para nós?”. Não se trata de uma pergunta supérflua. É claro que “sabemos” já quem é Jesus. Não somente cremos em Jesus como o Filho de Deus e Salvador da humanidade, mas queremos segui-Lo com fidelidade na vida de cada dia. Mas temos que refrescar ou renovar com freqüência esta convicção, pensando se realmente nossa vida está orientada para Ele, se nossas opções de cada dia estão de acordo com seus critérios. Quem é Jesus para mim agora, nesta etapa concreta da vida que estou vivendo? Não podemos responder a esta pergunta com palavras magistrais nascidas do estudo. Nossa resposta deve ser muito simples, nascida da vida de cada dia com o próprio Senhor.


Para ser um bom orador é necessário ser um bom orante” (Santo Agostinho. De doc. christ. 4,15,32).


P. Vitus Gustama,svd
24/09/2015
INTERROGAR SOBRE JESUS E SER INTERROGADO POR JESUS

Quinta-feira da XXV Semana Comum


Evangelho: Lc 9, 7-9


Naquele tempo, 7 o tetrarca Herodes ouviu falar de tudo o que estava acontecendo, e ficou perplexo, porque alguns diziam que João Batista tinha ressuscitado dos mortos. 8 Outros diziam que Elias tinha aparecido; outros ainda, que um dos antigos profetas tinha ressuscitado. 9 Então Hero­des disse: “Eu mandei degolar João. Quem é esse homem, sobre quem ouço falar essas coisas?” E procurava ver Jesus.
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Curiosamente, a pergunta de Herodes sobre Jesus surge entre o relato da missão dos Doze e o da multiplicação dos pães. Herodes se pergunta: “Eu degolei João. Quem é, pois, este, de quem ouço tais coisas? E procurava ocasião de vê-lo”.


Nossa vida jamais está isolada da vida dos demais. Nossa maneira de viver pode provocar a inquietação para o modo de viver dos outros, e vice versa. Nossa maneira de encarar a vida cotidiana pode servir de lição para os outros e vice-versa. O modo de viver de um justo ou de um honesta incomoda a consciência de quem vive na injustiça e na desonestidade. Um pobre que tem dificuldade de conseguir alimento corrige nossa vida burguesa. O humilde que encontramos no nosso caminho nos alerta sobre nossa prepotência capaz de terminar na fatalidade. Uma pessoa que sempre reza e medita a Palavra de Deus nos corrige no nosso relativismo. “Relativo” significa aquilo que vale somente em determinadas circunstâncias ou condições e não vale fora delas. Em resumo, podemos dizer, do ponto de vista espiritual, que em cada momento Deus nos apela e interpela. Por isso, todos os dias temos que nos perguntar: “Qual é apelo de Deus para mim hoje?”.


A pergunta de Herodes tem outra profundidade, efetivamente, coincide com a pergunta de todos os que se sentem interpelados pela pessoa e pelo modo de viver de Jesus e pelo testemunho dos discípulos. Herodes estava cheio de curiosidades porque no meio do povo se falava muito de Jesus, se contava mil coisas sobre Ele, dos seus lábios saiam palavras com poder e autoridade, se contavam fatos extraordinários como os milagres realizados por Ele. No fundo, Herodes tem medo tanto de João Batista como de Jesus, pois o ministério dos dois ou a maneira de os dois tratarem o povo incomodavam os poderosos na época. Herodes que estava no poder queria ver esse individuo tão “exótico” numa Galileia tão provinciana. Seu pai, Herodes Grande tinha a curiosidade de conhecer Jesus - menino, rei recém-nascido, mas com o intuito de eliminá-lo (cf. Mt 2,1-23). Uma das maneiras de falar de Deus e com Deus é a “voz de nossa consciência”. Herodes não tinha sua consciência tranqüila: uma voz do fundo de si mesmo lhe recordava seu pecado, sua maldade. Por isso, fica inquieto.


A sabedoria popular diz que há curiosidades maldosas, tais como as de Herodes,... quando permitem abusar de um poder ou de um interesse que elas atribuíram injustamente; quando alimentam o escândalo que elas mesmas exploram ou inventaram. Herodes queria ver Jesus para colocá-lo em sua Corte.


Mas se há curiosidades maldosas, precisamos estar conscientes de que a curiosidade também é o primeiro passo para o encontro e para a fé. O assombro, a surpresa, a provocação são o pórtico que nos introduz no descobrimento dos labirintos da casa e que nos inicia no mistério de uma morada.


A curiosidade é boa, pois ela desperta à vida. Uma criança vive na permanente curiosidade, e perguntam constantemente, pois ela quer saber mais e mais. O sentido da vida consiste em interrogar, em ser interrogado e em se interrogar. Curiosidade é sinônimo de descobrimento; é tensão até um objeto entrevisto ou desejado.


Ao lado da curiosidade há dúvida. A dúvida é o estado de equilíbrio entre afirmação e negação. Quem tem dúvida fica impedido de afirmar ou de negar por falta de dados nas mãos. A dúvida nos empurra para procurar fundamentos para podermos afirmar ou negar ou para podermos ter certeza daquilo que nos faz duvidosos. A incredulidade é, ao contrário, uma ausência da crença. 


Herodes sentiu curiosidade de querer ver Jesus. Mas com qual finalidade de ele querer ver Jesus? Para armar alguma cilada? Para ouvir da própria boca de Jesus de tudo que o povo fala e comenta? Para pedir de Jesus algum milagre ou alguma ajuda para o povo? Para desacreditá-Lo diante do povo? O texto não fala e por isso, não sabemos. Ele só terá oportunidade de ver Jesus na sua Paixão. Mas Jesus se manterá calado diante de Herodes, pois Herodes agirá de má-fé. Diante do silêncio de Jesus Herodes morrerá, um dia, sem saber quem é Jesus.


Será que nós, chamados de cristãos, ainda sentimos curiosidade por ou sobre Jesus? Será que já descobrimos esse Jesus na sua profundidade? Será que conhecemos realmente esse Jesus? Será que entendemos seus apelos? Será que somente confessamos em Jesus nas definições sem alma e reconhecê-lo nos dogmas frios e secos? Será que paramos de ter curiosidade sobre a pessoa e o modo de viver de Jesus a fim de purificar nossa vida já que somos chamados de cristãos? Podemos ter certeza de que a Palavra de Deus, os ensinamentos de Jesus nos interpelam todas vez que os lermos e meditarmos ou ouvirmos pregação ou retiro a respeito de Jesus.


De certa forma, a fé é curiosidade permanente, isto é, assombro que compromete a arriscar-se na aventura, num encontro entrevisto e, em conseqüência, desejado. A fé é curiosidade, de forma que a dúvida lhe é indispensável. Por isso, somente na coragem de fazer uma aventura cheia de riscos é que chegaremos à resposta desejada para afirmar ou negar nossa dúvida. A incerteza e a incompreensão pertencem ao terreno de nossa fé como o oco que espera ser preenchido, como a espera que aguarda o encontro, como a fome que se alimenta com o que pode satisfazê-la.


A pergunta continua fica no ar para cada cristão: “Será que você ainda tem curiosidade sobre Jesus? Que curiosidade você tem de Jesus?”. Tenho medo de que quando a curiosidade sobre Jesus morrer, morrerá também nossa fé. O evangelho que não mais nos incomoda deixa de ser evangelho. A Palavra de Deus que não nos interroga deixa de ser a Palavra de Deus. Olhando para a modo de viver de Jesus e seu modo de tratar as pessoas, será que minha maneira de viver como cristão provoca a curiosidade na pessoas para conhecer melhor Jesus em quem acredito? Quando nosso modo de viver não reflete mais o modo de viver de Jesus é porque Jesus está excluído de nossa vida. Quando nossa maneira de tratar os outros não provoca um impacto para a vida dos outros para quem eles possam ser nossos parceiros do bem é porque estamos sendo dominados pelo egoísmo.


Para Refletir


Certa vez o missionário E. Stanley Jones encontrou-se com Mahatma Gandhi na Índia, e perguntou: “Senhor Gandhi, apesar do senhor sempre citar as palavras do Cristo, por que é tão inflexível e sempre rejeita tornar-se seu seguidor?” Ao que Gandhi respondeu: “Ó! Eu não rejeito seu Cristo. Eu amo seu Cristo. Apenas creio que muitos de vocês cristãos são bem diferentes do vosso Cristo... Não conheço ninguém que tenha feito mais para a humanidade do que Jesus. De fato, não há nada de errado no cristianismo. O problema são vocês, cristãos. Vocês nem começaram a viver segundo os seus próprios ensinos”.

P. Vitus Gustama,svd

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

23/09/2015
 
SOMOS CHAMADOS A SER ENVIADOS DO SENHOR

Quarta-feira da XXV Semana
 

Evangelho: Lc 9,1-6

Naquele tempo, 1 Jesus convocou os Doze, deu-lhes poder e autoridade sobre todos os demônios e para curar doenças, 2 e enviou-os a proclamar o Reino de Deus e a curar os enfermos. 3 E disse-lhes: “Não leveis nada para o caminho: nem cajado nem sacola nem pão nem dinheiro nem mesmo duas túnicas. 4 Em qualquer casa onde entrardes, ficai aí; e daí é que partireis de novo. 5 Todos aqueles que não vos acolherem, ao sairdes daquela cidade, sacudi a poeira dos vossos pés, como protesto contra eles”. 6 Os discípulos partiram e percorriam os povoados, anunciando a Boa Nova e fazendo curas em todos os lugares.
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O texto do evangelho deste dia fala da missão dos discípulos de Jesus e, portanto, a missão de toda a Igreja, de todos os cristãos. Depois de uma longa temporada de formação e de instrução, Jesus convoca seus discípulos e os envia. A missão consiste na proclamação da Boa Nova e em ações concretas que o evangelho usa a expressão “expulsar demônios e curar os doentes”. É um trabalho libertador. Para isso, antes de partir Jesus lhes dá o poder para vencer a força do mal.


A missão se resume em dois pontos precisos: um é uma palavra, uma proclamação, um anúncio; outro é um ato propriamente dito, uma cura/libertação.


Anunciar Com Palavras


Em sentido técnico é chamado “anúncio”, aquela mensagem particular que suscita a fé. O Papa João Paulo II, na encíclica Redemptoris Missio, recorda que “Na realidade complexa da missão, o primeiro anúncio tem um papel central e insubstituível, porque introduz no mistério do amor de Deus, que, em Cristo, nos chama a uma estreita relação pessoal com Ele e predispõe a vida para a conversão. A fé nasce do anúncio, e cada comunidade eclesial consolida-se e vive da resposta pessoal de cada fiel a esse anúncio...” (n. 44). Para a Igreja, o anúncio do Evangelho (evangelho= anúncio alegre) é sua graça e sua própria vocação, sua identidade mais profunda. No NT o anúncio  sempre contém a mensagem salvífica. Por isso, não se trata apenas de ensinamento ou doutrina. A vida das pessoas tem que ser tocadas pela mensagem de Jesus para que se convertam em novos anunciadores/evangelizadores da salvação. A Igreja é a comunidade que se constitui em torno do Senhor. A tarefa de levar o anúncio do Evangelho incumbe a toda Igreja.


A palavra e a linguagem são os meios pelos quais o homem entra em relacionamento com o seu próximo. Para os antigos (especialmente para o mundo oriental), a palavra não é apenas a manifestação do pensamento ou da vontade, mas uma coisa concreta que opera e é como que carregada com a força da pessoa que a pronuncia. Neste sentido, uma palavra não é apenas como portadora e mediadora do conteúdo significante, mas sim como poder eficaz, especialmente nas bênçãos (cf. Gn 27,35-37 em que a bênção derramada sobre Jacó não pode mais ser abolida) e nas maldições (cf. a maldição proferida por Josué em Js 6,26, dois séculos mais tarde ainda pesava sobre aquele que queria reconstruir Jericó, como lemos em 1Rs 16,34. A maldição, uma vez pronunciada, só pode ser desfeita por uma bênção contrária, como lemos em Jz 17,2;1Sam 21,3).
           

Temos que estar conscientes de que a Palavra de Jesus (Deus) continuará a ser eficaz, curadora, e libertadora, se nós soubermos ouvi-la atentamente e vivê-la na nossa vida cotidiana. Se ela curou tantas pessoas, converteu tantos pecadores, libertou tantas pessoas de seus problemas, guiou a vida de tantos homens, esta mesma palavra continua tendo o mesmo poder e a mesma eficácia. A palavra humana pode errar e enganar, porque o homem é fraco. Mas a Palavra de Deus não erra nem engana. A Palavra de Deus é firme para sustentar a vida de quem nela se agarra e por ela se orienta. Precisamos anunciar a Palavra de Deus.


Toda a vida do cristão deve ser evangelizadora. “Não podemos ficar encerrados na paróquia, nas nossas comunidades, quando há tanta gente esperando o Evangelho! Não se trata simplesmente de abrir a porta para acolher, mas de sair pela porta fora para procurar e encontrar. Decididamente pensemos a pastoral a partir da periferia, daqueles que estão mais afastados, daqueles que habitualmente não frequentam a paróquia. Também eles são convidados para a Mesa do Senhor”. (Papa Francisco: HOMILIA NA MISSA COM OS BISPOS – CATEDRAL METROPOLITANA, Rio de Janeiro- Brasil, Sábado, 27 de julho de 2013).


Libertar As Pessoas


Porém, o texto do evangelho de hoje nos lembra que o missionário não pode ficar contente apenas com “palavras”, mas são necessários “atos” concretos que mostram aos homens que estes contribuem para libertá-los do poder do mal: expulsar os demônios, curar os doentes. Trata-se de libertar as pessoas de tantas escravidões. É preciso identificar e procurar que são os últimos de cada cidade, de cada comunidade, de cada rua, onde moramos e mobilizar os irmãos para procurar soluções concretas para aliviar as pessoas de suas necessidades. As pessoas necessitadas são carne e sangue visíveis de Jesus (cf. Mt 25,40.45).


O Papa Francisco nos alerta na sua exortação apostólica, Evangelii Gaudium: ”O grande risco do mundo atual, com sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é uma tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada. Quando a vida interior se fecha nos próprios interesses, deixa de haver espaço para os outros, já não entram os pobres, já não se ouve a voz de Deus, já não se goza da doce alegria do seu amor, nem fervilha o entusiasmo de fazer o bem. Este é um risco, certo e permanente, que correm também os crentes. Muitos caem nele, transformando-se em pessoas ressentidas, queixosas, sem vida. Esta não é a escolha duma vida digna e plena, este não é o desígnio que Deus tem para nós, esta não é a vida no Espírito que jorra do coração de Cristo ressuscitado” (no.2).


É bom cada  um fazer o exame de consciência se tem apenas muito dinheiro no bolso, mas o coração fica vazio.


Viver a Pobreza Evangélica


Para exercer esta missão cada enviado, cada cristão deve ser revestido de a “pobreza evangélica”: “Não leveis nada para o caminho: nem cajado nem sacola nem pão nem dinheiro nem mesmo duas túnicas”.


Cada cristão deve estar livre interiormente, sem demasiada bagagem. O cristão não busca a si mesmo e sim deve dar exemplo de desapego e deve confiar na força intrínseca da Palavra de Deus. O cristão deve estar despojado, ter um coração livre e desarmado. Somente aquele que se esvazia de si tem espaço para a graça de Deus. E quando uma pessoa estiver cheia da graça de Deus, como a mãe de Jesus, ele será uma bênção para os demais.


Não leveis nada para o caminho: nem cajado nem sacola nem pão nem dinheiro nem mesmo duas túnicas. Em qualquer casa onde entrardes, ficai aí; e daí é que partireis de novo”.


A vida do próprio Cristo foi marcada pelo sinal de pobreza. Ele nasceu na pobreza, viveu sob a pobreza e morreu pobre.


A Igreja primitiva cuidava muito de manter esse ideal de pobreza real. A pobreza era para ela um sinal do Reino (Lc 6,20;14,25-33; 16,19-31; 18,18-30).


A virtude cristã de pobreza é baseada sobre fé. A razão da pobreza evangélica é para imitar Cristo, para viver como ele viveu e para caminhar como ele caminhou.


Toda vez que nos encontrarmos com essa exigência evangélica devemos nos interrogar, pois somos muito propensos a esquecê-la e a nos instalar no conforto e no bem-estar com o risco tremendo de nos contentar com esses bens materiais e nos falte a disponibilidade. Vale a pena fazer uma reflexão sobre as seguintes palavras do Papa Francisco na sua entrevista com Gerson Camarotti da Globo News durante a Jornada Mundial da Juventude de 2013 no Rio de Janeiro, Brasil: “Penso que temos que dar testemunho de uma certa simplicidade, eu diria, inclusive, de pobreza. Nosso povo exige a pobreza de nossos sacerdotes. ... O povo sente seu coração magoado quando nós, as pessoas consagradas, estamos apegadas ao dinheiro. Isso é ruim. E realmente não é um bom exemplo que um sacerdote tenha um carro último tipo, de marca” (Papa Francisco, Mensagens e Homilias- JMJ Rio 2013 , pp. 130-131. Ed. Conferência Nacional dos Bispos do Brasil).


A Igreja que somos nós todos, devemos servir de ponte entre Deus e a humanidade, deve servir de testemunha da simplicidade e do amor de Deus aos homens. A fé, que é a resposta humana ao convite de Deus deve ser refletida na terra em que vivemos e em que trabalhamos. Toda a atividade da Igreja ou de cada cristão deve ser dirigida para este fim: ser espelho do amor de Deus.


A imagem da Igreja, que somos nós todos, deve ser a imagem de uma realidade acolhedora e não excludente, deve ser a imagem de um “recinto” em que todos cabem porque todos são recebidos com amor. Neste sentido, toda a vida do cristão há de ser evangelizadora. Onde há amor, há espaço. Onde não há amor, há apenas um sufoco e agressividade e mútuo ataque.


Na Eucaristia celebramos o amor daquele que, conhecendo nossa fragilidade, faz suas nossas dores, carregou sobre si nossas misérias e nos curou com suas chagas (cf. Mt 8,17; Is 53,4). Ele se apresentou não como um Deus terrível que dá medo e sim com simplicidade de quem nos ama entranhavelmente e se aproxima de nós para se manifestar a nós como a Boa Notícia que o Pai misericordioso pronuncia a nosso favor.


Que Deus nos conceda a graça de viver confiados no amor de Deus, mas ao mesmo tempo, de viver fieis a todo aquilo que nos foi encomendado, especialmente proclamar seu Evangelho não somente com palavras, principalmente com obras, de tal forma que sejamos construtores de seu Reino neste mundo.


Reflitamos as seguintes palavras do Papa Francisco na exortação apostólica, Evangelii Gaudium:

“Saiamos, saiamos para oferecer a todos a vida de Jesus Cristo! Repito aqui, para toda a Igreja: prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada com ser o centro, e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos. Se alguma coisa nos deve santamente inquietar e preocupar a nossa consciência é que haja tantos irmãos nossos que vivem sem a força, a luz e a consolação da amizade com Jesus Cristo, sem uma comunidade de fé que os acolha, sem um horizonte de sentido e de vida. Mais do que o temor de falhar, espero que nos mova o medo de nos encerrarmos nas estruturas que nos dão uma falsa proteção, nas normas que nos transformam em juízes implacáveis, nos hábitos em que nos sentimos tranquilos, enquanto lá fora há uma multidão faminta e Jesus repete-nos sem cessar: ´Dai-lhes vós mesmos de comer´ [Mc 6, 37]. (EG 49)

P. Vitus Gustama,svd