quarta-feira, 4 de novembro de 2015


Domingo, 08/11/2015
GENEROSIDADE E SIMPLICIDADE CONTRA HIPOCRISIA E VAIDADE


XXXII DOMINGO DO TEMPO COMUM ANO “B”

                                            

I Leitura: 1Rs 17,10-16


Naqueles dias, 10Elias pôs-se a caminho e foi para Sarepta. Ao chegar à porta da cidade, viu uma viúva apanhando lenha. Ele chamou-a e disse: “Por favor, traze-me um pouco de água numa vasilha para eu beber”. 11Quando ela ia buscar água, Elias gritou-lhe: “Por favor, traze-me também um pedaço de pão em tua mão”. 12Ela respondeu: “Pela vida do Senhor, teu Deus, não tenho pão. Só tenho um punhado de farinha numa vasilha e um pouco de azeite na jarra. Eu estava apanhando dois pedaços de lenha, a fim de preparar esse resto para mim e meu filho, para comermos e depois esperar a morte”. 13Elias replicou-lhe: “Não te preocupes! Vai e faze como disseste. Mas, primeiro, prepara-me com isso um pãozinho e traze-o. Depois farás o mesmo para ti e teu filho. 14Porque assim fala o Senhor, Deus de Israel: ‘A vasilha de farinha não acabará e a jarra de azeite não diminuirá, até ao dia em que o Senhor enviar a chuva sobre a face da terra’”. 15A mulher foi e fez como Elias lhe tinha dito. E comeram, ele e ela e sua casa, durante muito tempo. 16A farinha da vasilha não acabou nem diminuiu o óleo da jarra, conforme o que o Senhor tinha dito por intermédio de Elias.


II Leitura: Hb 9,24-28


24Cristo não entrou num santuário feito por mão humana, imagem do verdadeiro, mas no próprio céu, a fim de comparecer, agora, na presença de Deus, em nosso favor. 25E não foi para se oferecer a si muitas vezes, como o sumo sacerdote que, cada ano, entra no Santuário com sangue alheio. 26Porque, se assim fosse, deveria ter sofrido muitas vezes, desde a fundação do mundo. Mas foi agora, na plenitude dos tempos, que, uma vez por todas, ele se manifestou para destruir o pecado pelo sacrifício de si mesmo. 27O destino de todo homem é morrer uma só vez e, depois, vem o julgamento. 28Do mesmo modo, também Cristo, oferecido uma vez por todas, para tirar os pecados da multidão, aparecerá uma segunda vez, fora do pecado, para salvar aqueles que o esperam.


Evangelho: Mc 12,38-44


Naquele tempo, 38Jesus dizia, no seu ensinamento a uma grande multidão: “Tomai cuidado com os doutores da Lei! Eles gostam de andar com roupas vistosas, de ser cumprimentados nas praças públicas; 39gostam das primeiras cadeiras nas sinagogas e dos melhores lugares nos banquetes. 40Eles devoram as casas das viúvas, fingindo fazer longas orações. Por isso eles receberão a pior condenação”. 41Jesus estava sentado no Templo, diante do cofre das esmolas, e observava como a multidão depositava suas moedas no cofre. Muitos ricos depositavam grandes quantias. 42Então chegou uma pobre viúva que deu duas pequenas moedas, que não valiam quase nada. 43Jesus chamou os discípulos e disse: “Em verdade vos digo, esta pobre viúva deu mais do que todos os outros que ofereceram esmolas. 44Todos deram do que tinham de sobra, enquanto ela, na sua pobreza, ofereceu tudo aquilo que possuía para viver”.

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Os capítulos 11-13, onde se encontra o nosso texto, formam uma seção que falam do ministério de Jesus em Jerusalém e a revelação de sua verdadeira identidade. A invocação do cego Bartimeu a Jesus sob o título messiânico: Filho de Davi, prepara esta nova seção que tem como cenário a cidade de Davi com seu templo (objetivo e meta do caminho) e cujo tema dominante é a revelação da verdadeira identidade de Jesus. Por um lado, esta seção é repleta de tensão, conflito e de ameaças à vida de Jesus no seu confronto com uma estrutura de  poder em Jerusalém que se mobiliza para destrui-Lo. Por outro lado, Jesus aparece nesta seção como uma autoridade absoluta sobre a humanidade. É uma autoridade a quem os homens devem escutar (9,6), pois ele é o Filho de Deus que assumiu a missão de revelar seu Pai neste mundo e que sabe que a sua morte, em consequência desta revelação, irá “resgatar” as pessoas do mal.

        

Esta seção forma três unidades narrativas:

  1. 11,1-26 narra as ações simbólicas de Jesus de caráter messiânico (entrada em Jerusalém, maldição de figueira estéril, purificação do templo e figueira seca e conduta fecunda).  
  2. 11,27-12,44: controvérsias com os dirigentes do judaísmo (a autoridade de Jesus é questionada, parábola dos vinhateiros homicidas, o tributo ao imperador, a ressurreição dos mortos, o mandamento principal, a filiação do Messias, a vaidade egoísta dos mestres da lei, e a generosidade humilde de uma viúva).
  3.  13,1-37: Discurso escatológico.
            
    Através de tais unidades, revela-se a verdadeira identidade de Jesus:

  • Ele é o Messias-Rei que entra na cidade de Davi em meio das aclamações da multidão;
  • Ele é o verdadeiro intérprete da vontade divina, e, por isso, pode emitir/lançar um juízo sobre o templo e o culto;
  • Ele é “Filho amado” de Deus e o último enviado ao povo de Israel;
  • Ele é o Mestre autorizado da lei, cuja sabedoria maravilha seus adversários;
  • Ele é a quem Davi havia chamado de Senhor;
  • Ele é, sobretudo, o Senhor do templo, que anuncia sua destruição enquanto expressão dos falsos valores do culto judaico.
            
    Ao terminar esta seção, Marcos iniciará o relato da Paixão e Morte de Jesus.
              
    O texto lido neste domingo tem duas partes:

  1. vv. 38-40 falam do julgamento de Jesus sobre a vaidade egoísta e a hipocrisia dos mestres da Lei;
  2. vv. 41-44 falam do comportamento exemplar de uma viúva generosa, oposto ao dos escribas.
    I. Acusação De Jesus Contra a Vaidade e a Hipocrisia (cf. Lc 20,45-47 e Mt 23).
         
     Tomai cuidado com os doutores da Lei! Eles gostam de andar com roupas vistosas, de ser cumprimentados nas praças públicas; gostam das primeiras cadeiras nas sinagogas e dos melhores lugares nos banquetes. Eles devoram as casas das viúvas, fingindo fazer longas orações”. 
            
    Depois que foram atacados no plano doutrinal, agora os fariseus e os escribas são também atacados no plano da vida prática. Aquelas pessoas tão estimadas e admiradas pelo povo escondem, de baixo de um comportamento irreprovável, os defeitos que fazem inútil qualquer ato de culto: vaidade e hipocrisia.
    1.1.Vaidade
            
    A vaidade se manifesta na ostentação de “toga”(stolé/tallit): uma veste longa e solene, portanto uma veste preciosa usada provavelmente aos sábados na sinagoga. A finalidade dos escribas usando essas roupas é, sem dúvida, chamar sobre si a atenção dos homens. Infelizmente, conforme as palavras de Khalil Gibran: “Vossos trajes ocultam muito de vossa beleza, porém não escondem o que não é belo. Embora procureis nos trajes a proteção libertadora de vossa intimidade, neles podeis encontrar arreios e cadeias” (cf.  o livro :O Profeta).
    Um vaidoso só vive para aparecer e ser admirado. As conversas e atitudes, os esforços e vida de um vaidoso visam a buscar a aprovação e o louvor dos outros. Seus olhos não conseguem voltar-se para o seu íntimo.  Na prática, seu prazer não consiste em possuir méritos, mas em saber que os outros os elogiam. Ele sai em busca de aprovação e admiração, quando fala, quando caminha, quando trabalha, quando escreve e em tudo que estiver fazendo. Mas quem tem consciência do seu próprio valor não anda em busca da glória. Talvez um vaidoso nunca tenha considerado que vale mais sentirmos prazer por ser melhores do que senti-lo por apenas parecer que o somos.
    1.2. Hipocrisia
            
    Jesus também previne o povo contra a hipocrisia dos escribas. A palavra “hipócrita” no mundo grego antigo designava o ator que, com uma máscara e um disfarce, assumia uma personalidade alheia. Fingia diante do público ser outra pessoa, frequentemente sem nada a ver com a sua própria identidade/personalidade, pois faz apenas um papel. Por isso, o hipócrita é quem, simulando virtudes, nobres sentimentos e boas qualidades engana as outras pessoas no intuito de conquistar a estima delas. O recurso ao fingimento visa a obter louvores por uma virtude que não possui. Ele é tão habilidoso em camuflar-se que as pessoas até podem admirá-lo pela sua astúcia. Ele não se preocupa em ser bom, mas em apropriar-se daqueles indícios que o fazem parecer como tal. Ele ostenta uma bondade maior do que possui. Ele esquece que a dignidade da pessoa humana não consiste em parecer bom, mas em ser bom.
    Jesus critica a hipocrisia dos dirigentes do povo: os escribas e fariseus. A hipocrisia religiosa não é simplesmente uma “mentira”. Um hipócrita religioso faz de tudo para enganar os outros a fim de conseguir sua estima na base de gestos religiosos. Aparentemente o hipócrita religioso age para Deus, mas, na verdade, age para si próprio. O hipócrita religioso se julga justo (cf. Lc 18,9; 20,20); fica surdo diante do apelo à conversão; ele só olha para a trave nos olhos do seu vizinho e ignora os grandes erros que ele mesmo comete na vida (cf. Mt 7,4-5); tem pretensão de guiar os outros enquanto sua vida é dominada pela escuridão (cf. Mt 15,3-14); é ansioso para salvar apenas as aparências e não sua vida; torce os preceitos divinos em proveito de sua própria rapina e de sua intemperança ( cf. Mt 23,25)   
             
    O ser íntimo de muitos escribas (e fariseus) era a hipocrisia: atuavam voltados para os outros, não de olhos postos em Deus. Tinham uma vida que nada tem a ver com sua própria vida como a dos atores durante a representação. A hipocrisia dos escribas se torna descarada na contradição evidente entre a ostensiva religiosidade pública e o comportamento para com os fracos e indefesos, como as viúvas, cuja hospitalidade e generosidade eles exploram. A expressão que Marcos usa “devoram as casas das viúvas”, é para caracterizar a cobiça dos escribas (12,40; cf. Lc 20,47). É por causa desta deformação religiosa e da injustiça para com os fracos que Jesus, com o estilo que traz de volta a severidade dos profetas(cf. Is 1,17), lança contra os escribas seu terrível juízo de condenação.
             
    Jesus quer que tenhamos diante dele e dos outros uma única vida, sem disfarces, sem mentiras. Nos dias atuais como é urgente que o cristão seja um homem ou uma mulher de uma só palavra, de “uma só vida”, que não se serve de máscaras ou disfarces quando se torna custoso manter a verdade. A veracidade é a virtude que nos inclina a dizer sempre a verdade e a manifestar-nos externamente como somos interiormente, como ensina S. Tomás de Aquino(cf. S.Th., II-II q.109, a . 3, ad 3).
            
    A verdade é sempre um reflexo de Deus porque a verdade tem a sua origem em Deus(cf. Jo 14,6) e por isso, deve ser tratada com respeito(cf. Mt 5,37). Por isso, também, a falta de veracidade que se manifesta na mentira ou na hipocrisia ou na falta de “unicidade de vida” revela uma discórdia interior, uma fratura na própria personalidade.
    II. A Generosidade Da Pobre Viúva Contra A Cobiça Dos Escribas
                   
    Na segunda parte do texto do evangelho de hoje (vv. 41-44), Marcos apresenta a cena da viúva que deposita o seu humilde óbolo no cofre do templo. E Jesus se encontra no templo, exatamente numa sala ou corredor do pátio reservado às mulheres, onde estão colocadas as 13 trombetas ou caixas em forma de funil para receber as ofertas, subdividas segundo as intenções dos oferecedores. A pobre viúva depositou, como oferta livre para o culto, duas moedinhas dentre as menores em circulação. As duas moedas juntas perfaziam um quadrante, isto é um quarto de asse romano. Um asse, por sua vez, era décima-sexta parte de um denário, e um denário era a diária de um trabalhador no campo (cf. Mt 20,2). Poucas coisas se podiam comprar com um quadrante. O valor desta oferta, observa Jesus, deriva do fato de que por meio dela aquela mulher expressou o dom total de si mesma; realizou, sempre conforme a interpretação hebraica, o mandamento do amor a Deus com tudo aquilo que possuía para viver.
            
    Marcos quer sublinhar, assim, a simpatia de Jesus pelos pobres, isto é, a gente humilde e simples, completamente aberta e disponível a Deus. O lugar do encontro com Deus é justamente através do coração pobre, totalmente aberto e disponível para Deus e não através do poder cultual ou institucional. Por isso, Jesus proclama solenemente o gesto da viúva, contrastando-o com a solenidade ostensiva dos ricos: “Em verdade eu vos digo que esta viúva que é pobre lançou mais do que todos os que ofereceram moedas ao Tesouro. Pois todos os outros deram do que lhes sobrava. Ela, porém, na sua penúria, ofereceu tudo o que tinha, tudo que possuía para viver”(vv.43-44).
            
    Deste texto podemos tirar uma lição de que como é diferente o que é importante para Deus daquilo que é importante para os homens. Como são diferentes as medidas! Nós costumamos impressionar-nos com o que é grande, chamativo. Deus comove-se com os pequenos detalhes de amor. É claro que também se comove com os gestos que costumamos considerar de grande importância, mas somente quando realizados com o mesmo espírito de retidão, de humildade e de amor.
            
    Na nossa experiência cotidiana, “Poucas vezes se apresentam grandes ocasiões de servir a Deus, mas as pequenas continuamente. Pois deves compreender que quem for fiel no pouco será constituído no muito. Faze, pois, todas as tuas coisas para a honra de Deus, e as farás todas bem. Quer comas, quer bebas, quer durmas, quer te divirtas, quer junto ao fogão, se souberes aproveitar essas tarefas, progredirás muito aos olhos de Deus realizando tudo isso porque assim quer Deus que o faças” (São Francisco de Sales, Introdução à Vida devota III).
            
    Não basta que aquilo que se realiza seja bom; deve, além disso, ser uma obra bem terminada. S. Tomás de Aquino ensina que para que haja virtude é preciso reparar em duas coisas: naquilo que se faz e no modo de fazê-lo. O modo de fazê-lo é com o amor. O amor é que torna importante as pequenas coisas. Quando tudo se faz com o amor, ele se torna uma obra-prima. E nada é pequeno quando o amor é grande. Ou nas palavras do Papa Paulo VI: “Nada é pequeno na Santa Liturgia, quando se pensa na grandeza d´Aquele a quem se dirige”.
    A viúva deu de sua indigência em oposição aos ricos que dão de seu poder e de seus privilégios. Neste aspecto contradiz o ditado que diz que “ninguém dá aquilo que não tem”. A viúva, ao contrário, somente possui aquilo que deu. A viúva não pede nem espera nenhum milagre em troca de sua oferta e sim ela simplesmente vive e pratica sua fé profundamente.
    Do exemplo da viúva entendemos que ser de Deus é servir e dar, não daquilo que alguém tem, e sim daquilo que é. O importante não é dar muito ou pouco e sim dar-se a si mesmo. Jesus é Aquele dá tudo e se dá a si mesmo; entregou-se a si mesmo pela salvação dos homens. Não importa a quantidade daquilo que damos, e sim o amor com que o damos. A viúva deu pouco, mas o deu com humildade, amor e fé. Por isso, ela recebeu o elogio de Jesus. Ainda que o nome da viúva não saibamos, mas seu gesto está no Evangelho. Deus a conhece e aplaude seu amor.
    A oferta da viúva é o cumprimento do primeiro mandamento. A viúva deixa para Deus a preocupação da vida. Ela faz uma escolha clara entre Deus e a riqueza. Esta opção é possível porque ela confia totalmente em Deus, e amar aos irmãos é mais importante do que todas as questões de dinheiro.
    O que damos? Daquilo que nos sobra ou daquilo que necessitamos? Damos algo com simplicidade, amor e fé, ou com ostentação? Gratuitamente damos ou esperamos algo em troca?
    Nem todos tem grandes dons, mas é generoso quem dá do pouco que tem e não quem tem muito e dá o que sobra. Faremos uma verdadeira oferenda a Deus quando dermos, a partir de nossa pobreza, o que somos e temos. Nós o entregamos não porque o consideramos de pouco valor. Nós o oferecemos a Deus porque acreditamos que Deus fará com o que damos o melhor para nós e para nossa comunidade. Deus recebe nossas vidas e as transforma em uma oferenda generosa e solidária que alegra a toda a comunidade.
    Porém, precisamos estar conscientes de que podemos multiplicar as oferendas a Deus, no entanto, estas podem continuar situando-se na periferia da vida. Tais oferendas não tem valor aos olhos de Deus já que escondem uma vontade dirigida a reter para nós mesmos o que consideramos de verdadeiro valor.
P. Vitus Gustama,svd

terça-feira, 3 de novembro de 2015

07/11/2015

BENS MATERIAIS
USAR OS BENS SEM SER POSSUIDOS POR ELES


Sábado Da XXXI Semana Comum


Evangelho: Lc 16,9-15


Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 9“Usai o dinheiro injusto para fazer amigos, pois, quando acabar, eles vos receberão nas moradas eternas. 10Quem é fiel nas pequenas coisas também é fiel nas grandes, e quem é injusto nas pequenas também é injusto nas grandes. 11Por isso, se vós não sois fiéis no uso do dinheiro injusto, quem vos confiará o verdadeiro bem? 12E se não sois fiéis no que é dos outros, quem vos dará aquilo que é vosso? 13 Ninguém pode servir a dois senhores: porque ou odiará um e amará o outro, ou se apegará a um e desprezará o outro. Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro”. 14Os fariseus, que eram amigos do dinheiro, ouviam tudo isso e riam de Jesus. 15Então Jesus lhes disse: “Vós gostais de parecer justos diante dos homens, mas Deus conhece vossos corações. Com efeito, o que é importante para os homens, é detestável para Deus”.
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Possuamos as coisas terrenas sem deixar-nos possuir por elas. Que não nos deslumbre sua multiplicação nem nos afunde sua carência. Façamos que com elas nos sirvam sem fazer-nos seus servidores (Santo Agostinho: Epist. 15,2).


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Continuamos a escutar as ultimas lições do Senhor no seu caminho para Jerusalém (Lc 9,51-19,28). Continuamos a escutar a lição de Jesus sobre os bens materiais que se iniciou no evangelho do dia anterior. E estamos na segunda parte de Lc 16 onde podemos encontrar o convite de Jesus a usarmos o dinheiro ou os bens materiais corretamente. É o tema central de todo capítulo 16 deste Evangelho.
 


O dinheiro é uma faca de dois gumes, conforme se usa para o bem ou para o mal, isto é, para Deus e para os outros, ou apenas para si próprio, excluindo os outros. Para viver como filhos da luz (cf. Lc 16,1-8), como filhos de Deus, temos de ser irmãos dos outros, algo impossível para o que idolatra o dinheiro. Uma vez um economista escreveu: “Capitalismo é um sistema que funciona, porque se baseia no egoísmo humano”. O egoísmo é a vontade sem medida de querer devorar tudo para si, embora a pessoa, que tem o egoísmo, não consiga usufruir tudo que se tem. Um dia o egoísta será obrigado a largar tudo pela força da morte. E sabemos que o egoísmo é o contrário do plano de Deus, pois a alma do projeto de Jesus Cristo é a partilha. Com efeito, o Reino de Deus se alicerça no amor que produz a justiça e transborda em fraternidade e partilha para que todos tenham liberdade e vida (cf. Jo 10,10). O reino do dinheiro, ao usá-lo erradamente, repousa no egoísmo que produz a injustiça e transborda em não-fraternidade e não-partilha, que dá origem ao poder que oprime e que dá origem à riqueza que explora. O dinheiro dá muito “poder” para quem o tem. E normalmente o dinheiro é usado para oprimir os mais fracos e pode ser usado para qualquer tipo de crime.




A advertência de Jesus sobre o perigo do dinheiro não é exclusivamente para os ricos. É para todos, pois todos têm o impulso natural que leva cada um a desejar alguma coisa ou dinheiro. O dinheiro é um deus que tem altar em quase todos os corações, tanto num adulto realista como num jovem idealista, tanto no rico como no pobre, tanto no leigo como no religioso/sacerdote. Até as crianças são educadas para ganhar dinheiro ao escolher bem uma profissão futura. Além disso, muitas vezes as brigas numa comunidade, seja familiar, seja civil, seja eclesial, surgem ou partem desse deus que se chama dinheiro. Por isso, Martinho Lutero observou astutamente: “Três conversões são necessárias: a conversão do coração, a da mente e a da bolsa”.




A segunda parte deste texto começa dizendo: “E eu vos digo: Usai o dinheiro injusto para fazer amigos, pois, quando acabar, eles vos receberão nas moradas eternas” (v.9). Usar “o dinheiro da iniqüidade” para fazer amigos é metáfora de “dar esmolas”, isto é, dar aos necessitados. “vocês serão recebidos nas moradas eternas” é a promessa de Deus. A palavradexontai” (grego) é empregada aqui na forma passiva e refere-se ao ato de Deus (veja também Lc 6,32-36; 14,7-14). Por isso, podemos ler da seguinte maneira: “Usai o dinheiro injusto para fazer amigos (=esmola) para serdes recebidos por Deus nas moradas eternas” (cf. Mt 25,34-40). “Os famintos, os maltrapilhos, os mendigos, os peregrinos, os prisioneiros, os doentes... são teus “batedores” no Reino dos céus”, dizia Santo Agostinho (Serm. 11,6).




 Esta segunda parte termina com esta frase: “Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (v.13b; cf. também Mt 6,24). Aqui não há meio-termo: ou servir ao Senhor Deus ou servir ao senhor dinheiro. Um é incompatível com o outro, porque cada um tem as suas próprias regras. E não se diga que o Evangelho é ingênuo, porque ele não está criticando uma cédula de dinheiro, mas o capital, o acúmulo de dinheiro. “Servir a Deus” é uma dependência que nos faz livres para servir aos mais necessitados, enquanto que “servir ao dinheiro” é uma escravidão que esmaga à pessoa e perverte nossas relações com Deus e com os demais, como descreve a parábola do rico e Lázaro (Lc 16,19-31). O dinheiro pode se transformar num ídolo e por seu caráter totalizante impede o serviço autêntico a Deus e ao próximo.




Reflitamos Um Pouco Mais:


  1. Se você deprecia o dinheiro dos outros, pergunte-se se não o adoraria caso ele fosse seu. Não admiro o seu desprendimento pelo dinheiro que lhe falta por você não saber ganhá-lo com seu esforço; mas sim o admira se você é generoso com o dinheiro que ganha com seu trabalho. E se você tem dinheiro acumulado, pergunte-se como o ganhou e como o usa. Se você continua acumulando mais dinheiro do que precisa para viver, sabe para que você o faz? Os bens um dia nos escapam. Por isso, podemos ter os bens materiais, mas eles não podem nos possuir.
     
  2. A palavra de Deus hoje quer nos dizer que a vida é muito mais que uma progressiva acumulação de dinheiro, propriedades, conhecimentos e prazeres. A busca incessante de segurança unicamente nos bens terrenos somente leva a pessoa a viver a vida num estado de agitação e de angústia existencial. O esforço que é necessário realizar para alcançar o que a sociedade nos propõe como ideais de vida, geralmente não é proporcional às satisfações. A dinâmica de viver atrás das riquezas, do poder e do prestígio termina por converter a existência dos seres humanos em uma indeterminável preocupação que nunca se resolve.
            
    Por isso, hoje necessita-se com maior urgência proclamar as palavras de Jesus: “A vida não está nos bens”. A vida tem valor em si mesma. É um dom de Deus. Nosso trabalho deve ser humanizado, e não pode estar em função do êxito comercial e sim do crescimento como pessoas. Não pode ser somente como um mecanismo de sobrevivência e sim como um lugar de realização de um projeto de vida orientado completamente para alcançar a plenitude do ser humano aos olhos de Deus.
     
  3. O paraíso se perde sempre que o homem ingrato usurpa, como próprios, os dons de Deus. Desse modo, tudo se converte em objeto de roubo ou corrupção e em ânsia de possessão. O despojamento é a porta imprescindível para entrarmos no paraíso das bem-aventuranças.
            
    O homem que se deixa conquistar pelo despojamento/Kénosis de Cristo, deixa de estar alienado ou agarrado a qualquer coisa, sentindo-se, pelo contrário, livre em Cristo pelo Seu evangelho. À medida que se dá, que serve livremente e que progride na gratidão, vai experimentando a grandeza da riqueza da graça e do amor divino. Por isso, o despojamento torna-se um encontro libertador consigo próprio.
     
  4. “O grande risco do mundo atual, com sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é uma tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada. Quando a vida interior se fecha nos próprios interesses, deixa de haver espaço para os outros, já não entram os pobres, já não se ouve a voz de Deus, já não se goza da doce alegria do seu amor, nem fervilha o entusiasmo de fazer o bem. Este é um risco, certo e permanente, que correm também os crentes. Muitos caem nele, transformando-se em pessoas ressentidas, queixosas, sem vida. Esta não é a escolha duma vida digna e plena, este não é o desígnio que Deus tem para nós, esta não é a vida no Espírito que jorra do coração de Cristo ressuscitado”. (Papa Francisco: Evangelii Gaudium n.2).Posso dizer que as alegrias mais belas e espontâneas, que vi ao longo da minha vida, são as alegrias de pessoas muito pobres que têm pouco a que se agarrar. Recordo também a alegria genuína daqueles que, mesmo no meio de grandes compromissos profissionais, souberam conservar um coração crente, generoso e simples. De várias maneiras, estas alegrias bebem na fonte do amor maior, que é o de Deus, a nós manifestado em Jesus Cristo. Não me cansarei de repetir estas palavras de Bento XVI que nos levam ao centro do Evangelho: ‘Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo’” (Idem n.7).
     
    P. Vitus Gustama,svd



06/11/2015
SOMOS USUÁRIOS E ADMINISTRADORES DOS BENS DE DEUS NESTE MUNDO
 
Sexta-Feira da XXXI Semana Comum
 
Evangelho: Lc 16,1-8
 
Naquele tempo: 1 Jesus disse aos discípulos: 'Um homem rico tinha um administrador que foi acusado de esbanjar os seus bens. 2 Ele o chamou e lhe disse: 'Que é isto que ouço a teu respeito? Presta contas da tua administração, pois já não podes mais administrar meus bens'. 3 O administrador então começou a refletir: 'O senhor vai me tirar a administração. Que vou fazer? Para cavar, não tenho forças; de mendigar, tenho vergonha. 4 Ah! Já sei o que fazer, para que alguém me receba em sua casa quando eu for afastado da administração'. 5 Então ele chamou cada um dos que estavam devendo ao seu patrão. E perguntou ao primeiro: 'Quanto deves ao meu patrão?' 6 Ele respondeu: 'Cem barris de óleo!' O administrador disse: 'Pega a tua conta, senta-te, depressa, e escreve cinqüenta!' 7 Depois ele perguntou a outro: 'E tu, quanto deves?' Ele respondeu: 'Cem medidas de trigo'. O administrador disse: 'Pega tua conta e escreve oitenta'. 8 E o senhor elogiou o administrador desonesto, porque ele agiu com esperteza. Com efeito, os filhos deste mundo são mais espertos em seus negócios do que os filhos da luz.
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Continuamos a acompanhar Jesus no seu caminho para Jerusalém, escutando atentamente suas ultimas e importantes lições para nossa vida de cristãos (Lc 9,51-19,28). Ele será crucificado, morto e glorificado em Jerusalém. Nós cristãos temos que levar adiante a missão deixada por Jesus. A lição que Jesus quer passar para nós hoje é sobre os bens materiais. Que atitude devemos adotar diante dos bens materiais?
 
Por todo o seu evangelho Lucas revela preocupações quanto a atitude correta no uso dos bens materiais deste mundo, como encontramos em todo capítulo 16 deste evangelho. Na verdade podemos encontrar este tema já no capítulo 15 implicitamente sobre o filho pródigo que esbanja a riqueza numa vida desenfreada.
 
O que se enfatiza no texto do evangelho de hoje é a sagacidade do administrador em procurar soluções para seus problemas. Diante dos problemas existentes ele não fica de braços cruzados, nem desesperado. Ele vai atrás das soluções. O que Jesus elogia é a capacidade do administrador em buscar a melhor saída possível para seus problemas existentes para que seu futuro não seja comprometido, e não a desonestidade do administrador. Jesus não elogia a desonestidade do administrador.
 
Ao lado da esperteza do administrador, Jesus censura o comportamento dos “filhos da luz”, os seus seguidores: “Com efeito, os filhos deste mundo são mais espertos em seus negócios do que os filhos da luz”. Jesus quer nos dizer: “Vocês como filhos de Deus devem aprender a viver muito melhor do que este administrador. Vocês como filhos e filhas de Deus não devem ficar desesperados diante dos seus problemas porque o Pai do céu vão ampará-los”.
 
Se este administrador que Jesus considera “filho deste mundo” que não acredita em Deus, não fica desanimado diante da situação crítica, os filhos da luz, aqueles que acreditam em Deus (todos nós), devem ser muito mais do que este. Porque a razão do ser de um filho de Deus é o próprio Deus que na sua misericórdia nos amou primeiro (1Jo 4,19) e nos salvou para si. Por isso, quem crê em Deus não é um otimista, pois ele não precisa do pensamento positivo. Quem crê em Deus também não é pessimista, pois ele não precisa da lógica da dialética negativa. Quem confia em Deus, sabe que Deus aguarda por ele, que Deus espera por ele, que ele está convidado para o futuro de Deus e tem em suas mãos, com isso, o mais maravilhoso convite de sua vida. Desespero é a doença mortal, doença do espírito, doença do eu (Kierkegaard), porque o desesperado não acredita mais em nada e em ninguém nem em Deus. Mas não adianta fugir; não adianta querer sumir diante da situação de ameaça e angústia. Tentar fugir é fugir da vida; fugir da vida é fugir de Deus porque Deus é a VIDA (Jo 14,6). E quem foge é porque não está livre.
          
Os cristãos são convidados a não fugir deste mundo, mas a viver no meio do mundo com critérios de generosidade e desprendimento diametralmente opostos aos habituais. Jesus nos chama a reconhecermos a nossa força porque a graça de Deus nos basta (2Cor 12,9). Jesus nos convida a termos coragem(Jo 16,33).  Mas devemos ter coragem com previdência, pois a coragem sem previdência é imprudência. Mas não basta ter somente previdência sem coragem, pois a previdência sem coragem faz a pessoa ficar escrupulosa. O cristão deve ser uma pessoa de esperança. Na angústia antecipamos o possível perigo, mas na esperança, a possível salvação. A lei do cristão é descobrir o apelo de Deus em cada momento, na confiança inabalável de que tudo tem sentido e tudo é abrigado por um sentido absoluto, acolhido no mistério da plenitude de Deus. O cristão tem motivos para afastar de si qualquer tentação de desespero. Jesus Cristo é o exemplo mais alto e mais indiscutível. Perante a iminência ameaçadora da morte, Jesus, com toda a serenidade, tomou o caminho para Jerusalém (Lc 9,51). Se Jesus Cristo morreu de braços abertos, nós não podemos ficar com os braços cruzados.
 
Nós devemos nos mostrar criativos na prática da caridade e da misericórdia em relação aos pecadores, na solidariedade com os pobres e excluídos, na disponibilidade para o perdão e a reconciliação, no empenho para criar um mundo mais humano e fraterno onde a dignidade de cada pessoa é respeitada. Para qualquer cristão existe sempre algo a ser feito, alguma iniciativa a ser tomada, visando o crescimento da amizade com Deus. Importa estarmos sempre em ação, pois nós desconhecemos a hora do encontro com Deus. Por isso, devemos usar de esperteza para sermos dignos de salvação. Jesus quer nos dizer que devemos estar atentos ao momento presente, porque hoje, não amanhã nem ontem, temos nas mãos as possibilidades reais de fazer algo para nossa salvação. O hoje é o único que temos. Temos que ter a sagacidade em praticar o bem, a justiça, o respeito pela dignidade dos outros e assim por diante.
 
Esta parábola quer nos dizer também que não somos “proprietários” das coisas e sim “gerentes” ou “administradores”. Nossa relação com as coisas não é a de propriedade e sim de uso. Tudo o que possuo: meus bens, minhas qualidades, minhas riquezas intelectuais e morais, minhas faculdades afetivas, os aspectos do meu caráter, de tudo isto Deus pedirá conta. Não sou mais do que o gerente de tudo isto que me foi confiado por Deus e tudo continua pertencendo a Deus. Não tenho direito de menosprezar os dons de Deus. Terei que prestar contas das riquezas que não foram desenvolvidas ou não foram multiplicadas para o bem dos necessitados. O Senhor pede que abandonemos nosso olhar egoísta e míope e abramos nossos olhos para trabalhar colaborando para que o Reino de Deus chegue aos que são aleijados dele ou vivem dominados pela maldade.
 
Nesta Eucaristia o Senhor nos reúne para encher-nos de sua Vida e de seu Espírito. Ele não limita sua entrega para nós. Ele se dá plenamente a todos e a cada um de nós em particular. A presença do Senhor em nós é como uma grande luz que se acende; mas essa luz não pode se acabar sem que ilumine todos ao redor. Quem comunga o Corpo do Senhor se converte em portador de seu amor salvador para os demais. Se não a Eucaristia se tornaria um ato mágico que careceria de sentido. Não podemos denegrir o nome do Senhor em nós através de nosso egoísmo.
 
P. Vitus Gustama,svd

05/11/2015
DEUS NOS AMA MISERICORDIOSAMENTE


Quinta-Feira da XXXI Semana Comum


Evangelho: Lc 15, 1-10




Naquele tempo, 1 os publicanos e pecadores aproximaram-se de Jesus para o escutar. 2 Os fariseus, porém, e os mestres da Lei criticavam Jesus. “Este homem acolhe os pecadores e faz refeição com eles”. 3 Então Jesus contou-lhes esta parábola: 4 “Se um de vós tem cem ovelhas e perde uma, não deixa as noventa e nove no deserto, e vai atrás daquela que se perdeu, até encontrá-la? 5 Quando a encontra, coloca-a nos ombros com alegria, 6 e, chegando a casa, reúne os amigos e vizinhos, e diz: ‘Alegrai-vos comigo! Encontrei a minha ovelha que estava perdida!’ 7 Eu vos digo: Assim haverá no céu mais alegria por um só pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que não precisam de conversão. 8 E se uma mulher tem dez moedas de prata e perde uma, não acende uma lâmpada, varre a casa e a procura cuidadosamente, até encontrá-la? 9 Quando a encontra, reúne as amigas e vizinhas, e diz: ‘Alegrai-vos comigo! Encontrei a moeda que tinha perdido!’ 10 Por isso, eu vos digo, haverá alegria entre os anjos de Deus por um só pecador que se converte”.
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Estamos acompanhando Jesus no seu caminho para Jerusalém escutando suas últimas e importantes lições para todos nós, seus seguidores (Lc 9,51-19,28). Trata-se de a Lição no Caminho. Na passagem do evangelho de hoje Jesus nos revela o amor sem limite de Deus para todos nós, isto é,  o amor misericordioso. Deus nos ama apesar de nossos pecados. Esse amor misericordioso deve nos fazer voltarmos para Deus e tratar os outros com o mesmo amor misericordioso. Quando tivermos consciência dessa verdade, viveremos na alegria permanente e no constante ação de graças, pois saberemos que há Alguém que nos envolve e nos ama de todos os lados: nosso Pai do céu cheio de misericórdia.




Com a passagem do evangelho de hoje, começam aqui as três parábolas chamadas de as parábolas da misericórdia: a parábola da ovelha perdida (Lc 15, 3-7); a da moeda de prata perdida (Lc 15,8-10); e a parábola do pai misericordioso, ou conhecida como a parábola do filho pródigo (Lc 15,11-32). Ao contar estas parábolas Lucas procede do menos precioso (ovelha e moeda de prata) ao mais precioso (ser humano). Nestas três parábolas Jesus nos mostra, como uma característica do coração de seu Pai, a predileção com que seu amor se inclina até os mais necessitados, contrastando com a mesquinhez humana que busca sempre os triunfadores.




Ovelha Perdida Encontrada




O que é admirável na parábola da ovelha reencontrada é a medida drástica que o pastor toma para buscar uma ovelha perdida. Ele deixa noventa e nove ovelhas para que a perdida possa ser trazida de volta ao aprisco. A ovelha não se desgarrou (cf. Mt 18,12), mas “se perdeu”, e o pastor toma a iniciativa de encontrá-la. Essa é a condição do pecador antes da conversão, e a resposta de Deus é buscar o perdido.




Um cardeal chamado François X. N. Van Thuan (veja Testemunhas Da Esperança, Ed. Cidade Nova) escreveu que Deus não sabe matemática, pois deixa 99 ovelhas para buscar uma ovelha perdida. Isto nos mostra que cada um de nós tem seu próprio valor diante de Deus. Nossa matemática é quantitativa, pois o importante para nós é a quantidade. A matemática de Jesus é qualitativa. Para Jesus o valor de uma pessoa (uma ovelha perdida) tem o mesmo valor de 99 pessoas (ovelhas não perdidas). Por isso, Jesus não mede o esforço em busca de uma ovelha perdida mesmo que encare um risco muito alto, pois seu amor por cada um de nós é misericordioso, o amor que atinge suas entranhas. Afinal, Jesus foi crucificado, morto, mas glorificado pelo bem que fez durante a vida terrena (cf. At 10,38).




Jesus quer que este amor misericordioso se encarne em cada um de nós: “Sede misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36) e “se estenda de geração em geração” (Lc 1,50). É preciso contemplarmos permanentemente os gestos de Jesus cheios de compaixão para com aqueles que se encontram perdidos para que sejamos movido a ir ao encontro deles a fim de formar novamente uma comunhão de irmãos.




Outro aspecto da ovelha perdida que Lucas quer sublinhar também é o tom de alegria que acompanha essa bem-sucedida conversão. Para Lucas, o resultado da verdadeira conversão é a experiência de estar perdido, depois encontrado, que leva à alegria sem limites.




Moeda Encontrada




A segunda parábola é a da moeda reencontrada, desta vez usando uma mulher como personagem central. É uma parábola paralela do mesmo motivo. A mulher pobre faz tudo para encontrar a moeda perdida. ”Acende uma lâmpada, varre a casa e procura cuidadosamente até encontrá-la” (Lc 15,8). Os verbos mostram o esforço incansável para recuperar a moeda perdida. “Quando a encontra, reúne as amigas e vizinhas, e diz: ‘Alegrai-vos comigo! Encontrei a moeda que tinha perdido!’”. Parece ser muito ilógico! Gasta mais do que o preço da moeda. Por causa de uma moeda encontrada, a mulher acorda o vizinho para festejar-se com ela,  pela moeda encontrada.




É a lógica do coração de Jesus!  Eu vos digo, haverá alegria entre os anjos de Deus por um só pecador que se converte!”. O coração tem sua própria lógica, pois “O coração tem suas razões, que a própria razão desconhece” (Pascal). “O coração sente aquilo que os olhos não veem” (Pequeno Príncipe).




Com essa solicitude, com essa paciência amorosa, com esse carinho Deus se comporta como pai paciente e misericordioso que busca todos os meios para encontrar e salvar os perdidos.



O tema de perdido e reencontrado culmina na parábola do Pai misericordioso ou na do filho reencontrado (filho pródigo). Na parábola do Pai misericordioso, não se trata mais de um animal, ainda que de estimação, como uma ovelha, nem de um objeto, mesmo precioso como uma moeda de prata, mas de um ser humano amado por Deus, por ser Seu filho ainda que seja um filho transviado. Cada um de nós é precioso nos olhos de Deus e ninguém escapa do olhar misericordioso de Deus. “Veja, Eu tatuei você na palma da Minha mão: suas muralhas estão sempre diante de mim “(Is 49,16). Basta que um de nós esteja perdido para que seja objeto da preocupação de Deus.




 Por isso, Lucas 15 é o coração do Evangelho de Lucas. É quase um “evangelho“ dentro do Evangelho. Neste capitulo Jesus fala de sua doutrina sobre a Divina Misericórdia e a alegria de Deus por ter reencontrado o que estava perdido. Estes dois temas, misericórdia e alegria, são características da obra de Lucas. Por isso, sem dúvida nenhuma “a face mais bonita do Amor de Deus é a Misericórdia” (João Paulo II).




Para falar desse tema Jesus começou com esta frase, na parábola sobre a ovelha perdida: “Quem de vós que, tendo cem ovelhas e perdendo uma delas, não deixa as noventa e nove no deserto e vai em busca da que se perdeu, até encontrá-la?” (Lc 15,4).




A aritmética ou a matemática de Deus é diferente de nossa. Por isso, a matemática de Deus não é nossa. O número e a quantidade nos impressionam sempre. Para nós “um” não é igual a “noventa e nove”, pois o nosso critério é a quantidade. Para Deus “um” é igual a “noventa e nove”, pois o critério de Deus é baseado sobre o valor de cada um. Cada homem tem um valor inestimável para Deus. É o mistério do respeito que Deus tem para cada um de nós. Cada um de nós é amado por Deus com um amor “pessoal”, “individualizado”. Deus ama cada um na sua individualidade. Sou amado por Deus independentemente da minha situação atual ou do meu passado. Ele me ama por aquilo que sou. E esse amor me potencia para melhorar minha vida e minha convivência.




“O pastor vai em busca da ovelha que se perdeu, até encontrá-la?”. É precisamente aquela que se escapou, se perdeu. É para aquela ovelha perdida que o pensamento do pastor é dirigido. É assim nosso Deus! Um Deus que continua pensando nos que O abandonaram, um Deus que ama os que não O amam, um Deus que anda em busca de seus filhos perdidos e desaparecidos de Sua presença. É a ovelha que causa preocupação para Deus. Esta ovelha talvez seja eu, talvez seja você, porque podemos estar ausentes na presença de Deus, podemos comer diante de Deus e não com Deus (cf. Lc 13, 26-27).




E depois de encontrá-la, o pastor a põe nos ombros, cheio de júbilo” (Lc 15,5).   É um homem, um pastor feliz, sorridente, exultante e muito contente. É assim que Deus é apresentado para nós. Deus é um Ser que se alegra, e de Sua alegria faz partícipes os demais. A alegria de Deus é encontrar novamente os filhos que estavam perdidos. Um só que se converteu passa a ter uma importância desmesurada diante dos olhos de Deus. Onde há experiência da graça de Deus (grego: “cháris”) sempre há alegria (grego: “chára”). Somente quando experimentamos que Deus é alegre e que nos contagia sua alegria é que poderemos renunciar a tudo sem sentir que nossa vida fique vazia. Nada é possível sem um coração alegre. A alegria é fonte de heroísmo. O esforço sem alegria gera ressentimento, pois não tolera os erros, como se comportam os fariseus criticados por Jesus.




Este evangelho nos faz sentirmos gozo, sobretudo esperança. Quem de nós que, alguma vez, não se sentiu como a ovelha perdida? Não só pelo pecado. Há tantos conflitos e problemas na vida. Todos nós conhecemos dias amargos na vida. Mas nossa vida tem sentido porque Deus cuida de nós, nos ama, se alegra com nossas alegrias e nos consola nas nossas tristezas. Além disso, precisamos estar conscientes de que onde estivermos, para onde formos, em que situação nos encontrarmos, Deus continua nos amando do mesmo jeito, pois para Ele  cada um tem nome (cf. Is 43,1) e nosso nome está tatuado na palma das mãos de Deus (cf. Is 4916). Quando tivermos essa consciência, aconteça o que acontecer, Deus é nosso Pai que nos ama eternamente (cf. Jr 31,3). Como é bom saber que nós somos amados de Deus e por Deus. Essa consciência nos leva a vivermos nossa vida com força total e com carinho. Sabemos que Deus nos ama e cremos no seu amor.


P. Vitus Gustama,svd

domingo, 1 de novembro de 2015

04/11/2015

RENUNCIAR-SE A TUDO PARA SEGUIR E AMAR JESUS LIVREMENTE


Quarta-Feira da XXXI Semana Comum
 


Evangelho: Lc 14, 25-33


Naquele tempo, 25 grandes multidões acompanhavam Jesus. Voltando-se, ele lhes disse: 26 “Se alguém vem a mim, mas não se desapega de seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs e até da sua própria vida, não pode ser meu discípulo. 27 Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo. 28 Com efeito: qual de vós, querendo construir uma torre, não se senta primeiro e calcula os gastos, para ver se tem o suficiente para terminar? Caso contrário, 29 ele vai lançar o alicerce e não será capaz de acabar. E todos os que virem isso começarão a caçoar, dizendo: 30 ‘Este homem começou a construir e não foi capaz de acabar!’ 31 Ou ainda: Qual rei que, ao sair para guerrear com outro, não se senta primeiro e examina bem se com dez mil homens poderá enfrentar o outro que marcha contra ele com vinte mil? 32 Se ele vê que não pode, enquanto o outro rei ainda está longe, envia mensageiros para negociar as condições de paz. 33 Do mesmo modo, portanto, qualquer um de vós, se não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo!”
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Continuamos a acompanhar Jesus no seu Caminho para Jerusalém onde Ele será crucificado, morto e glorificado (Lc 9,51-19,28). Durante este caminho Jesus deu aos seus discípulos Suas últimas lições. As lições apresentadas no texto do evangelho de hoje são sobre as condições para seguir a Jesus. O que nos torna verdadeiro discípulo de Jesus?




É preciso sabermos que as condições do seguimento apresentadas por Jesus têm caráter universal, pois são dirigidas às multidões que o acompanham em seu caminho para Jerusalém. Todas elas são centradas no caráter global que tem o seguimento de Jesus.




E Jesus nos adverte que o seguimento em questão não é fácil. Podemos explicar isso através do texto do evangelho de ontem em que muitos não aceitaram o convite para participar do banquete do Reino, pois é exigente e não se trata somente de sentar-se à Sua mesa (cf. Lc 14,15-24). É necessário cumprir as exigência básicas.




Hoje Jesus nos diz que para ser seus discípulos temos que colocar a importância do Reino acima dos sentimentos familiares, pois a nossa salvação está em jogo.




Se alguém vem a mim, mas não se desapega de seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs e até da sua própria vida, não pode ser meu discípulo”. Assim Jesus começou suas lições sobre o seguimento.




Nesta primeira condição, os “pais” e “irmãos” representam as tradições, os apegos ao passado, as circunstancias imediatas culturais, sociais e religiosas. Trata-se de todo tipo de condicionamento que impede alguém de optar ou de fazer novas opções.  Por isso, renunciar aos pais e à família em geral significa, aqui, a capacidade de se desprender da tradição dos antigos que não salvam para abraçar o novo que salva trazido por Jesus; é ser livre das leis e das regras que amarram a pessoa para ser mais misericordiosa; é libertar-se de cultos estéreis e sem vida para assumir uma fé que transforma todos em pessoas mais humanas. Na linguagem psicológica, é cortar o cordão umbilical das dependências do passado para assumir o presente com suas possibilidades para nos fazer crescer. É relativizar todo processo anterior para assumir outro processo que torna a pessoa mais madura.




Somos advertidos sobre onde colocamos nosso maior amor. O amor sem condições e sem fronteiras não é um suave sentimento muito tranqüilo e fácil. É uma revolução. Jesus pede uma renúncia total para que nossa entrega a Ele seja total. Sabemos que Jesus quer que amemos aos nossos (cf. Jo 13,34-35; 15,12). O amor filial, o amor conjugal, o amor fraterno são “sagrados”. Todavia, o amor de Deus, que nos sustenta, anima e salva, deve ser maior.




Trata-se, desta primeira condição, de uma opção radical pela pessoa de Jesus e pela nova escala de valores que Ele propõe. Os valores do Reino devem estar acima de tudo e de todos. Quem não fizer opção pela Vida, por excelência, que o próprio Jesus personifica (cf. Jo 11,25; 14,6), terá que contentar-se com uma vida raquítica, isto é uma vida limitada sem desenvolvimento e não conseguirá jamais superar os problemas que estabelecem as relações humanas.




É preciso saber renunciar-se a si próprio. Trata-se de capacidade de superação de todo o passado acreditando no futuro oferecido por Jesus. É dispor-se a seguir Jesus escutando a sua voz e colocando em prática seus ensinamentos (cf. Lc 10,38-42). Se não fizer assim é em vão chamar Jesus de Senhor (cf. Lc 6,46). Neste sentido, seguir Jesus sempre supõe a conversão para poder deixar-se guiar por Ele sem nenhum obstáculo colocado por nós neste seguimento.




A segunda condição é conseqüência da anterior: “Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo”. A exemplo de Jesus, cada discípulo deve estar preparado para afrontar a recusa da sociedade que vive os valores contrários aos do Reino. O discípulos tem aceitar a sensação de fracasso ou experimentar o aparente fracasso. O “aparente fracasso” porque a última palavra sobre o homem será a de Deus e não a do homem. O discípulo deve estar preparado para sentir a sensação sem segurança.




Ao seguir a Jesus ficamos frente a frente com a cruz: a cruz da contrariedade, a cruz da injustiça, a cruz da desonestidade, a cruz da perda de um inocente, a cruz da corrupção e assim por diante. E Jesus continua nos chamando a caminhar atrás dele vivendo uma vida honesta, justa, fraterna no amor. A cruz nos convida a nos deixarmos contagiar pelo amor. Quem carrega a cruz com amor, une-se a Cristo. Quem a carrega sem amor, encontra-se com condenação.




Carreguemos nossa cruz de cada dia, sendo fieis à missão que o Senhor nos confiou de anunciar Seu Evangelho. Sejamos um Evangelho encarnado do amor de Deus para os demais. Passemos a vida, como Cristo, fazendo o bem a todos (cf. At 10,38). Somente edificaremos a Igreja sobre a Pedra angular que é Cristo, se renunciarmos a nossos egoísmos, a nossas injustiças, a nossas paixões ordenadas, a nossas inclinações desenfreadas aos bens materiais ou ao poder. Cristo nos quer livres de toda carga de maldade, de toda injustiça e de todo sinal de morte.




Podemos dizer que a moral cristã é uma moral simples que tem seu grande ponto de referência no amor ao próximo: “Não fique devendo a ninguém, a não ser o amor mútuo, pois quem ama o próximo está cumprindo a Lei. O amor é o cumprimento perfeito da Lei”, diz São Paulo aos romanos (Rm 13,8.10). Todos os preceitos da ética cristã ficam profundamente condicionados pelo preceito do amor ao próximo. Por isso, uma falta contra qualquer dos preceitos se descobre como uma falta contra a lei do amor. Todas as injustiças são conseqüências da falta de amor. Para os justos, os bons, os honestos, os que têm amor no coração não necessitariam de nenhuma lei.




Amar, não tem término. Há que avançar sempre no amor para alcançar o Deus de amor (1Jo 4,8.16). Amor é um grande desafio de cada dia, pois ele é essencial para os seres humanos e sua convivência diária a fim de chegar à sua plenitude. Por ser essencial, tudo deve partir dele e nele tudo deve terminar. Quando cumprirmos as leis civis, diremos que estamos dentro da lei. Mas o amor é uma “chamada” dirigida a todos para que o ser humano seja mais humano a fim de ser mais divino.




A partir do amor podemos entender o seguimento renunciante de Jesus, que nos recorda a passagem do evangelho lida neste dia. Jesus, para levar até o fim Sua missão salvadora da humanidade, renunciou a tudo, inclusive, a sua vida. Por isso, foi constituído Senhor e Salvador de todos. E nos diz que também nós devemos saber carregar a cruz de cada dia para fazer o bem como Ele e com Ele.




A fé em Cristo abarca toda nossa vida. Por isso, para ser um verdadeiro cristão é preciso aprender a renunciar a muita coisa na vida. Renunciar não é um ato negativo e sim uma opção por aquilo que é superior na escala de valores. Cada renúncia supõe o amor. Se cada renúncia não se complementar por, com e no amor, a renúncia poderá se converter em anti-entrega. Somente o amor é que transforma qualquer renúncia em doação gratificante.




A adesão a Jesus leva cada pessoa ou cada cristão a um comportamento novo diante de todas as coisas e diante de todas as pessoas, inclusive diante das pessoas que tem uma ligação afetiva.




Para ser seus discípulos, Jesus não nos pede que cumpramos as regras, ou que sejamos bons. Tudo isso é necessário. Jesus nos pede que sejamos absolutamente disponíveis. Ser discípulo de Jesus não é somente ser bom, pois todos têm que sê-lo independentemente de ser ou de não ser cristão. Ser discípulo de Jesus é ser diferente, por ser disponível e pronto para renunciar a tudo pelo valor superior. Ser cristão é sério e difícil. Por isso, muitos caminham com Jesus, mas poucos chegam a ser discípulos.




Nesta Eucaristia ou celebração, o Senhor nos manifesta quanto nos ama, dando sua vida por nós todos, e fazendo-nos participes da Vida que Ele recebeu do Deus Pai. Em seu amor por nós, Jesus carregou sobre si nossos pecados para nos redimir. Por isso, ele se converteu para nós no Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Entremos em comunhão de vida com Ele e estejamos dispostos a ir atrás de suas pecadas, carregando nossa cruz de cada dia. Carreguemos nossa cruz de cada dia, sendo fieis à missão que o Senhor nos confiou de anunciar seu Evangelho de salvação. Sejamos um evangelho encarnado do amor de Deus para os demais. Vivamos fazendo o bem para todos.




Que Deus nos conceda a graça de viver com lealdade nossa fé em Jesus Cristo para que, sendo luz em meio das trevas do mundo, colaboremos para que todos encontrem o caminho que leva a Cristo que é o Caminho, a Verdade e a Vida (Jo 14,6), Luz das nações e salvação para todos os homens.


 
P.Vitus Gustama, SVD