terça-feira, 27 de outubro de 2015

29/10/2015

CUMPRIR A MISSAO ATÉ O FIM APESAR DAS DIFICULDADES 

Quinta-Feira da XXX Semana Comum

Evangelho: Lc 13, 31-35

31 Naquela hora, alguns fariseus aproximaram-se de Jesus e lhe disseram: “Tu deves ir embora daqui, porque Herodes quer te matar”. 32 Jesus disse: “Ide dizer a essa raposa: eu expulso demônios e faço curas hoje e amanhã; e no terceiro dia terminarei o meu trabalho. 33 Entretanto, preciso caminhar hoje, amanhã e depois de amanhã, porque não convém que um profeta morra fora de Jerusalém. 34 Jerusalém, Jerusalém! Tu que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes eu quis reunir teus filhos, como a galinha reúne os pintinhos debaixo das asas, mas tu não quiseste! 35 Eis que vossa casa ficará abandonada. Eu vos digo: não me vereis mais, até que chegue o tempo em que vós mesmos direis: Bendito aquele que vem em nome do Senhor”.
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Continuamos a acompanhar Jesus no seu Caminho para Jerusalém. Durante esse Caminho Jesus vai dando suas ultimas e importantes lições para seus discípulos (Lc 9,51-19,28) e portanto, para todos os cristãos em todos os tempos. Para Lucas, Jerusalém é tudo: onde acontece a cena da morte, da ressurreição, do nascimento da Igreja, e da expansão missionária.

É interessante notar, no evangelho de hoje, que os fariseus, que muitas vezes atacam Jesus de várias maneiras, desta vez, querem salvar sua vida ao lhe dizer: “Tu deves ir embora daqui, porque Herodes quer te matar”. Os que estão no poder consideram Jesus como um homem perigoso e por isso, querem eliminá-lo, embora Jesus apenas ajude as pessoas na sua dignidade. E Herodes seria capaz de fazer isso, pois ele já mandou decapitar João Batista alguns meses antes (cf. Lc 3,19).

O poder destrói a integridade; destrói a confiança; destrói dialogo; e destrói relacionamentos; destrói a convivência. O poder sempre anda lado a lado com a soberba e o orgulho. “A soberba odeia a companhia! O orgulhoso procura por todos os meios brilhar solitário”, dizia Sant Agostinho (Epist. 140,42). Não há nada que nos isole dos outros tanto quanto o poder. Até mesmo a conversa humana comum é destruída pelo poder. Por causa do poder vivemos o drama do diálogo perdido. Por isso, vemos esse drama trágico entre maridos e mulheres, entre pais e filhos, entre patrões e empregados e assim por diante.

Os que têm sede do poder se preocupam com o poder-sobre do que com o poder-fazer. Querem mandar em tudo e em todos. Eles se preocupam na tomada do poder e não na dissolução do poder.  “Quem manda aqui sou eu” é a frase favorita de quem adora ao poder. “A transformação do poder-fazer em poder-sobre implica a ruptura do fluxo social do fazer. Os que exercem o poder-sobre separam o feito do fazer de outros e o declaram seu. A apropriação do feito é ao mesmo tempo a apropriação dos meios de fazer, e isso permite aos poderosos controlar o fazer dos fazedores. Os fazedores (os humanos, entendidos como ativos) estão separados assim de seu feito, dos meios de fazer e do próprio fazer. Qualquer tentativa de mudar a sociedade envolve o fazer, a atividade. O fazer, por sua vez, envolve a capacidade de fazer, o poder-fazer. Muitas vezes usamos a palavra “poder” nesse sentido, como algo bom, como quando uma ação junto com outros (uma manifestação ou inclusive um bom seminário) nos dá uma sensação de poder. O poder neste sentido tem seu fundamento no fazer: é o poder-fazer.” (John Holloway).

O pecado do poder consiste no desejo de ser mais do que aquilo para o qual fomos criados. “O homem foi criado para viver de acordo com a Verdade. Não viver como foi criado é viver na mentira permanente”, dizia Santo Agostinho (De civ. Dei 14, 4,1). “Aproximar-se de Deus é assemelhar-se a Ele. Afastar-se d’Ele é deformar-se” (Santo Agostinho. In ps 34,2,6).

Tu deves ir embora daqui, porque Herodes quer te matar”. Jesus atravessava o território de Herodes Antipas (4 Antes de Cristo -39 D.C) que abrangia a Galileia e a Peréia (parte oriental do Jordão). Herodes Antipas se sente incomodado com as obras de Jesus (Lc 9,7ss). Herodes tem medo de que o povo possa estar contra ele por causa de Jesus. Por isso, Herodes quer seu território livre de Jesus.

Na sua resposta, diante desta ameaça, Jesus mostra aos fariseus (e Herodes) que ele próprio é quem decide seu caminho a seguir; Ele não se intimida pelos poderosos, porque ele tem prioridades claras para sua missão nesta terra: libertar as pessoas de todo tipo de escravidão e salvar as pessoas de um futuro sem sentido. É fácil dizer sim aos pedidos dos outros quando as prioridades de sua vida não são claras.  Aprender a dizer não ao que não é essencial ou fundamental nos dará mais tempo para nos dedicarmos às coisas que poderão engrandecer nossa vida e a vida das pessoas ao nosso redor. Pessoas bem-sucedidas se concentram nas atividades que as ajudarão a desenvolver seu trabalho.

 “Ide dizer a essa raposa: eu expulso demônios e faço curas hoje e amanhã; e no terceiro dia terminarei o meu trabalho. Entretanto, preciso caminhar hoje, amanhã e depois de amanhã, porque não convém que um profeta morra fora de Jerusalém” é a resposta de Jesus aos fariseus (e Herodes). Jesus chama Herodes “raposa”. Raposa é um animal medroso que só caça de noite e foge quando chegar a madrugada e corre rapidamente por causa de um pequeno perigo. Na gíria aramaica “raposa” tem um duplo sentido: animal astuto e animal insignificante em oposição a “leão”. Aqui a palavra “raposa” se aplica à pessoa insignificante e buliçosa/ inquieta que não merece respeito. Herodes é chamado de “raposa” para dizer que ele é um tipo de pessoa covarde, hipócrita que não quer se responsabilizar pela morte de Jesus, e Pilatos vai também nessa direção na condenação de Jesus (cf. Lc 23,6-12). Jesus quer dizer que não são os homens que marcam o rumo de sua atividade e sim o próprio Deus. A vida e a atividade de Jesus estão subordinadas à vontade de Deus.

Eu preciso caminhar hoje, amanhã e depois de amanhã, porque não convém que um profeta morra fora de Jerusalém”.  A tripla enumeração: “hoje, amanhã, e o terceiro dia” / “hoje, amanhã e depois de amanhã” serve para englobar um período de tempo largo e completo, isto é, o que resta de sua vida pública, durante o qual Jesus prosseguirá libertando o povo de todo tipo de ideologias contrárias ao plano de Deus (“expulsando demônios”) e de todo tipo de doenças morais e físicas que impede o povo de segui-lo com liberdade e dignidade humana (“curando”) até o fim de sua missão terrena (“terminarei meu trabalho”). Jesus não faz sua missão pela metade. Ele vive sua vida na totalidade e não pela metade. Jesus alcança a perfeição humana entregando sua vida para a salvação de todos.

A partir de Jesus aprendemos que precisamos fazer as coisas pelo bem de todos até onde nossa capacidade permitir. Quando cumprirmos nossa missão até onde a capacidade permitir, seremos pessoas realizadas e as outras serão beneficiadas.

Jerusalém que significa “cidade da paz” faz o contrário. Em vez de viver para criar a paz, Jerusalém provoca a violência: “Jerusalém, Jerusalém! Tu que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados!”, lamenta Jesus. Jerusalém não vive de acordo com seu nome: “cidade da paz”. Talvez possamos dizer isto, na linguagem de Santo Agostinho, para nosso contexto: “O nome de cristão traz em si a conotação de justiça, bondade, integridade, paciência, castidade, prudência, amabilidade, inocência e piedade. Como podes explicar a apropriação de tal nome se tua conduta mostra tão poucas dessas muitas virtudes?” (De vit. christ. 6).

Pelo Batismo nos é confiada a missão de proclamar a Boa Nova de salvação. No cumprimento fiel dessa missão não podemos dar-nos descanso: “Eu faço curas hoje e amanhã; e no terceiro dia terminarei o meu trabalho. Preciso caminhar hoje, amanhã e depois de amanhã”. São Paulo escreveu ao Timóteo: “Prega a palavra, insiste oportuna e importunamente, repreende, ameaça, exorta com toda paciência e empenho de instruir” (2Tm 4,2). Não podemos enterrar as oportunidades, pois precisamos viver para fazer o bem (cf. At 10,38). Eu preciso fazer o bem hoje, amanhã e depois de amanhã (em todos os dias da minha vida). Nisto alcançarei a minha perfeição humana.

P. Vitus Gustama,svd

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

JUDAS TADEU E SIMÃO-APÓSTOLOS

SER CRISTÃO É SER ENVIADO DO SENHOR

28 de Outubro

Evangelho: Lc 6,12-19

12 Naqueles dias, Jesus foi à montanha para rezar. E passou a noite toda em oração a Deus. 13 Ao amanhecer, chamou seus discípulos e escolheu doze dentre eles, aos quais deu o nome de apóstolos: 14 Simão, a quem impôs o nome de Pedro, e seu irmão André; Tiago e João; Filipe e Bartolomeu; 15 Mateus e Tomé; Tiago, filho de Alfeu, e Simão, chamado Zelota; 16 Judas, filho de Tiago, e Judas Iscariotes, aquele que se tornou traidor. 17Jesus desceu da montanha com eles e parou num lugar plano. Ali estavam muitos dos seus discípulos e grande multidão de gente de toda a Judeia e de Jerusalém, do litoral de Tiro e Sidônia. 18 Vieram para ouvir Jesus e serem curados de suas doenças. E aqueles que estavam atormentados por espíritos maus também foram curados. 19 A multidão toda procurava tocar em Jesus, porque uma força saía dele, e curava a todos.
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No dia 28 de outubro a Igreja celebra a festa dos Apóstolos Simão, o Cananeu, e Judas Tadeu, juntos. A festa dos dois santos juntos apareceu no calendário de São Jerônimo do século VI, e em Roma começou a ser celebrada a partir do século IX.

Nos evangelhos e nos Atos dos Apóstolos, os dois estão sempre juntos na lista dos Apóstolos, um ao lado do outro (cf. Mt 10, 4; Mc 3, 18; Lc 6, 15; At 1, 13). Não há muitos dados a respeitos dos dois.

No Evangelho de Mateus Simão tem qualitativa de “cananeu” (Mt 10,4). Em hebraico o verbo “qanà” significa “ser zeloso”. Não é por acaso que o evangelho de Lucas chama-o de “zelota” ou “zelote” ou “dedicado”. Ser zeloso, aqui, significa ser dedicado no serviço total a Deus e no serviço do povo para o qual foi eleito (cf. Ex 20,5; 1Rs 19,10: Elias se dedica totalmente ao Deus único, defensor do monoteísmo).

O segundo Apóstolo é Judas Tadeu, cuja festa nós celebramos também neste mesmo dia (mais popular do que Simão, por ser considerado, popularmente, como santo das causas e coisas impossíveis). Os evangelhos Mateus e Marcos chamam esse Apostolo com um nome só: “Tadeu” (Mt 10,3; Mc 3,18); Lucas chama-o com dois nomes: “Judas de Tiago” ou “Judas filho de Tiago” (Lc 6,16; At 1,13).

Sobre o Apóstolo Judas Tadeu, também, temos muito poucos dados. O evangelista João registrou a pergunta desse Apostolo para Jesus, cuja atualidade jamais perdida: “Senhor, por que te manifestarás a nós e não ao mundo?” (Jo 14,22: durante a Última Ceia). De fato, o Ressuscitado não se manifestou aos seus adversários para mostrar que quem vence é sempre Deus e quem está com Deus (cf. Rm 8,31-39). Deus continua respeitando a liberdade do homem, mas continua espera a volta de cada homem com misericórdia (cf. Lc 15,11-32). O caminho de Deus é totalmente diferente dos caminhos dos homens (cf. Is 55,8). O homem gosta de se exibir (cf. Mt 23,1-12). Deus prefere o caminho simples, sem barulho (cf. 1Rs 19,1-18; Mt 11,25-28). Segundo Jesus, na sua resposta à pergunta de Judas, Deus se manifesta e faz Sua morada no coração que sabe amar: “Se alguém me ama, guardará minha palavra e o meu Pai o amará e a ele viremos e nele estabeleceremos morada” (Jo 14,23). O amor no coração nos faz percebermos a presença de Deus. “Amando ao próximo tu limpas os olhos para ver a Deus” (Santo Agostinho. In Joan. 17,8).

Uma das Cartas do NT, chamadas cartas “católicas” (porque não são destinadas para determinada comunidade ou Igreja), é atribuída a Judas Tadeu (Carta de São Judas tem apenas 25 versículos). Nesta pequena Carta Judas Tadeu adverte a todos para não seguirem ensinamentos falsos e inaceitáveis, pois capazes de criar divisão dentro da própria comunidade. Segundo o autor dessa Carta, aqueles que seguem as doutrinas falsas e inaceitáveis são comparados com “os anjos caídos”, “nuvens sem água que os ventos levam”, “arvores sem frutos” (cf. vv. 11-13). Alem disso, nessa Carta, o autor encoraja os leitores para não terem medo diante das dificuldades e desafios, pois Deus vai guardar Seus fieis (v. 24). É preciso ter fé em Deus (v.20). Mas, ao mesmo tempo, o autor pede que andemos pelo caminho de indulgência: “Vocês, porém, amados, construam sobre o alicerce da santíssima fé que vocês têm; rezem movidos pelo Espírito Santo; mantenham-se no amor de Deus, esperando que a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo lhes dê a vida eterna. Procurem convencer os vacilantes: salvem a uns, arrancando-os do fogo; tenham compaixão de outros, mas com temor. Detestem até a roupa contaminada pelos instintos egoístas dos ímpios..." (vv. 20-23).

Os dois Apóstolos nos ajudam a vivermos nossa fé incansavelmente apesar das aparências poderosas das situações e dificuldades que encontramos na nossa vida. Deus é bom e Ele é amor, e por isso, podemos confiar nele em todos os momentos de nossa vida.
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A passagem do Evangelho de hoje é lida em função da festa dos dois Apóstolos que narra a instituição solene dos Doze.

 “Jesus subiu ao monte”, assim Lucas começou seu relato. Monte é o lugar das grandes decisões, um lugar solitário propício para a oração, um lugar de amplos horizontes de onde se vê longe. Jesus nos ensina a aprendermos a ampliar nosso horizonte. Quanto mais subirmos, mais ampla será a visão que teremos. Para isso, temos que ter coragem de subir, de sair de nosso canto de sempre, sem medo. É aprender a ver a vida de maneira multiangular.  Eu posso fracassar em um modo de atuar, mas não significa que eu seja um fracassado para minha vida inteira. Deus me dá oportunidade para adotar outra maneira de viver tirando lição da maneira que eu vivi. O conservador não tem futuro porque não aceita novidade e teme por aquilo que é novo. Mas o mundo continua mudando e eu continuo parado e paralisado.

Jesus subiu ao monte para rezar”. Na escolha dos Doze Apóstolos Jesus entra em oração, porque ele não pode ser movido pelos critérios humanos que não sejam aqueles do Reino de Deus. Simpatia, riqueza, de uma família nobre e assim por diante não entram como critério. Jesus quer alguém como apóstolo. A palavra “apóstolo” vem do grego que significa “enviado”. “Apóstolo” era um termo de caráter jurídico na época. O Apóstolo era o representante plenipotenciário de quem o enviava. Neste caso Jesus precisa ter muito discernimento para escolher quem realmente pode representá-lo como enviado. O sucesso da obra de Jesus depende do bom empenho do seu enviado. O apóstolo é o prolongamento do Senhor neste mundo. Jesus falará e agirá no mundo através de cada apóstolo.

A oração é tão importante na escolha dos apóstolos a ponto de Lucas nos relatar que Jesus “passou a noite toda em oração a Deus”. Alguns especialistas interpretam que a palavra “noite” aqui quer indicar a perplexidade que invade Jesus. E a oração é meio de clarificação a fim de que Deus dê luz verde naquilo que Jesus quer realizar com a ajuda dos apóstolos para a salvação do mundo. Por isso, Lucas nos relatou que Jesus não escolheu seus apóstolos à noite e sim ao amanhecer: “Ao amanhecer, chamou seus discípulos e escolheu doze dentre eles, aos quais deu o nome de apóstolos”. Há aqui o objetivo da oração de Jesus durante toda a noite: Sua Igreja. É o projeto que apesar de tudo continua durando até hoje (cf. Mt 16,18). Por isso, a instituição dos Doze é um momento solene para a história da Igreja, particularmente, e para a história da humanidade de modo geral.

Segundo alguns especialistas a expressão “ao amanhecer” indica que a oração obteve resultados positivos, pois não se pode tomar decisões enquanto alguém estiver nas trevas ou na perplexidade de uma escuridão de vida (“noite”). Estar na oração significa estar com Deus. E estar com Deus é estar com a luz que ilumina tudo na nossa vida (“amanhecer”). Aqui percebemos que a oração tem uma função de clarear nossa visão sobre tudo na nossa vida.

Em resumo podemos dizer, a partir do evangelho de hoje, que há uma relação estreita entre oração e missão. E o modelo insubstituível disso é o próprio Jesus Cristo. Ele permanece em oração antes de decidir. Ele ora para discernir segundo o plano de Deus. Ele ora em vista de grandes decisões da vida tanto no âmbito pessoal como no comunitário.

Isto quer nos dizer que jamais podemos considerar a oração como um momento separado da vida, e sim como uma atitude prévia que nos introduz na experiência pessoal e eclesial/ comunitário. Fazer a missão, depois que a comunidade e seus responsáveis se recolheram numa prolongada oração, significa confiar a missão Àquele que é o Primeiro Responsavel: o Dono da vinha, o Pastor do rebanho, o Senhor de seu Povo: Jesus Cristo.

Os Doze não são grandes personalidades. É o estilo de Deus que vai escolhendo para sua obra pessoas débeis, mas que se esforçam para dar o melhor de si para salvação do mundo, pois agente principal desta obra continua sendo o próprio Deus. A lista dos que foram escolhidos como apóstolos se abre com Pedro e se fecha com Judas. Pedro representa fidelidade apesar das fraquezas. Judas representa infidelidade e se desespera. Pedro e Judas, símbolos de fidelidade e infidelidade, resumem a historia da Igreja e a historia pessoal de cada discípulo. O importante é que não cerremos nossa relação com Jesus com uma traição.
       
Os Apóstolos já cumpriram sua missão. E por causa dos missionários próximos de nós, conhecemos Jesus. Não podemos deixar morrer na nossa mão está missão. Precisamos ser apóstolos do Senhor e fazer os outros apóstolos. Ser apóstolo não é trazer os outros para si e sim orientá-los para o encontro pessoal com Jesus, o Salvador. 


P. Vitus Gustama,svd

domingo, 25 de outubro de 2015

27/10/2015

SER SEMEADOR DA PALAVRA TRANSFORMADORA DE DEUS  


Terça-Feira da XXX Semana Comum


Evangelho: Lc 13,18-21


Naquele tempo, 18 Jesus dizia: “A que é semelhante o Reino de Deus, e com que poderei compará-lo? 19 Ele é como a semente de mostarda, que um homem pega e atira no seu jardim. A semente cresce, torna-se uma grande árvore e as aves do céu fazem ninhos nos seus ramos”. 20 Jesus disse ainda: “Com que poderei ainda comparar o Reino de Deus? 21 Ele é como o fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de farinha, até que tudo fique fermentado”.
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Continuamos acompanhando Jesus no seu caminho para Jerusalém, durante o qual escutamos Suas últimas e importantes lições para nossa vida como cristãos (Lc 9,51-19,28).




A passagem do evangelho de hoje fala de duas parábolas: a semente da mostarda e o fermento. O que serve de comparação é o contraste entre o início insignificante e o final portentoso. O grão de mostarda, apesar de sua pequenez no tamanho, quando for semeada, virará um grande arbusto onde os passarinhos podem fazer seus ninhos. Acontece a mesma coisa com o fermento. A farinha/massa que se mistura com o fermento vira uma grande massa. O princípio (minúsculo e oculto) é contraposto ao grande resultado.




As duas querem sublinhar claramente que a graça de Deus cresce em extensão (grão de mostarda) e em intensidade (fermento na massa). No entanto, elas não sublinham apenas sobre o crescimento, mas também sobre todo estado final que apontam para um valor escatológico. Elas servem, por isso, para animar qualquer cristão, qualquer comunidade para não desistirem em levar adiante a causa de Jesus apesar de se sentirem tão pequenos no meio dos “poderosos” deste mundo, pois no final Deus é quem tem a última palavra.




O Reino de Deus é como a semente de mostarda, que um homem pega e lançou no seu jardim. A semente cresce, torna-se uma grande árvore e as aves do céu fazem ninhos nos seus ramos(Lc 13,19), assim Jesus disse-nos hoje.




Lançar semente à terra é um gesto absolutamente natural, apaixonante e misterioso. É um gesto de esperança e de aventura. Basta a semente estar na terra, começa, então, em segredo e em silêncio uma serie de maravilhas, pouco importa que o semeador se preocupe ou não com a semente. Cada semente lançada na terra surge a esperança no coração do semeador de ver a semente brotar e crescer em alguns dias. O semeador é aquele que crê na vida, que tem confiança no porvir. E ao ver a semente que se transformou em plantinha, a alegria inunda o coração do semeador a ponto de ele “conversar” com a plantinha quase diariamente. E com cuidado ele vai capinar ao redor dela para facilitar o crescimento saudável da plantinha a fim de ela dar bons frutos. O semeador é aquele semeia a mãos cheias para que a vida se multiplique que se transforma em alimento para cada família. O semeador é aquele que investe no porvir.




Jesus está consciente de estar fazendo isto: semear, lançar, esperar com paciência!  Ele empreende uma obra que tem porvir. Ele semeia a Palavra de Deus em cada coração. E aquele que escuta e se deixa guiar pela Palavra de Deus, vai produzir muitos bons frutos para a convivência fraterna.
 


A Palavra de Deus tem dentro de si uma força misteriosa que apesar dos obstáculos encontrados no seu caminho vai germinar e dar fruto. Com esta parábola Jesus quer sublinhar a força intrínseca da graça e da intervenção de Deus.




O trabalho do cristão é semear a bondade, pois a bondade é um investimento que nunca falha, pois Deus é envolvido nisto tudo. O propósito verdadeiro de nossa existência como cristãos não é ganhar a vida e sim fazer uma vida: uma vida valida, bem feita e útil para o bem de todos. A bondade sempre tem a ver com Deus. O que você é aos olhos de Deus é o que você realmente é. Façamos as coisas certas, pratiquemos o bem, vivamos de acordo com a bondade, e deixemos os resultados com Deus. Ser cristãos é tornar-se como Cristo. E tornar-se como Cristo é a única coisa no mundo com a qual vale a pena se preocupar. Toda a realização inferior a isto é vã e toda ambição mundana é tolice.



O Reino de Deus é como a semente de mostarda, que um homem pega e atira no seu jardim. A semente cresce, torna-se uma grande árvore e as aves do céu fazem ninhos nos seus ramos”.




Ao falar da pequenez de uma semente como a de mostarda, Jesus quer nos convidar a rever os nossos critérios de atuação e a nossa forma de olhar o mundo e os nossos irmãos. Por vezes, naquilo que é pequeno, débil e aparentemente insignificante é que Deus se revela (cf. Mt 11,25-28). Deus está nos pequenos, nos humildes, nos pobres, nos que renunciaram a esquemas de triunfalismo e de ostentação; e é deles que Deus se serve para transformar o mundo.




O Reino de Deus é como o fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de farinha, até que tudo fique fermentado”, acrescentou Jesus.




Esta comparação tem em conta a potência de transformação do fermento apesar de sua invisibilidade: assim que o fermento se mistura com a massa, a massa se transforma em tamanho maior  para se transformar em pão para a mesa de cada família: os começos são modestos, mas o resultado final é surpreendente.




Através das duas parábolas, Jesus quer nos dar lição de que os meios podem ser muito pequenos, como a pequena semente de mostarda ou como o fermento, mas podem produzir frutos inesperados, não proporcionados nem a nossa organização nem a nossos métodos e instrumentos. A força da Palavra de Deus vem do próprio Deus e não de nossas técnicas. Quando em nossa vida há uma força interior, a eficácia do trabalho cresce notavelmente. Mas quando essa força interior é o amor que Deus nos tem, ou seu Espírito ou a Graça salvadora de Cristo ressuscitado, então, o Reino de Deus germina e cresce poderosamente. O que devemos fazer é colaborar com nossa liberdade. Mas o protagonista é Deus. Necessitamos trabalhar com o olhar posto em Deus, sem impaciência, sem exigir frutos a curto prazo, sem absolutizar nossos méritos, meios e técnicas e sem demasiado medo ao fracasso. Há que ter paciência como a tem o lavrador esperando a colheita.




O evangelho de hoje nos ajuda a entendermos como conduz Deus nossa história. Não teríamos que nos orgulhar nunca, como se o mundo se salvasse por nossas técnicas, métodos e esforços. Não podemos esquecer aquilo que São Paulo nos aconselhou: “Eu plantei, Apolo regou, mas Deus é quem fez crescer. Assim, nem o que planta é alguma coisa nem o que rega, mas só Deus, que faz crescer. O que planta ou o que rega são iguais; cada um receberá a sua recompensa, segundo o seu trabalho.  Nós somos operários com Deus. Vós, o campo de Deus, o edifício de Deus. Segundo a graça que Deus me deu, como sábio arquiteto lancei o fundamento, mas outro edifica sobre ele. Quanto ao fundamento, ninguém pode pôr outro diverso daquele que já foi posto: Jesus Cristo” (1Cor 3,6-11). 




Os frutos da graça de Deus se produzem às ocultas, em pequenos gestos e projetos bem simples sem que ninguém se dê conta. Nossa tarefa é semear a bondade constantemente, catar um pedaço de felicidade diariamente para compartilhá-la com aqueles que não conseguiram catar nenhum pedaço. A fé vivida na obediência à vontade de Deus é capaz de operar uma transformação total da pessoa, uma reestruturação de todo o ser, como a semente que se transforma totalmente em uma planta. Nos fatos aparentemente irrelevantes, na simplicidade e normalidade de cada dia, na insignificância dos meios, esconde-se o dinamismo de Deus que atua na história e que oferece aos homens caminhos de salvação e de vida plena. Não podemos deixar nenhum dia sem semear a bondade nos corações de pessoas.


P. Vitus Gustama,svd

sábado, 24 de outubro de 2015

26/10/2015
MISERICÓRDIA DIVINA NOS SALVA E NOS CHAMA A CAMINHAR


Segunda-Feira Da XXX Semana Comum 


Evangelho: Lc 13,10-17


Naquele tempo:10 Jesus estava ensinando numa sinagoga, em dia de sábado. 11 Havia aí uma mulher que, fazia dezoito anos, estava com um espírito que a tornava doente. Era encurvada e incapaz de se endireitar. 12 Vendo-a, Jesus chamou-a e lhe disse: 'Mulher, estás livre da tua doença.' 13 Jesus colocou as mãos sobre ela, e imediatamente a mulher se endireitou, e começou a louvar a Deus. 14 O chefe da sinagoga ficou furioso, porque Jesus tinha feito uma cura em dia de sábado. E, tomando a palavra, começou a dizer à multidão: 'Existem seis dias para trabalhar. Vinde, então, nesses dias para serdes curados, mas não em dia de sábado.' 15 O Senhor lhe respondeu: 'Hipócritas! Cada um de vós não solta do curral o boi ou o jumento, para dar-lhe de beber, mesmo que seja dia de sábado? 16 Esta filha de Abraão, que Satanás amarrou durante dezoito anos, não deveria ser libertada dessa prisão, em dia de sábado?' 17 Esta resposta envergonhou todos os inimigos de Jesus. E a multidão inteira se alegrava com as maravilhas que ele fazia.
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Continuamos a acompanhar e a escutar as lições de Jesus durante a sua última viagem para Jerusalém (Lc 9,51-19,28), pois lá ele será crucificado, morto, mas glorificado pelo bem que faz (cf. At 10, 38) e pelo amor incondicional ao homem (cf. Jo 3,16; 13,1)




As comunidade de Lucas são comunidades de pobres com alguns ricos. Há um contraste que aparece, sobretudo, no evangelho de Lucas: de um lado, os pobres, famintos, perseguidos, aflitos (Lc 6,20-23) e, do outro, os ricos (Lc 12,16-21) que se banqueteiam sem se preocupar com a miséria dos outros (Lc 16,19-31); Comunidades com pessoas cansadas, medrosas, desanimadas e perdidas por causa da situação na qual viviam (Lc 24,13-24).




Deus Da Misericórdia Nos Visitou Também na Nossas Dores




No texto do evangelho de hoje Lucas nos relatou uma mulher sofrida durante dezoito anos que Jesus curou no Sábado. No seu evangelho Lucas relatou três vezes a cura ocorrida no Sábado: a cura do homem com a mão paralisada (Lc 6,6-11); a cura de uma mulher encurvada (13,10-17); e a cura de um hidrópico (14,1-6).




Hoje estamos diante de uma mulher encurvada  e sofrida durante dezoito anos. É todo um símbolo. É uma mulher que não pode endireitar-se nem levantar sua cabeça para o céu. Uma pessoa encurvada só pode olhar para o chão e sem condições para olhar para o céu. É uma mulher com uma perspectiva limitada e sem horizontes pelo peso carregado nas costas. É uma mulher que carrega um peso insuportável para sua vida que a incapacita de olhar além do chão. É uma mulher cansada e oprimida, esmagada e deprimida. É uma mulher que recebia, em seus ombros, fardos incontáveis. É um símbolo de todas as mulheres na história. É um símbolo de todos os que suportam ou carregam pesos intoleráveis.




Em qualquer lugar do planeta terra podemos encontrar homens e mulheres curvados pelo peso da fome e da pobreza, pela miséria e exploração, pelo abandono e exclusão de uma convivência mais humana e familiar, pela falsidade e mentira, pela perseguição e a tortura. Homens e mulheres curvados pelo peso dos filhos cheios de problemas e pelas preocupações familiares diante de tantas dificuldades que a vida impõe. Homens e mulheres curvados pelo peso de trabalho de escravidão e de exploração. Homens e mulheres encurvados pelo esforço e pela luta para não faltar pão para os filhos na mesa da família. Homens e mulheres encurvados pela incompreensão e solidão. Homens e mulheres encurvados pelo vício desenfreado e pelos apegos que cria uma vida vazia. Homens e mulheres encurvados pelos fracassos e pelas tristezas. Homens e mulheres curvados pela falta de saúde. Homens e mulheres encurvados pela violência sem piedade que causa tantas lágrimas e tristezas.




Diante de tudo isso, Jesus não fica insensível. Ele não espera o pedido da mulher para ser curada, como aconteceu com outros milagres. Ele nem quer saber se é num sábado ou qualquer dia sagrado na concepção dos homens. Jesus não quer saber das veneráveis prescrições religiosas por sagradas que pareçam ser. Nenhuma lei sagrada, nenhum dia santo de guarda, na concepção do homem, é capaz de impedir Jesus de fazer o bem e de salvar pessoas em necessidade. Na sinagoga Jesus se depara com a miséria da mulher. Cheio de misericórdia, Jesus chama a mulher para si e dirige-lhe a palavra e impõe-lhe as mãos. Jesus é Deus que visita seu povo (Lc 1,68.78; 7,16) e se aproxima do seu povo para salvá-lo. Deus não nos abandona mesmo que estejamos cercados por alguma dificuldade que parece sem saída. Diante da mulher sofrida Jesus se compadece e toma a iniciativa, mesmo que seja no dia de Sábado: “Vendo a mulher, Jesus chamou-a e lhe disse: ‘Mulher, estás livre da tua doença’. Jesus pôs as mãos sobre ela, e imediatamente a mulher se endireitou e começou a louvar a Deus”. A partir de agora em diante ela pode olhar para o céu, aquilo que ela não conseguia fazer, para louvar a Deus.




O Bem Deve Ser Praticado Durante Vinte Quatro Horas Por Dia e Em Qualquer Lugar e Situação




O chefe da sinagoga se preocupa com o que pode e o que não pode fazer no Sábado colocando de lado a necessidade humana e a vida que está em jogo. Este chefe religioso olha muito mais para as regras e proibições do que para um ser humano em perigo.




Esse chefe de sinagoga é um manipulador religioso. O manipulador trabalha para adormecer sua vítima. A manipulação está sempre apontada para duas áreas: o fazer e o ser. Os manipuladores são pessoa que querem ter controle sobre sua vida. O manipulador costume aparecer como alguém que é protetor, bom, que quer “amá-lo”, que dá coisas, mas depois ele cobra tudo de você, pois ele quer recompensa. Aquele que dá sinceramente nunca vai pedir nada em troca. Voltemos nosso olhar para as pessoas e continuemos em busca de relações sadias. Aprender a nos cuidar e a cuidar dos outros é trabalho difícil, mas não impossível, e devemos fazê-lo a exemplo de Jesus.




Além disso, quando nos preocupamos apenas com as regras e preceitos religiosos e não com o bem que devemos praticar é porque nosso coração está vazio de Deus. “O homem exterior é o homem inimigo e mau que semeou e lançou o joio... A carne recomenda o vício e a maldade; o espirito inculca o amor de Deus, a alegria, a paz e toda a virtude. O homem interior é a arvore boa que produz sempre frutos bons e nunca maus, visto querer a bondade e aspirar à bondade. O homem exterior é a arvore má que em tempo algum pode dar fruto bom" (Mestre Eckhart: O Livro Da Divina Consolação 4ª Edição p. 91. Ed.Vozes,1999)




O chefe da sinagoga, o homem religiosos, não se compadece com a mulher sofrida, mas se preocupa em cumprir as leis religiosas. “O pior é educar por métodos baseados no temor, na força, no poder, porque se destrói a sinceridade e a confiança, e só se consegue uma falsa submissão” (Albert Einstein).  Por isso, Jesus o chama de “hipócrita”: “Hipócritas! Cada um de vós não solta do curral o boi ou o jumento, para dar-lhe de beber, mesmo que seja dia de sábado? Esta filha de Abraão, que Satanás amarrou durante dezoito anos, não deveria ser libertada dessa prisão, em dia de sábado?”. Ama menos quem se preocupa somente com as regras e proibições. O Deus de Jesus não é o Deus de regras e sim o Deus de amor (Jo 3,16; 1Jo 4,8.16). O que agrada a Deus não é o cumprimento das regras por sagradas que elas pareçam ser, e sim a vivência do amor fraterno. É a preocupação pela dignidade humana. Deus fica contente com a libertação de seus filhos. Para Jesus a Lei dever ser humana e torna o ser humano em irmão do outro.




Deus não quer que sejamos encurvados. Deus não quer que sejamos oprimidos e escravizados, nem deprimidos e prostrados no chão de uma vida sem sentido. Ele nos quer livres. Ele quer que estejamos em pé e de pé diante dessa vida para ver que a vida é maior do que chão para onde dirigíamos nosso olhar. Estar em pé ou estar de pé significa liberdade, confiança, transcendência. Deus não nos criou para ficarmos encurvados, e sim para que vivamos com dignidade, para que sejamos livres (cf. Mt 11,28). Para estar de pé durante esta vida temos que aprender a ficar de joelhos diante de Deus. Encurvar-se diante de Deus nos faz erguermo-nos diante desta vida para louvar a Deus que nos ama com seu amor misericordioso incondicionalmente.




Um dos imperativos que mais se repetem na história da salvação é “Levanta-te!”. Podemos ter fracassos na vida, podemos cair no chão, mas é preciso que nos levantemos, pois a misericórdia divina está nos esperando e a esperança nos chama a caminharmos na direção do futuro de Deus que nos salva.


P. Vitus Gustama,svd

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Domingo, 25/10/2015

SENHOR, QUE EU VEJA PARA PODER ENXERGAR SEU CAMINHO E O SENTIDO DA MINHA VIDA


XXX DOMINGO COMUM DO ANO B 


I Leitura: Jr 31,7-9


7 Isto diz o Senhor: “Exultai de alegria por Jacó, aclamai a primeira das nações; tocai, cantai e dizei: ‘Salva, Senhor, teu povo, o resto de Israel’. 8 Eis que eu os trarei do país do Norte e os reunirei desde as extremidades da terra; entre eles há cegos e aleijados, mulheres grávidas e parturientes: são uma grande multidão os que retornam. 9 Eles chegarão entre lágrimas e eu os receberei entre preces; eu os conduzirei por torrentes d’água, por um caminho reto onde não tropeçarão, pois tornei-me um pai para Israel, e Efraim é o meu primogênito”.




II Leitura: Hb 5,1-6


1 Todo sumo-sacerdote é tirado do meio dos homens e instituído em favor dos homens nas coisas que se referem a Deus, para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados. 2 Sabe ter compaixão dos que estão na ignorância e no erro, porque ele mesmo está cercado de fraqueza. 3 Por isso, deve oferecer sacrifícios tanto pelos pecados do povo, quanto pelos seus próprios. 4 Ninguém deve atribuir-se esta honra, senão o que foi chamado por Deus, como Aarão. 5 Deste modo, também Cristo não se atribuiu a si mesmo a honra de ser sumo-sacerdote, mas foi aquele que lhe disse: “Tu és o meu Filho, eu hoje te gerei”. 6 Como diz em outra passagem: “Tu és sacerdote para sempre, na ordem de Melquisedec”.




Evangelho: Mc 10,46-52


Naquele tempo, 46 Jesus saiu de Jericó, junto com seus discípulos e uma grande multidão. O filho de Timeu, Bartimeu, cego e mendigo, estava sentado à beira do caminho. 47 Quando ouviu dizer que Jesus, o Nazareno, estava passando, começou a gritar: “Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!” 48 Muitos o repreendiam para que se calasse. Mas ele gritava mais ainda: “Filho de Davi, tem piedade de mim!” 49 Então Jesus parou e disse: “Chamai-o”. Eles o chamaram e disseram: “Coragem, levanta-te, Jesus te chama!” 50 O cego jogou o manto, deu um pulo e foi até Jesus. 51 Então Jesus lhe perguntou: “O que queres que eu te faça?” O cego respondeu: “Mestre, que eu veja!” 52 Jesus disse: “Vai, a tua fé te curou”. No mesmo instante, ele recuperou a vista e seguia Jesus pelo caminho.
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Com o relato de cura do cego Bartimeu, Marcos conclui a seção central de seu evangelho (8,22-10,52). Toda esta parte central começou com a cura do primeiro cego, em Betsaida (8,22-26). Lembramos que aquela cura se fez em duas etapas: na primeira, o cego chegou a ter uma visão ainda confusa: viu pessoas “como se fossem árvores andando” (8,25). Tocado por Cristo de novo, o homem viu “distintamente”, e viu claro todas as coisas. Logo depois, “no caminho” para Cesaréia de Filipe, Pedro chegou a reconhecer Jesus como o Messias numa grande profissão da fé, vencendo sua cegueira (8,27-33). Mas Pedro e os discípulos ainda viam em Jesus o Messias que seria de acordo com a expectativa popular nacionalista: o Messias triunfal e dominante. Era uma visão ainda confusa.
 


Desde aquela primeira  confissão de fé, Jesus se dedicou ao ensinamento dos discípulos, revelando a eles o mistério mais profundo da sua pessoa como “Servo Sofredor”. Três vezes Jesus ensinou isso aos seus discípulos (8,31;9,31;10,33). Os discípulos, porém, se mostraram incapazes de compreender este Messias. Na primeira profecia da paixão, Pedro não segue verdadeiramente Jesus, mas ele quer que Jesus o siga (8,32-33). Pedro foi chamado de satanás. Esta mesma tendência, ainda fará Pedro tropeçar mais vezes, principalmente no pátio do sumo sacerdote durante o processo (14,66-72) e com os judeus convertidos em Antioquia (Gl 2,11-14). Na segunda (9,31-32), em vez de procurar entrar na intenção das palavras de Jesus, os discípulos, em sua insensibilidade, começam a discutir para saber quem deles é o maior (9,34). E na terceira (10,33-34), Jesus encontra a mesma incompreensão dos discípulos. Imediatamente depois de terem ouvido esta terceira profecia da paixão, Tiago e João, filhos de Zebedeu, se aproximam de Jesus para pedir-lhe uma alta posição no novo regime de Jesus (10,37).



A história do cego Bartimeu é rica de experiência interior do homem que descobre em Jesus a verdadeira luz (Jo 1,9;9,5). Por isso, esse relato nos convida a centrar-nos em Jesus de todas as maneiras possíveis, como Bartimeu, para que possamos também experimentar em Jesus a verdadeira luz para podermos enxergar o sentido de nossa vida a fim de seguir a Jesus incansavelmente.




O evangelho nos diz que Bartimeu é cego e mendigo. Na época os "cegos" faziam parte do grupo dos excluídos da sociedade. Segundo a teologia oficial na época, as deficiências físicas eram consideradas como resultado do pecado cometido. Segundo esse pensamento, Deus castigava de acordo com a gravidade da culpa cometida. A cegueira era considerada como o resultado de um pecado especialmente grave, porque a cegueira impedia o homem de estudar a Lei. Por essa razão a cegueira era uma maldição de Deus por excelência. Pela sua condição de impureza legal, os cegos não podiam ser testemunhas no tribunal nem participar nas cerimônias religiosas no Templo.
  


Se na nossa sociedade, os pequenos, os pobres, os doentes, os velhos, os fracos, os débeis, os limitados são marginalizados, no coração de Deus eles ocupam um lugar especial e eles são objeto privilegiado do seu amor e da sua misericórdia. Ao assumir a nossa humanidade, ao se encarnar, Jesus experimentou a nossa fragilidade, a nossa debilidade, a nossa dependência; tornou-se capaz de compreender a nossa debilidade e também os nossos erros e falhas e de olhar para as nossas insuficiências com bondade e misericórdia e de ajudar-nos a sair dessa situação, sem nenhum julgamento ou discriminação porque ele veio para que todos tenham vida e a tenham em abundância (cf. Jo 10,10).




O cego da nossa história está sentado à beira do caminho e pede esmola. O estar sentado significa acomodação, instalação, conformismo. Ele está privado da luz e da liberdade e está conformado com a sua triste situação, sabendo que, por si só, é incapaz de sair dela. E o pedir esmola indica a situação de escravidão e de dependência em que o homem se encontra.
   


O evangelho nos relata que Bartimeu centra-se em Jesus completamente e de várias formas. Os ouvidos de Bartimeu ouvem o que seus olhos não podem ver. O cego invoca Jesus que passa com um título messiânico popular, que resume todas as esperanças de Israel: “Filho de Davi” (2Sm 7,12-16;Sl 89,29-38). Bartimeu é a única pessoa em Israel, à parte dos discípulos, a reconhecer explicitamente a identidade messiânica de Jesus: “Jesus, Filho de Davi, tem compaixão de mim” (10,48b). Seu apelo é uma expressão de fé em Jesus, porque ele acredita que Jesus pode salvá-lo.




Os peregrinos não pareciam muito felizes com a oração/apelo de Bartimeu e o intimaram que se calasse. Mas a insistência deles é sem efeito. Pelo contrário, Bartimeu grita ainda mais forte: “Filho de Davi, tem piedade de mim!” Sua fé continua a se exprimir com força, embora seja contrariada(cf. Lc 11,1-13;18,1-8).
 


Ouvindo a oração/o apelo do mendigo cego, Jesus parou e disse à multidão: “Chamai-o”. É diferente do resto da multidão, Jesus faz-se presente a este homem em sua necessidade. No evangelho Jesus sempre está disposto a oferecer aos homens um novo começo, considerando sempre este começo possível, jamais quebrando o caniço rachado (Is 42,3). Para Jesus nenhuma situação é desesperadora. Com Jesus, todo homem pode, a todo momento, recomeçar um novo futuro.
 


A multidão se deixa, agora, ganhar pela simpatia que Jesus testemunha a este homem. A multidão começa a tomar partido em favor do cego, dizendo-lhe que não tem nada a temer: “Coragem, levanta-te, ele te chama”. Esta pequena frase implica duas coisas. Primeiro, que temos necessidade dos outros para ir a Jesus. Temos necessidade uns dos outros, da comunidade, da província, da Igreja. Segundo, isto significa que cada um de nós tem a responsabilidade de levar os outros a Jesus. Infeliz de mim se os impedir de conhecer Jesus por minhas palavras, minha conduta, ou pela contradição entre as duas.
 


O relato torna-se agora claro e vivo: “Então o cego jogou fora o manto, deu um pulo e foi apresentar-se a Jesus”. “Jogar fora o manto” é um ato simbólico. Para um pobre, o manto é sua casa; é tudo que ele possui (cf. Ex 22,25-26). Este gesto, por isso, equivale a abandonar tudo. Bartimeu, como o homem rico, encontra Jesus “no caminho” (10,17.46). O homem rico não podia desfazer-se de sua fortuna (veja a reflexão do 28º Domingo), mas o pobre Bartimeu abandona seu manto, seu único elemento de sobrevivência (os mendigos estendiam suas roupas para receberem esmolas). Um, no ápice da escala social, recusa o convite direto de Jesus. Mas o outro, no fundo da pobreza, na parte mais baixa da escala social, sequer chegar a esperar chamado, levantando-se e “seguindo Jesus no caminho” (52). Em sua cegueira Bartimeu não vê mais do que Jesus. Em sua pobreza, não busca mais do que o Senhor.
 


Jesus agora nos surpreende com uma pergunta que parece totalmente supérflua: “Que queres que eu te faça?” (v.51). Isto nos lembra a pergunta semelhante feita a Tiago e João: “Que quereis que eu vos faça?” (10,36). Os dois discípulos desejam status e privilégios; o mendigo cego simplesmente pede a sua “visão”. Marcos mostra assim de novo que o cego representa os discípulos. Jesus faz a pergunta para medir a sinceridade do desejo de Bartimeu. Que quer que Jesus faça por ele? Qual é o desejo de seu coração? A resposta é direta e vem do coração: “Rabbuni, que eu veja” (v.51). O cego sabe o que quer: recuperar a vista. Aqui, ele já não chama Jesus de “Filho de Davi”, mas chama-o de Rabbuni (Meu Senhor), título que se dava ao próprio Deus: reconheceu em Jesus o Homem-Deus, o Messias Filho de Deus (1,1).
 


Em resposta, Jesus realiza a última cura do Evangelho: “Vai, a tua fé te salvou”. A palavra grega sozein pode significar “curar” e “salvar”. “Curar” refere à transformação física que ocorre na pessoa: Bartimeu recebeu a visão física (foi curado). “Salvar-se” inclui esta cura, mas refere também à transformação mais plena e profunda que o poder do Reino (poder de Deus) opera. Neste segundo sentido, Bartimeu representa todos aqueles que irão receber a visão espiritual, para penetrar o Mistério do Reino que Jesus revela e para aderir a ele. As palavras de Jesus “tua fé te salvou” são as que disse à mulher com fluxo de sangue (5,34); indicam a comunicação do Espírito, resposta de Jesus à adesão que Bartimeu lhe manifesta e ao seu compromisso.
  


A mesma pergunta é dirigida a cada um de nós: Que queres que eu te faça? É uma pergunta muito franca. Esta pergunta exige uma resposta igualmente sincera, resposta que exprime meu desejo mais profundo. Como a fé de Bartimeu parte de um sim incondicional à pessoa de Jesus, assim minha resposta deve significar um comprometimento total com Jesus, um abandono sem restrição. É esta fé que cura Bartimeu e esta mesma fé pode tornar-nos sadios e santos(salvos).
   


Logo que Bartimeu começou a ver, foi seguindo Jesus pelo caminho (v.52). Este versículo é o ápice da narração. Provavelmente é a primeira vez em sua vida que Bartimeu pode deslocar-se livremente. Contudo, no mesmo momento em que a recupera, Bartimeu renuncia a esta liberdade nova para poder seguir a Jesus. Que melhor uso se pode fazer da liberdade do que seguir o Senhor? Somente quando renunciarmos à nossa sede de poder, somente quando reconhecermos nossa cegueira e procurarmos a verdadeira visão, o nosso caminho de discipulado poderá prosseguir. Para seguir o caminho de Jesus é preciso ficar curado da cegueira. Bartimeu segue Jesus no caminho de Jerusalém, onde a paixão logo se desenvolverá.
   


Esta cena, em primeiro lugar, na intenção de Marcos, mostra a necessidade que os discípulos têm da fé. É somente a fé, os olhos abertos pelo poder de Jesus, que faz ver o caminho que ele trilhou e que devemos trilhar. A fé é dom de Deus e ela faz ver quem é Jesus. Mas a visão clara que se tem de Jesus não vem de uma só vez. Com a ajuda de Jesus, veremos, pouco a pouco, mais claro e com maior nitidez. Este cego curado por Jesus representa, então, todos os cristãos aos quais foi dado o dom da fé para ver claro as coisas do Reino de Deus e para seguir Jesus no caminho de um amor que é semelhante ao seu amor. Mas devemos estar conscientes sempre de que a cegueira espiritual ainda faz parte da nossa condição de discípulo. Por isso, o nosso constante sentimento é um eco do pedido de Bartimeu: “Senhor, que eu veja, com mais clareza; e que te siga com mais generosidade como Bartimeu”. Queremos seguir Jesus melhor no dia-a-dia, sustentados pela oração, pela Palavra e pelo exemplo de irmãos e irmãs que inspiram a nossa coragem.




Em segundo lugar, as leituras deste domingo querem nos revelar que o Deus em quem acreditamos não é um Deus insensível e alheado das dores e dificuldades dos homens. Os “coxos” e os “cegos” que o profeta Jeremias nos relatou representam aqueles que estão numa situação de fragilidade, de debilidade, de dependência e que são incapazes, por si só. E a Palavra de Deus proclamada neste domingo nos garante que não estamos sozinhos nos nossos dramas e sofrimentos. Deus está sempre ao nosso lado e, com amor de pai, cuida de nós, e nos conduz ao encontro da vida plena. Resta a cada um de nós reconhecer a presença de Deus na nossa vida diária com humildade e simplicidade e aceitar o seu amor.
 


Mas muitas vezes somos tentados a olhar para a nossa vida e para a história do nosso mundo, com os óculos do pessimismo, do medo e do desespero. Por isso, a Palavra de Deus de hoje quer nos recordar para não termos medo e desespero, pois Deus caminha conosco pela história. Deus pode até tardar, mas jamais pode falhar. Por esta razão, há um futuro garantido para nós, pois Deus nos ama e caminha conosco diariamente. É preciso que estejamos atentos para Deus que está passando na nossa vida., como o cego Bartimeu que estava atento a Jesus que estava passando no seu caminho.




Em terceiro lugar, Bartimeu percebe o sem-sentido da sua situação, e sente uma forte vontade de sair dela. Ele tem a noção de sua situação. A percepção de sua situação sem-sentido se torna mais aguda ainda pela passagem de Jesus de Nazaré. A passagem de Jesus na vida de alguém é, sempre, um momento de tomada de consciência, de questionamento, de desafio, que leva a pôr em causa ou coloca em crise a vida velha e a sentir o imperativo de ir mais além da situação atual a fim de viver uma vida mais digna e plena em Deus. É por isso que Bartimeu grita para pedir socorro de quem é capaz de solucionar seu problema: Jesus. Bartimeu sente que, sem a ajuda de Jesus, ele continuará envolvido pelas trevas da dependência, da escravidão, da instalação. Por isso, pede e grita: “Jesus, filho de David, tem misericórdia de mim” (v. 47). Será que eu percebe o que está passando na minha vida? Qual situação que estou tendo e qual é o apelo de Deus para mim neste momento?




Em quatro lugar, a cura da cegueira de Bartimeu se produz somente pela palavra e não acompanhada por nenhum gesto. Isto mostra a firme fé do cego em Deus e no poder curativo de Jesus. Uma fé que resulta na cura ou na libertação de Bartimeu de sua cegueira: “Vai, a tua fé te curou!”, disse Jesus ao cego.




A fé é uma luz na obscuridade. Quem não tem consciência de sua cegueira não busca nem pede a luz de Deus. Hoje em dia somos propensos a pensar, de forma extrema, que, ou tudo está claro que é a mentalidade cientificista ou nada está claro definitivamente, que é a mentalidade niilista. O Bartimeu nos ensina que o primeiro passo para alcançar a luz da fé é reconhecer nossa condição de cegos. A fé em Jesus é uma luz que ilumina a vida. A luz da fé ilumina e dá sentido à vida do homem porque põe a claridade na origem de onde viemos e no término, no fim de nosso destino.


P. Vitus Gustama,SVD