segunda-feira, 5 de outubro de 2015

NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO
SER DISCÍPULO-MODELO A EXEMPLO DE MARIA
07 de Outubro

Evangelho: Lc 1, 26-38

Naquele tempo, 26 o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Naza­ré, 27 a uma virgem, prometida em casamento a um homem chamado José. Ele era descendente de Davi e o nome da Virgem era Maria. 2 8O anjo entrou onde ela estava e disse: “Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!” 29 Maria ficou perturbada com estas palavras e começou a pensar qual seria o significado da saudação. 30 O anjo, então, disse-lhe: “Não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. 31 Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus. 32Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi. 33 Ele reinará para sempre sobre os descendentes de Jacó, e o seu reino não terá fim”. 34Maria perguntou ao anjo: “Como acontecerá isso, se eu não conheço homem algum?” 35 O anjo respondeu: “O Espírito virá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com sua sombra. Por isso, o menino que vai nascer será chamado Santo, Filho de Deus. 36 Também Isabel, tua parenta, concebeu um filho na velhice. Este já é o sexto mês daquela que era considerada estéril, 37 porque para Deus nada é impossível”. 38 Maria, então, disse: “Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!” E o anjo retirou-se.
_________________

 
A memória de Nossa Senhor do Rosário (de caráter devocional) está ligada à vitória de Lepanto em 1571. A vitória foi obtida por uma particular proteção da Santíssima Virgem Maria. O Papa Pio V instituiu, então, a festa de Nossa Senhora da Vitória em Roma. Dois anos depois, a pedido da Ordem dominicana o Papa Gregório XIII, sucessor do Pio V,  estendeu esta festa para toda a Igreja (universalmente). O Papa  Gregório XIII mudou o nome da festa: de Nossa Senhora da Vitória passa a ser chamada de Nossa Senhora do Rosário. Era celebrada no primeiro domingo do mês de outubro. Atualmente a festa é celebrada no dia 7 de outubro.


O Rosário e Seus Mistérios


Em sua forma atual  o Rosário tem por autor são Domingos, fundador dos dominicanos por uma revelação particular de Nossa Senhora (Maria) em 1206. 50 anos depois da aparição de Nossa Senhora a são Domingos milhares de hereges e pecadores se converteram e voltaram para a Igreja católica. Os autores contemporâneos  de são Domingos dizem que ele (são Domingos) conseguiu converter mais de cem mil pessoas depois que ele começou a ensinar-lhes a oração do santo Rosário.


Na Idade Média a Virgem Maria é saudada com o título de rosa, símbolo da alegria. O Bem-aventurado Hermann dizia a Maria: “Alegra-te, Tu, a mesma beleza. Eu Te digo: Rosa, Rosa”. E num manuscrito francês medieval se escreveu: “ Quando a bela Rosa Maria começa a florescer, o inverno de nossas tribulações se desvanece e o verão da terna alegria começa a brilhar”. As imagens da Virgem Maria eram adornadas ou decoradas com uma coroa de rosas e se cantava a Maria como “Jardim de rosa” (em latim medieval rosarium). Assim se explica a etimologia do nome que chegou a nossos dias. Nessa época, os que não sabiam recitar os 150 Salmos do Oficio Divino, eles substituíam por 150 Ave Marias, acompanhadas de genuflexões.


A oração do rosário parece uma das orações mais fáceis propostas pela Igreja. Na realidade o rosário é uma oração contemplativa. Ele nos faz passarmos através de todos os mistérios de nossa redenção.


Nos mistérios gozosos, por exemplo, nós entramos na casa da Mulher bendita de Nazaré (Maria) para escutar a mensagem salvífica do Divino Mensageiro, o Anjo Gabriel (Lc 1,26-38). Logo depois, vamos a Ain Karim (para a casa de Isabel e Zacarias) onde com Isabel e com ela (Maria) proclamamos a Maternidade divina de Maria (Maria é chamada de “Mãe do meu Senhor” por Isabel cf. Lc 1,43). Em Belém ficamos com pasmo diante da manjedoura onde se deita o Salvador do mundo e honramos com os pastores ao mesmo Salvador, Jesus Cristo (cf. Lc 2,8-14). Logo em seguida, vemos o mesmo Salvador no Templo apresentado a Deus pelos seus pais (Lc 2,22-40), e reencontra entre os doutores cheios de estupor por sua inteligência (Lc 2,41-52). E nos mistérios luminosos contemplamos a vida publica de Jesus para aprender d’Ele como devemos viver como cristãos para que, um dia, possamos contemplar a vida glorificada. Ou, nos mistérios dolorosos, contemplamos a Paixão de Jesus e de Maria que O acompanhava, desde Getsêmani até o Calvário (cf. Jo 19,25-27). E nos mistérios gloriosos, refletimos sobre o triunfo de Jesus, no qual tem parte Sua Mãe na economia da salvação.


Por essa razão, o rosário (ou o terço) não é apenas mariológico, mas, principalmente, cristológico, pois nele se contemplam os mistérios de Cristo que são os mistérios de nossa redenção. Na sua Carta Apostólica sobre o Rosário o Papa João Paulo II escreveu:

·        O Rosário, de fato, ainda que caracterizado pela sua fisionomia mariana, no seu âmago é oração cristológica. Na sobriedade dos seus elementos, concentra a profundidade de toda a mensagem evangélica, da qual é quase um compêndio. Nele ecoa a oração de Maria, o seu perene Magnificat pela obra da Encarnação redentora iniciada no seu ventre virginal. Com ele, o povo cristão freqüenta a escola de Maria, para deixar-se introduzir na contemplação da beleza do rosto de Cristo e na experiência da profundidade do seu amor. Mediante o Rosário, o crente alcança a graça em abundância, como se a recebesse das mesmas mãos da Mãe do Redentor”. (ROSARIUM VIRGINIS MARIAE no.1)


Assim começando com a oração que Jesus nos ensinou (Pai Nosso) e que nos autoriza a invocarmos ao Seu Pai como nosso Pai, nós repetimos a Ave Maria, a saudação do Anjo dada à maior de todas as criaturas (Maria) e a saudação de Isabel para a mesma (primeira parte da Ave Maria) e ao mesmo tempo, somos convidados a contemplar os maiores mistérios de nossa redenção em cada dezena de Ave-Marias.


A riqueza mística da oração de rosário permite a cada sacerdote, de maneira especial, entrar no mistério da própria vocação, contemplar os princípios da vida sacerdotal e dar a possibilidade de retornar aos momentos mais íntimos nos quais nascia, crescia e amadurecia a chamada de Jesus a segui-Lo. Como aconteceu com Jesus, a vida sacerdotal passa pelos momentos gozosos e dolorosos  para chegar aos momentos gloriosos que terão seu cumprimento na vida futura para a qual são dirigidas as seguintes palavras: “Venha o Teu Reino!”. Por isso, a contemplação dos mistérios do Rosário pode chegar a ser um exame de consciência da devoção sacerdotal a Maria. Essa devoção consiste em imitar as virtudes de Maria. Não é por acaso que o Papa João Paulo II dizia as seguintes palavras:


·        “O Rosário é a minha oração predileta. Oração maravilhosa! Maravilhosa na simplicidade e na profundidade. Nesta oração repetimos muitas vezes as palavras que a Virgem Maria ouviu ao Arcanjo e à Sua parente Isabel. A estas palavras associa-se a Igreja inteira. Pode dizer-se que o Rosário é, em certo modo, um Comentário-prece do último capítulo da Constituição Lumen Gentium do Vaticano II, capítulo que trata da admirável presença da Mãe de Deus no mistério de Cristo e da Igreja. De fato, sobre o fundo das palavras "Ave Maria" passam diante dos olhos da alma os principais episódios da vida de Jesus Cristo. Eles dispõem-se no conjunto dos mistérios gozosos, dolorosos e gloriosos, e põem-nos em comunhão viva com Jesus através — poderíamos dizer — do Coração de Sua Mãe. Ao mesmo tempo o nosso coração pode incluir nestas dezenas do Rosário todos os fatos que formam a vida do indivíduo, ela família, da nação, da Igreja e da humanidade. Acontecimentos pessoais e os do próximo, e de modo particular daqueles que nos estão mais vizinhos, que temos mais no coração. Assim a oração simples do Rosário marca o ritmo da vida humana”. (Angelus, 29.10.1978)


Mensagem Do texto Do Evangelho Deste Dia


No texto do evangelho lido neste dia, inicialmente o Anjo de Deus não chama Maria pelo nome, mas chama-a simplesmente de “Cheia de graça”. O termo ‘graça’ significa benefício absolutamente gratuito, livre e sem motivo (cf. 1Cor 15,10). Também tem outro significado: um efeito do favor divino que torna alguém belo, amável e encantador. A graça da criatura depende da graça de Deus, e não vice-versa.


Na graça reside a completa explicação de Maria, a sua grandeza e a sua beleza. Maria encontrou graça, isto é, favor, junto de Deus; ela é cheia do favor divino. Como as águas preenchem o mar, assim a graça preenche a alma de Maria. Maria é cheia de graça também em outro sentido: ela é bela, daquela beleza que chamamos de santidade. Sendo agraciada, Maria é também graciosa.


Maria lembra cada um de nós que tudo na nossa vida é graça. A graça é a presença de Deus. As duas expressões: “cheia de graça” e “o Senhor está contigo” são quase a mesma coisa. Esta presença de Deus no homem realiza-se agora em Cristo e por Cristo. De fato ele é o Emanuel, o Deus-Conosco (Mt 1,23; 18,20;28,20).


A primeira coisa que cada um de nós deve fazer como resposta à graça de Deus é dar graças. A graça de Deus tem de ser acompanhada pelo agradecimento do homem. Dar graças significa, antes de tudo, reconhecer a graça, aceitar a gratuidade da mesma. Dar graças significa aceitar-se como devedor, como dependente; deixar que Deus seja Deus. É preciso fazer o possível para renovar cada dia o contato com a graça de Deus que está em nós. Pela graça podemos manter, desde esta vida, o contato com Deus. Precisamos crer na graça, crer que Deus nos ama, que nos é favorável de verdade, pela graça fomos salvos.


O texto quer dizer também que Maria é a primeira cristã por causa do seu sim a Deus para que possa nascer para a humanidade Jesus Cristo, nosso Salvador. Não era nenhuma princesa nem nenhuma patroa na sociedade do seu tempo. Era uma mulher simples do povo, uma moça pobre. Mas Deus se compadece dos humildes e dos simples. Para Deus tudo é simples, e para o simples tudo é divino. A simplicidade atrai a bênção de Deus e a simpatia humana. O simples, o humilde é o terreno fértil onde a graça de Deus encontra seu lugar e através do qual Deus fala para o mundo.


De certa forma, podemos dizer que com o sim de Maria à vontade de Deus a Igreja começou. A Virgem Maria, no momento de sua eleição radical e no momento de seu sim a Deus foi início e imagem da Igreja. Quando ela aceitou o anúncio do anjo, da parte de Deus, pode-se dizer que começou a Igreja: a humanidade, nela representada, começou a dizer sim à salvação que Deus lhe ofereceu. Nela e através dela a humanidade foi abençoada. Podemos olhar, por isso, para Maria como modelo de fé e motivo de esperança e de alegria.


O sim de Maria à Palavra de Deus expressa um compromisso total, uma confiança absoluta no amor e no poder de Deus que a faz sair de si mesma e aposta totalmente sua vida no poder de Deus. E este compromisso total de uma moça simples com a Palavra de Deus compromete também o destino da humanidade. Nós, cristãos, devemos ter uma consciência mais clara daquilo que sucede quando nos reunimos para celebrar a Eucaristia. A participação da Palavra e do Corpo de Cristo é algo que produz a união mais íntima possível com Cristo vivo. Por isso, o sim pronunciado no momento desta participação eucarística é o que compromete de uma maneira mais profunda todos nós cristãos.


Toda vez que dissermos Sim à vontade de Deus e aos seus mandamentos geraremos algo de bom, algo de humano e algo de divino para o mundo. Toda vez que dissermos a Deus conscientemente “Faça-se em mim segundo a Sua Palavra!”, nossa vida se encherá de Deus (cheia de graça), seremos instrumentos eficazes de Deus e faremos nascer algo de Deus para salvar o mundo. Toda vez que dissermos Sim a Deus e à Sua vontade, sairemos de nós para ir ao encontro dos demais para ajudá-los.  Cada cristão é chamado a dizer Sim ao bem, à bondade, ao amor, à justiça, à solidariedade, à honestidade, à retidão e assim por diante, pois tudo isso significa dizer Sim a Deus.


O compromisso da vida cristã é deixar-se fecundar pelo Espírito de Deus, como Maria, escutando a Palavra de Deus que vem por meio de mensageiros, tendo em conta nossa situação e nossas forças, mas respondendo a Deus com confiança e interesse. O cristão deve deixar-se encarnar pela Palavra de Deus para que se torne Boa Nova para os demais como Maria.


Ó, Virgem fiel, dia e noite permaneces em profundo silêncio, em uma paz inefável, em uma oração divina, que não cessa nunca, com a alma inteiramente inundada por eternos resplendores. (...) Em uma paz inefável, em um misterioso silêncio, penetraste no insondável levando em ti o Dom de Deus. Guarda-me sempre em um abraço divino. Que leve sempre em mim a estampa deste Deus de amor”. (Isabel da Trindade)  
 

OS MISTÉRIOS DO ROSÁRIO


MISTÉRIOS DA ALEGRIA/gozosos (Segundas e Sábados)


1.º Mistério: A Anunciação do Anjo a Nossa Senhora. (Lc 1, 26-38)

2º Mistério: A Visitação de Nossa Senhora a Santa Isabel. (Lc 1, 39-56)

3º Mistério: O Nascimento de Jesus no presépio de Belém. (Lc 2, 1-20)

4º Mistério: A Apresentação do Menino Jesus no Templo. (Lc 2, 22-38)

5º Mistério: O Encontro do Menino Jesus no Templo, entre os Doutores. (Lc 2, 41-50)


MISTÉRIOS DA DOR/dolorosos (Terças e Sextas)

1.º Mistério: Oração e Agonia de Jesus no Jardim das Oliveiras. (Mt 26, 36-46)

2º Mistério: A Flagelação de Nosso Senhor Jesus Cristo. (Mt 27, 24-26)

3º Mistério: O Coroação de espinhos. (Mt 27, 27-31)

4º Mistério: Jesus a caminho do Cálvário e o encontro com Sua Mãe. (Lc 23, 26-32)

5º Mistério: A Crucificação e Morte de Jesus . (Jo 19, 17-30)


MISTÉRIOS DA GLÓRIA/ gloriosos (Quartas e Domingos)


1.º Mistério: A Ressurreição de Jesus Cristo. (Mt 28, 1-10)

2º Mistério: A Ascensão de Jesus ao Céu. (At 1, 6-11)

3º Mistério: A descida do Espírito Santo sobre Nossa Senhora e os Apóstolos, reunidos no Cenáculo. (At 1, 12-14 e 2, 1-4)

4º Mistério: A Assunção de Nossa Senhora ao Céu em corpo e alma. (1Cor 15, 12-23)

5º Mistério: A Coroação de Nossa Senhora, como Rainha do Céu e da Terra. (Ap 12, 1-17)


MISTÉRIOS DA LUZ/luminosos (Quinta-Feira)


1.º Mistério: O Batismo de Jesus no Rio Jordão. (Mt 3, 13-17)

2º Mistério: A Revelação de Jesus nas Bodas de Caná. (Jo 2, 1-11)

3º Mistério: O Anúncio do Reino de Deus. Um convite à conversão (Mt 4, 12-17-23)

4º Mistério: A Transfiguração de Jesus no Monte Tabor. (Lc 9, 28-36)

5º Mistério: A Última Ceia de Jesus com os Apóstolos e a Instituição da Eucaristia. (Lc 22, 14-20)
------------------------

 
MARIA, MULHER DA ESCUTA, DA DECISÃO E DA AÇÃO

(Oração à Maria no final da recitação do Santo Rosário na Praça de São Pedro, 31 de maio de 2013)

Por Papa Francisco

“Maria, Mulher da escuta, abre os nossos ouvidos; faz com que saibamos ouvir a Palavra do teu Filho Jesus, no meio das mil palavras deste mundo; faz com que saibamos ouvir a realidade em que vivemos, cada pessoa que encontramos, especialmente quem é pobre e necessitado, quem se encontra em dificuldade.


Maria, Mulher da decisão, ilumina a nossa mente e o nosso coração, a fim de que saibamos obedecer à Palavra do teu Filho Jesus, sem hesitações; concede-nos a coragem da decisão, de não nos deixarmos arrastar para que outros orientem a nossa vida.


Maria, Mulher da ação, faz com que as nossas mãos e os nossos pés se movam ´apressadamente´ rumo aos outros, para levar a caridade e o amor do teu Filho Jesus, para levar ao mundo, como tu, a luz do Evangelho. Amém!”
 
P. Vitus Gustama,svd

sábado, 3 de outubro de 2015

06/10/2015

FAZER TUDO NO ESPÍRITO DA PALAVRA DE DEUS

Terça-feira da XXVII Semana Comum


Evangelho: Lc 10,38-42

Naquele tempo, 38 Jesus entrou num povoado, e certa mulher, de nome Marta, recebeu-o em sua casa. 39 Sua irmã, chamada Maria, sentou-se aos pés do Senhor, e escutava a sua palavra. 40 Marta, porém, estava ocupada com muitos afazeres. Ela aproximou-se e disse: “Senhor, não te importas que minha irmã me deixe sozinha, com todo o serviço? Manda que ela me venha ajudar!” 41 O Senhor, porém, lhe respondeu: “Marta, Marta! Tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas. 42 Porém, uma só coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada”.
*****************

O texto do evangelho deste dia se encontra na última viagem de Jesus para Jerusalém, pois em Jerusalém, cidade da paz (pelo nome), Jesus será crucificado e morto.  Durante esta viagem Jesus vai dando suas últimas lições para seus discípulos e portanto, para todos os cristãos de qualquer época e lugar.


Sem dúvida nenhuma há uma ligação temática entre o episódio de Marta e Maria (evangelho de hoje) e a parábola do bom samaritano do dia anterior (Lc 10,25-37). O mandamento do amor é duplo: amar a Deus e amar ao próximo. A parábola do bom samaritano responde à questão do amor ao próximo. O amor a Deus exige do homem que escute atentamente a Palavra de Deus para que ele possa falar, agir e fazer tudo de acordo com o espírito da Palavra de Deus. Além disso, ao escutá-la atentamente, a Palavra de Deus abre para o homem o caminho para a vida eterna. O isto significa que o homem não pode preocupar-se apenas com  sua subsistência física ou material, pois tudo isso é passageiro. É preciso que o homem esteja sempre aberto à Palavra de Deus. Quem está aberto à Palavra de  Deus sabe colocar as coisas no seu devido lugar. Esta é a lição que Jesus quer passar hoje para nós.


Jesus nos dá essa lição dentro do contexto de um banquete. Trata-se de um momento familiar e da fraternidade onde as relações se nivelam. Não se diz se havia muitos ou poucos convidados; o que se diz é que uma das irmãs (Marta) andava atarefada “com muito serviço”, enquanto a outra (Maria) “sentada aos pés de Jesus, ouvia a sua Palavra”. Marta, naturalmente, não se conformou com a situação e queixou-se a Jesus pela indiferença da irmã. A resposta de Jesus: «Marta, Marta, andas inquieta e preocupada com muitas coisas, quando uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada», constitui o centro do relato e nos dá o sentido da catequese que, com este episódio, Lucas nos quer apresentar: a Palavra de Jesus deve estar acima de qualquer outro interesse.


A posição de Maria: “Sentada aos pés de Jesus” é a posição típica de um discípulo diante do seu mestre. Isso significa que Jesus tinha discípulas (cf. Lc 8,35; At 22,3). Lucas mostra, neste episódio, que Jesus não faz qualquer discriminação: o fato decisivo para ser seu discípulo/discípula é estar disposto a escutar a sua Palavra e vivê-la na prática. Por isso, Jesus aproveita a ocasião para repreender, não o útil serviço que Marta está prestando, e sim a excessiva inquietação e preocupação que lhe marcam negativamente o agir: “Marta, Marta, tu te inquietas e te agitas por muitas coisas; no entanto, pouca coisa é necessária, até mesmo uma só. Maria, com efeito, escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada”.


Muitas vezes, este episódio foi lido à luz da oposição entre ação e contemplação; no entanto, não é bem isso que aqui está em causa. Lucas não está, nesta catequese, explicando que a vida contemplativa é superior à vida ativa; que o “fazer coisas”, que o “servir os irmãos” não seja mais importante do que a oração; mas significa que tudo deve partir da escuta da Palavra, pois a escuta da Palavra de Deus é que nos projeta para os outros e nos faz perceber o que Deus espera de nós e para que tudo possa ser feito dentro do espírito da Palavra de Deus. Por isso, a contraposição de Marta e Maria não está a nível de vida ativa e vida contemplativa e sim a nível de escuta ou não escuta da Palavra de Deus. Não se contrapõe duas formas de vida e sim duas atitudes que podem dar-se em uma mesma forma de vida, seja ativa ou contemplativa. A escuta da Palavra de Jesus é uma exigência fundamental do amor a Deus.


A vida cristã é esforço, mas também recepção, acolhida. No processo pessoal e comunitário há caminho e repouso, há missão e comunhão, há luta e festa. Estes aspectos não devem ser contemplados como sucessivos e desvinculados entre si e sim como acentos e perspectivas de uma mesma realidade invisível: a fidelidade a Jesus Cristo e à Sua Palavra.


Maria escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada”. A fidelidade à Palavra de Deus é um valor jamais comprometido em si mesmo seja qual for a situação do cristão. Para outras coisas podem existir impedimentos, dificuldades internas e externas: enfermidade, situação social, cultura, economia e assim por diante. Mas a fidelidade à Palavra de Deus é o valor sempre “assegurado”. “Esta parte não lhe será tirada”.


É claro que a atitude de Marta que quer atender Jesus com toda classe tem seu mérito. Porém, Lucas quer sublinhar que há outra atitude fundamental que deve ter na vida de cada cristão: é a escuta da Palavra de Deus que é maior do que qualquer coisa, pois trata-se da Palavra d’Aquele que criou todas as coisas. Escutando e vivendo de acordo com a Palavra de Deus nos garante a presença permanente de Deus na nossa vida, pois a Palavra de Deus é sempre maior do que qualquer dificuldade, preocupação ou problema na nossa vida. No episódio de Maria e Marta não há oposição entre ação e contemplação, mas tudo deve ter sua raiz profunda na escuta atenta da Palavra de Deus. Assim, podemos chegar a ser contemplativos na ação ou ativos na contemplação.


Lucas faz, então, de Maria um modelo de discípulo de Jesus em razão da escuta da Palavra de Jesus para viver e fazer as coisas conforme a vontade de Deus. Este é o objetivo central do texto que Lucas quer inculcar a seus leitores. Mal poderemos seguir a Jesus, mal poderemos cumprir o que ele nos pede, se não escutarmos, se não estivermos atentos à Sua palavra. É impossível viver como cristão sem escutar, serenamente, a Deus. A escuta da Palavra pode nos ajudar a re-centrarmos a nossa vida e a redescobrirmos o sentido da nossa existência.


O texto do evangelho deste dia quer nos enfatizar que a atividade cotidiana e o ativismo do serviço ao próximo sempre encontrarão justificativas para preferirmos, sob o pretexto de fazer o bem, não o que devemos, mas o que queremos fazer. Devemos querer aquilo que Deus quer que façamos: no amor, com amor e por amor. O ativismo é a fuga. Muitas vezes é mais fácil enchermos o tempo com as nossas atividades em lugar de deixarmos a eternidade encher o nosso pensar e nosso agir para tudo se torne uma atividade de salvação. A exigência de Jesus é esta: em tudo podemos e devemos, no agir e no contemplar, nos deixar julgar pelo espirito da Palavra de Deus. Que escolhamos esta parte como fez Maria.

P. Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

05/10/2015
BOM SAMARITANO:
 QUEM É MEU PRÓXIMO E DE QUEM SOU PRÓXIMO?

Segunda-Feira Da XXVII Comum

 

Evangelho: Lc 10,25-37

Naquele tempo, 25 um mestre da Lei se levantou e, querendo pôr Jesus em dificuldade, perguntou: “Mestre, que devo fazer para receber em herança a vida eterna?” 26 Jesus lhe disse: “Que está escrito na Lei? Como lês?” 27 Ele então respondeu: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração e com toda tua alma, com toda a tua força e com toda a tua inteligência; e a teu próximo como a ti mesmo!” 28 Jesus lhe disse: “Tu respondeste certamente. Faze isso e viverás”. 29 Ele, porém, querendo justificar-se, disse a Jesus: “E quem é o meu próximo?” 30 Jesus respondeu: “Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos de assaltantes. Estes arrancaram-lhe tudo, espancaram-no, e foram-se embora deixando-o quase morto. 31 Por acaso, um sacerdote estava descendo por aquele caminho. Quando viu o homem, seguiu adiante, pelo outro lado. 32 O mesmo aconteceu com um levita: chegou ao lugar, viu o homem e seguiu adiante, pelo outro lado. 33 Mas um samaritano que estava viajando, chegou perto dele, viu e sentiu compaixão. 34 Aproximou-se dele e fez curativos, derramando óleo e vinho nas feridas. Depois colocou o homem no seu próprio animal e levou-o a uma pensão, onde cuidou dele. 35 No dia seguinte, pegou duas moedas de prata e entregou-as ao dono da pensão, recomendando: “Toma conta dele! Quando eu voltar, vou pagar o que tiveres gasto a mais”. E Jesus perguntou: 36 “Na tua opinião, qual dos três foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?” 37 Ele respondeu: “Aquele que usou de misericórdia para com ele”. Então Jesus lhe disse: “Vai e faze a mesma coisa”.
--------------------------------------

O que está em jogo no texto do evangelho lido neste dia que nos é proposto é uma pergunta de um mestre da Lei: “O que fazer, a fim de conseguir a vida eterna?”.


A resposta é previsível e evidente, de tal forma que o próprio mestre da Lei a conhece: amar a Deus, fazer de Deus o centro da vida e amar o próximo como a si mesmo. Certamente a maravilhosa parábola do bom Samaritano é um reflexo sobre como deve viver concretamente a lei do amor a Deus e ao próximo.


No entanto, a dúvida do mestre da Lei vai mais fundo quando se fala do próximo: “Quem é o meu próximo?”. Na época de Jesus, os mestres de Israel discutiam, precisamente, quem era o “próximo”. Naturalmente, havia opiniões diversas. Porém, havia consenso entre todos sobre o sentido exclusivo do próximo. De acordo com a Lei, o “próximo” era apenas o membro do Povo de Deus (cf. Ex 20,16-17; 21,14.18.35; Lv 19,11.13.15-18). No entanto, Jesus tinha outro conceito sobre quem é o próximo. É precisamente para explicar a sua perspectiva que Jesus conta a “parábola do bom samaritano”.


O que está em jogo nesta parábola? Qual é a pergunta principal ou questão mais importante nesta parábola?


O que acontecerá comigo se eu não obedecer à lei ritual diante do homem meio morto?”. Esta é a pergunta do sacerdote e do levita nesta parábola. Mas Jesus convida cada cristão a fazer a seguinte pergunta: “O que acontecerá com meus irmãos, especialmente com os irmãos mais necessitados, se eu não fizer nada por eles?”. Esta é a pergunta do bom samaritano. Por isso, o bom samaritano se solidariza, se aproxima, e se arrisca pelo irmão, pelo necessitado.


O samaritano é um dos que a religião tradicional considerava um inimigo, um infiel, longe da salvação e longe da Igreja. No entanto, foi ele quem parou, sem medo de correr riscos ou de adiar os seus esquemas e interesses pessoais, que cuidou do ferido e que o salvou. Apesar de ser um “herege”, um “excomungado”, mostra ser alguém atento ao irmão necessitado, com o coração cheio de amor e, portanto, cheio de Deus. “Amando ao próximo você limpa os olhos para ver a Deus” (Santo Agostinho). “O amor é a única dívida que mesmo depois de paga nos mantém como devedores” (Santo Agostinho).


A base da fé é, certamente, estar aberto à realidade humana, ser capaz de pensar no outro e na sua necessidade, de respeitar a vida do outro, de sentir o que o outro sente ou o que o outro pode sentir. O samaritano reage com uma atitude de homem para homem, e se converte, deste modo, em realizador da misericórdia. Para Jesus o importante não é saber quem é meu próximo e sim fazer-se próximo dos demais, aproximar-se, ajudar o outro. O verdadeiro amor não faz exceção com ninguém. O amor aproxima e nos faz descobrir o próximo. O amor torna o outro meu próximo. Por isso, para quem ama, qualquer ser humano é seu próximo, independentemente de sua crença, religião, política, ideologia e assim por diante. A verdadeira religião que conduz à salvação passa por este amor sem limites ao próximo. O próximo é a passagem obrigatória para chegar até Deus. Quem tem sensibilidade e é capaz de desfazer-se de seus planos para se mostrar solidário, estará no caminho da vida eterna. Quem, pelo contrário, desvia-se do próximo carente de solidariedade, desvia-se do caminho que conduz a Deus. O “próximo” é qualquer um que necessita de nós, seja amigo ou inimigo, conhecido ou desconhecido, da mesma nação ou doutra qualquer; o “próximo” é qualquer irmão caído nos caminhos da vida que necessita de nossa ajuda e de nosso amor para poder se levantar novamente. Neste gesto do bom samaritano, a Igreja de todos os tempos reconhece um aspecto fundamental da sua missão: a missão de levantar todos os homens e mulheres caídos nos caminhos da vida. É a missão de cada cristão, seguidor de Cristo. O próximo é aquele em cujo caminho eu me coloco.


Neste gesto do bom samaritano, a Igreja de todos os tempos reconhece um aspecto fundamental da sua missão: a missão de levantar todos os homens e mulheres caídos nos caminhos da vida. É a missão de cada cristão, seguidor de Cristo. Qualquer pessoa ferida com quem nos cruzamos nos caminhos da vida tem direito ao nosso amor, à nossa misericórdia, ao nosso cuidado – seja ela branca ou negra, cristã ou muçulmana, ateu ou crente, fascista ou comunista, pobre ou rica…


Em um mundo no qual se encurtam as distâncias e se incrementam as comunicações para todos os níveis, muitos homens não conseguem ser próximos para os outros porque as atitudes interiores diversas não estão em consonância com a proximidade física. Quantos estão sós em meio do barulho das grandes e pequenas cidades.


É preciso que estejamos conscientes de que perderemos o tempo se nós buscarmos Deus tão somente nas práticas religiosas ou rituais, mas distantes da vida e dos irmãos. Ambos devem se complementar. O encontro com Deus na oração deve levar necessariamente cada cristão ao encontro com os irmãos. O amor cria vida para quem ama e amado.


Vale a pena repetir a pergunta para que cada um de nós possa estender a reflexão: “De quem sou próximo?”. Será que sou próximo de acordo com o critério de Jesus a exemplo do bom samaritano? Para quem se conforma com a pergunta “quem é meu próximo?”, o próximo não está mais próximo e sim está distante, está do outro lado de nossa curiosidade. Próximo não é aquele que eu encontro no meu caminho e sim aquele em cujo caminho eu me coloco. Este é o próximo conforme a parábola do Bom Samaritano. Quantas vezes, por comodismo, por medo eu não quis me colocar no caminho de quem estava em necessidade? A questão fundamental da parábola não é: quem é o meu próximo? Mas é: Sou próximo de quem? Quando se tem a compaixão, as barreiras de etnia, sexo, religião, classe social etc. ficam rompidas. São João Crisóstomo dizia: “Nada te pode fazer tão imitador de Cristo como a preocupação pelos outros. Mesmo que jejues, mesmo que durmas no chão, mesmo que, por assim dizer, te mates, se não te preocupas com o próximo, pouca coisa fizeste, ainda distas muito da imagem do Senhor.

P. Vitus Gustama,SVD
Domingo,04/10/2015
MATRIMÔNIO QUE JESUS QUER

XXVII DOMINGO DO TEMPO COMUM ANO “B”

 

I Leitura: Gênesis 2,18-24


18 O Senhor Deus disse: “Não é bom que o homem esteja só; vou dar-lhe uma ajuda que lhe seja adequada.” 19 Tendo, pois, o Senhor Deus formado da terra todos os animais dos campos, e todas as aves dos céus, levou-os ao homem, para ver como ele os havia de chamar; e todo o nome que o homem pôs aos animais vivos, esse é o seu verdadeiro nome. 20 O homem pôs nomes a todos os animais, a todas as aves dos céus e a todos os animais dos campos; mas não se achava para ele uma ajuda que lhe fosse adequada. 21 Então o Senhor Deus mandou ao homem um profundo sono; e enquanto ele dormia, tomou-lhe uma costela e fechou com carne o seu lugar. 22 E da costela que tinha tomado do homem, o Senhor Deus fez uma mulher, e levou-a para junto do homem. 23 “Eis agora aqui, disse o homem, o osso de meus ossos e a carne de minha carne; ela se chamará mulher, porque foi tomada do homem.”


II Leitura: Hebreus 2,9-11


9 Mas aquele que fora colocado por pouco tempo abaixo dos anjos, Jesus, nós o vemos, por sua Paixão e morte, coroado de glória e de honra. Assim, pela graça de Deus, a sua morte aproveita a todos os homens. 10 Aquele para quem e por quem todas as coisas existem, desejando conduzir à glória numerosos filhos, deliberou elevar à perfeição, pelo sofrimento, o autor da salvação deles, 11 para que santificador e santificados formem um só todo. Por isso, (Jesus) não hesita em chamá-los seus irmãos.


Evangelho: Mc 10,2-16


Naquele tempo, 2 chegaram os fariseus e perguntaram a Jesus, para o pôr à prova, se era permitido ao homem repudiar sua mulher. 3 Ele respondeu-lhes: "Que vos ordenou Moisés?" 4 Eles responderam: "Moisés permitiu escrever carta de divórcio e despedir a mulher." 5 Continuou Jesus: "Foi devido à dureza do vosso coração que ele vos deu essa lei; 6 mas, no princípio da criação, Deus os fez homem e mulher. 7 Por isso, deixará o homem pai e mãe e se unirá à sua mulher; 8 e os dois não serão senão uma só carne. Assim, já não são dois, mas uma só carne. 9 Não separe, pois, o homem o que Deus uniu." 10 Em casa, os discípulos fizeram-lhe perguntas sobre o mesmo assunto. 11 E ele disse-lhes: "Quem repudia sua mulher e se casa com outra, comete adultério contra a primeira. 12 E se a mulher repudia o marido e se casa com outro, comete adultério." 13 Apresentaram-lhe então crianças para que as tocasse; mas os discípulos repreendiam os que as apresentavam. 14 Vendo-o, Jesus indignou-se e disse-lhes: "Deixai vir a mim os pequeninos e não os impeçais, porque o Reino de Deus é daqueles que se lhes assemelham. 15 Em verdade vos digo: todo o que não receber o Reino de Deus com a mentalidade de uma criança, nele não entrará." 16 Em seguida, ele as abraçou e as abençoou, impondo-lhes as mãos.
---------------------------
 

I. SITUAÇÃO DA MULHER NO TEMPO DE JESUS
     

Na Palestina a estrutura social é patriarcal. O pai é o único que tem direito de dispor, dar ordens, castigar, pronunciar as orações, oferecer os sacrifícios. A mulher judia era considerada em tudo inferior ao homem. Ela pertence completamente ao seu dono: ao pai, se for solteira (o pai pode vender sua filha como escrava quando ela tem entre 6 e 12 ou 12 anos e meio de idade); ao marido, se for casada; ao cunhado solteiro, se for viúva sem filhos (Dt 25,5-10).


No Templo e na sinagoga homens e mulheres ficavam rigorosamente separados: as mulheres sempre em lugares inferiores, secundários. O culto na sinagoga era celebrado apenas caso houvesse ao menos 10 homens. As mulheres não contavam, por mais numerosas que fossem. Em hebraico as palavras: piedoso (hasid), justo (çadiq) e santo (qadosh) não possuem forma feminina.
 

A consciência da superioridade religiosa masculina era muito difundida no tempo de Jesus e das primeiras comunidades cristãs não só entre os judeus, mas também entre gregos e romanos. O homem grego, por exemplo, agradecia aos deuses a sorte de ter nascido ser humano e não animal, grego e não bárbaro, livre e não escravo, homem e não mulher.


E entre os judeus havia um ditado: “Bem-aventurado aquele cujos filhos são homens. Ai daquele cujos filhos são mulheres”. Na oração que os judeus dos séculos I e II d.C faziam na sinagoga, três vezes o homem judeu agradecia a Deus o fato de não ter nascido pagão, escravo e mulher. Rabi Jehuda diz: devem ser feitas três orações diárias: “Bendito seja Deus que não me fez pagão. Bendito seja Deus que não me fez mulher. Bendito seja Deus que não me fez ignorante. Bendito seja Deus que não me fez pagão: porque todas as nações diante dele são como nada (Is 40,17). Bendito seja Deus que não me fez mulher: porque a mulher não está obrigada a cumprir os mandamentos. Bendito seja Deus que não me fez ignorante: porque o ignorante não se envergonha de pecar”.
  

A mulher não recebia instrução religiosa. Supunha-se que fosse incapaz de compreendê-la. Até o Rabi Eliezer, da época de Jesus, dizia: “Quem ensina a Torá à sua filha, ensina-lhe a libertinagem (fará mau uso daquilo que aprendeu). É melhor queimar a Lei santa que entregá-la a uma mulher”. Os rabis não tinham “discípulas”.
   

A mulher não podia atuar como testemunha num tribunal, nem como testemunha de acusação. Apoiando-se em Gn 18,11-15, consideravam que seu testemunho carecia de valor por causa de sua inclinação à mentira.
  

Em relação ao matrimônio, somente o marido tinha direito de romper o matrimônio, exigindo o divórcio. Somente o homem podia ter várias mulheres, e a esposa devia tolerar a existência de concubinas consigo em sua própria casa. É claro que isso era privilégio dos ricos.
  

Se a noiva tinha relações com outro homem era considerada como adúltera, e podia ser castigada com a morte a pedradas; para a adúltera casada reservava-se o castigo do estrangulamento. Para o homem não havia castigo.
   

A sociedade consumista de hoje utiliza a mulher apresentando-a como objeto de atração, sedução, vício etc. e a publicidade ganha com essa degradação, e não poucas mulheres seguem esse caminho que se lhes apresenta como o único possível para realizar-se e triunfar na vida.
     

Lamentavelmente, em não poucos lares cristãos “machistas”, ou em outros lugares marcados pela sociedade “patriarcal” encontra-se ainda que o pai continua sendo “senhor”, o amo, a autoridade indiscutível, o privilegiado. O Papa Francisco escreveu: “Duplamente pobres são as mulheres que padecem situações de exclusão, maus-tratos e violência, porque frequentemente têm menores possibilidades de defender os seus direitos. E todavia, também entre elas, encontramos continuamente os mais admiráveis gestos de heroísmo quotidiano na defesa e cuidado da fragilidade das suas famílias” (Papa Francisco, Evangelii Gaudium n. 212).


Mas, ao mesmo tempo, louvado seja Deus porque tantas irmãs na fé se dedicam e se doam para trabalhar em várias pastorais e atividades da Igreja. O Papa Francisco escreveu na sua exortação, Evangelii Gaudium:Vejo, com prazer, como muitas mulheres partilham responsabilidades pastorais juntamente com os sacerdotes, contribuem para o acompanhamento de pessoas, famílias ou grupos e prestam novas contribuições para a reflexão teológica. Mas ainda é preciso ampliar os espaços para uma presença feminina mais incisiva na Igreja. Porque o génio feminino é necessário em todas as expressões da vida social; por isso deve ser garantida a presença das mulheres também no âmbito do trabalho e nos vários lugares onde se tomam as decisões importantes, tanto na Igreja como nas estruturas sociais” (n.103). “As reivindicações dos legítimos direitos das mulheres, a partir da firme convicção de que homens e mulheres têm a mesma dignidade, colocam à Igreja questões profundas que a desafiam e não se podem iludir superficialmente” (n.104).
  

II. ATITUDE DE JESUS PARA COM AS MULHERES


Devemos ter presente que os primeiros seguidores do movimento de Jesus foram homens judeus e mulheres judias. Para o Reino de Deus, anunciado por Jesus, todos são convidados: as mulheres e os homens, as prostitutas e os piedosos fariseus. Ninguém é excluído.


Com seu comportamento na vida diária, Jesus se levantou contra esse sistema sociorreligioso, dominante e opressivo contra a mulher. Com sua atuação concreta, Jesus dá à mulher o seu lugar na vida social e religiosa. Para Jesus, a mulher tem a mesma dignidade, categoria e direitos que o homem. Por isso, ele abertamente rejeita as leis e costumes discriminatórios que menosprezam essa dignidade, categoria e direitos, arriscando com isso o seu prestígio e a sua vida.


Jesus admite em sua comunidade homens judeus e mulheres judias(cf. Lc 10,39; 8,1-3) com os mesmos direitos segundo evangelho, de aprender, ser discípulos-discípulas, seguidores-seguidoras de Jesus pelo Reinado de Deus. As exigências e responsabilidades do seguimento são iguais para todos, homens e mulheres.


Que traços da sociedade patriarcal ainda hoje se conservam entre nós? Em quais aspectos trabalhistas, familiares, políticos, religiosos etc. a mulher é discriminada hoje, entre nós ?


III.  JESUS PERANTE O MATRIMÔNIO E O DIVÓRCIO


A Lei permite a possibilidade de um homem repudiar a mulher (mas não vice-versa) e determina que ele lhe dê um documento legal de divórcio, que a deixe livre para se casar (Dt 24,1-4; Jr 3,8). O Deuteronômio dá uma razão geral para o marido divorciar-se da mulher: “Se um homem vier a odiar sua mulher por descobrir nela qualquer coisa inconveniente, escreverá uma letra de divórcio, lha entregará na mão e a despedirá de sua casa” (Dt 24,1). Expressava a superioridade do homem e seu domínio sobre a mulher e refletia a opressão exercida em todos os níveis da sociedade judaica na época.


Questionando Jesus sobre o divórcio, os fariseus se aproximam de Jesus para tentá-lo (cf. 1,13; 8,11.33) e pretendem levá-lo a dizer algo que iria causar conflito com as autoridades em Jerusalém, ou com os romanos pois ambos permitiam a dissolução do casamento; ou então, com a família de Herodes, na qual o divórcio era frequente. Os fariseus querem saber se Jesus diz alguma coisa contra a lei: “É lícito a um marido repudiar sua mulher?” Se responder “sim”, Jesus se mostra como seguidor de Moisés, assim Jesus não será maior que Moisés. Se responder “não”, Jesus estará em oposição à lei de Moisés. Então, será odiado por não respeitar a Lei de Moisés.


Jesus, porém, não está preocupado com a lei que mantém a lógica dominante, que oprime, que marginaliza. Ele mostra que a lei simplesmente cede às conveniências humanas. Ele levanta duas questões: Por que Moisés escreveu tal lei? E será que Moisés a escreveu com intenção de permitir o divórcio? Por isso, Jesus responde: “Foi por causa da dureza do coração de vocês que Moisés escreveu esse mandamento. Mas, desde o início da criação, Deus os fez homem e mulher...os dois serão uma só carne/ser” (vv.6-9).


Para o hebreu, coração significa o centro da pessoa, da sua liberdade, dos seus relacionamentos: lá onde a pessoa se abre e se dá na conversão, no amor e no compromisso. Era esta transformação do coração que os profetas tinham anunciado que iria acontecer no tempo messiânico, quando Deus iria “tirar o coração de pedra e dar um coração de carne” (Ez 36,26-27). A vitória do Reino será justamente a transformação do coração humano. A condição de “dureza de coração” impede que se perceba o valor que cada pessoa tem aos olhos de Deus (3,5); e ela causa cegueira diante da manifestação do Amor de Deus acontecendo em Jesus Cristo (6,52;8,17). Agora ele diz aos fariseus que esta mesma condição pode criar uma incapacidade de realizar o Plano de Deus a respeito do casamento.  Com esta resposta Jesus retoma o projeto original de Deus (cf. Gn 2,24), que a lei contradiz. E nesse projeto original, a união matrimonial é sinal da própria fidelidade de Deus para com seu povo. Jesus invalida a lei porque ela não corresponde à vontade original do projeto de Deus. Na adesão amorosa não existe lugar para leis casuísticas. E pouco ama quem se preocupa com a lei.   


Ao lermos este texto sabemos que Jesus não queria ensinar que o casamento é um simples contrato legal que não pode ser dissolvido. Pois um simples contrato pode sempre ser dissolvido, porque se trata apenas de um acordo entre duas vontades humanas. Jesus vai além disso e mostra que o casamento é mais do que uma lei. Ele é graça de Deus. É uma união de amor. “O amor é o único jogo no qual dois podem jogar e ambos ganharem” (Erma Freesman). “O fundo de uma agulha é bastante espaçoso para um casal que se ama; mas o mundo todo é pequeno para dois inimigos” (Solomon Ibn Gabirol).  É neste nível que o casamento deve ser compreendido, e é neste plano que os esposos devem viver. Jesus dá, então, ao casamento uma dignidade nova.


O MATRIMÔNIO é uma celebração do “Sim” no amor pronunciado oficialmente entre os dois noivos. Neste “SIM” se encontra a chave da felicidade. Neste SIM o esposo se torna o dom para a esposa e vice-versa. Ao dizer “sim” para a esposa, o marido se torna dom de Deus para sua esposa e vice-versa. Os esposos não podem alcançar suas felicidades e plenitudes fora desta verdade que enriquece o sentido de suas liberdades, pois dentro do “Sim” há uma entrega mútua: tornam-se uma só carne. A doação para formar uma só carne é uma oferta pessoal, não se oferecem coisas. Quando o noivo disser SIM à noiva, no sacramento, ele dará o sacramento do matrimonio para ela, e vice-versa.


Mas o “Sim” no casamento não é apenas um ato entre dois, mas triangular; é o Sim dentro de um Sim de Cristo à Igreja (cf. Ef 5,21-33). Este Sim, por isso, não pode ser separado da adesão a Cristo. Por isso, o matrimônio não é um consenso, fruto de mutáveis acordos humanos, mas uma instituição que funda suas raízes no terreno sagrado: a mesma vontade do Criador.
   

O profeta Oséias já havia preparado o caminho com a sua profecia(Os 2,20ss) sobre a profundeza do amor no casamento que se realiza na medida do amor de Deus. Os esposos devem amar-se assim. Devem perdoar como o próprio Deus, que perdoa tudo, e está sempre pronto a começar tudo de novo, e de maneira mais intensa. O casal que ama como Deus ama, tem relacionamento que vem de Deus, e cuja medida é o próprio Deus. Isso salva de toda fraqueza e infidelidade, e dá ao casal a possibilidade de criar um ambiente e uma situação de amor na qual as pessoas se salvam.


Se a instituição do matrimônio é tão ameaçada atualmente, e se muitos jovens não querem comprometer-se no casamento por achar que o amor por uma pessoa até a morte não seja mais possível, talvez porque nossa cultura tenha aspectos que favoreçam a condição de dureza de coração. Valoriza-se a liberdade, mas sem compromissos. Cria-se um conceito da afetividade e sexualidade que é baseado mais no egoísmo do que no respeito pela dignidade do outro, e no espírito de doação.


Hoje sentimos como é necessário ajudar as pessoas a conhecerem a pessoas de Jesus, e a encarar a vida conjugal como uma vocação, ou seja, como um chamamento a viver o Amor do Reino neste estado de vida. Continuamos na obrigação de educar para um amor capaz de assumir compromissos definitivos. Isso se faz para valorizar a confiança mútua, a fidelidade ao outro e a si mesmo, para dar uma chance à felicidade que estava no plano de Deus desde o começo. Não vemos casamento indissolúvel como uma obrigação a ser carregada, mas como um direito que não deve ser sacrificado num mundo que fez do descartável um modo de vida. Responsabilidade, desejo de fidelidade, seriedade na palavra empenhada têm muito a ver com o direito de ser e fazer feliz. Queremos casamento assumido com responsabilidade para mais gente ser feliz.


IV. Para Refletir: Algumas conclusões


1. O sucesso ou a felicidade no casamento não depende do bom parceiro e sim em ser bom parceiro permanentemente. Quando seu coração é bom: Você ajuda o outro muito mais; Você confia muito mais no outro; Você vai dar muito mais o melhor de si para o outro; Você ama e perdoa muito mais o outro.


2. A harmonia no casamento torna grandes pequenas coisas. A falta da harmonia faz coisas grandes destruídas.


3. A principal proposta do casamento cristão é para glorificar Deus e santificar os casais e seus descendentes. O resto é apenas consequência.


4. Você não pode avançar para outro capitulo no seu casamento, se você continuar a reler o mesmo capitulo. O casamento é igual a navegar no alto mar sem bússola. Cada dia tem que aprender o novo jeito de navegar para se salvar.


5. O matrimônio é como uma casa. Uma casa bem cimentada é firme, resistente e durável diante de qualquer tempestade (cf. Mt 7,21-29). Um cimento firme para o matrimônio é o amor. Somente aquilo que fazemos por amor permanece para sempre. As coisas se gastam e envelhecem; as modas passam; os costumes se sucedem, mas o amor permanece, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). Somente quando amamos é que somos felizes. E quando somos felizes, o resto se tornará mais fácil, e ganharemos novas forças para superar as dificuldades e para carregar o que é insuportável quando não há amor no coração. O amor é o derradeiro e mais alto objetivo a que o homem pode aspirar. A salvação do homem é através do amor e no amor. A salvação de um casamento é através do amor e no amor.


6.O amor verdadeiro não olha para o ter e sim para o ser; não olha para a aparência e sim para a verdade; não olha para a beleza exterior e sim para a beleza do coração. Não é por acaso que o Livro do Provérbio diz: “Guarda teu coração acima de todas as outras coisas porque dele brotam todas as fontes de vida” (Pr n 4,23). O amor opera grandes transformações. A escuridão se transforma em luz, a solidão em comunhão, o Eu em Nós, o Éros em Ágape, o humano em divino, a família humana em família divina.


7. As pessoas se casam para formar uma família onde cada membro é preparado para entrar na sociedade maior. A família é o ambiente em que cada um aprende a dar e a receber o amor, a sacrificar pelo outro, a ser solidário com o outro, a carregar juntos o fardo que se encontra na caminhada, a perdoar mutuamente pelas ofensas que muitas vezes são frutos não da maldade, mas das limitações naquele momento em que elas ocorreram. A linguagem da fé de cada cristão se aprende no lar. A fé e a ética cristã se aprendem no lar que vão marcar a vida de cada membro para o resto da vida. Nenhum de nós adquiriu por si só os conhecimentos básicos para a vida. Cada um recebe de outros, principalmente da família, a vida e as verdades básicas para viver uma vida sadia pessoal, social e comunitariamente.


8. O lar que dá espaço para Deus (funda sobre a rocha) se torna a morada de Deus. E Deus dá o brilho por dentro a família. Quando nosso brilho vem do interior, aquece a família inteira, preenchendo-a de uma paz e de uma suavidade que serão sentidos por todos que nela entram.

P. Vitus Gustama,svd

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

03/10/2015
TER NOME ESCRITO NO CÉU

Sábado Da XXVI Semana Comum


Evangelho: Lc 10,17-24


Naquele tempo, 17 os setenta e dois voltaram muito contentes, dizendo: “Senhor, até os demônios nos obedeceram por causa do teu nome”. 18 Jesus respondeu: “Eu vi Satanás cair do céu, como um relâmpago. 19 Eu vos dei o poder de pisar em cima de cobras e escorpiões e sobre toda a força do inimigo. E nada vos poderá fazer mal. 20 Contudo, não vos alegreis porque os espíritos vos obedecem. Antes, ficai alegres porque vossos nomes estão escritos no céu”. 21 Naquele momento, Jesus exultou no Espírito Santo e disse: “Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste essas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado. 22 Tudo me foi entregue pelo meu Pai. Ninguém conhece quem é o Filho, a não ser o Pai; e ninguém conhece quem é o Pai, a não ser o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar”. 23 Jesus voltou-se para os discípulos e disse-lhes em particular: “Felizes os olhos que veem o que vós vedes! 24 Pois eu vos digo que muitos profetas e reis quiseram ver o que estais vendo, e não puderam ver; quiseram ouvir o que estais ouvindo, e não puderam ouvir”.
------------------------------

É Preciso Manter-se Unido a Deus


O texto do evangelho de hoje se encontra no contexto da volta dos setenta (e dois) discípulos da missão que o Senhor lhes tinha confiado anteriormente (Lc 10,1-12). Os discípulos voltaram da missão alegres, entusiasmados, empolgados por ter sido capazes de libertar os homens do mal, moral e físico pelo uso que fizeram do poder messiânico (o nome) de Jesus: “Senhor, até os demônios nos obedeceram por causa do teu nome”, relataram os discípulos a Jesus.  Todas as forças do mal considerados como inimigos de Deus e dos seres humanos tinham sido desarticulados pelos discípulos através do uso do poder recebido de Jesus. Isto significa que o poder sobre o mal que os discípulos têm é o fruto de sua comunhão plena com Jesus. Estar em plena comunhão com Jesus significa estar em pleno poder de Jesus, poder que liberta e não escraviza. Somente a fé em Jesus, isto é, estar nele e com ele, é que se pode derrotar qualquer poder que escraviza (cf. Rm 8,31-39).


E Jesus lhes explica que uma vitória semelhante é o sinal da derrota das forças do mal que dominavam os homens até então: “Eu vi satanás cair do céu como um relâmpago” (Lc 10,18). Trata-se de uma queda brusca e rápida (relâmpago) e de uma grande altura (do céu). Altura de onde inicia a queda de uma coisa ou de uma pessoa determina o impacto sobre o que caiu ao chegar à terra.


Por que caiu do céu (satanás caiu do céu)? O tema da queda de satanás do céu pertence ao mito apocalíptico judaico, em que se alude à presença de satanás sobre o céu. Certamente, segundo esse mito, seu lugar e sua função se diferenciam do lugar e da função de Deus, porém pensa-se que satanás põe o trono nas esferas superiores e domina desde ali toda a marcha dos homens sobre o mundo. Mas a chegada de Jesus abole o estado de escravidão que permite o homem ter acesso à liberdade. A presença de Jesus é a derrota do poder do mal. Basta estar com Jesus e estar nele, o triunfo do poder do mal (satanás) termina seu reinado.


Mas para não cair na ilusão do poder e na idéia de domínio, para não ficar apenas na empolgação, Jesus alerta aos discípulos que o mais importante é ter os nomes escritos no céu. Ter nome escrito no céu é mais importante do que qualquer poder ou domínio na terra. Esta afirmação nos leva ao Livro do Êxodo onde encontramos uma explicação: somente são aqueles que participam do Reino de Deus e vivem conforme as suas exigências têm nome escrito no céu (cf. Ex 32,32). Não há nada que seja melhor para um ser humano do que ter seu nome escrito no céu, no livro da vida: “O vencedor será assim revestido de vestes brancas. Jamais apagarei o seu nome do livro da vida, e o proclamarei diante do meu Pai e dos seus anjos”, diz-nos o Livro de Apocalipse de São João (Ap 3,5). Esta é a grande mensagem do evangelho de hoje. Em outras palavras, os discípulos devem ficar alegres por pertencer a Deus ou por participar da grande família do Reino (nome escrito no céu), por estar a serviço de Deus (libertar os homens da escravidão do mal), por gozar da proteção divina (nenhum mal consegue vencê-los), e por ter neles o germe da vida eterna que acaba com as forças da morte.


À luz desta experiência se situa a função dos discípulos missionários. Sua vitória sobre satanás se traduz no fato de que são capazes de vencer (superar) o mal do mundo (Lc 10,19) desde que mantinham sua pertença ao Reino e usem o poder conferido para libertar os outros e não para escravizá-los. Por isso, são declarados felizes: “Felizes os olhos que vêem o que vós vedes. Pois eu vos digo que muitos profetas e reis quiseram ver o que estais vendo e não puderam ver; quiseram ouvir o que estais ouvindo e não puderam ouvir” (Lc 10,23-24). Os discípulos são felizes porque estão experimentando aquela plenitude messiânica que os antigos profetas e os reis de Israel sonhavam experimentar. No entanto, mais uma vez, sua autêntica grandeza está no fato de seu encontro pessoal com Deus: seus nomes pertencem ao Reino dos céus (Lc 10,20).


Quem mantiver sua pertença à Família de Deus não estará fadado a ser escravo do poder do mal, mas será revestido do poder de Deus para superar todo mal no mundo e libertar os outros escravizados pelo mal. Quem deixar Deus como centro de sua vida ou de sua família, a força do adversário (satanás) se tornará impotente ou inoperante. E quem mantiver unido a Deus, mesmo que seja frágil, ele será um instrumento eficaz nas mãos de Deus para pôr fim ao reino do mal e fazer triunfar o amor fraterna, a solidariedade fraterna, a bondade, compaixão e assim por diante. O espaço totalmente ocupado pelo bem, o mal não tem vez. Quem se mantiver assim até o fim, seu nome estará escrito no céu.


Oração e Nosso Sim à Vontade de Deus


Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste essas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado. Tudo me foi entregue pelo meu Pai. Ninguém conhece quem é o Filho, a não ser o Pai; e ninguém conhece quem é o Pai, a não ser o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar”.


A volta dos discípulos da missão com suas vitórias leva Jesus a fazer um louvor a Deus e uma oração de ação de graças. O louvor  e a ação de graças a Deus expressam a gratidão de Jesus ao Pai do Céu. Em louvor Jesus expressa também a unidade de sua vontade com a vontade de Deus. Jesus nos mostra que a verdadeira oração sempre termina com um “Sim” à vontade de Deus; sempre termina com a vitória da vontade de Deus sobre a vontade de quem reza; sempre termina com a entrega da própria vida ao beneplácito divino. O “sim” à vontade de Deus torna quem reza vitorioso na vida e na luta de cada dia.


Todos nós queremos que seu nome e meu nome estejam escritos no livro da vida, no céu. Em outras palavras, que sejamos salvos. Para isso, é preciso que aprendamos a ser pequenos e simples diante de Deus. Os pequenos e os simples se mantém abertos ao mistério de Deus e compreendem a verdade de Jesus Cristo: “Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste essas coisas aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos” (Lc 10,21ª). A missão se estrutura como expansão do amor em que se unem Deus e o Cristo (Filho). Nesse amor, revelado aos pequenos e escondido para todos os grandes deste mundo, se fundamenta a derrota das forças destruidoras da história. “Com o amor não somente avanço, mas vôo. Um só ato de amor nos fará conhecer melhor Jesus. O amor nos aproximará dele durante toda a eternidade. Eu não conheço outro meio para chegar à perfeição a não ser o amor”, dizia Santa Tereza do Menino Jesus e da Sagrada Face.

P. Vitus Gustama,svd